{"id":64412,"date":"2021-07-09T13:53:46","date_gmt":"2021-07-09T16:53:46","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=64412"},"modified":"2021-07-09T13:53:46","modified_gmt":"2021-07-09T16:53:46","slug":"64412-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/07\/09\/64412-2\/","title":{"rendered":"Introdu\u00e7\u00e3o ao pensamento do marxista \u00e1rabe Mahdi Amel"},"content":{"rendered":"<p><em>Mahdi Amel nasceu no L\u00edbano em 1936, onde concluiu o ensino m\u00e9dio. Depois ele se mudou para a Fran\u00e7a, onde obteve o bacharelado e o doutorado em Filosofia. Trabalhou por um curto per\u00edodo na Arg\u00e9lia ap\u00f3s a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o contra o colonialismo franc\u00eas, e conheceu de perto a revolu\u00e7\u00e3o desse pa\u00eds. Mais tarde, ele voltou ao L\u00edbano como professor em tempo integral no Instituto de Ci\u00eancias Sociais da Universidade Libanesa. Mahdi Amel ingressou no Partido Comunista Liban\u00eas em 1960 e foi eleito para o Comit\u00ea Central do partido em 1987, mesmo ano em que foi assassinado em Beirute.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por:<em> Victorios Bayan Shams<\/em><\/p>\n<p>Mahdi escreveu v\u00e1rios livros:<\/p>\n<ul>\n<li>Premissas te\u00f3ricas para o estudo dos efeitos do pensamento socialista no Movimento de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional. Essa obra tem tr\u00eas se\u00e7\u00f5es: Sobre a contradi\u00e7\u00e3o, sobre o modo de produ\u00e7\u00e3o colonial, e sobre o progresso na hist\u00f3ria.<\/li>\n<li>Teoria na pr\u00e1tica pol\u00edtica: Uma pesquisa sobre as causas da guerra civil no L\u00edbano.<\/li>\n<li>Crise da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e1rabe ou da burguesia \u00e1rabe?<\/li>\n<li>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica do pensamento confessional: a quest\u00e3o palestina na ideologia da burguesia libanesa.<\/li>\n<li>Marx em Orientalismo de Edward Said: A intelig\u00eancia \u00e9 do ocidente e o cora\u00e7\u00e3o do Oriente?<\/li>\n<li>A natureza cient\u00edfica da escola de pensamento de Ibn Khaldun.<\/li>\n<li>Sobre o Estado confessional.<\/li>\n<li>Cr\u00edtica do pensamento cotidiano.<\/li>\n<li>Quest\u00f5es do ensino e pol\u00edtica educacional.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Ele tem algumas contribui\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas em dois livros, al\u00e9m de uma grande sele\u00e7\u00e3o de artigos e entrevistas.<\/p>\n<p>Foi apelidado de &#8220;Gramsci \u00c1rabe&#8221;, pois sua import\u00e2ncia e singularidade residem no fato de ser um dos poucos pensadores \u00e1rabes que elaboraram a partir da teoria marxista, para extrair dela as leis \u00e0 luz das quais ele foi capaz de compreender a realidade \u00e1rabe, elaborar uma cr\u00edtica e explicar suas complexidades e particularidades hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>As quest\u00f5es mais importantes que ocuparam Mahdi Amel, e que at\u00e9 ent\u00e3o eram o foco do conflito da vida pol\u00edtica no mundo \u00e1rabe, s\u00e3o:<\/p>\n<ul>\n<li>A crise de dire\u00e7\u00e3o no movimento de liberta\u00e7\u00e3o nacional no mundo \u00e1rabe;<\/li>\n<li>O dom\u00ednio do modo de produ\u00e7\u00e3o colonial nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e nas estruturas pol\u00edticas, sociais e econ\u00f4micas do mundo \u00e1rabe;<\/li>\n<li>A quest\u00e3o do confessionalismo ao qual os povos do mundo \u00e1rabe ainda est\u00e3o submetidos, e que \u00e9 considerada uma porta de entrada complementar a outras quest\u00f5es que t\u00eam um impacto negativo para manter as sociedades \u00e1rabes ref\u00e9ns do controle das classes cujos interesses est\u00e3o ligados aos interesses do colonialismo.<\/li>\n<\/ul>\n<p>O que se segue \u00e9 uma breve apresenta\u00e7\u00e3o de sua vis\u00e3o sobre essas quest\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>A crise de dire\u00e7\u00e3o do movimento de liberta\u00e7\u00e3o nacional no mundo \u00e1rabe<\/strong><\/p>\n<p>A crise de dire\u00e7\u00e3o no &#8220;movimento de liberta\u00e7\u00e3o nacional no mundo \u00e1rabe&#8221; surgiu com a forma\u00e7\u00e3o da entidade sionista (NT: trata-se do Estado de Israel) desde os anos trinta do s\u00e9culo passado. A quest\u00e3o da liberta\u00e7\u00e3o da Palestina foi uma das quest\u00f5es centrais que as sociedades \u00e1rabes tiveram que lidar devido \u00e0s repercuss\u00f5es negativas que provocava em todo o seu entorno, e porque a liberta\u00e7\u00e3o da Palestina \u00e9 considerada tema de um consenso popular geral \u00e1rabe passando a impress\u00e3o de cruzar a divis\u00e3o de classes.<\/p>\n<p>Numa primeira fase, os ex\u00e9rcitos populares que trabalharam para libertar a Palestina foram formados de acordo com as vis\u00f5es nacionalistas pan-\u00e1rabes e por vezes religiosas. Em ambos os casos, a burguesia \u201cnacional\u201d liderava o conflito contra a entidade sionista, e esta \u00e9 uma das raz\u00f5es para o fracasso permanente. Mahdi Amel considera que a ideologia da burguesia tem duas faces principais, a nacionalista e a religiosa que expressa uma burguesia mais reacion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mas o principal evento que atraiu a aten\u00e7\u00e3o de Mahdi Amel, sob o qual viveu e atuou, foi a invas\u00e3o \u201cisraelense\u201d de Beirute, a primeira capital \u00e1rabe a ser tomada pelo ex\u00e9rcito de ocupa\u00e7\u00e3o sionista, que resultou na forma\u00e7\u00e3o de uma importante alian\u00e7a nacional: a \u201cFrente Nacional de Resist\u00eancia Libanesa\u201d, uma alian\u00e7a nacional que inclu\u00eda as for\u00e7as democr\u00e1ticas (NT: por for\u00e7as democr\u00e1ticas o autor se refere \u00e0 for\u00e7as pol\u00edticas de esquerda e marxistas), juntamente com as for\u00e7as pequeno-burguesas (NT: o autor se refere \u00e0s for\u00e7as pol\u00edticas nacionalistas \u00e1rabes e pan-arabistas), que assumiram a dire\u00e7\u00e3o da luta contra o inimigo sionista em v\u00e1rias etapas. \u00c9 uma alian\u00e7a justificada em sua origem por diversos motivos. O mais importante deles \u00e9 o enraizamento dessas for\u00e7as pequeno-burguesas e o dom\u00ednio de sua cultura sobre a sociedade, al\u00e9m do tamanho e capacidade limitadas das for\u00e7as marxistas at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, essas justificativas cessaram no est\u00e1gio seguinte (NT: o autor se refere \u00e0 resist\u00eancia contra a invas\u00e3o israelense em Beirute em setembro de 1982 agora sob hegemonia das for\u00e7as de esquerda), j\u00e1 que os comunistas puderam impor seu dom\u00ednio particularmente nas frentes contra o inimigo e efetivar sua influ\u00eancia nas estruturas sociais nas quais operavam. O avan\u00e7o dos comunistas n\u00e3o foi suficiente para que a burguesia desistisse de disputar a dire\u00e7\u00e3o pois, com sua consci\u00eancia de classe, a burguesia sabia que as vit\u00f3rias dos marxistas nas frentes de combate impactariam sua hegemonia interna, atingindo seus interesses, neutralizando-os.<\/p>\n<p>Foi isso que levou a burguesia a diluir o conflito com o inimigo, de modo que as for\u00e7as democr\u00e1ticas nacionais n\u00e3o pudessem vencer e determinar unilateralmente a forma e o conte\u00fado do fim do conflito.<\/p>\n<p>Numa fase posterior, a burguesia libanesa se aliou a outros regimes \u00e1rabes para atacar o movimento de liberta\u00e7\u00e3o nacional, do qual o L\u00edbano foi uma das arenas e modelos mais importantes, como um prel\u00fadio para acabar com o movimento de liberta\u00e7\u00e3o nacional e se livrar das for\u00e7as da revolu\u00e7\u00e3o palestina.<\/p>\n<p><em>\u201cO consenso quase absoluto dos \u00e1rabes (NT: Mahdi Amel se refere aos regimes \u00e1rabes) em se livrar do movimento nacional liban\u00eas e da revolu\u00e7\u00e3o palestina, por si s\u00f3, indica que esses &#8220;\u00e1rabes unidos\u201d v\u00eaem a crise libanesa como um aspecto de sua crise, e uma solu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe \u00e9 uma necessidade para tentar eliminar o fantasma do modelo revolucion\u00e1rio do movimento nacional \u00e1rabe em seu ber\u00e7o.\u201d<\/em> (Amel, Mahdi, Teoria na pr\u00e1tica pol\u00edtica: Uma pesquisa sobre as causas da guerra civil no L\u00edbano, p\u00e1gina 30).<\/p>\n<p>\u00c9 assim que os ex\u00e9rcitos \u00e1rabes, liderados pelo ex\u00e9rcito s\u00edrio, foram enviados desde meados dos anos setenta para realizar a tarefa de liquidar o movimento nacional, para se livrar de seus \u201cmales\u201d cujas chamas podiam se estender at\u00e9 eles.<\/p>\n<p>Assim, os l\u00edderes burgueses se voltaram contra o consenso popular geral, porque perceberam que continuar a luta contra o inimigo sionista estava em contradi\u00e7\u00e3o com sua capacidade de continuar a dominar a sociedade.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, para sair dessa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, a burguesia idealizou suas solu\u00e7\u00f5es. Depois de enfraquecer o movimento nacional a ponto deste n\u00e3o poder mais influenciar o curso do conflito, as for\u00e7as isl\u00e2micas foram for\u00e7adas contra o movimento nacional. Tratavam-se de forma\u00e7\u00f5es burguesas com patroc\u00ednio \u00e1rabe e regional para dominar a frente contra o inimigo. Assim a burguesia foi capaz de assegurar a absor\u00e7\u00e3o do ressentimento da rua \u00e1rabe por um lado, e a preserva\u00e7\u00e3o de sua hegemonia por outro.<\/p>\n<p><strong>O predom\u00ednio do modo de produ\u00e7\u00e3o colonial nas estruturas sociais \u00e1rabes<\/strong><\/p>\n<p>Com o in\u00edcio dos processos de independ\u00eancia nacional no mundo \u00e1rabe na segunda metade da d\u00e9cada de quarenta do s\u00e9culo passado, come\u00e7aram a se formar regimes \u00e1rabes cujos interesses o colonialismo fez quest\u00e3o de vincular aos seus interesses depois de garantir \u00e0s classes burguesas dominantes suas posi\u00e7\u00f5es no poder. Os l\u00edderes desses regimes eram da burguesia emergente em um est\u00e1gio hist\u00f3rico distorcido e complexo em que os propriet\u00e1rios de terras burgueses (n\u00e3o a velha classe feudal) se localizaram em uma posi\u00e7\u00e3o de classe associada ao colonialismo, isto \u00e9, os pr\u00f3prios latifundi\u00e1rios participaram de uma transi\u00e7\u00e3o que violava a l\u00f3gica da hist\u00f3ria, que pressup\u00f5e a chegada da classe burguesa ao poder por meio de uma revolu\u00e7\u00e3o que elimina o velho modo de produ\u00e7\u00e3o para adotar um novo.<\/p>\n<p>O papel primordial atribu\u00eddo a esta classe era o de manter um estado de paralisia pol\u00edtica, uma de suas primeiras condi\u00e7\u00f5es para facilitar a manuten\u00e7\u00e3o das sociedades \u00e1rabes em estado de atraso, a manuten\u00e7\u00e3o da economia rentista improdutiva \u00e0s custas da liquida\u00e7\u00e3o de setores como a agricultura e a ind\u00fastria, o que levar\u00e1 a classe trabalhadora \u00e1rabe \u00e0 a\u00e7\u00e3o ap\u00f3s as independ\u00eancias nacionais. A luta contra esses regimes n\u00e3o foi resolvida devido \u00e0 aus\u00eancia das for\u00e7as democr\u00e1ticas nacionais (NT: o autor se refere \u00e0s for\u00e7as de esquerda) que demoraram a aparecer na arena pol\u00edtica por raz\u00f5es complexas originalmente relacionadas \u00e0 distor\u00e7\u00e3o provocada por uma transi\u00e7\u00e3o das estruturas sociais que se livram do colonialismo se associando a uma nova forma de colonialismo.<\/p>\n<p>Mahdi Amel considerou que os est\u00e1gios pelos quais a hist\u00f3ria passou &#8211; \u201ccomunismo primitivo, escravismo, feudalismo e capitalismo\u201d &#8211; n\u00e3o podem ser aplicados nas estruturas sociais \u00e1rabes sem pesquisa e escrut\u00ednio. Ap\u00f3s a independ\u00eancia nacional, um novo e distinto modo de produ\u00e7\u00e3o, o modo de produ\u00e7\u00e3o colonial, dominou o desenvolvimento das estruturas sociais \u00e1rabes devido ao seu v\u00ednculo org\u00e2nico com o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Sobre essa quest\u00e3o, Mahdi Amel escreveu em \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica do pensamento confessional\u201d, uma de suas obras mais importantes, sobre as ideias de um dos mais importantes te\u00f3ricos da burguesia em seu pa\u00eds, Michel Chiha, um dos redatores da constitui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds (1926). Chiha, em seus escritos, teorizou que o pa\u00eds n\u00e3o precisa impulsionar os setores reais da produ\u00e7\u00e3o, como a agricultura e a ind\u00fastria. Esta ideia est\u00e1 presente na atua\u00e7\u00e3o das for\u00e7as da burguesia sect\u00e1ria no L\u00edbano at\u00e9 hoje. A economia do L\u00edbano dependia principalmente do setor de servi\u00e7os antes da guerra civil (1975-1990). Ao final da guerra a burguesia retomou o mesmo modelo e reativou o setor de servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Mahdi considera que o processo de liberta\u00e7\u00e3o nacional na estrutura social colonial e o processo de transi\u00e7\u00e3o para o socialismo ocorrem numa longa e complexa luta de classes devido \u00e0 complexidade desta estrutura:<\/p>\n<p>\u201c<em>O processo de liberta\u00e7\u00e3o nacional e o processo de transi\u00e7\u00e3o para o socialismo \u00e9 um \u00fanico processo hist\u00f3rico, sujeito a uma \u00fanica l\u00f3gica hist\u00f3rica e a um \u00fanico mecanismo de luta de classes. Este processo hist\u00f3rico \u00fanico tem suas etapas que diferem de acordo com as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas para o desenvolvimento da luta de classes em cada estrutura social colonial particular. A absoluta simetria estrutural entre os dois processos hist\u00f3ricos, que na verdade s\u00e3o um s\u00f3 processo, deve-se ao fato de que esse processo \u00e9 um processo de transforma\u00e7\u00e3o da estrutura das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o existentes, e que a transforma\u00e7\u00e3o dessa estrutura \u00e9 revolucion\u00e1ria. Sua destrui\u00e7\u00e3o se d\u00e1 atrav\u00e9s de uma luta de classes distinta que determina o seu mecanismo, e que essa destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 ela pr\u00f3pria o caminho de transi\u00e7\u00e3o para o socialismo, isto \u00e9, a solu\u00e7\u00e3o para a contradi\u00e7\u00e3o nacional na estrutura das rela\u00e7\u00f5es coloniais de produ\u00e7\u00e3o determinadas pela rela\u00e7\u00e3o colonial \u00e9 necessariamente uma solu\u00e7\u00e3o socialista determinada pela l\u00f3gica da pr\u00f3pria luta de classes na estrutura social colonial. A luta nacional s\u00f3 pode ser, nesta estrutura, uma luta de classes, mesmo que n\u00e3o apare\u00e7a dessa maneira, e a luta de classes nela s\u00f3 pode ser uma luta nacional, mesmo que n\u00e3o apare\u00e7a dessa maneira\u201d.<\/em> (\u201cPremissas te\u00f3ricas para o estudo do pensamento socialista no Movimento de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional\u201d, Sobre o modo de produ\u00e7\u00e3o colonial, p\u00e1gina 380).<\/p>\n<p>Isso significa que se livrar da domina\u00e7\u00e3o do colonialismo e do imperialismo e, consequentemente, livrar-se das ferramentas que dela dependem para controlar a sociedade, \u00e9 um aspecto essencial da luta de classes que levar\u00e1 necessariamente \u00e0 transi\u00e7\u00e3o da sociedade para o socialismo.<\/p>\n<p>Em sua tentativa de simplificar o processo de compreens\u00e3o da complexidade da transi\u00e7\u00e3o de uma fase a outra nas estruturas sociais do colonialismo, Mahdi Amel baseou-se na teoria do materialismo hist\u00f3rico para simplificar as cinco fases do estado segundo Ibn Khaldun: A fase da vit\u00f3ria, a fase do despotismo, a fase de vazio e mansid\u00e3o, a fase de contentamento e paz, a fase de extravag\u00e2ncia e desperd\u00edcio que leva o estado a decair e entrar em colapso.<\/p>\n<p>Em \u201cSobre o progresso na hist\u00f3ria\u201d, a terceira parte de seu importante livro de refer\u00eancia, Mahdi Amel resumiu estas fases em tr\u00eas tempos: o tempo da forma\u00e7\u00e3o, o tempo da renova\u00e7\u00e3o, o tempo da ruptura ou transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desta forma, elaborou uma teoria que poderia tamb\u00e9m contribuir para a compreens\u00e3o do pr\u00f3prio materialismo hist\u00f3rico, j\u00e1 que os mesmos quatro modos de produ\u00e7\u00e3o (comunismo primitivo, escravid\u00e3o, feudalismo e capitalismo) passaram por esses tr\u00eas tempos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, facilitou para os revolucion\u00e1rios \u00e1rabes a compreens\u00e3o da complexa natureza do momento em que uma fra\u00e7\u00e3o de classe burguesa (religiosa, militar, liberal ou outra) \u00e9 substitu\u00edda no poder por outra da mesma classe dominante. Tudo isso se processa nas entranhas do &#8220;tempo de renova\u00e7\u00e3o&#8221; que Mahdi considerou o tempo da impossibilidade do dom\u00ednio da burguesia colonial que coloca sobre os ombros das for\u00e7as revolucion\u00e1rias nestas sociedades a tarefa de levar esse processo aos seus fins naturais, ou seja, ao tempo de sua transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A quest\u00e3o confessional<\/strong><\/p>\n<p>Mahdi Amel formulou sua vis\u00e3o sobre a quest\u00e3o confessional \u00e0 luz da guerra civil libanesa (1975-1990) que aparentava ser uma guerra confessional, deflagrada pela burguesia, depois que seus apuros atingiram o cl\u00edmax, na tentativa de manter seu regime.<\/p>\n<p>Uma seita religiosa tem v\u00e1rias express\u00f5es burguesas, a maioria das quais s\u00e3o reunidas como uma entidade religiosa, com sua pr\u00f3pria cultura e costumes, e como uma unidade social aut\u00f4noma que se desenvolveu ao longo da hist\u00f3ria, como nestas duas defini\u00e7\u00f5es inspiradas no pensamento do te\u00f3rico mais proeminente da burguesia libanesa, Michel Chiha:<\/p>\n<p>\u201c<em>A seita religiosa \u00e9 um conglomerado humano que foi compilado historicamente e tem particularidades dentro da estrutura confessional libanesa\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Na segunda defini\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><em>\u201cA seita \u00e9 uma identidade social multidimensional muito clara, profundamente enraizada na hist\u00f3ria: juntos, constituem um todo din\u00e2mico altamente complexo\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Existem muitas express\u00f5es burguesas que giram em torno do mesmo significado, enquanto para Mahdi Amel e do ponto de vista de classe, a seita religiosa \u00e9:<\/p>\n<p><em>\u201cUma rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica espec\u00edfica historicamente definida a partir do movimento da luta de classes nas condi\u00e7\u00f5es da estrutura social colonial\u201d<\/em> (Amel, Mahdi, \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica do pensamento confessional\u201c, p\u00e1gina 20), porque o confessionalismo, de acordo com sua defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 \u201co sistema que garante \u00e0 burguesia colonial seu controle de classe em certas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas\u201d (Sobre o Estado confessional).<\/p>\n<p>Mahdi Amel considera que o confessionalismo n\u00e3o existe, exceto no Estado, e n\u00e3o em qualquer estado, mas sim naqueles que n\u00e3o garantem as condi\u00e7\u00f5es de manuten\u00e7\u00e3o do poder financeiro da oligarquia, exceto desta forma. Para isso, apresenta v\u00e1rios exemplos de estados \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d como os Estados Unidos, a Fran\u00e7a, etc., que t\u00eam seitas religiosas, duas vezes mais que o L\u00edbano, mas na realidade n\u00e3o tratam as seitas religiosas como unidades sociais que constituem sua estrutura pol\u00edtica, e as seitas religiosas n\u00e3o s\u00e3o consideradas a unidade primordial social na rela\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo com o Estado, como \u00e9 o caso do L\u00edbano. O indiv\u00edduo, segundo o modelo liban\u00eas, n\u00e3o existe, a n\u00e3o ser por sua posi\u00e7\u00e3o em sua seita que \u00e9 considerada sua porta de entrada para o Estado.<\/p>\n<p>A burguesia libanesa construiu seu sistema de poder desta forma, o qual denomina de &#8220;democracia consensual&#8221;, porque \u00e9 f\u00e1cil disfar\u00e7ar as divis\u00f5es de classe na sociedade com divis\u00f5es verticais, dividindo a classe trabalhadora em seitas religiosas f\u00e1ceis de controlar ao captur\u00e1-la por esse meio.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Mahdi Amel trabalhou para explicar a complexidade da estrutura pol\u00edtica, social e econ\u00f4mica libanesa, \u00e0 luz da not\u00e1vel ascens\u00e3o das for\u00e7as de esquerda quando estavam no auge de sua ascens\u00e3o nas d\u00e9cadas de setenta e oitenta do s\u00e9culo passado, e se constitu\u00edram na principal for\u00e7a da resist\u00eancia \u00e0 &#8220;Israel&#8221; e na resist\u00eancia \u00e0 hegemonia da junta confessional ligada ao colonialismo.<\/p>\n<p>Por isso, considerou que a mudan\u00e7a revolucion\u00e1ria era inevit\u00e1vel, sobretudo porque a classe oper\u00e1ria p\u00f4de ent\u00e3o unir-se e emergir por meio de seus partidos e for\u00e7as marxistas, e constituir-se por meio de suas alian\u00e7as, internamente com as for\u00e7as nacionais, e principalmente com a resist\u00eancia \u00e1rabe e com a resist\u00eancia palestina, em uma amea\u00e7a real \u00e0 domina\u00e7\u00e3o da burguesia, que poderia ter sido liquidada n\u00e3o fosse a interven\u00e7\u00e3o das for\u00e7as dos regimes burgueses semelhantes ao regime liban\u00eas, como os regimes s\u00edrio, saudita e iraniano, al\u00e9m de &#8220;Israel&#8221; e das pot\u00eancias do Ocidente, para deter o ascenso das for\u00e7as de liberta\u00e7\u00e3o nacional e interromper sua expans\u00e3o, o que teria amea\u00e7ado os interesses burgueses e certamente liquidaria com seu dom\u00ednio.<\/p>\n<p>Algumas observa\u00e7\u00f5es finais. A defini\u00e7\u00e3o de Mahdi de confessionalismo, como um sistema que assegura a perpetua\u00e7\u00e3o do controle da burguesia colonial, se aplica a outras formas de domina\u00e7\u00e3o da burguesia em outras estruturas sociais \u00e1rabes, nas quais o tribalismo, clanismo, regionalismo ou outras rela\u00e7\u00f5es (no sentido Khalduniano) s\u00e3o dominantes de acordo com a natureza de cada uma dessas estruturas.<\/p>\n<p>Mahdi Amel estava exagerado em seu otimismo? Quais fatos ap\u00f3s seu mart\u00edrio problematizam o que ele pensava? Talvez o assassinato de Mahdi Amel e outros pensadores marxistas nas m\u00e3os das for\u00e7as confessionais ocultas com apoio regional e internacional, tenha sido exatamente para este prop\u00f3sito, isto \u00e9, impedir que a hist\u00f3ria alcance sua l\u00f3gica pr\u00f3pria na transi\u00e7\u00e3o para o socialismo que Mahdi e seus companheiros viram ao virar da esquina \u00e0 luz das conquistas que foram alcan\u00e7adas at\u00e9 o momento de sua elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica. \u00c9 poss\u00edvel voltar a apostar na op\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a democr\u00e1tica?<\/p>\n<p>O que est\u00e1 acontecendo hoje na S\u00edria e nos pa\u00edses da &#8220;Primavera \u00c1rabe&#8221; \u00e9 semelhante em alguns aspectos ao que o L\u00edbano alcan\u00e7ou depois de muitos anos de guerra civil. Em outras palavras, o capitalismo est\u00e1 trabalhando para reproduzir a hist\u00f3ria de uma forma que garanta a continuidade de seus interesses. Por isso, na S\u00edria e nesses pa\u00edses, a quest\u00e3o da divis\u00e3o por motivos confessionais, tribais e outros \u00e9 alimentada com urg\u00eancia, tendo como pano de fundo essas brutais guerras capitalistas com custos humanos exorbitantes, como uma das poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es que fragmentam os povos da regi\u00e3o e impedem a sua unidade e desenvolvimento em for\u00e7as pol\u00edticas que possam vir a desequilibrar a balan\u00e7a e acabar com os regimes colonial-comprador existentes.<\/p>\n<p>Victorios Bayan Shams \u00e9 jornalista s\u00edrio radicado no Brasil.<\/p>\n<p>Vers\u00e3o em portugu\u00eas: F\u00e1bio Bosco<\/p>\n<p>#MahdiAmel<\/p>\n<p>#ArabNationalLiberation<\/p>\n<p>#ColonialModeOfProduction<\/p>\n<p>#SectarianState<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mahdi Amel nasceu no L\u00edbano em 1936, onde concluiu o ensino m\u00e9dio. Depois ele se mudou para a Fran\u00e7a, onde obteve o bacharelado e o doutorado em Filosofia. Trabalhou por um curto per\u00edodo na Arg\u00e9lia ap\u00f3s a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o contra o colonialismo franc\u00eas, e conheceu de perto a revolu\u00e7\u00e3o desse pa\u00eds. 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