{"id":64385,"date":"2021-07-07T13:07:19","date_gmt":"2021-07-07T16:07:19","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=64385"},"modified":"2021-07-07T13:07:19","modified_gmt":"2021-07-07T16:07:19","slug":"a-revolucao-sera-supervisionada-em-our-road-to-power-de-vivek-chibber-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/07\/07\/a-revolucao-sera-supervisionada-em-our-road-to-power-de-vivek-chibber-parte-1\/","title":{"rendered":"A revolu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 supervisionada: em &#8220;Our Road to Power&#8221;, de Vivek Chibber (Parte 1)"},"content":{"rendered":"<p><em>Em dezembro de 2017, o professor de sociologia da New York University, Vivek Chibber, publicou uma importante declara\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica na revista Jacobin, que desde ent\u00e3o desempenhou um grande papel na defini\u00e7\u00e3o dos termos do debate no movimento socialista, em particular no Democratic Socialists of America (DSA) . Com o t\u00edtulo \u201c Nosso caminho para o poder \u201d, o artigo faz refer\u00eancia ao cl\u00e1ssico de 1909 do l\u00edder social-democrata alem\u00e3o Karl Kautsky, \u201c O caminho para o poder \u201d, e reformulava muito do argumento desse artigo por um caminho eleitoral para o socialismo. Publicado no anivers\u00e1rio de 100 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917, o artigo pode ser lido como uma rejei\u00e7\u00e3o aos m\u00e9todos e estrat\u00e9gias organizacionais bolcheviques.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Ahmed K.<\/p>\n<p>Chibber tornou-se um importante te\u00f3rico, sen\u00e3o o principal te\u00f3rico, para o (recentemente dissolvido) Spring Caucus do DSA. Este caucus at\u00e9 recentemente representava o agrupamento de DSA mais bem organizado, tem a lealdade de um n\u00famero significativo de membros dessa organiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 dominante em seu Comit\u00ea Pol\u00edtico Nacional (NPC) e exerce um poder virtualmente incontest\u00e1vel em grandes locais do DSA que definem sua agenda como Filad\u00e9lfia e East Bay (Calif\u00f3rnia). Sua pol\u00edtica se reflete de perto na linha editorial da revista Jacobin e de seu primo mais acad\u00eamico, Catalyst, que nos \u00faltimos anos se tornaram muito mais estreitamente focados em uma an\u00e1lise estrat\u00e9gica que ecoa a de Chibber. N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que as id\u00e9ias de Chibber desempenham um papel importante na orienta\u00e7\u00e3o de grandes setores do movimento socialista. Portanto, engajar-se intimamente com essas id\u00e9ias \u00e9 necess\u00e1rio para esclarecer os m\u00e9todos socialistas de organiza\u00e7\u00e3o e estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>Este artigo \u00e9 o primeiro de uma s\u00e9rie de duas partes. As duas partes, a segunda das quais aparecer\u00e1 na pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o de La Voz, ecoam a estrutura do argumento de Chibber. Em &#8220;Our Road to Power&#8221;, ele argumenta que a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917 teve dois legados principais, um organizacional e um institucional, ou, &#8220;como se organizar para o socialismo dentro do capitalismo&#8221; e &#8220;como construir uma sociedade p\u00f3s-capitalista, uma sociedade socialista.&#8221; Aqui, lidamos com o lado institucional do argumento de Chibber. A segunda parte da s\u00e9rie tratar\u00e1 do legado organizacional, que se relaciona crucialmente com a quest\u00e3o de se a classe trabalhadora precisa de seu pr\u00f3prio partido e que tipo de partido ele deveria ser.<\/p>\n<p><strong>\u201cNossa estrada para o poder\u201d: revivendo Kautsky para o s\u00e9culo 21<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Chibber, o momento atual representa uma abertura para o socialismo. \u201cSe jogarmos nossas cartas da maneira certa\u201d, podemos revitalizar os partidos de esquerda ou formar novos \u201cque provem ser imunes\u201d \u00e0 reforma, mas para fazer isso, precisamos tirar as li\u00e7\u00f5es \u201ccorretas\u201d da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917. 1917 deixou-nos com dois \u201cgrandes legados\u201d: um legado organizacional &#8211; como construir por \u201cdentro\u201d do capitalismo, por exemplo em sindicatos e partidos, e um institucional, que aborda a quest\u00e3o de como construir uma sociedade p\u00f3s-capitalista.<\/p>\n<p>Para Chibber, h\u00e1 dois legados principais de 1917 com os quais o movimento socialista de hoje deve lutar. O primeiro, que ele chama de legado organizacional, trata da constru\u00e7\u00e3o dentro do capitalismo e diz respeito aos tipos de organiza\u00e7\u00f5es &#8211; partidos, sindicatos etc. &#8211; que s\u00e3o necess\u00e1rios para construir o poder da classe trabalhadora. Para n\u00f3s, essa quest\u00e3o \u00e9 crucial, complexa e que outros cr\u00edticos de Chibber n\u00e3o se engajaram o suficiente. Requer seu pr\u00f3prio envolvimento detalhado e lidaremos com isso na segunda parte desta s\u00e9rie. Aqui nos concentramos no que Chibber identifica como o segundo legado de 1917, \u201co institucional\u201d que trata de como construir uma sociedade p\u00f3s-capitalista. Ele escreve que desde 1950, perseguir uma estrat\u00e9gia bolchevique de \u201cruptura\u201d com o estado capitalista tornou-se \u201ctotalmente alucinante\u201d n\u00e3o apenas no \u201cmundo capitalista avan\u00e7ado\u201d, mas tamb\u00e9m no sul. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Porque o estado capitalista hoje, afirma ele, \u00e9 \u201cinfinitamente\u201d mais leg\u00edtimo do que era para os europeus um s\u00e9culo atr\u00e1s. O poder de vigil\u00e2ncia e coer\u00e7\u00e3o dos Estados contempor\u00e2neos, juntamente com a coes\u00e3o interna da classe dominante, tornam a ordem social capitalista mais est\u00e1vel &#8220;por ordens de magnitude&#8221; do que em 1917. O que estamos vivenciando ap\u00f3s 2008 \u00e9 uma crise do neoliberalismo, n\u00e3o do pr\u00f3prio capitalismo. Portanto, os socialistas devem buscar uma estrat\u00e9gia gradual de &#8220;reformas n\u00e3o reformistas&#8221;. Os socialistas devem construir movimentos para pressionar o estado e ganhar poder dentro dele, com o objetivo de mudar a \u201cestrutura institucional do capitalismo\u201d para \u201cerodir\u201d o poder estrutural do capital, \u201cao inv\u00e9s de saltar sobre ele\u201d. N\u00e3o os bolcheviques, mas as social-democracias n\u00f3rdicas, s\u00e3o o modelo que devemos seguir. No entanto, como o t\u00edtulo de seu artigo torna expl\u00edcito, h\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o mais profunda na qual Chibber se apoia que \u00e9 a de Karl Kautsky e do Kautskismo.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses, a revista Jacobin tem publicado apologias mais expl\u00edcitas ao l\u00edder social-democrata alem\u00e3o que j\u00e1 foi chamado de \u201cpapa do marxismo\u201d e a quem Lenin chamou de \u201crenegado\u201d contra o marxismo. O artigo de Chibber, junto com os acenos afirmativos abertos a Kautsky por parte do editor da Jacobin e do Catalyst Bhaskar Sunkara, est\u00e3o entre as express\u00f5es mais claras da genealogia kautskista dessa tend\u00eancia. O que caracteriza o Kautskismo? E por que os socialistas deveriam rejeit\u00e1-lo?<\/p>\n<p>Embora uma explica\u00e7\u00e3o completa de como as ideias de Kautsky informam os socialistas norte-americanos de hoje esteja al\u00e9m do escopo deste artigo, podemos resumir sua principal contribui\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, que ele desenvolveu entre a d\u00e9cada de 1890 e o final de sua vida no final da d\u00e9cada de 1930 como, na pr\u00e1tica (se n\u00e3o sempre na ret\u00f3rica), um foco exclusivo na trajet\u00f3ria eleitoral para o socialismo. Essa estrat\u00e9gia, portanto, unia inextricavelmente a classe trabalhadora aos parlamentos burgueses como o \u00fanico caminho para conquistar o poder. Por sua vez, tornou a politiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora &#8211; seu movimento em luta e a articula\u00e7\u00e3o de seus interesses &#8211; dependente de um estrato de lideran\u00e7as sindicais e, em car\u00e1ter subalterno, dirigentes do Partido Social-Democrata (SPD). Em geral, o kautskismo, como o stalinismo (discutido abaixo), sempre suspeitou da auto-organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e do movimento independente. Em um exemplo revelador, durante uma grande onda de greves ilegais europ\u00e9ias e russas em 1905-1906, Kautsky se juntou a seus camaradas &#8220;revisionistas&#8221; do SPD (n\u00f3s os chamar\u00edamos de &#8220;liberais&#8221; ou mesmo &#8220;centristas&#8221; hoje) para denunciar os defensores da greve de massa como a revolucion\u00e1ria Rosa Luxemburgo de \u201cfabricantes de revolu\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O per\u00edodo entre o final do s\u00e9culo 19 e as v\u00e9speras da Primeira Guerra Mundial foi caracterizado como um per\u00edodo de \u201cdistens\u00e3o\u201d entre a classe trabalhadora e a burguesia alem\u00e3. Engordado por um crescimento constante, n\u00e3o apenas por causa da pilhagem imperial, o capital alem\u00e3o se sentiu confiante o suficiente para fazer concess\u00f5es ao proletariado &#8211; legalizando seu partido, elevando os padr\u00f5es de vida, permitindo mais liberdades c\u00edvicas. Kautsky acreditava, como a corrente principal do SPD na \u00e9poca, que \u00e0 medida que o capitalismo continuava a crescer em condi\u00e7\u00f5es pac\u00edficas, o proletariado tamb\u00e9m o faria, o que por sua vez renderia mais votos para o SPD. \u00c0 medida que seus votos aumentavam &#8211; de quase 10 por cento do eleitorado alem\u00e3o em 1884 para quase 20 por cento em 1890 &#8211; o SPD acabaria por obter uma grande maioria no Reichstag (ou assim presumia Kautsky) e ent\u00e3o teria o poder de impor a legisla\u00e7\u00e3o de interesse da classe trabalhadora. Isso, como diria Chibber, come\u00e7aria a \u201ccorroer\u201d o poder do capital por dentro.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que a hist\u00f3ria na forma de conflagra\u00e7\u00e3o da Primeira Guerra Mundial provou que Kautsky e seus seguidores, n\u00e3o os marxistas revolucion\u00e1rios, eram os \u201calucinados\u201d. Em rela\u00e7\u00e3o ao nosso tempo, como marxistas, devemos sempre partir de uma an\u00e1lise materialista e perguntar: que paralelos, em termos econ\u00f4micos, existem entre o per\u00edodo em que Kautsky desenvolveu sua teoria da trajet\u00f3ria parlamentar (final do s\u00e9culo XIX) e o nosso pr\u00f3prio tempo ? A resposta curta \u00e9: muito pouco ou nada. N\u00e3o vivemos em uma \u00e9poca de estabilidade capitalista, muito menos de crescimento crescente. O capitalismo, atolado em uma estagna\u00e7\u00e3o secular, gera crises cada vez mais frequentes e intensas, principalmente a partir do decl\u00ednio da ordem liberal keynesiana na d\u00e9cada de 1970. Isso est\u00e1 inextricavelmente entrela\u00e7ado com a crise clim\u00e1tica que \u00e9 o resultado direto da busca do lucro capitalista e sua depend\u00eancia ecocida da extra\u00e7\u00e3o de recursos minerais. A classe dominante \u00e9 amplamente odiada globalmente, no norte e no sul, e os capitalistas parecem pelo menos inconscientemente saber disso, j\u00e1 que alguns setores ap\u00f3iam governos cada vez mais autorit\u00e1rios e de direita em todo o mundo, enquanto outros mant\u00eam a f\u00e9 em uma ordem neoliberal moribunda.<\/p>\n<p>Ainda assim, por alguma raz\u00e3o, Chibber acredita, como um Kautsky moderno, que a \u201ceros\u00e3o\u201d de dentro do poder do capital \u00e9 poss\u00edvel em um futuro pr\u00f3ximo. Supondo por um momento que ele esteja correto, uma vez que isso aconte\u00e7a, como constru\u00edmos uma sociedade p\u00f3s-capitalista? Primeiro, diz Chibber, fortalecendo a democracia liberal, em particular seu regime de direitos pol\u00edticos, que Chibber v\u00ea como tendo sido conquistado pelos movimentos oper\u00e1rios do passado. Em segundo lugar, nos livrando das ilus\u00f5es no planejamento econ\u00f4mico central (todas as tentativas de planejamento central fracassaram, ele afirma vagamente). E terceiro, permitindo uma economia de mercado com um sabor socialista. O \u201csocialismo de mercado\u201d de Chibber, diz ele, \u201ccolocaria as pessoas antes dos lucros\u201d, responsabilizaria os tomadores de decis\u00f5es econ\u00f4micas e evitaria que as desigualdades de riqueza se traduzissem em desigualdades de poder. Resumidamente, o socialismo de Chibber se resume ao liberalismo com um estado de bem-estar social mais robusto. Como isso difere da social-democracia tradicional \u00e9 &#8211; apesar de protestos de Chibber em contr\u00e1rio &#8211; imposs\u00edvel dizer.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00edticas de Post e LaBotz<\/strong><\/p>\n<p>Logo depois que &#8220;Our Road to Power&#8221; apareceu na revista Jacobin, os marxistas Charlie Post e Dan LaBotz (este \u00faltimo membro do Solidarity e do DSA) publicaram pol\u00eamicas criticando Chibber desde uma perspectiva marxista revolucion\u00e1ria. Embora o artigo de Post seja muito mais suave do que o de LaBotz, ambos concordam que a estrat\u00e9gia de Chibber para ganhar poder dentro do estado capitalista existente para iniciar uma s\u00e9rie de rupturas parciais com o capitalismo \u00e9 \u201cfundamentalmente irreal\u201d (Post). Os dois artigos s\u00e3o densamente discutidos, geralmente brilhantes e valem a pena ser lidas. Infelizmente, a resposta de Chibber (ele apenas dignificou Post com uma) \u00e9 tanto desdenhosa quanto decepcionante, minimizando, na melhor das hip\u00f3teses, diferen\u00e7as fundamentais em quest\u00f5es de estrat\u00e9gia e concep\u00e7\u00f5es de socialismo.<\/p>\n<p>Ambos os cr\u00edticos apontam que a estrat\u00e9gia de Chibber levar\u00e1 inevitavelmente a colocar o eleitoralismo no centro da estrat\u00e9gia socialista, enquanto dilui o programa socialista em reformas parciais do sistema capitalista que preservam as estruturas de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o. Chibber, em sua resposta a Post, pensa que eles est\u00e3o simplesmente discutindo sobre qual deveria ser o equil\u00edbrio entre o eleitoralismo, de um lado, e o movimento social e a organiza\u00e7\u00e3o por local de trabalho, do outro, para os socialistas. Mas isso \u00e9 fundamentalmente n\u00e3o entender a posi\u00e7\u00e3o de Post, o que \u00e9 surpreendente, j\u00e1 que ele est\u00e1 ecoando um argumento muito conhecido no movimento socialista. Robert Brenner resume isso como o &#8220;paradoxo do reformismo.\u201d Como Post e Brenner, entre outros, mostraram, voc\u00ea n\u00e3o pode simplesmente discutir o eleitoralismo e a constru\u00e7\u00e3o de um movimento militante como se fossem objetos distintos, sem rela\u00e7\u00e3o entre si, exceto atrav\u00e9s da intelec\u00e7\u00e3o externa de te\u00f3ricos socialistas (Luxemburgo chamou isso de &#8221; socialismo de salsicha &#8221; em sua pol\u00eamica contra o reformismo).<\/p>\n<p>O que Post realmente diz \u00e9 que os socialistas devem escolher entre o eleitoralismo e a constru\u00e7\u00e3o de movimentos. Estes s\u00e3o contradit\u00f3rios entre si . Por qu\u00ea? Porque a estrat\u00e9gia eleitoral \u00e9 uma estrat\u00e9gia desmobilizadora. Tenta ganhar cadeiras com base em 50% + 1 dos votos em bases pol\u00edticas mais baixas poss\u00edvel. A aprova\u00e7\u00e3o de legisla\u00e7\u00e3o tem como premissa a forma\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as que diluem qualquer proposta potencialmente radical. Os eleitores politicamente desativados n\u00e3o s\u00e3o trabalhadores politicamente ativos, esses tipos de atividade pol\u00edtica s\u00e3o o oposto um do outro. Em suma, a pol\u00edtica eleitoral visa desencorajar o confronto e o radicalismo. A pol\u00edtica socialista de organiza\u00e7\u00e3o por local de trabalho e de movimentos sociais procuram encorajar o confronto e o radicalismo.<\/p>\n<p>Depois de distorcer (na melhor das hip\u00f3teses) o argumento de Post e posicion\u00e1-lo como \u201csect\u00e1rio\u201d, Chibber\u00a0 afirma : \u201co fato \u00e9 que, em todo o mundo, simplesmente n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida se os socialistas deveriam ou n\u00e3o ter uma dimens\u00e3o eleitoral como parte de sua estrat\u00e9gia. O \u00fanico debate \u00e9 sobre como gerenci\u00e1-lo em combina\u00e7\u00e3o com a organiza\u00e7\u00e3o de classe.\u201d Mais uma vez, gostar\u00edamos de apontar que esta \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o err\u00f4nea (n\u00e3o muito) sutil do que \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o marxista revolucion\u00e1ria, e um reenquadramento do debate de forma a tornar a estrat\u00e9gia reformista de Chibber a \u00fanica &#8220;s\u00e9ria&#8221;. O que o Post realmente diz? N\u00e3o que os socialistas n\u00e3o devam participar das elei\u00e7\u00f5es (como sugere Chibber), mas que eles devem ter uma abordagem diferente nas elei\u00e7\u00f5es, de agita\u00e7\u00e3o e educativas em vez de se concentrar em ganhar ou aprovar legisla\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 um exemplo de uma abordagem revolucion\u00e1ria da organiza\u00e7\u00e3o, na qual o objetivo \u00e9 aumentar a consci\u00eancia de classe da classe trabalhadora e construir nossa auto-confian\u00e7a para uma pol\u00edtica de classe cada vez mais ousada e independente.<\/p>\n<p>LaBotz est\u00e1, portanto, correto quando escreve que os marxistas come\u00e7am perguntando: qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre crise, a\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia? O que Chibber falha em reconhecer, escreve LaBotz, \u00e9 que mudan\u00e7as repentinas nas condi\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas &#8211; as crises econ\u00f4micas e pol\u00edticas que s\u00e3o inevit\u00e1veis \u200b\u200bsob o capitalismo &#8211; levam a classe trabalhadora a agir, primeiro em pequena escala e depois em massa. A experi\u00eancia de luta, geralmente no in\u00edcio por reformas econ\u00f4micas , muda a consci\u00eancia da classe trabalhadora. A classe trabalhadora se torna consciente de sua classe. Nesse ponto, a mudan\u00e7a pode ser r\u00e1pida e dram\u00e1tica . A consci\u00eancia de classe cria mais espa\u00e7o para demandas pol\u00edticas e por sua vez para o socialismo. Como escreve LaBotz, \u201ctal a\u00e7\u00e3o sempre tende a transbordar os estreitos canais de negocia\u00e7\u00f5es de contratos sindicais e elei\u00e7\u00f5es parlamentares, escapando ao controle da burguesia e da pol\u00edtica social-democrata que se baseia na busca gradual de reformas\u201d. Em suma, a estrat\u00e9gia de Chibber tem sido historicamente perseguida n\u00e3o por militantes prolet\u00e1rios, mas por burocratas sindicais e partidos pol\u00edticos que buscam conter e at\u00e9 reprimir movimentos radicais.<\/p>\n<p><strong>O Recuo de Chibber frente ao Socialismo Cient\u00edfico<\/strong><\/p>\n<p>Para LaBotz, uma das falhas fatais na estrat\u00e9gia de Chibber \u00e9 que ela abandona o objetivo de estabelecer uma economia planificada. A ideia de uma economia planificada democraticamente pelos trabalhadores, escreve LaBotz, est\u00e1 no cerne do marxismo. Nesse cen\u00e1rio, a classe trabalhadora, em um intenso processo de luta, destr\u00f3i o estado capitalista, cria um novo estado onde \u201co povo trabalhador e o povo como um todo governam\u201d. (Isso \u00e9 normalmente chamado de \u201ctransi\u00e7\u00e3o\u201d socialista pelos socialistas). Um novo tipo de ordem social \u00e9 trazida \u00e0 exist\u00eancia, aquela que planeja de acordo com as necessidades e \u201cvotos\u201d (nas palavras de LaBotz) de toda a popula\u00e7\u00e3o. Em suma, os trabalhadores assumem o controle consciente da economia, transformando-a e acabando com a aliena\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o. Isso, de acordo com LaBotz, \u00e9 &#8220;a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de socialismo&#8221;.<\/p>\n<p>Embora concordemos com LaBotz, tamb\u00e9m gostar\u00edamos de apontar que n\u00e3o \u00e9 apenas a recusa de Chibber de uma economia planificada democraticamente que se desvia da estrat\u00e9gia socialista. Tamb\u00e9m est\u00e1 em sua abordagem decididamente n\u00e3o dial\u00e9tica e etapista \u00e0s quest\u00f5es estrat\u00e9gicas. Nessa vis\u00e3o, a revolu\u00e7\u00e3o senta-se discretamente em um compartimento, as reformas em outro, cada uma esperando para ser retirada sempre que for considerada conveniente. A teoria de Chibber e Kautsky \u00e9 que devemos lutar apenas por reformas, e principalmente por via eleitoral, ou seja, devemos nos concentrar em fazer o que for poss\u00edvel dentro do quadro capitalista, com os meios de que dispomos, at\u00e9 que as condi\u00e7\u00f5es para a revolu\u00e7\u00e3o estejam maduras . A ilus\u00e3o reformista \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel focar no eleitoralismo agora e mudar para uma estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria mais tarde. No &#8220;socialismo\u201d monocrom\u00e1tico de Chibber, voc\u00ea simplesmente empilha uma reforma ap\u00f3s a outra em um caminho direto para\u201c erodir \u201do poder da classe capitalista, o grupo de humanos mais bem organizado, bem armado e ganancioso do planeta, e de alguma forma eles se acomodar\u00e3o e deixar\u00e3o voc\u00ea fazer isso. Isso n\u00e3o \u00e9 apenas, para dizer o m\u00ednimo, altamente improv\u00e1vel. Essa estrat\u00e9gia foi de fato implementada em v\u00e1rios pa\u00edses europeus no in\u00edcio do s\u00e9culo 20 por l\u00edderes social-democratas qualificados. O resultado foi que, quando as revolu\u00e7\u00f5es eclodiram em todo o continente, os partidos socialistas europeus se opuseram a elas e se uniram \u00e0s for\u00e7as burguesas liberais para esmag\u00e1-las.<\/p>\n<p>Em suma, no cerne do marxismo n\u00e3o est\u00e1 apenas uma economia planificada democraticamente, mas tamb\u00e9m o m\u00e9todo dial\u00e9tico e materialista, ou cient\u00edfico, para combinar a luta por reformas com o desenvolvimento de uma estrat\u00e9gia e programa revolucion\u00e1rios que se baseiem no poder de classe, n\u00e3o em institui\u00e7\u00f5es capitalistas de governo. Disto surge a grande vantagem do marxismo sobre o liberalismo, a social-democracia e os outros v\u00e1rios contendores pela primazia como ferramenta interpretativa para compreender a realidade e como ferramenta de organiza\u00e7\u00e3o para a emancipa\u00e7\u00e3o. O marxismo ou socialismo cient\u00edfico v\u00ea fluxo e mudan\u00e7a onde outros v\u00eaem estase, e os marxistas sempre se esfor\u00e7am para ver as conex\u00f5es din\u00e2micas entre todas as esferas da vida, natural e social, humana e n\u00e3o humana. \u00c9 isso que distingue tamb\u00e9m o marxismo do socialismo ut\u00f3pico que historicamente o precedeu. Em contraste, o liberalismo e a social-democracia, como o socialismo ut\u00f3pico, repousam sobre o que Engels teria chamado de fundamentos metaf\u00edsicos. Eles come\u00e7am com os primeiros princ\u00edpios, como &#8220;justi\u00e7a&#8221;, &#8220;moralidade&#8221;, &#8220;direitos humanos&#8221;, etc., e veem esses princ\u00edpios incorporados em institui\u00e7\u00f5es estaticamente conceituadas: &#8220;o Estado&#8221;, &#8220;a Lei&#8221;, a &#8220;Fam\u00edlia&#8221; e assim por diante. Eles retiram de sua an\u00e1lise qualquer sentido robusto de processo hist\u00f3rico, material e social, por meio do qual as institui\u00e7\u00f5es humanas, formas de organiza\u00e7\u00e3o e pr\u00e1ticas emergem e se desenvolvem. Em termos mais concretos, o pensamento metaf\u00edsico pode vir em muitas formas mais prosaicas, por exemplo, o estere\u00f3tipo de que a classe trabalhadora est\u00e1 para sempre cercada por ideias &#8220;atrasadas&#8221;, ou que o estado capitalista \u00e9 um ve\u00edculo para a justi\u00e7a (respectivamente, uma cal\u00fania favorita e uma ilus\u00e3o favorita dos l\u00edderes do Partido Democrata e dos liberais em geral).<\/p>\n<p>O problema do pensamento metaf\u00edsico n\u00e3o \u00e9 apenas te\u00f3rico, mas tamb\u00e9m de colocar a teoria em pr\u00e1tica. Quando os socialistas revolucion\u00e1rios dizem que n\u00e3o podemos simplesmente escolher estrat\u00e9gias casualmente, \u00e9 porque a forma como teorizamos o estado e a classe, e sua inter-rela\u00e7\u00e3o, determina onde comprometemos nossos recursos como ativistas. Se come\u00e7armos dizendo, como faz Chibber, que o estado capitalista \u00e9 est\u00e1vel e leg\u00edtimo, necessariamente nos comprometemos a construir o poder dentro dessa institui\u00e7\u00e3o. Logicamente, seria absurdo fazer o contr\u00e1rio. Mas se abordarmos o estado dialeticamente, isto \u00e9, hist\u00f3rica e materialmente, vemos novos caminhos se abrindo. O fato \u00e9 que, desde a Segunda Guerra Mundial, muitos estados capitalistas foram abalados por movimentos de massa. Para citar alguns exemplos: as lutas anticoloniais que libertaram os pa\u00edses do sul da \u00c1sia e da \u00c1frica; movimentos de massa de esquerda &#8211; frequentemente socialistas ou comunistas &#8211; por toda a Am\u00e9rica Latina (Guatemala, Cuba, Chile) e \u00c1sia (China, Indon\u00e9sia, ambas as Coreias, Vietn\u00e3); os levantes mundiais de estudantes e trabalhadores de 1968; e a Primavera \u00c1rabe mais recentemente. Hoje, os Gilets Jaunes (coletes amarelos) tomam as ruas na Fran\u00e7a e professores em todo Estados Unidos realizam greves ilegais. Recentemente, manifesta\u00e7\u00f5es de rua de milh\u00f5es de argelinos lideradas por estudantes for\u00e7aram o odiado regime de Bouteflika a uma grande crise, e o presidente provavelmente n\u00e3o sobreviver\u00e1 no poder por muito tempo. Muitos, sen\u00e3o a maioria, desses movimentos foram pol\u00edtica ou socialmente transformadores, ou ambos. Todos eles come\u00e7aram com os trabalhadores ou pessoas oprimidas reconhecendo que n\u00e3o podiam mais tolerar viver sob um determinado sistema. Ou seja, eles reconheceram, mesmo que apenas intuitivamente no in\u00edcio, que esse sistema n\u00e3o era o \u00fanico sistema poss\u00edvel, que era um produto da hist\u00f3ria e da luta de classes e que o caminho para mud\u00e1-lo era tamb\u00e9m uma possibilidade oferecida pela hist\u00f3ria e pela luta de classes. Embora tenhamos apenas alguns poucos exemplos preciosos de revolu\u00e7\u00f5es que implementaram plenamente um estado oper\u00e1rio &#8211; a R\u00fassia de 1917, por exemplo &#8211; o valor real da organiza\u00e7\u00e3o socialista revolucion\u00e1ria n\u00e3o est\u00e1 apenas no fato de ter sucesso na cria\u00e7\u00e3o de um Estado oper\u00e1rio ou no verdadeiro objetivo do socialismo, uma sociedade comunista sem estado e sem classes. A raz\u00e3o pela qual escolhemos o caminho revolucion\u00e1rio e n\u00e3o o reformista \u00e9, como Robert Brenner ensinou, porque \u00e9 a \u00fanica forma de reformar a sociedade em que vivemos.<\/p>\n<p>Na segunda parte deste artigo, que ser\u00e1 publicado na pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o da Revista LaVoz, abordamos a teoria organizacional de Chibber, em particular sua vis\u00e3o de como deve ser um partido dos trabalhadores e qual \u00e9 o seu papel na luta contra o poder do capital.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em dezembro de 2017, o professor de sociologia da New York University, Vivek Chibber, publicou uma importante declara\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica na revista Jacobin, que desde ent\u00e3o desempenhou um grande papel na defini\u00e7\u00e3o dos termos do debate no movimento socialista, em particular no Democratic Socialists of America (DSA) . 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