{"id":64291,"date":"2021-06-23T16:39:13","date_gmt":"2021-06-23T19:39:13","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=64291"},"modified":"2021-06-23T16:39:13","modified_gmt":"2021-06-23T19:39:13","slug":"64291-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/06\/23\/64291-2\/","title":{"rendered":"A\u00a0 luta de classes em tempos de pandemia"},"content":{"rendered":"<p><em>Em fins de maio, o Comit\u00ea Executivo Internacional da LIT se reuniu e debateu, entre outros temas, a discuss\u00e3o de um documento pol\u00edtico. A discuss\u00e3o centrou-se na luta de classes na Am\u00e9rica do Sul e na conjuntura mundial, marcada pela a\u00e7\u00e3o genocida dos governos e a resposta do proletariado e das massas. O artigo que apresentamos a seguir resume as principais conclus\u00f5es do documento aprovado na referida reuni\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em>Por: Comit\u00ea Executivo Internacional da LIT-QI <\/em><\/p>\n<p>A resposta por parte das massas, com destacada participa\u00e7\u00e3o da juventude, \u00e0 pandemia e \u00e0 pol\u00edtica genocida dos governos imperialistas e seus lacaios, continua marcando a situa\u00e7\u00e3o nos diferentes pa\u00edses. A desigualdade da crise econ\u00f4mica e das respostas das massas aos ataques dos governos genocidas perpassa a situa\u00e7\u00e3o da luta de classes.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma mudan\u00e7a brusca nas condi\u00e7\u00f5es de vida do proletariado mundial que, segundo o Banco Mundial, reflete uma situa\u00e7\u00e3o <strong>\u201cverdadeiramente in\u00e9dita\u201d<\/strong>. A institui\u00e7\u00e3o do imperialismo informa que em 2021 haver\u00e1 um aumento estimado de pessoas que cairiam na pobreza entre 143 e 163 milh\u00f5es. Estas mudan\u00e7as bruscas nas condi\u00e7\u00f5es de vida do proletariado e das massas no mundo, geralmente tamb\u00e9m implicam em mudan\u00e7as s\u00fabitas na luta de classes.<\/p>\n<p>Assim, se multiplicam os conflitos em todos os lugares. A ofensiva militar de Israel sobre os bairros \u00e1rabes de Jerusal\u00e9m enfrenta uma resist\u00eancia unificada nos territ\u00f3rios ocupados. Nos pa\u00edses \u00e1rabes, come\u00e7am processos de mobiliza\u00e7\u00f5es de massas que chegam a desestabilizar regimes, como na Jord\u00e2nia. Uma situa\u00e7\u00e3o similar ocorre em v\u00e1rios pa\u00edses da \u00c1frica negra.<\/p>\n<p>No sul da \u00c1sia, na \u00cdndia (antes do atual recrudescimento da pandemia) ocorreu a maior mobiliza\u00e7\u00e3o de massas desde a independ\u00eancia. Na \u00c1sia oriental, em Myanmar(ex &#8211; Birm\u00e2nia) iniciou-se uma luta armada contra a ditadura militar.<\/p>\n<p>No Leste Europeu, continua o processo da Bielorr\u00fassia, para al\u00e9m da conjuntura de retrocesso, enquanto na R\u00fassia dezenas de milhares de pessoas saem \u00e0s ruas em Moscou e em muitas cidades do pa\u00eds contra Putin, desafiando a dura repress\u00e3o. O ponto mais alto ocorreu na Pol\u00f4nia: centenas de milhares de pessoas (especialmente mulheres) em defesa do direito ao aborto e contra o reacion\u00e1rio regime de Kaczynski. Foram as maiores mobiliza\u00e7\u00f5es no pa\u00eds desde as protagonizadas pelo sindicato Solidarnosc (Solidaridade) na d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p>A resposta contrarrevolucion\u00e1ria e reacion\u00e1ria dos governos tensiona a luta entre as classes. H\u00e1 uma desigualdade de resposta das massas frente \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o dos ataques ao emprego, ao sal\u00e1rio e \u00e0s medidas reacion\u00e1rias. Na Europa ocidental, entre os subs\u00eddios, os planos mais avan\u00e7ados de vacina\u00e7\u00e3o e a a\u00e7\u00e3o das dire\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas, conseguem manter um equil\u00edbrio na rela\u00e7\u00e3o entre as classes. Nos EUA, o governo democrata de Joe Biden tenta reequilibrar essa rela\u00e7\u00e3o que foi quebrada durante o governo de Trump pelas rebeli\u00f5es antirracistas em resposta ao assassinato de George Floyd.<\/p>\n<p>Por sua vez, \u00e9 na Am\u00e9rica do Sul que se\u00a0 realizam as a\u00e7\u00f5es de massas mais extensas e se retoma o que acontecia em 2019: \u00e0 continuidade do processo revolucion\u00e1rio chileno, \u00e0s eclos\u00f5es no Peru e Paraguai, se soma agora a Col\u00f4mbia, com a juventude como vanguarda enfrentando a brutal repress\u00e3o do regime. No Brasil, com um n\u00edvel semelhante de ataques burgueses aos dos outros pa\u00edses latino-americanos, a resposta do proletariado \u00e9 inferior e isto age como um contrapeso na rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Frente \u00e0 a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do movimento de massas, a burguesia tenta det\u00ea-la, atrav\u00e9s de diferentes respostas (sejam reacion\u00e1rias ou contrarrevolucion\u00e1rias) e com a ajuda das diferentes variantes reformistas.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da pandemia, alert\u00e1vamos que, se as muta\u00e7\u00f5es do v\u00edrus evolu\u00edssem para cepas mais letais, significaria um genoc\u00eddio, \u00e9 o que acontece hoje. O capitalismo imperialista e sua destrutiva rela\u00e7\u00e3o com a natureza \u00e9 incapaz de vacinar a maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial. E a crise devida \u00e0 desacelera\u00e7\u00e3o da economia mundial\u00a0 combina-se com outros ataques que s\u00e3o descarregados sobre o proletariado. A rela\u00e7\u00e3o entre luta de classes e pandemia se aprofunda.<\/p>\n<p><strong>O estado atual da pandemia\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>As an\u00e1lises atuais dos jornais burgueses sobre a pandemia s\u00e3o menos confi\u00e1veis que as previs\u00f5es clim\u00e1ticas. N\u00e3o se trata, entretanto, de que o desenvolvimento atual da ci\u00eancia n\u00e3o tenha a capacidade de enfrentar esta pandemia, mas\u00a0 sim, que essa ci\u00eancia foi sequestrada pelo capitalismo imperialista.<\/p>\n<p>Inclusive, os cientistas mais s\u00e9rios alertavam sobre esse risco e de uma poss\u00edvel cat\u00e1strofe apontando numerosos sinais de poss\u00edveis zoonoses. Entre outras, recentemente, a febre su\u00edna africana que aniquilou a metade dos porcos da China.<\/p>\n<p>O que chamamos de \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o imperialista\u201d \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o da abertura generalizada dos mercados de bens e capitais e a expans\u00e3o capitalista na \u00c1sia. Este processo n\u00e3o s\u00f3 criou uma nova divis\u00e3o mundial do trabalho, como for\u00e7a para al\u00e9m de seus limites a explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais do planeta.<\/p>\n<p>A \u201cemerg\u00eancia clim\u00e1tica\u201d e a pandemia s\u00e3o duas manifesta\u00e7\u00f5es da rela\u00e7\u00e3o destrutiva do capital sobre a natureza. Uma das quest\u00f5es chave do futuro do capitalismo \u00e9 em que medida conseguir\u00e1 investir e aumentar o uso de energias renov\u00e1veis sobre as energias de origem f\u00f3ssil (que ainda representam 80% da matriz energ\u00e9tica mundial), em um marco de aumento constante do uso da energia e da destrui\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p>A resposta do capitalismo a estes processos \u00e9 convert\u00ea-los em neg\u00f3cios. Mesmo porque, inclusive as medidas menores e insuficientes do <em>Acordo de Paris<\/em> sobre a emiss\u00e3o de carbono pressup\u00f5em investimentos gigantescos. Por isso, na conjuntura, o Plano Biden usa como argumento a emerg\u00eancia clim\u00e1tica, mas para tentar promover um novo ciclo de investimentos em seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Enquanto isso, ocorre a vingan\u00e7a da natureza. Marx j\u00e1 tinha apontado em <em>O <\/em>\u00a0<em>Capital<\/em> a tend\u00eancia da subordina\u00e7\u00e3o da agricultura \u00e0 ind\u00fastria: a produtividade da primeira aumenta devido a uma escala crescente de insumos que a segunda fornece. Este processo, nos pa\u00edses industrializados, leva a uma tend\u00eancia de desaparecimento das diferen\u00e7as entre cidade e campo.<\/p>\n<p>Este processo de aumento da produtividade agr\u00edcola a partir da industrializa\u00e7\u00e3o do campo faz com que os EUA, com apenas 3% de sua for\u00e7a de trabalho na agricultura, seja o maior produtor e exportador de gr\u00e3os e carnes do mundo, enquanto a China, com 30%, \u00e9 um importador l\u00edquido.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> Ao mesmo tempo ocorre outra tend\u00eancia igualmente importante: a unifica\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o de consumo entre o campo e a cidade. Nos EUA e na Europa ocidental, o consumo de produtos industrializados pela popula\u00e7\u00e3o rural \u00e9 muito semelhante ao da popula\u00e7\u00e3o urbana.<\/p>\n<p>Estas duas tend\u00eancias se concentraram nos pa\u00edses imperialistas, enquanto que na maioria das semicol\u00f4nias e col\u00f4nias, o subdesenvolvimento do campo \u00e9 funcional e condi\u00e7\u00e3o <em>sine qua non<\/em> para o que acontece nos pa\u00edses imperialistas. \u00c9 um desenvolvimento desigual do capitalismo em escala mundial, sublinhado por Lenin. Mas que n\u00e3o anulou as consequ\u00eancias apontadas por Marx e Engels sobre a explora\u00e7\u00e3o capitalista no campo. Como a ind\u00fastria moderna, a tend\u00eancia ao desenvolvimento das for\u00e7as produtivas no campo se traduz em seu oposto<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>: a libera\u00e7\u00e3o de brutais for\u00e7as destrutivas.<\/p>\n<p>A domina\u00e7\u00e3o imperialista leva a industrializa\u00e7\u00e3o da agricultura ao extremo; produ\u00e7\u00e3o intensiva de gado e aves de curral; extra\u00e7\u00e3o de madeira de florestas e selvas; minera\u00e7\u00e3o intensiva; produ\u00e7\u00e3o de energia f\u00f3ssil; pesca industrial, etc. Nos pa\u00edses imperialistas, a completa subordina\u00e7\u00e3o das atividades do setor prim\u00e1rio \u00e0 ind\u00fastria, demorou s\u00e9culos; hoje a domina\u00e7\u00e3o do planeta pelos monop\u00f3lios imperialistas combina e arrasta pa\u00edses em diferentes est\u00e1gios do desenvolvimento capitalista, industrializando as atividades prim\u00e1rias a uma velocidade vertiginosa:<\/p>\n<ul>\n<li>40% da superf\u00edcie livre de gelo da Terra est\u00e1 dedicada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria e constitui o maior bioma terrestre (muitos milh\u00f5es de hectares a mais ser\u00e3o incorporados at\u00e9 2050).<\/li>\n<li>As pastagens e as terras de cultivo ocupam 24.9% e 12.2% respectivamente da \u00e1rea global da Terra.<\/li>\n<li>As aves de curral e o gado representam 72% da biomassa animal global e superam amplamente a da vida selvagem. Em sua maioria est\u00e3o altamente concentrados.<\/li>\n<li>64% dos frangos e outras aves de curral, e os gados bovino, ovino, caprino e su\u00edno est\u00e3o concentrados em 2% da superf\u00edcie de terra do planeta.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>A agricultura intensiva em grandes propriedades; o confinamento de aves e gado em currais superlotados e a minera\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto se combinam com m\u00e9todos tradicionais em muitos pa\u00edses que est\u00e3o se incorporando \u00e0 produ\u00e7\u00e3o para o mercado mundial. Esta mescla de atividades nas margens das grandes florestas submetidas \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de madeira \u00e9 um viveiro de agentes pat\u00f3genos. Tudo isso, se relaciona diretamente com o mundo urbano, como h\u00e1 anos denunciou o epidemi\u00f3logo evolucionista Rob Wallace.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Ele explica que os grandes monop\u00f3lios interferem diretamente na sele\u00e7\u00e3o natural.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Por isso, a atual Covid-19 tem o mesmo curso que <em>\u201cas gripes avi\u00e1ria e su\u00edna altamente pat\u00f3genas e adaptadas ao ser humano. Tendem a surgir primeiro como infec\u00e7\u00f5es recentemente identific\u00e1veis em instala\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o intensiva localizadas perto das principais cidades, tanto nos pa\u00edses plenamente industrializados como naqueles em que se encontram em meio a transi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas para regimes mais industrializados. Das trinta e nove muta\u00e7\u00f5es da gripe avi\u00e1ria de baixa a alta patogenicidade documentadas desde 1959, Madhur Dhingra e outros identificaram que todas, exceto duas, ocorreram em instala\u00e7\u00f5es comerciais, com dezenas ou centenas de milhares de aves.\u201d<\/em><a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Baseado em anos de trabalho sobre a \u00e1rea, o autor vaticina que <em>\u201co SARS-CoV-2, o coronav\u00edrus que varreu o mundo, constitui apenas uma de toda uma s\u00e9rie de novas cepas pat\u00f3genas que apareceram ou reapareceram subitamente como amea\u00e7as aos seres humanos neste s\u00e9culo. Esses surtos\u2014 gripe avi\u00e1ria e su\u00edna, Ebola Makona, febre Q, Zika, entre muitos outros\u2026 podem vincular-se remota ou diretamente <strong>quase todos eles \u00e0s mudan\u00e7as na produ\u00e7\u00e3o ou ao uso da terra relacionados com a agricultura intensiva, e tamb\u00e9m, quando\u00a0 foi o caso, a outros modos de produ\u00e7\u00e3o implicados, entre eles a extra\u00e7\u00e3o madeireira\u00a0 e a minera\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong>.<\/em><a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> \u00c9 necess\u00e1rio tirar uma conclus\u00e3o: n\u00e3o estamos diante da primeira pandemia nem tampouco ser\u00e1 a \u00faltima provocada pela fase imperialista do capitalismo.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>A simbiose entre capital e v\u00edrus<\/strong><\/p>\n<p>Em <em>O Capital<\/em>, Marx afirmou que a sociedade burguesa moderna, com suas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, propriedade e troca, procedia como um bruxo que n\u00e3o controla os poderes de seus feiti\u00e7os. A pandemia, ent\u00e3o \u00e9 um deles.<\/p>\n<p>Foi engendrada pelo capitalismo imperialista que esgota a natureza e a \u00fanica forma que as rela\u00e7\u00f5es humanas mediadas pelo capital tem para enfrent\u00e1-la, \u00e9 converter esta a\u00e7\u00e3o em outro neg\u00f3cio ainda mais lucrativo, como expressou o primeiro ministro Boris Jonhson.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> O combate \u00e0 pandemia em \u00e9pocas de queda da taxa de lucro \u00e9 o grande neg\u00f3cio do in\u00edcio do s\u00e9culoXXI. Mas o v\u00edrus n\u00e3o entende de neg\u00f3cios e n\u00e3o pode ser disciplinado na medida do capital.<\/p>\n<p><em>Ap\u00f3s o an\u00fancio de Biden, feito com muito alarde, que os EUA estariam dispostos a discutir a libera\u00e7\u00e3o das patentes dos imunizantes, o representante de <\/em><em>Washington na reuni\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio(OMC), realizada entre 8 e 9 de junho, parece n\u00e3o ter tomado nota do anunciado por Biden,\u00a0 j\u00e1 que <strong>a Casa Branca N\u00c3O apoiou sequer a suspens\u00e3o tempor\u00e1ria das patentes de vacinas e medicamentos para combater a Covid-19.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Agora, para ocultar sua verdadeira face, os genocidas se esfor\u00e7am para aparecer como \u201cfilantropos\u201d: anunciam na c\u00fapula do G7 a promessa de doar 870 milh\u00f5es de doses de vacinas \u201cpara os mais necessitados\u201d\u2026at\u00e9 2022. Como se fosse pouco, vale lembrar que tinham anunciado um bilh\u00e3o, mas a declara\u00e7\u00e3o mostrou que maquilaram os n\u00fameros contando doses e dinheiro comprometido muito antes desta data.<\/em><a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>Os lucros das farmac\u00eauticas dita o ritmo da vacina\u00e7\u00e3o mundial. Ou seja, as mesmas rela\u00e7\u00f5es sociais que produziram a pandemia, a retroalimentam. As vacinas, que sem d\u00favida\u00a0 s\u00e3o uma conquista espetacular da ci\u00eancia, n\u00e3o conseguem deter a propaga\u00e7\u00e3o da Covid-19, pois o capital \u00e9 um obst\u00e1culo \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o em massa da popula\u00e7\u00e3o mundial. Enquanto isso, sem o ritmo da vacina\u00e7\u00e3o necess\u00e1rio, n\u00e3o se consegue impedir o surgimento de novas cepas<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> que, por ora, s\u00e3o cada vez mais letais e com maior velocidade de propaga\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p>A \u00cdndia possivelmente seja o pa\u00eds que mais concentra todas as contradi\u00e7\u00f5es da incapacidade do sistema capitalista\/imperialista para deter a propaga\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a. \u00c9 um grande exportador de vacinas porque concentra a produ\u00e7\u00e3o daquelas que as farmac\u00eauticas imperialistas n\u00e3o tem interesse em produzir pois as patentes j\u00e1 expiraram.<\/p>\n<p>Nas vacinas mais recentes realiza produ\u00e7\u00e3o terceirizada enquanto os pa\u00edses imperialistas se concentram em investiga\u00e7\u00e3o e desenvolvimento. Por isso, para vacinar sua popula\u00e7\u00e3o na atual pandemia (no marco de uma explos\u00e3o de cont\u00e1gios e mortes), deve pagar <em>royalties <\/em>aos conglomerados farmac\u00eauticos imperialistas. Enquanto sua popula\u00e7\u00e3o morre nas ruas pela pandemia e pela fome, deve cumprir os contratos de fornecer vacinas aos pa\u00edses imperialistas, que monopolizaram at\u00e9 dez inje\u00e7\u00f5es por habitante e concentram 85% das doses aplicadas!<\/p>\n<p>Esta incapacidade de deter e controlar a atual pandemia levanta o debate sobre as novas pandemias futuras. Em uma cr\u00edtica a certas declara\u00e7\u00f5es, Rob Wallace sintetiza assim o problema:<\/p>\n<p><em>\u201cEmpresas como <strong>Animal Agriculture Alliance<\/strong> e <strong>Breakthrough Institute<\/strong> disseram que a biosseguran\u00e7a, a tecnologia e as economias de escala, quanto maiores, melhor, s\u00e3o a \u00fanica forma de nos proteger de outra pandemia. N\u00e3o importa que a produ\u00e7\u00e3o agroindustrial e o monop\u00f3lio de terras realizado em seu nome tenham sido documentados como respons\u00e1veis pelo aparecimento de v\u00e1rios pat\u00f3genos nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Para mitigar a emiss\u00e3o de carbono \u00e9 necess\u00e1rio um gigantesco investimento nas energias renov\u00e1veis<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. No caso dos pat\u00f3genos, \u00e9 necess\u00e1rio reverter a tend\u00eancia de investir nas \u201cf\u00e1bricas agr\u00edcolas\u201d de produ\u00e7\u00e3o de carnes e a agricultura intensiva, de modo definitivo, retroceder da estrutura produtiva atual.<\/p>\n<p>At\u00e9 onde chega a evid\u00eancia cient\u00edfica, a teia que conecta as f\u00e1bricas de carnes com a vida silvestre e a extra\u00e7\u00e3o de madeira de florestas com o mercado global tem sido a respons\u00e1vel pelas epidemias de SARS na China, MERS no Oriente M\u00e9dio, Zika no Brasil, H5Nx na Europa, gripe su\u00edna na China e H1N1 na Am\u00e9rica do Norte. At\u00e9 onde foi poss\u00edvel controlar, as infec\u00e7\u00f5es foram regionais, concentradas em algumas regi\u00f5es do planeta.<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a><\/p>\n<p>Os monop\u00f3lios respons\u00e1veis pela devasta\u00e7\u00e3o ambiental fizeram uma \u201calian\u00e7a\u201d com o v\u00edrus. Em seu horizonte, para contrabalan\u00e7ar as consequ\u00eancias de suas a\u00e7\u00f5es ambientais, a \u00fanica pol\u00edtica \u00e9 gerar outro neg\u00f3cio igualmente lucrativo: as vacinas. Um neg\u00f3cio cuja produ\u00e7\u00e3o e vacina\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o compat\u00edveis com a velocidade de propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus.<\/p>\n<p>Por\u00e9m seja qual for o curso da situa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um problema de fundo que n\u00e3o muda: a incapacidade do capitalismo imperialista para garantir uma vacina\u00e7\u00e3o em escala mundial. A campanha criminosa de todos os governos que disseminam a ideia de que a pandemia est\u00e1 sob controle \u00e9 completamente falsa, inclusive nos pa\u00edses que alcan\u00e7aram um alto grau de vacina\u00e7\u00e3o de sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Uma \u00e9poca de guerras, revolu\u00e7\u00f5es\u2026 e pandemias<\/strong><\/p>\n<p>Pelo que foi dito at\u00e9 aqui, surge a necessidade de atualizar o nosso programa para intervir na crise atual. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio que o movimento oper\u00e1rio tome em suas m\u00e3os a quest\u00e3o ambiental, que deve figurar em nosso programa e propostas pol\u00edticas imediatas.<\/p>\n<p>Em cada um dos pa\u00edses onde intervimos, falta atualizar o Programa de Emerg\u00eancia que apresentamos no in\u00edcio da pandemia, tendo em conta a evolu\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o. Que deve estar expresso nas consignas concretas para cada pa\u00eds, que levem em considera\u00e7\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o entre pandemia e eclos\u00f5es da luta de classes em diferentes pa\u00edses e sua localiza\u00e7\u00e3o na ordem imperialista das na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos saber quanto tempo durar\u00e1 a pandemia, mas sua rela\u00e7\u00e3o com a luta de classes se aprofunda. Por isso, os programas e as respostas pol\u00edticas nacionais devem basear-se, neste momento, no impacto da pandemia, suas consequ\u00eancias sociais e as medidas para enfrent\u00e1-las.<\/p>\n<p><strong>Uma profunda contradi\u00e7\u00e3o para as massas<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio de abril passado, a revista <em>The Economist <\/em>publicou um artigo sobre a pandemia na \u00cdndia. Aos seus leitores, que s\u00e3o acionistas de empresas na \u00cdndia, mesmo compartilhando as reacion\u00e1rias ideologias do governo Modi, foi mais cuidadosa diante dos progn\u00f3sticos:<\/p>\n<p><em>\u201c<\/em><em>Felizmente para a \u00cdndia e seus vizinhos, a taxa de mortalidade por Covid-19 parece relativamente baixa, inclusive tendo em conta uma subnotifica\u00e7\u00e3o significativa. Provavelmente isto se deva em parte \u00e0 popula\u00e7\u00e3o da \u00c1sia meridional ser relativamente jovem e, portanto, menos suscet\u00edvel \u00e0 doen\u00e7a. A dieta, o clima e a exposi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via aos pat\u00f3genos tamb\u00e9m podem influir. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 uma defasagem natural de varias semanas entre as infec\u00e7\u00f5es e as mortes, pelo que \u00e9 prov\u00e1vel que as mortes aumentem substancialmente em todo o subcontinente no final deste m\u00eas. A segunda onda da pandemia no sul da \u00c1sia piorar\u00e1 antes de melhorar\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Enquanto escrev\u00edamos este material, segundo os informes diretos que recebemos a partir do pa\u00eds, h\u00e1, no m\u00ednimo, 25.000 mortes di\u00e1rias. Nenhum cientista s\u00e9rio poderia atribuir que a baixa mortalidade da \u201cprimeira onda\u201d tenha sido pela \u201cdieta\u201d, pelo \u201cclima\u201d ou <em>pelas <\/em>\u00a0\u201cvantagens\u201d da pobreza e <em>\u201ca \u00a0exposi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via aos pat\u00f3genos\u201d<\/em> como fatores que contrabalancem. \u00c9 uma campanha asquerosa da burguesia.<\/p>\n<p>Em uma nota publicada neste site, o autor, al\u00e9m de descrever a aterradora situa\u00e7\u00e3o do proletariado, sintetiza os dilemas diante dos quais nos encontramos<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>:<\/p>\n<p><em>\u201c[\u2026]<\/em> <em>Havia um ar de triunfalismo, como se o v\u00edrus tivesse desaparecido. As pessoas voltaram \u00e0 sua rotina, muitos deixaram de usar m\u00e1scaras ou tomar precau\u00e7\u00f5es, o governo tamb\u00e9m come\u00e7ou a se concentrar mais nas elei\u00e7\u00f5es que na pandemia. Durante os meses de decl\u00ednio da primeira onda fomos testemunhas de algumas das maiores mobiliza\u00e7\u00f5es de massa vistas no pa\u00eds desde a independ\u00eancia.<\/em> <strong><em>Uma \u00a0greve geral em novembro de 2020, protestando contra a reforma trabalhista, seguida por mobiliza\u00e7\u00f5es de protesto de camponeses contra as leis agr\u00edcolas.\u201d <\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 como se uma espada estivesse apoiada na cabe\u00e7a do proletariado. Ao mover-se, penetrar\u00e1 rapidamente em seu cr\u00e2nio, se ficar im\u00f3vel, o far\u00e1 igualmente pelo seu pr\u00f3prio peso. Modi, como todos os governos subordinados aos ditames do imperialismo, aproveitou a pandemia para lan\u00e7ar um pacote dur\u00edssimo contra o proletariado e os camponeses, e teve como resposta uma das<em> \u201cmaiores mobiliza\u00e7\u00f5es de massa vistas no pa\u00eds desde a independ\u00eancia\u201d.<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o se pode afirmar que esta mobiliza\u00e7\u00e3o seja a respons\u00e1vel pela \u201csegunda onda\u201d da pandemia. O relaxamento das medidas, a abertura dos festivais religiosos e as elei\u00e7\u00f5es em Bihar<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>, formam uma totalidade. Entretanto, somente as manifesta\u00e7\u00f5es da greve geral e a manifesta\u00e7\u00e3o camponesa foram reprimidas em nome do <em>\u201cisolamento social\u201d<\/em>. Apesar dos objetivos do reacion\u00e1rio governo Modi, tamb\u00e9m n\u00e3o podemos negar que tenha sido um elemento a mais.<\/p>\n<p>Da mesma forma, a leg\u00edtima rebeli\u00e3o das massas colombianas tentar\u00e1 ser utilizada, certamente, contra elas por Duque e seus canalhas. O dilema do proletariado est\u00e1 sintetizado em um cartaz de um ativista colombiano:<em> \u201cDuque \u00e9 pior que o v\u00edrus!\u201d<\/em>. As poucas e insuficientes medidas de isolamento dos governos nos pa\u00edses dominados t\u00eam significado mais fome, mis\u00e9ria e desemprego. Os mortos nas ruas da \u00cdndia s\u00e3o somente o exemplo mais dram\u00e1tico do que ocorre em toda a Am\u00e9rica Latina. A situa\u00e7\u00e3o do mundo semicolonial se encontra na descri\u00e7\u00e3o de Marx sobre a domina\u00e7\u00e3o inglesa na \u00cdndia: <em>\u201cA profunda hipocrisia e barb\u00e1rie inerentes \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o burguesa est\u00e3o diante de nossos olhos, quando os desviamos de sua casa, onde toma formas respeit\u00e1veis, para as col\u00f4nias, onde est\u00e1 desnuda\u201d.<\/em><\/p>\n<p>O ascenso tal qual estamos acostumados, que \u00e9 o resultado de um processo acumulativo de lutas parciais, at\u00e9 que ganhe outra dimens\u00e3o por fora dos trilhos dos regimes, parece improv\u00e1vel pelas dificuldades de a\u00e7\u00f5es isoladas pela crise e pela pandemia, somadas \u00e0 trai\u00e7\u00e3o das dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As caracter\u00edsticas da explos\u00e3o estadunidense tendem a se impor. O assassinato de George Floyd, como dissemos, foi \u201ca gota d\u2019\u00e1gua\u201d da opress\u00e3o negra, combinada com a pandemia e o rebaixamento das condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia do proletariado em seu conjunto, e da popula\u00e7\u00e3o negra em particular. Ao combinar-se com a repress\u00e3o, radicalizou a a\u00e7\u00e3o das massas convertendo-a em um processo nacional.<\/p>\n<p>Entretanto, a crise de dire\u00e7\u00e3o incide igualmente no fato de os batalh\u00f5es pesados da classe oper\u00e1ria n\u00e3o terem entrado em a\u00e7\u00e3o. Permite assim que os grandes recursos do Estado \u2013 com a divis\u00e3o de tarefas entre os partidos Democrata e Republicano \u2013 e a ajuda dos aparatos que dirigem o movimento (como <em>Black Lives Matters<\/em>) consigam desviar o processo aberto para as elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mesmo assim, o desequil\u00edbrio entre as classes tem sido um ponto de inflex\u00e3o na vida pol\u00edtica estadunidense. A polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, nunca antes vista em uma elei\u00e7\u00e3o presidencial, dividiu o pa\u00eds em dois. O reequil\u00edbrio das rela\u00e7\u00f5es entre as classes (reconstituir a fratura aberta) \u00e9 o principal desafio da administra\u00e7\u00e3o Biden, ou seja o fator pol\u00edtico ser\u00e1 o determinante.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o que descrevemos na Declara\u00e7\u00e3o Europeia da LIT<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a> mescla tempos pol\u00edticos diferentes entre o Leste Europeu e o ocidente. Enquanto no ocidente no futuro pr\u00f3ximo se prepara um novo retrocesso social generalizado, fruto das condi\u00e7\u00f5es impostas pelos \u201cfundos de recupera\u00e7\u00e3o\u201d expressamente condicionados ao cumprimento das \u201crecomenda\u00e7\u00f5es\u201d da Comiss\u00e3o Europeia. Isto significa n\u00e3o apenas que ser\u00e3o investidos em projetos de acordo com os interesses da grande ind\u00fastria e as finan\u00e7as alem\u00e3s e francesas, mas tamb\u00e9m que os governos dever\u00e3o cumprir estritamente as \u201creformas estruturais\u201d e as medidas de austeridade que a Comiss\u00e3o Europeia lhes ditar. N\u00e3o obstante, nesta conjuntura tem sido um fator de estabiliza\u00e7\u00e3o da luta de classes no ocidente ,com a cumplicidade da burocracia sindical e o reformismo.<\/p>\n<p>Neste contexto, \u00e9 preciso ressaltar a mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores da Alitalia contra seu desmantelamento e em defesa de uma companhia p\u00fablica , unida e sem demiss\u00f5es. \u00c9 o primeiro grande movimento de trabalhadores contra o novo e flamejante governo Draghi. Sua luta \u00e9, provavelmente, a mais importante na Europa hoje. Isto pela sua relev\u00e2ncia\u00a0 econ\u00f4mica e pol\u00edtica, pela massividade e combatividade de sua mobiliza\u00e7\u00e3o, pelo amplo transbordamento das burocracia sindicais e pela disputa das\/os trabalhadores\/as em tomar diretamente em suas m\u00e3os o controle da luta, dando um exemplo \u00e0 classe trabalhadora europeia.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de estabilidade pol\u00edtica e institucional na UE, entretanto, esconde grandes fragilidades. As crises dos governos tem favorecido o crescimento da direita e da ultradireita, ao mesmo tempo em que provocam a bancarrota da esquerda reformista que marcar\u00e3o o ciclo pol\u00edtico p\u00f3s pandemia.<\/p>\n<p>A luta de classes adquire um car\u00e1ter explosivo, bem como profundamente desigual e concentrado nos pa\u00edses dominados.<\/p>\n<p>Por isso, em primeiro lugar, h\u00e1 que preparar-se para reviravoltas\u00a0 bruscas da luta de classes, particularmente nos pa\u00edses dominados. Esta caracter\u00edstica geral encontra-se presente, inclusive considerando as especificidades nacionais, na maioria dos pa\u00edses que romperam o equil\u00edbrio entre as classes durante a pandemia.<\/p>\n<p>A vida se torna insuport\u00e1vel pela combina\u00e7\u00e3o perversa do genoc\u00eddio que atinge com for\u00e7a avassaladora os setores oprimidos (imigrantes, popula\u00e7\u00e3o negra, o incremento da opress\u00e3o \u00e0s mulheres) com as medidas que reduzem as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia ao m\u00ednimo, ou menos: as reformas trabalhistas, a redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, as reformas tribut\u00e1rias regressivas. Tudo isso em plena pandemia.<\/p>\n<p>Apesar da profunda unidade das condi\u00e7\u00f5es objetivas nas semicol\u00f4nias, a rea\u00e7\u00e3o das massas parece vincular-se \u00e0 situa\u00e7\u00e3o anterior da luta de classes. A pandemia objetivamente, pelo cont\u00e1gio e as mortes, abre uma situa\u00e7\u00e3o defensiva ou congela a fase anterior. Neste marco, a caracter\u00edstica fundamental \u00e9 a desigualdade.<\/p>\n<p><strong>Luta de classes na Am\u00e9rica do Sul<\/strong><\/p>\n<p>A Col\u00f4mbia \u00e9 hoje o centro da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das massas no subcontinente, compartilhando caracter\u00edsticas comuns com os levantes das massas no Chile, Peru e Paraguai. A nova situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a continuidade das mobiliza\u00e7\u00f5es de 2019, por\u00e9m mais profunda e ampliada. Aqui, desenvolveremos algumas conclus\u00f5es gerais e sua rela\u00e7\u00e3o regional. O \u00faltimo informe da CEPAL estima que o n\u00famero total de pobres na regi\u00e3o aumentou para 209 milh\u00f5es, em fins de 2020, o que representa 22 milh\u00f5es de pessoas a mais que no ano anterior. Se o PIB mundial caiu 3%, em 2020,\u00a0 na Am\u00e9rica Latina o flagelo foi de 7%. Em pa\u00edses como o Peru foi ainda mais profundo: -11%.<\/p>\n<p>O efeito social desta cat\u00e1strofe \u00e9 similar ao de uma guerra, estima-se que, em 2020, a taxa de \u201cpobreza extrema\u201d foi de 12,5% enquanto que a taxa de \u201cpobreza moderada\u201d afetou 33,7%. da popula\u00e7\u00e3o. Estes n\u00fameros crescem em 2021.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Trata-se de uma mudan\u00e7a brusca nas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia.<\/strong> No decurso de poucos anos, passa-se das migalhas recebidas do \u201cboom\u201d das \u201ccommodities\u201d \u00e0 crise e, depois, ao impacto da pandemia, levando ao limite as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia das massas no subcontinente. Ao mesmo tempo, n\u00e3o se trata do resultado de uma derrota que imponha um novo equil\u00edbrio entre as classes que se estabiliza em novos n\u00edveis de pobreza. A mudan\u00e7a s\u00fabita, al\u00e9m das expectativas frustradas, impacta todo o proletariado, mas muito mais a juventude.<\/p>\n<p>Em anos anteriores, o alto grau de explora\u00e7\u00e3o era suportado pelas massas, na medida em que existia algum n\u00edvel de previsibilidade para suas vidas e uma promessa de certa mobilidade social ascendente. Essa realidade explodiu. A diferente rea\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses guarda uma profunda rela\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o pr\u00e9via \u00e0 cat\u00e1strofe pand\u00eamica. Por isto vale a pena lembrar alguns aspectos.<\/p>\n<p><strong>O reformismo e sua crise anterior \u00e0 pandemia<\/strong><\/p>\n<p>A insurrei\u00e7\u00e3o equatoriana em 2000 iniciou uma onda de mobiliza\u00e7\u00f5es, insurrei\u00e7\u00f5es e semi-insurrei\u00e7\u00f5es em resposta ao ajuste aplicado em un\u00edssono pelas burguesias crioulas. O ajuste tinha como contrapartida a abertura do mercado asi\u00e1tico \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es dos recursos naturais da regi\u00e3o, controlado pelos monop\u00f3lios internacionais. A burguesia regional entrou como s\u00f3cia menor no caminho da nova onda de saque do subcontinente.<\/p>\n<p>A crise de dire\u00e7\u00e3o impediu que a a\u00e7\u00e3o direta das massas derrotasse o ajuste. Esta onda insurrecional d\u00e1 lugar a diferentes governos de colabora\u00e7\u00e3o de classes de forma direta (Ch\u00e1vez, Correa, Kirchner, Evo Morales, Humala) e, outros de forma mais indireta (Lula, V\u00e1zquez, Lugo). No Chile, Lagos (2000) e os sucessivos governos de Bachelet, o \u00faltimo integrado pelo PC chileno, aprofundaram o sistema de espolia\u00e7\u00e3o planejado durante a ditadura de Pinochet. Todos, sem exce\u00e7\u00e3o, fizeram o oposto do que a a\u00e7\u00e3o de massas buscava que os levantou e mant\u00e9m intacto o projeto recolonizador.<\/p>\n<p>A Col\u00f4mbia, seja pela presen\u00e7a da guerrilha, ou pela especificidade do produto que exporta (ou por ambos, em todo caso), n\u00e3o se integra ao mesmo fen\u00f4meno pol\u00edtico. N\u00e3o obstante, todos aproveitam o aumento dos pre\u00e7os dos recursos naturais exportados pela expans\u00e3o capitalista na \u00c1sia. A conta gotas, concedem algumas migalhas, alguma previsibilidade \u00e0 vida do proletariado.<\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o nos pre\u00e7os dos produtos b\u00e1sicos exigiu um novo ajuste, capitaneado pelos governos de colabora\u00e7\u00e3o de classes, que incrementou a pilhagem para compensar a queda dos pre\u00e7os e a superexplora\u00e7\u00e3o do proletariado e camponeses.<\/p>\n<p>Antes da pandemia, as velhas classes dominantes disputavam o controle dos neg\u00f3cios. De forma violenta, na Bol\u00edvia; de forma parlamentar, no Brasil, Uruguai, Peru e Argentina, entre 2015\/19.<\/p>\n<p>No ciclo anterior, desviaram a possibilidade de derrotar o projeto colonial; cooptaram e institucionalizaram as organiza\u00e7\u00f5es do movimento oper\u00e1rio e de massas; desmoralizaram um setor das massas que depositou sua confian\u00e7a neles. Com sua crise, prepararam o terreno para a rea\u00e7\u00e3o e a contrarrevolu\u00e7\u00e3o. Como regra geral, o reformismo, em suas diferentes vers\u00f5es, antes da pandemia j\u00e1 sofria uma crise importante, apesar da recupera\u00e7\u00e3o de alguns governos, como a Argentina.<\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica da pandemia, que compromete a riqueza nacional e leva \u00e0 divis\u00e3o interburguesa, al\u00e9m disso, coloca em cena o proletariado urbano, os estratos m\u00e9dios e a pequena burguesia urbana e rural.<\/p>\n<p>O reformismo, provavelmente, aparecer\u00e1 como um fen\u00f4meno eleitoral regional. Mas sua volta \u00e0 cena no marco atual guarda diferen\u00e7as com o per\u00edodo anterior, \u00e9 mais contradit\u00f3rio, sempre com o objetivo de manter as massas no beco sem sa\u00edda da democracia burguesa.<\/p>\n<p>Uma destas diferen\u00e7as \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o se trata mais de aproveitar o ascenso econ\u00f4mico, mas de administrar uma crise de propor\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas. Da crise anterior, ficou na mem\u00f3ria de um setor das massas, os ajustes protagonizados pelos seus governos. A derrota do candidato de Correa no Equador \u00a0para a direita burguesa, o triunfo apertad\u00edssimo do candidato ind\u00edgena de apar\u00eancia mais radical, no Peru, frente \u00e0 direitista filha de Fujimori, e a derrota da Frente Ampla no Uruguai, possivelmente expressam esta contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, ap\u00f3s a eclos\u00e3o em alguns pa\u00edses, n\u00e3o est\u00e1 descartada sua utiliza\u00e7\u00e3o eleitoral pelas massas para \u201ccastigar\u201d os governos vigentes: por exemplo, o pr\u00f3prio triunfo de Castillo no Peru; a \u201creabilita\u00e7\u00e3o\u201d eleitoral de Lula decidida pela grande burguesia brasileira; o ascenso de Petro na Col\u00f4mbia. Etc.<\/p>\n<p>Agora, quando a polariza\u00e7\u00e3o entre as classes \u00e9 ainda mais sangrenta, tentam unir as diferentes fra\u00e7\u00f5es burguesas: o \u201cpacto hist\u00f3rico\u201d de Petro; o acordo \u201cPela refunda\u00e7\u00e3o de nossa p\u00e1tria\u201d de Castillo; a frente \u201campl\u00edssima\u201d de Lula, o \u201cpacto pela paz\u201d no Chile, (tacitamente apoiado pelo PC). Mais do que apresentarem-se como uma das fra\u00e7\u00f5es burguesas em disputa, de acordo com a situa\u00e7\u00e3o da luta de classes, tentam ser a dobradi\u00e7a entre as diferentes fra\u00e7\u00f5es burguesas. Em qualquer caso, de dentro ou fora dos governos, o reformismo \u00e9 o principal agente da burguesia para manter a escravid\u00e3o do proletariado. A profundidade da crise os converte no principal apoio do regime capitalista<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso estudar a fundo os resultados das elei\u00e7\u00f5es \u00e0 Assembleia Constituinte chilena. O PCCh e a Frente Ampla saem bem localizados e se fortalecem com a prefeitura de Santiago. Entretanto, a grande surpresa foi o \u00eaxito das listas independentes. Isso pode indicar o desgaste do reformismo na vanguarda a partir do processo aberto em outubro de 2019, que eclodiu e se manteve por fora dos grandes aparatos. Nesse contexto, os revolucion\u00e1rios podem disputar com certo \u00eaxito uma faixa da vanguarda.<\/p>\n<p><strong>As caracter\u00edsticas comuns da luta de classes<\/strong><\/p>\n<p>A pandemia foi o acelerador das eclos\u00f5es no Paraguai e Peru, pa\u00eds que, antes dela, tinham um equil\u00edbrio est\u00e1vel. Seu impacto \u00e9 um obst\u00e1culo \u00e0 luta, mas ao mesmo tempo, \u00e9 um acelerador das contradi\u00e7\u00f5es que abre um desequil\u00edbrio entre as classes.<\/p>\n<p>No Peru, a explos\u00e3o foi canalizada para o processo eleitoral. A fragmenta\u00e7\u00e3o burguesa no primeiro turno permitiu a Castillo, um professor rural (que h\u00e1 poucos anos liderou a maior greve de professores dos \u00faltimos tempos) ultrapassasse a frente reformista apoiada pelo PC.<\/p>\n<p>No momento de fechar este artigo, Castillo venceu por uma diferen\u00e7a apertad\u00edssima no segundo turno e \u00e9 reconhecido como vencedor pela justi\u00e7a eleitoral. Castillo (com apenas 19% dos votos v\u00e1lidos no primeiro turno) foi o <em>\u201cdeposit\u00e1rio casual do descontentamento dos setores mais marginalizados pelo sistema, os subempregados e desempregados dos povoados mais abandonados e das zonas mais marginais das grandes cidades\u201d<\/em><a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a> Para obter a confian\u00e7a burguesa, assinou o <em>\u201cCompromisso com o povo peruano\u201d<\/em> no qual afirma respeitar <em>\u201cos tratados internacionais que o Peru assinou\u201d<\/em> e que uma <em>\u201cAssembleia Constituinte ser\u00e1 realizada dentro do marco jur\u00eddico vigente\u201d<\/em>.<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a><\/p>\n<p>A continuidade de ambos os processos depender\u00e1 fundamentalmente das massas sustentarem suas a\u00e7\u00f5es por fora dos aparatos. Tem sido, at\u00e9 o momento, a caracter\u00edstica central do processo chileno e colombiano.<\/p>\n<p><strong>A classe oper\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>Nos processos revolucion\u00e1rios anteriores \u00e0 pandemia (Chile, Equador e Col\u00f4mbia, 2019) o proletariado industrial n\u00e3o interveio como classe organizada. Esta caracter\u00edstica se mant\u00e9m no in\u00edcio do ascenso em 2021(Paraguai, Peru, Col\u00f4mbia).<\/p>\n<p>Al\u00e9m da inseguran\u00e7a diante do desemprego nos setores formais, parece que marca mais fundo a informalidade no trabalho, que alcan\u00e7a n\u00fameros assustadores: Bol\u00edvia, 84%; Paraguai, 68,9%; Col\u00f4mbia, 62,1%; Brasil 47% e Argentina 49%.<\/p>\n<p>Este fen\u00f4meno gera uma massa de \u201ctrabalhadores aut\u00f4nomos\u201d, precarizados, que vivem o dia a dia, concentrados na periferia das grandes cidades. Esta massa, na situa\u00e7\u00e3o atual, s\u00f3 pode se expressar na forma de eclos\u00f5es sociais ou nas elei\u00e7\u00f5es. Seu giro para a direita ou esquerda gera fen\u00f4menos como Castillo e seu populismo de esquerda, mas tamb\u00e9m \u00e9 presa f\u00e1cil da ultradireita, que a disputa.<\/p>\n<p>Neste contexto, a classe oper\u00e1ria com empregos formais se torna mais \u201cconservadora\u201d para sustentar o que lhe resta: o direito de ser explorada com alguma seguran\u00e7a m\u00ednima de continuidade. Acompanha o movimento de conjunto do proletariado, mas, localizando-se na retaguarda, n\u00e3o na linha de frente. Quando participa como vanguarda est\u00e1 no meio do turbilh\u00e3o como um a mais. A burocracia sindical, que \u00e9 parte do ajuste, se alimenta de suas consequ\u00eancias e bloqueia as lutas isoladas, pelas dificuldades da crise, ao mesmo tempo bloqueia a\u00e7\u00f5es unificadas como classe. As dificuldades do movimento oper\u00e1rio organizado para \u201cgolpear\u201d esta faixa social, que oscila entre o proletariado e seu \u201cex\u00e9rcito de reserva\u201d constituem o grande desafio dos processos revolucion\u00e1rios em curso.<\/p>\n<p><strong>A juventude como vanguarda\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>A juventude tem sido a vanguarda das a\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, antes e durante a pandemia. Em 2019, no Chile foi a fa\u00edsca da explos\u00e3o, o mesmo na Col\u00f4mbia. Em plena pandemia,\u00a0 tamb\u00e9m foi no Peru e Paraguai; e na \u201csegunda onda\u201d, ainda mais profunda, na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata exclusivamente, nem centralmente, da juventude estudantil. E sim da massa de jovens como faixa et\u00e1ria, amontoados nos bairros das grandes cidades, sem perspectiva de trabalho fixo, desempregados ou precarizados.<\/p>\n<p>No passado, uma gera\u00e7\u00e3o da vanguarda juvenil foi destru\u00edda pelo foquismo guerrilheiro castro guevarista, depois da revolu\u00e7\u00e3o cubana. Mais recentemente, viveu a frustra\u00e7\u00e3o da farsa do castrochavismo burgu\u00eas. Hoje, pode-se constatar que os aparatos contrarrevolucion\u00e1rios n\u00e3o conseguem ser um fator de atra\u00e7\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel que, na Am\u00e9rica do Sul, vivamos um fen\u00f4meno similar ao da \u201cprimavera \u00e1rabe\u201d (que tamb\u00e9m se repetiu em 2013 no Brasil). Um processo que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel como consequ\u00eancia direta da explos\u00e3o do estalinismo como aparato mundial.<\/p>\n<p>No Chile, a juventude que toma as ruas foi parida nos governos da Concerta\u00e7\u00e3o. O maior aparato contrarrevolucion\u00e1rio do pa\u00eds, o PC n\u00e3o a controla, embora tenha importantes for\u00e7as organizadas.<\/p>\n<p>Na Col\u00f4mbia, a guerrilha das FARC, ao mesmo tempo em que consumia parte dos ativistas, ap\u00f3s sua derrota\/ capitula\u00e7\u00e3o e sua incorpora\u00e7\u00e3o ao regime, p\u00f5e a descoberto as rela\u00e7\u00f5es do Estado com o narcotr\u00e1fico e os paramilitares, abrindo assim todas as contradi\u00e7\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p>No Peru, ap\u00f3s o fim da guerrilha do \u201cSendero Luminoso\u201d e da ditadura de Fujimori, na democracia burguesa, desfilaram, um atr\u00e1s do outro, governos corruptos a servi\u00e7o das multinacionais mineradoras, sem oferecer presente e tampouco futuro, por fora da precariedade e do desemprego. Segundo uma pesquisa do Instituto de Estudos Peruanos, mais da metade dos jovens de 18 a 24 anos participaram dos protestos.<\/p>\n<p>Um dos desafios que temos como revolucion\u00e1rios \u00e9 nos conectarmos com este fen\u00f4meno, com esses jovens dos bairros populares, com esses jovens oper\u00e1rios precarizados. Isto faz parte da estrat\u00e9gia de constru\u00e7\u00e3o de nossos Partidos no movimento oper\u00e1rio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da a\u00e7\u00e3o comum, faz falta uma profunda disputa program\u00e1tica e pol\u00edtica. Estes jovens s\u00e3o atra\u00eddos pela ultraesquerda na a\u00e7\u00e3o, mas depois pelo reformismo na estrat\u00e9gia. Ou seja, n\u00e3o v\u00e3o mais al\u00e9m de suas demandas parciais ou democr\u00e1ticas. Por isso, s\u00e3o presas f\u00e1ceis do regime. Sem uma pol\u00eamica program\u00e1tica sustentada e dura, n\u00e3o ganharemos os melhores.<\/p>\n<p><strong>Nossas tarefas<\/strong><\/p>\n<p>Se n\u00e3o interviermos de dentro dos processos concretos n\u00e3o vamos nos construir como polo revolucion\u00e1rio. Estar nas manifesta\u00e7\u00f5es, barricadas e enfrentamentos com a repress\u00e3o, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a disputa da dire\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o suficiente: se n\u00e3o vier acompanhada da disputa pol\u00edtica, program\u00e1tica e te\u00f3rica n\u00e3o ganharemos o melhor dessa vanguarda.<\/p>\n<p>Nossas propostas devem responder e conectar as necessidades imediatas das massas com as mediatas, apresentando nossa estrat\u00e9gia socialista e revolucion\u00e1ria. Ou seja, a resposta \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o brusca das condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia e a luta pela sobreviv\u00eancia na pandemia devem se conectar com o ataque \u00e0 propriedade privada e \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o dos regimes lacaios do imperialismo que sustentam esta m\u00e1quina genocida.<\/p>\n<p>Esta batalha pol\u00edtica e program\u00e1tica deve ser constru\u00edda com a defesa intransigente do verdadeiro socialismo, em dura pol\u00eamica com o castrochavismo, o estalinismo reciclado e outras variantes do reformismo.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, se uma caracter\u00edstica comum tem sido a eclos\u00e3o por fora dos aparatos, a principal debilidade para avan\u00e7ar tem sido, at\u00e9 agora, os processos de auto-organiza\u00e7\u00e3o. Em geral tem sido embrion\u00e1rios, n\u00e3o centralizados e ao calor das a\u00e7\u00f5es. Ao mesmo tempo, como surgem nos bairros, se mant\u00e9m separados das estruturas oper\u00e1rias.<\/p>\n<p>Uma tarefa de muita import\u00e2ncia \u00e9 a luta anti-imperialista. Mas n\u00e3o como uma tarefa \u00e0 parte, desvinculada das necessidades das massas. A tarefa da liberta\u00e7\u00e3o nacional deve ser expressa como parte integrante da luta contra as medidas que entregam ao imperialismo grande parte da riqueza produzida pelos trabalhadores, pelos lacaios da burguesia crioula, e que deveria ser utilizada contra as consequ\u00eancias sociais da pandemia.<\/p>\n<p>Nesta luta para ganhar a consci\u00eancia de um setor da vanguarda, nos enfrentamos com os aparatos reformistas que sustentam o capitalismo. Quanto mais aguda for a luta de classes, mais estes agentes da burguesia agem para desviar o processo at\u00e9 o caminho dos regimes, ou utilizam os triunfos parciais arrancados pela irrup\u00e7\u00e3o violenta das massas, para paralisar o movimento. Passa a ser central a den\u00fancia e a luta contra os pactos e acordos como o \u201cPacto pela Paz\u201d no Chile; o \u201cPacto hist\u00f3rico\u201d, na Col\u00f4mbia; \u201cA \u00a0refunda\u00e7\u00e3o de nossa p\u00e1tria\u201d no Peru, que tem como objetivo impedir que as massas levem sua luta at\u00e9 o final.<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o paciente das consignas, das tarefas imediatas e mediatas; enfim, do nosso programa, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para ganhar um setor dos ativistas. A explica\u00e7\u00e3o paciente n\u00e3o implica em negar a interven\u00e7\u00e3o, pelo contr\u00e1rio. Quanto mais envolvidos estivermos nos processos, \u00a0ainda mais necess\u00e1rio se torna \u00a0aprofundar a discuss\u00e3o das tarefas centrais: toda a\u00e7\u00e3o imediata deve ser fundamentada na estrat\u00e9gia. A pol\u00eamica program\u00e1tica que fundamenta a estrat\u00e9gia e a luta te\u00f3rica conservam rela\u00e7\u00e3o direta com as consignas.<\/p>\n<p>Entre 1920-1922, Lenin e Trotsky travaram uma dura batalha no interior da III Internacional. Se por um lado, os partidos comunistas deviam se libertar dos elementos vacilantes oriundos do reformismo, por outro lado, insistiram que a condi\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria do proletariado consistia na firmeza das tarefas do momento e em conseguir a maioria da classe oper\u00e1ria:<\/p>\n<p><em>\u00a0\u201cA tarefa do Partido Comunista consiste em participar ativamente da luta empreendida pela classe oper\u00e1ria, a fim de conquistar, durante tal luta, <strong>a maioria desta classe.<\/strong> Se a situa\u00e7\u00e3o, em qualquer pa\u00eds, se torna extremamente cr\u00edtica, estamos obrigados a focar nas quest\u00f5es fundamentais da maneira mais intransigente e a <\/em><strong><em>combater no <\/em><\/strong><strong><em>estado em que os acontecimentos nos encontrem\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Junho de 2021<\/p>\n<p>Refer\u00eancias;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>Vale destacar\u00a0 que a intensidade da tecnologia aplicada \u00e0 agricultura converteu a Holanda, um pa\u00eds 205 vezes menor que o Brasil, no segundo exportador agr\u00edcola mundial.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u201cComo na ind\u00fastria urbana, na agricultura moderna a intensifica\u00e7\u00e3o da for\u00e7a produtiva e a mobiliza\u00e7\u00e3o do trabalho mais r\u00e1pida s\u00e3o obtidas \u00e0 custa de devastar e esgotar a for\u00e7a de trabalho do oper\u00e1rio. Al\u00e9m disso, todo progresso, realizado na agricultura capitalista, n\u00e3o \u00e9 apenas um progresso na arte de esgotar o oper\u00e1rio, mas tamb\u00e9m na arte de esgotar a terra, e cada passo dado na intensifica\u00e7\u00e3o de sua fertilidade dentro de um periodo de tempo determinado, \u00e9 por sua vez um passo dado no esgotamento das fontes perenes que alimentam tal fertilidade. Este processo de liquida\u00e7\u00e3o \u00e9 tanto mais r\u00e1pido quanto mais um pa\u00eds se ap\u00f3ia, como ocorre por exemplo com os Estados Unidos da Am\u00e9rica, sobre a grande ind\u00fastria, como base de seu desenvolvimento. Portanto, a produ\u00e7\u00e3o capitalista s\u00f3 sabe desenvolver a t\u00e9cnica e a combina\u00e7\u00e3o do processo social de produ\u00e7\u00e3o minando ao mesmo tempo as duas fontes originais de toda a riqueza: a terra e o homem\u201d (t. I, se\u00e7\u00e3o Quarta, cap. XIII).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Rob Wallace. Planeta Fazenda. Le Monde Diplomatique Brasil. Abril, 2021.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 R. Wallace. Dead epidemologists, on the origines of Covid-19. MONTHLY REVIEW PRESS, NEW YORK, 2020.\/\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 R. Wallace. Pandemia e agroneg\u00f3cio. pandemia e ci\u00eancia. Editora Elefante, 2021 S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>\u00a0 A extra\u00e7\u00e3o madeireira, a minera\u00e7\u00e3o e a agricultura intensiva de planta\u00e7\u00e3o, racionalizam drasticamente essa complexidade natural. Embora muitos pat\u00f3genos dessas \u201cfronteiras neoliberais\u201d pere\u00e7am com suas esp\u00e9cies hospedeiras como resultado, um subconjunto de infec\u00e7\u00f5es que antes desapareciam com relativa rapidez na floresta, ainda que s\u00f3 pelo ritmo irregular de seu encontro com suas esp\u00e9cies hospedeiras caracter\u00edsticas, agora est\u00e3o se propagando muito mais amplamente atrav\u00e9s de popula\u00e7\u00f5es suscet\u00edveis. O que antes foram surtos locais agora repentinamente s\u00e3o epidemias, algumas das quais abrem passagem pelas redes mundiais de viagens e comercio. Grandes Granjas, Grandes Gripes, agroind\u00fastrias e doen\u00e7as infecciosas. Capit\u00e3o Swing, 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 IDEM.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 IDEM (destaque\u00a0 nosso)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Daniel Sugasti. O imperialismo imp\u00f5e um apartheid das vacinas: https:\/\/litci.org\/pt\/63498-2\/<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 https:\/\/litci.org\/pt\/a-pandemia-nao-sera-derrotada-com-doacoes\/<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a>\u00a0 <em>Temos que reconhecer, pois, que a evolu\u00e7\u00e3o e a propaga\u00e7\u00e3o dos pat\u00f3genos de maior \u00eaxito sejam definidos por uma din\u00e2mica espa\u00e7o temporal desigual que lhes permite iludir, de muitos modos, nossos esfor\u00e7os para descobrir a natureza de sua propaga\u00e7\u00e3o. Como resultado, somos menos capazes de propor facilmente interven\u00e7\u00f5es para o controle ou a extirpa\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, em um mundo\u00a0 no qual os v\u00edrus e as bact\u00e9rias evoluem em resposta \u00e0 infraestrutura multifacetada da humanidade \u2014inclu\u00edda nossa ci\u00eancia\u2014, nossas dificuldades epistemol\u00f3gicas e nossas dificuldades epidemiol\u00f3gicas podem coincidir. <\/em>R. W. op.cit.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Uma segunda hip\u00f3tese te\u00f3rica est\u00e1 apresentada: que as muta\u00e7\u00f5es diminuam a letalidade e se converta em uma doen\u00e7a comum, por\u00e9m at\u00e9 o dia de hoje esta n\u00e3o tem sido a trajet\u00f3ria das muta\u00e7\u00f5es da Covid19.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> N\u00e3o obstante, tampouco o montante incalcul\u00e1vel de investimento em energias supostamente \u201climpas\u201d implicaria em diminuir\u00a0 a press\u00e3o sobre os recursos naturais, por exemplo: as novas baterias dos celulares e carros el\u00e9tricos movidos a energia renov\u00e1vel que trocam o\u00a0 sil\u00edcio pelo l\u00edtio. Ou seja, a cadeia da produ\u00e7\u00e3o mineral seria colocada em seu limite ante a escala produtiva das novas mercadorias que com a expans\u00e3o capitalista na \u00c1sia incorpora alguns\u00a0 bilh\u00f5es a mais de consumidores.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> O surto de influenza H1N1 (2009) [\u2026] penetrou na popula\u00e7\u00e3o mundial e matou silenciosamente os pacientes, [\u2026]\u00a0 matou\u00a0 579.000 pessoas em seu primeiro ano, produzindo complica\u00e7\u00f5es em quinze vezes mais casos do que inicialmente se havia projetado apenas a partir de testes de laborat\u00f3rio. Dawood F, et al. (2012). \u201cEstimated global mortality associated with the first 12 months of 2009 pandemic influenza A H1N1 virus circulation: a modelling study.\u201d<em> The Lancet Infectious Diseases <\/em>12(9): 687\u2013695.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> \u00a0\u00a0\u00a0 Adhiraj Bose. A resposta da \u00cdndia \u00e0 segunda onda da Covid: https:\/\/litci.org\/pt\/a-resposta-da-india-a-segunda-onda-da-covid\/ (destaques nossos).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a><em>Muitos temiam que as elei\u00e7\u00f5es de Bihar desencadeassem outra crise, a mesma preocupa\u00e7\u00e3o estava presente nos protestos dos campesinos. Enquanto isso, o governo levou a s\u00e9rio apenas uma destas amea\u00e7as potenciais tentou impor restri\u00e7\u00f5es aos protestos dos campesinos, impedindo-os de entrar em Delhi ou realizar com\u00edcios citando os protocolos da Covid. Durante todo esse tempo, o governo desprezou as mesmas normas no Estado de Bihar.<\/em> IDEM<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> \u00a0\u00a0\u00a0 Declara\u00e7\u00e3o europeia da LIT-QI. 29\/05\/2021 https:\/\/litci.org\/pt\/64078-2\/<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a><em>A\u00a0 burguesia, durante a guerra e antes da guerra, sustentava seu mecanismo interior com a ajuda dos socialdemocratas, dos socialpatriotas, que eram seus principais agentes e mantinham a classe oper\u00e1ria no\u00a0 marco de um equil\u00edbrio burgu\u00eas. <\/em>Le\u00f3n Trotsky, op.cit.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Boletim do PST-Peru. \u201cAn\u00e1lise da conjuntura eleitoral\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> A posi\u00e7\u00e3o do PST peruano no segundo turno: \u201cVotaremos em Castillo porque \u00e9 a \u00fanica ferramenta concreta no terreno eleitoral, para fazer frente a Fujimori e companhia. Assim o entenderam a vanguarda oper\u00e1ria e popular, e assim o comprendemos tamb\u00e9m. Por\u00e9m como dissemos desde o princ\u00edpio da contenda pelo segundo turno, isso n\u00e3o basta. Os trabalhadores e trabalhadoras devemos confiar apenas em nossa organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o para impor nossas demandas urgentes. Castillo tem um programa diferente do da classe trabalhadora, que coincide com a patronal na abertura econ\u00f4mica apesar da pandemia, que n\u00e3o reconhece direitos importantes das mulheres e da popula\u00e7\u00e3o LGTBIQ. Um programa que, ademais, dia a dia vem moderando com a finalidade de se tornar diger\u00edvel pelos capitalistas, a quem j\u00e1 ofereceram \u2018seguran\u00e7a jur\u00eddica\u2019 para seus neg\u00f3cios, ou seja, nada vai mudar\u201d.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em fins de maio, o Comit\u00ea Executivo Internacional da LIT se reuniu e debateu, entre outros temas, a discuss\u00e3o de um documento pol\u00edtico. A discuss\u00e3o centrou-se na luta de classes na Am\u00e9rica do Sul e na conjuntura mundial, marcada pela a\u00e7\u00e3o genocida dos governos e a resposta do proletariado e das massas. 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