{"id":64259,"date":"2021-06-22T11:42:34","date_gmt":"2021-06-22T14:42:34","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=64259"},"modified":"2021-06-22T11:42:34","modified_gmt":"2021-06-22T14:42:34","slug":"64259-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/06\/22\/64259-2\/","title":{"rendered":"Big Pharma: bilh\u00f5es de lucro sobre a sa\u00fade dos trabalhadores"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cSe estamos derrotando a Covid19 \u00e9 m\u00e9rito do capitalismo e da avidez\u201d. Assim se expressou o premi\u00ea brit\u00e2nico Boris Johnson no final de mar\u00e7o. \u201cO capitalismo nos salvou do v\u00edrus\u201d, assim o chefe da BlackRock, maior gestor de fundos do mundo, com um patrim\u00f4nio estimado em mais de 9 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, em uma entrevista publicada no Repubblica em 16 de abril. Eles tiveram ao menos o m\u00e9rito de serem sinceros.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Alberto Madoglio<\/strong><\/p>\n<p><strong>A verdadeira face da sa\u00fade a servi\u00e7o do capital <\/strong><\/p>\n<p>Na It\u00e1lia, onde os comentaristas pol\u00edticos s\u00e3o em sua maioria rufi\u00f5es, temos assistido \u00e0 tentativa de distor\u00e7\u00e3o da realidade com uma vis\u00e3o mais adocicada, mas n\u00e3o por isso menos perigosa. Emblem\u00e1tica a declara\u00e7\u00e3o feita h\u00e1 algum tempo pelo diretor do <em>Il Foglio Secondo<\/em>, no qual n\u00e3o a avidez, mas a generosidade das empresas estava permitindo vencer a pandemia. Nada menos que isso. Para seu azar n\u00e3o havia lido um artigo do <em>Il Sole24Ore<\/em> de 21 de fevereiro, no qual se indicava que a multinacional de f\u00e1rmacos Pfizer havia lucrado 15 bilh\u00f5es pela venda da sua vacina com um rendimento entre 25 e 30%. O que uma outra empresa farmac\u00eautica (Moderna) viu, foi o valor das pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es passarem de 50 a 160 d\u00f3lares num lapso de tempo de um ano. Certamente n\u00e3o s\u00e3o frutos de uma l\u00f3gica humanit\u00e1ria e desinteressada de lucro. O artigo \u201cO imperialismo imp\u00f5e um apartheid das vacinas\u201d, do companheiro Daniel Sugasti, publicado no site da Lit-Quarta Internacional (<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/63498-2\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/63498-2\/<\/a> ), desmontou de maneira exemplar a reconstru\u00e7\u00e3o falsa a respeito dos m\u00e9ritos da economia de mercado no combate \u00e0 pandemia.<\/p>\n<p>Outros estudos e pesquisas recentes mostram o quanto o capitalismo \u00e9 na realidade um obst\u00e1culo, e n\u00e3o um est\u00edmulo, no combate e resolu\u00e7\u00e3o dos problemas ligados \u00e0 sa\u00fade de bilh\u00f5es de pessoas no mundo, e o quanto o mesmo \u00e9 um obst\u00e1culo para tornar a sa\u00fade sempre mais eficiente e ao alcance de todos. O exemplo mais evidente do desastre de uma sa\u00fade e de uma pesquisa farmac\u00eautica que tem por objetivo exclusivo a busca do lucro \u00e9 o dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Antes de analisar o caso da ind\u00fastria farmac\u00eautica e da sa\u00fade <em>de \u201cbarras e estrelas\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>, devemos fazer uma brev\u00edssima digress\u00e3o sobre a situa\u00e7\u00e3o europeia, dado que h\u00e1 muito tempo atr\u00e1s sobre o Velho Continente, pairava a lenda de uma maior aten\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades dos seus cidad\u00e3os. As coisas na verdade n\u00e3o andam de modo diferente com rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos. Dos cortes na sa\u00fade p\u00fablica na It\u00e1lia temos tratado amplamente em v\u00e1rios artigos publicados neste site e em nosso jornal. A austeridade na Fran\u00e7a permitiu \u00e0s seguradoras privadas aumentarem o volume de neg\u00f3cios de 17 a 34 bilh\u00f5es entre 2001 e 2014. No Reino Unido cortes draconianos no or\u00e7amento da sa\u00fade t\u00eam produzido o efeito, entre outros, da mais alta taxa, em n\u00edvel continental, de mortes evit\u00e1veis de pacientes com menos de 75 anos.<\/p>\n<p>E estamos falando de tr\u00eas entre as maiores potencias imperialistas em n\u00edvel mundial. Voltemos para o al\u00e9m mar. Na mais importante e mais rica economia do planeta, um sistema de sa\u00fade e farmac\u00eautico quase totalmente subjugado pela busca do lucro, permitiu a um punhado de multinacionais obterem receitas extraordin\u00e1rias. Em 2018, os cidad\u00e3os estadunidenses gastaram em torno de 535 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em f\u00e1rmacos, com um aumento de 50% com rela\u00e7\u00e3o a 2010, apenas oito anos antes. No mesmo per\u00edodo, as 27 maiores empresas que integram a Big Pharma, tiveram percentuais de ganho entre 15 e 20% quando a m\u00e9dia das outras multinacionais \u00e9 de 6%. Em alguns casos a taxa de lucro supera 40%. Em termos absolutos isso significou um aumento das suas reservas financeiras de 83 a 229 bilh\u00f5es no per\u00edodo 2000-2018. Tudo isso foi fruto de uma verdadeira rapina em detrimento dos pacientes, obrigados a pagar cifras enormes para tratar das suas doen\u00e7as.<\/p>\n<p>.Aproveitando do fato de que um trabalhador pode economizar sobre a compra de um celular de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, de um eletrodom\u00e9stico ou adiar a troca do pr\u00f3prio carro, obviamente n\u00e3o pode adiar a compra de rem\u00e9dios, a n\u00e3o ser arriscando a pr\u00f3pria sa\u00fade. A Big Pharma consegue impor pre\u00e7os extremamente altos sobre os produtos que produz. A justificativa adotada para essa pol\u00edtica \u00e9 que a pesquisa cient\u00edfica para descobrir e produzir rem\u00e9dios \u00e9 muito alta, consequentemente, os pre\u00e7os s\u00e3o definidos desse modo. Na realidade as coisas n\u00e3o s\u00e3o assim.<\/p>\n<p>Desde os anos 30 do s\u00e9culo XX o <em>National Institue of Health<\/em> investiu cerca de 900 bilh\u00f5es de dinheiro p\u00fablico para financiar a pesquisa privada. Desse valor, 100 bilh\u00f5es foram utilizados em pesquisa de base que permitiu entre 2010 e 2016 a produ\u00e7\u00e3o de 210 novos rem\u00e9dios por multinacionais privadas. Alguns estudos demonstraram que, supondo que seja 100 o pre\u00e7o de um rem\u00e9dio, 17 s\u00e3o gastos com a produ\u00e7\u00e3o e 16 \u00e9 lucro. Nos Estados Unidos, mais do que em outros pa\u00edses, e em particular nesse setor, governo e parlamento demonstram serem, como dizia Marx h\u00e1 mais de 150 anos, o comit\u00ea de neg\u00f3cios da burguesia (farmac\u00eautica). A institui\u00e7\u00e3o que supervisiona o assunto, a <em>Food and Drug Administration<\/em>, nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas recebeu muitos bilh\u00f5es em fundos das empresas farmac\u00eauticas e, com o passar do tempo, amortizou o controle e os confrontos que exercia sobre essas ind\u00fastrias, consentindo uma agressiva campanha publicit\u00e1ria onde os riscos ligados ao uso de rem\u00e9dios s\u00e3o minimizados ou completamente escondidos. Isso explica, ao menos em parte, a prolifera\u00e7\u00e3o de teorias reacion\u00e1rias e anticient\u00edficas <em>no vax<\/em> (antivacinas) entre grandes camadas das classes populares. Ao mesmo tempo, essas multinacionais investiram milh\u00f5es para apoiar as campanhas eleitorais dos dois partidos nos quais se divide a grande burguesia estadunidense, republicanos e democratas. Como agradecimento por essas generosas \u201cdoa\u00e7\u00f5es\u201d, os deputados votaram uma lei que impede a <em>Medic Aid<\/em>, esp\u00e9cie de servi\u00e7o p\u00fablico de sa\u00fade, de negociar com a Big Pharma o pre\u00e7o dos rem\u00e9dios no momento da compra.<\/p>\n<p>A capacidade da ind\u00fastria farmac\u00eautica de exercer um controle invasivo, quase total, da situa\u00e7\u00e3o, pode-se deduzir do fato de que 8 associa\u00e7\u00f5es em 10 que dizem defender os direitos dos pacientes, s\u00e3o financiadas pela pr\u00f3pria Big Pharma.<\/p>\n<p><strong>A sa\u00fade subordinada ao lucro<\/strong><\/p>\n<p>Quanto \u00e0 criminosa gest\u00e3o capitalista da sa\u00fade, e do controle monopolista por um punhado de empresas, podemos ver na quest\u00e3o ligada \u00e0s patentes. N\u00e3o apenas gra\u00e7as a esse sistema as multinacionais ganham bilh\u00f5es de d\u00f3lares de lucro explorando a pesquisa financiada em grande parte por fundos p\u00fablicos, mas nem mesmo isso \u00e9 suficiente para eles. S\u00e3o diversos os casos daquilo que \u00e9 chamado <em>evergreening<\/em>, ou seja, modificam-se partes n\u00e3o essenciais dos rem\u00e9dios, o que permite estender a dura\u00e7\u00e3o da patente para al\u00e9m dos 20 anos garantidos.\u00a0 Ou o fato de que esse cartel monopolista pague outras empresas para retardarem a produ\u00e7\u00e3o de rem\u00e9dios gen\u00e9ricos, mais acess\u00edveis a um pre\u00e7o mais baixo.<\/p>\n<p>Um dado demonstra, de maneira indiscut\u00edvel, como a sociedade fundada sobre o lucro n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es para satisfazer uma necessidade prim\u00e1ria, vital, como essa relativa \u00e0 sa\u00fade. Em uma \u00e9poca com baixas taxas de juros, as multinacionais aumentaram o seu endividamento alcan\u00e7ando a cifra exorbitante de 500 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Mas com qual objetivo? Certamente n\u00e3o \u00e9 para investir em novos meios de produ\u00e7\u00e3o (maquin\u00e1rio, instala\u00e7\u00f5es industriais etc.) que, ao contr\u00e1rio, est\u00e3o percentualmente diminuindo. Nem para a pesquisa e o desenvolvimento aos quais foram destinados fundos proporcionalmente sempre mais ex\u00edguos.<\/p>\n<p>A d\u00edvida foi negociada para aumentar o valor das a\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s do aumento de dividendos e comprando novamente as a\u00e7\u00f5es no mercado (<em>buyback)<\/em>. \u00c9 uma tend\u00eancia que atingiu todo o sistema capitalista da metade dos anos 1970. Dado que a taxa de lucro da produ\u00e7\u00e3o real est\u00e1 em constante queda, os capitalistas de todas as matizes procuram aumenta-lo atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de capital fict\u00edcio, com o recurso de opera\u00e7\u00f5es financeiras cada vez mais especulativas.<\/p>\n<p>Para o ramo da produ\u00e7\u00e3o do qual estamos falando neste artigo, temos a explica\u00e7\u00e3o mais simples e clara sobre o que pretendia Marx quando afirmava que, a um certo ponto o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas encontra um obst\u00e1culo intranspon\u00edvel nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas. Em nosso caso, significa que novos rem\u00e9dios n\u00e3o s\u00e3o descobertos ou produzidos a um custo acess\u00edvel \u00e0 totalidade da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o porque seja imposs\u00edvel faz\u00ea-lo, mas por n\u00e3o ser conveniente em um sistema fundado no lucro.<\/p>\n<p>Certo, os capitalistas e os seus arautos dizem que tudo somado, ao menos nos pa\u00edses desenvolvidos (melhor seria dizer imperialistas) a idade m\u00e9dia se elevou enormemente no \u00faltimo s\u00e9culo, ent\u00e3o do que lamentar-se? A que pre\u00e7o? Segundo um estudo do Instituto Superior de Sa\u00fade metade da popula\u00e7\u00e3o italiana entre 65 e 75 anos vive com patologias cr\u00f4nicas, percentual que chega a 75% para aqueles acima dos 85 anos.<\/p>\n<p>O capitalismo nos faz viver mais para nos explorar mais ainda, e quando ao fim do processo produtivo n\u00e3o somos mais \u00fateis, nos deixa viver com doen\u00e7as incur\u00e1veis. Exatamente como se f\u00f4ssemos um torno que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel recuperar.<\/p>\n<p>Em uma sociedade socialista a ind\u00fastria farmac\u00eautica estaria sob o controle dos trabalhadores, e o \u00fanico limite da produ\u00e7\u00e3o seria devido ao n\u00edvel de conhecimento m\u00e9dico e cient\u00edfico alcan\u00e7ado no momento. As doen\u00e7as obviamente n\u00e3o desapareceriam, e a vida continuaria a fazer o seu curso, com um in\u00edcio e um fim, mas isso seria o curso natural das coisas, n\u00e3o o fruto da gan\u00e2ncia e avareza de poucas pessoas que, como a terr\u00edvel pandemia que estamos vivendo nos demonstra, levam a milh\u00f5es de mortos que seriam absolutamente evit\u00e1veis.<\/p>\n<p>O fim da explora\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado, o fim do capitalismo, hoje n\u00e3o \u00e9 mais evit\u00e1vel se queremos garantir uma vida saud\u00e1vel e digna para a maioria absoluta da popula\u00e7\u00e3o do planeta.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas dispon\u00edveis na internet\u00a0<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><em>Private gains we can ill afford. The financialisation of Big Pharma april 2020<\/em><a href=\"http:\/\/www.somo.nl\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">nl<\/a><\/li>\n<li>Deangelis,\u00a0<em>Big Pharma Profits and the public loses<\/em><a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nhi.gov\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.ncbi.nlm.nhi.gov<\/a><\/li>\n<li><em>Center for American Progress: How Big Pharma reaps profits while hurting everydays American<\/em><\/li>\n<li><em>Thick as thieves? Big Pharma wields its power with the help of government regulations<\/em><\/li>\n<li><em>The Impact on Big Pharma\u2019s production model of medicine policies in a contesxt of austerity in France and the Uk<\/em>(2017)<\/li>\n<li><em>Patologie croniche nella popolazione residente in Itala secondo i dati PASSI e PASSI d\u2019Argento<\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Em refer\u00eancia \u00e0 bandeira dos EUA (ndt.)<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: n\u00edvea Le\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSe estamos derrotando a Covid19 \u00e9 m\u00e9rito do capitalismo e da avidez\u201d. 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