{"id":64122,"date":"2021-06-04T12:34:19","date_gmt":"2021-06-04T15:34:19","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=64122"},"modified":"2021-06-04T12:34:19","modified_gmt":"2021-06-04T15:34:19","slug":"pan-africanismo-e-a-perspectiva-revolucionaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/06\/04\/pan-africanismo-e-a-perspectiva-revolucionaria\/","title":{"rendered":"Pan-africanismo e a perspectiva revolucion\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p><em>O livro \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Africana, uma antologia do pensamento marxista\u201d, organizado por Jones Manoel, busca apresentar importantes revolucion\u00e1rios e lideran\u00e7as do movimento de liberta\u00e7\u00e3o nacional da \u00c1frica ligados ao movimento pan-africanista como sendo socialistas e marxistas.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Am\u00e9rico Gomes<\/p>\n<p>Neste artigo, queremos nos contrapor a esta tese, discutindo que, apesar das muitas proximidades que possam ser estabelecidas entre o pan-africanismo e o marxismo (especialmente no que se refere a como os socialistas revolucion\u00e1rios encaram o combate ao racismo e a chamada \u201cquest\u00e3o africana\u201d), h\u00e1 importantes diferen\u00e7as, particularmente em temas essenciais, como a independ\u00eancia de classe e a estrat\u00e9gia necess\u00e1ria para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade livre do racismo ou quaisquer outras formas de opress\u00e3o.<\/p>\n<p>Diferen\u00e7as que n\u00e3o podem ser tratadas de forma leviana, at\u00e9 mesmo porque o pr\u00f3prio pan-africanismo n\u00e3o \u00e9 um \u201cbloco\u201d homog\u00eaneo, tendo se ramificado em distintas vertentes desde que surgiu na esteira das lutas anti-imperialistas no continente africano, na primeira metade do s\u00e9culo 20, e come\u00e7ou a ganhar o mundo atrav\u00e9s de pensadores negros como o norte-americano W.E.B. Du Bois (1868 \u2013 1963) e o jamaicano Marcus Garvey (1887 \u2013 1940).<\/p>\n<p>No decorrer do s\u00e9culo, vers\u00f5es ou correntes do pan-africanismo tamb\u00e9m se mesclaram com outras ideologias e pr\u00e1ticas pol\u00edticas no interior do movimento negro, v\u00e1rias delas reformistas ou nacionalistas, mas tamb\u00e9m socialistas de diferentes matizes. A quest\u00e3o central de nossa pol\u00eamica com Jones Manoel, no entanto, \u00e9 o fato do autor ter um objetivo bastante definido: reescrever a Hist\u00f3ria, colocando um sinal de igual entre pan-africanismo e stalinismo (apresentado como a verdadeira express\u00e3o do marxismo-leninismo).<\/p>\n<p><strong>A servi\u00e7o do que est\u00e1 a aproxima\u00e7\u00e3o do pan-africanismo e o marxismo?<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, h\u00e1 diferen\u00e7as entre os dirigentes que s\u00e3o relacionados no livro, tanto do ponto de vista te\u00f3rico quanto pol\u00edtico. Mas, tamb\u00e9m, do ponto de vista pr\u00e1tico e concreto. Por exemplo, Kwane Nkrumah (1909 \u2013 1972), primeiro-ministro de Gana, entre 1957 e 1960, e presidente do pa\u00eds de 1960 a 1966, foi um dos fundadores do pan-africanismo e teve uma forma\u00e7\u00e3o socialista, assim como o agr\u00f4nomo e te\u00f3rico marxista Am\u00edlcar Cabral (Guin\u00e9-Bissau, 1924 \u2013 1973).<\/p>\n<p>No entanto, s\u00e3o exemplos bastante diferentes das forma\u00e7\u00f5es diretamente stalinistas do angolano Agostinho Neto (1922 \u2013 1979) \u2013 que dirigiu o Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola (MPLA), na luta pela independ\u00eancia, e presidiu o pa\u00eds entre 1975 e 1979 \u2013, o mo\u00e7ambicano Samora Machel (1933 \u2013 1986), l\u00edder da Frente de Liberta\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique (FRELIMO) e presidente do pa\u00eds entre 1986, e, ainda mais, de Thomas Sankara (1949 \u2013 1987), capit\u00e3o do ex\u00e9rcito e paraquedista, que foi o primeiro presidente de Burkina Faso.<\/p>\n<p>Vale destacar, tamb\u00e9m, a aus\u00eancia de alguns importantes pan-africanistas, como o jornalista e escritor natural de Trinidad Tobago, Georg Padmore (1903 \u2013 1959), principalmente porque este era o que tinha a forma\u00e7\u00e3o marxista mais s\u00f3lida. Uma aus\u00eancia provavelmente causada pelo fato de Padmore ter rompido com stalinismo, em 1933, exatamente por criticar a pol\u00edtica da burocracia sovi\u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 luta pela descoloniza\u00e7\u00e3o na \u00c1frica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 um equ\u00edvoco colocar um sinal de igual entre o pan-africanismo e o marxismo-leninismo, pois entre eles existem diferen\u00e7as pol\u00edticas e program\u00e1ticas. Existem, com certeza, pontos de contato, mas a dist\u00e2ncia entre as duas correntes de pensamento \u00e9 bastante consider\u00e1vel.<\/p>\n<p>Quando neo-estalinistas, como Jonas Manoel e alguns intelectuais, tentam demonstrar o contr\u00e1rio, eles criam um am\u00e1lgama de distintos objetivos, que se combinam e complementam: a) confundir os trabalhadores e trabalhadoras, de maneira geral, e jovens negros e negras, em particular, ocultando a pol\u00edtica traidora que o stalinismo teve para a luta dos povos africanos pela liberdade; b) dar respaldo \u00e0 pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes com as chamadas burguesias \u201cprogressistas\u201d, adotada no per\u00edodo de descoloniza\u00e7\u00e3o, na constru\u00e7\u00e3o de governos policlassistas e c) desviar o proletariado e setores mais explorados da sociedade de suas tarefas centrais na luta contra o racismo e a opress\u00e3o, que \u00e9 construir a unidade e a independ\u00eancia de nossa classe e construir governos da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Uma posi\u00e7\u00e3o similar \u00e0 defendida por Abdias Nascimento em sua obra, que corretamente combate a cren\u00e7a no mito da democracia racial, mas, de maneira geral, defende que o panafricanismo\u00a0\u201c\u00e9 a teoria e pr\u00e1tica uma de \u00c1frica unida, livre da hegemonia europeia\u201d ou da \u201cunidade essencial do mundo africano\u201d em uma alian\u00e7a concreta e progressista, como declarou, quando era senador pelo Partido Democr\u00e1tico Trabalhista (PDT), num pronunciamento feito em 5 de junho de 1997.<\/p>\n<p><strong>Policlassismo: o ponto de encontro entre o pan-africanismo e o identitarismo<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida \u00e9 muito importante combater as posi\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias, que defendem um liberalismo p\u00f3s-moderno, atrav\u00e9s de uma falsa radicalidade, com ideias essencialistas de identidade que defendem uma hiper centralidade epistemol\u00f3gica te\u00f3rica, ontol\u00f3gica, no que se refere \u00e0 pr\u00f3pria ess\u00eancia; e pol\u00edtica \u00e0 quest\u00e3o racial para, em \u00faltima inst\u00e2ncia, tamb\u00e9m defenderem um Estado racial policlassista, como os Estados negros, na \u00c1frica.<\/p>\n<p>N\u00e3o reivindicam o materialismo hist\u00f3rico dial\u00e9tico e sua interrela\u00e7\u00e3o entre ra\u00e7a e classe. Desse modo, a nacionalidade \u00e9 definida pela constru\u00e7\u00e3o da identidade racial e pelo racismo, o que retira totalmente o elemento da luta de classes interna como elemento fundamental na hist\u00f3ria e desenvolvimento destas na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 igualmente importante demonstrar que as posi\u00e7\u00f5es pan-africanistas tamb\u00e9m s\u00e3o policlassistas, descartam a centralidade da classe oper\u00e1ria como sujeito social da revolu\u00e7\u00e3o e, consequentemente, n\u00e3o defendem, em seu programa, a ditadura do proletariado.<\/p>\n<p><strong>Marxismo e pan-africanismo: proximidades t\u00e1ticas e diferen\u00e7as estrat\u00e9gicas<\/strong><\/p>\n<p>Certamente h\u00e1 pontos de contato e conflu\u00eancias entre o marxismo e o pan-africanismo, como a condena\u00e7\u00e3o ao racismo e \u00e0 escravid\u00e3o negra; a necessidade de libertar a \u00c1frica do colonialismo imperialista e de construir autogovernos africanos nas na\u00e7\u00f5es africanas, com governos negros.<\/p>\n<p>Mas, para os marxistas estes governos deveriam ser constitu\u00eddos por membros da classe trabalhadora negra, na express\u00e3o concreta da ditadura do proletariado. J\u00e1 os pan-africanistas, ao trabalharem o conceito de uma comunidade pr\u00f3pria, pan-negra, sintetizada na no\u00e7\u00e3o \u201cuma ra\u00e7a, um povo\u201d, n\u00e3o utilizam o crit\u00e9rio de delimita\u00e7\u00e3o de classe e, assim, diluem as diferen\u00e7as e a pr\u00f3pria luta de classes.<\/p>\n<p>Estas elabora\u00e7\u00f5es se refletiram nos Congressos Pan-africanos, que definiram as diretrizes do movimento organizado. O primeiro deles, que William (W.E.B.) Du Bois como seu principal dirigente, ocorreu em Paris, em 1919, com apoio de Georges Clemenceau, presidente do governo franc\u00eas, um dos impulsionadores da guerra civil contra a nascente Rep\u00fablica Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Suas delibera\u00e7\u00f5es foram progressivas no sentido de se oporem ao racismo e levantarem a reivindica\u00e7\u00e3o pela autodetermina\u00e7\u00e3o das col\u00f4nias. Mas suas delibera\u00e7\u00f5es se pautavam por exig\u00eancias \u00e0 Sociedade das Na\u00e7\u00f5es, a ONU da \u00e9poca. Um exemplo das consequ\u00eancias disto foi a defesa de que as antigas col\u00f4nias alem\u00e3s fossem colocadas sob tutela internacional, num processo supervisionado pelas grandes pot\u00eancias, com o objetivo de criar o \u201cmundo negro civilizado\u201c. Outro exemplo foi a defesa da autonomia das col\u00f4nias brit\u00e2nicas, no marco da Commonwealth (Comunidade Brit\u00e2nica das Na\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p>Em outras palavras, os pan-africanistas subordinavam a luta anticolonial \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses imperialistas, uma orienta\u00e7\u00e3o geral que seguiu at\u00e9 o IV Congresso.<\/p>\n<p>De maneira geral, os pan-africanistas acreditam que as ideias marxistas s\u00e3o unilaterais com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s classes e com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 concep\u00e7\u00e3o materialista, pois, na vis\u00e3o deles, os processos de independ\u00eancia deveriam buscar satisfazer, tamb\u00e9m, aspectos morais, culturais e pessoais, defendendo que, de maneira geral, h\u00e1 alguma forma de unidade ou de prop\u00f3sito comum entre os povos da \u00c1frica e da Di\u00e1spora Africana. Muitos subscreviam tamb\u00e9m a pol\u00edtica de n\u00e3o viol\u00eancia de Gandhi.<\/p>\n<p><strong>Debates te\u00f3ricos sobre o \u201csocialismo africano\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Am\u00edlcar Cabral, Nkrumah e Frantz Fanon (1925 \u2013 1961) \u2013 psiquiatra e te\u00f3rico marxista, origin\u00e1rio da Martinica, que atuou na Revolu\u00e7\u00e3o Argelina \u2013 foram, sem d\u00favidas, valorosos dirigentes nacionalistas negros, que defenderam as ideias pan-africanas e buscavam uma liga\u00e7\u00e3o com o marxismo, tendo importantes diferen\u00e7as conceituais com este.<\/p>\n<p>Uma das principais diferen\u00e7as girava em torno das teorias que criaram sobre o \u201csocialismo africano\u201d ou \u201csocialismo com valores africanos\u201d, que seria igualitarista e humanista, partindo, segundo eles, das caracter\u00edsticas concretas determinadas pela revolu\u00e7\u00e3o negra no continente, mas que desembocava na proposta de construir governos \u201cpoliclassistas\u201d ap\u00f3s a independ\u00eancia colonial, nunca propondo instalar em seus pa\u00edses aut\u00eanticas ditaduras do proletariado<\/p>\n<p>Fanon, no entanto, hierarquizou, de maneira correta, a luta anti-imperialista, entendendo o racismo como algo caracter\u00edstico das sociedades coloniais e como parte essencial do processo de domina\u00e7\u00e3o entre povos conquistadores e conquistados. Em\u00a0\u201cCondenados da Terra\u201d\u00a0(1961), por exemplo, expressou essas posi\u00e7\u00f5es, recha\u00e7ando as negocia\u00e7\u00f5es e os compromissos e acordos assumidos entre as metr\u00f3poles europeias e os movimentos nacionais africanos para controlar o processo de liberta\u00e7\u00e3o, afirmando que estas n\u00e3o passavam de \u201cfalsas descoloniza\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Mas, Fanon tamb\u00e9m defendia a \u201cnacionaliza\u00e7\u00e3o do marxismo\u201d (similar ao que, para ele, foi feito pelos chineses e vietnamitas), a partir das quest\u00f5es concretas africanas, defendendo que a revolu\u00e7\u00e3o neste continente n\u00e3o passaria pelos prolet\u00e1rios, mas, sim, pela a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria dos camponeses e do l\u00fampen proletariado, os \u00fanicos que, de fato, n\u00e3o tinham nada a perder, a n\u00e3o ser seus grilh\u00f5es, acreditando que a classe operaria, mesmo nos pa\u00edses coloniais do continente africano, se constitu\u00edam uma elite privilegiada.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Fanon dava um importante peso para a pequena burguesia, defendendo que esta poderia cumprir um papel de vanguarda consciente, formando um partido nacionalista revolucion\u00e1rio, que levaria a descoloniza\u00e7\u00e3o a cabo.<\/p>\n<p>O autor, inclusive, defendia que n\u00e3o haveria outra sa\u00edda, apesar de alertar para o poss\u00edvel \u201caburguesamento desta camada social\u201d e que esta iria formar uma nova elite burguesa, subdesenvolvida, neocolonial, sem capacidade ou desejo de construir uma na\u00e7\u00e3o soberana e socialista. Como consequ\u00eancia, como todos os demais pan-africanistas, apresentava como objetivo imediato para os pa\u00edses africanos a constitui\u00e7\u00e3o de governos policlassistas, de Frente Popular.<\/p>\n<p>Ainda no que se refere a Fanon, vale destacar que ele, corretamente, pautava a necessidade da viol\u00eancia revolucion\u00e1ria para levar a cabo os processos revolucion\u00e1rios e conquistar a independ\u00eancia nacional na \u00c1frica. Neste sentido, se diferenciava da teoria de \u201ccoexist\u00eancia pac\u00edfica\u201d, defendida pela burocracia sovi\u00e9tica no p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, sendo extremamente progressivo, particularmente frente \u00e0 posi\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Franc\u00eas, que se recusava, inicialmente, a reconhecer o direito de luta pela independ\u00eancia da Arg\u00e9lia, condenando os ataques da Frente Nacional de Liberta\u00e7\u00e3o e, inclusive, dando plenos poderes, em mar\u00e7o de 1956, ao governo do Primeiro-Ministro da Fran\u00e7a, Guy Mollet, para continuar a guerra.<\/p>\n<p>Am\u00edlcar Cabral tamb\u00e9m visou criar uma teoria revolucion\u00e1ria de liberta\u00e7\u00e3o baseada no que seria a experi\u00eancia concreta africana, baseada em uma\u00a0\u201cdiversifica\u00e7\u00e3o e atualiza\u00e7\u00e3o do marxismo\u201d, como escreveu em\u00a0\u201cA Arma da Teoria\u201d (1966). Seu ponto de partida era reivindicar que o verdadeiro motor da Hist\u00f3ria eram as for\u00e7as produtivas, mas que a principal contradi\u00e7\u00e3o dos povos perif\u00e9ricos se manifestava em suas rela\u00e7\u00f5es com o imperialismo.<\/p>\n<p>No entanto, neste processo, o dirigente da Guin\u00e9-Bissau dava um papel de protagonismo aos camponeses e trabalhadores urbanos, mas sob a dire\u00e7\u00e3o dos membros da pequena burguesia, propondo a eles o\u00a0\u201csuic\u00eddio de classe\u201d, em defesa dos interesses dos dominados. Em\u00a0\u201cLiberta\u00e7\u00e3o nacional e cultura\u201d (1970) Cabral tamb\u00e9m defende que as culturas populares africanas seriam as verdadeiras deposit\u00e1rias da resist\u00eancia pol\u00edtica contra o opressor e, portanto, cumpririam um papel fundamental no processo libertador. Mas, para isso os revolucion\u00e1rios teriam que se libertar da domina\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e psicol\u00f3gica do eurocentrismo e do racismo, em um processo de\u00a0\u201creafricaniza\u00e7\u00e3o\u201d\u00a0das culturas populares do continente.<\/p>\n<p>Nkrumah, por sua vez, tamb\u00e9m se reivindicava marxista, sendo fortemente influenciado por George Padmore, e tentou construir uma nova ideologia pan-africanista, baseada no \u201csocialismo com valores africanos\u201d (igualitaristas e humanistas), com o Estado como o centro da vida social e econ\u00f4mica do pa\u00eds. Este processo, ainda segundo ele, culminaria na unifica\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es africanas em uma grande Federa\u00e7\u00e3o e Uni\u00e3o. No entanto, ele tamb\u00e9m sempre relevou o papel das burguesias nacionais e suas rela\u00e7\u00f5es com o imperialismo. Seu pensamento foi condensado em\u00a0\u201cA \u00c1frica precisa se unir\u201d (1963) e\u00a0\u201cNeocolonialismo: fase superior do imperialismo\u201d\u00a0(1965).<\/p>\n<p><strong>George Padmore: um expoente contradit\u00f3rio do pan-africanismo<\/strong><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1920, v\u00e1rios militantes e ativistas negros, africanos e da Di\u00e1spora, participaram dos cursos de forma\u00e7\u00e3o marxista na ex-URSS, como o jornalista senegalense Tiemoko Garan Kouyat\u00e9 (1902 \u2013 1942, um dos primeiros africanos a aderir \u00e0 Internacional Comunista, tendo sido expulso pelo stalinismo nos expurgos do final dos anos 1920), George Padmore, Claude McKay (1889 \u2013 1948, escritor e poeta jamaicano, expoente da Renascen\u00e7a do Harlem, nos anos 1920, que tamb\u00e9m se distanciou do stalinismo, nos 1930) e Jomo Kenyatta (1894 \u2013 1978, considerado fundador da na\u00e7\u00e3o queniana e presidente do pa\u00eds, entre 1964 e 1978).<\/p>\n<p>Todos eles foram influenciados pelas propostas pol\u00edticas de L\u00eanin de transformar as lutas de liberta\u00e7\u00e3o nacional em uma \u201calavanca\u201d para a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria mundial em um per\u00edodo em que a ex-URSS era vista com admira\u00e7\u00e3o e apoiava (inclusive materialmente) a organiza\u00e7\u00e3o dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o, sendo considerada por muitos l\u00edderes africanos como um modelo de Estado multinacional, federalizado, como aquele que se sonhavam construir na \u00c1frica.<\/p>\n<p>George Padmore refletia estas posi\u00e7\u00f5es em seus livros e artigos, assim como outras obras da primeira metade do s\u00e9culo 20 tamb\u00e9m refletiram esta aproxima\u00e7\u00e3o com a metodologia marxista, como\u00a0\u201cA reconstru\u00e7\u00e3o negra na Am\u00e9rica\u201d\u00a0(W.E.B. Du Bois, 1935),\u00a0\u201cOs Jacobinos Negros\u201d\u00a0(C.L.R. James, 1938) e\u00a0\u201cO negro e o caribe\u201d\u00a0(Eric Williams, 1944).<\/p>\n<p>Padmore, contudo, merece um destaque especial, pois se tornou um dos principais organizadores do movimento anticolonialista na \u00c1frica, fazendo a conex\u00e3o entre organiza\u00e7\u00f5es e ativistas do continente com a Europa e os EUA; sendo, por isso, chamado como um dos pais do pan-africanismo. Ele tamb\u00e9m foi um dos primeiros a escrever sobre a rela\u00e7\u00e3o entre ra\u00e7a e classe, nos entre-guerras, a partir de uma perspectiva internacionalista, mostrando a centralidade e contemporaneidade da classifica\u00e7\u00e3o racial para as din\u00e2micas do capitalismo. Tendo sido, ainda, mentor e conselheiro do governo de Kwane Nkrumah, a quem chamou de \u201cLenin da \u00c1frica\u201d.<\/p>\n<p>Padmore rompeu com a III Internacional e o stalinismo, em 1934, por conta da pol\u00edtica de Frente \u00danica Antifascista e a defesa, por Stalin, da alian\u00e7a com os pa\u00edses imperialistas, vistos como \u201cprogressistas\u201d. Pol\u00edticas aplicadas, por exemplo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Fran\u00e7a e \u00e0 Inglaterra, defendendo que os inimigos dos povos coloniais n\u00e3o eram os imperialistas, mas, sim, o movimento fascista. O que, na pr\u00e1tica, significou abandonar a luta colonial e priorizar seus aliados europeus.<\/p>\n<p>Rebelando-se contra esta trai\u00e7\u00e3o, Padmore manteve a defesa da luta contra todos os imperialismos que tinham uma pol\u00edtica colonial para a \u00c1frica e, talvez por isso, n\u00e3o tenha sido inclu\u00eddo no livro de Jones Manoel.<\/p>\n<p>Fruto desta influ\u00eancia na pol\u00edtica pan-africanista o V Congresso Pan-africano, realizado em Manchester, em 1945, significou, em muitos aspectos, uma ruptura em rela\u00e7\u00e3o aos anteriores. Primeiro, porque, nele, os africanos foram majorit\u00e1rios, contando com a participa\u00e7\u00e3o de figuras fundamentais, como Azikiwe Nandi (primeiro presidente da Nig\u00e9ria, entre 1963 e 1966), Jomo Kenyatta e Kwame Nkrumah. Al\u00e9m disso, o Congresso tamb\u00e9m manteve o centro de suas delibera\u00e7\u00f5es no marco da luta pela descoloniza\u00e7\u00e3o, o que inclu\u00eda a liberta\u00e7\u00e3o do colonialismo e a unidade contra o neocolonialismo.<\/p>\n<p>No entanto, Padmore, depois da ruptura com o stalinismo, lutou para desvincular o movimento de liberta\u00e7\u00e3o da \u00c1frica do comunismo, denunciando que tal proximidade era um argumento imperialista para desacreditar os nacionalistas africanos e tirar deles a simpatia e o apoio dos elementos anticoloniais e setores \u201cprogressistas\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, afirmando basear-se na elabora\u00e7\u00e3o de L\u00eanin sobre a \u201caristocracia operaria\u201d e o \u201caburguesamento\u201d real de um estrato da classe trabalhadora, fomentado pelos partidos reformistas e os sindicatos, concluiu que a \u201cunidade de ra\u00e7a, (era) oposta \u00e0 unidade de classe\u201d. Com isso, passou a negar o papel da classe oper\u00e1ria como sujeito de qualquer transforma\u00e7\u00e3o social, acreditando que os trabalhadores brancos se divorciaram dos interesses dos trabalhadores africanos \u201c\u00e0 custa dos quais engordam\u201d.<\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo artigo discutiremos os reflexos destes debates em situa\u00e7\u00f5es concretas como Angola, Mo\u00e7ambique, Gana, etc., e a necessidade de uma revolu\u00e7\u00e3o social no continente africano<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Africana, uma antologia do pensamento marxista\u201d, organizado por Jones Manoel, busca apresentar importantes revolucion\u00e1rios e lideran\u00e7as do movimento de liberta\u00e7\u00e3o nacional da \u00c1frica ligados ao movimento pan-africanista como sendo socialistas e marxistas.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":64123,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[208,3501,49,1018],"tags":[620,2737,4005,4006,4007],"class_list":["post-64122","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-africa","category-negras-os","category-polemica","category-racismo","tag-americo-gomes","tag-jones-manoel","tag-marxismo-e-pan-africanismo","tag-pan-africanismo","tag-revolucao-africana"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/pan_africanismo.jpg","categories_names":["\u00c1frica","Negras\/os","Pol\u00eamica","Racismo"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64122","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=64122"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64122\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/64123"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=64122"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=64122"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=64122"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}