{"id":63955,"date":"2021-05-20T16:25:59","date_gmt":"2021-05-20T19:25:59","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63955"},"modified":"2021-05-20T16:25:59","modified_gmt":"2021-05-20T19:25:59","slug":"63955-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/05\/20\/63955-2\/","title":{"rendered":"Por que os fil\u00f3sofos n\u00e3o mudam o mundo"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>A cr\u00edtica de Marx e Engels aos jovens hegelianos e a Feuerbach.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>O que ainda h\u00e1 de atual neste debate?<\/em><\/strong><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Fabiana Stefanoni<\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo XIX, Engels escreve um ensaio com o t\u00edtulo <em>Ludwing Feuerbach e o fim da filosofia cl\u00e1ssica alem\u00e3<\/em>. A ocasi\u00e3o para a elabora\u00e7\u00e3o desse texto \u00e9 a cr\u00edtica de um livro sobre Feuerbach publicado na Alemanha em 1885. (1) Mas quem era Feuerbach? E por que Engels, a poucos anos do desaparecimento de Karl Marx (morto em 1883), considera importante retornar ao pensamento de Feuerbach e reconhecer-lhe uma \u201cd\u00edvida de honra ainda n\u00e3o resolvida\u201d, qual era o \u201celo de liga\u00e7\u00e3o entre a filosofia hegeliana e a nossa concep\u00e7\u00e3o\u201d? (2) Nesse artigo procuraremos responder a estas quest\u00f5es, detendo-nos sobre o quanto ainda h\u00e1 de atual na cr\u00edtica de Marx e Engels aos jovens hegelianos e a Feuerbach.<\/p>\n<p><strong>Marx e os Jovens hegelianos <\/strong><\/p>\n<p>Iniciamos com os Jovens hegelianos. Que rela\u00e7\u00e3o estabelece com eles o jovem Marx? Muitos livros foram escritos sobre esse assunto, recentemente inclusive saiu um filme que reconstr\u00f3i, de maneira sum\u00e1ria (e, que seja dito, com diversas imprecis\u00f5es), as rela\u00e7\u00f5es entre Marx e essa corrente filos\u00f3fica. (3) N\u00e3o pretendemos, nesse artigo, dar conta de tantos debates sobre o tema: seria um assunto longo, em alguns aspectos de interesse apenas acad\u00eamico. Nos limitaremos a fazer uma breve reflex\u00e3o, com o objetivo de compreender o que ainda h\u00e1 de atual nesse debate, que parecia destinado a permanecer confinado a um pequeno ambiente de intelectuais e professores alem\u00e3es. Ser\u00e1 apenas com a explos\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o na Europa de 1848 que lhe ser\u00e1 atribu\u00eddo um novo significado, um valor hist\u00f3rico, a esses debates filos\u00f3ficos. Como explica Engels, como j\u00e1 havia acontecido no s\u00e9culo XVIII, quando o Iluminismo havia antecipado a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, do mesmo modo no s\u00e9culo XIX, \u201ca revolu\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica abre a estrada \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d. (4)<\/p>\n<p>O movimento dos Jovens hegelianos nasce nos anos trinta do s\u00e9culo XIX, entre os estudantes de filosofia e teologia da Universidade de Berlim, organizando-se em torno de um clube chamado \u201cClube dos doutores\u201d (<em>Doktorclub<\/em>). Marx come\u00e7a a fazer parte disso em 1837, quando frequenta aquela universidade (formou-se em filosofia em 1841 e naqueles anos aspirava a uma carreira acad\u00eamica). Tratava-se de um clube restrito, frequentado por poucas dezenas de intelectuais, mas era o \u00fanico ambiente alem\u00e3o onde se tentava exercitar a liberdade de pensamento e de express\u00e3o. A Berlim daquele tempo, de fato, era a capital da Pr\u00fassia que, como algu\u00e9m adequadamente sintetizou, \u201cn\u00e3o era outra coisa que uma imensa caserna\u201d. (5)<\/p>\n<p>Como sugere o pr\u00f3prio nome com o qual se costumava indicar, os Jovens hegelianos eram os mais jovens disc\u00edpulos de Hegel, renomado fil\u00f3sofo da universidade alem\u00e3 no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, respeitado representante do idealismo, isto \u00e9, daquela concep\u00e7\u00e3o de mundo na qual a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 outra coisa que um desdobramento da evolu\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito (ou Ideia). Hegel era um fil\u00f3sofo conservador: interpretando a evolu\u00e7\u00e3o das sociedades como etapas necess\u00e1rias e obrigat\u00f3rias da evolu\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, chegava a justificar e legitimar as institui\u00e7\u00f5es do seu tempo \u2013 a monarquia heredit\u00e1ria em geral e a monarquia prussiana em particular \u2013 consideradas por ele como express\u00f5es necess\u00e1rias do \u201cEsp\u00edrito objetivo\u201d. (6)<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, como Engels escreve num texto que citamos acima \u2013 e como aprofundaremos em breve \u2013 Hegel tem o m\u00e9rito de ter identificado um m\u00e9todo de pensamento, a dial\u00e9tica, que tem um car\u00e1ter revolucion\u00e1rio. O m\u00e9todo dial\u00e9tico, de fato, considera a hist\u00f3ria (e a vida) como um processo em cont\u00ednua muta\u00e7\u00e3o e movimento, ou seja, demonstra que n\u00e3o existem sociedades e institui\u00e7\u00f5es eternas. Al\u00e9m disso, a dial\u00e9tica hegeliana se baseia sobre o princ\u00edpio de que o motor de cada desenvolvimento \u00e9 o conflito, que cada salto avante, tanto na vida quanto na hist\u00f3ria, possa ser alcan\u00e7ado somente a partir da destrui\u00e7\u00e3o daquilo que est\u00e1 dado [daquilo que existe], de um equil\u00edbrio abstrato e, portanto, unilateral: o \u201ctrabalho do negativo\u201d \u00e9 um momento necess\u00e1rio de cada desenvolvimento. Hegel n\u00e3o chegou de modo algum a conclus\u00f5es revolucion\u00e1rias: como sintetiza corretamente Engels, o lado conservador do seu pensamento \u201csufocou\u201d o lado revolucion\u00e1rio. Mas s\u00e3o essas potencialidades impl\u00edcitas no seu m\u00e9todo que alavanca os Jovens hegelianos.<\/p>\n<p>Depois da morte de Hegel, em 1831, entre os seus alunos se abre um debate. De um lado encontramos os chamados <em>Velhos hegelianos<\/em> (chamados tamb\u00e9m de <em>Direita hegeliana<\/em>), que procuram a concilia\u00e7\u00e3o entre o pensamento do mestre e a ortodoxia religiosa, defendendo posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas conservadoras. Do outro lado est\u00e3o precisamente os <em>Jovens Hegelianos<\/em> (conhecidos tamb\u00e9m como <em>Esquerda hegeliana<\/em>), os alunos mais jovens de Hegel, os quais procuram encontrar na filosofia hegeliana (e, sobretudo, no m\u00e9todo hegeliano) argumentos contra a monarquia feudal-eclesi\u00e1stica do rei da Pr\u00fassia, Federico Guilherme IV (um fan\u00e1tico reacion\u00e1rio que subiu ao trono em 1840).<\/p>\n<p>O tema principal sobre o qual se concentram os Jovens hegelianos \u00e9 o religioso. David Strauss (autor da <em>Vida de Jesus<\/em>, de 1835) e Bruno Bauer s\u00e3o os mais not\u00e1veis expoentes dessa corrente: ambos procuram demonstrar o car\u00e1ter essencialmente m\u00edtico da figura de Jesus \u2013 e assim, do cristianismo \u2013 chegando a posi\u00e7\u00f5es ateias. Entre eles h\u00e1 tamb\u00e9m Arnold Ruge, que dirige os <em>Anais de Halle<\/em>, uma revista de orienta\u00e7\u00e3o liberal. O <em>Doktorclub<\/em>, no qual Bruno Bauer tinha um papel particularmente importante, se coloca \u00e0 frente dessa batalha (em 1842 o Clube se transformar\u00e1 no conhecido grupo dos <em>Livres<\/em>, de tend\u00eancias ateias e radicais). A rea\u00e7\u00e3o de Frederico Guilherme IV n\u00e3o tardar\u00e1 a chegar: em 1841, os <em>Anais de Halle<\/em> s\u00e3o proibidos, \u00e9 declarada guerra aos professores hegelianos, Bruno Bauer \u00e9 afastado da universidade em 1842. Termina assim toda possibilidade de carreira universit\u00e1ria para Marx que sofrer\u00e1 a mesma sorte dos outros Jovens hegelianos (ironia da sorte: foi m\u00e9rito de um rei intolerante e reacion\u00e1rio que Marx abandonar\u00e1 a universidade para aproximar-se do movimento oper\u00e1rio, tornando-se o que se tornou na hist\u00f3ria).<\/p>\n<p><strong>Da burguesia renana ao proletariado parisiense<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 a partir desse momento que Marx inicia a colabora\u00e7\u00e3o com a <em>Gazeta Renana<\/em>. Trata-se de uma passagem fundamental da sua vida. A Renania (regi\u00e3o onde Marx nasceu e cresceu) era uma regi\u00e3o relativamente rica da Alemanha, onde se desenvolveu uma pr\u00f3spera burguesia, contr\u00e1ria aos aspectos mais retr\u00f3grados e feudais das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da \u00e9poca. Difundiu-se, entre os burgueses renanos, uma certa simpatia pelas correntes pol\u00edticas liberais: o seu modelo ideal era a monarquia constitucional inglesa, que aos seus olhos garantia maior liberdade individual e, sobretudo, maior agilidade nos assuntos econ\u00f4micos. A <em>Gazeta Renana<\/em> era o principal canal de express\u00e3o dessa burguesia. Como evidencia corretamente o estudioso Michael L\u00f6wy, o per\u00edodo da <em>Gazeta Renana<\/em> representou \u201cuma fase decisiva para a evolu\u00e7\u00e3o do jovem Marx: marcou contemporaneamente a sua entrada na vida pol\u00edtica e o seu primeiro confronto com quest\u00f5es materiais\u201d. (7)<\/p>\n<p>Marx n\u00e3o \u00e9 ainda comunista, mas \u00e9 exatamente na reda\u00e7\u00e3o da <em>Gazeta Renana<\/em> que come\u00e7a a estreitar rela\u00e7\u00f5es com Moses Hess, j\u00e1 comunista gra\u00e7as \u00e0 participa\u00e7\u00e3o no movimento oper\u00e1rio franc\u00eas. Inclusive Engels, que desde 1841 havia aderido \u00e0 corrente dos Jovens hegelianos, colaborava com a <em>Gazeta Renana<\/em>. Inicialmente, conv\u00e9m precisar, os dois n\u00e3o se entenderam muito. (8) Engels chegou antes de Marx ao comunismo, provavelmente em 1842 sob a influ\u00eancia do mesmo Hess. (9)<\/p>\n<p>Desde 1842, Marx torna-se diretor do jornal, mas a atividade da reda\u00e7\u00e3o \u00e9 continuamente submetida \u00e0 censura das autoridades prussianas. Por isso, em 1843, Marx decide transferir-se com sua esposa, Jenny, a Paris, onde permanecer\u00e1 at\u00e9 janeiro de 1845. Em Paris entra em estreito contato com o socialismo franc\u00eas (Proudhon e os seus seguidores), conhece o exilado russo Bakunin e, gra\u00e7as tamb\u00e9m \u00e0 leitura dos artigos de Engels, inicia o estudo da economia pol\u00edtica. Colabora com Ruge \u2013 tamb\u00e9m em ex\u00edlio \u2013 na publica\u00e7\u00e3o dos <em>Anais franco-alem\u00e3es<\/em> (dos quais sair\u00e1 apenas um n\u00famero). S\u00e3o meses de intenso trabalho te\u00f3rico, no qual Marx escreve muitos ensaios, alguns permaneceram in\u00e9ditos, outros publicados nos <em>Anais<\/em>: os <em>Manuscritos econ\u00f4micos-filos\u00f3ficos de 1844<\/em> (permaneceram in\u00e9ditos at\u00e9 o s\u00e9culo XX), <em>A quest\u00e3o hebraica<\/em>, <em>Para a cr\u00edtica da filosofia do direito de Hegel<\/em>: <em>introdu\u00e7\u00e3o<\/em> (ambas publicadas nos <em>Anais<\/em> em 1844), e <em>A sagrada fam\u00edlia<\/em> (sobre a qual nos deteremos), a primeira obra que escreve junto com Engels (publicada em fevereiro de 1845).<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 1845, por solicita\u00e7\u00e3o do governo prussiano, Marx \u00e9 expulso da Fran\u00e7a. \u00c9 for\u00e7ado a ir para Bruxelas, onde continua a sua intensa atividade de estudo e escrita. \u00c9 aqui que escreve as suas <em>Teses sobre Feuerbach<\/em> (publicadas postumamente por Engels em 1888) e por \u00faltimo <em>A ideologia alem\u00e3<\/em> (escrita com Engels e in\u00e9dita at\u00e9 o s\u00e9culo XX). \u00c9 neste per\u00edodo, a partir de 1844, que Marx se torna comunista. Fator determinante para a sua ades\u00e3o consciente ao comunismo, al\u00e9m da influ\u00eancia de Engels, \u00e9 o encontro direto com o movimento oper\u00e1rio e as suas organiza\u00e7\u00f5es. Nesses meses, Marx e Engels ficam profundamente impressionados pela onda de greves e revoltas oper\u00e1rias em sua terra de origem. \u00a0Em 1844, juntam-se a elas os ecos da revolta dos trabalhadores t\u00eaxteis da Sil\u00e9sia (celebrada por Heine em um famoso poema), a onda de greves das f\u00e1bricas de algod\u00e3o de Berlim, os protestos ferrovi\u00e1rios da Westfalia. Durante uma das suas perman\u00eancias em Londres (ver\u00e3o de 1845), encontram os dirigentes do movimento oper\u00e1rio ingl\u00eas (cartistas) e alguns oper\u00e1rios imigrantes alem\u00e3es. Segundo Riazanov, (10) n\u00e3o \u00e9 certo se durante esse per\u00edodo tenham encontrado Weitling (sabemos com certeza que come\u00e7am a frequent\u00e1-lo assiduamente no in\u00edcio de 1846), reconhecido como uma autoridade indiscut\u00edvel por parte da imensa maioria dos oper\u00e1rios alem\u00e3es imigrantes em Londres. Seguramente encontram outros respeit\u00e1veis expoentes da <em>Liga dos justos<\/em> e da <em>Associa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores alem\u00e3es de Londres<\/em>. (11) Uma coisa \u00e9 certa: Marx a esse ponto tornou-se <em>marxista<\/em>!<\/p>\n<p><strong>Das fantasias dos Jovens hegelianos ao comunismo <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Entramos agora no vivo dos conte\u00fados e vamos ver quais s\u00e3o as cr\u00edticas que Marx e Engels dirigem aos Jovens hegelianos no momento no qual se separam definitivamente deles. Foi determinante, como dissemos, o encontro com o movimento oper\u00e1rio e as suas correntes. A evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Marx e Engels n\u00e3o \u00e9 o \u00eaxito, como muitos historiadores procuraram sustentar, de um percurso meramente intelectual ou filos\u00f3fico. Sem o contato vivo com a luta de classes e os expoentes do movimento oper\u00e1rio, Marx e Engels n\u00e3o teriam se tornado o Marx e Engels que todos n\u00f3s conhecemos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, no percurso intelectual e pol\u00edtico que os dois revolucion\u00e1rios estavam fazendo, foi importante a publica\u00e7\u00e3o, naqueles anos, de uma obra: <em>A ess\u00eancia do cristianismo<\/em> de Feuerbach. Escreve Engels: \u201cO entusiasmo foi geral: por um momento fomos todos feuerbachianos\u201d (12). Mas sobre isso falaremos daqui a pouco.<\/p>\n<p>\u00c9 <em>A sagrada fam\u00edlia<\/em>, escrita em 1844 e publicada em 1845, o primeiro texto a quatro m\u00e3os de Marx e Engels, a obra na qual os dois revolucion\u00e1rios fecham as contas definitivamente com os Jovens hegelianos. Por ora ainda fascinados pelo materialismo humanista de Feuerbach, atacam impiedosamente, com amplas doses de sarcasmo, Bruno Bauer e companhia. Os dois autores est\u00e3o conscientes de atacar um pequeno mundo, exclusivamente alem\u00e3o, um min\u00fasculo recinto de intelectuais presun\u00e7osos e arrogantes \u2013 como ironizam na <em>A ideologia alem\u00e3<\/em>, para os Jovens hegelianos \u201co <em>theatrum mundi<\/em> se limita \u00e0 feira do livro de L\u00edpsia\u201d(13) \u2013 mas est\u00e3o tamb\u00e9m conscientes de que se trata, para eles, de uma passagem fundamental. Era chegado o tempo de romper definitivamente com o idealismo hegeliano e os seus ap\u00eandices, era chegado o tempo de confrontar-se com o mundo real.<\/p>\n<p>Os destinat\u00e1rios principais da pol\u00eamica s\u00e3o Bruno Bauer e a sua \u201ccr\u00edtica cr\u00edtica\u201d: \u201cIsso que n\u00f3s combatemos na cr\u00edtica baueriana \u00e9 a <em>especula\u00e7\u00e3o que se torna caricatura<\/em>. Esta representa para n\u00f3s a express\u00e3o mais completa do princ\u00edpio <em>crist\u00e3o-germ\u00e2nico<\/em>, o qual tenta o seu \u00faltimo experimento transformando \u201c<em>a cr\u00edtica<\/em>\u201d mesma, em uma pot\u00eancia transcendental\u201d. (14) Parafraseando: o que Marx e Engels criticam, antes de tudo, na abordagem de Bauer \u00e9 a sua tend\u00eancia a considerar a atividade intelectual, precisamente a <em>cr\u00edtica<\/em> intelectual, como \u00fanico fator de transforma\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Estas que n\u00e3o s\u00e3o outra coisa, no fundo, que \u201ccriaturas ideais, fant\u00e1sticas\u201d, na abordagem dos Jovens hegelianos, tornam-se tudo. A \u201ccr\u00edtica da cr\u00edtica\u201d proclamou a si mesma \u201co elemento exclusivamente criativo da hist\u00f3ria\u201d (15) esquecendo-se que o mundo real, concreto, hist\u00f3rico, \u00e9 o verdadeiro e \u00fanico sujeito da hist\u00f3ria. Dito em outros termos, Bauer e os seus disc\u00edpulos, fecharam-se no seu pequeno mundo de abstra\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, pensam poder mudar o curso da hist\u00f3ria com o exerc\u00edcio exclusivo da cr\u00edtica intelectual, permanecendo distantes das massas, isto \u00e9, dos elementos concretos que agem na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Trata-se de temas que ser\u00e3o retomados e aprofundados na <em>A ideologia alem\u00e3<\/em>, obra na qual o movimento jovem-hegeliano \u00e9 duramente criticado com express\u00f5es depreciativas: \u201ccharlatanismo filos\u00f3fico\u201d, \u201cmesquinharia\u201d, \u201cestreiteza provinciana\u201d. (16) Al\u00e9m disso, a acusa\u00e7\u00e3o que Marx e Engels movem contra Bauer \u00e9 aquela de superestimar o papel da cr\u00edtica meramente intelectual, mantendo-se assim ancorado, contra a sua vontade, \u00e0 abordagem idealista hegeliana (aquela pela qual o elemento espiritual conta mais que o material): \u201cresulta como se a ela estivesse preso como uma rocha na cren\u00e7a da pot\u00eancia dos fil\u00f3sofos e compartilha as suas ilus\u00f5es de que uma mudan\u00e7a de consci\u00eancia, uma nova orienta\u00e7\u00e3o na interpreta\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es existentes, possam transformar o mundo como ele foi at\u00e9 agora\u201d. (17)<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 o ponto: para mudar o mundo \u00e9 necess\u00e1rio mudar as consci\u00eancias? Basta ficar fechado em uma sala e escrever artigos, ou ensaios brilhantes, como faziam os Jovens hegelianos? Quem assim o pensa, segundo Marx, se arrisca a cair novamente em uma forma de idealismo (o espiritualismo) abstrato: \u201co ato de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade se reduz a <em>atividade cerebral<\/em>\u201d. (18)<\/p>\n<p>Quando Marx e Engels escrevem estas obras descobrem o proletariado, cujas condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho j\u00e1 haviam sido analisadas em escritos anteriores, do livro de Engels <em>A situa\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria na Inglaterra<\/em> aos <em>Manuscritos econ\u00f4micos-filos\u00f3ficos<\/em> de Marx. Na <em>Sagrada fam\u00edlia<\/em> e na <em>Ideologia alem\u00e3<\/em> fica claro aos dois autores que qualquer transforma\u00e7\u00e3o radical do mundo exterior n\u00e3o poder\u00e1 ocorrer sem o proletariado como protagonista. Nenhum coven de doutores e refinados intelectuais \u2013 preocupado em preservar a sua \u201cpureza virginal\u201d retirando-se \u201chorrorizados pelo contato com a massa pecadora, leprosa\u201d, que se limitam a trat\u00e1-la como \u201cum grande p\u00fablico\u201d (19) \u2013poder\u00e1 nunca substituir o papel hist\u00f3rico do proletariado. Isso n\u00e3o significa, absolutamente, exaltar ou glorificar o proletariado tal como \u00e9, tal como se apresenta na sociedade moderna. \u00c9 exatamente o contr\u00e1rio: \u201c\u00e9 porque nas condi\u00e7\u00f5es de vida do proletariado est\u00e3o sintetizadas todas as condi\u00e7\u00f5es de vida da sociedade moderna na sua aspereza mais desumana; \u00e9 porque no proletariado o homem perdeu a si mesmo, mas ao mesmo tempo, n\u00e3o apenas conquistou a consci\u00eancia te\u00f3rica dessa perda, como \u00e9 tamb\u00e9m for\u00e7ado pela <em>necessidade<\/em> que n\u00e3o pode mais suprimir, que n\u00e3o \u00e9 mais inevit\u00e1vel, \u00e9 absolutamente imperativa [&#8230;] a revolta contra essa desumaniza\u00e7\u00e3o; por isso o proletariado pode e deve necessariamente libertar-se a si mesmo\u201d. (20) E, libertando-se a si mesmo da explora\u00e7\u00e3o, libertar\u00e1 ao mesmo tempo toda a humanidade: \u201cn\u00e3o pode romper as pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de vida sem romper com <em>todas<\/em> as condi\u00e7\u00f5es de vida desumanas da sociedade moderna, condi\u00e7\u00f5es que se sintetizam na sua situa\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o frequenta em v\u00e3o a dura, mas fortalecedora escola do <em>trabalho<\/em>\u201d. (21) Para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida da humanidade \u00e9 necess\u00e1rio, ent\u00e3o, organizar o proletariado como classe revolucion\u00e1ria. \u00c9 necess\u00e1rio fazer aquilo que, mesmo naqueles anos, Marx e Engels come\u00e7aram a fazer: estabelecer contatos com o movimento oper\u00e1rio, construir no seu interior um partido comunista e uma internacional revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>H\u00e1, nestas considera\u00e7\u00f5es, alguma coisa que ainda \u00e9 atual. N\u00e3o \u00e9 verdade que, tamb\u00e9m hoje como naquela \u00e9poca, exista uma fratura entre o mundo intelectual e as organiza\u00e7\u00f5es da classe oper\u00e1ria? N\u00e3o existe uma tend\u00eancia, nos meios cultos que se consideram progressistas, a desvalorizar o proletariado e o seu papel hist\u00f3rico, a fechar-se em um mundo fechado, distante das massas, relegado, no m\u00e1ximo, ao papel de p\u00fablico passivo (talvez na forma de p\u00fablico televisivo)? O proletariado, a \u201cmassa leprosa\u201d, \u00e9 assim deixado \u00e0 merc\u00ea das sereias populistas e chauvinistas&#8230;<\/p>\n<p>Marx e Engels, naqueles anos, depois de terem passado a juventude nos c\u00edrculos de refinados estudiosos e acad\u00eamicos, depois de terem compreendido que os pensamentos e as palavras daqueles fil\u00f3sofos n\u00e3o conseguiriam transformar o mundo (e nem menos parar a repress\u00e3o que se abatia sobre eles), trocaram de companhias, se assim se pode dizer. Abandonaram para sempre os c\u00edrculos presun\u00e7osos e arrogantes de quem pensava transformar a realidade com uma teoria original, ou com a publica\u00e7\u00e3o de um <em>panfleto<\/em>: iniciaram uma paciente, dif\u00edcil, mas necess\u00e1ria, a\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o da vanguarda do proletariado. Uma vez tornados comunistas, n\u00e3o era mais poss\u00edvel para eles regozijar-se de uma est\u00e9ril pol\u00eamica entre intelectuais. Come\u00e7aram a confrontar-se com o mundo real, com o proletariado. Come\u00e7aram a escrever e a agir para o proletariado. Fundaram a Liga dos comunistas (1847). Constru\u00edram as bases necess\u00e1rias para libertar a humanidade das suas correntes. Para eles foi fundamental fazer um acerto de contas com Feuerbach, de quem ainda se consideravam devedores.<\/p>\n<p><strong>Da antropologia \u00e0 hist\u00f3ria: a cr\u00edtica a Feuerbach<\/strong><\/p>\n<p>Mas quem era Feuerbach? E por que \u00e9 t\u00e3o importante no percurso te\u00f3rico e pol\u00edtico de Marx e Engels? Feuerbach tamb\u00e9m era um estudioso de filosofia. Como os outros Jovens hegelianos, n\u00e3o consegue na Pr\u00fassia daquela \u00e9poca, por causa da repress\u00e3o, a seguir uma carreira universit\u00e1ria. Como lembra frequentemente Engels, n\u00e3o era ativo politicamente, preferia dedicar-se \u00e0 mera pesquisa te\u00f3rica e se recusou inclusive a colaborar com os <em>Anais franco-alem\u00e3es<\/em> de Ruge e Marx (ainda que se por um breve per\u00edodo, foi tamb\u00e9m ele arrastado pelo clima revolucion\u00e1rio de 1848).<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a publica\u00e7\u00e3o da sua obra mais not\u00e1vel, <em>A ess\u00eancia do cristianismo<\/em> (1841) teve, como j\u00e1 dissemos, um eco enorme no movimento dos Jovens hegelianos. N\u00e3o se tratou de um best-seller: a sua leitura se mant\u00e9m confinada a um restrito c\u00edrculo de estudantes, ex-estudantes e professores de filosofia. Mas era destinada a assumir um grande valor como momento de transi\u00e7\u00e3o do terreno meramente filos\u00f3fico (intelectual) dos Jovens hegelianos a uma recupera\u00e7\u00e3o do materialismo.<\/p>\n<p>Nessa obra Feuerbach procura demonstrar o car\u00e1ter ilus\u00f3rio de qualquer contraposi\u00e7\u00e3o entre o divino e o humano: \u201co objeto e o conte\u00fado da religi\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 inteiramente humano\u201d. (22) Feuerbach, em outras palavras, reduz a teologia \u00e0 antropologia: o conte\u00fado da religi\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 humano porque \u201cna religi\u00e3o o homem coloca a sua ess\u00eancia fora de si\u201d, a sua ess\u00eancia se torna ent\u00e3o \u201cuma ess\u00eancia separada, diversa, e assim, oposta a ele\u201d, (23) a quem o ser humano inclusive se submete: \u201cpara enriquecer Deus \u00e9 necess\u00e1rio que o ser humano se torne pobre, porque Deus sendo tudo precisa que o ser humano seja nada\u201d. (24) A religi\u00e3o para Feuerbach \u00e9 <em>aliena\u00e7\u00e3o,<\/em> no sentido que o ser humano projeta para fora de si (aliena) a sua pr\u00f3pria ess\u00eancia, as pr\u00f3prias necessidades, as pr\u00f3prias aspira\u00e7\u00f5es, os pr\u00f3prios medos, criando uma entidade divina: \u00e9 o ser humano que cria deus e n\u00e3o deus que cria o ser humano.<\/p>\n<p>Marx e Engels ficam impressionados com essa intui\u00e7\u00e3o. Na <em>Sagrada fam\u00edlia<\/em>, a sua obra mais feuerbachiana, (25) valorizam antes de tudo o fato de que para Feuerbach \u201ca filosofia deve descer do c\u00e9u da especula\u00e7\u00e3o ao profundo da mis\u00e9ria humana\u201d. (26) Ele teve o m\u00e9rito de desvelar o fundamento humano, portanto material, de todas as abstra\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, religiosas inclusive: colocou sobre o trono o materialismo, isto \u00e9, o ser humano concreto (\u00e9 c\u00e9lebre a express\u00e3o de Feuerbach \u201co homem \u00e9 aquilo que ele come\u201d). Se antes de Feuerbach os protagonistas de cada debate te\u00f3rico eram o esp\u00edrito (Hegel), os conceitos abstratos como autoconsci\u00eancia (Jovens hegelianos), depois dele foram colocadas as bases para a dissolu\u00e7\u00e3o de toda metaf\u00edsica: os protagonistas tornaram-se as pessoas com as suas necessidades e as suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m na <em>Ideologia alem\u00e3<\/em>, Marx reconhece os m\u00e9ritos de Feuerbach, mas inicia essa obra, como nas <em>Teses<\/em>, com uma ruptura cr\u00edtica com as suas ideias. Na <em>Ideologia alem\u00e3<\/em>, Marx e Engels fecham definitivamente as contas com a sua \u201cconsci\u00eancia filos\u00f3fica anterior\u201d: (27) Reafirmam a sua ruptura com os Jovens hegelianos, \u201covelhas que se creem lobos\u201d, completamente absorvidos por uma \u201cluta filos\u00f3fica com as sombras da realidade\u201d. (28) Aqui, definem melhor a cr\u00edtica j\u00e1 presente na <em>Sagrada fam\u00edlia<\/em>. Os Jovens hegelianos supervalorizam o peso das representa\u00e7\u00f5es que os seres humanos fazem do mundo, supervalorizam a for\u00e7a das <em>ideias<\/em>, da <em>consci\u00eancia<\/em>. Creem que, para libertar a humanidade das suas correntes, seja necess\u00e1rio e suficiente mudar a consci\u00eancia das pessoas (a sua mentalidade, dir\u00edamos hoje): \u201cesses Jovens hegelianos consideram as representa\u00e7\u00f5es, as ideias, os conceitos e, em geral, os produtos da consci\u00eancia [&#8230;] como as verdadeiras correntes dos homens\u201d. (29) Para isso, pensam que o objetivo principal seja mesmo mudar as consci\u00eancias, educa-las, est\u00e3o convencidos de que seja suficiente ensinar as pessoas a \u201cinterpretar de modo diferente aquilo que existe\u201d: n\u00e3o combatem o mundo realmente existente, mas \u201capenas as frases deste mundo\u201d. (30)<\/p>\n<p>Come\u00e7a aqui para Marx e Engels a elabora\u00e7\u00e3o do materialismo <em>hist\u00f3rico<\/em>, isto \u00e9, aquela concep\u00e7\u00e3o pela qual, n\u00e3o s\u00e3o as ideias, a consci\u00eancia, os elementos espirituais os fatores determinantes do desenvolvimento hist\u00f3rico, mas sim as condi\u00e7\u00f5es materiais de vida e a a\u00e7\u00e3o dos seres humanos no seu interior. Os Jovens hegelianos permanecem no terreno abstrato, idealista: ainda que rompendo com alguns aspectos do pensamento de Hegel, continuam a pensar que o elemento determinante seja aquele <em>espiritual<\/em>. Aquilo que n\u00e3o compreendem \u00e9 que as ideias \u2013 assim como todas as produ\u00e7\u00f5es espirituais dos homens (moral, religi\u00e3o, filosofia) \u2013 dependem das condi\u00e7\u00f5es materiais de vida, das rela\u00e7\u00f5es materiais que os homens estabelecem entre si: \u201cA produ\u00e7\u00e3o das ideias, das representa\u00e7\u00f5es, da consci\u00eancia \u00e9, em primeiro lugar, diretamente entrela\u00e7ada com a atividade material e com as rela\u00e7\u00f5es materiais dos homens [&#8230;] N\u00e3o \u00e9 a consci\u00eancia que determina a vida, mas a vida que determina a consci\u00eancia\u201d. (31)<\/p>\n<p>Feuerbach teve o m\u00e9rito de demonstrar que o mundo material \u00e9 a \u00fanica coisa real e que as ideias, partindo daquelas religiosas, n\u00e3o s\u00e3o outra coisa que produtos da mat\u00e9ria. Mas, para o dizer com Engels, \u201cchegado a esse ponto Feuerbach se det\u00e9m\u201d. (32) Ele termina ainda por cometer os mesmos erros dos Jovens hegelianos: pensa que seja poss\u00edvel mudar as coisas, mudando as ideias. Pensa que para superar a aliena\u00e7\u00e3o religiosa basta reconhec\u00ea-la teoricamente, cr\u00ea que seja necess\u00e1rio educar as pessoas no amor rec\u00edproco para libert\u00e1-las das suas correntes. Cr\u00ea, em poucas palavras, que basta um exerc\u00edcio te\u00f3rico, intelectual, para mudar o mundo: ele quer \u201ccomo os outros te\u00f3ricos, suscitar somente uma consci\u00eancia correta sobre um fato existente, enquanto para o comunista aut\u00eantico o que importa \u00e9 subverter o que existe\u201d. (33) Como os Jovens hegelianos permanece ent\u00e3o, em \u00faltima inst\u00e2ncia, sobre um terreno idealista: compreendendo que sobre a base das ideias existem fatos humanos, n\u00e3o chega a compreender a necessidade de um \u201cmovimento pr\u00e1tico\u201d, de \u201cuma revolu\u00e7\u00e3o\u201d. (34) Aqui est\u00e1 o erro no qual incorre Feuerbach: n\u00e3o entende que \u201cn\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel realizar uma liberta\u00e7\u00e3o real se n\u00e3o no mundo real e com meios reais [&#8230;], que a liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato hist\u00f3rico, n\u00e3o um ato ideal\u201d. (35)<\/p>\n<p>A base do erro, segundo Marx e Engels, est\u00e1 no fato de que Feuerbach se mant\u00e9m ancorado a uma vis\u00e3o abstrata (ou seja, idealista) do ser humano: leva em considera\u00e7\u00e3o o homem em geral, isto \u00e9, um homem, de fato, que n\u00e3o existe na realidade. Os homens est\u00e3o sempre inseridos em um contexto de rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais, s\u00e3o ent\u00e3o o resultado de um conjunto complexo de fatores \u2013 o conjunto das suas necessidades, os meios de produ\u00e7\u00e3o e de reprodu\u00e7\u00e3o, as trocas e a coopera\u00e7\u00e3o etc. \u2013 que fazem dele um produto hist\u00f3rico. N\u00e3o considerando as pessoas em suas conex\u00f5es sociais, no sistema econ\u00f4mico no qual est\u00e3o inseridas, n\u00e3o as compreende em seu verdadeiro ser e continua parado na abstra\u00e7\u00e3o \u201chomem\u201d. Por isso lhe foge a import\u00e2ncia de mudar, com a pr\u00e1xis e a atividade revolucion\u00e1ria, as suas condi\u00e7\u00f5es de vida: recai \u201cno idealismo bem ali onde o materialista comunista v\u00ea a necessidade e, junto a ela, a condi\u00e7\u00e3o de uma transforma\u00e7\u00e3o tanto da ind\u00fastria quanto da estrutura social\u201d(36).<\/p>\n<p>O motivos pelos quais \u00e9 necess\u00e1rio transformar o materialismo antropol\u00f3gico em materialismo hist\u00f3rico e a \u201cfilosofia do porvir\u201d em pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria, s\u00e3o melhor explicitados por Marx nas <em>Teses sobre Feuerbach<\/em>, que agora analisaremos.<\/p>\n<p><strong>As <em>Teses sobre Feuerbach<\/em>: chegou a hora de transformar o mundo!<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>No j\u00e1 citado pref\u00e1cio de Engels ao seu Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia cl\u00e1ssica alem\u00e3, o grande revolucion\u00e1rio define as <em>Teses sobre Feuerbach<\/em>\u00a0 como um texto \u201cde valor inestim\u00e1vel\u201d, o \u201cprimeiro documento no qual \u00e9 apresentado o germe genial da nova concep\u00e7\u00e3o de mundo\u201d, (37) vale dizer, o materialismo hist\u00f3rico. Mas do que se trata exatamente?<\/p>\n<p>Como explica o pr\u00f3prio Engels, que primeiro o publicou em 1888, se trata de apontamentos de Marx \u201cfeitos muito rapidamente, sem pretens\u00e3o alguma de publica\u00e7\u00e3o\u201d, nos quais, no entanto, Marx fecha as contas, definitivamente, inclusive com as ideias de Feuerbach, ilustrando quais s\u00e3o os motivos principais que o afastaram de seu materialismo antropol\u00f3gico. Nos anos mais recentes nos quais o marxismo andava ainda em moda na academia \u2013 como levado pela luta de classes que atravessava a Europa entre o fim dos anos sessenta e os primeiros anos dos setenta do s\u00e9culo XX \u2013 muitos intelectuais se dedicaram a procurar interpretar esse breve manuscrito (38) \u2013 que publicamos ao final deste artigo \u2013 cujo conte\u00fado resulta, em uma primeira leitura, de dif\u00edcil interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acreditamos que nessas <em>Teses<\/em> esteja a ess\u00eancia da <em>dial\u00e9tica materialista<\/em>, aquela que Engels definia como \u201co nosso melhor meio de trabalho e a nossa arma mais afiada\u201d. (39) \u00c9 aqui de fato que se encontra, pela primeira vez, a s\u00edntese entre o <em>m\u00e9todo<\/em> do idealismo hegeliano, isto \u00e9, a dial\u00e9tica, e o <em>conte\u00fado<\/em> do materialismo feuerbachiano, isto \u00e9, o homem. Essa s\u00edntese \u00e9 a <em>pr\u00e1xis<\/em>, precisamente a <em>pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria<\/em>.<\/p>\n<p>Hegel havia postulado a hip\u00f3tese de que o sujeito da hist\u00f3ria era o esp\u00edrito: considerava ent\u00e3o que todo o mundo das rela\u00e7\u00f5es materiais fosse uma esp\u00e9cie de desdobramento desse sujeito imaterial. Da\u00ed a impossibilidade, para os homens, de mudar o curso da hist\u00f3ria: a <em>hist\u00f3ria do mundo<\/em> para Hegel era \u201ca representa\u00e7\u00e3o do processo divino e absoluto do esp\u00edrito nas suas mais altas formas, \u00e9 desse curso gradual que ele alcan\u00e7a a sua verdade, a autoconsci\u00eancia de si\u201d. (40) Mas se Hegel permanece enredado nestas \u201carmadilhas idealistas\u201d, h\u00e1 algo de revolucion\u00e1rio no seu sistema filos\u00f3fico e \u00e9, precisamente, o m\u00e9todo que utiliza, isto \u00e9, a dial\u00e9tica. \u00c9 um m\u00e9todo que se baseia na ideia de que nada permanece igual a si mesmo, que em cada \u201cdetermina\u00e7\u00e3o\u201d est\u00e1 impl\u00edcita a sua \u201cnega\u00e7\u00e3o\u201d, passagem necess\u00e1ria para uma s\u00edntese superior (<em>Aufhebung<\/em>). Vale a pena recordar as palavras de L\u00eanin: \u201cMarx e Engels consideravam a dial\u00e9tica hegeliana como a mais completa, a mais profunda e a mais rica doutrina da evolu\u00e7\u00e3o, como a maior conquista da filosofia cl\u00e1ssica alem\u00e3. Todas as outras formula\u00e7\u00f5es do princ\u00edpio do desenvolvimento, da evolu\u00e7\u00e3o, elas permanecem unilaterais, pobres de conte\u00fado, de tal modo a deformarem e mutilarem o real processo de desenvolvimento (frequentemente marcado por saltos, cat\u00e1strofes, revolu\u00e7\u00f5es) na natureza e na sociedade. \u2018Marx e eu \u00e9ramos os \u00fanicos a salvar da filosofia idealista alem\u00e3\u2019 (da destrui\u00e7\u00e3o do idealismo, daquele hegeliano inclusive) \u2018a dial\u00e9tica consciente e a transferi-la para a concep\u00e7\u00e3o materialista da natureza e da hist\u00f3ria\u2019 (F. Engels, <em>Anti-D\u00fchring<\/em>)\u201d. (41)<\/p>\n<p>Se Feuerbach tem o m\u00e9rito, como disse Engels, de ter \u201crecolocado sobre o trono o materialismo\u201d, ao mesmo tempo, como todos os materialistas que o precederam, permanece ancorado a uma vis\u00e3o \u201creificada\u201d da mat\u00e9ria. Inclusive o ser humano e tudo aquilo que lhe diz respeito est\u00e1 em Feuerbach como fatos est\u00e1ticos, analisados da mesma forma que os fatos naturais, mecanismos passivos. Nisto ele se mant\u00e9m firme a abordagem do materialismo iluminista do s\u00e9culo XVIII, (42) o <em>materialismo mecanicista<\/em> precisamente. Era um materialismo incapaz \u201cde conceber o mundo como um processo, como uma mat\u00e9ria sujeita a um cont\u00ednuo aperfei\u00e7oamento hist\u00f3rico\u201d (43) Mas se os fatos humanos s\u00e3o concebidos como <em>objetos passivos<\/em>, se cai em uma vis\u00e3o abstrata, ent\u00e3o novamente <em>idealista<\/em>, do ser humano: os homens em Feuerbach est\u00e3o al\u00e9m do contexto de suas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais \u2013 que s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es <em>pr\u00e1ticas<\/em> \u2013 e assim, s\u00e3o pessoas inexistentes na realidade: s\u00e3o pessoas t\u00e3o <em>irreais<\/em> quanto as constru\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas que Feuerbach justamente contesta. (44)<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, n\u00e3o basta interpretar os homens e suas a\u00e7\u00f5es como meros \u201cprodutos das circunst\u00e2ncias e da educa\u00e7\u00e3o\u201d. (45) Mesmo nesse caso, emerge a exig\u00eancia de recuperar o elemento ativo (din\u00e2mico, dial\u00e9tico) do idealismo para integrar o materialismo de Feuerbach: ele esquece que \u201cas circunst\u00e2ncias s\u00e3o modificadas pelos homens e que o educador mesmo deve ser educado\u201d. (46) Pensar, como fazia Feuerbach, que poderia mudar os homens apenas com a educa\u00e7\u00e3o significa negar o \u00fanico elemento verdadeiramente em grau de mudar as circunst\u00e2ncias e ent\u00e3o de transformar o que existe: a <em>pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria<\/em>. Em outras palavras, o homem, a diferen\u00e7a da \u00e1gua que \u00e9 \u201cfor\u00e7ada\u201d a transformar-se em vapor ao passar dos cem graus, n\u00e3o \u00e9 for\u00e7ado por nenhuma lei da natureza a sofrer as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais nas quais vive. O ser humano pode mudar essas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais e pode faz\u00ea-lo apenas <em>praticamente<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que reside a import\u00e2ncia da d\u00e9cima primeira tese, a mais conhecida: \u201cos fil\u00f3sofos apenas interpretaram o mundo diversamente; trata-se, no entanto, de transform\u00e1-lo\u201d. (47) E quem est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de transformar o mundo com a sua atividade pr\u00e1tica? N\u00e3o s\u00e3o certamente os homens individuais, esses s\u00e3o os her\u00f3is: as verdadeiras e \u00fanicas \u201cfor\u00e7as motrizes\u201d da hist\u00f3ria s\u00e3o as grandes massas, as classes, quando entram em cena, n\u00e3o para \u201cum fogo de palha r\u00e1pido a apagar-se\u201d, mas para \u201cuma a\u00e7\u00e3o de longa dura\u00e7\u00e3o\u201d. (48) Aqui est\u00e1 o porqu\u00ea, parafraseando Engels, o movimento oper\u00e1rio \u00e9 o \u00fanico leg\u00edtimo herdeiro da melhor filosofia: apenas no seu interior \u2013 ali onde \u201cn\u00e3o existem preocupa\u00e7\u00f5es nem de carreira, nem de lucro, nem de ben\u00e9vola prote\u00e7\u00e3o do alto\u201d (49) \u2013 poderemos encontrar as premissas materiais, <em>pr\u00e1ticas,<\/em> da transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mudar as consci\u00eancias ou fazer a revolu\u00e7\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 \u00fatil assinalar novamente a atualidade do que estamos analisando. Nos encontramos frequentemente a fazer as contas com um sentimento difundido entre os trabalhadores e as trabalhadoras, inclusive os seus setores de vanguarda: a ideia de que para mudar o mundo serve primeiramente uma \u201cmudan\u00e7a de mentalidade\u201d dos homens.\u00a0 \u00c9 muito comum escutar a ladainha que sustenta que a principal transforma\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia seja a cultura, ou a educa\u00e7\u00e3o. Principalmente nesse momento hist\u00f3rico no qual est\u00e3o se difundindo e obtendo consenso entre as massas (inclusive aquelas oper\u00e1rias), movimentos xen\u00f3fobos, chauvinistas e racistas, a aten\u00e7\u00e3o de tantos se concentra sobre a consci\u00eancia. \u201cAs consci\u00eancias s\u00e3o atrasadas\u201d, nos explicam. Ent\u00e3o, n\u00e3o resta sen\u00e3o resignar-se; ou mudar, primeiramente, as consci\u00eancias mesmas. Marx e Engels nos ensinaram, nas passagens que h\u00e1 pouco analisamos, que as coisas n\u00e3o s\u00e3o assim. Para mudar o mundo \u2013 e para mudar as consci\u00eancias das massas \u2013 \u00e9 necess\u00e1rio mudar as condi\u00e7\u00f5es materiais das massas: ocorre subverter o modo de produ\u00e7\u00e3o e as formas de rela\u00e7\u00f5es at\u00e9 agora existentes. Para faz\u00ea-lo, j\u00e1 o escrevemos em outros artigos, n\u00e3o existem atalhos, a receita \u00e9 sempre aquela identificada por Marx e Engels: \u201corganiza\u00e7\u00e3o do proletariado em classe, abatimento da domina\u00e7\u00e3o burguesa, conquista do poder pol\u00edtico por parte do proletariado\u201d. (50)<\/p>\n<p>\u00c9 claro que a ideologia dominante, que tamb\u00e9m contamina as consci\u00eancias das massas prolet\u00e1rias, representa um grande obst\u00e1culo. N\u00e3o \u00e9 uma coincid\u00eancia: a classe que det\u00e9m os meios de produ\u00e7\u00e3o \u2013 a burguesia \u2013 controla tamb\u00e9m os meios de produ\u00e7\u00e3o das ideias, \u201cdisp\u00f5e ao mesmo tempo dos meios de produ\u00e7\u00e3o intelectual de modo que a ela est\u00e3o submetidas as ideias daqueles aos quais faltam os meios de produ\u00e7\u00e3o intelectual\u201d. (51) Como explicam bem Marx e Engels em uma das obras que analisamos neste artigo, <em>A ideologia alem\u00e3<\/em>, no seio da pr\u00f3pria classe dominante existe uma subdivis\u00e3o do trabalho entre os \u201cmembros mais ativos da classe\u201d \u2013 aqueles que se preocupam principalmente de fazer lucro, isto \u00e9, os capitalistas \u2013 e os \u201cide\u00f3logos\u201d \u2013 aqueles que \u201cda elabora\u00e7\u00e3o das ilus\u00f5es dessa classe sobre si mesma, fazem o seu of\u00edcio principal\u201d. (52) Se nos tempos de Marx e Engels o trabalho dos ide\u00f3logos consistia essencialmente na produ\u00e7\u00e3o de livros, artigos de jornais e serm\u00f5es dominicais, hoje, com as <em>mass media<\/em> [m\u00eddias de massa], a caixa de resson\u00e2ncia das ideias dominantes \u00e9 muito mais ampla: dos jornais \u00e0s transmiss\u00f5es televisivas, das editoras \u00e0quelas de produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, tudo \u00e9 em \u00faltima inst\u00e2ncia, express\u00e3o da ideologia dominante, isto \u00e9, burguesa. N\u00e3o devemos banalizar pensando que se trata de um mecanismo completamente controlado, conscientemente, pelos capitalistas. Como j\u00e1 no s\u00e9culo XIX, ainda hoje se pode criar, \u00e0s vezes, contradi\u00e7\u00f5es entre os interesses materiais dos burgueses e a a\u00e7\u00e3o dos \u201cide\u00f3logos\u201d: inclusive no \u00e2mbito da produ\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica controlada, materialmente, pelos capitalistas (que det\u00eam os meios de produ\u00e7\u00e3o) existem correntes de pensamento que fogem ao controle da burguesia produtiva e, \u00e0s vezes, parecem a ela se contrapor. Mas s\u00e3o contraposi\u00e7\u00f5es que, por permanecerem nos limites da esfera ideol\u00f3gica, n\u00e3o podem chegar a colocar realmente em discuss\u00e3o o dom\u00ednio burgu\u00eas. Tamb\u00e9m aqui s\u00e3o extraordinariamente atuais as palavras de Marx e Engels: no interior da classe burguesa a contraposi\u00e7\u00e3o entre a burguesia e os seus ide\u00f3logos \u201cpode at\u00e9 mesmo desenvolver-se at\u00e9 criar entre as duas partes uma certa oposi\u00e7\u00e3o e uma certa hostilidade, que todavia cai em si, quando come\u00e7a um confronto pr\u00e1tico que coloca em perigo a pr\u00f3pria classe: ent\u00e3o, se dissipa at\u00e9 a apar\u00eancia de que as ideias dominantes n\u00e3o sejam as ideias da classe dominante e de que tenham um poder distinto do poder daquela classe.\u201d (53) O objetivo principal dos ide\u00f3logos burgueses ser\u00e1 ent\u00e3o aquele de demonstrar que os interesses da burguesia s\u00e3o interesses universais, de toda a sociedade, inclusive do proletariado: ser\u00e1 sua tarefa defender o sagrado valor das institui\u00e7\u00f5es (ocultando o fato de que s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es <em>burguesas<\/em>) bem como o de apresentar como natural e inevit\u00e1vel um sistema econ\u00f4mico baseado sobre a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas se \u00e9 verdade que a hist\u00f3ria \u00e9, hoje como ontem, hist\u00f3ria da luta de classes, ent\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m verdade que as premissas materiais para a transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da sociedade \u2013 aquele \u201cabalo revolucion\u00e1rio periodicamente recorrente na hist\u00f3ria\u201d (54) \u2013 se reproduzem e se reproduzir\u00e3o continuamente, enquanto existirem classes (isto \u00e9, enquanto o proletariado n\u00e3o destruir a divis\u00e3o de classes instaurando o comunismo). Quando se abre uma fase revolucion\u00e1ria, se criam tamb\u00e9m as premissas para a difus\u00e3o de ideias revolucion\u00e1rias e para o fortalecimento do partido de vanguarda: todo o castelo ideol\u00f3gico da burguesia se derreter\u00e1, em pouco tempo, como neve ao sol. Nesse ponto, ser\u00e1 conflito aberto entre quem decidir\u00e1 defender os interesses da classe dominante e quem, como Marx e Engels, se colocar\u00e1 com a classe revolucion\u00e1ria, isto \u00e9, o proletariado. N\u00f3s sabemos de qual lado estaremos.<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>1) Se tratava da publica\u00e7\u00e3o em l\u00edngua alem\u00e3 da tese de doutorado do dinamarqu\u00eas Starke, intitulada precisamente <em>Ludwig Feuerbach. <\/em><\/p>\n<p>2) F. Engels, <em>Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia cl\u00e1ssica alem\u00e3.<\/em><\/p>\n<p>3) O Jovem <em>Karl Marx <\/em>de Raoul Peck.<\/p>\n<p>4) F. Engels, <em>op. cit.<\/em><\/p>\n<p>5) B. Nikolaevskij, O. Maenchen-Helfen, <em>Karl Marx<\/em>. \u00c9 \u00fatil citar o trecho inteiro para ter uma ideia dos n\u00edveis aos quais chegava a censura prussiana. \u201cA Pr\u00fassia n\u00e3o era outra coisa que uma imensa caserna. Uma censura odiosa que nas m\u00e3os de homens de vis\u00e3o curta conduzia uma guerra impiedosa contra o esp\u00edrito. Foi ent\u00e3o que um censor (\u2026) pode suprimir na K\u00f6lnische zeitung (Gazeta de Colonia) o an\u00fancio de uma tradu\u00e7\u00e3o da <em>Divina Com\u00e9dia<\/em> de Dante (\u2026) com essa observa\u00e7\u00e3o: \u2018N\u00e3o deve-se fazer com\u00e9dia com as coisas divinas\u2019\u201d.<\/p>\n<p>6) \u00abA personalidade do Estado \u00e9 real apenas enquanto \u00e9 pessoa: o monarca [&#8230;] \u00c9 a mais pr\u00f3xima da verdade aquela representa\u00e7\u00e3o segundo a qual o direito do monarca est\u00e1 fundado sobre a autoridade divina, porque nessa autoridade est\u00e1 contida o car\u00e1ter incondicional do monarca [&#8230;] Ora, a tarefa da considera\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica \u00e9 justamente aquela de compreender conceitualmente esse car\u00e1ter divino\u00bb. G. W. F. Hegel, <em>Princ\u00edpios da filosofia do direito.<\/em><\/p>\n<p>7) M. L\u00f6wy, <em>O jovem Marx<\/em>.<\/p>\n<p>8) Para uma reconstru\u00e7\u00e3o detalhada e pontual das rela\u00e7\u00f5es iniciais entre Marx e Engels recomendamos as li\u00e7\u00f5es de Riazanov: \u00abNisso se manifesta a influ\u00eancia das diversas condi\u00e7\u00f5es nas quais se formaram Marx e Engels, e em particular o fato de que Marx n\u00e3o havia conhecido a opress\u00e3o religiosa, o jugo intelectual ao qual Engels foi submetido em sua adolesc\u00eancia. Por isso Marx se entusiasmava menos pela luta religiosa\u00a0 e n\u00e3o considerava necess\u00e1rio consagrar todas as suas for\u00e7as a uma violenta cr\u00edtica antirreligiosa\u00bb, in D.B. Riazanov, <em>Marx e Engels, <\/em>1923.<\/p>\n<p>9) <em>Ivi.<\/em><\/p>\n<p>10) <em>Ivi<\/em>. Segundo outros estudiosos do pensamento de Marx, a exemplo de M. Rubel, j\u00e1 no ver\u00e3o de 1845, Marx e Engels encontraram Weitling.<\/p>\n<p>11) Para conhecer os detalhes dessa hist\u00f3ria, al\u00e9m das etapas sucessivas da evolu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre Marx e Engels e as associa\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, recomendamos o ensaio de F. Ricci, <em>La Lega dei comunisti e il Manifesto, <\/em>in <em>Trotskismo oggi<\/em>, n. 5, 2014.<\/p>\n<p>12) F. Engels, <em>op. cit.<\/em><\/p>\n<p>13) K. Marx, F. Engels, <em>A ideologia alem\u00e3<\/em>, 1846.<\/p>\n<p>14) K. Marx, F. Engels, <em>A sagrada fam\u00edlia, <\/em>1844.<\/p>\n<p>15) <em>Ivi<\/em>.<\/p>\n<p>16) K. Marx, F. Engels, <em>op. cit.<\/em><\/p>\n<p>17) <em>Ivi<\/em>.<\/p>\n<p>18) K. Marx, F. Engels, <em>op. cit.<\/em><\/p>\n<p>19) <em>Ivi<\/em>.<\/p>\n<p>20) <em>Ivi<\/em>.<\/p>\n<p>21) <em>Ivi.<\/em><\/p>\n<p>22) L. A. Feuerbach, <em>A ess\u00eancia do cristianismo,<\/em> 1841.<\/p>\n<p>23) <em>Ivi<\/em>.<\/p>\n<p>24) <em>Ivi<\/em>.<\/p>\n<p>25) Para sermos precisos, tamb\u00e9m nos <em>Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos de 1844<\/em> Marx elogia o pensamento de Feuerbach: \u00abFeuerbach \u00e9 o \u00fanico que est\u00e1 em uma rela\u00e7\u00e3o s\u00e9ria e cr\u00edtica com a dial\u00e9tica hegeliana, e que tem feito verdadeiras descobertas nesse campo e \u00e9 em suma o verdadeiro vencedor da velha filosofia. A grandeza da obra e a t\u00e1cita simplicidade que Feuerbach deu ao mundo, est\u00e3o em um contraste singular com a abordagem inversa dos outros\u00bb. K. Marx, <em>Manoscritti economico-filosofici del 1844<\/em>.<\/p>\n<p>26) K. Marx, F. Engels, <em>op. cit.<\/em><\/p>\n<p>27) F. Engels, <em>op. cit.<\/em><\/p>\n<p>28) K. Marx, F. Engels, <em>op. cit.<\/em><\/p>\n<p>29) Ivi.<\/p>\n<p>30) Ivi.<\/p>\n<p>31) Ivi.<\/p>\n<p>32) F. Engels, <em>op. cit.<\/em>, p. 70. A confirma\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo de Engels, no in\u00edcio dos <em>Princ\u00edpios da filosofia do futuro,<\/em> Feuerbach declara que a principal tarefa da idade moderna \u00e9\u00a0 \u00abaquele de realizar e humanizar Deus, vale dizer, resolver a teologia na antropologia\u00bb. Feuerbach, <em>Princ\u00edpios da filosofia do futuro<\/em>, 1844.<\/p>\n<p>33) K. Marx, F. Engels, <em>op.<\/em> <em>cit.<\/em><\/p>\n<p>34) <em>Ivi<\/em>.<\/p>\n<p>35) <em>Ivi<\/em>.<\/p>\n<p>36) <em>Ivi<\/em>.<\/p>\n<p>37) F. Engels, <em>op. cit<\/em>.<\/p>\n<p>38) Nos limitamos a recordar aqui a c\u00e9lebre interpreta\u00e7\u00e3o de Louis Althusser que considerou esses apontamentos como uma passagem fundamental na evolu\u00e7\u00e3o do pensamento de Marx atrav\u00e9s de uma abordagem mais cient\u00edfica: \u00abUma \u201cruptura epistemol\u00f3gica\u201d sem equ\u00edvocos \u00e9 claramente presente na obra de Marx, conforme Marx mesmo a coloca, na obra n\u00e3o publicada enquanto era ainda vivo, que constitui a cr\u00edtica da sua antiga consci\u00eancia filos\u00f3fica (ideologia): <em>A <\/em><em>ideologia alem\u00e3 <\/em>e as <em>Teses sobre Feuerbach<\/em>, que n\u00e3o s\u00e3o mais do que umas poucas frases, marcam o extremo frontal desta ruptura [&#8230;]. Alguns breves lampejos das <em>Teses sobre Feuerbach<\/em> atingem com a sua luz todos os fil\u00f3sofos que se aproximam, mas todos sabem que um lampejo ofusca mais\u00a0 do que n\u00e3o ilumina e que n\u00e3o h\u00e1 nada de mais dif\u00edcil de encontrar no espa\u00e7o da noite, um flash de luz que a rompe\u00bb, in L. Althusser, <em>Para Marx,<\/em> 1965.<\/p>\n<p>39) F. Engels, <em>op. cit.<\/em>, p. 91.<\/p>\n<p>40) G.W.F. Hegel, <em>Li\u00e7\u00f5es e filosofia da hist\u00f3ria<\/em>.<\/p>\n<p>41) V.I. Lenin, <em>Vida de Karl Marx<\/em>, 1914 (texto escrito para o <em>Dicion\u00e1rio enciclop\u00e9dico Granat<\/em>).<\/p>\n<p>42) Com a express\u00e3o materialismo iluminista se faz refer\u00eancia ao pensamento de alguns fil\u00f3sofos iluministas \u2013 La Mettrie, d\u2019Holbach, Helv\u00e9tius \u2013 que, contrapondo-se \u00e0s doutrinas religiosas e metaf\u00edsicas tradicionais, reconheceram como \u00fanico princ\u00edpio causal a mat\u00e9ria. Era uma forma de naturalismo\u00a0 mecanicista, com o qual se interpretava o homem e as suas a\u00e7\u00f5es como express\u00f5es de leis naturais, submetidas a uma r\u00edgida necessidade. Se essas \u00a0doutrinas tiveram o inquestion\u00e1vel m\u00e9rito de limpar o terreno de todas as supersti\u00e7\u00f5es religiosas e espiritualistas, ao mesmo tempo, reduziram o homem a uma m\u00e1quina , negando a possibilidade da a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica transformadora.<\/p>\n<p>43) F. Engels, <em>op. cit.<\/em><\/p>\n<p>44) K. Marx, <em>Teses sobre Feuerbach<\/em>. Observe para tal prop\u00f3sito em particular a sexta tese, onde se explica porque Feuerbach pressup\u00f5e \u201cum indiv\u00edduo humano abstrato \u2013 isolado\u201d.<\/p>\n<p>45) <em>Ivi<\/em>.<\/p>\n<p>46) <em>Ivi<\/em>.<\/p>\n<p>47) <em>Ivi<\/em>.<\/p>\n<p>48) F. Engels, <em>op. cit<\/em>. Vale a pena indicar o trecho inteiro: \u201cQuando se trata, portanto, de indagar as for\u00e7as motrizes que \u2013 conscientemente ou inconscientemente, e, para dizer a verdade, muito frequentemente inconscientemente \u2013 se escondem por tr\u00e1s dos motivos que movem os homens a agir no palco da hist\u00f3ria, n\u00e3o se pode tratar muito dos motivos que impulsionam a a\u00e7\u00e3o os homens singulares, sejam eles t\u00e3o iminentes quanto se queira, quanto dos motivos que colocam em movimento grandes massas, povos inteiros e, em cada povo, classes inteiras; e que os colocam em movimento n\u00e3o por um arroubo moment\u00e2neo e passageiro, por um fogo de palha r\u00e1pido a apagar-se, mas por uma a\u00e7\u00e3o de longa dura\u00e7\u00e3o, que d\u00e1 dire\u00e7\u00e3o a uma grande transforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica\u201d.<\/p>\n<p>49) <em>Ivi<\/em>.<\/p>\n<p>50) K. Marx, F. Engels, <em>Manifesto do partido comunista<\/em>, 1848.<\/p>\n<p>51) K. Marx, F. Engels, <em>op.<\/em> <em>cit.<\/em><\/p>\n<p>52) <em>Ivi<\/em>.<\/p>\n<p>53) <em>Ivi.<\/em><\/p>\n<p>54) <em>Ivi<\/em>.<\/p>\n<p>Artigo publicado originalmente na revista marxista revolucion\u00e1ria de teoria, pol\u00edtica e cultura <em>Trotskismo Oggi <\/em>n.\u00b0 16, do Partido de Alternativa Comunista (PdAC), It\u00e1lia, 30\/5\/2020.-<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: N\u00edvia Le\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cr\u00edtica de Marx e Engels aos jovens hegelianos e a Feuerbach. O que ainda h\u00e1 de atual neste debate?<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":63956,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[8,218,10],"tags":[7,531,2550,3964,1029,3965,9,476],"class_list":["post-63955","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia","category-italia","category-teoria","tag-engels","tag-fabiana-stefanoni","tag-filosofia","tag-hegel","tag-karl-marx","tag-ludwing-feuerbach","tag-marxismo","tag-pdac"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Filosofia-1.jpg","categories_names":["Hist\u00f3ria","It\u00e1lia","TEORIA"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63955","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63955"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63955\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63956"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63955"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63955"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63955"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}