{"id":63952,"date":"2021-05-20T12:58:41","date_gmt":"2021-05-20T15:58:41","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63952"},"modified":"2021-05-20T12:58:41","modified_gmt":"2021-05-20T15:58:41","slug":"chile-uma-necessidade-estrategica-a-unidade-entre-a-classe-operaria-e-os-setores-populares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/05\/20\/chile-uma-necessidade-estrategica-a-unidade-entre-a-classe-operaria-e-os-setores-populares\/","title":{"rendered":"Chile| Uma necessidade estrat\u00e9gica: a unidade entre a classe oper\u00e1ria e os setores populares"},"content":{"rendered":"<p><em>Uma das principais caracter\u00edsticas do processo aberto em 18 de outubro de 2019 \u00e9 ter sido uma explos\u00e3o espont\u00e2nea, por fora das dire\u00e7\u00f5es de sindicatos, dos partidos pol\u00edticos tradicionais incluindo o Partido Comunista e a Frente Ampla, de fato foi uma explos\u00e3o contra eles tamb\u00e9m, nesse sentido foi progressivo.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Camila Ruz<\/p>\n<p>Os protestos nos territ\u00f3rios e nas pra\u00e7as centrais das cidades duraram meses. Entretanto, o fator espont\u00e2neo permanente tem seus limites que se voltam contra a classe trabalhadora mobilizada, j\u00e1 que s\u00f3 pode levar a facilitar o reordenamento dos de cima, para impor seus projetos diante da crise deste sistema capitalista.<\/p>\n<p>Assim, hoje vemos que os mesmos de sempre se mostram como sa\u00eddas alternativas para os males deste sistema. Uma novidade \u00e9 que Jadue esteja se candidatando, muitos trabalhadores podem ter ilus\u00f5es no candidato do Partido Comunista (PC) com um bomb\u00e1stico discurso \u201cpr\u00f3-povo\u201d para um futuro governo. Entretanto, n\u00e3o podemos esquecer que o PC defendeu a reforma trabalhista de Bachelet que manteve os pilares centrais do c\u00f3digo trabalhista da ditadura de Pinochet, como a nega\u00e7\u00e3o do direito de organiza\u00e7\u00e3o ou de greve nos locais de trabalho. O PC tem sido o apoio pela esquerda deste sistema de explora\u00e7\u00e3o. Por outro lado, para a Constituinte, se candidatam em sua grande maioria os mesmos dos 30 anos, e sim, h\u00e1 novos independentes, um exemplo \u00e9 o fen\u00f4meno da Lista do Povo, mas a grande maioria desses independentes que s\u00e3o candidatos acreditam que ao escrever nossos direitos em uma constitui\u00e7\u00e3o, nossos problemas ser\u00e3o resolvidos, e n\u00e3o \u00e9 bem assim.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como \u00e9 que depois desse 18 de Outubro voltamos a esta situa\u00e7\u00e3o onde os de cima continuam a ter a faca e o queijo na m\u00e3o? Acreditamos que para avaliar isso, devemos estudar os diferentes momentos deste processo revolucion\u00e1rio e analisar os fatos mais importantes e suas debilidades.<\/p>\n<p><strong>Do 18 de outubro e dos limites<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a explos\u00e3o de 18 de outubro Pi\u00f1era declarou guerra e colocou os militares nas ruas, o povo trabalhador em rep\u00fadio e exigindo que os milicos voltassem aos seus quart\u00e9is empreendeu uma massiva mobiliza\u00e7\u00e3o em 25 de outubro, conseguimos que os milicos voltassem aos seus quart\u00e9is, por\u00e9m a repress\u00e3o n\u00e3o parou sob as m\u00e3os das for\u00e7as especiais de carabineiros. A raiva e a luta continuavam se acumulando a partir de baixo e j\u00e1 havia muitos trabalhadores que questionavam: onde est\u00e3o os oper\u00e1rios da minera\u00e7\u00e3o agora? Por que n\u00e3o paralisam? Isto foi terreno f\u00e9rtil para acad\u00eamicos e setores reformistas como a Frente Ampla que falam do fim da classe oper\u00e1ria e que hoje s\u00f3 existe \u201co movimento\u201d, \u201ccidadania\u201d, \u201csetores sociais\u201d. Entretanto, muitos oper\u00e1rios da minera\u00e7\u00e3o e oper\u00e1rios em geral participaram do protesto, por\u00e9m dispersos na massa, nos bairros houve disparos com balas contra filhas pequenas, houve oper\u00e1rios assassinados como foi o caso de Cristian Valdebenito.<\/p>\n<p>Foi pela desconfian\u00e7a aos sindicatos que a maioria dos trabalhadores n\u00e3o se organizaram, al\u00e9m disso as dire\u00e7\u00f5es sindicais pr\u00f3-empresariais negaram-se a preparar a luta a partir dos locais de trabalho. Uma das exce\u00e7\u00f5es importantes foram os portu\u00e1rios, que desde o in\u00edcio foram um exemplo a seguir para a classe oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>Por outro lado, al\u00e9m da concentra\u00e7\u00e3o em pra\u00e7as centrais das cidades (como a Plaza Dignidad em Santiago), a organiza\u00e7\u00e3o territorial se desenvolveu atrav\u00e9s de assembleias e brigadas, compostas por setores populares: trabalhadores em geral, vendedores ambulantes, profissionais precarizados, juventude, desempregados, e com alguma participa\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rios industriais. Estas assembleias foram importantes para discutir como continuar a luta, as demandas e em alguns casos para organizar a autodefesa. Seu ponto culminante foi quando se centralizaram na CAT (Coordena\u00e7\u00e3o de Assembleias Territoriais), por\u00e9m uma das debilidades centrais foi a falta de coordena\u00e7\u00e3o com o movimento oper\u00e1rio organizado, se ali os oper\u00e1rios participavam, estavam dispersos entre todos os ativistas.<\/p>\n<p>Entretanto, essa nega\u00e7\u00e3o de v\u00ednculo do mundo \u201cpopular\u201d territorial com a classe oper\u00e1ria n\u00e3o foi casual. Por um lado, foi uma pol\u00edtica consciente das organiza\u00e7\u00f5es reformistas que estavam nas assembleias territoriais (como a Frente Ampla, setores acad\u00eamicos, etc), pois sufocam a pot\u00eancia revolucion\u00e1ria do movimento oper\u00e1rio organizado; por outro lado, foi devido \u00e0 inexperi\u00eancia daqueles que lutavam na revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o da CAT chegou ao m\u00e1ximo de propor como sa\u00edda final \u00e0 crise, a necessidade de \u201cuma assembleia constituinte dos de baixo\u201d, falando do \u201cpoder constituinte\u201d, como se tudo se resolvesse se aquelas assembleias territoriais escrevessem uma nova constitui\u00e7\u00e3o, e de alguma forma com um papel redigido mudasse a realidade. Isso significa desconhecer que o grande empresariado se negaria \u00e0s mudan\u00e7as, e para isso utilizaria uma brutal repress\u00e3o novamente, frente a que precisar\u00edamos de um povo trabalhador armado, apoiando-se em batalh\u00f5es importantes da classe oper\u00e1ria, com o fim de defender-se.<\/p>\n<p>Isso se desenvolveu assim, at\u00e9 que a raiva se acumulou tanto que o Partido Comunista na dire\u00e7\u00e3o da Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT) e Unidade Social se rearmou para tentar controlar o processo, foi assim que se viu pressionado a convocar uma Greve geral para 12 de novembro. O 12 de novembro foi o auge do processo revolucion\u00e1rio, <em>El Mercurio<\/em> o catalogou como \u201co dia mais violento\u201d desde o 18 de outubro. A burguesia estremeceu, pois foi paralisada parte da produ\u00e7\u00e3o de riquezas que enche seus bolsos, e foi assim que seus representantes pol\u00edticos se reuniram para tentar dar uma sa\u00edda pactuada \u00e0 crise: desde a Frente Ampla at\u00e9 a UDI se reuniram em 15 de novembro e pactuaram o Acordo pela Paz e a nova Constitui\u00e7\u00e3o.\u00a0 O Partido Comunista n\u00e3o assinou o acordo principalmente porque se aborreceram ao n\u00e3o serem convidados desde o in\u00edcio para as negocia\u00e7\u00f5es, do contrario talvez teria sido outra hist\u00f3ria, segundo as palavras de Tellier: <em>\u201cNo momento em que nos convidaram, as decis\u00f5es j\u00e1 estavam tomadas, e quando perguntamos se pod\u00edamos incidir em mudar isto ou aquilo que temos d\u00favidas, nos disseram n\u00e3o, est\u00e1 resolvido\u201d\u00a0<\/em>\u00b9, a partir da\u00ed acrescentaram uma s\u00e9rie de cr\u00edticas ao conte\u00fado do Acordo.<\/p>\n<p>Depois do 12 de novembro n\u00e3o houve por parte do PC no comando da CUT e seus sindicatos, uma iniciativa para aprofundar o processo revolucion\u00e1rio atrav\u00e9s da incorpora\u00e7\u00e3o organizada da classe oper\u00e1ria, pelo contrario: sua aposta foi desviar a mobiliza\u00e7\u00e3o com o Acordo pela Paz. O que teria acontecido se a luta travada em 12 de novembro tivesse se aprofundado, se houvesse mais dias de paralisa\u00e7\u00e3o com protestos combativos nas ruas? Se nesse marco, a Unidade Social, ao inv\u00e9s de retirar a demanda, mantivesse como principal a luta por fazer Pi\u00f1era cair do governo? Provavelmente n\u00e3o apenas os de cima teriam sido encurralados para ceder a um processo constituinte que n\u00e3o queriam, como talvez tiv\u00e9ssemos desenvolvido a for\u00e7a para fazer Pi\u00f1era cair e realizar outras tarefas. Mas nem o PC, nem a FA e muito menos os outros partidos dos 30 anos quiseram esse caminho, pelo contrario: tentaram acalmar os \u00e2nimos como o fazem novamente apostando em uma Acusa\u00e7\u00e3o Constitucional contra Pi\u00f1era, que obviamente n\u00e3o foi e nem ser\u00e1 aprovada no parlamento.<\/p>\n<p>Assim, com a pol\u00edtica do Acordo pela Paz promovida pelos de cima, o movimento se enfraqueceu, embora continuasse nas ruas houve muita confus\u00e3o: em um primeiro momento, houve um amplo recha\u00e7o ao Acordo pela Paz, foi assinado de maneira criminosa um dia depois de Abel Acu\u00f1a ser assassinado, era a paz silenciosa e criminosa da morte para nossa classe; por\u00e9m depois n\u00e3o se sabia o que fazer frente ao processo constituinte, a vanguarda mais desconfiada se separou da massa que teve \u2013 e tem \u2013 ilus\u00f5es neste processo trapaceiro.<\/p>\n<p>Frente ao processo constituinte, alguns setores continuavam a promover uma Assembleia Constituinte (AC) dos de baixo (como a dire\u00e7\u00e3o da CAT e outras assembleias), mas a realidade os atingiu de frente porque n\u00e3o foi efetuada, devido a burguesia e o reformismo se reorganizarem e imporem a Conven\u00e7\u00e3o Constitucional; outros apenas diziam que n\u00e3o tinha que participar porque era uma armadilha. Entretanto, uma importante maioria assumiu que n\u00e3o tem que ter confian\u00e7a no Acordo, mas tem que ser disputado porque \u201ca Constitui\u00e7\u00e3o de Pinochet pode ser derrubada\u201d.\u00a0 E, por outro lado, h\u00e1 aqueles de n\u00f3s que sabemos que nada profundo se pode obter deste Processo, enquanto a burguesia continuar no poder, mas que apostamos em participar dele para promover um programa revolucion\u00e1rio e socialista diante das massas trabalhadoras, tentar evitar que essa pol\u00edtica burguesa de dividir a massa trabalhadora da vanguarda seja t\u00e3o f\u00e1cil, e para n\u00e3o deixar o caminho livre para a Frente Ampla, o PC e os mesmos de sempre.<\/p>\n<p><strong>A import\u00e2ncia da classe oper\u00e1ria e a necessidade de reivindicar sua exist\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Apesar da confus\u00e3o, a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o terminou, e continua sendo necess\u00e1rio localizar o papel da classe oper\u00e1ria neste processo. Depois da pandemia, vimos protestos contra a fome, faltavam alimentos. O que teria acontecido se os oper\u00e1rios da ind\u00fastria aliment\u00edcia, como os que trabalham na Arizt\u00eda, Agrosuper, oper\u00e1rios agr\u00edcolas, oper\u00e1rios da Carozzi e outras marcas, tivessem deixado parte do que eles produzem para as fam\u00edlias que passavam fome? O que aconteceria se eles controlassem democraticamente o que produzem sem patr\u00f5es? Obviamente n\u00e3o ter\u00edamos que mendigar de tempos em tempos por b\u00f4nus ou cestas de alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mencionamos o 12 de novembro, mas tamb\u00e9m podemos falar apenas da amea\u00e7a de paralisa\u00e7\u00e3o de setores oper\u00e1rios diante da discuss\u00e3o da terceira retirada de 10% das AFPs: Pi\u00f1era teve que ceder e promulgar o projeto inicial da terceira retirada frente \u00e0 recusa do Tribunal Constitucional. Esse \u00e9 um exemplo a mais da import\u00e2ncia da classe oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>Sem a classe oper\u00e1ria que produz riquezas, o pa\u00eds simplesmente n\u00e3o se move, a burguesia n\u00e3o tem sentido de exist\u00eancia. O Chile ao ser um pa\u00eds que baseia sua economia na exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias primas \u2013protegendo essa depend\u00eancia nos Tratados de Livre Com\u00e9rcio &#8211; , tem setores chave como a minera\u00e7\u00e3o e os portu\u00e1rios. Ent\u00e3o os setores que negam a exist\u00eancia da classe oper\u00e1ria tem um s\u00f3 objetivo: sufocar seu potencial revolucion\u00e1rio que come\u00e7amos a ver no 12 de novembro, mas que tamb\u00e9m vimos anos atr\u00e1s com os cord\u00f5es industriais durante a Unidade Popular (UP).<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio daqueles que enterram a classe oper\u00e1ria, vemos que na realidade a n\u00edvel internacional ela inclusive aumentou numericamente, o que ocorreu foi uma mudan\u00e7a de sua localiza\u00e7\u00e3o no mundo ap\u00f3s a \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<ul>\n<li>Pa\u00edses onde a classe oper\u00e1ria diminuiu<\/li>\n<\/ul>\n<table width=\"640\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><strong>Pa\u00eds<\/strong><\/td>\n<td><strong>1970<\/strong><\/td>\n<td><strong>2010<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>EUA<\/td>\n<td>18.2 milh\u00f5es<\/td>\n<td>12.7 milh\u00f5es<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Alemanha<\/td>\n<td>8.2 milh\u00f5es<\/td>\n<td>6.2 milh\u00f5es<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Fran\u00e7a<\/td>\n<td>5.2 milh\u00f5es<\/td>\n<td>2.9 milh\u00f5es<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Jap\u00e3o<\/td>\n<td>10.9 milh\u00f5es<\/td>\n<td>7.3 milh\u00f5es<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<ul>\n<li>Pa\u00edses onde a classe oper\u00e1ria aumentou<\/li>\n<\/ul>\n<table width=\"640\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><strong>Pa\u00eds<\/strong><\/td>\n<td><strong>1970<\/strong><\/td>\n<td><strong>2010<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>China<\/td>\n<td>14.2 milh\u00f5es<\/td>\n<td>68.8 milh\u00f5es<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\u00cdndia<\/td>\n<td>4.7 milh\u00f5es<\/td>\n<td>11.8 milh\u00f5es<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Bangladesh<\/td>\n<td>0.2 milh\u00f5es<\/td>\n<td>5.1 milh\u00f5es<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Vietn\u00e3<\/td>\n<td>0.04 milh\u00f5es<\/td>\n<td>4.4 milh\u00f5es<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Se com isso n\u00e3o fica evidente, podemos dizer que <strong>o n\u00famero de oper\u00e1rios industriais no mundo aumentou de 140 milh\u00f5es em 1970 para <\/strong>470 milh\u00f5es em 2009 (16% dos trabalhadores de todo o mundo), chegando a mais de 500 milh\u00f5es em 2013, e a<strong> mais de 700 milh\u00f5es em 2016<\/strong>\u00b2.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, apesar da redu\u00e7\u00e3o do proletariado industrial em alguns pa\u00edses, este continua tendo um peso social superior ao do proletariado russo que dirigiu a revolu\u00e7\u00e3o que colocou a classe oper\u00e1ria no poder em 1917: naquela \u00e9poca, os oper\u00e1rios industriais russos eram tr\u00eas milh\u00f5es em uma popula\u00e7\u00e3o total de 150 milh\u00f5es (2%). O mesmo c\u00e1lculo para os pa\u00edses imperialistas em 2010 d\u00e1 4% nos Estados Unidos; 7% na Alemanha; 4,4% na Fran\u00e7a, 5,7% no Jap\u00e3o\u00b3.<\/p>\n<p>No <strong>Chile<\/strong>, a classe oper\u00e1ria industrial tem seu maior peso na minera\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que grande parte das exporta\u00e7\u00f5es s\u00e3o de cobre. Para dados de 2020, no Chile encontramos os seguintes dados da classe oper\u00e1ria segundo a Pesquisa Nacional de Emprego do INE, o trimestre de fevereiro-abril 2020:<\/p>\n<table width=\"640\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><strong>Setor<\/strong><\/td>\n<td><strong>2020<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Minera\u00e7\u00e3o e pedreiras<\/td>\n<td>224 mil<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Constru\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td>680 mil<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Manufatura<\/td>\n<td>800 mil<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Florestais<\/td>\n<td>130 mil<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Salmoneiras<\/td>\n<td>130 mil<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Atividades de silvicultura, agropecu\u00e1rias e pesca<\/td>\n<td>600 mil<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>Ou seja, para 2020 temos 2.564.000 oper\u00e1rios vinculados aos trabalhos anteriores.<\/strong><\/p>\n<p>Por\u00e9m, se tomarmos como refer\u00eancia um estudo publicado pelo Centro de Estudos Miguel Enr\u00edquez, que se baseou em dados da Dire\u00e7\u00e3o Geral de Estat\u00edstica e Ind\u00fastria, poder\u00edamos chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que em termos absolutos, o proletariado industrial vem aumentado numericamente: em 1949 havia 389.700 oper\u00e1rios; em 1960, 406.000 oper\u00e1rios; e, em 1965, 509.000 oper\u00e1rios. Em meados da d\u00e9cada de 1960, o proletariado da minera\u00e7\u00e3o era composto por 15.974 em cobre, 12.778 em carv\u00e3o, 10.072 em salitre, 2.974 em ferro, 1.413 em petr\u00f3leo, ou seja um total de <strong>43.211 trabalhadores<\/strong>\u2074. \u00a0Ou seja,<strong> no ano de 1965 t\u00ednhamos 509.000 oper\u00e1rios e em 2020 temos em torno de 2 milh\u00f5es! <\/strong>E os <strong>trabalhadores da minera\u00e7\u00e3o aumentaram de 43 mil para 200 mil.<\/strong> Pode ser que a n\u00edvel percentual representem mais ou menos em rela\u00e7\u00e3o ao conjunto da classe trabalhadora se a compararmos com os anos 60, mas o que fica evidente \u00e9 que a classe oper\u00e1ria est\u00e1 longe de estar morta ou desaparecida. O que ocorre \u00e9 que por um lado, houve uma mudan\u00e7a pois alguns ramos da produ\u00e7\u00e3o como os t\u00eaxteis quase desapareceram, mas come\u00e7aram a surgir novos, como a minera\u00e7\u00e3o do cobre. Por\u00e9m mais importante do que isso, ocorre que a classe est\u00e1 menos organizada e com v\u00ednculos mais fr\u00e1geis por toda a destrui\u00e7\u00e3o que a ditadura deixou, pela pol\u00edtica sindical antidemocr\u00e1tica e pr\u00f3-patronal que partidos como o Comunista e da ex Concertaci\u00f3n -al\u00e9m da direita \u2013tiveram, e porque, al\u00e9m disso, estes partidos e acad\u00eamicos pequeno burgueses ou de classes m\u00e9dias, fazem discursos que hoje s\u00f3 existe cidadania como dissemos anteriormente. \u00c9 uma pol\u00edtica totalmente consciente, do empresariado e dos partidos reformistas colocar a classe oper\u00e1ria como morta!\u00a0<strong> Mas a realidade grita para esses acad\u00eamicos, pequeno burgueses, acomodados e \u00e0 grande burguesia que a classe oper\u00e1ria continua mais viva do que nunca!<\/strong> Falta uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica revolucion\u00e1ria constru\u00edda na classe oper\u00e1ria que coloque esta mensagem em alta voz, que grite esta realidade e organize o proletariado industrial sob um programa revolucion\u00e1rio .<\/p>\n<p>Por\u00e9m, al\u00e9m de deixar evidente que a classe oper\u00e1ria industrial no Chile continua mais do que viva ,h\u00e1 setores importantes que cresceram quantitativamente, como os trabalhadores do com\u00e9rcio com 1.5 milh\u00e3o de pessoas, e h\u00e1 outro milh\u00e3o e meio com trabalhadores informais fora do setor assalariado (\u201cindependentes\u201d) \u2075. Este \u00faltimo setor cresceu depois das crises econ\u00f4micas de 2008 e pandemia, s\u00e3o parte do \u201cex\u00e9rcito industrial de reserva\u201d ou dito de outra forma, trabalhadores desempregados for\u00e7ados a trabalhar de maneira independente seja por demiss\u00e3o ou por negarem-se \u00e0s m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de assalariado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se a classe oper\u00e1ria tem um papel importante e continua viva, por que parece estar ausente? J\u00e1 mencionamos o papel do reformismo como a Frente Ampla ou o PC que o dissolve em discursos de \u201ccidadania\u201d ou mundo \u201cpopular\u201d, e o papel da ditadura. Por\u00e9m vejamos alguns elementos de como foi conscientemente preparado pelo grande empresariado.<\/p>\n<p>O C\u00f3digo Trabalhista de Jos\u00e9 Pi\u00f1era, vigente at\u00e9 nossos dias, garantiu a fragmenta\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio e a repress\u00e3o de sua organiza\u00e7\u00e3o, em suas pr\u00f3prias palavras Jos\u00e9 Pi\u00f1era indicava\u00a0<em>\u201ca nova legisla\u00e7\u00e3o trabalhista obstrui as pretens\u00f5es do esquema marxista da luta de classes\u2026a divis\u00e3o que sugere \u00e9 a divis\u00e3o vertical, que separa uma empresa da outra, incentivando-as a competir entre si\u2026.<\/em>\u201d\u2076;inclusive o sistema de AFP foi criado com a l\u00f3gica de debilitar o movimento oper\u00e1rio ideologicamente: <em>\u201ca caderneta individual (de poupan\u00e7a na AFP) pulverizou o gatilho da luta de classes como arma pol\u00edtica\u201d\u2026<\/em>O sistema de aposentadorias <em>\u201cfaz de cada trabalhador um propriet\u00e1rio\u201d<\/em>, e nesse cen\u00e1rio <em>\u201ccomo os trabalhadores poderiam ser levados para paralisa\u00e7\u00f5es ilegais ou outras a\u00e7\u00f5es que prejudiquem as empresas quando suas aposentadorias dependem da sa\u00fade dessas mesmas empresas e da economia em geral?<\/em>\u201d\u2077.<\/p>\n<p>O modelo anterior pode ser imposto gra\u00e7as aos milhares de assassinatos, deten\u00e7\u00f5es e torturas contra a vanguarda oper\u00e1ria dos anos 70.<\/p>\n<p>Toda esta fragmenta\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio, foi aprofundada pela ex Concertaci\u00f3n e inclusive ultimamente pelo Partido Comunista que, sendo parte do governo de Bachelet, impuseram uma nova reforma trabalhista que enfraquece o direito \u00e0 greve com os servi\u00e7os m\u00ednimos. Mas o papel do Partido Comunista n\u00e3o se limitou a isso, foi mais al\u00e9m: nos sindicatos importantes imp\u00f4s a ideia do pacto e colabora\u00e7\u00e3o com os patr\u00f5es, a democracia oper\u00e1ria a fez inexistente (sem assembleias ou decis\u00f5es democr\u00e1ticas), os dirigentes sindicais do PC como os demais, eram s\u00f3 burocratas afastados das bases, B\u00e1rbara Figueroa \u00e9 um bom exemplo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a burguesia e o reformismo do PC e FA que querem sufocar a classe oper\u00e1ria na obscuridade , h\u00e1 setores que se reivindicam revolucion\u00e1rios, inclusive com m\u00e9todos ultra esquerdistas, que n\u00e3o necessariamente est\u00e3o organizados em partidos, por\u00e9m s\u00e3o ativistas e lutadores, que entretanto depreciam a classe oper\u00e1ria, se incomodam quando n\u00e3o lutam, e caem em um discurso moralista de \u201csomos os \u00fanicos que lutamos, o resto n\u00e3o\u201d, \u201cn\u00e3o podemos esperar o pacifismo do movimento oper\u00e1rio\u201d, etc. Esta \u00e9 uma atitude afastada da classe, pode ser pequeno burguesa ou simplesmente acomodada que se cansa rapidamente de fazer esse trabalho sistem\u00e1tico e estrat\u00e9gico dentro da classe oper\u00e1ria, Lenin se referia a alguns deles como a pequena burguesia radicalizada. Estes setores por mais que montem milhares de barricadas e por mais enfrentamentos permanentes que fa\u00e7am com a pol\u00edcia sem estrat\u00e9gia clara, n\u00e3o conseguir\u00e3o por si s\u00f3 dirigir a fundo um processo revolucion\u00e1rio de massas que consiga derrotar o capitalismo e instaurar a tomada do poder por parte da classe trabalhadora de forma democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Entretanto, apesar da pol\u00edtica da burguesia, do reformismo e outros setores, a classe oper\u00e1ria tem demonstrado ser uma amea\u00e7a para o empresariado: as greves ilegais aumentaram desde 2006-2007; no 12 de novembro mostraram seu potencial e recentemente ap\u00f3s o fato de que Pi\u00f1era levou ao Tribunal Constitucional a terceira retirada das AFP, o movimento oper\u00e1rio come\u00e7ando com protestos e amea\u00e7as, fizeram o governo retroceder, demonstrando \u00e0queles que a d\u00e3o por morta, que a classe oper\u00e1ria continua totalmente viva, por mais que a queiram enterrar.<\/p>\n<p><strong>Os partidos, a ideologia e os sindicatos: fatores que n\u00e3o se separam<\/strong><\/p>\n<p>Algumas das consequ\u00eancias da ditadura e das dire\u00e7\u00f5es sindicais pr\u00f3-patronais para a organiza\u00e7\u00e3o sindical s\u00e3o: enfraquecimento dos sindicatos onde vemos n\u00fameros como o de 2019 a taxa de sindicaliza\u00e7\u00e3o foi de 20.9% [no setor privado], pois muitas empresas pro\u00edbem a sindicaliza\u00e7\u00e3o; a maioria das empresas (93.7%) n\u00e3o tem sindicatos; e portanto a cobertura da negocia\u00e7\u00e3o coletiva \u00e9 de 8.1% dos trabalhadores do setor privado\u2078. Por isso hoje, quando falamos do mundo sindical, devemos saber que estamos falando da minoria da classe oper\u00e1ria, embora esses n\u00fameros nem sempre foram t\u00e3o baixos.<\/p>\n<p>Os sindicatos surgiram ap\u00f3s mutuais e mancomunais como formas de organiza\u00e7\u00e3o e defesa coletiva da classe oper\u00e1ria frente \u00e0 patronal. Entretanto, o papel em geral dos sindicatos se limita a regularizar os sal\u00e1rios (pedir aumentos) e resistir contra o capital, n\u00e3o \u00e9 acabar com a sociedade de classes, com a sociedade capitalista.<\/p>\n<p>Diariamente nos permeamos com a ideologia do empresariado atrav\u00e9s de sua imprensa, suas institui\u00e7\u00f5es, e tamb\u00e9m no movimento oper\u00e1rio h\u00e1 agentes da burguesia, organiza\u00e7\u00f5es reformistas ou diretamente de direita que discursam sobre \u201capoliticismo\u201d deixando a consci\u00eancia do movimento oper\u00e1rio nas m\u00e3os dessa permanente ideologia empresarial que se recebe todos os dias, que promove discursos individualistas, de que a realidade sempre teve ricos e pobres e que a vida \u00e9 assim e n\u00e3o pode ser mudada, etc. O apoloticismo ou neutralidade nos sindicatos n\u00e3o \u00e9 algo novo nem \u00e9 apenas no Chile, \u00e9 uma ideia que o empresariado e o reformismo a n\u00edvel internacional difundem desde h\u00e1 muitos anos. Por exemplo, em in\u00edcios do s\u00e9culo 20, os dirigentes da Associa\u00e7\u00e3o Sindical de Amsterdam reivindicavam o apoliticismo como sua pol\u00edtica de pacto com o empresariado, evidente, se a Associa\u00e7\u00e3o estava dirigida pelas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas das Internacionais 2 e 2\u00bd, que durante a primeira guerra mundial apoiaram seus governos empresariais nacionais ao inv\u00e9s de promover a solidariedade e internacionalismo prolet\u00e1rio contra a guerra e a matan\u00e7a dos governos empresariais , ent\u00e3o de qual neutralidade falam? , da neutralidade que favorece o patr\u00e3o.<\/p>\n<p>E a servi\u00e7o dessa colabora\u00e7\u00e3o de classes, anulam a democracia oper\u00e1ria. A CUT dirigida pelo Partido Comunista, durante a Unidade Popular (UP) ficou \u00e0 margem do desenvolvimento dos cord\u00f5es industriais, inclusive agindo como freio para o movimento oper\u00e1rio que queria passar para a ofensiva e questionava a postura de Allende e da UP que era de pacto com o empresariado e futuros golpistas. Depois da ditadura, a CUT passou a ser dirigida pela Democracia Crist\u00e3, que levou a cabo perfeitamente o plano destrutivo para o movimento oper\u00e1rio. H\u00e1 pouco o PC a recuperou, com B\u00e1rbara Figueroa, e embora se mostre como defensora dos trabalhadores, continuamos vendo como negocia sal\u00e1rios miser\u00e1veis com os governos nas costas dos trabalhadores e como sendo parte do governo de Bachelet fez parte de todos seus ataques \u00e0 classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Portanto, embora os trabalhadores sindicalizados sejam minoria, s\u00e3o o setor mais organizado e n\u00e3o importa quem dirige o movimento sindical, a disputa revolucion\u00e1ria nos sindicatos \u00e9 importante, temos que lutar para recuper\u00e1-los dessa burocracia pr\u00f3-empresarial. Os trabalhadores que levantaram a cabe\u00e7a em 12N e os portu\u00e1rios recentemente, puderam faz\u00ea-lo mais facilmente porque estavam organizados em sindicatos, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo secund\u00e1rio. Por\u00e9m devemos tamb\u00e9m buscar novas formas de organiza\u00e7\u00e3o para essa grande maioria do movimento oper\u00e1rio que ainda n\u00e3o pode se sindicalizar por causa dos fatores mencionados anteriormente e pela terceiriza\u00e7\u00e3o do trabalho, e que essas novas formas sejam complementares ou em perspectiva de uma organiza\u00e7\u00e3o mais fixa dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Essas novas formas complementares devem ser pensadas com a realidade atual. A classe oper\u00e1ria sabe que nas f\u00e1bricas n\u00e3o existe democracia, \u00e9 onde fica mais evidente a ditadura do capital. Muitos oper\u00e1rios\/as tem medo de se organizarem nos trabalhos porque isso pode implicar diretamente em demiss\u00f5es ou persegui\u00e7\u00e3o. Se chegam a realizar assembl\u00e9ias, \u00e0s vezes n\u00e3o interv\u00e9m pelo medo dos \u201cdedo-duros\u201d. Nesse sentido seria uma op\u00e7\u00e3o avan\u00e7ar a partir de <em>grupos clandestinos de oper\u00e1rios organizados<\/em>,\u00a0<em>comit\u00eas de luta<\/em>, que distribuam anonimamente \u2013 se for necess\u00e1rio \u2013 panfletos ou material pol\u00edtico, os <em>clubes de futebol, grupos de cultura<\/em>, etc, podem tamb\u00e9m ajudar como organiza\u00e7\u00f5es para discutir com os companheiros de trabalho, mas talvez n\u00e3o necessariamente dentro do pr\u00f3prio local de trabalho. A tarefa \u00e9 come\u00e7ar a gerar condi\u00e7\u00f5es e ir ganhando confian\u00e7a para que os oper\u00e1rios de uma mesma empresa n\u00e3o apenas falem de pol\u00edtica de vez em quando \u00e0s escondidas ou no almo\u00e7o, mas que se organizem e compreendam que seu papel paralisando a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 chave na luta social.<\/p>\n<p><strong>Por que a classe oper\u00e1ria deve dirigir a revolu\u00e7\u00e3o em alian\u00e7a com os territ\u00f3rios e n\u00e3o se contentar com os 10%?<\/strong><\/p>\n<p>Hoje muitos oper\u00e1rios podem se perguntar: por que eu devo lutar e estar na lideran\u00e7a de uma revolu\u00e7\u00e3o?, n\u00e3o basta apenas lutar nas negocia\u00e7\u00f5es coletivas ou pelas retiradas das AFPs? A verdade \u00e9 que, ap\u00f3s o 18 de outubro, ao inv\u00e9s da qualidade de vida da classe trabalhadora ir melhorando em geral, esta foi piorando. A pandemia como fen\u00f4meno mundial deixou em evid\u00eancia que a nossa vida n\u00e3o importa aos grandes empres\u00e1rios, apenas seus neg\u00f3cios, deixaram milh\u00f5es de mortos para\u2026 salvar seus neg\u00f3cios que mant\u00e9m \u00e0 custa do suor e cont\u00e1gio de milhares e milhares de oper\u00e1rios e trabalhadores em geral! \u00c9 correto naturalizar viver em uma sociedade assim? \u00c9 isso o que queremos para nossos filhos? As conquistas com b\u00f4nus e retiradas (das AFPs, ndt.), asseguram uma vida e sa\u00fade para o futuro de nossos filhos e fam\u00edlias, ou inclusive um futuro para n\u00f3s mesmos? Evidentemente que n\u00e3o, e se concordamos com isto, agora temos que ver porque a classe oper\u00e1ria deve n\u00e3o apenas participar, mas deve estar na lideran\u00e7a da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 vimos que a luta e a organiza\u00e7\u00e3o territorial atrav\u00e9s de assembl\u00e9ias foram chave para manter a revolu\u00e7\u00e3o viva. As assembl\u00e9ias territoriais puderam servir para discutir nossas exig\u00eancias e em alguns casos, mecanismos de autodefesa contra a repress\u00e3o. Houve um momento em que uma consigna come\u00e7ou a aparecer: todo o poder \u00e0s assembleias territoriais, entretanto, n\u00e3o puderam desenvolver mais como organismos de poder alternativo frente \u00e0s institui\u00e7\u00f5es como o parlamento, por um lado, pela inexperi\u00eancia dos lutadores e pelo outro, por todas as travas mencionadas anteriormente que o reformismo colocou, incluindo o Acordo pela Paz.<\/p>\n<p>Vincular o movimento oper\u00e1rio organizado (e n\u00e3o disperso) \u00e0s assembleias territoriais, foi um dos aspectos importantes para t\u00ea-las desenvolvido como inst\u00e2ncias de auto-organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora. Por exemplo, para garantir a autodefesa n\u00e3o teria sido melhor ter batalh\u00f5es do movimento oper\u00e1rio com suas gruas para armar barricadas? Ou que os mesmos trabalhadores bloqueassem a entrada de armamento repressivo que viesse do exterior como uma vez os portu\u00e1rios amea\u00e7aram?, ou ao inv\u00e9s de bloque\u00e1-lo, facilit\u00e1-lo, n\u00e3o para o governo mas para a defesa do campo da revolu\u00e7\u00e3o? N\u00e3o teria sido superior que os trabalhadores da minera\u00e7\u00e3o que produzem \u201co sal\u00e1rio do Chile\u201d (ou melhor dizendo, produzem para que o grande empresariado nos roube) paralisassem completamente a produ\u00e7\u00e3o por v\u00e1rios dias para encurralar a burguesia?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 fundamental que avancemos na perspectiva de unificar a luta territorial com a do movimento oper\u00e1rio organizado, um bom exemplo no Chile \u00e9 a coordena\u00e7\u00e3o que houve entre as Juntas de Abastecimentos e Pre\u00e7os e os cord\u00f5es industriais durante a Unidade Popular, as primeiras distribu\u00edam a alimenta\u00e7\u00e3o e produtos para a popula\u00e7\u00e3o, quando a burguesia imp\u00f4s o mercado negro, e os oper\u00e1rios produziam esses alimentos para a produ\u00e7\u00e3o. Foi uma coordena\u00e7\u00e3o sem patr\u00f5es, o movimento oper\u00e1rio, a classe trabalhadora e os moradores em geral demonstraram que com sua auto-organiza\u00e7\u00e3o bastava.<\/p>\n<p>Entretanto, esse exemplo dos cord\u00f5es industriais e as JAP n\u00e3o pode se desenvolver mais, assim como a experi\u00eancia de 12 de novembro de 2019 n\u00e3o pode se desenvolver mais tamb\u00e9m. Isto tem a ver com o fato de que encontraram um freio nos partidos de sempre: do PC (agora se junta a FA) at\u00e9 os mais experientes no regime.<\/p>\n<p>Por isso n\u00e3o \u00e9 secund\u00e1rio, n\u00e3o \u00e9 prescind\u00edvel, construir uma organiza\u00e7\u00e3o ou dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria no Chile \u2013 e no mundo- que enfatize a import\u00e2ncia e se construa no seio da classe oper\u00e1ria para promover a unidade desta com os setores territoriais, e assim ser capaz de levar a experi\u00eancia do 12N mais al\u00e9m, no sentido de acabar com o poder empresarial que nos explora e oprime e impor o poder da maioria trabalhadora atrav\u00e9s de uma revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>Somente o surgimento de uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria poder\u00e1 aprofundar essa tarefa de unidade, mas n\u00e3o simplesmente pela \u201cunidade\u201d, mas uma unidade que promova a luta para acabar n\u00e3o s\u00f3 com Pi\u00f1era como com todos os governos empresariais do Chile e do mundo. Uma organiza\u00e7\u00e3o que seja honesta e n\u00e3o defenda ditaduras capitalistas como a da China e Venezuela, que enchem a boca falando de socialismo e comunismo, mas s\u00f3 significaram mais explora\u00e7\u00e3o e fome para a classe trabalhadora, uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que \u00e0 diferen\u00e7a do PC ou da Frente Ampla, combata esses governos capitalistas desses pa\u00edses e n\u00e3o cale as atrocidades s\u00f3 porque recebem dinheiro deles. Uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que retome as bandeiras do socialismo e comunismo que t\u00eam sido sujadas por esses governos populistas que se dizem de esquerda.<\/p>\n<p>Diante da destrui\u00e7\u00e3o que todos os grandes partidos impuseram ao movimento oper\u00e1rio e popular, \u00e9 totalmente de primeira ordem a tarefa de reconstruir um partido ou organiza\u00e7\u00e3o que de forma disciplinada tente reconstruir essa organiza\u00e7\u00e3o oper\u00e1rio popular com um programa revolucion\u00e1rio, que seja n\u00edtido em colocar no centro do debate a quest\u00e3o do poder: enquanto a classe trabalhadora n\u00e3o tomar o poder, ou seja, enquanto n\u00e3o construir sua pr\u00f3pria autodefesa em armas e dirigir um aparato estatal da classe oper\u00e1ria, ser\u00e1 muito dif\u00edcil emancipar a maioria da humanidade, j\u00e1 que o punhado de parasitas dos empres\u00e1rios continuariam no poder. Um poder da classe oper\u00e1ria que esteja a servi\u00e7o de recuperar o que por mais de 30 anos nos roubaram os Luksic, Pi\u00f1era, Matte, etc. e as transnacionais, mediante a expropria\u00e7\u00e3o de todas suas empresas sob controle oper\u00e1rio e popular. Um poder oper\u00e1rio e popular que esteja a servi\u00e7o de devolver as terras ao povo mapuche, expropriando as empresas florestais, e que garanta uma reforma agr\u00e1ria. Um poder que ponha sobre a mesa o fim das opress\u00f5es de g\u00eanero, ra\u00e7a, ou o que for. Um poder que tenha como objetivo eliminar a divis\u00e3o da sociedade em classes, onde todos trabalhem e ningu\u00e9m viva parasitariamente \u00e0 custa de outros seres humanos. Um poder que, se alcan\u00e7ar seu objetivo, ter\u00e1 que ir desaparecendo com o tempo, pois a sociedade poderia ir se desenvolvendo harmonicamente.<\/p>\n<p>Conseguir isso \u00e9 muito dif\u00edcil, por\u00e9m mais angustiante \u00e9 pensar que teremos que viver para sempre sob este sistema capitalista de mis\u00e9ria e fome. Por isso urge a constru\u00e7\u00e3o dessa organiza\u00e7\u00e3o, que tome as li\u00e7\u00f5es das revolu\u00e7\u00f5es anteriores \u2013 como a russa de 1917 e as do s\u00e9culo XX em geral \u2013 e as atuais, para descobrir o caminho que nos leve ao triunfo, uma organiza\u00e7\u00e3o que, para tal objetivo t\u00e3o grande, precisa ser disciplinada, audaz e combativa, que retome as experi\u00eancias da 1a, 2a, 3a e 4a internacionais do movimento oper\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Internacionalismo prolet\u00e1rio, para organizar a revolu\u00e7\u00e3o socialista<\/strong><\/p>\n<p>Ora, um processo de luta n\u00e3o tem limites nacionais, qualquer revolu\u00e7\u00e3o que avance pode ser freada por pa\u00edses imperialistas como os EUA, no Chile tamb\u00e9m temos a burguesia chinesa como inimiga direta, j\u00e1 que, se as minas de cobre pararem, o empresariado chin\u00eas frearia sua importa\u00e7\u00e3o, assim que poder\u00edamos receber ataques do empresariado ianque ou chin\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que o internacionalismo prolet\u00e1rio \u00e9 muito importante para resistir, e fazer avan\u00e7ar para que a revolu\u00e7\u00e3o seja mundial. H\u00e1 dois exemplos chilenos muito importantes: 1) Em julho de 1977 os trabalhadores da extinta Baz\u00e1n, hoje Navantia (sociedade p\u00fablica espanhola dedicada \u00e0 constru\u00e7\u00e3o naval civil e militar), negaram-se a reparar um barco da Armada chilena, o barco escola da ditadura de Augusto Pinochet tinha colidido no porto israelense de Haifa e os trabalhadores se opuseram ao seu desembarque e se negaram a repar\u00e1-lo, embora n\u00e3o fossem momentos f\u00e1ceis, a infla\u00e7\u00e3o naqueles anos superava os 40% ao ano e a taxa de desemprego come\u00e7ava a aumentar. Entretanto, a solidariedade internacional prevaleceu e os oper\u00e1rios chamaram um boicote contra o barco escola Esmeralda, um barco, disseram, que <em>\u201cfoi uma c\u00e2mara de tortura usada pelo ditador Pinochet\u201d<\/em>.; 2) outro exemplo \u00e9 muito mais recente, diante da pol\u00edtica de Pi\u00f1era de levar a terceira retirada das AFP ao TC, o Conselho Internacional de Estivadores anunciaram fazer um bloqueio mundial das cargas que viessem do Chile, em solidariedade \u00e0 classe trabalhadora chilena e aos presos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>O que aconteceria se estas a\u00e7\u00f5es se multiplicassem? O que aconteceria se avan\u00e7\u00e1ssemos em construir uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da classe oper\u00e1ria e setores populares a n\u00edvel internacional que incentivasse estas medidas, n\u00e3o apenas para resistir frente aos ataques, mas para avan\u00e7ar em organizar a revolu\u00e7\u00e3o socialista internacional? Nos colocamos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dessa tarefa como MIT e LIT-QI, que estamos por reconstruir a 4\u00aa.Internacional fundada por Trotsky \u2013 um dos dirigentes da revolu\u00e7\u00e3o russa de 1917 &#8211; , e acreditamos que todos os lutadores devem construir esse projeto conosco, todos temos muito a contribuir para esta tarefa. \u00c9 hora de varrer todos os projetos dos partidos reformistas e burgueses que sufocam e d\u00e3o o movimento oper\u00e1rio como morto, e que, com sua aposta ut\u00f3pica de humanizar o capitalismo, continuam sendo por d\u00e9cadas c\u00famplices da mis\u00e9ria e barb\u00e1rie deste sistema capitalista.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li>\u201cAp\u00f3s hist\u00f3rica aus\u00eancia de acordo pela nova constitui\u00e7\u00e3o, o presidente do PC explica a posi\u00e7\u00e3o do partido\u201d, La Tercera. &lt;<a href=\"https:\/\/www.latercera.com\/politica\/noticia\/guillermo-teillier-presidente-del-pc-acuerdo-nueva-constitucion-habria-re-facil-ir-aparecer-la-foto\/902342\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.latercera.com\/politica\/noticia\/guillermo-teillier-presidente-del-pc-acuerdo-nueva-constitucion-habria-re-facil-ir-aparecer-la-foto\/902342\/<\/a>&gt;<\/li>\n<li>Dados de Industrial Development Report 2013, UNIDO, ONU, publicado na revista MARXISMO VIVO N\u00b09\u2013NUEVA \u00c9POCA, no dossi\u00ea Marxismo e Proletariado, por Eduardo Almeida Neto \u2010 Brasil<\/li>\n<li>MARXISMO VIVO N\u00b09\u2013NUEVA \u00c9POCA, no dossi\u00ea Marxismo e Proletariado, por Eduardo Almeida Neto \u2010 Brasil<\/li>\n<li>Dados de um estudo de CEME, Centro de Estudios Miguel Enriquez, p\u00e1g 43-44 &lt;<a href=\"https:\/\/www.archivochile.com\/Historia_de_Chile\/trab_gen\/HCHtrabgen0009.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.archivochile.com\/Historia_de_Chile\/trab_gen\/HCHtrabgen0009.pdf<\/a>&gt;<\/li>\n<li>Dados de Pesquisa Nacional de Emprego INE, 2020<\/li>\n<li>Jos\u00e9 Pi\u00f1era, la revoluci\u00f3n laboral en Chile, 1990, citado no livro \u201cla rebeli\u00f3n en el oasis\u201d, de ideas socialistas y la izquierda diario.<\/li>\n<li>Jos\u00e9 Pi\u00f1era, el cascabel del gato: la batalla por la reforma previsional, citado no livro Poderoso Caballero de Daniel Matamala.<\/li>\n<li>Pesquisa trabalhista Encla<\/li>\n<\/ol>\n<p>*Com contribui\u00e7\u00f5es de Benjam\u00edn Pailahueque e Carlos \u201cWarelo\u201d Reyes, al\u00e9m do grupo de edi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das principais caracter\u00edsticas do processo aberto em 18 de outubro de 2019 \u00e9 ter sido uma explos\u00e3o espont\u00e2nea, por fora das dire\u00e7\u00f5es de sindicatos, dos partidos pol\u00edticos tradicionais incluindo o Partido Comunista e a Frente Ampla, de fato foi uma explos\u00e3o contra eles tamb\u00e9m, nesse sentido foi progressivo.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":63953,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[145,3538],"tags":[3961,3962,3963,3880,3040,3576],"class_list":["post-63952","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-chile","category-rebeliao-no-chile","tag-18-de-outubro-chile","tag-camila-ruiz","tag-classe-operaria","tag-frente-ampla-chile","tag-pc-chile","tag-revolucao-chile"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Chile-1.jpg","categories_names":["Chile","Revolu\u00e7\u00e3o no Chile"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63952","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63952"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63952\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63953"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}