{"id":63744,"date":"2021-05-03T11:26:45","date_gmt":"2021-05-03T14:26:45","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63744"},"modified":"2021-05-03T11:26:45","modified_gmt":"2021-05-03T14:26:45","slug":"pandemia-e-fome-na-africa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/05\/03\/pandemia-e-fome-na-africa\/","title":{"rendered":"Pandemia e fome na \u00c1frica"},"content":{"rendered":"<p><em>Podemos constatar que a pandemia desencadeou uma cascata de sofrimento, desemprego e fome no continente africano. O v\u00edrus, que tem sua origem na gan\u00e2ncia capitalista e na rela\u00e7\u00e3o que as grandes multinacionais t\u00eam com a natureza, trouxe efeitos devastadores para o planeta. Agravados porque os governos priorizaram o lucro das grandes empresas ao inv\u00e9s da vida e a sa\u00fade da classe trabalhadora.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Am\u00e9rico Gomes<\/p>\n<p>N\u00e3o recuperaram os sistemas de sa\u00fade que entraram em colapsos; realizaram \u201clockdowns fakes\u201d, preservando a produ\u00e7\u00e3o e o lucro das grandes empresas; n\u00e3o auxiliaram aos mais necessitados e vulner\u00e1veis, enquanto colocaram rios de dinheiros nas empresas que j\u00e1 ganhavam muito; e agora realizam um verdadeiro \u201capartheid\u201d da aplica\u00e7\u00e3o da vacina, para beneficiar as multinacionais farmac\u00eauticas.<\/p>\n<p>Hoje alguns analistas falam do \u201clegado da pandemia\u201d, se referindo aos efeitos causados, como o crescimento do desemprego; as gritantes desigualdades sociais e materiais; e o aumento da fome e da mis\u00e9ria. O continente Africano \u00e9 onde as consequ\u00eancias desta pol\u00edtica mais se fazem sentir e onde seus efeitos s\u00e3o mais nefastos.<\/p>\n<p>O aumento dos casos est\u00e1 destruindo os fr\u00e1geis sistemas de sa\u00fade destes pa\u00edses. A pr\u00f3pria OMS informou que as infec\u00e7\u00f5es estavam aumentando em pelo menos 12 pa\u00edses da \u00c1frica, incluindo Camar\u00f5es, Eti\u00f3pia, Qu\u00eania e Guin\u00e9.<\/p>\n<p>O n\u00famero total de infec\u00e7\u00f5es notificadas chegou a 4,5 milh\u00f5es, com mais de 120.000 mortes, um aumento significativo comparado as 2,7 milh\u00f5es de infec\u00e7\u00f5es registradas no final de dezembro. A \u00c1frica do Sul lidera com mais de 1,5 milh\u00e3o de casos relatados e mais de 52.000 mortes. S\u00e3o somente 7 milh\u00f5es de pessoas vacinadas em um continente de mais de um bilh\u00e3o de pessoas.<\/p>\n<p><strong>A manobra da subnotifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Em abril de 2021, este n\u00famero de casos confirmados, 4,5 milh\u00f5es, representava cerca de 3,11% das infec\u00e7\u00f5es em todo o mundo. Est\u00e1 explicito que os dados sobre a pandemia do coronav\u00edrus na \u00c1frica s\u00e3o subnotificados, principalmente nos pa\u00edses com menos meios e desenvolvimento para faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Do total de casos, 82,6% est\u00e3o em nove pa\u00edses: \u00c1frica do Sul, Marrocos, Tun\u00edsia, Egito, Eti\u00f3pia, L\u00edbia, Arg\u00e9lia, Qu\u00eania e Nig\u00e9ria, e 77% das mortes em cinco: \u00c1frica do Sul, Egito, Marrocos, Tun\u00edsia e Arg\u00e9lia. O que j\u00e1 demonstra que o n\u00famero de v\u00edtimas \u00e9 maior do que o relatado. Uma trag\u00e9dia anunciada para um continente que abriga 17% da popula\u00e7\u00e3o mundial, e se anuncia ter 3,4% dos casos globais.<\/p>\n<p>No Qu\u00eania, a taxa de positividade \u00e9 de pelo menos 20% em exames de sangue realizados, mas somente se anuncia um contagio de 5% por Covid19. Na vizinha Tanz\u00e2nia, onde a OMS classificou a situa\u00e7\u00e3o de \u201cmuito preocupante\u201d, o ex-presidente John Magufuli, que banalizava a epidemia (ao estilo Bolsonaro) morreu este m\u00eas, possivelmente pela epidemia, mas n\u00e3o querem divulgar.<\/p>\n<p>Esta contagem insuficiente aumenta o risco de dissemina\u00e7\u00e3o ampla da doen\u00e7a, impede o lan\u00e7amento e a ado\u00e7\u00e3o da vacina e, em \u00faltima an\u00e1lise, amea\u00e7a qualquer esfor\u00e7o mundial para controlar a pandemia. Afinal onde quer que o v\u00edrus esteja circulando novas muta\u00e7\u00f5es podem surgir, por isso, \u00e9 crucial identific\u00e1-las rapidamente. J\u00e1 foram detectadas v\u00e1rias, demonstrando que pode haver mais transmissibilidade e, inclusive, fazendo com que as vacinas dispon\u00edveis sejam menos eficazes.<\/p>\n<p><strong>O apartheid da vacina<\/strong><\/p>\n<p>Esta subestima\u00e7\u00e3o dos casos da Covid19 tem o objetivo pol\u00edtico de alimentar a narrativa de que os pa\u00edses africanos n\u00e3o precisam de vacinas com tanta urg\u00eancia quanto outras na\u00e7\u00f5es fazendo com que, os pa\u00edses imperialistas com suas grandes multinacionais farmac\u00eauticas, concentrem a distribui\u00e7\u00e3o da vacina no continente europeu e nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Impossibilitando a quebra de patentes, governos de pa\u00edses da UE, Reino Unido e Estados Unidos bloquearam as propostas para expandir a produ\u00e7\u00e3o de vacinas, privilegiando os monop\u00f3lios das empresas farmac\u00eauticas, colocando os lucros acima das vidas.<\/p>\n<p>Atualmente, as na\u00e7\u00f5es ricas, respons\u00e1veis por 16% da popula\u00e7\u00e3o mundial, compraram 60% do suprimento global de vacinas enquanto a maioria dos pa\u00edses africanos n\u00e3o foi capaz de dar uma \u00fanica dose. As 700 milh\u00f5es de doses distribu\u00eddas em todo o mundo foram, em grande parte, para os ricos. Os pa\u00edses africanos receberam 2% delas. A \u00c1frica do Sul aplicou sua primeira dose em mar\u00e7o deste ano.<\/p>\n<p>Com o aumento de casos na \u00cdndia, foram interrompidas as exporta\u00e7\u00f5es do Serum Institute of India, o maior fabricante mundial da vacina, para o desespero dos que aguardam um incremento de dosagens na \u00c1frica.<\/p>\n<p>Privilegiar os lucros das multinacionais farmac\u00eauticas tamb\u00e9m impede o combate da pandemia de maneira global. Sem vacina\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea em todo o mundo, a COVID19 continuar\u00e1 a se espalhar. Ngoy Nsenga coordena\u00e7\u00e3o da OMS afirmou: \u201cSe algum lugar, qualquer pa\u00eds, n\u00e3o for seguro neste mundo, nenhum pa\u00eds estar\u00e1 seguro\u201d.<\/p>\n<p><strong>Pandemia, mis\u00e9ria e fome<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo com as subnotifica\u00e7\u00f5es a \u00c1frica experimentou um aumento de 30% nas infec\u00e7\u00f5es desde o ano passado, mas implementou menos medidas de sa\u00fade p\u00fablica do que qualquer outro continente.<\/p>\n<p>Com isso a pandemia continuar\u00e1 a assolar o continente por muito tempo, causando morte, sofrimento, fome e destruindo a economia, que j\u00e1 sofre com as barreiras comerciais e o colapso global na demanda por bens e servi\u00e7os.<\/p>\n<p>O fechamento de fronteiras tem sido prejudicial n\u00e3o apenas para o turismo, mas tamb\u00e9m para o setor informal da \u00c1frica. A produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica na \u00c1frica Subsaariana encolheu 3,7% em 2020. Um relat\u00f3rio da Oxfam previu que o impacto econ\u00f4mico da pandemia poderia atrasar o desenvolvimento, em algumas regi\u00f5es do continente, em 30 anos.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma queda de 20% na renda familiar, proporcionalmente maior do que em todo o mundo, com mais pessoas caindo abaixo da linha de pobreza. Este n\u00famero pode chegar a 100 milh\u00f5es de pessoas s\u00f3 na \u00c1frica Subsaariana.<\/p>\n<p>Em todo continente o n\u00famero de pessoas com inseguran\u00e7a alimentar aguda era de 100 milh\u00f5es nos \u00faltimos quatro anos, em 2019 aumentou para 135 milh\u00f5es, em 58 pa\u00edses; no final de 2020, se calculava que havia chegado em 270 milh\u00f5es, representando um aumento de 82% em compara\u00e7\u00e3o com o n\u00famero de pessoas com inseguran\u00e7a alimentar aguda pr\u00e9-COVID-19.<\/p>\n<p>Na \u00c1frica de conjunto, 19% da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 subnutrida (mais de 250 milh\u00f5es de pessoas). Mulheres e meninas representam mais de 70% das pessoas que enfrentam fome cr\u00f4nica. De acordo com o virologista Albertus Osterhaus, as mulheres e meninas s\u00e3o as que mais sofreram com os efeitos da pandemia, principalmente nas fam\u00edlias mais pobres. Afetam suas condi\u00e7\u00f5es alimentares, familiares e culturais e at\u00e9 mesmo como v\u00edtimas de agress\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Enquanto alguns governos imperialistas conseguiram fornecer \u201cmigalhas\u201d em programas de est\u00edmulo social para uma parte de seu proletariado e a popula\u00e7\u00e3o mais pobre, isso n\u00e3o existe para os pa\u00edses africanos, com seus governos mais preocupados com suas d\u00edvidas p\u00fablicas e d\u00e9ficits nas receitas.<\/p>\n<p>A pandemia aumentou a mis\u00e9ria nas comunidades urbanas, principalmente na popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel: como deslocados internos, refugiados, migrantes, pessoas idosas, mulheres e meninas em situa\u00e7\u00e3o ainda pior, que j\u00e1 sofriam os efeitos dos conflitos militares, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e choques econ\u00f4micos. Na maioria dos pa\u00edses da \u00c1frica a aprendizagem virtual simplesmente n\u00e3o existe. Bilh\u00f5es de pessoas ganham a vida nas economias informais, todos afetados pela crise econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Se no maior pa\u00eds imperialista do mundo: Estados Unidos, os dados do \u201cCensus Bureau\u201d de meados de novembro mostraram que cerca de 26 milh\u00f5es de adultos relataram n\u00e3o ter o suficiente para comer, imaginem nos pobres pa\u00edses africanos.<\/p>\n<p><strong>Lutas no continente<\/strong><\/p>\n<p>Em meio a este caos sanit\u00e1rio e social em v\u00e1rios pa\u00edses existem lutas contra os governos que aplicam, sem qualquer vacilo, os planos ditados pelo imperialismo. Estas mobiliza\u00e7\u00f5es explodem a partir das mais variadas fagulhas e motivos.<\/p>\n<p>A Covid-19 golpeou fortemente a for\u00e7a de trabalho de sa\u00fade na regi\u00e3o africana. Cerca de 250 infec\u00e7\u00f5es de profissionais de sa\u00fade s\u00e3o registradas, em m\u00e9dia, todos os dias, ou seja, pelo menos 10 novas infec\u00e7\u00f5es por hora.<\/p>\n<p>Milh\u00f5es de m\u00e9dicos, enfermeiras e outras pessoas na \u00c1frica Subsaariana est\u00e3o arriscando suas vidas esperando h\u00e1 meses por prote\u00e7\u00e3o. Por isso m\u00e9dicos e enfermeiras no Zimb\u00e1bue entraram em greve, por equipamento de prote\u00e7\u00e3o individual (EPI) e contra a corrup\u00e7\u00e3o no Governo, em meio a uma infla\u00e7\u00e3o de 800%. Em Serra Leoa os m\u00e9dicos na linha de frente do combate \u00e0 pandemia tamb\u00e9m entraram em greve, por uso indevido de fundos de sa\u00fade pelo governo e o n\u00e3o pagamento de b\u00f4nus por periculosidade no trabalho. Os trabalhadores da sa\u00fade na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo reduziram seus turnos ao m\u00ednimo para protestar contra o n\u00e3o pagamento de b\u00f4nus por trabalho perigoso para lidar com a pandemia. Os sul-africanos protestaram contra as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho e instaram o governo a acabar com a corrup\u00e7\u00e3o na aquisi\u00e7\u00e3o de equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual contra o coronav\u00edrus. M\u00e9dicos quenianos que trabalham em hospitais do governo lan\u00e7aram uma greve nacional por causa de benef\u00edcios de seguro inadequados e falta de equipamento de prote\u00e7\u00e3o. Da mesma maneira que a classe operaria como os oper\u00e1rios da Volkswagen da \u00c1frica do Sul que realizaram uma manifesta\u00e7\u00e3o contra a obrigatoriedade do trabalho em plena pandemia.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>Rebeli\u00f5es, manifesta\u00e7\u00f5es de ruas e revoltas contra as condi\u00e7\u00f5es de vida e regimes ditatoriais no continente crescem, com o agravamento dos efeitos da pandemia. Nos \u00faltimos meses assistimos mobiliza\u00e7\u00f5es no Zimb\u00e1bue, Nig\u00e9ria, Angola, Sud\u00e3o, Senegal e Mali. Algumas que se desdobraram em violentos enfrentamentos com os aparatos de repress\u00e3o destes Estados que tem governos t\u00edteres do imperialismo. Nenhuma delas foi sufocada, com altos e baixos, os protestos continuam.<\/p>\n<p><strong>Desenvolver uma pol\u00edtica classista e anti-imperialista<\/strong><\/p>\n<p>Todos os fatores que est\u00e3o por tr\u00e1s do aumento da inseguran\u00e7a alimentar aguda, t\u00eam a ver com a decad\u00eancia imperialista e a sua busca desesperada por manter seus lucros, pois envolve: conflitos militares, crise clim\u00e1tica e surtos de gafanhotos; e agora a pandemia.<\/p>\n<p>Desgra\u00e7adamente os governos dos pa\u00edses africanos compactuam, aceitam e implementam estas pol\u00edticas imperialistas agravadas pela grande corrup\u00e7\u00e3o destes pr\u00f3prios governos.<\/p>\n<p>Precisamos urgentemente de um saneamento que seja feito pela classe trabalhadora e seus setores mais explorados. O caminho apontado nos levantes que ocorrem em Senegal, Angola, Arg\u00e9lia e outros pa\u00edses do continente tem que ser seguido, com eles \u00e9 necess\u00e1rio construir organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora que atrav\u00e9s da democracia interna possam centralizar e conduzir a luta da classe.<\/p>\n<p>Para isso \u00e9 fundamental que os trabalhadores que est\u00e3o na vanguarda desta luta, no continente africano, v\u00e3o construindo uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que possa ser a express\u00e3o consciente deste processo e desta luta. N\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda, se n\u00e3o nossos irm\u00e3os deste rico e vasto continente continuaram vivendo este massacre e genoc\u00eddio.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ver Governo alem\u00e3o e Volkswagen: populismo e repress\u00e3o na pandemia sul-africana, <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/gobierno-aleman-y-volkswagen-populismo-y-represion-en-la-pandemia-de-sudafrica\/\">https:\/\/litci.org\/es\/gobierno-aleman-y-volkswagen-populismo-y-represion-en-la-pandemia-de-sudafrica<\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/gobierno-aleman-y-volkswagen-populismo-y-represion-en-la-pandemia-de-sudafrica\/\">\/<\/a>).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Podemos constatar que a pandemia desencadeou uma cascata de sofrimento, desemprego e fome no continente africano. 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