{"id":63518,"date":"2021-04-08T15:17:11","date_gmt":"2021-04-08T18:17:11","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63518"},"modified":"2021-04-08T15:17:11","modified_gmt":"2021-04-08T18:17:11","slug":"63518-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/04\/08\/63518-2\/","title":{"rendered":"72 dias"},"content":{"rendered":"<p><em>Ultimamente, as palavras \u201cditadura do proletariado\u201d voltaram a mergulhar em santo horror ao filisteu socialdemocrata. Pois bem, cavalheiros, quereis saber que face apresenta esta ditadura? Mirem a Comuna de Paris: a\u00ed est\u00e1 a ditadura do proletariado!<\/em><\/p>\n<p>Friedrich Engels, Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Guerra civil na Fran\u00e7a, 1891<a name=\"_ftnref1\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftn1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p><em>A hist\u00f3ria da Comuna de Paris foi breve, de 18 de mar\u00e7o a 28 de maio de 1871, quando a resist\u00eancia dos communards\u00a0terminou afogada em sangue pela repress\u00e3o das burguesias francesa e alem\u00e3, \u00e0s quais pouco importou o fato de que meses antes estiveram em guerra. Por\u00e9m seu significado pol\u00edtico \u00e9 intermin\u00e1vel. H\u00e1 150 anos nascia a primeira experi\u00eancia de governo oper\u00e1rio da hist\u00f3ria, uma sublime tentativa de tomar o c\u00e9u de assalto.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Ronald Le\u00f3n N\u00fa\u00f1ez<\/p>\n<p>Dessa forma tanto suas conquistas como sua derrota se ergueram em uma refer\u00eancia para as lutas pela emancipa\u00e7\u00e3o social. A Comuna n\u00e3o pereceu com a \u00faltima barricada da rua Ramponneau, uma vez que seus ensinamentos possuem valor em si mesmo; \u201ca grande medida social da Comuna\u201d, anotou Marx, \u201cfoi sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, seu labor\u201d<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Em finais da d\u00e9cada de 1860, o regime desp\u00f3tico do imperador Napole\u00e3o III, que se erigiu sobre a derrota da revolu\u00e7\u00e3o de 1848, estava debilitado. Para superar a crise, \u201cNapole\u00e3o, o Pequeno\u201d decide embarcar em uma nova aventura militar. Engels explica que \u201co Segundo Imp\u00e9rio era a apela\u00e7\u00e3o ao chauvinismo franc\u00eas, a reivindica\u00e7\u00e3o das fronteiras do Primeiro Imp\u00e9rio, perdidas em 1814, ou ao menos as da Primeira Rep\u00fablica [\u2026] Isto implicava a necessidade de guerras acidentais e de expandir as fronteiras. Mas n\u00e3o havia zona de expans\u00e3o que deslumbrasse tanto a fantasia dos chauvinistas franceses como as terras alem\u00e3s da margem esquerda do Reno\u201d<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Em julho de 1870, depois de embates diplom\u00e1ticos sobre da sucess\u00e3o do trono espanhol, a Fran\u00e7a declara a guerra \u00e0 Pr\u00fassia. O chanceler Bismarck, por seu lado, aproveitar\u00e1 o ataque franc\u00eas para acelerar o processo de unifica\u00e7\u00e3o nacional da ent\u00e3o Confedera\u00e7\u00e3o Alem\u00e3 do Norte. Explode a guerra franco-prussiana.<\/p>\n<p>A batalha de Sedan marca o desastre militar franc\u00eas. Em 2 de setembro, o alto comando e mais 83.000 soldados capitulam ante os prussianos. O pr\u00f3prio Napole\u00e3o III cai prisioneiro. O Segundo Imp\u00e9rio Franc\u00eas se desmorona junto com seu ex\u00e9rcito. Em 4 de setembro \u00e9 proclamada em Paris a Terceira Rep\u00fablica e se constitui um Governo Provis\u00f3rio de Defesa Nacional, presidido por Louis-Jules Trochu. A Rep\u00fablica decide continuar a guerra.<\/p>\n<p>Mas o avan\u00e7o prussiano \u00e9 irrefre\u00e1vel. A partir de 19 de setembro, Paris \u00e9 bombardeada e submetida a um cerco que durar\u00e1 quatro meses. A fome toma conta da capital. Em 27 de outubro, em Metz, 173.000 franceses capitulam ao comando do marechal Bazaine. Bismarck tinha passado para uma guerra de conquista. A burguesia francesa mostrava desespero para capitular. Em 18 de janeiro de 1871, o \u201cChanceler de Ferro\u201d sela a unifica\u00e7\u00e3o com a proclama\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio alem\u00e3o nada menos que na Galeria dos Espelhos do Pal\u00e1cio de Versalhes. Em 28 de janeiro se estabelece o armist\u00edcio<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftn4\">[4]<\/a>. A Fran\u00e7a perde as prov\u00edncias de Als\u00e1cia e Lorena, al\u00e9m de assumir o pagamento de duras repara\u00e7\u00f5es de guerra aos vencedores. Em fevereiro, as elei\u00e7\u00f5es para uma nova Assembleia Nacional deram maioria \u00e0s fac\u00e7\u00f5es mon\u00e1rquicas. Em 17 de fevereiro, a inst\u00e2ncia que ficou conhecida como assembleia \u201crural\u201d nomeia Louis Adolphe Thiers como presidente provis\u00f3rio.<\/p>\n<p>A guerra precipitou a revolu\u00e7\u00e3o. A humilhante capitula\u00e7\u00e3o ante a Pr\u00fassia exacerbou o descontentamento em Paris. Entra em cena a Guarda Nacional, uma mil\u00edcia popular que esteve a cargo da defesa da capital durante a guerra. Contava com cerca de 300.000 homens armados, a maioria de oper\u00e1rios, artes\u00e3os e setores da pequena burguesia arruinada. No in\u00edcio de mar\u00e7o, os batalh\u00f5es elegem um Comit\u00ea Central da Federa\u00e7\u00e3o da Guarda Nacional. Foram aprovados novos estatutos, estipulando \u201co direito absoluto da Guarda Nacional de eleger seus dirigentes e revog\u00e1-los t\u00e3o pronto perdessem a confian\u00e7a de seus eleitores\u201d. Este organismo, com estrutura democr\u00e1tica, assumiu a organiza\u00e7\u00e3o da defesa de Paris ante a deser\u00e7\u00e3o da burguesia francesa, a entrada do ex\u00e9rcito prussiano, e o perigo de uma restaura\u00e7\u00e3o mon\u00e1rquica.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o acordo com os prussianos, a prioridade de Thiers passou a ser a liquida\u00e7\u00e3o da Guarda Nacional. Tentou dispers\u00e1-la, reduzi-la, abolir seus sal\u00e1rios e, sobretudo, desarm\u00e1-la. O principal obst\u00e1culo ao objetivo da burguesia de fazer os trabalhadores pagarem o custo da crise &#8211; e as repara\u00e7\u00f5es de guerra &#8211;\u00a0 consistia na dualidade de poderes instalada na capital. Assim, entre 17 e 18 de mar\u00e7o de 1871 o governo republicano tenta confiscar 271 canh\u00f5es e 146 metralhadoras que a Guarda tinha colocado na colina de Montmartre. Mas o proletariado, encabe\u00e7ado por comit\u00eas de mulheres, fecha a passagem \u00e0s tropas regulares. As mulheres convocaram uma multid\u00e3o. O povo rodeia os soldados enviados por Thiers e os exorta a desobedecer \u00e0s ordens de seus superiores. Eles n\u00e3o s\u00f3 confraternizaram com os parisienses, como executaram os generais Lecomte e Cl\u00e9ment-Thomas. \u00c9 o in\u00edcio da insurrei\u00e7\u00e3o e da guerra civil. O Comit\u00ea Central ocupa os pontos nevr\u00e1lgicos da cidade e se instala no H\u00f4tel de Ville, at\u00e9 ent\u00e3o sede do governo. Thiers e seu gabinete fogem para Versalhes, onde antes havia se instalado a Assembleia dos \u201crurais\u201d. Assim se inicia o primeiro governo oper\u00e1rio da hist\u00f3ria.<\/p>\n<div id=\"attachment_63519\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-63519\" class=\"wp-image-63519 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Comuna.jpeg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"494\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Comuna.jpeg 640w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Comuna-300x232.jpeg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Comuna-150x116.jpeg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><p id=\"caption-attachment-63519\" class=\"wp-caption-text\">Canh\u00f5es em Montmartre.<br \/>Fotografia de Auguste Bruno Braquehais<\/p><\/div>\n<p>O an\u00fancio de 18 de mar\u00e7o, dizia: \u201cOs prolet\u00e1rios da capital, em meio \u00e0s faltas e trai\u00e7\u00f5es das classes dominantes, compreenderam que havia chegado o momento de salvar a situa\u00e7\u00e3o assumindo a dire\u00e7\u00e3o dos assuntos p\u00fablicos.[\u2026] compreenderam que era seu dever imperativo e seu direito absoluto tomar as r\u00e9deas de seu destino e assegurar seu triunfo conquistando o poder\u201d. Ao que acrescentava o compromisso de lutar pela \u201caboli\u00e7\u00e3o do sistema de escravid\u00e3o\u00a0 assalariada de uma vez por todas\u201d.<\/p>\n<p>A Dire\u00e7\u00e3o da Guarda Nacional, imbu\u00edda de preconceitos legalistas, n\u00e3o tardou em convocar elei\u00e7\u00f5es municipais para desfazer-se do poder [5]. Em 28 de mar\u00e7o se instala oficialmente a Comuna de Paris [6].<\/p>\n<p>Marx sintetizou a composi\u00e7\u00e3o e o car\u00e1ter democr\u00e1tico do novo poder: \u201cA Comuna estava formada pelos conselheiros municipais eleitos por sufr\u00e1gio universal nos diversos distritos da cidade. Eram respons\u00e1veis e revog\u00e1veis a qualquer momento. A maioria de seus membros eram, naturalmente, oper\u00e1rios ou representantes reconhecidos da classe oper\u00e1ria. A Comuna n\u00e3o haveria de ser um organismo parlamentar, mas uma corpora\u00e7\u00e3o de trabalho, executiva e legislativa ao mesmo tempo. Em lugar de continuar sendo um instrumento do governo central, a pol\u00edcia foi despojada imediatamente de seus atributos pol\u00edticos e convertida em instrumento da Comuna, respons\u00e1vel ante ela e revog\u00e1vel a qualquer momento. O mesmo foi feito com os funcion\u00e1rios dos demais ramos da administra\u00e7\u00e3o. Desde os membros da Comuna para baixo, todos os que desempenhavam cargos p\u00fablicos deviam faz\u00ea-lo com sal\u00e1rios de oper\u00e1rios\u201d <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftn7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Com efeito, o primeiro decreto da Comuna foi suprimir o ex\u00e9rcito permanente e substitu\u00ed-lo pela organiza\u00e7\u00e3o do povo armado. Isto, na pr\u00e1tica, supunha a quebra do Estado burgu\u00eas. Seguiram-se uma s\u00e9rie de medidas que, ainda que n\u00e3o houve tempo de aplic\u00e1-las plenamente, n\u00e3o permitem d\u00favidas a respeito de seu sentido de classe: suspens\u00e3o de pagamentos de alugu\u00e9is; proibi\u00e7\u00e3o da venda dos bens empenhados pelos pobres em Monte de Piedade; confirma\u00e7\u00e3o em seus cargos de todos os membros estrangeiros eleitos, considerando que \u201ca bandeira da Comuna \u00e9 a bandeira da Rep\u00fablica Universal\u201d; separa\u00e7\u00e3o definitiva entre a Igreja e o Estado, concretizada em decis\u00f5es como a suspens\u00e3o de todos os pagamentos p\u00fablicos para fins religiosos, a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos bens eclesi\u00e1sticos , a seculariza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, a declara\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o como \u201cassunto privado\u201d. \u00a0Em 12 de abril, a Comuna determina a demoli\u00e7\u00e3o da Coluna da Pra\u00e7a Vend\u00f4me \u2013 ordem que foi executada em 16 de maio \u2013 por constituir um s\u00edmbolo do chauvinismo franc\u00eas. Em 16 de abril \u00e9 estabelecida a morat\u00f3ria de todas as d\u00edvidas por tr\u00eas anos e a elimina\u00e7\u00e3o dos juros. Nesse mesmo dia, foi aprovada a requisi\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas abandonadas e sua reorganiza\u00e7\u00e3o sob controle de cooperativas oper\u00e1rias. No dia 20 \u00e9 abolido o trabalho noturno dos padeiros; dez dias depois \u00e9 ordenado o fechamento de todas as casas de penhor. Em 25 de abril s\u00e3o confiscadas as casas vazias para alojar as fam\u00edlias sem teto. Em 5 de maio de decidiu pela demoli\u00e7\u00e3o da Capela Expiat\u00f3ria, constru\u00edda para purgar a execu\u00e7\u00e3o de Luis XVI. Em 11 de maio \u00e9 ordenada a demoli\u00e7\u00e3o da casa de Thiers, e, al\u00e9m disso, foram confiscados seus bens.<\/p>\n<div id=\"attachment_63520\" style=\"width: 649px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-63520\" class=\"size-full wp-image-63520\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Comuna-1.jpeg\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Comuna-1.jpeg 639w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Comuna-1-300x225.jpeg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Comuna-1-150x113.jpeg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 639px) 100vw, 639px\" \/><p id=\"caption-attachment-63520\" class=\"wp-caption-text\">Na foto se observa a Coluna da Pra\u00e7a Vendome, derrubada pelos communards em 16 de maio de 1871. Foto de Andr\u00e9 Adolphe Eug\u00e8ne Disd\u00e9ri<\/p><\/div>\n<p>Mas, em uma cidade sitiada, estas medidas puderam apenas ser esbo\u00e7adas na pr\u00e1tica. Em in\u00edcio de maio o ex\u00e9rcito regular situado em Versalhes estava pronto para a ofensiva final. Thiers fez outro acordo com Bismarck, que liberou cerca de 60.000 prisioneiros franceses para engrossar as for\u00e7as da contrarrevolu\u00e7\u00e3o. Marx denunciou que \u201co ex\u00e9rcito vencedor e o vencido confraternizam na matan\u00e7a comum do proletariado. A domina\u00e7\u00e3o de classe j\u00e1 n\u00e3o pode se disfar\u00e7ar sob o uniforme nacional; todos os governos nacionais s\u00e3o um s\u00f3 contra o proletariado\u201d<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftn8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>Desde abril, os versalheses tinham cercado Paris, submetendo-a a constante bombardeio. Em 21 de maio come\u00e7a a ofensiva final para acabar com a Comuna. Os <em>communards<\/em>\u00a0resistiram com coragem, por\u00e9m pouco a pouco foram empurrados para o leste da cidade. A derrota chegou em 28 de maio. A \u201csemana sangrenta\u201d, uma orgia de atrocidades cometidas pela \u201ccivilizada\u201d burguesia francesa, terminou com o assassinato de 30.000 parisienses, muitos deles mulheres e crian\u00e7as. Para acelerar o trabalho utilizaram metralhadoras. As pilhas de cad\u00e1veres, depois de serem exibidos, foram jogados em valas comuns. Ao banho de sangue seguiram-se persegui\u00e7\u00f5es, deporta\u00e7\u00f5es, cinco anos sob lei marcial, d\u00e9cadas de cal\u00fanias. A Bas\u00edlica de Sacr\u00e9-C\u0153ur, cobi\u00e7ado destino tur\u00edstico, foi constru\u00edda para \u201cexpiar os pecados\u201d dos <em>communards<\/em>.<\/p>\n<p>Em palavras de Engels: \u201cFoi s\u00f3 depois de oito dias de luta que os \u00faltimos defensores da Comuna ca\u00edram nas alturas de Belleville e M\u00e9nilmontant; e ent\u00e3o chegou ao seu apogeu aquela matan\u00e7a de homens desarmados, mulheres e crian\u00e7as, que fez estragos durante toda a semana com f\u00faria crescente [\u2026] O <em>Muro dos Federados<\/em>\u00a0do cemit\u00e9rio de P\u00e8re Luchaise, onde se consumou o \u00faltimo assassinato em massa, continua ainda de p\u00e9, testemunha muda por\u00e9m eloquente do frenesi a que \u00e9 capaz de chegar a classe dominante quando o proletariado se atreve a reclamar seus direitos \u201d<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<div id=\"attachment_63521\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-63521\" class=\"size-full wp-image-63521\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Paris_1871_-_communards-scaled-1.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"475\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Paris_1871_-_communards-scaled-1.jpg 640w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Paris_1871_-_communards-scaled-1-300x223.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Paris_1871_-_communards-scaled-1-150x111.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Paris_1871_-_communards-scaled-1-485x360.jpg 485w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><p id=\"caption-attachment-63521\" class=\"wp-caption-text\">Communards assassinados e expostos pelo governo republicano<\/p><\/div>\n<p>Em 17 de abril, Marx escreveu ao seu amigo o doutor Kugelmann: \u201cGra\u00e7as \u00e0 Comuna de Paris, a luta da classe oper\u00e1ria contra a classe dos capitalistas e contra o Estado que representa os interesses desta, entrou em uma nova fase. Seja qual for o desenlace imediato desta vez, conquistou-se um novo ponto de partida que tem import\u00e2ncia para a hist\u00f3ria de todo o mundo\u201d<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftn10\">[10]<\/a>. Isto ajuda a entender a crueldade da repress\u00e3o. A burguesia necessitava liquidar este \u201cponto de partida\u201d de alcance hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>A transcend\u00eancia da Comuna de Paris consistiu em que foi uma revolu\u00e7\u00e3o contra o Estado capitalista: \u201ca Comuna era, essencialmente, um governo da classe oper\u00e1ria, fruto da luta da classe produtora contra a classe apropriadora, a forma pol\u00edtica ao fim descoberta para levar a cabo dentro dela a emancipa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do trabalho \u201d<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftn11\">[11]<\/a>. Foi a primeira revolu\u00e7\u00e3o moderna que n\u00e3o se contentou em tomar conta da m\u00e1quina estatal e utiliz\u00e1-la para seus fins, mas a demoliu, liquidou institui\u00e7\u00f5es chave como o ex\u00e9rcito, a pol\u00edcia, o clero, a magistratura. Esta a\u00e7\u00e3o, que Marx caracterizou como \u201ccondi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de toda verdadeira revolu\u00e7\u00e3o popular no continente \u201d<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftn12\">[12]<\/a>, representou o embri\u00e3o de um poder prolet\u00e1rio. Desde ent\u00e3o, o estudo te\u00f3rico desta experi\u00eancia se tornou indispens\u00e1vel para futuros processos.<\/p>\n<p>O per\u00edodo hist\u00f3rico no qual ocorre a Comuna n\u00e3o podia, contudo, mais que antecipar elementos das grandes crises do s\u00e9culo XX. A guerra franco-prussiana pressagiou a matan\u00e7a desatada em 1914; a Comuna de Paris significou um an\u00fancio da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria que triunfaria, pela primeira vez, na R\u00fassia de 1917.<\/p>\n<p>Os dirigentes da Comuna, principalmente blanquistas y proudhonianos<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftn13\">[13]<\/a>, cometeram graves erros pol\u00edticos, pr\u00f3prios de suas respectivas doutrinas, como n\u00e3o ter marchado contra Versalhes antes que a contrarrevolu\u00e7\u00e3o pudesse reorganizar-se e cercar Paris; ter-se limitado a pedir adiantamentos ao Banco da Fran\u00e7a ao inv\u00e9s de t\u00ea-lo expropriado [14]; ou a deficiente prepara\u00e7\u00e3o militar diante do iminente ataque de Thiers. A an\u00e1lise desses limites, express\u00f5es de uma condescend\u00eancia excessiva e de uma inclina\u00e7\u00e3o a deter-se depois das primeiras conquistas, faz parte de um balan\u00e7o hist\u00f3rico que foi sumamente \u00fatil para forjar a dire\u00e7\u00e3o bolchevique que encabe\u00e7ou a tomada de poder em 1917 e, com certeza, continua vigente at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>A Comuna de Paris, apesar de tudo, inaugurou a era da \u201cexpropria\u00e7\u00e3o dos expropriadores\u201d. Abriu um novo cap\u00edtulo na tradi\u00e7\u00e3o do internacionalismo prolet\u00e1rio, ao incorporar \u00e0 sua causa, 65 anos antes da revolu\u00e7\u00e3o espanhola de 1936, a tradi\u00e7\u00e3o das brigadas oper\u00e1rias internacionais, entre as quais se sobressaem uma brigada belga e outra franco-estadunidense. Sabe-se, neste sentido, que os versalheses aprisionaram mais de 1.700 \u201cestrangeiros\u201d.<\/p>\n<p>A causa da Comuna \u00e9 a causa da revolu\u00e7\u00e3o social. A causa de todos os humilhados e ofendidos. Um estandarte da nova sociedade sem explora\u00e7\u00e3o nem opress\u00e3o. Isto a torna imortal. \u201cSeus m\u00e1rtires\u201d escreveu Marx, \u201ctem seu santu\u00e1rio no grande cora\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria. E aos seus exterminadores a hist\u00f3ria os cravou em um pelourinho eterno, do qual n\u00e3o conseguir\u00e3o redimi-los todas as preces de seu clero\u201d [15]. <em>Vive la Commune.<\/em><\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p><a name=\"_ftn1\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0Engels escreveu esta introdu\u00e7\u00e3o para a terceira edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 do trabalho de Marx\u00a0<em>A guerra civil na Fran\u00e7a<\/em>, publicada em 1891 celebrando o 20\u00ba. aniversario da Comuna de Paris.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn2\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0MARX, Karl.\u00a0<em>La guerra civil en Francia.\u00a0<\/em>Madrid: Fundaci\u00f3n Federico Engels, p. 77.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn3\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftnref3\">[3]<\/a>\u00a0ENGELS, Friedrich. Introducci\u00f3n. In: MARX, Karl.\u00a0<em>La guerra civil en Francia\u2026<\/em>, p. 12.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn4\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftnref4\">[4]<\/a>\u00a0Em 26 de fevereiro de 1871 \u00e9 assinado o acordo preliminar de paz. O tratado definitivo foi assinado em Frankfurt em 10 de maio, poucos dias antes do esmagamento da Comuna.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn5\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftnref5\">[5]<\/a>\u00a0A convocat\u00f3ria \u00e0s elei\u00e7\u00f5es, de acordo com Marx, foi um \u201cerro decisivo\u201d que desviou\u00a0 o Comit\u00ea Central de organizar com urg\u00eancia uma marcha sobre Versalhes, ent\u00e3o indefeso: \u201cAquele dia, nas prefeituras de Paris, os \u201cagentes da ordem\u201d trocaram brandas palavras de concilia\u00e7\u00e3o com seus muito generosos vencedores, enquanto que\u00a0 em seu interior faziam o voto solene de extermin\u00e1-los no momento oportuno\u201d, MARX, Karl.\u00a0<em>La guerra civil en Francia\u2026<\/em>, p. 61.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn6\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftnref6\">[6]<\/a>\u00a0Foram eleitos 86 representantes para a Comuna, dos quais 25 eram oper\u00e1rios.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn7\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftnref7\">[7]<\/a>\u00a0MARX, Karl.\u00a0<em>La guerra civil en Francia\u2026,<\/em>\u00a0p. 67.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn8\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftnref8\">[8]<\/a>\u00a0MARX, Karl.\u00a0<em>La guerra civil en Francia\u2026,<\/em>\u00a0pp. 95-96.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn9\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftnref9\">[9]<\/a>\u00a0ENGELS, Friedrich. Introducci\u00f3n\u2026, p. 17.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn10\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftnref10\">[10]<\/a>\u00a0Carta de Marx a Kugelmann, 17\/04\/1871: &lt;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/m-e\/cartas\/m17-4-71.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/m-e\/cartas\/m17-4-71.htm<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn11\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftnref11\">[11]<\/a>\u00a0MARX, Karl.\u00a0<em>La guerra civil en Francia\u2026,<\/em>\u00a0p. 71.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn12\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftnref12\">[12]<\/a>\u00a0Carta de Marx a Kugelmann, 12\/04\/1871: &lt;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/m-e\/cartas\/m12-4-71.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/m-e\/cartas\/m12-4-71.htm<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn13\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftnref13\">[13]<\/a>\u00a0Engels escreveu: \u201cCom certeza, cabe aos proudhonianos a principal responsabilidade pelos decretos econ\u00f4micos da Comuna, tanto no que diz respeito aos seus\u00a0 m\u00e9ritos como aos seus defeitos; aos blanquistas lhes incumbe a responsabilidade\u00a0 principal pelos atos e as omiss\u00f5es pol\u00edticos\u201d. ENGELS, Friedrich. Introdu\u00e7\u00e3o\u2026, p. 18.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn14\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftnref14\">[14]<\/a>\u00a0A Comuna, preocupada com o pagamento \u00e0s tropas da Guarda Nacional, recebeu do Banco da Fran\u00e7a a soma de 20.240.000 \u00a0francos como adiantamento, dos quais 9.400.000 pertenciam \u00e0 cidade de Paris. O banco, situado em territ\u00f3rio controlado pelos\u00a0<em>communards<\/em>, possu\u00eda imensas reservas em efetivo, t\u00edtulos, joias e lingotes de ouro. Versalhes, por seu lado, recebeu 257.637.000 \u00a0francos, recursos destinados diretamente a custear a repress\u00e3o \u00e0 Comuna.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn15\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/72-dias\/#_ftnref15\">[15]<\/a>\u00a0MARX, Karl.\u00a0<em>La guerra civil en Francia\u2026<\/em>, p. 97.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ultimamente, as palavras \u201cditadura do proletariado\u201d voltaram a mergulhar em santo horror ao filisteu socialdemocrata. Pois bem, cavalheiros, quereis saber que face apresenta esta ditadura? Mirem a Comuna de Paris: a\u00ed est\u00e1 a ditadura do proletariado! Friedrich Engels, Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Guerra civil na Fran\u00e7a, 1891[1]. A hist\u00f3ria da Comuna de Paris foi breve, de 18 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":63522,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3695,3542,8],"tags":[2298,114,2266],"class_list":["post-63518","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-150-anos-da-comuna-de-paris","category-franca","category-historia","tag-150-anos-comuna-de-paris","tag-daniel-sugasti","tag-especial-comuna-de-paris"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Comuna-2.png","categories_names":["150 anos da Comuna de Paris","Fran\u00e7a","Hist\u00f3ria"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63518","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63518"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63518\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63522"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63518"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63518"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63518"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}