{"id":63495,"date":"2021-04-05T16:13:54","date_gmt":"2021-04-05T19:13:54","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63495"},"modified":"2021-04-05T16:13:54","modified_gmt":"2021-04-05T19:13:54","slug":"partido-comunista-portugues-e-o-partido-bolchevique-dois-projetos-opostos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/04\/05\/partido-comunista-portugues-e-o-partido-bolchevique-dois-projetos-opostos\/","title":{"rendered":"Partido Comunista Portugu\u00eas e o Partido Bolchevique: dois projetos\u00a0opostos"},"content":{"rendered":"<p><em>N\u00e3o deixa de ter algo de enternecedor o modo como a comunica\u00e7\u00e3o social, acompanhada por alguns dos nossos comentadores pol\u00edticos, se associaram aos 100 anos do Partido Comunista Portugu\u00eas (PCP). N\u00e3o faltou quem comparasse o PCP aos bolchevistas russos e \u00c1lvaro Cunhal ao Lenin portugu\u00eas. Cem anos s\u00e3o, de facto, uma idade rara para um partido, mas nos anivers\u00e1rios, mesmo que centen\u00e1rios, a hist\u00f3ria n\u00e3o deve ser substitu\u00edda pela hagiografia.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Jos\u00e9 Monteiro \u2013 Em Luta (Portugal)<\/p>\n<p>Sendo, supostamente, refer\u00eancias do PCP a Revolu\u00e7\u00e3o Russa e os bolcheviques, pode ser tentadora a compara\u00e7\u00e3o deste partido com os bolcheviques e de Cunhal com Lenin. Afinal, ambos regressam do ex\u00edlio, o primeiro poucos dias antes do in\u00edcio do processo revolucion\u00e1rio, o segundo alguns meses antes da tomada de poder pelo sovietes russos. De ambos existem registos do discurso de chegada feito em cima de um blindado. Uma tentadora analogia, sem d\u00favida, mas que n\u00e3o passa de um devaneio hist\u00f3rico. Mas vamos aos factos.<\/p>\n<p><strong>A pol\u00edtica de independ\u00eancia de classe para tomar o poder\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Quando o padre Gapone vai a Zurique propor a Lenin um amplo acordo pol\u00edtico de urg\u00eancia pelo derrube da monarquia russa, Lenin responde-lhe que at\u00e9 poderiam golpear juntos, mas que continuariam a marchar separados. De regresso \u00e0 R\u00fassia, em 1917, Lenin recusa qualquer tipo de apoio e de participa\u00e7\u00e3o no governo de Kerenski. A orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos bolcheviques passa a ser, como se sabe, a de que os ministros socialistas devem romper a colabora\u00e7\u00e3o com os ministros burgueses, \u201cTodo o poder aos sovietes\u201d. Em 1922, j\u00e1 gravemente doente, Lenin \u00e9 o primeiro a alertar o partido bolchevique para o perigo de, se nada fosse feito, o governo dos sovietes ser substitu\u00eddo pela ditadura da burocracia, que j\u00e1 amea\u00e7ava poder vir a dominar o partido bolchevique.<\/p>\n<p><strong>\u2026 e a pol\u00edtica de alian\u00e7a de classes do PCP<\/strong><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Lenin e dos bolcheviques, a pol\u00edtica do PCP sempre esteve orientada pela sua participa\u00e7\u00e3o e\/ou apoio a governos burgueses, que o PCP classifica como\u00a0\u00a0\u201cpol\u00edtica patri\u00f3tica e de esquerda\u201d. Onde Lenin falava de proletariado, o PCP fala de uma \u201campla frente social de luta\u201d. Onde Lenin falava em nenhum apoio a governos burgueses (mesmo que ditos democr\u00e1ticos), o PCP fala em participar em governos com \u201csetores patri\u00f3ticos, democr\u00e1ticos e antimonopolistas\u201d (bem expresso nas\u00a0Teses do XXI congresso). Na verdade, o PCP h\u00e1 muito que abandonou o leninismo e com ele a independ\u00eancia pol\u00edtica da classe trabalhadora que o leninismo deixou como legado a todos os revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>Frentes populares aplicadas a Portugal<\/strong><\/p>\n<p>O PCP sempre manteve (e por certo continuar\u00e1 a manter) um muito oportuno sil\u00eancio sobre as suas liga\u00e7\u00f5es internacionais. Percebe-se, porque afinal 100 anos de exist\u00eancia d\u00e3o origem a muito para explicar. Sabemos hoje que o PCP acompanhou e participou nos congressos do Comintern (Internacional Comunista). Foi no VII congresso, em 1935, que os ent\u00e3o dirigentes do PCP aderiram \u00e0 pol\u00edtica das \u201cfrentes amplas contra o fascismo\u201d que Stalin n\u00e3o demoraria a aplicar em Fran\u00e7a e, pouco depois, na Guerra Civil Espanhola, com consequ\u00eancias devastadoras para os trabalhadores destes pa\u00edses. Cunhal, acabado de chegar a secret\u00e1rio-geral do PCP e corrigido o \u201cdesvio de direita\u201d, vai\u00a0\u00a0aplicar a mesma linha pol\u00edtica nas teses do congresso do PCP de 1965. Posteriormente publicadas com o t\u00edtulo\u00a0Rumo \u00e0 Vit\u00f3ria, as teses previam a queda do fascismo pela revolu\u00e7\u00e3o \u201cdemocr\u00e1tica e nacional\u201d e reivindicavam participa\u00e7\u00e3o do PCP num futuro Governo Provis\u00f3rio, governo este que teria a participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e, claro, de todos os \u201cportugueses honrados\u201d. Era a colabora\u00e7\u00e3o de classes estalinista na sua vers\u00e3o cunhalista.<\/p>\n<p><strong>A burocracia e o terror estalinista<\/strong><\/p>\n<p>Mas a liga\u00e7\u00e3o entre o PCP e o Comintern n\u00e3o se fica apenas pela aplica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das teses frentistas sa\u00eddas do VII Congresso, em 1935. Onde Lenin falava em combater a burocracia, a hist\u00f3ria do PCP mostra-nos o apoio e a justifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos atos mais criminosos da burocracia estalinista.<\/p>\n<p>Durante a Guerra Civil Espanhola, Cunhal e v\u00e1rios quadros do partido s\u00e3o deslocados para a Espanha, onde lhes s\u00e3o atribu\u00eddas tarefas de \u201cinvestiga\u00e7\u00e3o de atividades fascistas\u201d. No per\u00edodo da guerra civil na Espanha, estas \u201cinvestiga\u00e7\u00f5es \u201d eram apenas a justifica\u00e7\u00e3o com a qual o NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos) prendia e, em alguns casos, eliminava fisicamente todos aqueles que n\u00e3o aceitavam a pol\u00edtica imposta por Stalin. O testemunho foi-nos deixado por George Orwell nas suas mem\u00f3rias:<\/p>\n<p>\u201cQuando cheguei ao hotel minha mulher estava sentada no sal\u00e3o de espera. Levantou-se caminhou para mim (\u2026) e murmurou ao meu ouvido:<\/p>\n<p>\u2013 D\u00ea o fora.<\/p>\n<p>\u2013 O qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2013 Saia daqui imediatamente. Precisa sair agora mesmo.<\/p>\n<p>\u2013 Por qu\u00ea? O que est\u00e1 dizendo?<\/p>\n<p>Ela j\u00e1 me pegara pelo bra\u00e7o e seguia comigo levando-me para a sa\u00edda. Ao p\u00e9 da escada um dos empregados do hotel membro do Partido Oper\u00e1rio de Unifica\u00e7\u00e3o Marxista\u00a0&#8211; POUM (sem a ger\u00eancia saber, ao que presumo) saiu furtivamente do elevador e me disse, em ingl\u00eas estropiado, para sair dali. At\u00e9 ent\u00e3o eu n\u00e3o compreendera o que acontecia.<\/p>\n<p>\u2013 De que diabo est\u00e3o falando?<\/p>\n<p>-N\u00e3o soube? O POUM foi extinto, eles tomaram os edif\u00edcios e praticamente est\u00e3o todos presos. Dizem que j\u00e1 come\u00e7aram a fuzilar alguns.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o era isso (\u2026) Naqueles dia interm\u00e9dios deve ter havido um bom n\u00famero de homens que morreram sem saber que os jornais na retaguarda os chamavam de fascistas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se tratava de uma batida para apanhar criminosos, apenas de um reinado de terror. Eu n\u00e3o era culpado de qualquer ato definido, mas de trotskismo. O fato de que servira na mil\u00edcia do POUM era mais do que suficiente para me levar \u00e0 pris\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Pelo menos desde os primeiros anos da d\u00e9cada de 30 que o PCP envia quadros para Moscou, colocando-os na Escola Internacional Lenin, onde devem aprender a \u201cconstru\u00e7\u00e3o do socialismo russo\u201d. Como estudantes do \u201csocialismo\u201d estalinista tiveram contato com a realidade das purgas e das persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que durante esta d\u00e9cada atingiram toda a sociedade russa. Dado que visitavam as grandes obras, n\u00e3o tiveram como desconhecer a utiliza\u00e7\u00e3o extensiva de m\u00e3o de obra de prisioneiros dos Gulags. Assistiram a julgamentos de trabalhadores nas suas f\u00e1bricas que, normalmente, terminavam em condena\u00e7\u00f5es a trabalhos for\u00e7ados. Terminada a forma\u00e7\u00e3o podiam ser destacados para apoiar a GPU (Diret\u00f3rio Pol\u00edtico Unificado do Estado) e, posteriormente, a NKVD na cria\u00e7\u00e3o de redes de controle no interior dos partidos nacionais de opositores de esquerda ao estalinismo. A escola leninista de Moscou garantia assim a forma\u00e7\u00e3o dos quadros que iriam cimentar a fidelidade dos Partidos Comunistas por todo o mundo \u00e0 burocracia estalinista na R\u00fassia.<\/p>\n<p><strong>A subida do nazismo e o pacto Stalin-Hitler<\/strong><\/p>\n<p>Em agosto de 1939, a Alemanha nazi e a URSS estalinista assinam um pacto de n\u00e3o-agress\u00e3o que marca o in\u00edcio da II Guerra Mundial. \u00c0 parte p\u00fablica deste acordo juntava-se uma parte secreta\u00a0\u00a0que definia as condi\u00e7\u00f5es de partilha da Pol\u00f3nia entre Hitler e Stalin. Seriam necess\u00e1rias as explica\u00e7\u00f5es mais inimagin\u00e1veis para justificar o impens\u00e1vel. Aqueles que nos \u00faltimos anos tinham perseguido como espi\u00f5es fascistas tudo quanto era oposi\u00e7\u00e3o de esquerda ao estalinismo surgiam agora como quase aliados do nazismo. Mas para o PCP acabava \u201cde ser vibrado um duro golpe ao fascismo internacional. A arma com que se vibrou esse golpe foi o pacto de n\u00e3o-agress\u00e3o germano-sovi\u00e9tico\u201d. A fidelidade acr\u00edtica est\u00e1 sempre a um pequeno passo do rid\u00edculo.<\/p>\n<p><strong>PCP como herdeiro de Stalin, e n\u00e3o de Lenin<\/strong><\/p>\n<p>A pol\u00edtica e o percurso do PCP nestes \u00faltimos 100 anos mostram que este partido representa em Portugal o legado da contrarrevolu\u00e7\u00e3o dirigida por uma casta burocr\u00e1tica liderada por Stalin na URSS e que retirou aos trabalhadores o poder que estes tinham conquistado na revolu\u00e7\u00e3o de 1917. Apesar de, normalmente, se identificar o PCP com o lenismo e o legado bolchevique, a heran\u00e7a revolucion\u00e1ria do partido bolchevique de Lenin foi continuada por Trotsky e todos os velhos bolcheviques perseguidos e assassinados pelo regime usurpador de Stalin Como os exemplos aqui referidos procuraram mostrar, as refer\u00eancias do PCP s\u00e3o as do caminho seguido por Stalin, em tudo oposto ao de Lenin e \u00e0 sua perspectiva revolucion\u00e1ria. Esse \u00e9 o \u00fanico ponto de partida poss\u00edvel para entender a pol\u00edtica do PCP nestes 100 anos.<\/p>\n<p>Texto publicado original no jornal\u00a0Em Luta,\u00a0<a href=\"https:\/\/emlutadotnet.files.wordpress.com\/2021\/03\/el27.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">N.\u00ba 27<\/a>\u00a0(mar\u00e7o 2021)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o deixa de ter algo de enternecedor o modo como a comunica\u00e7\u00e3o social, acompanhada por alguns dos nossos comentadores pol\u00edticos, se associaram aos 100 anos do Partido Comunista Portugu\u00eas (PCP). N\u00e3o faltou quem comparasse o PCP aos bolchevistas russos e \u00c1lvaro Cunhal ao Lenin portugu\u00eas. 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