{"id":63482,"date":"2021-04-01T17:37:19","date_gmt":"2021-04-01T20:37:19","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63482"},"modified":"2021-04-01T17:37:19","modified_gmt":"2021-04-01T20:37:19","slug":"myanmar-burma-derrubar-a-ditadura-e-avancar-na-organizacao-operaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/04\/01\/myanmar-burma-derrubar-a-ditadura-e-avancar-na-organizacao-operaria\/","title":{"rendered":"Myanmar (Burma): derrubar a ditadura e avan\u00e7ar na organiza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p><em>Para finalizarmos esta s\u00e9rie de artigos sobre o golpe militar e a luta da classe trabalhadora e do povo do pa\u00eds do Sudeste Asi\u00e1tico, queremos discutir os enormes desafios que eles t\u00eam pela frente, bem como suas alternativas. <\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Wilson Hon\u00f3rio da Silva<\/p>\n<p>De imediato, \u00e9 preciso que se diga que, muito em fun\u00e7\u00e3o do bloqueio das informa\u00e7\u00f5es, \u00e9 dif\u00edcil analisar a real situa\u00e7\u00e3o. O que podemos afirmar, com certeza, que Burma, hoje, \u00e9 exemplar de quest\u00f5es fundamentais para os socialistas revolucion\u00e1rios: o grau de polariza\u00e7\u00e3o social que tem caracterizado o atual contexto mundial (apesar e, inclusive por causa, da pandemia) e o protagonismo inquestion\u00e1vel da classe oper\u00e1ria no que se refere ao destino da humanidade.<\/p>\n<p>Para tal, no caso de Burma, primeiro, \u00e9 preciso que nos detenhamos na alternativa imediata, diante de uma poss\u00edvel derrubada da ditadura: o retorno \u00e0 democracia e da l\u00edder Aung San Suu Kyi, que exercia o poder \u00e0 frente da Liga Nacional para a Democracia (LND), at\u00e9 ser deposta e presa em 1\u00ba de fevereiro. \u00c9 ineg\u00e1vel que a imagem de Suu Kyi, hoje, praticamente simbolize a luta contra os militares, podendo ser vista em todas as manifesta\u00e7\u00f5es que sacodem o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Contudo, ela, de forma alguma, pode ser considerada como uma verdadeira alternativa para que a sociedade birmanesa ponha fim, de fato, \u00e0 explora\u00e7\u00e3o, opress\u00e3o e repress\u00e3o que t\u00eam marcado a hist\u00f3ria de Burma. Pelo contr\u00e1rio. H\u00e1 anos-luz de dist\u00e2ncia entre a imagem p\u00fablica e internacional que ela construiu para si, de como seu pr\u00f3prio povo a v\u00ea e o que ela realmente significou e fez. Algo que precisa ser conhecido, at\u00e9 para entendermos o porqu\u00ea da \u00fanica sa\u00edda para a situa\u00e7\u00e3o a situa\u00e7\u00e3o enfrentada em Burma estar nas m\u00e3os da classe trabalhadora, da juventude e do povo sofrido de suas 136 distintas etnias.<\/p>\n<p><strong>Aung San Suu Kyi: a \u201cfilha da Na\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cdama da democracia\u201d<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-63483\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/myanmar_artigo03_Suu_Kyi_comandante_chefe_militares_maio_2016.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"560\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/myanmar_artigo03_Suu_Kyi_comandante_chefe_militares_maio_2016.jpg 840w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/myanmar_artigo03_Suu_Kyi_comandante_chefe_militares_maio_2016-300x200.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/myanmar_artigo03_Suu_Kyi_comandante_chefe_militares_maio_2016-768x512.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/myanmar_artigo03_Suu_Kyi_comandante_chefe_militares_maio_2016-150x100.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/myanmar_artigo03_Suu_Kyi_comandante_chefe_militares_maio_2016-696x464.jpg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><\/p>\n<p>Quando voltou ao pa\u00eds, em 1988, depois de um longo ex\u00edlio no Reino Unido, Aung San Suu Kyi \u2013 que j\u00e1 era reconhecida pela participa\u00e7\u00e3o de seu pai, chamado de \u201cPai da Na\u00e7\u00e3o\u201d, no per\u00edodo das lutas pela descoloniza\u00e7\u00e3o \u2013 emergiu como lideran\u00e7a pol\u00edtica na chamada \u201cRebeli\u00e3o 8888\u201d, em refer\u00eancia \u00e0 data (8 de agosto de 1988) em que estudantes se levantaram contra a ditadura de partido \u00fanico que dominava o pa\u00eds, desde 1962, e havia levado o pa\u00eds \u00e0 ru\u00edna, \u00e0 mis\u00e9ria e a n\u00edveis abomin\u00e1veis de explora\u00e7\u00e3o (incluindo trabalho escravo ou jornadas de 14 horas di\u00e1rias) sob a farsesca bandeira de \u201cvia birmanesa para o socialismo\u201d.<\/p>\n<p>A rebeli\u00e3o da juventude, que ganhou apoio massivo da popula\u00e7\u00e3o e de trabalhadores, foi violentamente massacrada, resultando, no m\u00ednimo, em 3 mil mortos, milhares feridos e prisioneiros e, ainda, num \u201cgolpe dentro do golpe\u201d. O ent\u00e3o presidente Ne Win, do Partido do Programa Socialista Birman\u00eas, foi deposto, sendo substitu\u00eddo por outro setor do Ex\u00e9rcito, organizado no \u201cConselho de Estado para a Paz e Desenvolvimento\u201d (SPDC), liderado, ent\u00e3o, pelo general Saw Maung, que, num primeiro momento, dada a for\u00e7a do movimento, acenou com reformas democr\u00e1ticas, convocando elei\u00e7\u00f5es gerais.<\/p>\n<p>No processo eleitoral realizado em 1990, a Liga Nacional para a Democracia (LDN), o partido de Suu Kyi (que estava em pris\u00e3o domiciliar desde 1989), fundado durante a rebeli\u00e3o, obteve cerca 81% dos votos, conquistando 392 dos 492 assentos no parlamento. E, a\u00ed, a nova Junta Militar tirou a m\u00e1scara, anulando as elei\u00e7\u00f5es, encarcerando milhares e impondo um regime totalit\u00e1rio que perdurou at\u00e9 2011.<\/p>\n<p>Durante essas duas d\u00e9cadas, Suu Kyi, apesar de permanecer a maioria do tempo em pris\u00e3o domiciliar, s\u00f3 ganhou mais popularidade, at\u00e9 mesmo por se recusar a deixar o pa\u00eds, condi\u00e7\u00e3o imposta pela ditadura em troca de sua liberdade, ganhando enorme proje\u00e7\u00e3o dentro e fora do pa\u00eds: em 1991, tornou-se a segunda mulher a receber um Pr\u00eamio Nobel da Paz; em 2003, sobreviveu a um massacre que provocou a morte de outros 70 dirigentes da LND e, ainda, teve sua vida transformada no filme \u201cThe Lady\u201d (\u201cA dama\u201d, que recebeu o t\u00edtulo \u201cAl\u00e9m da Liberdade\u201d, no Brasil), dirigido pelo cineasta franc\u00eas Luc Besson e lan\u00e7ado em 2010, \u00e0s v\u00e9speras de sua liberta\u00e7\u00e3o definitiva.<\/p>\n<p>A liberta\u00e7\u00e3o da l\u00edder do LND se deu em meio \u00e0 derradeira crise da ditadura, cuja impopularidade havia chegado ao \u00e1pice, impulsionada pelo acirramento das p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de vida, na esteira da crise econ\u00f4mica mundial iniciada em 2008. Algo que j\u00e1 havia ficado n\u00edtido nas fraudulentas elei\u00e7\u00f5es de 2010, nas quais o partido dos militares recebeu 80% num processo eleitoral boicotado pela LND e amplamente rejeitado pela popula\u00e7\u00e3o (com um \u00edndice de absten\u00e7\u00e3o de quase 80%).<\/p>\n<p>A Junta Militar foi formalmente dissolvida em mar\u00e7o de 2011, mas o poder continuou sendo exercido pelo partido dos militares, o SPDC, com a condu\u00e7\u00e3o de Thein Sein (um general que exercia o cargo de primeiro-ministro desde 2007 e foi reformado, em 2010, para poder se passar por \u201ccivil\u201d). Em 2012, quando foram convocadas elei\u00e7\u00f5es suplementares, Suu Kyi acabou sendo eleita para o Parlamento, come\u00e7ando a intervir diretamente nos rumos do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>A conviv\u00eancia pac\u00edfica e criminosa com os militares<\/strong><\/p>\n<p>Como mencionado no\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/myanmar-burma-a-classe-operaria-na-linha-de-frente-contra-o-golpe-militar\/\">artigo anterior<\/a>, em 2015, a Liga Nacional pela Democracia saiu vitoriosa nas primeiras elei\u00e7\u00f5es livres desde os anos 1960, com \u201cA Dama\u201d se tornando a principal lideran\u00e7a do pa\u00eds. O mesmo se repetiu em novembro de 2020, quando a vit\u00f3ria foi ainda mais significativa, com a LND elegendo 396 dos 476 parlamentares do pa\u00eds, que n\u00e3o chegaram a assumir seus mandatos, em fun\u00e7\u00e3o do golpe.<\/p>\n<p>Mas o fato \u00e9 que, independentemente de sua popularidade e de que sua liberta\u00e7\u00e3o, corretamente, seja uma das principais reivindica\u00e7\u00f5es no atual movimento, Aung San Suu Kyi n\u00e3o pode ser considerada uma aliada incondicional de seu pr\u00f3prio povo, muito menos uma alternativa para lider\u00e1-los \u00e0 liberdade e \u00e0 igualdade pelas quais os birmaneses t\u00eam lutado tanto.<\/p>\n<p>\u00c9 p\u00fablico e not\u00f3rio que, desde de seu retorno ao pa\u00eds, Suu Kyi optou por dois caminhos que a desqualificam para tal: negociar com os militares, garantindo-lhes impunidade diante de seus muitos crimes e a manuten\u00e7\u00e3o do poder econ\u00f4mico que sempre detiveram; e, ainda, depois de chegar ao poder, naufragar o pa\u00eds no neoliberalismo, mantendo (e at\u00e9 ampliando) os n\u00edveis de explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos militares, a submiss\u00e3o chega a ser vergonhosa e indecente. O governo da Liga Nacional pela Democracia sequer alterou a Constitui\u00e7\u00e3o de 2008, que concede aos militares o total controle sobre os principais minist\u00e9rios (dentre eles os de Defesa, Assuntos Internos e Assuntos de Fronteira), a reserva de 25% dos assentos no parlamento a soldados escolhidos pelo comandante-chefe, imunidade geral contra qualquer acusa\u00e7\u00e3o pelos crimes cometidos nas diversas guerras contra grupos \u00e9tnicos e ampla autoridade para declarar o estado de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cDireito\u201d que eles exerceram plenamente no dia 1\u00ba de fevereiro passado, quando o general Min Aung Hlaing, que ocupava, desde 2011, o posto de Comandante-Chefe do Ex\u00e9rcito (inclusive sob o governo da LND), tomou o poder de assalto.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se pode dizer que foi a \u201cfalta de tempo\u201d ou de ind\u00edcios das inten\u00e7\u00f5es golpistas de Min Aung que impediram as a\u00e7\u00f5es da LND. Foi uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Um dos piores resultados da coniv\u00eancia pac\u00edfica de Suu Kyi com os militares se manifesta na persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s minorias \u00e9tnicas. Uma situa\u00e7\u00e3o mantida, na pr\u00e1tica, intacta at\u00e9 mesmo porque a l\u00edder birmanesa, como\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2016\/05\/07\/world\/asia\/myanmar-rohingya-aung-san-suu-kyi.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">publicado no jornal \u201cThe New York Times\u201d, em 6\/05\/2016<\/a>, se recusa, at\u00e9 hoje, a reconhecer os \u201crohingya\u201d (o grupo mais perseguido, de tradi\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana) como um dos 135 grupos \u00e9tnicos do pa\u00eds, j\u00e1 tendo, inclusive, determinado a pris\u00e3o de jornalistas que denunciaram o problema.<\/p>\n<p>Segundo a ONG de direitos humanos \u201cHuman Rights Watch\u201d (HRW), em seu\u00a0<a href=\"https:\/\/www.hrw.org\/news\/2021\/01\/13\/myanmar-serious-rights-abuses-persist\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cRelat\u00f3rio Mundial 2021\u201d<\/a>\u00a0, em fun\u00e7\u00e3o disto, os 600 mil membros da etnia \u201crohingya\u201d, isolados no estado de Rakhine, continuam os mais atingidos por aquilo que o HRW chama de situa\u00e7\u00e3o de\u00a0\u201capartheid\u201d,\u00a0\u201cgenoc\u00eddio\u201d\u00a0e de\u00a0\u201ccrime contra a humanidade\u201d, por estarem\u00a0\u201csujeitos a persegui\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia governamental, confinados a campos e aldeias sem liberdade de movimento, e privados de acesso a alimenta\u00e7\u00e3o adequada, cuidados de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, e meios de subsist\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Contudo, a persegui\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limitou \u00e0s minorias \u00e9tnicas. Para Suu Kyi e seu partido, \u201cdemocracia\u201d \u00e9 um conceito bastante estreito e male\u00e1vel. Desde que chegaram efetivamente ao poder, em 2016,\u00a0\u201cas autoridades utilizaram leis demasiado amplas e vagamente redigidas para prender e processar dezenas de defensores dos direitos humanos, ativistas, jornalistas e outras pessoas por criticaram o governo e os militares ou por protestarem pacificamente\u201d,\u00a0conclui Relat\u00f3rio Mundial 2021.<\/p>\n<p>Exemplos disto ficaram evidentes no processo eleitoral de 2020, quando a LND\u00a0\u201cperseguiu seus cr\u00edticos, censurou mensagens dos partidos da oposi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o proporcionou igualdade de acesso aos meios de comunica\u00e7\u00e3o estatais\u201d, cancelando, ainda, a vota\u00e7\u00e3o em 57 cidades com popula\u00e7\u00f5es formadas por minorias \u00e9tnicas. Algo que s\u00f3 pode levar a uma conclus\u00e3o: \u201cAung San Suu Kyi e a Liga Nacional para a Democracia no poder viraram as costas \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es com os direitos humanos desde que tomaram o poder, traindo promessas ao povo de Myanmar de revogar leis repressivas e romper com pr\u00e1ticas abusivas do passado\u201d,\u00a0como disse Phil Robertson, diretor adjunto da Human Rights Watch para a \u00c1sia.<\/p>\n<p>A persegui\u00e7\u00e3o e a censura que correm soltas no pa\u00eds se manifestaram, inclusive, na eclos\u00e3o da pandemia. Como noticiamos\u00a0<a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/a-arte-das-ruas-na-luta-contra-a-pandemia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em abril de 2020<\/a>, um grupo de artistas, exatamente da regi\u00e3o Rachine, de maioria mu\u00e7ulmana, foi detido, acusado de blasf\u00eamia, por ter feito um grafite (posteriormente encoberto) que mostrava trabalhadores da sa\u00fade tentando salvar o mundo do v\u00edrus, representado como um enviado do Senhor da Morte.<\/p>\n<p><strong>A \u201creconcilia\u00e7\u00e3o\u201d com os militares: porteiras abertas para o golpe<\/strong><\/p>\n<p>Uma boa s\u00edntese do que ocorreu no dia 1\u00ba de fevereiro foi dada por Carlos Sardi\u00f1a Galache, autor de\u00a0\u201c<a href=\"https:\/\/www.jacobinmag.com\/2021\/02\/burma-myanmar-military-coup-aung-san-suu-kyi\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Labirinto birman\u00eas: uma hist\u00f3ria da trag\u00e9dia dos rohingya<\/a>\u201d, em um artigo publicado, 05\/02\/2021, pelo portal \u201cJacobin\u201d:\u00a0\u201cO golpe militar contra Aung Saung Suu Kyi marca o fim da experi\u00eancia de dez anos de Burma com a democracia. Seu governo falou de reconcilia\u00e7\u00e3o nacional, enquanto negava as atrocidades dos militares e nada fazia para parar sua guerra contra as minorias \u00e9tnicas \u2013 uma recusa expl\u00edcita em \u201ctomar partido\u201d, que assegurava que as for\u00e7as armadas continuariam a dominar a pol\u00edtica do pa\u00eds.\u201d\u00a0.<\/p>\n<p>Ainda segundo Galache,\u00a0\u201cnos primeiros cinco anos da transi\u00e7\u00e3o, quando o ex-general Thein Sein foi o presidente (\u2026), Aung San Suu Kyi contribuiu para dar legitimidade a esse sistema, tanto internamente como internacionalmente. Quando ela e alguns membros de seu partido se tornaram deputados em 2012, pouco fizeram para desafiar o governo. Sua estrat\u00e9gia na \u00e9poca consistia principalmente em ganhar a confian\u00e7a dos militares em nome da \u2018reconcilia\u00e7\u00e3o nacional\u2019 e desencorajar qualquer tipo de movimento de massa que pudesse comprometer sua aproxima\u00e7\u00e3o com os generais.\u201d<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, para al\u00e9m de dar continuidade \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o \u00e9tnica e outras tantas pr\u00e1ticas criminosas dos militares, Suu Kyi formou um governo composto basicamente pela elite econ\u00f4mica e pol\u00edtica, descendentes dos velhos her\u00f3is da luta anti-imperialista e a c\u00fapula militar que havia usurpado o poder no meio s\u00e9culo anterior. Uma receita para o desastre.<\/p>\n<p>Uma cat\u00e1strofe n\u00e3o s\u00f3 pol\u00edtico e cultural, mas tamb\u00e9m em termos sociais e econ\u00f4micos, principalmente quando mesclada com as exig\u00eancias do capitalismo neoliberal, sedento por m\u00e3o-de-obra barata diante da crise em que o sistema mergulhou p\u00f3s 2008, e apoiada em outro sistema mantido intacto por Suu Kyi, o chamado \u201ccrony capitalism\u201d (\u201ccapitalismo de camaradagem ou de compadres\u201d), termo utilizado pela popula\u00e7\u00e3o para designar uma economia na qual o sucesso nos neg\u00f3cios depende do estreito relacionamento entre empres\u00e1rios e funcion\u00e1rios do governo (os militares, fundamentalmente), que, desde sempre, negociam favores na distribui\u00e7\u00e3o de licen\u00e7as legais, subs\u00eddios governamentais, incentivos fiscais especiais ou outras formas de corrup\u00e7\u00e3o estatal.<\/p>\n<p><strong>\u201cCapitalismo de compadres\u201d e mergulho no neoliberalismo<\/strong><\/p>\n<p>Myanmar teria tudo para oferecer condi\u00e7\u00f5es decentes de vida para sua popula\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds \u00e9 riqu\u00edssimo em recursos naturais, como g\u00e1s, petr\u00f3leo e outras mat\u00e9rias-primas, al\u00e9m da extra\u00e7\u00e3o de pedras preciosas como safiras, p\u00e9rolas, jade e rubis (90% da produ\u00e7\u00e3o mundial) e um das maiores produ\u00e7\u00e3o de arroz do mundo.<\/p>\n<p>Contudo, um estudo de publicado, em setembro de 2020, pelo Instituto Internacional de Pesquisa de Pol\u00edticas Alimentares (IFPRI, na sigla original), demonstrou que 59% dos 1000 domic\u00edlios pesquisados na \u00e1rea urbana de Yangon (a principal cidade) e 66% dos 1000 domic\u00edlios rurais pesquisados na chamada Zona Seca ganhavam menos de US$1,90 por dia (par\u00e2metro internacional para o n\u00edvel de \u201cpobreza extrema\u201d). Estes \u00edndices haviam apresentado uma consider\u00e1vel alta no decorrer da pandemia.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o \u00e9 no Covid-19 que eles tiveram ra\u00edzes. O problema \u00e9 que, ao inv\u00e9s de suprir as necessidades de seu povo, toda esta riqueza esteve sempre a servi\u00e7o, no passado, dos colonizadores e, atualmente, da elite dominante do pr\u00f3prio pa\u00eds, com destaque para os militares e seus \u201ccompadres\u201d, principalmente atrav\u00e9s de organiza\u00e7\u00f5es como a Corpora\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica de Mianmar (CEM) e a Empresa P\u00fablica de Holdings Econ\u00f4micas de Mianmar Ltda., que det\u00eam ou monopolizam neg\u00f3cios em \u00e1reas como em setores como o sistema banc\u00e1rio, a minera\u00e7\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o de tabaco e o turismo.<\/p>\n<p>Uma situa\u00e7\u00e3o que, ainda segundo o artigo publicado no \u201cJacobin\u201d, foi mantida exatamente a mesma no per\u00edodo democr\u00e1tico, j\u00e1 que Suu Kyi se negou, inclusive, a tocar nos\u00a0\u201cinfames \u2018compadres\u2019, que haviam feito fortuna pilhando os recursos naturais do pa\u00eds atrav\u00e9s de seus contatos com a Junta\u201d, apenas pedindo-lhes que come\u00e7assem a\u00a0\u201ctrabalhar para os outros no futuro\u201d, como declarou em outubro de 2016.<\/p>\n<p>Na verdade, a hist\u00f3ria s\u00f3 piorou j\u00e1 que, ainda segundo o \u201cJacobin\u201d, o governo da LND tamb\u00e9m\u00a0\u201caderiu aos programas neoliberais que os generais haviam tentado implementar, sem sucesso, nos anos 90, quando as san\u00e7\u00f5es internacionais, a corrup\u00e7\u00e3o e o compadrio esmagaram a economia, e s\u00f3 come\u00e7aram a decolar durante a transi\u00e7\u00e3o, sem fazer nada para combater as enormes desigualdades prevalecentes no pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, o maior s\u00edmbolo do avan\u00e7o da gan\u00e2ncia neoliberal sobre o pa\u00eds \u00e9, hoje, tamb\u00e9m, a vanguarda das lutas contra a ditadura: o setor de produ\u00e7\u00e3o de vestu\u00e1rio. Sendo que muitas das f\u00e1bricas foram abertas exatamente nos \u00faltimos 10 anos, quando Burma se integrou, definitivamente, \u00e0 \u201cnova ordem\u201d da divis\u00e3o mundial do trabalho neoliberal.<\/p>\n<p>Segundo o site \u201c<a href=\"https:\/\/www.fibre2fashion.com\/news\/apparel-news\/myanmar-exported-garments-worth-4-28-bn-in-oct-1-aug-31-270852-newsdetails.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fibre2Fashion<\/a>\u201d, especializado na ind\u00fastria t\u00eaxtil mundial, apenas num dos setores da ind\u00fastria chamado \u201ccut-make-pack\u201d (cortar os tecidos de acordo com os padr\u00f5es da empresa multinacional, costur\u00e1-los e empacot\u00e1-los para exporta\u00e7\u00e3o), os neg\u00f3cios que envolviam US$ 850 milh\u00f5es no ano fiscal de 2015-16 (o primeiro com a LND no governo), saltaram para US$ 4,28 bilh\u00f5es, em 2019-20. No total, o setor acumulou, em 2019, ganhos de cerca de US$ 6 bilh\u00f5es, correspondendo a 30% das exporta\u00e7\u00f5es (contra 7%, em 2011, como j\u00e1 mencionado).<\/p>\n<p>Tudo isto, evidentemente, \u00e0 custa da explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra barata, exaustivas jornadas de trabalho, corte de direitos trabalhistas e persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s entidades da classe. Raz\u00f5es que estiveram por tr\u00e1s da onda de greves que explodiu em novembro de 2019, principalmente nas grandes ind\u00fastrias estrangeiras, e que foi retomada no in\u00edcio de 2020, quando as empresas come\u00e7aram a demitir, como parte de suas pol\u00edticas para \u201cconten\u00e7\u00e3o de danos\u201d com a pandemia.<\/p>\n<p><strong>Derrubar a ditadura e construir o poder oper\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Interrompido tanto pela pandemia quanto pelas expectativas nas elei\u00e7\u00f5es de novembro passado, este processo, de certa forma, explodiu com nova for\u00e7a quando os militares tomaram o poder de assalto.<\/p>\n<p>Falando ao portal do<a href=\"https:\/\/www.clb.org.hk\/content\/myanmar-workers-and-trade-unions-forefront-resistance)\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a0\u201cChina Labour Bulletin\u201d<\/a> (uma ONG sediada em Hong Kong, que apoia o movimento de trabalhadores na China), Khaing Zar Aung, presidente da Federa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores Industriais de Mianmar (IWFM, na sigla em ingl\u00eas) e membro do comit\u00ea executivo central da Confedera\u00e7\u00e3o dos Sindicatos de Mianmar (CTUM), destacou a import\u00e2ncia da tarefa imediata, que \u00e9 a derruba da ditadura:\u00a0\u201cOs trabalhadores sabem que ser\u00e3o a camada mais reprimida da sociedade sob a Junta Militar. Mesmo que o mecanismo de den\u00fancia de viola\u00e7\u00f5es dos direitos dos trabalhadores n\u00e3o funcione muito bem, pelo menos os trabalhadores s\u00e3o menos perseguidos sob o regime civil. \u00c9 por isso que eles est\u00e3o arriscando tudo para derrubar o ditador\u201d.<\/p>\n<p>Mas, \u00e9 exatamente esta consci\u00eancia de que, nem sob o chamado regime democr\u00e1tico, seus direitos foram assegurados, bem como as experi\u00eancias acumuladas nos \u00faltimos anos, que pode lev\u00e1-los a tomar um passo adiante, como foi destacado num artigo publicado no\u00a0<a href=\"https:\/\/labornotes.org\/2021\/03\/if-military-leaders-win-there-will-be-no-unions-myanmar-garment-workers-strikes-against-coup\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cLabor Notes\u201d, publicado no dia 11 de mar\u00e7o<\/a>:\u00a0\u201cAgora, os trabalhadores est\u00e3o aplicando o know-how adquirido em anos de organiza\u00e7\u00e3o trabalhista na luta contra o retorno ao dom\u00ednio militar. A organiza\u00e7\u00e3o nos locais de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o, e a paralisa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, pode ser a \u00fanica esperan\u00e7a de for\u00e7ar os militares \u00e0 mesa de negocia\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Esse processo de auto-organiza\u00e7\u00e3o nos locais de trabalho, inclusive, pode ser um dos saldos mais importantes destas lutas. N\u00e3o h\u00e1 como avaliar, no momento, sua dimens\u00e3o e intensidade, mas, at\u00e9 mesmo pela quase total paralisa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, \u00e9 evidente que os trabalhadores e o povo est\u00e3o criando seus pr\u00f3prios mecanismos n\u00e3o s\u00f3 para garantir a continuidade da luta, a defesa contra a repress\u00e3o; mas, tamb\u00e9m, como lidar com problemas criados pela perda de moradia, falta de transporte e aus\u00eancia de servi\u00e7os b\u00e1sicos, como hospitais, escolas, mercados etc.<\/p>\n<p>E esperamos que isso avance ainda mais. Pelo menos, passado mais de um m\u00eas do golpe, esta parece ser a disposi\u00e7\u00e3o do movimento. No mesmo artigo, foram entrevistadas tr\u00eas das mulheres que est\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o desta luta (e, hoje, consequentemente, na clandestinidade): Ma Moe Sandar Myint (mencionada no artigo anterior e dirigente da Federa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores do Vestu\u00e1rio de Mianmar), Ma Ei Ei Phyu e Ma Tin Tin Wai (ambas da Federa\u00e7\u00e3o Geral dos Trabalhadores de Mianmar), cuja disposi\u00e7\u00e3o de luta pode ser sintetizada numa declara\u00e7\u00e3o de Ma Ei Ei Phyu:\u00a0\u201cN\u00e3o podemos aceitar a ditadura de forma alguma. Mesmo se formos demitidos da f\u00e1brica por causa de greves e protestos, lutaremos at\u00e9 o fim.\u201d<\/p>\n<p>Contudo, considerando o que foi exposto nestes artigos, est\u00e1 evidente que o \u201cat\u00e9 o fim\u201d n\u00e3o pode se limitar ao retorno da LND e Aung San Suu Kyi ao poder. \u00c9 preciso ir al\u00e9m. E, por isso mesmo, n\u00e3o h\u00e1 como discordar da conclus\u00e3o de Carlos Sardi\u00f1a Galache, no artigo mencionado anteriormente:\u00a0\u201cH\u00e1 poucos motivos para expressar simpatia por ela\u00a0[Suu Kyi]. Nossa solidariedade deve estar com os milh\u00f5es de birmaneses comuns que sofreram sob o regime militar \u2013 e, provavelmente, continuar\u00e3o sofrendo no futuro pr\u00f3ximo.\u201d<\/p>\n<p>Um c\u00edrculo vicioso que, como j\u00e1 afirmamos, s\u00f3 ser\u00e1 rompido se, no processo de rebeldia e luta contra o golpe militar, os trabalhadores e trabalhadoras, em alian\u00e7a com os setores \u00e9tnicos, a popula\u00e7\u00e3o camponesa e a juventude, fortale\u00e7am suas entidades e organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e n\u00e3o s\u00f3 derrubem os militares (passo fundamental, no momento), mas tamb\u00e9m expropriem e passem a controlar suas empresas, avan\u00e7ando na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista, que garanta a liberdade, a igualdade, os direitos e a justi\u00e7a para as 136 etnias que vivem em Burma, atrav\u00e9s da conquista do poder econ\u00f4mico e do exerc\u00edcio do poder pol\u00edtico por aqueles e aquelas que constroem as riquezas do pa\u00eds. Algo que os trabalhadores est\u00e3o discutindo no calor do processo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para finalizarmos esta s\u00e9rie de artigos sobre o golpe militar e a luta da classe trabalhadora e do povo do pa\u00eds do Sudeste Asi\u00e1tico, queremos discutir os enormes desafios que eles t\u00eam pela frente, bem como suas alternativas.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":63484,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[2109],"tags":[3804,3790,3802,735],"class_list":["post-63482","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-myanmar","tag-aung-san-suu-kyi","tag-golpe-myanmar","tag-mulheres-myanmar","tag-wilson-honorio-da-silva"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Myanmar-1.jpg","categories_names":["Myanmar"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63482","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63482"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63482\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63484"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63482"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63482"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63482"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}