{"id":63425,"date":"2021-03-27T14:02:24","date_gmt":"2021-03-27T17:02:24","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63425"},"modified":"2021-03-27T14:02:24","modified_gmt":"2021-03-27T17:02:24","slug":"o-anti-imperialismo-de-maduro-avanca-para-a-dolarizacao-da-economia-venezuelana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/03\/27\/o-anti-imperialismo-de-maduro-avanca-para-a-dolarizacao-da-economia-venezuelana\/","title":{"rendered":"O \u201canti-imperialismo\u201d de Maduro avan\u00e7a para a dolariza\u00e7\u00e3o da economia venezuelana"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 v\u00e1rios anos, aproximadamente desde 2017, quando a Venezuela entrou plenamente em um processo hiperinflacion\u00e1rio, abriu-se um debate sobre a pertin\u00eancia ou n\u00e3o de dolarizar a economia, como mecanismo de solu\u00e7\u00e3o para a hiperinfla\u00e7\u00e3o e a brutal crise econ\u00f4mica que atinge o pa\u00eds.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por: Leonardo Arantes da Unidade Socialista dos Trabalhadores (UST)<\/strong><\/p>\n<p>Economistas burgueses e dirigentes pol\u00edticos da oposi\u00e7\u00e3o patronal, incluindo ex-candidatos presidenciais propuseram dolarizar a economia nacional. Por seu lado os porta-vozes e dirigentes do governo burgu\u00eas e ditatorial de Nicol\u00e1s Maduro, vieram e rejeitaram a proposta, negando-a como possibilidade.<\/p>\n<p>Entretanto, depois de anos de controles cambiais, que foram fonte de corrup\u00e7\u00e3o e que geraram a maior fuga de capitais na hist\u00f3ria do pa\u00eds<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>; san\u00e7\u00f5es para as transa\u00e7\u00f5es de $ no mercado paralelo<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> (embora os burgueses e boliburgueses tinham permiss\u00e3o e estavam todos no neg\u00f3cio do diferencial cambi\u00e1rio e fuga de capitais) e ret\u00f3rica proibindo o uso do d\u00f3lar, qualificando-o como uma moeda \u201ccriminosa\u201d que o \u201cimp\u00e9rio\u201d estadunidense utilizava em sua \u201cguerra econ\u00f4mica\u201d contra a Venezuela, o governo de Maduro foi mudando sua postura a respeito da dolariza\u00e7\u00e3o. Um exemplo disto s\u00e3o as declara\u00e7\u00f5es de Maduro em 17\/11\/2019, afirmando que, o crescente papel que a divisa norte-americana desempenha na economia da Venezuela seria como uma &#8220;v\u00e1lvula de escape&#8221; frente \u00e0 crise, contrastando esta afirma\u00e7\u00e3o com toda a linha discursiva oficialista anterior.<\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o vejo mal (\u2026) nesse processo que chamam de dolariza\u00e7\u00e3o; pode servir para a recupera\u00e7\u00e3o e implanta\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas do pa\u00eds e o funcionamento da economia (\u2026) gra\u00e7as a Deus existe\u201d<\/em> (Televen, Programa Jos\u00e9 Vicente Hoy 17\/11\/2019)<\/p>\n<p>Assim, a hiperinfla\u00e7\u00e3o que desvaloriza permanente e constantemente o Bol\u00edvar (s\u00edmbolo monet\u00e1rio nacional), tem imposto a divisa norteamericana como a moeda que, pela via dos fatos, rege a economia real e cotidiana dos venezuelanos.<\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio da consultora Ecoanal\u00edtica estimou que as transa\u00e7\u00f5es em d\u00f3lares de novembro de 2019 representavam mais de 53% do total enquanto que, em cidades como Maracaibo, uma das mais importantes do pa\u00eds, chegariam, no mesmo per\u00edodo, a 86%. Atualmente, as estimativas variam desde os que afirmam que estariam situados em 55% e os que asseguram que alcan\u00e7am 70%.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que a presen\u00e7a e influ\u00eancia da divisa norteamericana na economia venezuelana \u00e9 cada vez mais crescente e decisiva, o que n\u00e3o significa que a maioria da popula\u00e7\u00e3o tenha acesso a mesma. O estudo j\u00e1 mencionado da Ecoanal\u00edtica, afirma que s\u00f3 35% ou 40% da popula\u00e7\u00e3o tem acesso ao d\u00f3lar.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o os efeitos imediatos desta situa\u00e7\u00e3o, quais medidas a ditadura madurista vem adotando em torno da dolariza\u00e7\u00e3o, em que consiste a mesma e quais s\u00e3o as consequ\u00eancias da dolariza\u00e7\u00e3o para a economia venezuelana e principalmente para a classe trabalhadora, s\u00e3o quest\u00f5es que queremos discutir neste texto.<\/p>\n<p><strong>O uso cada vez mais ampliado do d\u00f3lar na Venezuela e o aumento da desigualdade<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel o protagonismo cada vez maior da divisa estadunidense na economia venezuelana, aliado ao fato de que s\u00f3 uma porcentagem minorit\u00e1ria da popula\u00e7\u00e3o tem acesso \u00e0 mesma, geralmente via remessas, poupan\u00e7as externas, exporta\u00e7\u00f5es, contrabando, ouro e opera\u00e7\u00f5es ilegais; faz com que a vida se torne extremamente dif\u00edcil para os que continuam a se movimentar em bol\u00edvares em uma economia informalmente dolarizada. Principalmente para funcion\u00e1rios p\u00fablicos mal remunerados e trabalhadores do setor informal com poder aquisitivo muito baixo; alguns trabalhadores do setor privado formal, recebem b\u00f4nus extra em $ (pagos em bol\u00edvares, mas ao c\u00e2mbio do $), pela necessidade dos empregadores privados de preservar uma parte indispens\u00e1vel da for\u00e7a de trabalho, que do contrario optaria pela emigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De tal forma que, no pa\u00eds se consolida uma dualidade econ\u00f4mica, expressa na divis\u00e3o de um segmento minorit\u00e1rio e dolarizado (os que t\u00eam acesso a d\u00f3lares pelas vias antes mencionadas) e outro segmento majorit\u00e1rio primitivo, empobrecido e dependente de subs\u00eddios. Situa\u00e7\u00e3o similar \u00e0 vivida em Cuba com a introdu\u00e7\u00e3o do Peso Cubano Convers\u00edvel, de valor igual ao do d\u00f3lar, cujo uso se generalizou entre os turistas que visitam a ilha e beneficiou os cubanos que trabalham no setor tur\u00edstico, que costumam ter uma posi\u00e7\u00e3o mais confort\u00e1vel que a de seus compatriotas que recebem sua renda em peso cubano tradicional. Em resumo, na Venezuela est\u00e1 ocorrendo um aumento das desigualdades e uma segrega\u00e7\u00e3o de fato entre a popula\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da moeda da qual disp\u00f5em.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um elemento adicional, surgido como consequ\u00eancia disto \u00e9 a economia de Bodeg\u00f3n<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, com seu componente de discrimina\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica que atua como fator diferencial, assim enquanto os \u201cbodegones\u201d iluminam as principais ruas e zonas urbanas de Caracas, as principais capitais e algumas cidades importantes do pa\u00eds, nas prov\u00edncias se padece de escassez, os cortes de eletricidade, \u00e1gua, internet, ou seja a deteriora\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os em geral e o completo abandono.<\/p>\n<p><strong>Os recentes avan\u00e7os em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 dolariza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Depois de anos de ret\u00f3rica e hip\u00f3crito banimento, o governo burgu\u00eas e ditatorial de Maduro, atualmente tolera, libera e inclusive estimula a dolariza\u00e7\u00e3o. Recentemente vem realizando v\u00e1rios an\u00fancios que, embora no momento n\u00e3o constituam uma dolariza\u00e7\u00e3o formal da economia, avan\u00e7am nesse sentido ou ao menos aumentam o uso da divisa gringa nas transa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas do pa\u00eds, formalizando-a e regularizando-a parcialmente.<\/p>\n<p>As raz\u00f5es deste giro na postura oficialista est\u00e3o no agravamento da brutal crise econ\u00f4mica, na completa destrui\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o petroleira assim na queda das exporta\u00e7\u00f5es deste ramo, na fuga de capitais, em tudo o que foi gasto em pagamentos de d\u00edvida externa<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> ; tudo isto agravado pelas san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. Neste contexto, o governo de Maduro, como bom governo burgu\u00eas, responde com a aplica\u00e7\u00e3o de um brutal plano de ajuste sob medida para empres\u00e1rios, banqueiros e investidores locais e estrangeiros.<\/p>\n<p>\u00c0 flexibiliza\u00e7\u00e3o e praticamente elimina\u00e7\u00e3o dos controles de c\u00e2mbio e pre\u00e7os (a falta de recursos o impede fixar artificialmente o valor das divisas e tira sua capacidade para importar mat\u00e9rias primas e manter pre\u00e7os regulados), acompanhou o pacote de 2018<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, que entre outras coisas, incluiu sucessivas desvaloriza\u00e7\u00f5es que levaram o d\u00f3lar oficial a pre\u00e7os semelhantes ao d\u00f3lar paralelo (outrora d\u00f3lar \u201ccriminoso\u201d, agente da \u201cguerra econ\u00f4mica\u201d, no discurso oficialista e pr\u00f3-governamental), destruindo ainda mais os sal\u00e1rios. No in\u00edcio de maio de 2019, uma resolu\u00e7\u00e3o do BCV autorizou os bancos privados a abrirem mesas de c\u00e2mbio para facilitar as transa\u00e7\u00f5es de divisas estrangeiras entre particulares.<\/p>\n<p>Depois a fixa\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os em divisa norteamericana foi sendo permitida no com\u00e9rcio, assim como a utiliza\u00e7\u00e3o extensiva da mesma e se decretou a venda de gasolina em $ (alguns outros servi\u00e7os como o g\u00e1s dom\u00e9stico tamb\u00e9m s\u00e3o pagos em $). Posteriormente, o governo atrav\u00e9s da fraudulenta e extinta Assembleia Nacional Constituinte (ANC) aprovou a chamada \u201cLei Antibloqueio\u201d, para avan\u00e7ar na privatiza\u00e7\u00e3o das empresas estatais e na entrega \u00e0s transnacionais dos recursos minerais e hidrocarbonetos e para as quais a dolariza\u00e7\u00e3o significa um atrativo<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>J\u00e1 no in\u00edcio do presente ano, o governo continuou pisando no acelerador para a dolariza\u00e7\u00e3o, de fato, da economia.<\/p>\n<p>Em primeiro de janeiro de 2021, a cadeia de televis\u00e3o Telesur, realizou uma entrevista com Maduro, onde declarava: <em>\u201cEst\u00e3o sendo autorizadas as contas de poupan\u00e7a, contas correntes em divisas e as pessoas poder\u00e3o pagar ao pre\u00e7o da moeda em bol\u00edvares\u201d.<\/em> Depois em sua visita \u00e0 Assembleia Nacional, rec\u00e9m eleita nas questionadas elei\u00e7\u00f5es de dezembro 2020 e controlada agora pelo chavismo, para a apresenta\u00e7\u00e3o de sua Mem\u00f3ria e Conta, o relat\u00f3rio anual de gest\u00e3o, oficializou este an\u00fancio, que veio acompanhado pela inten\u00e7\u00e3o de <em>\u201cavan\u00e7ar 100% para um sistema de pagamento digital no pa\u00eds\u201d<\/em><a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><em><strong>[7]<\/strong><\/em><\/a>. O qual junto com a abertura de contas em $, continuar\u00e1 aumentando a crescente influencia desta moeda na maltratada economia nacional. Nessa oportunidade tamb\u00e9m mencionou estar em estudo um mecanismo para implementar a tributa\u00e7\u00e3o e a cobran\u00e7a de impostos em $.<\/p>\n<p>Alguns bancos privados e p\u00fablicos j\u00e1 come\u00e7aram a abrir contas em $, para ajustar as chamadas \u201ccontas custodia\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> \u00e0s contas correntes e alguns come\u00e7aram a oferecer a compra\u2013venda de divisas norteamericanas aos seus clientes. Segundo a ag\u00eancia Reuters alguns estariam emitindo tamb\u00e9m cart\u00f5es de d\u00e9bitos para as contas em d\u00f3lares.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que com o plano de ajuste e os avan\u00e7os na liberaliza\u00e7\u00e3o (ainda n\u00e3o totalmente formalizada) do uso do d\u00f3lar, o desprestigiado governo de Maduro, busca continuar aprofundando a entrega do pa\u00eds e se comportar bem com o capital nacional e estrangeiro, banqueiros e transnacionais.<\/p>\n<p>Para usar as mesmas palavras do mandat\u00e1rio venezuelano, a dolariza\u00e7\u00e3o \u00e9 <em>\u201cuma v\u00e1lvula de escape\u201d<\/em> para os investidores que compram d\u00f3lares e se beneficiam com o uso de uma moeda forte e n\u00e3o os desvalorizados bol\u00edvares, mas de modo algum isto garante prosperidade e bem estar para a classe trabalhadora e o povo humilde em geral.<\/p>\n<p><strong>As consequ\u00eancias da dolariza\u00e7\u00e3o para a classe trabalhadora<\/strong><\/p>\n<p>A dolariza\u00e7\u00e3o consistindo fundamentalmente a ado\u00e7\u00e3o por um pa\u00eds, neste caso a Venezuela, do valor monet\u00e1rio (d\u00f3lar) emitido pelo governo dos EUA, em algumas experi\u00eancias indicam que tal medida se mostrou eficaz para frear a hiperinfla\u00e7\u00e3o e que o pa\u00eds que adota a moeda estrangeira em certo tempo termina por exibir \u00edndices inflacion\u00e1rios semelhantes aos do pa\u00eds emissor da moeda.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 objetivo deste artigo relatar tais experi\u00eancias hist\u00f3ricas ou entrar em detalhes sobre o contexto econ\u00f4mico no qual isto seria poss\u00edvel, o que sim \u00e9 pertinente destacar \u00e9 que esta poss\u00edvel experi\u00eancia hist\u00f3rica positiva, vem acompanhada de altos custos e pesadas consequ\u00eancias para a economia do pa\u00eds em geral e para a classe trabalhadora, que n\u00e3o demoram em aparecer.<\/p>\n<p>Um primeiro efeito, \u00e9 que ao se adotar a dolariza\u00e7\u00e3o, o pa\u00eds perde qualquer poder sobre sua pol\u00edtica monet\u00e1ria e cambial, o que o impede dadas as circunstancias, de financiar o d\u00e9ficit fiscal e os gastos p\u00fablicos via desvaloriza\u00e7\u00e3o de sua moeda, que \u00e9 o mecanismo que o governo venezuelano vem aplicando repetidamente diante da quebra da produ\u00e7\u00e3o e da consequente escassez de recursos.<\/p>\n<p>Desta maneira, o governo venezuelano, qualquer que seja, ficaria impedido de ajustar os desequil\u00edbrios fiscais e\/ou as consequ\u00eancias das recorrentes crises c\u00edclicas da economia capitalista mundial, como poderia ser um cen\u00e1rio de descenso das rendas nacionais produto da queda dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, ou como no caso venezuelano, uma combina\u00e7\u00e3o da queda da produ\u00e7\u00e3o petroleira, descenso dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo bruto e queda das exporta\u00e7\u00f5es petroleiras. Assim, para evitar este cen\u00e1rio o pa\u00eds fica amarrado \u00e0 via do endividamento externo, aumentando a depend\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es financeiras e com o consequente \u00f4nus dos ajustes macroecon\u00f4micos que acabam descarregados sobre os ombros dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Outro elemento que afeta diretamente os trabalhadores venezuelanos, \u00e9 o fato que, ao ocorrer a dolariza\u00e7\u00e3o, os pre\u00e7os dos servi\u00e7os b\u00e1sicos tenderiam a equiparar-se aos pre\u00e7os internacionais (quest\u00e3o que em alguns casos j\u00e1 vem ocorrendo de fato), assim, os pre\u00e7os, por exemplo, da gasolina, do g\u00e1s, da eletricidade, das telecomunica\u00e7\u00f5es, outros servi\u00e7os b\u00e1sicos e muitos servi\u00e7os profissionais como a medicina privada, necessariamente se aumentariam at\u00e9 n\u00edveis de pre\u00e7os internacionais, o que junto com os baixos sal\u00e1rios, agravaria as pen\u00farias dos trabalhadores e habitantes dos setores populares e humildes da Venezuela.<\/p>\n<p>Tudo isto se reveste de uma especial gravidade em um pa\u00eds como o nosso, com as reservas internacionais em quebra, as receitas por exporta\u00e7\u00f5es (principal e quase que exclusivamente petroleiras) a n\u00edveis baix\u00edssimos e com a produ\u00e7\u00e3o petroleira em suas cotas mais baixas desde 1947. Neste contexto, caberia perguntar, de onde sair\u00e3o os recursos em divisa norteamericana para, adotada a dolariza\u00e7\u00e3o, pagar sal\u00e1rios, aposentadorias, ajustar contas fiscais e garantir as hoje t\u00e3o necess\u00e1rias importa\u00e7\u00f5es de bens e servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o \u00e0 qual um governo burgu\u00eas como o da Venezuela responderia facilmente, com endividamento (caso tiver acesso ao mesmo), com as consequ\u00eancias de aumento de depend\u00eancia e encargos macroecon\u00f4micos mencionados anteriormente.<\/p>\n<p><strong>A dolariza\u00e7\u00e3o aprofunda a entrega ao imperialismo<\/strong><\/p>\n<p>A moeda nacional \u00e9 um dos elementos que constituem a defini\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00e3o. Abdicar do uso da mesma, de sua emiss\u00e3o e de uma pol\u00edtica monet\u00e1ria independente, aprofunda a depend\u00eancia do pa\u00eds a respeito do imperialismo, neste caso o norteamericano, porque o Estado venezuelano renuncia a qualquer forma\u00a0 de controle sobre sua pol\u00edtica monet\u00e1ria, acatando o que o ente emissor do d\u00f3lar estadunidense decidir, ou seja, a Junta da Reserva Federal. Esta renuncia \u00e0 administra\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria da na\u00e7\u00e3o, implica na possibilidade de resolver de maneira aut\u00f4noma pol\u00edticas de cr\u00e9dito e fixa\u00e7\u00e3o de taxas de juros, assim como supervisionar o sistema de pagamentos e a estabilidade do sistema financeiro nacional, al\u00e9m de renunciar \u00e0 emiss\u00e3o aut\u00f4noma da d\u00edvida p\u00fablica, fun\u00e7\u00f5es que ficariam total ou parcialmente sujeitas \u00e0s decis\u00f5es das autoridades do pa\u00eds norteamericano. Todos estes fatores de tipo econ\u00f4mico monet\u00e1rio v\u00eam acompanhados do elemento da submiss\u00e3o pol\u00edtica, incorporando um elemento de rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o colonial ao imperialismo norteamericano.<\/p>\n<p><strong>Equador, controle da infla\u00e7\u00e3o, persist\u00eancia da crise<\/strong><\/p>\n<p>A ado\u00e7\u00e3o formal pelo governo equatoriano do d\u00f3lar como meio de pagamento e unidade monet\u00e1ria para o mercado interno, conseguiu em geral, resultados efetivos na redu\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o. Com efeito, em 1999, \u00faltimo ano de circula\u00e7\u00e3o do sucre, a taxa de infla\u00e7\u00e3o superou 53%, caindo em 2001 para cerca de 20%, apesar das dificuldades imediatas que o processo de dolariza\u00e7\u00e3o gerou, e desde 2002 jamais voltou a superar 7%.<\/p>\n<p>As raz\u00f5es para este resultado s\u00e3o muito simples: como n\u00e3o h\u00e1 mais emiss\u00e3o de moeda al\u00e9m da autorizada e realizada pela reserva federal norteamericana, a massa monet\u00e1ria em circula\u00e7\u00e3o no pa\u00eds foi reduzida a partir de fora, e seu tamanho fixado e determinado sem possibilidade de varia\u00e7\u00e3o. Com a massa monet\u00e1ria restrita, os pre\u00e7os tenderam a se ajustar a esta; como a soma dos pre\u00e7os de todos os bens e servi\u00e7os oferecidos no pa\u00eds tende a se igualar ao tamanho da massa monet\u00e1ria existente, e como esta n\u00e3o pode crescer se o ente emissor estrangeiro n\u00e3o autorizar (com infla\u00e7\u00e3o geralmente baixa) os pre\u00e7os tamb\u00e9m n\u00e3o podem aumentar significativamente, com isso a infla\u00e7\u00e3o fica sufocada.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, isso n\u00e3o conseguiu deter as crises recorrentes que o pa\u00eds vive, com suas consequentes pen\u00farias para a classe trabalhadora equatoriana, os esperados e prometidos investimentos estrangeiros, oferecidos como panaceia dos problemas n\u00e3o tiveram tal efeito, ao mesmo tempo em que a produtividade comparada com outras na\u00e7\u00f5es semelhantes decresceu. A equatoriana \u00e9 uma economia totalmente primarizada, o Equador baseia sua economia nos recursos naturais, dependente dos vaiv\u00e9ns dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo e a classe trabalhadora vive fundamentalmente das remessas dos emigrantes equatorianos que foram para os Estados Unidos, Espanha e It\u00e1lia principalmente.<\/p>\n<p><strong>Um exemplo para se ter em conta. O caso europeu.<\/strong><\/p>\n<p>Como experi\u00eancia hist\u00f3rica, \u00e9 pertinente observar que quando as economias mais d\u00e9beis da Uni\u00e3o Europeia (UE) que adotaram o euro, uma moeda e uma pol\u00edtica desenhada \u00e0 medida da Alemanha e Fran\u00e7a, as economias mais fortes. As primeiras com menos possibilidades de competir no mercado mundial, para compensar a queda de suas exporta\u00e7\u00f5es, cobrir seus d\u00e9ficits fiscais e de balan\u00e7a de pagamentos, se viram obrigadas a recorrer ao endividamento.<\/p>\n<p>De tal forma que pa\u00edses como a Gr\u00e9cia viram aumentar sua d\u00edvida externa em 80% entre 2005 e 2010, a Espanha por sua vez, a duplicou entre os anos 2007-2010, Portugal teve que solicitar resgate financeiro que aumentou sua d\u00edvida em 74 bilh\u00f5es de euros. Consequ\u00eancias semelhantes sofreram o Chipre, Eslov\u00eania e Irlanda.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que uma vez esgotadas suas possibilidades de endividamento, estes pa\u00edses se viram obrigados a acudir a bancos e organismos financeiros internacionais, que para recuperar seus empr\u00e9stimos impuseram todo tipo de cortes: programas de austeridade, privatiza\u00e7\u00f5es, demiss\u00f5es em massa e elimina\u00e7\u00e3o de aposentadorias que deveriam aplicar e continuam aplicando.<\/p>\n<p>Nosso baixo desenvolvimento produtivo, somado a outros elementos j\u00e1 mencionados, como a quebra das reservas e a queda das exporta\u00e7\u00f5es fazem soar o alarme sobre os efeitos que a dolariza\u00e7\u00e3o teria para a Venezuela; que poderiam ser semelhantes ou piores aos dos pa\u00edses europeus de economias mais d\u00e9beis naquele continente; implicando maiores n\u00edveis de endividamento e grandes dificuldades acrescidas para reduzir o d\u00e9ficit fiscal, o que se traduziria em mais pen\u00farias para os trabalhadores venezuelanos e o povo pobre do pa\u00eds.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Estudos como o de Luis E. Gavazut, entre outros, afirmam que mais de 500 bilh\u00f5es de $ haviam sido evadidos, s\u00f3 nos dez anos de existencia de CADIVI que v\u00e3o desde 2003 a 2013.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Repres\u00e1lias contra os cidad\u00e3os comuns que trocaram alguns poucos d\u00f3lares, extors\u00e3o e corrup\u00e7\u00e3o \u00a0por parte de funcionarios policiais e militares, acusa\u00e7\u00f5es contra portais web que publicavam o pre\u00e7o do $ paralelo, entre outras pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lojas que fornecem mercadorias importadas com pre\u00e7os em $.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> O governo, embora sem admiti-lo publicamente, diante da impossibilidade de continuar cumprindo-os, suspendeu os pagamentos de d\u00edvida externa, entrando em uma situa\u00e7\u00e3o de default (ou ao menos default seletivo), recentemente Maduro convocou os detentores de b\u00f4nus da PDVSA para chegar a acordos de pagamento.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Batizado com o pomposo nome de \u201cPlano de Recupera\u00e7\u00e3o e Reativa\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Em virtude de, entre outras coisas, os baixos salarios que seriam cancelados com uma \u00ednfima quantidade de $.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Maduro\/discurso diante da Assembleia Nacional\/12-01-2021<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Mecanismo alternativo que alguns bancos privados ofereceram a empresarios e comerciantes que manejam altos volumes de $, para resguard\u00e1-los, embora n\u00e3o fosse poss\u00edvel operar com eles.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 v\u00e1rios anos, aproximadamente desde 2017, quando a Venezuela entrou plenamente em um processo hiperinflacion\u00e1rio, abriu-se um debate sobre a pertin\u00eancia ou n\u00e3o de dolarizar a economia, como mecanismo de solu\u00e7\u00e3o para a hiperinfla\u00e7\u00e3o e a brutal crise econ\u00f4mica que atinge o pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":63426,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[167],"tags":[3787,2234,629,2236],"class_list":["post-63425","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-venezuela","tag-dolarizacao-venezuela","tag-leonardo-arantes","tag-maduro","tag-ust-venezuela"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/vene.jpg","categories_names":["Venezuela"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63425","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63425"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63425\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63426"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63425"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63425"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63425"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}