{"id":63414,"date":"2021-03-25T12:41:37","date_gmt":"2021-03-25T15:41:37","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63414"},"modified":"2021-03-25T12:41:37","modified_gmt":"2021-03-25T15:41:37","slug":"63414-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/03\/25\/63414-2\/","title":{"rendered":"O lugar do Manifesto Comunista na hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00abEsta obra exp\u00f5e, com uma nitidez e brilho geniais, a nova concep\u00e7\u00e3o do mundo, o materialismo consequente aplicado tamb\u00e9m ao campo da vida social, a dial\u00e9tica como a mais completa e profunda doutrina do desenvolvimento, a teoria da luta de classes e do papel revolucion\u00e1rio hist\u00f3rico mundial do proletariado como criador de uma sociedade nova, comunista \u00bbVI Lenin, 1914.<\/em><\/p>\n<p><em>Durante a \u00faltima semana de fevereiro de 1848, a pequena litografia de J. E. Burghard localizada no n\u00famero 46 da rua Liverpool, centro de Londres, completou a impress\u00e3o de tr\u00eas mil c\u00f3pias de um panfleto escrito em alem\u00e3o com o t\u00edtulo Manifesto do Partido Comunista. Ningu\u00e9m poderia imaginar o tremendo impacto te\u00f3rico que esse livreto, originalmente de 23 p\u00e1ginas, teria sobre o futuro da humanidade. H\u00e1 173 anos o \u201cespectro\u201d do Manifesto \u201cpercorre o mundo\u201d, inspirando a consci\u00eancia e a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de milh\u00f5es de pessoas.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Daniel Sugasti<\/p>\n<p>Qualquer que seja a atitude com rela\u00e7\u00e3o ao marxismo ou ao comunismo, \u00e9 um fato que o <em>Manifesto<\/em> se tornou uma obra cl\u00e1ssica n\u00e3o apenas do pensamento socialista, mas da literatura pol\u00edtica universal. \u00c9 um texto necess\u00e1rio para compreender nossa \u00e9poca hist\u00f3rica. Isso n\u00e3o significa, que seja bem entendido, que a realidade tenha confirmado todas as linhas escritas por Marx e Engels. Tal leitura seria dogm\u00e1tica, isto \u00e9, antimarxista\u00b9. A for\u00e7a do <em>Manifesto<\/em> est\u00e1 relacionada ao fato de que, em termos metodol\u00f3gicos e program\u00e1ticos, selou a passagem definitiva do socialismo ut\u00f3pico ao cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Nem Marx nem Engels inventaram o socialismo ou o comunismo, como alguns pensam. Antes de 1848, esses conceitos n\u00e3o apenas existiam, mas exerceram consider\u00e1vel influ\u00eancia por meio de autores penetrantes como o Conde de Saint-Simon, Charles Fourier, Robert Owen, etc.<\/p>\n<p>Eles submeteram as injusti\u00e7as e o pauperismo causados \u200b\u200bpelo capitalismo a severas cr\u00edticas. O problema era que as atrocidades da burguesia eram combatidas com sistemas on\u00edricos, idealizados com base na filantropia e no esfor\u00e7o, para convencer as classes dominantes da imoralidade da explora\u00e7\u00e3o. Ou seja, n\u00e3o compreendiam a ess\u00eancia do capitalismo nem identificavam a for\u00e7a social capaz de super\u00e1-lo. Consequentemente, para os ut\u00f3picos, o proletariado n\u00e3o era mais do que uma classe oprimida, desmoralizada e inerte, pass\u00edvel apenas de compaix\u00e3o. No entanto, o socialismo ut\u00f3pico era um produto de seu tempo. <em>\u201cSuas teorias incipientes\u201d,<\/em> explicar\u00e1 Engels, <em>\u201cn\u00e3o fazem mais do que refletir o estado Incipiente da produ\u00e7\u00e3o capitalista, a incipiente condi\u00e7\u00e3o de classe. Pretendia-se tirar da cabe\u00e7a a solu\u00e7\u00e3o dos problemas sociais, latentes ainda nas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas pouco desenvolvidas da \u00e9poca. A sociedade n\u00e3o encerrava sen\u00e3o males, que a raz\u00e3o pensante era chamada a remediar\u201d<sup>2<\/sup>. <\/em>A nova sociedade, portanto, seria <em>&#8220;a express\u00e3o da verdade absoluta, da raz\u00e3o e da justi\u00e7a, e basta descobri-la para que, por sua pr\u00f3pria virtude, conquiste o mundo&#8221;\u00b3.<\/em><\/p>\n<p>O <em>Manifesto<\/em> enterra essa etapa infantil do socialismo. Em primeiro lugar, porque difunde uma nova teoria, a concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria, um dos instrumentos mais fecundos do pensamento humano. De acordo com ela, <em>\u201cA hist\u00f3ria de todas as sociedades at\u00e9 agora tem sido a hist\u00f3ria das lutas de classe\u201d<sup>4<\/sup>,<\/em> ou seja, o motor do desenvolvimento humano n\u00e3o reside nem na vontade de um ser superior nem no papel dos indiv\u00edduos na hist\u00f3ria, mas na luta entre opressores e oprimidos.<\/p>\n<p>O conceito de classes sociais e a no\u00e7\u00e3o de luta entre elas tamb\u00e9m n\u00e3o eram originais. Antes do <em>Manifesto<\/em>, outros pensadores haviam considerado esses elementos. O que havia de inovador no panfleto de 1848 foi que, pela primeira vez, se propunha que o confronto entre as classes era o fato <em>central<\/em> nos processos de transforma\u00e7\u00e3o social ao longo da hist\u00f3ria. Para entender melhor em que consistia a novidade trazida pelo socialismo cient\u00edfico, conv\u00e9m atentar para este trecho de uma carta de Marx: \u201c<em>O que de novo eu fiz, foi: 1) <\/em><em>demonstrar que a\u00a0exist\u00eancia das classes\u00a0est\u00e1 apenas ligada a\u00a0determinadas fases de desenvolvimento hist\u00f3rico da produ\u00e7\u00e3o; <\/em><em>2) <\/em><em>que a luta das classes conduz necessariamente \u00e0\u00a0ditadura do proletariado; <\/em><em>3) que esta mesma ditadura s\u00f3 constitui a transi\u00e7\u00e3o para a\u00a0<\/em><em>supera\u00e7\u00e3o de\u00a0todas as classes\u00a0<\/em><em>e para uma\u00a0<\/em><em>sociedade sem classes.<\/em>\u201d<sup>5<\/sup>.<\/p>\n<p>Sobre isso, dois coment\u00e1rios. David Riazanov observou que a express\u00e3o &#8220;ditadura do proletariado&#8221; n\u00e3o existe no <em>Manifesto,<\/em> embora seja poss\u00edvel notar os elementos b\u00e1sicos dessa ideia. Em 1848, no entanto, isso ainda era abstrato. Seus autores argumentaram que o primeiro passo a ser dado ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria ser\u00e1 &#8220;<em>a ascens\u00e3o do proletariado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de classe dominante&#8221;<\/em>. A categoria \u201cditadura do proletariado\u201d aparecer\u00e1 explicitamente durante 1850: \u201c<em>Este socialismo \u00e9 a\u00a0<\/em><em>declara\u00e7\u00e3o da perman\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o, a ditadura de classe<\/em><em>\u00a0do proletariado como ponto de tr\u00e2nsito necess\u00e1rio para a\u00a0<\/em><em>aboli\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as de classes em geral,<\/em><em>\u00a0para a aboli\u00e7\u00e3o de todas as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o em que aquelas se apoiam, para a aboli\u00e7\u00e3o de todas as rela\u00e7\u00f5es sociais que correspondem a essas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, para a revolu\u00e7\u00e3o de todas as ideias que decorrem destas rela\u00e7\u00f5es sociais<\/em>.\u201d<sup>6<\/sup>.<\/p>\n<p>\u00c0 miss\u00e3o de elevar o proletariado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de &#8220;classe dominante&#8221; [<em>herrschende Klasse<\/em>], Marx e Engels acrescentam &#8220;e a conquista da democracia&#8221;. Isso, de acordo com Ryazanov, seria a democracia prolet\u00e1ria em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia burguesa; isto \u00e9, outro componente elementar da formula\u00e7\u00e3o atual da ditadura revolucion\u00e1ria do proletariado<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<p>O segundo \u00e9 notar o qu\u00e3o longe certos marx\u00f3logos acad\u00eamicos est\u00e3o da ess\u00eancia do marxismo, muito mais preocupados em cortar o pensamento de Marx em peda\u00e7os para estud\u00e1-lo, de forma est\u00e1tica, como um &#8220;fil\u00f3sofo&#8221;, &#8220;soci\u00f3logo&#8221;, &#8220;economista\u201d, em suma, como um pensador de gabinete.<\/p>\n<p>Marx e Engels, ao comprovarem a historicidade e a transitoriedade do capitalismo &#8211; apresentado pelo liberalismo como sistema \u201cnatural\u201d &#8211; identificaram no proletariado a principal for\u00e7a social revolucion\u00e1ria, apontando-a como um produto inevit\u00e1vel e coveira da sociedade burguesa: \u201c<em>Com o desenvolvimento da grande ind\u00fastria, portanto, a base sobre a qual a burguesia assentou seu regime de produ\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o dos produtos \u00e9 solapada. A burguesia produz, antes de mais nada, seus pr\u00f3prios coveiros\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Mas a miss\u00e3o hist\u00f3rica do proletariado, na vis\u00e3o dos autores do <em>Manifesto<\/em>, tinha uma particularidade com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s classes oprimidas anteriores. Devido ao grau de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas que a sociedade atingiu, \u201c\u2026<em>o proletariado n\u00e3o pode realizar a sua emancipa\u00e7\u00e3o sem emancipar ao mesmo tempo toda a sociedade da separa\u00e7\u00e3o em classes e, com ela, das lutas de classes<\/em>.\u201d<sup>8<\/sup>.<\/p>\n<p>Em outras palavras, de acordo com a teoria marxista, a aspira\u00e7\u00e3o suprema do proletariado n\u00e3o consiste em se cristalizar como \u201cclasse dominante\u201d, mesmo que assuma esse papel por um per\u00edodo necess\u00e1rio, mas na aboli\u00e7\u00e3o das classes sociais e, com ela a extin\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas moderno. A esta altura, vale reafirmar que o resultado da luta entre as classes n\u00e3o est\u00e1, de jeito nenhum, predestinado, como costumam repetir aqueles que acusam o marxismo de ser &#8220;determinista&#8221;. O pr\u00f3prio <em>Manifesto<\/em> &#8211; para n\u00e3o falar de outras obras de seus autores &#8211; alerta que esse processo \u201c<em>terminou sempre com a transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da sociedade inteira ou com o decl\u00ednio conjunto das classes em conflito<\/em>\u201d. Ou seja, o comunismo n\u00e3o \u00e9 algo &#8220;inevit\u00e1vel&#8221;, fatal, mas o resultado desse embate hist\u00f3rico. Sua contrapartida \u00e9 o triunfo da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Isso nos leva a outro conceito fundamental exposto no <em>Manifesto<\/em>, o do Estado moderno. O Estado, segundo a teoria marxista, n\u00e3o \u00e9 um aparelho &#8220;neutro&#8221;, fora da luta de classes. Seu surgimento n\u00e3o \u00e9 apenas um produto inevit\u00e1vel da divis\u00e3o da sociedade em classes, mas, sob o controle das classes dominantes, \u00e9 o principal instrumento de sujei\u00e7\u00e3o das classes dominadas. \u201c<em>O poder do Estado moderno<\/em>&#8220;, afirmam Marx e Engels, <em>&#8220;<\/em> <em>n\u00e3o passa de um comit\u00ea que administra os neg\u00f3cios comuns da classe burguesa como um todo.&#8221;<\/em> O <em>Manifesto<\/em> prossegue explicando que <em>\u201c<\/em><em>O poder pol\u00edtico propriamente dito \u00e9 o poder organizado de uma classe para dominar outra. Se, em sua luta contra a burguesia, o proletariado necessariamente se constitui em classe, se por meio de uma revolu\u00e7\u00e3o se converte em classe dominante e, como tal, suprime violentamente as velhas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, junto com elas, suprime os antagonismos de classes e as classes em geral e, com isso, abole sua pr\u00f3pria domina\u00e7\u00e3o de classe\u201d<\/em>. Desse modo, exp\u00f5e a teoria da extin\u00e7\u00e3o do Estado: <em>\u201c<\/em><em>Uma vez que, no processo, desapare\u00e7am as diferen\u00e7as de classe e toda a produ\u00e7\u00e3o esteja concentrada nas m\u00e3os dos indiv\u00edduos associados, o poder p\u00fablico perder\u00e1 seu car\u00e1ter pol\u00edtico\u201d.<\/em><\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia que o <em>Manifesto<\/em> prop\u00f5e para superar a sociedade burguesa est\u00e1 relacionada ao exposto. O proletariado, dotado de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, dever\u00e1 tomar o poder, concentrado pela burguesia atrav\u00e9s do controle da m\u00e1quina do Estado, n\u00e3o por meios pac\u00edficos, mas valendo-se da viol\u00eancia revolucion\u00e1ria: <em>\u201c<\/em><em>o proletariado funda seu dom\u00ednio por meio da derrubada violenta da burguesia\u201d.<\/em> A tarefa dos comunistas, portanto, consiste na <em>\u201c<\/em><em>constitui\u00e7\u00e3o do proletariado em classe, a derrubada do dom\u00ednio da burguesia, a conquista do poder pol\u00edtico pelo proletariado&#8221;.<\/em> As li\u00e7\u00f5es da Comuna de Paris, ocorrida 23 anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do <em>Manifesto<\/em>, ajustaram a teoria dos fundadores do socialismo cient\u00edfico sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o Estado e a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, que, segundo eles mesmos, havia &#8220;envelhecido&#8221;: <em>&#8220;a <\/em><em>classe oper\u00e1ria n\u00e3o pode apossar-se simplesmente da maquinaria de Estado j\u00e1 pronta e faz\u00ea-la funcionar para os seus pr\u00f3prios objetivos<\/em><em>\u201d,<\/em> argumentou Marx em 1871. Era preciso \u201cromper\u201d esse aparato. Por sua vez, Engels escreveu em 1891: \u201c&#8230;<em>a classe oper\u00e1ria, uma vez chegada \u00e0 domina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podia continuar a administrar com a velha m\u00e1quina de Estado<\/em><em> [&#8230;]<\/em><em>para n\u00e3o perder de novo a sua pr\u00f3pria domina\u00e7\u00e3o, acabada de conquistar, tinha, por um lado, de eliminar a velha maquinaria de opress\u00e3o at\u00e9 a\u00ed utilizada contra si pr\u00f3pria, mas, por outro lado, de precaver-se contra os seus pr\u00f3prios deputados e funcion\u00e1rios, ao declarar estes, sem qualquer exce\u00e7\u00e3o, revog\u00e1veis a todo o momento<\/em>.<em><sup>9<\/sup><\/em><em>\u201d<\/em><\/p>\n<p>Ao realizar este programa, segundo uma das frases mais citadas do<em> Manifesto, \u201c<\/em><em>Os prolet\u00e1rios n\u00e3o t\u00eam nada a perder nela, al\u00e9m de seus grilh\u00f5es. T\u00eam um mundo a conquistar\u201d.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 assustador como a esquerda atual abandonou, de forma velada ou expl\u00edcita, as li\u00e7\u00f5es do <em>Manifesto<\/em>. O m\u00e9todo revolucion\u00e1rio foi substitu\u00eddo, sem mais, pela estrat\u00e9gia parlamentar inofensiva, totalmente adaptada \u00e0 legalidade burguesa. Da mesma forma, foi posta de lado uma ideia que permeia todo o conte\u00fado do c\u00e9lebre folheto, a independ\u00eancia de classe do proletariado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 burguesia e seus representantes pol\u00edticos. A doutrina das &#8220;frentes populares&#8221; e todos os tipos de &#8220;frentes amplas&#8221; com fra\u00e7\u00f5es da burguesia &#8220;democr\u00e1tica&#8221; ou &#8220;progressista&#8221;, sacramentada pelo stalinismo, se op\u00f5e \u00e0 m\u00e1xima marxista de que <em>&#8220;a emancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores s\u00f3 pode ser obra da pr\u00f3pria classe trabalhadora\u201d <\/em>e, consequentemente, est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com a c\u00e9lebre convoca\u00e7\u00e3o que conclui o <em>Manifesto: \u201cProlet\u00e1rios de todos os pa\u00edses, uni-vos!<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Nesta comprimida men\u00e7\u00e3o das ideias fundamentais do <em>Manifesto<\/em>, n\u00e3o pode faltar o princ\u00edpio do internacionalismo prolet\u00e1rio, baseado na premissa de que o capitalismo, ent\u00e3o em expans\u00e3o, n\u00e3o conhecia fronteiras. A uni\u00e3o da classe oper\u00e1ria, portanto, tamb\u00e9m n\u00e3o poderia se restringir aos limites nacionais: <em>\u201cOs trabalhadores n\u00e3o t\u00eam p\u00e1tria. N\u00e3o se lhes pode tomar uma coisa que n\u00e3o possuem<\/em>\u201d, diz outra frase ic\u00f4nica do <em>Manifesto<\/em>. Mais adiante refor\u00e7am: <em>\u201cA a\u00e7\u00e3o unificada do proletariado, pelo menos nos pa\u00edses 42 MANIFESTO DO PARTIDO COMUNISTA civilizados, \u00e9 uma das condi\u00e7\u00f5es primordiais para sua emancipa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em> O correlato organizacional deste princ\u00edpio foi aplicado a partir de 1846 por meio da forma\u00e7\u00e3o dos Comit\u00eas de Correspond\u00eancia Comunista e, posteriormente, na Liga dos Comunistas, que tinha membros em Londres, Paris, Bruxelas, al\u00e9m de alguma influ\u00eancia em partes da atual Alemanha. Essa foi a base para a posterior organiza\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores (AIT), fundada em 1864, mais tarde conhecida como a Primeira Internacional.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio da independ\u00eancia de classe, por sua vez, moldou toda a teoria marxista do partido revolucion\u00e1rio. O <em>Manifesto<\/em>, primeiro programa cient\u00edfico de um partido comunista, declarou que era chegado o momento \u201c<em>de os comunistas exporem abertamente sua vis\u00e3o de mundo, seus objetivos e suas tend\u00eancias, contrapondo assim um manifesto do pr\u00f3prio partido \u00e0 lenda do espectro do comunismo\u201d<\/em>. No cap\u00edtulo dois, exp\u00f5e o papel do partido comunista como <em>\u201ca parcela mais decidida e mais avan\u00e7ada dos partidos oper\u00e1rios de cada pa\u00eds; eles compreendem teoricamente, adiante da massa de prolet\u00e1rios, as condi\u00e7\u00f5es, a evolu\u00e7\u00e3o e os resultados mais gerais do movimento prolet\u00e1rio\u201d.<\/em><\/p>\n<p>O <em>Manifesto<\/em>, em sua forma definitiva, apresenta com uma perspic\u00e1cia penetrante um claro panorama do passado, presente e futuro da sociedade. Embora quase todas as ideias do documento tenham sido desenvolvidas anteriormente por seus autores, por exemplo, no t\u00edtulo ent\u00e3o in\u00e9dito <em>A Ideologia Alem\u00e3<\/em> (1846), a profundidade e o estilo com que sintetizaram a nova vis\u00e3o do mundo, criando uma unidade entre teoria e pr\u00e1tica, fez dessa obra um verdadeiro patrim\u00f4nio hist\u00f3rico do proletariado.<\/p>\n<p><strong>O contexto hist\u00f3rico do Manifesto<\/strong><\/p>\n<p>O <em>Manifesto<\/em> n\u00e3o foi um raio em um c\u00e9u sereno. Surgiu no contexto de uma Europa politicamente efervescente. Uma terr\u00edvel crise econ\u00f4mica, somada a repetidas safras ruins, acelerou o desgaste dos antigos regimes mon\u00e1rquicos. O pauperismo desencadeou uma s\u00e9rie de rebeli\u00f5es pelo p\u00e3o em muitos pa\u00edses. As mentes mais l\u00facidas n\u00e3o duvidavam que uma revolu\u00e7\u00e3o estava prestes a estourar, aquela que seria a mais europeia de todas as revolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Assim, o momento hist\u00f3rico em que surge o <em>Manifesto<\/em> deve ser compreendido como um processo \u00fanico, condicionado pelo grau de desenvolvimento que o capitalismo havia alcan\u00e7ado na Europa Ocidental e, consequentemente, pelo est\u00e1gio de organiza\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria, bem como pela pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o das ideias de Marx e Engels, isto \u00e9, sua transforma\u00e7\u00e3o de democratas radicais em comunistas.<\/p>\n<p>Durante a sua primeira estadia em Manchester, entre 1842 e 1844, Engels diz ter chegado \u00e0 ideia de que \u201c<em>os fatos econ\u00f4micos \u2014 que na historiografia at\u00e9 hoje n\u00e3o desempenham nenhum papel ou apenas um papel desprezado \u2014 s\u00e3o, pelo menos no mundo moderno, um poder hist\u00f3rico decisivo; em que eles formam a base para o surgimento das oposi\u00e7\u00f5es de classes hodiernas; que estas oposi\u00e7\u00f5es de classes \u2014 nos pa\u00edses em que, em virtude da grande ind\u00fastria, elas se desenvolveram completamente [&#8230;] s\u00e3o, por sua vez, a base da forma\u00e7\u00e3o de partidos, das lutas de partidos e, com isso, da hist\u00f3ria pol\u00edtica toda<\/em>.<em><sup>10<\/sup>\u201d<\/em>. \u00c9 conhecido o fato de que Engels se antecipou a Marx na tentativa de sintetizar a filosofia cl\u00e1ssica alem\u00e3 com a economia pol\u00edtica inglesa. Captou essas ideias em seu <em>Esbo\u00e7o para uma cr\u00edtica da economia pol\u00edtica,<\/em> artigo publicado nos <em>Anais franco-alem\u00e3es<\/em> e que exerceria enorme influ\u00eancia sobre o jovem Marx.<\/p>\n<p>Este, por sua vez, apresentou no mesmo jornal uma ideia semelhante, que Engels assim resumiu: \u201c\u2026 <em>n\u00e3o \u00e9 o Estado que condiciona e regula a sociedade civil, mas \u00e9 esta que condiciona e regula o Estado, e que, portanto, a pol\u00edtica e sua hist\u00f3ria devem ser explicadas pelas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e seu desenvolvimento, e n\u00e3o o contr\u00e1rio\u201d<sup>11<\/sup><\/em>. Assim, quando se encontraram em Paris em agosto de 1844, ambos constataram que haviam chegado \u00e0s mesmas conclus\u00f5es te\u00f3ricas fundamentais por caminhos diferentes. Sua colabora\u00e7\u00e3o intelectual e, sobretudo, sua intensa atividade militante datam desse encontro, como veremos.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 1846, Marx e Engels fundaram o Comit\u00ea de Correspond\u00eancia Comunista em Bruxelas &#8211; cidade em que Marx se instalou ap\u00f3s ser expulso de Paris um ano antes &#8211; com o objetivo de estreitar as rela\u00e7\u00f5es com os emigrados pol\u00edticos e outros elementos revolucion\u00e1rios espalhados pela Alemanha, Fran\u00e7a e Inglaterra; o objetivo dos amigos era organizar as lutas com base na nova concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Os Comit\u00eas de Correspond\u00eancia foram muito importantes, pois consistiam no embri\u00e3o de uma associa\u00e7\u00e3o internacional de trabalhadores. Marx e Engels tamb\u00e9m organizaram a Associa\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria Alem\u00e3. Eles escreviam no <em>Deutsche-Br\u00fcsseler-Zeitung<\/em>, que praticamente transformaram em um \u00f3rg\u00e3o de suas ideias. Engels colaborava com o <em>Northern Star<\/em>, jornal da ala radical dos cartistas ingleses. Marx foi vice-presidente da Associa\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica, uma esp\u00e9cie de coaliz\u00e3o com democratas radicais de Bruxelas e socialistas pequeno-burgueses franceses agrupados no jornal <em>La R\u00e9forme<\/em>. Em meio a essa intensa atividade pr\u00e1tica, os dois encontraram tempo para escrever uma obra fundamental do marxismo, <em>A Ideologia Alem\u00e3<\/em>, cujo manuscrito nunca foi impresso por falta de editor. Seu conte\u00fado acabou sendo submetido \u00e0 &#8220;cr\u00edtica roedora dos ratos&#8221;.<\/p>\n<p>A Liga dos Justos, uma sociedade secreta com m\u00e9todos conspirat\u00f3rios, t\u00edpica da tradi\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios franceses da \u00e9poca<sup>12<\/sup>, redobrou seus esfor\u00e7os para se aproximar de Marx e Engels. A Liga havia recrutado oper\u00e1rios modernos, mas era composta principalmente por artes\u00e3os alem\u00e3es emigrados: alfaiates, sapateiros, ferreiros, relojoeiros, etc. O setor com perfil mais prolet\u00e1rio e radical era o de Londres. Seus principais l\u00edderes foram os alem\u00e3es Karl Schapper, Heinrich Bauer e Joseph Moll.<\/p>\n<p>Este \u00faltimo recebeu a tarefa de se encontrar com Marx em Bruxelas e Engels em Paris para convid\u00e1-los oficialmente a ingressar na sociedade. Se aceitassem, poderiam intervir livremente no processo de reelabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que seria definida em um congresso internacional. Moll explicou a ambos que a maioria da Liga estava convencida da justeza de sua teoria e se dispunham a abandonar os m\u00e9todos conspirat\u00f3rios, forma de atua\u00e7\u00e3o \u00e0 qual eles eram contr\u00e1rios.<\/p>\n<p>A Liga tinha um programa ut\u00f3pico baseado no comunismo igualit\u00e1rio franc\u00eas, emanado das ideias de Babeuf, misturado com elementos de uma interpreta\u00e7\u00e3o confusa do cristianismo primitivo pregado por um talentoso alfaiate alem\u00e3o chamado Weitling. Esse homem, que se via como um profeta chegou a elaborar um projeto de idioma universal, estava muito influenciado pelas ideias de Proudhon. O lema da Liga dos Justos era &#8220;<em>Todos os homens s\u00e3o irm\u00e3os&#8221;<\/em>. Para um setor da se\u00e7\u00e3o londrina da Liga, esse comunismo &#8220;filos\u00f3fico-sentimental&#8221; n\u00e3o estava \u00e0 altura das mudan\u00e7as sociais e das tarefas do proletariado impostas pelo poderoso desenvolvimento da ind\u00fastria capitalista. A crise interna foi crescendo, acelerada em certa medida pela propaganda incans\u00e1vel de Marx e Engels: <em>&#8220;Ao mesmo tempo&#8221;,<\/em> diz Marx, <em>&#8220;publicamos uma s\u00e9rie de panfletos, impressos ou litografados, nos quais a miscel\u00e2nea do socialismo anglo\u2013franc\u00eas e filosofia alem\u00e3, era submetida a uma cr\u00edtica implac\u00e1vel que na \u00e9poca constitu\u00eda a doutrina secreta da Liga, recomendando ao inv\u00e9s o estudo cient\u00edfico da estrutura econ\u00f4mica da sociedade burguesa como \u00fanico fundamento te\u00f3rico pertinente, explicando-se em uma linguagem claramente popular que n\u00e3o se tratava da imposi\u00e7\u00e3o de um sistema ut\u00f3pico qualquer, mas da participa\u00e7\u00e3o ativa e consciente no processo revolucion\u00e1rio social que est\u00e1vamos testemunhando\u201d<sup>13<\/sup>.<\/em><\/p>\n<p>A isso devemos acrescentar o trabalho de Engels, que em agosto de 1846 marchou rumo a Paris para tentar atrair e organizar os emigrados alem\u00e3es sob a bandeira do comunismo cient\u00edfico. Para isso, ele teve que travar uma dura batalha contra as ideias de Proudhon e o &#8220;socialismo real&#8221; de Karl Gr\u00fcn, disputa que teve um forte impacto dentro da Liga dos Justos.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que essa Liga oferecia a Marx e Engels uma oportunidade de atua\u00e7\u00e3o que eles n\u00e3o podiam desperdi\u00e7ar. Assim, eles concordaram em incorporar-se em janeiro de 1847. Intervieram com for\u00e7a total no debate interno, com o apoio dos londrinos.<\/p>\n<p>O primeiro congresso come\u00e7ou em junho de 1847. Marx n\u00e3o teve dinheiro para a viagem, ent\u00e3o toda a responsabilidade recaiu sobre Engels. Ap\u00f3s violentos debates, a Liga se reorganizou. Tanto os estatutos como os esbo\u00e7os de programa deveriam ser submetidos \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o da base, para posteriormente serem tratados em novo congresso. A tradi\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria de &#8220;decis\u00f5es desde cima&#8221;, t\u00edpica das seitas, foi superada. A organiza\u00e7\u00e3o mudou seu nome para Liga dos Comunistas. O primeiro artigo dos estatutos indicava a penetra\u00e7\u00e3o das ideias do socialismo cient\u00edfico: <em>\u201cO objetivo da Liga \u00e9 a derrubada da burguesia, a domina\u00e7\u00e3o do proletariado, a supress\u00e3o da velha sociedade burguesa baseada nos antagonismos de classe, e a cria\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade, sem classes e sem propriedade privada\u201d<\/em>. Em setembro, a Liga publica a <em>Revista Comunista<\/em>, onde aparece o novo lema da organiza\u00e7\u00e3o: <em>\u201cProlet\u00e1rios de todos os pa\u00edses, uni-vos\u201d.<\/em><\/p>\n<p>No final de outubro, Engels escreveu um esbo\u00e7o de programa, a pedido dos membros parisienses da Liga dos Comunistas, que ficou conhecido como <em>Princ\u00edpios do Comunismo<\/em>, o principal antecedente do <em>Manifesto<\/em>. O rascunho assumiu a forma de um &#8220;credo&#8221;, com perguntas e respostas. No entanto, o pr\u00f3prio Engels, meticuloso, n\u00e3o demorou a se opor ao formato. O futuro programa deveria ser algo perene, com uma s\u00f3lida fundamenta\u00e7\u00e3o sobre \u201ca hist\u00f3ria da quest\u00e3o\u201d. Para Engels, um &#8220;catecismo&#8221; n\u00e3o &#8220;servia de forma alguma&#8221; para esse prop\u00f3sito. Ent\u00e3o, em 24 de novembro, ele prop\u00f4s a Marx dar \u00e0 &#8220;coisa&#8221; o nome de &#8220;Manifesto Comunista&#8221;, um estilo familiar na literatura pol\u00edtica francesa desde o <em>Manifesto dos Iguais<\/em> de 1796.<\/p>\n<p>O segundo congresso, que iria completar a tarefa do primeiro, foi realizado em novembro-dezembro de 1847. Ele terminou de acordo com as aspira\u00e7\u00f5es de Marx e Engels. O congresso encarregou-os de elaborar um programa te\u00f3rico e pr\u00e1tico, para fins de publica\u00e7\u00e3o, para a Liga.<\/p>\n<p>O encarregado da reda\u00e7\u00e3o do <em>Manifesto<\/em> foi Marx. Terminou a tarefa em janeiro de 1848, enviando-o para impress\u00e3o algumas semanas antes da eclos\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o de fevereiro em Paris, que derrubou o rei Lu\u00eds Filipe I e estabeleceu a Segunda Rep\u00fablica Francesa. O processo revolucion\u00e1rio espalhou-se como um inc\u00eandio na It\u00e1lia, depois na Ren\u00e2nia, na Pr\u00fassia e depois na \u00c1ustria e Hungria.<\/p>\n<p>O <em>Manifesto<\/em> previu que a Europa, especialmente a futura Alemanha, estava \u00e0s v\u00e9speras de uma revolu\u00e7\u00e3o. Esse processo teria a vantagem de ocorrer em condi\u00e7\u00f5es objetivas e subjetivas mais avan\u00e7adas do que as revolu\u00e7\u00f5es burguesas cl\u00e1ssicas dos s\u00e9culos XVII e XVIII, a ponto de preverem que <em>&#8220;a revolu\u00e7\u00e3o burguesa alem\u00e3&#8221; seria o &#8220;prel\u00fadio de uma revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria.&#8221;<\/em> Mas esse progn\u00f3stico n\u00e3o se confirmou. A revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de 1848-49 n\u00e3o triunfou como revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria e, por esse motivo, tampouco como revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa. A derrotada &#8220;primavera dos povos&#8221; inaugurou uma nova din\u00e2mica de classes dentro da \u00e9poca da revolu\u00e7\u00e3o burguesa; suas li\u00e7\u00f5es seriam analisadas por Marx e Engels a partir de 1850.<\/p>\n<p>Trotsky explicar\u00e1, em 1905, o motivo pelo qual 1848 n\u00e3o foi 1789. A revolu\u00e7\u00e3o europeia na qual Marx e Engels participaram eclodiu no contexto da pior situa\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de &#8220;meio-termo&#8221;. A burguesia de 1848 n\u00e3o se comportou como a de 1789. Os liberais j\u00e1 n\u00e3o \u201cqueriam\u201d desenvolver a sua pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o e o proletariado ainda \u201cn\u00e3o podia\u201d lev\u00e1-la at\u00e9 o fim: <em>\u201c<\/em><em>O proletariado era demasiado fraco; faltava-lhe organiza\u00e7\u00e3o, experi\u00eancia e conhecimento. O capitalismo desenvolvera-se o suficiente para tornar necess\u00e1ria a aboli\u00e7\u00e3o das antigas rela\u00e7\u00f5es feudais, mas n\u00e3o o bastante para colocar em primeiro plano, como for\u00e7a pol\u00edtica decisiva, a classe oper\u00e1ria, nascida das novas rela\u00e7\u00f5es industriais<\/em>.<em>\u201d<sup>14<\/sup>.<\/em><\/p>\n<p>De qualquer maneira, n\u00e3o se pode dizer que o <em>Manifesto<\/em> exercia uma influ\u00eancia pr\u00e1tica sobre os movimentos revolucion\u00e1rios de 1848-1849. Fora dos membros da Liga, poucos o conheciam. N\u00e3o estava nem sequer \u00e0 venda. Ap\u00f3s a derrota, o <em>Manifesto<\/em> deixou a cena pol\u00edtica completamente estigmatizado e, diz Engels, <em>&#8220;logo foi relegado a segundo plano por causa da rea\u00e7\u00e3o que se seguiu \u00e0 derrota dos oper\u00e1rios parisienses em junho de 1848&#8221;.<\/em> A Liga dos Comunistas se dissolveu em 1852.<\/p>\n<p>A transcend\u00eancia do Manifesto teve que esperar um momento diferente na luta de classes e novos avan\u00e7os na organiza\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios, que teve sua m\u00e1xima express\u00e3o no final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX, quando a socialdemocracia europeia experimentou um fortalecimento vertiginoso. Mas h\u00e1 um fato que marca o ponto de inflex\u00e3o na realidade europeia e na difus\u00e3o das obras de Marx: a Comuna de Paris. \u00c9 a partir da experi\u00eancia do \u201cprimeiro governo oper\u00e1rio da hist\u00f3ria\u201d que se multiplicaram as edi\u00e7\u00f5es e tradu\u00e7\u00f5es das obras dos pais do socialismo cient\u00edfico, principalmente do <em>Manifesto<\/em>.<\/p>\n<p>Segundo dados de Bert Andr\u00e9as, entre 1872 e a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917 o texto de 1848 foi impresso em trinta l\u00ednguas, incluindo tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es em japon\u00eas e uma em chin\u00eas. Foram 70 edi\u00e7\u00f5es em russo, 55 em alem\u00e3o, 34 em ingl\u00eas, 26 em franc\u00eas, 11 em italiano etc. A primeira tradu\u00e7\u00e3o para o espanhol, feita pelo tip\u00f3grafo Jos\u00e9 Mesa, surgiu em 1872.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a vig\u00eancia das ideias do <em>Manifesto<\/em> no s\u00e9culo XXI?<\/strong><\/p>\n<p>Seria muito dif\u00edcil, sem fazer papel de bobo, negar a influ\u00eancia que o legado te\u00f3rico e pol\u00edtico do marxismo continua exercendo no mundo; e o <em>Manifesto<\/em> \u00e9 parte fundamental da vasta obra dos fundadores do socialismo cient\u00edfico. Traduzido para quase todas as l\u00ednguas e publicado em quase todos os pa\u00edses, o poder das ideias contidas neste &#8220;panfleto&#8221; ainda \u00e9 capaz de tirar a tranquilidade das classes dominantes. N\u00e3o importa a passagem do tempo, pode-se dizer que, em cada luta, em cada revolu\u00e7\u00e3o, vagueia o fantasma do comunismo\u2026<\/p>\n<p>Isso ocorre porque os princ\u00edpios gerais enunciados no <em>Manifesto<\/em> mant\u00eam total exatid\u00e3o e vig\u00eancia. \u00c9 evidente que existem detalhes que est\u00e3o antiquados. Existem tamb\u00e9m hip\u00f3teses e progn\u00f3sticos que n\u00e3o se comprovaram. Trotsky tem raz\u00e3o, entre outras constata\u00e7\u00f5es, quando afirma que seus autores tenderam \u00e0 <em>&#8220;subestima\u00e7\u00e3o das possibilidades futuras latentes do capitalismo e, por outro lado, \u00e0 supervaloriza\u00e7\u00e3o da maturidade revolucion\u00e1ria do proletariado&#8221;.<\/em> Mas seria inexato n\u00e3o enfatizar que o <em>Manifesto<\/em> advertiu que <em>&#8220;a aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica desses princ\u00edpios depender\u00e1 sempre e em toda parte das circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas existentes&#8221; <\/em>(pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de 1872, ndt.)<em>.<\/em> Seus pr\u00f3prios autores, vinte e cinco anos depois, reafirmaram os princ\u00edpios enunciados no texto, mas admitiram que havia partes que justificavam um retoque ou uma reda\u00e7\u00e3o diferente. Eles n\u00e3o eram videntes. Visto que a luta de classes \u00e9 um processo vivo e din\u00e2mico, e que o pr\u00f3prio objeto de an\u00e1lise do marxismo, o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, est\u00e1 em constante movimento, \u00e9 imposs\u00edvel exigir que um texto publicado h\u00e1 173 anos responda detalhadamente aos problemas apresentados pelo s\u00e9culo XXI. O <em>Manifesto<\/em> n\u00e3o \u00e9 um or\u00e1culo nem um texto sagrado. Portanto, nada menos marxista do que abord\u00e1-lo com o m\u00e9todo talm\u00fadico. O <em>Manifesto<\/em> pode n\u00e3o ser suficiente para responder em detalhes \u00e0 atualidade da classe trabalhadora mundial, mas continua sendo um ponto de partida indispens\u00e1vel. Continua sendo um guia para a a\u00e7\u00e3o de quem pretende n\u00e3o s\u00f3 interpretar o mundo, mas transform\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Fontes:<\/p>\n<p>1) Para um balan\u00e7o das ideias do <em>Manifesto<\/em>, recomendamos o texto de Trotsky titulado: <em>90 anos do Manifesto Comunista: <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/trotsky\/1937\/10\/30.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/trotsky\/1937\/10\/30.htm<\/a><\/em><\/p>\n<p>2) ENGELS, Friedrich. <em>Do socialismo ut\u00f3pico ao socialismo cient\u00edfico<\/em>. <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1880\/socialismo\/cap01.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1880\/socialismo\/cap01.htm<\/a><\/p>\n<p>3) Idem.<\/p>\n<p>4) MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. <em>Manifesto do Partido Comunista<\/em>. Express\u00e3o Popular, 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo, 2018. Salvo indica\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, todas as posteriores refer\u00eancias ao <em>Manifesto<\/em> remeter\u00e3o a essa edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>5) MARX, Karl. <em>Cartas a Joseph Weydemeyer<\/em>. https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1852\/03\/05.htm<\/p>\n<p>6) MARX, Karl. As lutas de classe em Fran\u00e7a de 1848 a 1850. https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1850\/11\/lutas_class\/cap03.htm<\/p>\n<p>7) RIAZANOV, David. <em>Notas aclarat\u00f3rias<\/em>. Em: <em>Biograf\u00eda del Manifiesto Comunista<\/em>. Editorial M\u00e9xico, 1949.<\/p>\n<p>8) ENGELS, Friedrich. <em>Para a Hist\u00f3ria da Liga dos Comunistas<\/em>. <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1885\/10\/08.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1885\/10\/08.htm<\/a><\/p>\n<p>9) MARX, Karl. A guerra civil em Fran\u00e7a. <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1871\/guerra_civil\/index.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1871\/guerra_civil\/index.htm<\/a><\/p>\n<p>10) ENGELS, Friedrich. <em>Para a Hist\u00f3ria da Liga dos Comunistas<\/em>. <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1885\/10\/08.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1885\/10\/08.htm<\/a><\/p>\n<p>11) Idem.<\/p>\n<p>12) A Liga dos Justos nasceu em Paris em 1836, resultado de uma cis\u00e3o da Liga dos Proscritos, uma sociedade de emigrados alem\u00e3es que segundo Engels n\u00e3o era sen\u00e3o \u201cuma rama alem\u00e3 das sociedades secretas francesas, e principalmente da \u2018Soci\u00e9t\u00e9 des saisons\u2019, dirigida por Blanqui e Barb\u00e8s, com a que estava em \u00edntima rela\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>13) MARX, Karl. <em>Herr Vogt<\/em>. Buenos Aires: Lautaro, 1947, p. 102.<\/p>\n<p>14) TROTSKY, Leon. <em>Balan\u00e7o e perspectivas<\/em>. <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/trotsky\/1906\/balanco\/index.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/trotsky\/1906\/balanco\/index.htm<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Nea Vieira<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abEsta obra exp\u00f5e, com uma nitidez e brilho geniais, a nova concep\u00e7\u00e3o do mundo, o materialismo consequente aplicado tamb\u00e9m ao campo da vida social, a dial\u00e9tica como a mais completa e profunda doutrina do desenvolvimento, a teoria da luta de classes e do papel revolucion\u00e1rio hist\u00f3rico mundial do proletariado como criador de uma sociedade nova, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":63415,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[8,10],"tags":[114,7,3784,3785,58,9],"class_list":["post-63414","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia","category-teoria","tag-daniel-sugasti","tag-engels","tag-liga-dos-comunistas","tag-manifesto-comunista","tag-marx","tag-marxismo"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Marx.jpg","categories_names":["Hist\u00f3ria","TEORIA"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63414","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63414"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63414\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63415"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63414"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63414"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63414"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}