{"id":63371,"date":"2021-03-22T11:55:48","date_gmt":"2021-03-22T14:55:48","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63371"},"modified":"2021-03-22T11:55:48","modified_gmt":"2021-03-22T14:55:48","slug":"feminista-egipcia-nawal-el-saadawi-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/03\/22\/feminista-egipcia-nawal-el-saadawi-presente\/","title":{"rendered":"Feminista eg\u00edpcia Nawal El Saadawi presente!"},"content":{"rendered":"<p><em>Faleceu neste dia 21 de mar\u00e7o aos 89 anos de idade, deixando um mundo ainda a levar adiante sua luta e legado grandioso, a\u00a0m\u00e9dica psiquiatra e\u00a0feminista eg\u00edpcia marxista Nawal El Saadawi\u00a0(1931-2021).<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Soraya Misleh<\/p>\n<p>Fundadora da Associa\u00e7\u00e3o de Solidariedade \u00e0s Mulheres \u00c1rabes e cofundadora da Associa\u00e7\u00e3o \u00c1rabe para Direitos Humanos, sua vida foi marcada pela coragem e rebeldia contra o sistema em que a opress\u00e3o machista \u00e9 a regra. \u201cN\u00e3o temo a morte\u201d, declarava numa entrevista no ano de 2018, em meio a amea\u00e7as que acompanharam sua trajet\u00f3ria inspiradora. Em outra, destacava: \u201cEles dizem: \u2018Voc\u00ea \u00e9 uma mulher selvagem\u00a0e\u00a0perigosa.\u2019 Eu estou dizendo a verdade. E a verdade \u00e9 selvagem e perigosa.\u201d<\/p>\n<p>Nawal deixou ao todo mais de 50 livros, 24 dos quais romances, publicados em diversos idiomas. Entre eles, \u201cA face oculta de Eva \u2013 As mulheres do mundo \u00e1rabe\u201d (Editora Global, 2002), o \u00fanico traduzido para o portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Nesta obra, ela aborda desde a luta das feministas anticoloniais \u00e1rabes contra a mutila\u00e7\u00e3o genital, um costume tribal no Norte da \u00c1frica do qual foi v\u00edtima aos seis anos de idade, at\u00e9 uma rica hist\u00f3ria de resist\u00eancia e protagonismo das mulheres de toda a regi\u00e3o, desde tempos imemoriais.<\/p>\n<p>Nascida numa aldeia nos arredores do Cairo, capital do Egito, em outubro de 1931, divorciou-se tr\u00eas vezes por se recusar a se submeter a casamentos infelizes, marcados pela opress\u00e3o machista. Com o \u00faltimo companheiro, tamb\u00e9m marxista e pai de seus dois filhos, permaneceu por 43 anos. Como conta em entrevista ao\u00a0The Guardian, costumava dizer que era o \u00fanico homem feminista que conhecia na face da Terra, at\u00e9 a decep\u00e7\u00e3o de descobrir que a tra\u00eda.<\/p>\n<p>Por suas ideias e obras, Nawal enfrentou, al\u00e9m de amea\u00e7as de morte, demiss\u00e3o do servi\u00e7o p\u00fablico de sa\u00fade em 1972; pris\u00e3o pol\u00edtica sob o governo eg\u00edpcio de Anwar Sadat em 1981, sendo libertada somente no ano seguinte, meses depois da morte desse ditador; cinco anos de ex\u00edlio nos Estados Unidos, entre 1991 e 1996; e banimento de suas publica\u00e7\u00f5es em seu pa\u00eds. Nunca se calou.<\/p>\n<p><strong>Feminismo anticolonial<\/strong><\/p>\n<p>Durante a revolu\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia iniciada em 2011 por p\u00e3o, justi\u00e7a e liberdade, Nawal era presen\u00e7a constante, ao lado de outras lutadoras, na Pra\u00e7a Tahir. Na vis\u00e3o orientalista predominante nos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, a ideologia difundida era de que a participa\u00e7\u00e3o feminina era novidade. Uma ideia que Nawal desconstr\u00f3i em seus escritos e declara\u00e7\u00f5es, nos quais tamb\u00e9m desmonta a associa\u00e7\u00e3o grosseira com fins coloniais entre opress\u00e3o de g\u00eanero e ser \u00e1rabe. Mais ainda, desmistifica a ideia de que esteja atrelada ao Isl\u00e3, revelando que tal opress\u00e3o se deve \u00e0 instrumentaliza\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o, usada como meio de domina\u00e7\u00e3o, mediante distintas interpreta\u00e7\u00f5es, de modo a favorecer o grupo pol\u00edtico hegem\u00f4nico.<\/p>\n<p>Em seu livro \u201cA face oculta de Eva \u2013 As mulheres do mundo \u00e1rabe\u201d, ela salienta: \u201cA hist\u00f3ria tem descrito, com falsidade, muitos dos fatos relacionados ao sexo feminino. As mulheres \u00e1rabes n\u00e3o s\u00e3o mentalmente deficientes, como os homens e a hist\u00f3ria, escrita por eles, tendem a afirmar, tampouco s\u00e3o fr\u00e1geis e passivas. Ao contr\u00e1rio, as \u00e1rabes mostraram resist\u00eancia ao sistema patriarcal centenas de anos antes que as americanas e europeias se lan\u00e7assem a essas mesmas lutas.\u201d Sistema esse que passou a predominar a partir do surgimento da no\u00e7\u00e3o de propriedade privada e divis\u00e3o de classes, como ensina Nawal em sua obra. Em tempos ancestrais, em que predominava o nomadismo e a agricultura de subsist\u00eancia, as mulheres detinham a igualdade em assuntos sociais, econ\u00f4micos e na esfera pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Protagonismo hist\u00f3rico<\/strong><\/p>\n<p>Em seu livro, Nawal descreve uma s\u00e9rie de acontecimentos que n\u00e3o deixam d\u00favidas de seu protagonismo hist\u00f3rico em diversas \u00e1reas \u2013 nos campos de batalha, na literatura, na poesia. Ela cita diversos nomes femininos que inclusive combateram nas fileiras do profeta Mohammad ou contra ele e seus seguidores, na era isl\u00e2mica. As pr\u00f3prias esposas do profeta eram exemplos de mulheres firmes, que n\u00e3o abriam m\u00e3o de seus direitos.<\/p>\n<p>Dando um salto no tempo at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, a escritora relata que no Egito foram as mulheres as primeiras a deflagrar greves, ocupar f\u00e1bricas e marchar por direitos. Participaram ativamente na revolu\u00e7\u00e3o nacional de 1919, contra o imperialismo brit\u00e2nico. No pa\u00eds, em 1923, foi fundada a Federa\u00e7\u00e3o das Mulheres. Em outra revolu\u00e7\u00e3o, em 1956, arrancaram o direito a voto.<\/p>\n<p>A autora complementa: \u201cO Egito n\u00e3o foi o \u00fanico pa\u00eds \u00e1rabe no qual a mulher participou ativamente na luta contra o imperialismo estrangeiro e a opress\u00e3o interna. A mulher em todo o mundo \u00e1rabe lutou ombro a ombro com o homem pela liberta\u00e7\u00e3o nacional e pela justi\u00e7a social.\u201d<\/p>\n<p>Na S\u00edria, no L\u00edbano e na Arg\u00e9lia, tiveram papel fundamental contra a ocupa\u00e7\u00e3o francesa. No Iraque, tamb\u00e9m se opuseram ao imperialismo e contribu\u00edram \u201cpara acelerar as transforma\u00e7\u00f5es sociais\u201d.<\/p>\n<p>Na Jord\u00e2nia, historicamente t\u00eam \u201corganizado a luta nas frentes sociais, pol\u00edticas ou econ\u00f4micas\u201d. No Sud\u00e3o, tiveram papel destacado no movimento nacional de liberta\u00e7\u00e3o contra os ingleses.<\/p>\n<p>No Kuwait, na L\u00edbia, no I\u00eamen, no Marrocos, t\u00eam dado sua contribui\u00e7\u00e3o por justi\u00e7a e liberdade.<\/p>\n<p>Na Palestina, foram pioneiras em protestar contra a instala\u00e7\u00e3o dos primeiros assentamentos sionistas ainda no final do s\u00e9culo XIX, com fins coloniais \u2013 e t\u00eam resistido aos mais de 70 anos de ocupa\u00e7\u00e3o israelense na linha de frente. \u201cA extensa lista de m\u00e1rtires serviria para encher as p\u00e1ginas de todo um cap\u00edtulo, mas entre as mais conhecidas est\u00e3o Leila Khaled, F\u00e1tima Bernaw, Amina Dahbour, Sadis Abou Ghazala e outras cujos feitos intr\u00e9pidos um dia ser\u00e3o admirados pelas futuras gera\u00e7\u00f5es de jovens e mulheres.\u201d<\/p>\n<p>Relegadas \u00e0s camadas sociais inferiores, as mulheres da regi\u00e3o, assim como em outras partes do globo, carregam o legado deixado por Nawal e se inspiram nessa mulher cuja vida foi extraordin\u00e1ria: v\u00eam assumindo a linha de frente na oposi\u00e7\u00e3o a esse status quo. Assim, ao longo dos s\u00e9culos, t\u00eam desempenhado papel fundamental nas lutas contra o colonialismo, a domina\u00e7\u00e3o, por direitos, justi\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o poderia ser diferente: acabar com a desigualdade de g\u00eanero \u00e9 bandeira crucial na transforma\u00e7\u00e3o dessas sociedades. \u00c9 o que ensinou Nawal: \u201cEnquanto os assuntos do Estado ou do poder administrativo forem delegados \u00e0 mulher dentro de uma estrutura social de classes, baseada no capitalismo e no sistema familiar patriarcal, homens e mulheres h\u00e3o de permanecer v\u00edtimas da explora\u00e7\u00e3o.\u201d Seguir em marcha para mudar esse estado de coisas \u00e9 a melhor maneira de homenagear Nawal El Saadawi. \u201cEu tenho um sonho desde crian\u00e7a: mudar o mundo.\u201d Esse sonho est\u00e1 vivo. Nawal, presente!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faleceu neste dia 21 de mar\u00e7o aos 89 anos de idade, deixando um mundo ainda a levar adiante sua luta e legado grandioso, a\u00a0m\u00e9dica psiquiatra e\u00a0feminista eg\u00edpcia marxista Nawal El Saadawi\u00a0(1931-2021).<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":70282,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3770,3493],"tags":[3771,260],"class_list":["post-63371","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-egito","category-mulheres","tag-nawal-el-saadawi","tag-soraya-misleh"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Soraya.jpg","categories_names":["Egito","Mulheres"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63371","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63371"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63371\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70282"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63371"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63371"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63371"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}