{"id":63368,"date":"2021-03-22T11:03:11","date_gmt":"2021-03-22T14:03:11","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63368"},"modified":"2021-03-22T11:03:11","modified_gmt":"2021-03-22T14:03:11","slug":"paris-operaria-armada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/03\/22\/paris-operaria-armada\/","title":{"rendered":"Paris oper\u00e1ria armada"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>As li\u00e7\u00f5es de uma p\u00e1gina gloriosa do movimento oper\u00e1rio<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Lenin e Trotsky n\u00e3o tinham d\u00favidas e sempre o repetiam: a vit\u00f3ria de Outubro de 1917 foi poss\u00edvel, tamb\u00e9m, gra\u00e7as ao estudo detalhado que os bolcheviques fizeram da Comuna de 1871[1].<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Francesco Ricci<\/p>\n<p>Por sua vez, o socialismo franc\u00eas, e sua hist\u00f3ria de revolu\u00e7\u00f5es (de 1789 a 1794, da d\u00e9cada de 30 do s\u00e9culo XIX a junho de 1848), foi uma das tr\u00eas fontes da pr\u00f3pria elabora\u00e7\u00e3o de Marx e Engels (junto com a economia inglesa, Ricardo, e a filosofia alem\u00e3: Hegel e Feuerbach).<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 importante estudar hoje a Comuna, suas conquistas e seus erros. N\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio ret\u00f3rico referente ao calend\u00e1rio de comemora\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 um estudo acad\u00eamico, mas um trabalho de estudo para buscar construir a vit\u00f3ria das futuras revolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>A noite dos canh\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Na noite de 17 a 18 de mar\u00e7o de 1871, ap\u00f3s serem enxotados para Belleville [bairro de Paris], os soldados do governo republicano de Thiers buscaram retomar os 271 canh\u00f5es e as 146 metralhadoras que a Guarda Nacional tinha instalado na colina de Montmartre com vista para Paris. Mas o proletariado, tendo na vanguarda os comit\u00eas de mulheres (entre elas, o da professora Louise Michel), bloquearam o caminho e convidaram os soldados a desobedecer \u00e0s ordens, e se levantarem contra os generais. \u00c9 o in\u00edcio da insurrei\u00e7\u00e3o que, sob a dire\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Central da Guarda Nacional, ocupa todos os pontos nevr\u00e1lgicos da cidade e se apodera do Hotel de Ville, sede do governo. O governo burgu\u00eas foge da capital e se refugia na vizinha Versalles.<\/p>\n<p><strong>A primeira estrutura do tipo \u00absovi\u00e9tico\u00bb da hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>A Guarda Nacional era uma velha institui\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o de 1789-1794. Mas se durante a primeira revolu\u00e7\u00e3o francesa foi essencialmente um instrumento da burguesia; se na revolu\u00e7\u00e3o de 1848 foi um dos instrumentos da contrarrevolu\u00e7\u00e3o burguesa contra a primeira insurrei\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria (junho); em 1871 foi outra coisa.<\/p>\n<p>Reconstitu\u00edda sobre novas bases em 1870, ap\u00f3s a derrota de Napole\u00e3o III na guerra contra os prussianos de Bismarck [2] que abriu as portas a uma nova Rep\u00fablica (dirigida por um governo burgu\u00eas), em 1871 era uma mil\u00edcia de oper\u00e1rios. Trezentos mil oper\u00e1rios armados em Paris constitu\u00edam, como escreveu Marx naqueles dias, o principal obst\u00e1culo \u00e0 burguesia. Um obst\u00e1culo \u00e0 tentativa do governo de obrigar os trabalhadores a pagar a crise econ\u00f4mica (e as d\u00edvidas da guerra). Por isso, Thiers j\u00e1 tinha tentado dispers\u00e1-la, reduzi-la, e em seguida, abolir os sal\u00e1rios, para depois desarm\u00e1-la.<\/p>\n<p>Esta nova Guarda Nacional, composta por oper\u00e1rios da ind\u00fastria e artes\u00e3os, era dotada de uma estrutura e organismos pr\u00f3prios [3]. Os oper\u00e1rios constitu\u00edam ent\u00e3o uma classe relativamente desenvolvida e com um alto grau de concentra\u00e7\u00e3o em Paris: 70.000 oper\u00e1rios trabalhavam nos estaleiros, outras grandes concentra\u00e7\u00f5es estavam na Govin, f\u00e1brica de locomotivas, na f\u00e1brica de armas do Louvre, etc. E a Guarda Nacional tinha uma configura\u00e7\u00e3o que antecipava, de certa forma, os conselhos de oper\u00e1rios e de soldados (os soviets) que nasceram na R\u00fassia durante a primeira revolu\u00e7\u00e3o de 1905 e, novamente, em fevereiro de 1917.<\/p>\n<p><strong>Dois meses de governo oper\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>A insurrei\u00e7\u00e3o e a tomada do pal\u00e1cio do governo e de Paris, a divis\u00e3o do ex\u00e9rcito e sua dissolu\u00e7\u00e3o como estrutura do dom\u00ednio capitalista, ou seja, a ruptura revolucion\u00e1ria do Estado burgu\u00eas, constituem os atos de nascimento do primeiro governo oper\u00e1rio da hist\u00f3ria. Um governo que durar\u00e1 somente dois meses.<\/p>\n<p>Dois meses que revolucionaram a sociedade em todos seus aspectos. Circulam cerca de cem jornais di\u00e1rios dos <em>communards<\/em>. As infinitas assembleias quotidianas para organizar o novo poder e, como os locais para as reuni\u00f5es n\u00e3o eram suficientes, os padres e seus crucifixos eram expulsos das igrejas, transformando cada espa\u00e7o em um instrumento para a administra\u00e7\u00e3o do poder oper\u00e1rio.<\/p>\n<p>Poucos dias ap\u00f3s a tomada do poder, depois da fuga dos parlamentares burgueses (eleitos pela nova Rep\u00fablica) para Versalles, o Comit\u00ea Central da Guarda Nacional convocou novas elei\u00e7\u00f5es para eleger n\u00e3o outro parlamento, mas exatamente uma Comuna (com cerca de noventa membros), que assumiu os poderes executivo, legislativo e judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>O governo oper\u00e1rio tomaria imediatamente uma s\u00e9rie de medidas: requisi\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas e sua reorganiza\u00e7\u00e3o sob o controle oper\u00e1rio, requisi\u00e7\u00e3o das casas vazias e sua concess\u00e3o aos trabalhadores, assist\u00eancia m\u00e9dica gratuita (e direito ao aborto para as mulheres), reforma integral da escola (n\u00e3o mais como instrumento da burguesia), expropria\u00e7\u00e3o dos bens da Igreja&#8230;<\/p>\n<p>Apenas uma parte destas medidas foi efetivamente realizada. Faltou tempo, faltou uma dire\u00e7\u00e3o de governo un\u00edvoca e coerente. Acima de tudo, era necess\u00e1rio defender imediatamente o novo poder do assalto das burguesias francesa e prussiana que, inimigas na guerra que rec\u00e9m tinha acabado, redescobriram uma unidade completa de inten\u00e7\u00f5es quando chegou a hora de esmagar a revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, cercando Paris com armas e invadindo-a para realizar um massacre sem precedentes (s\u00e3o mais de cem mil v\u00edtimas dos fuzilamentos sum\u00e1rios, dos julgamentos, das persegui\u00e7\u00f5es implementadas pela burguesia). Em 28 de maio de 1871, as tropas do governo Thiers (reconstitu\u00eddas com a ajuda de Bismarck) derrubavam a \u00faltima barricada e retomavam Paris.<\/p>\n<p><strong>Erros, limites e contradi\u00e7\u00f5es da Comuna<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo quando, imediatamente a definiram como \u201co maior acontecimento do movimento oper\u00e1rio\u201d, e trabalhando incessantemente para apoiar o desenvolvimento da luta at\u00e9 a morte contra a burguesia, Marx e Engels nunca renunciaram de apontar os erros e limites da Comuna, na tentativa (durante aqueles dois meses) de contribuir com corre\u00e7\u00f5es decisivas; e com a tentativa (ap\u00f3s a queda da Comuna) de difundir os ensinamentos, inclusive os negativos, para aproveitar as li\u00e7\u00f5es daquela derrota e avan\u00e7ar para novas e mais duradouras vit\u00f3rias.<\/p>\n<p>Em dezenas de cartas escritas naqueles dias, e em cada texto subsequente, os dois principais dirigentes comunistas do movimento revolucion\u00e1rio indicaram, em particular, alguns pontos que contribu\u00edram para o fracasso daquela grandiosa experi\u00eancia. Aqui, por raz\u00f5es de espa\u00e7o, indicaremos sumariamente as li\u00e7\u00f5es negativas que Marx apontou sobre a Comuna. Podemos resumi-las em dois pontos.<\/p>\n<p>Primeiro: as medidas econ\u00f4micas efetivamente implementadas pela Comuna (neste caso, especialmente por responsabilidade do componente proudhoniano, isto \u00e9, anarquista e reformista) foram insuficientes. Em particular, embora teorizando e praticando parcialmente a expropria\u00e7\u00e3o da propriedade burguesa dos meios de produ\u00e7\u00e3o, a Comuna se submeteu perante o Banco Nacional e pediu&#8230; um empr\u00e9stimo, em vez de tomar o pr\u00f3prio Banco.<\/p>\n<p>Segundo: as medidas pol\u00edtico-militares foram insuficientes, tardias e confusas. Em vez de atacar o governo que tinha fugido para Versalhes &#8211; antes que este tivesse tempo de se reorganizar e cercar Paris -, esperou e, demorou tamb\u00e9m na organiza\u00e7\u00e3o da defesa armada da capital, confiando-a em v\u00e1rios casos a oficiais incapazes e excedendo em generosidade contra os advers\u00e1rios que se preparavam com armas. O \u00abterror vermelho\u00bb contra os inimigos da revolu\u00e7\u00e3o foi, como lembra Engels, mais anunciado do que praticado, ou praticado com \u00abexcessiva bondade\u00bb. Em vez de dar prioridade \u00e0 extens\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o para outras grandes cidades francesas, \u00fanica forma para romper, de fato, o isolamento pol\u00edtico, a Comuna se fechou em si mesma, e o Comit\u00ea Central da Guarda Nacional \u00abperdeu tempo\u00bb (a express\u00e3o \u00e9 de Marx, retomada por Trotsky) querendo ceder o poder que tinha conquistado a uma estrutura eleita. Assim, convocou a elei\u00e7\u00f5es para a Comuna (formalmente atrav\u00e9s do \u00absufr\u00e1gio universal\u00bb, mas nas quais participaram, de fato, apenas os trabalhadores, visto que os burgueses tinham fugido em grande parte ou se mantiveram em sil\u00eancio).<\/p>\n<p><strong>Um \u00abponto de partida de import\u00e2ncia hist\u00f3rico\u00bb<\/strong><\/p>\n<p>Inclusive com suas contradi\u00e7\u00f5es, com seus limites e erros, em suas inten\u00e7\u00f5es subjetivas, expressas num sentido geral, lembra Marx, \u201ca Comuna foi o primeiro governo oper\u00e1rio da hist\u00f3ria\u201d, o primeiro governo dos trabalhadores que governou em favor dos trabalhadores. \u00c9 por isso Marx escreveu, pouco tempo antes da derrota, em uma carta a Kugelmann: \u00abSeja qual for o resultado imediato, um ponto de partida de import\u00e2ncia hist\u00f3rica universal foi conquistado\u00bb [4].<\/p>\n<p>A que estava se referindo Marx? Em particular, ao fato de que a Comuna tinha ensinado para sempre, na pr\u00e1tica (e isto valia mais que mil programas e textos), que os trabalhadores n\u00e3o podem simplesmente \u00abconquistar\u00bb o Estado da burguesia e \u00abconvert\u00ea-lo\u00bb aos seus interesses. Esse Estado, suas institui\u00e7\u00f5es, seu parlamento (mesmo o mais democr\u00e1tico), suas for\u00e7as armadas, devem ser \u00abeliminados\u00bb; n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria uma obra imposs\u00edvel de \u201creforma pac\u00edfica\u201d, \u00e9 necess\u00e1ria a ruptura revolucion\u00e1ria, isto \u00e9, a insurrei\u00e7\u00e3o e a guerra civil (cuja dura\u00e7\u00e3o e grau de intensidade e de viol\u00eancia dependem n\u00e3o de uma elei\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios, mas do grau de resist\u00eancia que as classes dominantes estar\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de contrapor para defender sua propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o e de troca).<\/p>\n<p>O Estado da burguesia, derrubado pela revolu\u00e7\u00e3o, deve ser substitu\u00eddo por um Estado diferente, baseado nos organismos de luta dos trabalhadores, um Estado oper\u00e1rio. A ditadura da burguesia (ditadura de uma \u00ednfima minoria sobre a grande maioria) necessita ser substitu\u00edda por uma ditadura do proletariado (que na sociedade constitui a grande maioria). Ou seja, outra economia, centralizada e planificada sobre a base das demandas da maioria, que n\u00e3o pode se basear na falsa e formal democracia burguesa e suas institui\u00e7\u00f5es: \u00e9 necess\u00e1rio outro Estado, outra democracia. Os oper\u00e1rios da Comuna, com sua her\u00f3ica (e infelizmente fracassada) tentativa indicaram, conclu\u00eda Marx, na pr\u00e1tica, pela primeira vez na hist\u00f3ria, \u00aba forma finalmente encontrada\u00bb da domina\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Pela primeira vez, constru\u00edram um governo oper\u00e1rio porque, pela primeira vez, destru\u00edram completamente o governo da burguesia, refutando a pol\u00edtica de colabora\u00e7\u00e3o de classes que, at\u00e9 ent\u00e3o (por exemplo, na Fran\u00e7a de fevereiro de 1848, com a entrada de Louis Blanc no governo burgu\u00eas), tinha levado os representantes oper\u00e1rios a ocupar cargos nos governos da burguesia e assim subordinar os interesses dos trabalhadores aos interesses burgueses, sacrificando a luta de classe aos supostos (e inexistentes) \u00abinteresses comuns\u00bb das classes.<\/p>\n<p>Foi realmente uma conquista \u00abte\u00f3rica\u00bb (imposta na pr\u00e1tica) de import\u00e2ncia fundamental. N\u00e3o \u00e9 por acaso que todas as vezes que o movimento oper\u00e1rio (guiado pelas dire\u00e7\u00f5es traidoras) abandonou essa \u00abconquista\u00bb e renunciou \u00e0 independ\u00eancia de classe em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 burguesia e seus governos acabou em um beco sem sa\u00edda. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o centro de toda pol\u00edtica reformista, isto \u00e9, contrarrevolucion\u00e1ria, sempre consistiu em fazer os trabalhadores acreditarem na colabora\u00e7\u00e3o do governo com o advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Toda a pol\u00edtica de trai\u00e7\u00e3o operada pela socialdemocracia no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, que levou a apoiar os governos burgueses empenhados no massacre da Primeira Guerra Mundial; toda a pol\u00edtica das chamadas \u00abfrentes populares\u00bb guiada pelo estalinismo dos anos trinta, que previa o apoio e a participa\u00e7\u00e3o direta nos governos burgueses; toda a pol\u00edtica da socialdemocracia nas d\u00e9cadas seguintes, at\u00e9 a vers\u00e3o (caricatural) representada pelo reformismo \u201coficialista\u201d contempor\u00e2neo; todas as derrotas a que o reformismo conduziu o movimento oper\u00e1rio repousam sobre a nega\u00e7\u00e3o da \u00abforma finalmente descoberta\u00bb pelos oper\u00e1rios parisienses. \u00c9 por isto que n\u00e3o s\u00f3 a burguesia, mas tamb\u00e9m o reformismo de todas as \u00e9pocas (e tamb\u00e9m os anarquistas) fazem de tudo para negar ou, pelo menos, para falsificar, essa p\u00e1gina da hist\u00f3ria. \u00c9 por isto que essa p\u00e1gina da hist\u00f3ria pertence inteiramente apenas aos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>Sem um partido comunista, nenhuma revolu\u00e7\u00e3o pode vencer e se desenvolver<\/strong><\/p>\n<p>Na nossa reconstru\u00e7\u00e3o da Comuna e de seus ensinamentos, embora necessariamente esquem\u00e1tica, seria inteiramente incompleta se n\u00e3o diss\u00e9ssemos algo sobre a principal causa (na opini\u00e3o de Marx, Lenin e Trotsky) de sua derrota. Todos os grandes l\u00edderes revolucion\u00e1rios que estudaram a Comuna concordam em dizer que ela fracassou pela aus\u00eancia de uma dire\u00e7\u00e3o, de um partido, coerentemente marxista. Nenhuma revolu\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria ocorreu \u00abespontaneamente\u00bb (a \u00abgera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea\u00bb n\u00e3o existe nem na natureza nem na pol\u00edtica). Sempre existem dire\u00e7\u00f5es: as qualidades dessas dire\u00e7\u00f5es determinam as possibilidades da vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De fato, todas as correntes da esquerda da \u00e9poca (neojacobinos, proudhonianos, anarquistas bakuninistas, blanquistas) estavam presentes na Comuna e, embora a maioria dos dirigentes fosse vinculada \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores (isto \u00e9, a Primeira Internacional), apenas uns poucos eram pr\u00f3ximos das posi\u00e7\u00f5es da maioria da Internacional. Ou seja, das posi\u00e7\u00f5es de Marx e Engels (os principais textos de Marx, do primeiro livro do <em>Capital<\/em>, publicado em 1867, eram substancialmente desconhecidos na Fran\u00e7a, inclusive pelos dirigentes <em>communards<\/em>).<\/p>\n<p>N\u00e3o faltaram, ent\u00e3o, organiza\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0s diversas correntes do movimento oper\u00e1rio. Existia inclusive um embri\u00e3o de partido (o Comit\u00ea Central dos Vinte Distritos, organiza\u00e7\u00e3o de militantes de vanguarda, baseada em um programa de oposi\u00e7\u00e3o de classe \u00e0 burguesia, nascido em setembro de 1870). Mas os poucos marxistas, presentes em v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es, e \u00e0s vezes (raramente) respons\u00e1veis por tarefas de dire\u00e7\u00e3o na Comuna, n\u00e3o dispunham ainda de seu pr\u00f3prio partido [5]. Isto explica a raz\u00e3o das oscila\u00e7\u00f5es, indecis\u00f5es, atrasos, e dos erros gigantescos na condu\u00e7\u00e3o da Comuna. E explica tamb\u00e9m por que Marx, algumas semanas antes da insurrei\u00e7\u00e3o parisiense, esperava que o tempo do confronto de classe (precipitado pelo ataque burgu\u00eas para desarmar a Guarda Nacional) permitisse aos oper\u00e1rios revolucion\u00e1rios construir o partido que necessitavam [6].<\/p>\n<p>O fracasso da Comuna foi o principal elemento que levou \u00e0 crise e, portanto, \u00e0 decis\u00e3o de dissolver a Primeira Internacional (baseada em uma \u00abing\u00eanua unidade de reformistas e revolucion\u00e1rios\u00bb, segundo a express\u00e3o de Engels) para dar vida a uma internacional e a partidos \u00abinteiramente marxistas\u00bb [7].<\/p>\n<p>Como Trotsky concluiu, foi justamente a presen\u00e7a, na R\u00fassia, de um partido \u00abinteiramente marxista\u00bb (o partido bolchevique) que permitiu que a Comuna de Petrogrado de 1917 n\u00e3o fosse massacrada como a de Paris, e que permitiu constituir, de forma n\u00e3o ef\u00eamera (embora tamb\u00e9m infelizmente destru\u00edda gra\u00e7as \u00e0 posterior obra do estalinismo), uma efetiva ditadura do proletariado [8].<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a principal li\u00e7\u00e3o deixada como heran\u00e7a pelos oper\u00e1rios que, h\u00e1 cento e cinquenta anos, formaram o primeiro governo oper\u00e1rio da hist\u00f3ria: as revolu\u00e7\u00f5es futuras tamb\u00e9m conseguir\u00e3o se impor e se desenvolver em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo somente se souberem como construir aqueles partidos coerentemente marxistas (isto \u00e9, hoje, trotskistas) e aquela internacional coerentemente comunista (isto \u00e9, hoje, a Quarta Internacional), que s\u00e3o instrumentos indispens\u00e1veis para derrubar o dom\u00ednio capitalista e vencer.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[1] Grande parte de <em>Estado e Revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, o livro que Lenin escreveu as v\u00e9speras da revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, e todos os principais textos (por exemplo, as \u00abTeses de Abril\u00bb) com os quais o dirigente bolchevique \u00abrearmou\u00bb programaticamente o partido para gui\u00e1-lo \u00e0 vit\u00f3ria, est\u00e3o permeados de refer\u00eancias \u00e0 Comuna de 1871.<\/p>\n<p>[2] Prussianos: da Pr\u00fassia, regi\u00e3o da Alemanha que, sob a dire\u00e7\u00e3o de Bismarck, comandou o processo de unifica\u00e7\u00e3o nacional alem\u00e3, derrotando a Fran\u00e7a, <em>ndt<\/em>.<\/p>\n<p>[3] No final de fevereiro de 1871, uma assembleia de dois mil delegados dos batalh\u00f5es da Guarda Nacional aprova sua constitui\u00e7\u00e3o na Federa\u00e7\u00e3o republicana. O primeiro ponto do programa \u00e9 a aboli\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito permanente e sua substitui\u00e7\u00e3o por uma mil\u00edcia dos trabalhadores. \u00c9 a proclama\u00e7\u00e3o da ruptura com o Estado burgu\u00eas e a forma de dissolver suas \u201cfor\u00e7as armadas\u201d, impondo-se como \u00fanica for\u00e7a armada.<\/p>\n<p>[4] Carta de Marx a Kugelmann, 17 de abril de 1871 (Edi\u00e7\u00e3o Brasileira: K. Marx e F. Engels, <em>Obras Escolhidas<\/em>, Alfa-\u00d4mega, volume 3, p. 263, <em>ndt<\/em>.).<\/p>\n<p>[5] Existia em Paris um representante direto da AIT, enviado por Marx, Serrailier. Al\u00e9m dele, Marx contava apenas com outro dirigente em Paris: o oper\u00e1rio de origem h\u00fangara Leo Frankel, e com alguns marxistas isolados, por exemplo, a jovem Elisabeth Dmitrieff, militante de origem russa, incentivada por Marx para ir a Paris, em mar\u00e7o de 1871, e que se tornar\u00e1 l\u00edder da Uni\u00e3o das Mulheres. Sabemos que Marx tamb\u00e9m mantinha correspond\u00eancia com Eugene Varlin (a figura mais interessante da Comuna) e que escreveu v\u00e1rias cartas ao pr\u00f3prio Varlin, a Serrailier e a Frankel (em grande parte perdidas).<\/p>\n<p>[6] \u201cUtilizemos com serenidade e determina\u00e7\u00e3o todas as possibilidades oferecidas pela liberdade republicana, para trabalhar na organiza\u00e7\u00e3o de classe. Isso dar\u00e1 novas for\u00e7as herc\u00faleas (&#8230;) para nossa obra comum, a emancipa\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d. Assim escreveu Marx no segundo \u00abManifesto do Conselho Geral da Internacional\u00bb (9 de setembro de 1870), na <em>Guerra Civil na Fran\u00e7a<\/em> (Edi\u00e7\u00e3o Brasileira: K. Marx e F. Engels, <em>Obras Escolhidas<\/em>, Alfa-\u00d4mega, volume 2, p. 57, <em>ndt<\/em>.).<\/p>\n<p>[7] Engels: \u00abEu acredito que a pr\u00f3xima Internacional, depois que os livros de Marx exercerem sua influ\u00eancia por alguns anos, ser\u00e1 puramente comunista e propagandear\u00e1 diretamente nossos princ\u00edpios\u201d (Carta a A. Sorge, 12 de setembro de 1874 (Edi\u00e7\u00e3o Brasileira: K. Marx e F. Engels, <em>Obras Escolhidas<\/em>, Alfa-\u00d4mega, volume 3, p. 275, <em>ndt<\/em>.).<\/p>\n<p>[8] Em diversos textos dos anos 30 (ver nota bibliogr\u00e1fica abaixo), Trotsky atualiza a an\u00e1lise cl\u00e1ssica de Marx e Lenin sobre a Comuna, e comenta como essa n\u00e3o foi uma efetiva ditadura do proletariado, mas apenas um embri\u00e3o: justamente porque, mesmo que estivesse presente um embri\u00e3o de soviet (o Comit\u00ea Central da Guarda Nacional), faltava um partido marxista de vanguarda que, enfrentando-se com as correntes reformistas (como os bolcheviques fizeram em 1917 contra os mencheviques e socialistas revolucion\u00e1rios &#8211; SR), destruindo-os politicamente, ganhasse os organismos de luta dos trabalhadores para um programa comunista coerente voltado para a ditadura do proletariado.<\/p>\n<p><strong>Leituras para conhecer a Comuna de 1871<\/strong><\/p>\n<p>Os interessados em aprofundar seus conhecimentos sobre a Comuna de 1871 podem utilizar este roteiro de leituras (infelizmente, com exce\u00e7\u00e3o da parte dos textos dos cl\u00e1ssicos do marxismo, a historiografia mais recente e interessante sobre esse tema est\u00e1 quase inteiramente em l\u00edngua francesa).<\/p>\n<p>1) Karl Marx, <em>A guerra civil na Fran\u00e7a<\/em> (encontrada em dezenas de edi\u00e7\u00f5es) cont\u00e9m os mais importantes textos escritos por Marx para a Primeira Internacional sobre a Guerra Franco-Prussiana e sobre a Comuna de Paris.<\/p>\n<p>2) V. I. Lenin, <em>Estado e Revolu\u00e7\u00e3o<\/em> (dispon\u00edvel em v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es). \u00c9 o texto fundamental de Lenin sobre o marxismo e o Estado. Um cap\u00edtulo inteiro est\u00e1 dedicado \u00e0 Comuna de 1871.<\/p>\n<p>3) V. I. Lenin, <em>A revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria e o renegado Kautsky<\/em>. \u00c9 sobre a pol\u00eamica contra Kautsky e sua concep\u00e7\u00e3o de um Estado abstrato colocado acima das classes. O tema da Comuna tamb\u00e9m aqui \u00e9 central.<\/p>\n<p>4) Leon Trotsky, \u201cLe lezioni della Comune\u201d (1921) [As li\u00e7\u00f5es da Comuna], pref\u00e1cio ao livro de C. Tal\u00e8s, <em>La Commune de Paris<\/em> (edi\u00e7\u00e3o italiana: Iskra, 1970).<\/p>\n<p>5) Leon Trotsky, <em>Terrorismo e comunismo<\/em>. \u00c9 um texto fundamental de Trotsky, escrito em 1919; constitui um segundo \u00abanti-Kautsky\u00bb, menos conhecido que o de Lenin. Mas, em certos aspectos \u00e9 ainda mais eficaz na defesa da ditadura do proletariado contra os ataques revisionistas do reformismo.<\/p>\n<p>6) Jean Bruhat, Jean Dautry, Emile Tersen, <em>La Comune de 1871<\/em> (edi\u00e7\u00e3o italiana: Editori Riuniti, 1971). \u00c9 seguramente a melhor hist\u00f3ria da Comuna, a mais confi\u00e1vel (embora suas opini\u00f5es nem sempre possam ser compartilhadas).<\/p>\n<p>7) Bernard Noel, <em>Dictionnaire de la Commune<\/em> [Dicion\u00e1rio da Comuna] (em franc\u00eas, M\u00e9moire du livre, 2000) \u00e9 um dicion\u00e1rio muito \u00fatil para n\u00e3o se perder entre eventos, protagonistas e nomes da Comuna.<\/p>\n<p>8) Charles Rihs, <em>La Commune de Paris, sa structure et ses doctrines<\/em> [A Comuna de Paris, sua estrutura e suas doutrinas] (em franc\u00eas, Ed. du Seuil, 1973). \u00c9 o melhor texto cr\u00edtico sobre a Comuna. Cont\u00e9m um estudo aprofundado das v\u00e1rias correntes do movimento oper\u00e1rio que participaram da Comuna e de seus conflitos.<\/p>\n<p>9) Jean Dautry, Lucien Scheler, <em>Le Comit\u00e9 Central R\u00e9publicain des vingt arrondissements de Paris<\/em> [O Comit\u00ea Central Republicano dos Vinte Distritos de Paris] (em franc\u00eas, Editions Sociales, 1960). \u00c9 um texto fundamental, ali\u00e1s, o \u00fanico que estuda de forma profunda aquele embri\u00e3o de partido oper\u00e1rio que nasce \u00e0s v\u00e9speras da Comuna e cujos dirigentes tiveram, individualmente, um papel central.<\/p>\n<p>10) Michel Cordillot: <em>Eugene Varlin<\/em> (em franc\u00eas, Ed. Ouvri\u00e8res, 1991): a biografia mais recente (e bem documentada) do dirigente oper\u00e1rio mais avan\u00e7ado da Comuna (sua aproxima\u00e7\u00e3o ao marxismo foi interrompida pelas balas da repress\u00e3o).<\/p>\n<p>11) Por fim, uma an\u00e1lise das posi\u00e7\u00f5es de Marx, Engels, Lenin e Trotsky sobre a Comuna (relidas \u00e0 luz das informa\u00e7\u00f5es sobre a Comuna fornecidas pela historiografia do s\u00e9culo XX) podem ser encontrada em: F. Ricci, <em>\u00abA Comuna de Paris (1871): precursora da Comuna de Petrogrado (1917)\u00bb<\/em>, publicado em portugu\u00eas e espanhol na revista <em>Marxismo Vivo n. 16<\/em>, 2007 e, em uma nova tradu\u00e7\u00e3o corrigida e melhorada, neste especial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As li\u00e7\u00f5es de uma p\u00e1gina gloriosa do movimento oper\u00e1rio Lenin e Trotsky n\u00e3o tinham d\u00favidas e sempre o repetiam: a vit\u00f3ria de Outubro de 1917 foi poss\u00edvel, tamb\u00e9m, gra\u00e7as ao estudo detalhado que os bolcheviques fizeram da Comuna de 1871[1].<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":63369,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3695,3542,8,10],"tags":[3768,46,3742,3769,459],"class_list":["post-63368","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-150-anos-da-comuna-de-paris","category-franca","category-historia","category-teoria","tag-estado-e-revolucao","tag-francesco-ricci","tag-governo-operario","tag-licoes-da-comuna-de-paris","tag-partido-revolucionario"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Barricade18March1871.jpg","categories_names":["150 anos da Comuna de Paris","Fran\u00e7a","Hist\u00f3ria","TEORIA"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63368","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63368"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63368\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63369"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63368"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63368"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63368"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}