{"id":63359,"date":"2021-03-19T16:59:20","date_gmt":"2021-03-19T19:59:20","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63359"},"modified":"2021-03-19T16:59:20","modified_gmt":"2021-03-19T19:59:20","slug":"63359-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/03\/19\/63359-2\/","title":{"rendered":"Greve Mundial pelo Clima| A ci\u00eancia alerta: o capitalismo est\u00e1 levando ao colapso ambiental"},"content":{"rendered":"<p><em>Neste dia 19 de mar\u00e7o ocorre a Greve Mundial pelo Clima. H\u00e1 mais de um ano, a pandemia assola o planeta e nos oferece uma pequena amostra gr\u00e1tis da cat\u00e1strofe ambiental provocada pelo capitalismo. Afinal, demonstrou que a devasta\u00e7\u00e3o dos ambientes naturais permite o escape de v\u00edrus da natureza e seu alastramento por um mundo cada vez mais urbanizado e que funciona como um \u00fanico organismo econ\u00f4mico com suas redes de fluxo de mercadorias e comunica\u00e7\u00e3o interligando todo o globo.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Jeferson Choma, do Opini\u00e3o Socialista<\/p>\n<p>N\u00e3o pense que essa ser\u00e1 nossa \u00faltima pandemia. Muitas outras vir\u00e3o, talvez ainda mais mort\u00edferas. O aquecimento global, suas consequ\u00eancias nos sistemas ecol\u00f3gicos, a acelerada destrui\u00e7\u00e3o de florestas tropicais, a explora\u00e7\u00e3o em escala inaudita da natureza e incapacidade imanente do capitalismo em resolver a crise ambiental que o pr\u00f3prio sistema produziu v\u00e3o conduzir a humanidade a um futuro infausto. E mesmo assim se costuma mais acreditar no fim do mundo do que na possibilidade de supera\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<p><strong>Os alertas da ci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>O vislumbre do que nos espera est\u00e1 em in\u00fameras pesquisas cient\u00edficas realizadas mundo afora e tamb\u00e9m nos modelos clim\u00e1ticos apresentados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC) das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>Utilizando um conjunto desses dados cient\u00edficos<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, o IPCC demonstrou que a temperatura m\u00e9dia da superf\u00edcie do planeta subiu cerca de 1\u00ba C desde o s\u00e9culo XIX, em 1880, sendo que a maior parte do aquecimento ocorreu no final da d\u00e9cada de 1970. O maior e mais r\u00e1pido aumento da temperatura global em mais de 800 mil anos, segundo amostras de gelo coletadas na Groenl\u00e2ndia. Em 2020, um estudo mostrou que temperatura m\u00e9dia dos oceanos subiu 450% nas \u00faltimas seis d\u00e9cadas, Tamb\u00e9m aponta que a eleva\u00e7\u00e3o da temperatura \u00e9 cada vez mais acelerada.<\/p>\n<p>Usando computadores, o IPCC faz simula\u00e7\u00e3o de quatro diferentes cen\u00e1rios sobre os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas poss\u00edveis de acontecer at\u00e9 2100. S\u00e3o os chamados \u201cRepresentative Concentration Pathways\u201d (RCPs), ou a trajet\u00f3ria de concentra\u00e7\u00e3o de gases de efeito estufa.<\/p>\n<p>De acordo com eles, se muito pouco ou nada for feito e as emiss\u00f5es de CO2 continuarem a crescer, a proje\u00e7\u00e3o do IPCC \u00e9 que a superf\u00edcie da Terra pode aquecer entre 2,6 \u00b0C e 4,8 \u00b0C ao longo deste s\u00e9culo, fazendo com que o n\u00edvel dos oceanos aumente entre 45 e 82 cent\u00edmetros, o que seria uma cat\u00e1strofe total. Liquidaria as cidades costeiras existentes, modificaria radicalmente o clima, desertificaria a Amaz\u00f4nia e promoveria a maior extin\u00e7\u00e3o de organismos vivos em mil\u00eanios.<\/p>\n<p>Os cientistas do IPCC alertam que limitar o aquecimento global entre 1,5 \u00baC e 2 \u00baC seria o caminho mais racional. Mas para isso \u00e9 preciso diminuir as emiss\u00f5es de gases-estufa em 45% at\u00e9 2030 e chegar a zero em torno de 2050.<\/p>\n<p>Mas essa proje\u00e7\u00e3o apenas seria poss\u00edvel caso haja uma substitui\u00e7\u00e3o da matriz energ\u00e9tica mundial, diminuindo consideravelmente a emiss\u00e3o de CO2 de modo que chegasse a zero em 2100, aliada a grandes programas de reflorestamentos para sequestro de carbono e acordos clim\u00e1ticos rigorosos que garantam efetivamente o cumprimento das metas. Tal sa\u00edda seria racional. Mas o capitalismo n\u00e3o \u00e9 racional. Estamos em 2021 e nem sequer um, apenas um munic\u00edpio em todo o planeta, come\u00e7ou a implementar esse tipo de medida.<\/p>\n<p><strong>Um novo mundo apocal\u00edptico<\/strong><\/p>\n<p>Finalizado em 2014, o Quinto Relat\u00f3rio de Avalia\u00e7\u00e3o do IPCC das Na\u00e7\u00f5es Unidas apresenta proje\u00e7\u00f5es de como ser\u00e1 o novo mundo afetado pelas mudan\u00e7as do clima. Algumas de suas conclus\u00f5es foram: o aumento da temperatura global da superf\u00edcie at\u00e9 o final do s\u00e9culo XXI pode exceder os 1,5 \u00b0 C em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo de 1850 a 1900 e, para a maioria dos cen\u00e1rios, \u00e9 prov\u00e1vel que exceda 2 \u00b0C. Assim, o ciclo da \u00e1gua mudar\u00e1 em todo o planeta, com aumentos na disparidade entre as regi\u00f5es \u00famidas e secas, bem como as esta\u00e7\u00f5es \u00famidas e secas. Os oceanos continuar\u00e3o a aquecer, afetando os padr\u00f5es de circula\u00e7\u00e3o. A cobertura de gelo do Mar \u00c1rtico continuar\u00e1 diminuindo, e o n\u00edvel do mar continuar\u00e1 a se elevar a uma taxa superior \u00e0s das \u00faltimas quatro d\u00e9cadas; o aumento da absor\u00e7\u00e3o pelos oceanos ampliar\u00e1 a acidifica\u00e7\u00e3o dos oceanos, comprometendo a fauna marinha. Por fim, conclui que a temperatura do planeta continuar\u00e1 a subir em raz\u00e3o do CO2 acumulado, o que significa que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas continuar\u00e3o mesmo se as emiss\u00f5es forem interrompidas. Mesmo que o capitalismo seja superado, o aquecimento global ser\u00e1 sua heran\u00e7a por s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Essas proje\u00e7\u00f5es t\u00eam como base o mundo real observado. Mas em poucos anos algumas delas j\u00e1 s\u00e3o constatadas e medidas em v\u00e1rias partes do planeta, por meio do aumento da frequ\u00eancia e intensidade de fen\u00f4menos clim\u00e1ticos. Entre elas, as elevadas ondas de calor mundo afora.<\/p>\n<p>A \u00faltima d\u00e9cada demonstrou que as ondas de calor j\u00e1 est\u00e3o cada fez mais frequentes e podem ser constatadas no aumento de inc\u00eandios florestais pelo mundo, como no Alasca e Indon\u00e9sia, em 2015; no Canad\u00e1, Calif\u00f3rnia e Espanha, em 2016; no Chile e Portugal, em 2017; na Austr\u00e1lia e Sib\u00e9ria, em 2019; no Pantanal, Amaz\u00f4nia e, novamente, na Calif\u00f3rnia, em 2020. Com base nos 18 anos de dados sobre inc\u00eandios florestais globais da Nasa e do Sistema Copernicus, da Uni\u00e3o Europeia, concluiu-se que os que ocorreram na Austr\u00e1lia, no \u00c1rtico siberiano, na costa oeste dos Estados Unidos e no Pantanal brasileiro foram os maiores de todos os tempos. Na costa oeste dos EUA, grandes inc\u00eandios florestais t\u00eam ocorrido quase cinco vezes com mais frequ\u00eancia atualmente do que nos anos 1970 e 1980.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio do IPCC ainda explana sobre ondas mortais de calor que se tornar\u00e3o mais constantes e v\u00e3o afetar os solos e as \u00e1guas, inviabilizando o cultivo agr\u00edcola em vastas regi\u00f5es tropicais, al\u00e9m de provocar imensas ondas de refugiados clim\u00e1ticos. A ONU estima que mais de 250 milh\u00f5es de pessoas ser\u00e3o levadas a se deslocar no curso deste s\u00e9culo, em raz\u00e3o das mudan\u00e7as no clima.<\/p>\n<p>Nesse caso, a Indon\u00e9sia, as Filipinas, o norte e nordeste do Brasil, a Venezuela, o Sri Lanka, o sul da \u00cdndia, a Nig\u00e9ria, a maior parte da \u00c1frica Ocidental e o norte da Austr\u00e1lia enfrentar\u00e3o mais de 300 dias de ondas de calor potencialmente letais todos os anos. Isso significa que nessas regi\u00f5es a agricultura e as atividades econ\u00f4micas seriam impratic\u00e1veis, e gradativamente se tornar\u00e3o desabitadas.<\/p>\n<div id=\"attachment_63363\" style=\"width: 522px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-63363\" class=\"wp-image-63363 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/grafico-ipcc.jpg\" alt=\"\" width=\"512\" height=\"243\" \/><p id=\"caption-attachment-63363\" class=\"wp-caption-text\">Gr\u00e1fico do IPCC que apresenta dois cen\u00e1rios sobre o aquecimento global. Em azul o cen\u00e1rio mais positivo de estabilidade clim\u00e1tica, caso mudan\u00e7as radiais sejam feitas nessa d\u00e9cada na substitui\u00e7\u00e3o da matriz energ\u00e9tica. Em vermelho o cen\u00e1rio mais pessimista indica uma eleva\u00e7\u00e3o da temperatura em quase 6 graus Celsius at\u00e9 2100, caso nada seja feito<\/p><\/div>\n<p><strong>Ver para crer?<\/strong><\/p>\n<p>Em tempos de negacionismo cient\u00edfico, muitos s\u00e3o, no m\u00ednimo, reticentes aos alertas do IPCC. Se a quest\u00e3o \u00e9 ver para crer, n\u00e3o temos problemas. As evid\u00eancias tamb\u00e9m est\u00e3o ao alcance dos olhos, ou mais precisamente, das imagens feitas por sat\u00e9lites que orbitam a Terra e permitem uma vis\u00e3o global das suas consequ\u00eancias, ao reunir um conjunto de dados durante muitos anos que revelam os sinais concretos de um clima em transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 do espa\u00e7o, por exemplo, que medimos as grandes extens\u00f5es de geleiras recuando em quase todo o mundo, incluindo os Alpes, o Himalaia, os Andes, as Montanhas Rochosas, o Alasca e a \u00c1frica. \u00c9 poss\u00edvel saber que desde meados da d\u00e9cada de 1970, a massa das geleiras teve uma perda acelerada de gelo. O processo \u00e9 acelerado. A cada d\u00e9cada, a taxa quase duplicava em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s da d\u00e9cada anterior, diminuindo as \u00e1reas de superf\u00edcie da geleira.<\/p>\n<div id=\"attachment_63364\" style=\"width: 490px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-63364\" class=\"wp-image-63364 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/grafico-2.png\" alt=\"\" width=\"480\" height=\"340\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/grafico-2.png 480w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/grafico-2-300x213.png 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/grafico-2-150x106.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 480px) 100vw, 480px\" \/><p id=\"caption-attachment-63364\" class=\"wp-caption-text\">Gr\u00e1fico do IPCC que apresenta 4 cen\u00e1rios sobre o aquecimento global e suas consequ\u00eancia na eleva\u00e7\u00e3o dos oceanos ( eixo vertical). O RCP 2.6 \u00e9 o cen\u00e1rio mais otimista. O RCP 8.5 representa proje\u00e7\u00e3o sobre o futuro caso se mantenhas as atuais emiss\u00f5es de CO2.<\/p><\/div>\n<p>Dados do programa Gravity Recovery and Climate Experiment da Nasa mostram que a Groenl\u00e2ndia perdeu uma m\u00e9dia de 286 bilh\u00f5es de toneladas de gelo por ano entre 1993 e 2016, enquanto a Ant\u00e1rtica perdeu aproximadamente 127 bilh\u00f5es de toneladas no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>O clima mais quente nos pr\u00f3ximos anos pode liberar uma parte significativa do carbono aprisionado no permafrost do \u00c1rtico, potencializando o aquecimento e seus efeitos sobre todo o planeta. Recentemente pesquisadores inferiram que, para cada aumento de um grau Celsius na temperatura m\u00e9dia da Terra, o permafrost possa liberar o equivalente a quatro a seis anos de emiss\u00f5es de carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s natural<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>O permafrost \u00e9 um tipo de solo encontrado no norte da R\u00fassia e no Canad\u00e1, constitu\u00eddo por mat\u00e9ria org\u00e2nica permanentemente congelada. \u00c9 uma bomba rel\u00f3gio clim\u00e1tica. O descongelamento do solo provoca a r\u00e1pida decomposi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria org\u00e2nica e a emiss\u00e3o de g\u00e1s metano e di\u00f3xido de carbono. Estima-se que o permafrost cont\u00e9m at\u00e9 1,6 mil gigatoneladas de carbono. S\u00f3 para efeito de compara\u00e7\u00e3o, estima-se que a atmosfera cont\u00e9m 720 bilh\u00f5es de toneladas de CO2.<\/p>\n<p>O grande problema \u00e9 que o permafrost est\u00e1 derretendo cada vez mais r\u00e1pido. O resultado \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de imensas crateras de onde saem exemplares f\u00f3sseis da megafauna do pleistoceno<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. H\u00e1 v\u00e1rias cidades do extremo norte da R\u00fassia cujo solo est\u00e1 liquefazendo, provocando desmoronamento de edifica\u00e7\u00f5es, estradas etc., em raz\u00e3o ao r\u00e1pido degelo do solo<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<div id=\"attachment_63365\" style=\"width: 771px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-63365\" class=\"wp-image-63365 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Cratera-provocada-pelo-descongelamento-do-permafrost-na-Russia..jpg\" alt=\"\" width=\"761\" height=\"653\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Cratera-provocada-pelo-descongelamento-do-permafrost-na-Russia..jpg 761w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Cratera-provocada-pelo-descongelamento-do-permafrost-na-Russia.-300x257.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Cratera-provocada-pelo-descongelamento-do-permafrost-na-Russia.-150x129.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Cratera-provocada-pelo-descongelamento-do-permafrost-na-Russia.-696x597.jpg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 761px) 100vw, 761px\" \/><p id=\"caption-attachment-63365\" class=\"wp-caption-text\">Cratera provocada pelo descongelamento do permafrost na R\u00fassia.<\/p><\/div>\n<p>s oceanos s\u00e3o o maior sumidouro de carbono, absorvendo 25% do CO2 da atmosfera. Por isso, o aumento das emiss\u00f5es tem provocado um processo de acidifica\u00e7\u00e3o. Estima-se que a acidez das \u00e1guas superficiais dos oceanos aumentou mais de 30% em rela\u00e7\u00e3o aos n\u00edveis pr\u00e9-industriais. E se as emiss\u00f5es de CO2 continuarem nos n\u00edveis atuais, a previs\u00e3o \u00e9 que aumente em 170% at\u00e9 2100. Esse processo afeta a produ\u00e7\u00e3o do plancton marinho, base de toda cadeia tr\u00f3fica dos oceanos. O fim do plancton \u00e9 o fim da vida marinha.<\/p>\n<p>J\u00e1 h\u00e1 uma estimativa de que o n\u00famero de peixes ao redor do mundo foi reduzido em 4% desde 1930. Em algumas regi\u00f5es, como no Mar do Jap\u00e3o e no Mar do Norte, a redu\u00e7\u00e3o foi de 35% <a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. A redu\u00e7\u00e3o da disponibilidade de peixes vai afetar quase a metade da humanidade. Estima-se que hoje pelo menos 3 bilh\u00f5es de pessoas t\u00eam o peixe como principal fonte de prote\u00edna.<\/p>\n<p>A queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis e, principalmente, a agricultura tamb\u00e9m romperam com o ciclo natural do nitrog\u00eanio. E uma maior quantidade de nitrog\u00eanio acaba contribuindo indiretamente para emiss\u00e3o de gases-estufa. O desmedido uso de fertilizantes qu\u00edmicos liberou nitrog\u00eanio reativo na atmosfera, sob a forma de \u00f3xido n\u00edtrico (NO) e di\u00f3xido de nitrog\u00eanio (NO2). Entre 1970 at\u00e9 meados da d\u00e9cada de 1990, a produ\u00e7\u00e3o de nitrog\u00eanio reativo para fertilizantes ou como subproduto da combust\u00e3o de combust\u00edveis dobrou, passando de cerca de 70 milh\u00f5es para 140 milh\u00f5es de toneladas\/ano. Desse modo, a produ\u00e7\u00e3o de nitrog\u00eanio reativo \u00e9 maior do que a capacidade de absor\u00e7\u00e3o pelo planeta por meio do seu ciclo natural, que \u00e9 da ordem de 130 milh\u00f5es de toneladas\/ano<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>No mundo capitalista nenhum acordo clim\u00e1tico deu certo, nem poder\u00e1 dar. Todos naufragaram, a despeito dos dados que se avolumam. Enquanto isso, a ci\u00eancia caminha de olhos abertos perante a evolu\u00e7\u00e3o da cat\u00e1strofe clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Talvez a tr\u00e1gica hist\u00f3ria de Cassandra da mitologia grega seja apropriada para descrever os constantes, pertinentes e inc\u00f4modos alertas cient\u00edficos. Na mitologia, a profetisa se recusou a dormir com Apolo e, por vingan\u00e7a dele, foi amaldi\u00e7oada: teria o dom de ver o futuro, mas ningu\u00e9m jamais acreditaria nas suas profecias. Cassandra previu a queda de Troia e todos zombaram dela.<\/p>\n<p><strong>A sa\u00edda \u00e9 o fim do capitalismo<\/strong><\/p>\n<p>A luta em defesa da \u00e1gua, dos solos e dos sistemas ecol\u00f3gicos precisa ser acompanhada pela estrat\u00e9gia de superar o sistema capitalista e apontar para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista, em que a classe trabalhadora tenha poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Dizer que a culpa da situa\u00e7\u00e3o atual \u00e9 do \u201ccomportamento humano\u201d em geral, ou fundamentalmente dos h\u00e1bitos de consumo individual, \u00e9 mascarar a realidade. A mudan\u00e7a clim\u00e1tica tem respons\u00e1veis com nome e sobrenome. Apenas 100 grandes empresas s\u00e3o respons\u00e1veis \u200b\u200bpor 70% das emiss\u00f5es globais desde 1988, segundo o Climate Accountability Institute.<\/p>\n<p>O capitalismo cria um modo de vida a fim de maximizar o uso de bens e fatores produtivos, o que repercute na disposi\u00e7\u00e3o de meios de vida. Cria padr\u00f5es de consumo para que se vendam mercadorias. Mudan\u00e7as individuais de consumo s\u00e3o insuficientes e n\u00e3o v\u00e3o alterar o sistema. Mudan\u00e7as do modo de vida e dos h\u00e1bitos s\u00f3 s\u00e3o realiz\u00e1veis quando se alteram totalmente as rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>A luta pelo meio ambiente \u00e9 uma luta pela supera\u00e7\u00e3o do capitalismo e pela constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista que ponha fim \u00e0 explora\u00e7\u00e3o irracional e \u00e0 pilhagem do planeta. Uma sociedade socialista, baseada na propriedade social dos meios de produ\u00e7\u00e3o, mas que tamb\u00e9m promova uma revolu\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas, pois, sob o capitalismo, elas se convertem em for\u00e7as destrutivas. \u00c9 ing\u00eanuo pensar que a tecnologia nos salvar\u00e1, assim como \u00e9 ing\u00eanuo pensar que foi o desenvolvimento tecnol\u00f3gico que produziu a cat\u00e1strofe ambiental. Uma sociedade socialista precisa criar novas tecnologias voltadas para o bem-estar da humanidade, restabelecer o metabolismo social e uma rela\u00e7\u00e3o racional com os processos naturais.<\/p>\n<p>Mais do que nunca se fazem atuais as palavras de Engels: <em>\u201cOs fatos nos lembram a cada passo que n\u00e3o reinamos sobre a natureza, como um conquistador reina sobre um povo estrangeiro, ou seja, como algu\u00e9m que esteja fora da natureza, mas que pertencemos a ela (\u2026) todo nosso dom\u00ednio sobre ela reside na vantagem que possu\u00edmos, sobre outras criaturas, de conhecermos as suas leis e de podermos usar esse conhecimento judiciosamente (\u2026). Quanto mais avan\u00e7a esse conhecimento, mais os homens n\u00e3o s\u00f3 se sentir\u00e3o, mas saber\u00e3o que fazem parte de uma unidade com a natureza, e mais se tornar\u00e1 insustent\u00e1vel a ideia absurda e contranatural de oposi\u00e7\u00e3o entre esp\u00edrito e mat\u00e9ria, entre homem e natureza\u201d<\/em> (A dial\u00e9tica da natureza).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ver todos os relat\u00f3rios aqui: https:\/\/www.ipcc.ch\/reports\/<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ver em\u00a0 https:\/\/royalsocietypublishing.org\/doi\/full\/10.1098\/rsta.2014.0423.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A megafauna do pleistoceno era formada por animais gigantes que convieram com o homem h\u00e1 mais de 11 mil anos, entre eles: os tigres-de-dente-de-sabre, mamutes, as pregui\u00e7as-gigante, as antas, tatus-gigantes e outros.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Essa poderosa fonte de emiss\u00e3o s\u00f3 foi considerada pelo Painel Intergovernamental de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas da ONU recentemente, em 2014, no quinto relat\u00f3rio de proje\u00e7\u00f5es das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Mas, na verdade, ainda h\u00e1 poucos estudos que possam dar a real dimens\u00e3o dessa caixa de Pandora clim\u00e1tica e de quanto estrago ela pode efetivamente causar<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ver em\u00a0 <a href=\"https:\/\/science.sciencemag.org\/content\/363\/6430\/930\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/science.sciencemag.org\/content\/363\/6430\/930<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ver em <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0100-40422013000900032\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0100-40422013000900032<\/a>. Ver tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/461472a\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.nature.com\/articles\/461472a<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste dia 19 de mar\u00e7o ocorre a Greve Mundial pelo Clima. H\u00e1 mais de um ano, a pandemia assola o planeta e nos oferece uma pequena amostra gr\u00e1tis da cat\u00e1strofe ambiental provocada pelo capitalismo. Afinal, demonstrou que a devasta\u00e7\u00e3o dos ambientes naturais permite o escape de v\u00edrus da natureza e seu alastramento por um mundo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":63367,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3498,31,3766,3767,30],"tags":[3496,3764,3765,633],"class_list":["post-63359","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-crise-climatica-e-ambiental","category-ecologia","category-meio-ambiente","category-mudancas-climaticas","category-coronavirus","tag-aquecimento-global","tag-crise-climatica-e-ambiental","tag-greve-pelo-clima-2021","tag-jeferson-choma"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/saude-ambiental-1.jpg","categories_names":["Crise clim\u00e1tica e ambiental","Ecolog\u00eda","Meio Ambiente","Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas","Pandemia"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63359","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63359"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63359\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63367"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63359"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63359"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63359"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}