{"id":63210,"date":"2021-03-02T12:17:17","date_gmt":"2021-03-02T15:17:17","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63210"},"modified":"2021-03-02T12:17:17","modified_gmt":"2021-03-02T15:17:17","slug":"63210-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/03\/02\/63210-2\/","title":{"rendered":"As tend\u00eancias da economia mundial depois da recess\u00e3o de 2020"},"content":{"rendered":"<p><em>O ano de 2020 foi terr\u00edvel para os trabalhadores de todo o mundo. A combina\u00e7\u00e3o entre a pior pandemia desde a gripe espanhola de 1918 e a pior recess\u00e3o mundial desde 1929, trouxe a morte de 2,5 milh\u00f5es de pessoas (em n\u00fameros oficiais, devem ser muitos mais) e centenas de milh\u00f5es de desempregados.\u00a0No entanto, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa para a grande burguesia. A maioria das grandes empresas est\u00e3o sendo salvas da fal\u00eancia pela ajuda dos planos dos governos, de dimens\u00f5es historicamente in\u00e9ditas. Mais ainda, um setor do grande capital se fortaleceu e enriqueceu ainda mais na crise.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Eduardo Almeida<\/p>\n<p>E, o que \u00e9 ainda pior: existem fortes sinais de que a burguesia est\u00e1 usando a crise para desenvolver tend\u00eancias que j\u00e1 existiam antes da crise, e que podem possibilitar um novo reascenso da economia capitalista.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>A onda descendente<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Trotsky: \u201cO equil\u00edbrio capitalista \u00e9 um fen\u00f4meno extremamente complexo. O regime capitalista constr\u00f3i esse equil\u00edbrio, rompe-o, restaura-o s\u00f3 para romp\u00ea-lo novamente, ampliando, assim, os limites de seu dom\u00ednio.<\/p>\n<p>Na esfera econ\u00f4mica, essas constantes rupturas e restaura\u00e7\u00f5es do equil\u00edbrio assumem a forma de crises e booms.<\/p>\n<p>Na esfera das rela\u00e7\u00f5es entre classes, a ruptura do equil\u00edbrio consiste em greves, lockouts e luta revolucion\u00e1ria. Na esfera das rela\u00e7\u00f5es entre Estados, a quebra do equil\u00edbrio se traduz em guerra, ou, mais sorrateiramente, a guerra das tarifas alfandeg\u00e1rias, a guerra econ\u00f4mica ou o bloqueio. O capitalismo possui, portanto, um equil\u00edbrio din\u00e2mico, que est\u00e1 sempre em processo de ruptura ou restaura\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, tal equil\u00edbrio possui grande poder de resist\u00eancia; a melhor prova que temos disso \u00e9 que o mundo capitalista ainda existe.\u201d (A situa\u00e7\u00e3o mundial, 1921)<\/p>\n<p>Esses pontos de equil\u00edbrio definidos por Trotsky podem ser associados \u00e0s ondas longas ascendentes da economia capitalista e os de desequil\u00edbrio \u00e0s ondas descendentes.<\/p>\n<p>O marco mais geral da crise atual \u00e9 o de uma onda descendente da economia mundial, que vem desde a crise de 2007-09 e se estende at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p>Antes existiu uma onda ascendente com a \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d nos anos 80 e 90 do s\u00e9culo passado, que veio junto com os planos neoliberais em todo o mundo, a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na China e leste europeu e um forte retrocesso nas condi\u00e7\u00f5es de vida do proletariado. Naquele per\u00edodo de ascenso da economia capitalista, a China foi incorporada na divis\u00e3o mundial do trabalho, como \u201cf\u00e1brica do mundo\u201d.<\/p>\n<p>A recess\u00e3o mundial de 2007-09 marcou o in\u00edcio da onda descendente atual. Quase levou a uma depress\u00e3o como a de 1929, mas a burguesia respondeu com uma brutal inje\u00e7\u00e3o de dinheiro p\u00fablico nas grandes empresas. Houve algumas fal\u00eancias, como a do Lehman Brothers, mas a maioria dos grandes bancos foi salva, assim como ind\u00fastrias (GM, por exemplo) e outros setores.<\/p>\n<p>No entanto, a mesma interven\u00e7\u00e3o dos governos que salvou o grande capital, limitou sua retomada depois da crise. Impediu a fal\u00eancia do capital velho, das empresas que n\u00e3o conseguiam alcan\u00e7ar a taxa m\u00e9dia de lucros que rege o capital, que \u00e9 a din\u00e2mica de destrui\u00e7\u00e3o de for\u00e7as produtivas normal na economia capitalista. Isso limitou um crescimento mais din\u00e2mico depois da crise.<\/p>\n<p>A onda descendente ampliou o conflito entre os estados. No per\u00edodo de ascenso da globaliza\u00e7\u00e3o, as rela\u00e7\u00f5es entre as grandes potencias apontaram para um ponto de maior equil\u00edbrio, com a cria\u00e7\u00e3o de acordos internacionais de com\u00e9rcio e o fortalecimento das institui\u00e7\u00f5es como a OMC. Na onda descendente, os conflitos inter imperialistas se agudizaram, muitos desses acordos foram questionados (como o Brexit), e a pr\u00f3pria OMC est\u00e1 quase paralisada.<\/p>\n<p>O governo Trump- e os conflitos causados por ele- s\u00e3o uma express\u00e3o dessa realidade. Deixando de lado o debate sobre o car\u00e1ter atual da China, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas que a \u201cguerra comercial\u201d entre EUA e China \u00e9 o ponto mais \u00e1lgido desse desequil\u00edbrio entre o grande capital.<\/p>\n<p>A China cresceu muito nesses \u00faltimos trinta anos, j\u00e1 \u00e9 a segunda economia mundial e uma grande exportadora de capitais. N\u00e3o cabe mais no lugar reservado a ela antes na globaliza\u00e7\u00e3o, e isso se choca com os interesses do imperialismo norte americano em decad\u00eancia. O conflito entre EUA e China \u00e9 parte fundamental desse desequil\u00edbrio da onda descendente.<\/p>\n<p>\u00c9 importante tamb\u00e9m real\u00e7ar que esse desequil\u00edbrio se manifesta na luta de classes, com in\u00fameras crises pol\u00edticas e a eclos\u00e3o de ascensos revolucion\u00e1rios (Chile, Hong Kong e outros), assim como de golpes militares (na Bol\u00edvia, por exemplo).<\/p>\n<p>Essa onda descendente \u00e9, portanto, o marco mais geral necess\u00e1rio para o entendimento da recess\u00e3o mundial de 2020.<\/p>\n<p>Por um lado, expressa sua gravidade, por existirem duas recess\u00f5es mundiais grav\u00edssimas em curto espa\u00e7o de tempo (2007-09 e 2020).<\/p>\n<p>Por outro, n\u00e3o se pode simplesmente apontar uma tend\u00eancia catastrofista, como se o capitalismo n\u00e3o tivesse sa\u00eddas. Ao contr\u00e1rio, o grande capital est\u00e1 buscando ativamente retomar um novo ponto de equil\u00edbrio, que permita uma nova onda ascendente, como a passada, da globaliza\u00e7\u00e3o. Como buscaremos demonstrar nesse artigo, est\u00e1 buscando usar a crise e a pandemia para apontar nesse sentido.<\/p>\n<p><strong>As fases da crise<\/strong><\/p>\n<p>O ano de 2020 teve diversas fases bem marcadas da crise econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, antes mesmo da pandemia, j\u00e1 existiam sinais evidentes de uma nova recess\u00e3o mundial, com queda na taxa de lucros nas principais economias capitalistas. A pandemia acelerou e agravou todos esses elementos.<\/p>\n<p>No primeiro trimestre de 2020, a queda do PIB nos EUA foi de 1,3%, na zona euro de 3,7%, no Jap\u00e3o 0,6%. Na China, foi de 6,8%, a primeira desde a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<p>No segundo trimestre, houve um agravamento brutal da crise, em fun\u00e7\u00e3o de um elemento extra econ\u00f4mico- a pandemia- que levou a uma paralisia por quarentenas de 40 a 50% da popula\u00e7\u00e3o mundial, algo nunca ocorrido.<\/p>\n<p>A queda do PIB dos EUA foi de 9,5% (32,9% em termos anualizados, a pior desde a depress\u00e3o de 29). O PIB dos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia caiu 11,9% (14,4% em termos anualizados), com a Alemanha caindo 10,1%, a Fran\u00e7a 13,8%, It\u00e1lia 12,4%, Portugal 14,1% e Espanha 18,5% (a maior queda desde a guerra civil). A exce\u00e7\u00e3o entre as economias capitalistas mais importantes pot\u00eancias foi a China, que cresceu 3,2% no segundo trimestre.<\/p>\n<p>A partir dessa queda brusca no segundo trimestre se abriram duas grandes possibilidades de evolu\u00e7\u00e3o da economia capitalista: avan\u00e7ar para uma depress\u00e3o como a de 1929 ou entrar em recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Olhando de conjunto, a recess\u00e3o mundial de 2020, significou uma queda de 4,3% do PIB mundial, muito mais grave que o retrocesso de 1,7% na crise de 2007-09 e, portanto, a pior recess\u00e3o desde 1929. A queda nos EUA no conjunto do ano foi de 3,5%, na Alemanha de 5%, Espanha 11%, Inglaterra 9,9%, It\u00e1lia 8,8%, Fran\u00e7a 8,3%, Jap\u00e3o 4,8%. A Am\u00e9rica Latina teve uma queda de 7,7%.<\/p>\n<p>A China cresceu 2,3%. Foi o menor crescimento em 44 anos, mas a \u00fanica das grandes economias capitalistas a crescer.<\/p>\n<p>Mas, o que come\u00e7ou no segundo semestre de 2020 foi uma recupera\u00e7\u00e3o da economia, que segue at\u00e9 os dias de hoje. Possibilitada pelo fim das quarentenas e os gigantescos pacotes de ajuda dos governos de todo o mundo, come\u00e7ou uma recupera\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil e desigual do capitalismo mundial.<\/p>\n<p>Isso pode ser verificado pela evolu\u00e7\u00e3o do quarto trimestre do PIB nos EUA (1%), Alemanha (0,1%), Espanha (0,4%), Fran\u00e7a (-15), It\u00e1lia (-2,3%), Portugal (0,4%), Zona Euro (-0,7%), Jap\u00e3o (3%).<\/p>\n<p>A realidade atual aponta uma perspectiva de crescimento lento da economia capitalista que, em 2021, n\u00e3o deve alcan\u00e7ar os patamares de antes da crise.<\/p>\n<p><strong>Evolu\u00e7\u00e3o em V? <\/strong><\/p>\n<p>Os governos e ide\u00f3logos da burguesia mundial fizeram no in\u00edcio de 2020 uma campanha apontando para uma recupera\u00e7\u00e3o r\u00e1pida da pandemia e da economia mundial.<\/p>\n<p>Agora j\u00e1 n\u00e3o podem falar tanto do fim imediato da pandemia. Com mais de meio milh\u00e3o de mortes nos EUA, a pandemia ainda sem controle na Europa, e em crescimento no Brasil, \u00cdndia e v\u00e1rias partes do mundo, os propagandistas do capital tiveram que mudar o discurso.<\/p>\n<p>A OMS agora sinaliza que pode ter come\u00e7ado uma queda no n\u00famero de infectados e mortos a n\u00edvel mundial no final de janeiro. \u00c9 preciso verificar essa nova previs\u00e3o otimista nos pr\u00f3ximos meses.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 que a vacina\u00e7\u00e3o ainda est\u00e1 se iniciando, com enormes atrasos e descoordena\u00e7\u00e3o mundial. Mesmo nos pa\u00edses imperialistas mais importantes a vacina\u00e7\u00e3o avan\u00e7a lentamente. Muitos pa\u00edses semicoloniais ainda mais afetados n\u00e3o t\u00eam como pagar as vacinas necess\u00e1rias. At\u00e9 se atingir o patamar de imunidade de rebanho a n\u00edvel mundial, j\u00e1 poder\u00e3o ter se passado alguns anos. E ningu\u00e9m pode excluir novas ondas com novas cepas do v\u00edrus.<\/p>\n<p>Sobre a economia mundial tampouco vemos uma recupera\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. Em primeiro lugar porque a persist\u00eancia da pandemia afeta a economia, como sabemos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o ritmo geral da economia \u00e9 determinado pelo n\u00edvel de acumula\u00e7\u00e3o, dos investimentos capitalistas. E isso \u00e9 regulado pela taxa de lucros das grandes empresas. Se existe uma boa taxa de lucros, existem investimentos e a economia cresce, se n\u00e3o existe vem uma crise. Existia uma queda na taxa de lucros nos pa\u00edses imperialistas j\u00e1 no final de 2019, como dissemos, que apontou para o in\u00edcio da recess\u00e3o mundial. Michael Roberts aponta uma queda no ano de 2020 de cerca de 15% na taxa m\u00e9dia de lucros nos pa\u00edses imperialistas.<\/p>\n<p>Evidentemente existe uma enorme desigualdade nesse terreno, com um setor que envolve as grandes empresas de tecnologia e os grandes bancos, que tiveram lucros astron\u00f4micos com a crise. Sobre esse tema falaremos mais adiante. Mas isso n\u00e3o \u00e9 a realidade do conjunto das grandes empresas, e n\u00e3o muda a queda geral na taxa de lucros.<\/p>\n<p>Os gigantescos planos dos governos, com inje\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, em termos hist\u00f3ricos, de dinheiro p\u00fablico nas empresas tamb\u00e9m n\u00e3o resolvem esse problema. Em geral, os investimentos p\u00fablicos comp\u00f5em 3% da acumula\u00e7\u00e3o capitalista e os privados, das empresas 20%. O gigantesco plano de Biden, de 1,9 trilh\u00e3o de d\u00f3lares, pode elevar em apenas 1% o crescimento do PIB nos EUA.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os governos n\u00e3o fazem investimentos diretos na economia, mas entregam esse dinheiro as grandes empresas em geral e bancos em particular. E, exatamente pela taxa baixa de lucros, essas somas bilion\u00e1rias s\u00e3o aplicadas na especula\u00e7\u00e3o financeira que, como veremos, nunca esteve t\u00e3o gigantesca.<\/p>\n<p>Assim, com uma taxa de lucros baixa, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que n\u00e3o exista nenhum tipo de crescimento em V. Deve se impor a continuidade desse crescimento baixo.<\/p>\n<p>No mesmo sentido vai a rela\u00e7\u00e3o capital velho- capital novo nessa recupera\u00e7\u00e3o. Como ocorreu na crise de 2007-09, o dinheiro p\u00fablico salvou grandes empresas que n\u00e3o alcan\u00e7am um patamar de produtividade m\u00e9dio e deveriam ir \u00e0 fal\u00eancia, como parte do ciclo capitalista. Ao isso n\u00e3o ocorrer, se joga para baixo a taxa m\u00e9dia de lucros que regula a economia.<\/p>\n<p>Um estudo aponta que cerca de 20% das 3 mil maiores empresas de capital aberto nos EUA s\u00e3o nesse momento \u201czumbis\u201d, o que significa que suas receitas n\u00e3o s\u00e3o suficientes para pagar suas d\u00edvidas (US $ 1,36 trilh\u00e3o)<strong>\u00a0<\/strong>e dependem da continuidade dos aux\u00edlios p\u00fablicos para sobreviver.<\/p>\n<p>Assim, a recess\u00e3o mundial de 2020, a mais grave desde 1929, n\u00e3o evoluiu para uma depress\u00e3o, mas para uma recupera\u00e7\u00e3o lenta, desigual e com important\u00edssimas contradi\u00e7\u00f5es, que vamos analisar agora.<\/p>\n<p><strong>Uma gigantesca polariza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 verdade que \u201ctodos perderam\u201d nessa crise. Ao contr\u00e1rio, a realidade \u00e9 que mais do que nunca os de cima sobem e os de baixo descem.<\/p>\n<p>Enquanto se acumulou um rastilho de mortes, mis\u00e9ria e desemprego entre os trabalhadores, uma parte das grandes empresas tiveram lucros gigantescos no ano de 2020. Segundo o Economist, no segundo trimestre de 2020 \u201cas receitas do Citibank, Goldman Sachs e JPMorgan foram maiores do que em qualquer outro momento desde a crise financeira global, quase dobrando no mesmo per\u00edodo de 2019. O Goldman Sachs, um dos dois grandes bancos de investimento independentes restantes, viu as receitas aumentarem 41%.\u201d. As grandes empresas de tecnologia, (Apple, Google, Facebook, Microsoft), o e-comercio (Amazon, Alibaba) e as farmac\u00eauticas que produziram vacinas tiveram lucros astron\u00f4micos.<\/p>\n<p>Bilion\u00e1rios como Jeff Bezos (Amazon), Elon Musk (Tesla) e Mark Zuckerberg (Facebook) se alternam no posto de homens mais ricos do mundo. Bezos aumentou sua fortuna em um \u00fanico dia de 2020 em mais de 12 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Como parte da mesma tend\u00eancia, existe uma polariza\u00e7\u00e3o crescente entre os pa\u00edses, com o fortalecimento das grandes empresas de tecnologia dos EUA, fortalecimento da Alemanha na Europa, da China no sudeste asi\u00e1tico. Pa\u00edses semicoloniais s\u00e3o rebaixados na divis\u00e3o mundial de trabalho, com um processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o, como Brasil e Argentina.<\/p>\n<p>E existe uma onda gigantesca de fal\u00eancias de pequenas empresas, o que aumenta a crise social e o desemprego.<\/p>\n<p><strong>Existe uma tend\u00eancia a se ampliar a polariza\u00e7\u00e3o EUA x China<\/strong><\/p>\n<p>A \u201cguerra comercial\u201d entre EUA e China nem se restringe ao com\u00e9rcio, nem terminou com Trump. Como vimos, trata-se de um conflito entre o imperialismo hegem\u00f4nico, mas decadente, dos EUA e a China, um pa\u00eds capitalista com uma economia gigante, que j\u00e1 n\u00e3o cabe no papel antes reservado para ela no mercado mundial.<\/p>\n<p>A pandemia, como vimos, afetou de forma desigual o mundo capitalista. Mas a China saiu antes e melhor, tanto da pandemia como da recess\u00e3o mundial. Se aproveitando do regime ditatorial, do peso da acumula\u00e7\u00e3o capitalista superior \u00e0 m\u00e9dia dos pa\u00edses capitalistas (ao redor de 40%, o dobro dos outros pa\u00edses), a China foi a \u00fanica a crescer entre as grandes economias. E saiu vendendo vacinas, m\u00e1scaras, seringas em todo o mundo. A retomada de seu crescimento j\u00e1 se pode sentir com um aumento nos pre\u00e7os internacionais das commodities.<\/p>\n<p>A China liderou em novembro de 2020, a assinatura do RCEP\u00a0 (Parceria Econ\u00f4mica Parcial Abrangente), um bloco comercial que abrange 2,2 bilh\u00f5es de pessoas, um ter\u00e7o do PIB global, com pa\u00edses como Jap\u00e3o, Australia, Nova Zel\u00e2ndia e boa parte dos pa\u00edses da \u00c1sia&#8230;sem os EUA.<\/p>\n<p>Os chineses est\u00e3o mais avan\u00e7ados na produ\u00e7\u00e3o e disputa dos mercados da tecnologia 5G em todo o mundo. Acabam de lan\u00e7ar sua criptomoeda em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Isso significa que o conflito com os EUA vai continuar e se ampliar, mesmo com Biden no governo.<\/p>\n<p><strong>Uma nova crise das d\u00edvidas se armando<\/strong><\/p>\n<p>Os governos de todo o mundo deixaram de lado as ideologias neoliberais de \u201cestado m\u00ednimo\u201d, para adotar gastos gigantescos para tirar as grandes empresas da crise. Como consequ\u00eancia, segundo Michael Roberts: \u201cos n\u00edveis de d\u00edvida do setor p\u00fablico devem exceder qualquer coisa alcan\u00e7ada nos \u00faltimos 150 anos &#8211; inclusive ap\u00f3s a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.\u201d<\/p>\n<p>O Instituto de Finan\u00e7as Internacionais (IIF) relatou recentemente que a propor\u00e7\u00e3o da d\u00edvida global em rela\u00e7\u00e3o ao produto interno bruto aumentar\u00e1 de 320 por cento em 2019 para um recorde de 365 por cento em 2020. A d\u00edvida do setor p\u00fablico dos EUA disparou durante a pandemia para mais de 110% do PIB dos EUA.<\/p>\n<p>Inevitavelmente, depois da pandemia, esses d\u00e9ficits e essas d\u00edvidas p\u00fablicas ser\u00e3o cobradas dos trabalhadores, com ataques ainda mais brutais ao ensino e sa\u00fade p\u00fablica, \u00e0s aposentadorias, etc. Ou seja, se salvam as grandes empresas agora, e os trabalhadores pagar\u00e3o a conta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o alto endividamento afeta tamb\u00e9m as empresas, grandes e mais ainda as pequenas. Como vimos, existe um aumento das empresas \u201czumbis\u201d, que podem ir diretamente a fal\u00eancia com o fim dos planos. E boa parte das pequenas j\u00e1 est\u00e3o indo ou foram a fal\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Uma gigantesca bolha financeira especulativa<\/strong><\/p>\n<p>Uma das contradi\u00e7\u00f5es mais aberrantes da economia mundial \u00e9 entre a evolu\u00e7\u00e3o da economia real e das bolsas em todo o mundo. Enquanto a produ\u00e7\u00e3o, o investimento e o emprego tiveram quedas hist\u00f3ricas em 2020, o mercado de a\u00e7\u00f5es nos EUA e boa parte dos pa\u00edses imperialistas tiveram altas tamb\u00e9m hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 simples. Como vimos, boa parte do dinheiro dos planos dos governos entregue aos bancos e grandes empresas n\u00e3o foi investido na produ\u00e7\u00e3o, mas deslocado para a especula\u00e7\u00e3o. Com taxas de juros pr\u00f3ximas a zero ou negativas, as empresas aplicam o dinheiro recebido de gra\u00e7a em a\u00e7\u00f5es, t\u00edtulos e moedas, tendo altos lucros. Existe uma febre especulativa cuja dimens\u00e3o \u00e9 quase inimagin\u00e1vel para os trabalhadores.<\/p>\n<p>Marx chamou isso de capital especulativo. O capital real, investido na produ\u00e7\u00e3o, que gera mais valia, \u00e9 aquele que est\u00e1 nas fabricas automobil\u00edsticas nos EUA e China, no ABC paulista, , assim como nas t\u00eaxteis no Haiti, Bangla Desh, etc. Mas as empresas tamb\u00e9m levantam fundos para investimentos, com emiss\u00e3o de a\u00e7\u00f5es e t\u00edtulos, que pressup\u00f5em lucros futuros. Existe um mercado ao redor dessas a\u00e7\u00f5es, que pode decolar para um processo especulativo, que \u00e9 o acontece nesse momento. Ou seja, se aposta no futuro, baseado em c\u00e1lculos dos pr\u00f3prios capitalistas e que dependem de que outros investidores acreditem nesses c\u00e1lculos que lhes s\u00e3o apresentadas. Assim se criam ondas de investimento a fundo perdido em a\u00e7\u00f5es, o chamado \u2018efeito manada\u2019, e que em muitos casos podem dar em perdas milion\u00e1rias para os pequenos investidores e mesmo fal\u00eancias de grupos financeiros, que fiquem a descoberto na queda como ocorreu em 29 e na recente crise de 2008. Os grandes especuladores \u2013 como os gigantescos fundos- compram e vendem esses ativos financeiros, aumentando e baixando os pre\u00e7os. \u00a0Como o dinheiro \u00e9 abundante, os pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es e t\u00edtulos disparam.<\/p>\n<p>Pelos c\u00e1lculos da Bloomberg, enquanto o lucro das empresas globais listadas na Bolsa caiu 15% em 2020 as a\u00e7\u00f5es globais subiram 18%, e o \u00edndice Nasdaq, das empresas de tecnologia, aumentou 51%.<\/p>\n<p>Uma empresa como a AMC Theatres, maior cadeia global de cinemas, com os cinemas vazios ou fechados, ganhou US$ 600 milh\u00f5es no mercado. Vale mais hoje nas bolsas, que quando as salas estavam lotadas. \u00a0A Carnival Cruise, que faz cruzeiros mar\u00edtimos, quase completamente paralisados, captou US$ 4,5 bilh\u00f5es em novas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A Tesla \u00e9 um exemplo diferente, por se tratar de uma f\u00e1brica de grande futuro por sua aposta nos carros el\u00e9tricos, assim como na produ\u00e7\u00e3o de placas de energia solar. Est\u00e1 tendo, como veremos a seguir um grande \u00eaxito, produzindo 367 mil carros em 2019, 500 mil em 2020 e planos para chegar a 800 mil em 2021.<\/p>\n<p>No entanto, as a\u00e7\u00f5es da Tesla aumentaram brutalmente, n\u00e3o s\u00f3 por sua localiza\u00e7\u00e3o como empresa do futuro, mas pelo processo especulativo em curso. Suas a\u00e7\u00f5es subiram 743,4% em 2020. Isso levou a que hoje a Tesla tenha um valor em bolsa superior a das outras montadoras todas juntas, como a GM, Ford, Toyota, Fiat \u00a0Chrysler, Daimler.\u00a0 Basta comparar com a produ\u00e7\u00e3o real, para ver que apenas nos Estados Unidos, a Ford vendeu 2,41 milh\u00f5es de carros, a GM, 2,9 milh\u00f5es e a Fiat Chrysler 2,89 milh\u00f5es em 2020. Ou seja, muito mais que a Tesla em todo o mundo.<\/p>\n<p>Existem \u00edndices da pr\u00f3pria burguesia que medem o n\u00edvel do descolamento das a\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a produ\u00e7\u00e3o e lucros reais. Todos eles, como o cape ratio de Schiller, o Q de Tobin, o Euphoria- Panic do Citibank, indicam que a situa\u00e7\u00e3o atual nas bolsas \u00e9 semelhante a que existia justo antes da crise de 1929, e de 2007-09.<\/p>\n<p>Uma outra express\u00e3o da farra especulativa atual \u00e9 a especula\u00e7\u00e3o com moedas, em particular com criptomoedas como o bitcoin.<\/p>\n<p>O bitcoin surgiu em 2009, criado por um grupo de programadores. Trata-se de uma moeda digital, com a forma de um arquivo criptografado, que n\u00e3o tem lastro algum em qualquer moeda ou valor de uso. N\u00e3o \u00e9 regulada por nenhuma institui\u00e7\u00e3o oficial, nenhum banco central como as moedas f\u00edsicas. Tem um n\u00famero finito de unidades (21 milh\u00f5es), para imitar o car\u00e1ter n\u00e3o reproduz\u00edvel do ouro, ao contr\u00e1rio das moedas f\u00edsicas que podem ser impressas ou cunhadas.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, o bitcoin n\u00e3o valia nada. Mas cresceu \u00e0s custas do descr\u00e9dito nas moedas a partir da crise de 2007-09. Em 2017, o bitcoin teve uma valoriza\u00e7\u00e3o de 1880%, chegando a valer 19 mil d\u00f3lares cada. Em 2018, caiu 85%, levando a ru\u00edna uma parte dos que apostaram nele. Em 2020, em plena recess\u00e3o mundial, come\u00e7ou uma segunda onda, a partir do momento em que grandes fundos come\u00e7aram a investir nos bitcoins, que valorizaram 276%, chegando a 27 mil d\u00f3lares. Isso teve continuidade em 2021, com aumento de 80% em dois meses, atingindo no momento em que escrevemos esse artigo uma cota\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima de 50 mil d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Muitas vezes, n\u00f3s trabalhadores n\u00e3o conseguimos imaginar o significado real de grandes somas. Em geral, partimos de refer\u00eancias de nossa realidade, como o que se poderia comprar com nossos sal\u00e1rios. Quantidades grandes s\u00e3o dif\u00edceis de imaginar, assim como objetos microsc\u00f3picos, invis\u00edveis a olho nu. Como se pode imaginar ganhos de 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares em um \u00fanico dia, o que corresponde a mais ou menos cinco pr\u00eamios m\u00e1ximos da mega sena? Esse foi o ganho de Elon Musk especulando com o bitcoin. Menos ainda se pode realmente imaginar os 12 bilh\u00f5es de d\u00f3lares ganhos em um dia por Jeff Bezos, com a eleva\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es da Amazon.<\/p>\n<p>N\u00e3o se gera valor na especula\u00e7\u00e3o. Os ganhos, muitas vezes enormes, s\u00e3o na verdade transfer\u00eancias da mais valia gerada nas f\u00e1bricas das m\u00e3os de uns para outros capitalistas. Gera-se uma espiral especulativa que se assemelha a uma gigantesca pir\u00e2mide financeira, que algum dia tem de desabar para se adequar a economia real. Essa foi a din\u00e2mica de 2007, com a crise das subprimes no mercado imobili\u00e1rio. E que pode voltar a ocorrer a qualquer momento.<\/p>\n<p><strong>Qual a din\u00e2mica da crise atual? <\/strong><\/p>\n<p>Podemos sintetizar o que dissemos at\u00e9 aqui apontando que a economia capitalista est\u00e1 se recuperando da recess\u00e3o de 2020 com um crescimento lento e desigual, marcado por um aumento na polariza\u00e7\u00e3o entre os distintos setores do grande capital, e entre o capital como um todo e os trabalhadores. Um capitalismo que carrega grande peso das d\u00edvidas p\u00fablicas e privadas, e um car\u00e1ter especulativo de dimens\u00f5es brutais.<\/p>\n<p>Isso pode precipitar uma nova e mais grave recess\u00e3o em alguns anos, que seria a terceira dessa onda longa descendente.<\/p>\n<p>Mas, como diz\u00edamos antes, o grande capital tamb\u00e9m busca renovar-se para chegar a uma nova onda ascendente do capitalismo. Para retomar essa nova fase de ascenso, o capitalismo necessita uma nova base tecnol\u00f3gica a ser incorporada na produ\u00e7\u00e3o, avan\u00e7ar em uma nova divis\u00e3o mundial do trabalho resolvendo de alguma maneira o conflito EUA-China, impor novas derrotas nas condi\u00e7\u00f5es de vida do proletariado.<\/p>\n<p>Essa busca do grande capital tamb\u00e9m \u00e9 um processo, com idas e voltas, avan\u00e7os e recuos, vit\u00f3rias e derrotas em todos esses terrenos da tecnologia e da economia, da rela\u00e7\u00e3o entre os estados e da luta de classes.<\/p>\n<p>A nosso ver, parte da realidade atual s\u00e3o os sinais de que o capitalismo est\u00e1 avan\u00e7ando nesse sentido e que est\u00e1 usando a pandemia e a \u00faltima recess\u00e3o para isso.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, desde o ponto de vista tecnol\u00f3gico j\u00e1 existem avan\u00e7os que podem se incorporar na produ\u00e7\u00e3o para gerar uma nova base semelhante a que teve em seu momento as ind\u00fastrias automobil\u00edsticas como locomotiva. A tecnologia 5G, a internet das coisas, os carros el\u00e9tricos e aut\u00f4nomos, a ind\u00fastria 4.0, uma nova matriz energ\u00e9tica, comp\u00f5em avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos important\u00edssimos que, se incorporados na produ\u00e7\u00e3o podem significar avan\u00e7os de qualidade.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, j\u00e1 existem brutais retrocessos no n\u00edvel de vida dos trabalhadores, que se ampliaram muito em 2020 com a pandemia e a recess\u00e3o. O fort\u00edssimo avan\u00e7o na precariza\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, a gesta\u00e7\u00e3o de um enorme ex\u00e9rcito oper\u00e1rio de reserva com a massa de desempregados, a redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios dos empregados, indicam um retrocesso de mais de um s\u00e9culo nas conquistas dos trabalhadores.<\/p>\n<p>\u00c9 um fato que em v\u00e1rios setores, esse processo est\u00e1 avan\u00e7ando. Um exemplo \u00e9 o dos carros el\u00e9tricos. A Tesla \u00e9 o exemplo mais conhecido, e est\u00e1 inaugurando novas grandes fabricas em Berlim e Xangai. Todas as grandes montadoras est\u00e3o investindo pesadamente nesse sentido, com planos de bilh\u00f5es de d\u00f3lares em novos modelos mais eficientes e baratos. A Apple est\u00e1 negociando com a GM e Hyundai uma parceria para a produ\u00e7\u00e3o de um carro el\u00e9trico. A GM anunciou que em 2035 vai produzir somente carros el\u00e9tricos.<\/p>\n<p>Esse n\u00e3o \u00e9 simplesmente um problema t\u00e9cnico. Envolve uma luta entre o capital novo e o capital velho que est\u00e1 investido na produ\u00e7\u00e3o de carros a combust\u00e3o, junto com produ\u00e7\u00e3o, refino e distribui\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. Isso mexe com investimento de bilh\u00f5es de d\u00f3lares em setores de ponta da economia, como a ind\u00fastria automobil\u00edstica e petroleira. Em alguns setores, s\u00e3o as mesmas grandes empresas que se reconvertem. Em outros, existem choques inter burgueses, com parcelas distintas da burguesia com rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas estabelecidas h\u00e1 muitos anos com partidos e governos.<\/p>\n<p>Por exemplo, Trump sempre esteve ligado ao setor das petroleiras que recusa uma nova matriz energ\u00e9tica, e por isso nega os Acordos de Paris. Biden assumiu e, em seu plano, aponta para uma nova matriz energ\u00e9tica, inclusive apoiado em um setor das petroleiras que aceita e investe nisso, mas come\u00e7ando a ter atritos com setor das petroleiras ligado ao \u2018fracking\u2019 nos EUA.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe nenhuma estrat\u00e9gia imperialista de mudan\u00e7a ecol\u00f3gica real. Nesse terreno, n\u00e3o existem \u201cinteresses ecol\u00f3gicos\u201d, e sim interesses capitalistas que surgem de investimentos em distintas \u00e1reas, disfar\u00e7ados por ideologias. No entanto, n\u00e3o h\u00e1 porque ignorar as crises interburguesas que surgem pela imposi\u00e7\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>J\u00e1 existem sinais de que os projetos dos carros el\u00e9tricos v\u00e3o se estender com peso. Em novembro passado, na\u00a0Inglaterra, Boris Johnson sancionou uma\u00a0lei\u00a0que proibir\u00e1 a venda de\u00a0carros\u00a0novos movidos a gasolina ou diesel a partir de 2030.<\/p>\n<p>A tecnologia 5G e as ind\u00fastrias 4.0 j\u00e1 s\u00e3o parte dos planos dos governos e setores da burguesia para os pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, novos h\u00e1bitos de consumo se transformam em necessidades da humanidade e se generalizam. Hoje os smartphones s\u00e3o partes da vida cotidiano dos povos a n\u00edvel mundial, determinando novos padr\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 de comunica\u00e7\u00e3o, mas de consumo, ainda que isso n\u00e3o atinja os setores mais empobrecidos da mesma forma que atinge a classe m\u00e9dia. Muitos jovens j\u00e1 n\u00e3o querem mais comprar carros, um dos sonhos de consumo das gera\u00e7\u00f5es passadas. Apenas tomam uber ou alugam carros quando precisam. O consumo de alimentos comprados por internet se generalizou na pandemia, reduziu o p\u00fablico dos restaurantes e criou uma gigantesca frota de transportadores de aplicativos de comida em motos e bicicletas, com trabalhadores em geral com baix\u00edssimos sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>Os novos empregos precarizados n\u00e3o incluem f\u00e9rias, d\u00e9cimo terceiro sal\u00e1rio, aposentadoria. Nas grandes f\u00e1bricas, existem legi\u00f5es de terceirizados que fragmentam os trabalhadores. Nos servi\u00e7os que se expandem a quase totalidade j\u00e1 \u00e9 assim. \u00c9 o chamado fen\u00f4meno da \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d. Se trabalha come, se n\u00e3o morre de fome. Um enorme ex\u00e9rcito oper\u00e1rio de reserva espera por novos empregos com essas mesmas caracter\u00edsticas&#8230;ou piores.<\/p>\n<p>Todos esses dados da realidade j\u00e1 existem em grande expans\u00e3o, ainda maior depois da pandemia e da recess\u00e3o. Podemos caracterizar que esse s\u00e3o sinais da barb\u00e1rie capitalista que est\u00e3o se estendendo.<\/p>\n<p>J\u00e1 existem as bases ent\u00e3o para um novo ciclo de expans\u00e3o capitalista? Ainda n\u00e3o. A taxa de lucros e a instabilidade pol\u00edtica ainda n\u00e3o permitem que a burguesia consiga impor essas novas tecnologias e essas condi\u00e7\u00f5es dos trabalhadores em grande escala em novas plantas produtivas a n\u00edvel mundial.<\/p>\n<p>A burguesia n\u00e3o especula por ser uma \u201cm\u00e1 burguesia, especulativa\u201d ao contr\u00e1rio da \u201cboa burguesia, produtiva\u201d. S\u00e3o os mesmos setores da burguesia que decidem investir produtivamente ou especular, atrav\u00e9s dos grandes fundos, que dominam o planeta. E, se hoje, decidem majoritariamente especular \u00e9 porque a taxa de lucros \u00e9 ainda baixa na produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A crise entre os distintos setores do capital, novo e velho, ainda n\u00e3o est\u00e1 resolvida. O conflito entre EUA e China tende a aumentar.<\/p>\n<p>Mas uma evolu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 que essa recupera\u00e7\u00e3o lenta da economia siga com o aprofundamento dos ataques sobre os trabalhadores e se crie condi\u00e7\u00f5es para investimentos setoriais nas plantas baseado nos elementos de barb\u00e1rie j\u00e1 existentes.<\/p>\n<p>O elemento mais importante que vai pesar nesse terreno da economia \u00e9 a luta de classes. A instabilidade pol\u00edtica, os enfrentamentos entre revolu\u00e7\u00e3o e contrarrevolu\u00e7\u00e3o v\u00e3o aumentar, como resultados desses ataques violent\u00edssimos sobre os sal\u00e1rios e direitos dos trabalhadores.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que o acenso chegou a pa\u00edses imperialistas como os EUA com as lutas p\u00f3s-assassinato de George Floyd, e atinge distintos pa\u00edses desde Myanmar, Haiti e Chile. Mesmo com essa din\u00e2mica, \u00e9 evidente que as respostas dos trabalhadores a n\u00edvel mundial ainda est\u00e3o bem atr\u00e1s do grau dos ataques feitos. Ainda pesa sobre os trabalhadores em muitos pa\u00edses os elementos paralisantes da pandemia, pelo medo ao cont\u00e1gio, pelas mortes e a luta pela sobreviv\u00eancia, al\u00e9m do freio das dire\u00e7\u00f5es reformistas.<\/p>\n<p>A burguesia precisa derrotar as lutas dos trabalhadores para impor a estabilidade necess\u00e1ria para criar condi\u00e7\u00f5es de investimento a longo prazo para implanta\u00e7\u00e3o de novas plantas industriais.<\/p>\n<p>Os trabalhadores precisam derrotar os planos burgueses para evitar a extens\u00e3o da barb\u00e1rie. A disjuntiva socialismo ou barb\u00e1rie est\u00e1 colocada com muita for\u00e7a e deve influenciar decisivamente nas tendencias da economia mundial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano de 2020 foi terr\u00edvel para os trabalhadores de todo o mundo. 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