{"id":63131,"date":"2021-02-22T16:17:58","date_gmt":"2021-02-22T19:17:58","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63131"},"modified":"2021-02-22T16:17:58","modified_gmt":"2021-02-22T19:17:58","slug":"63131-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/02\/22\/63131-2\/","title":{"rendered":"O acordo Marrocos-Israel: um acordo contra os povos"},"content":{"rendered":"<p><em>Em 10 de dezembro de 2020, o presidente Trump anunciou que reconhece o direito do Marrocos de anexar a Rep\u00fablica \u00c1rabe Saharaui Democr\u00e1tica (RASD) ao seu territ\u00f3rio. \u00c9 seu vizinho do sul, um pa\u00eds independente desde 27 de fevereiro de 1976, ap\u00f3s a vit\u00f3ria da Frente Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Saguia al-Hamas e Rio de Ouro (Frente Polis\u00e1rio) no antigo Sahara Ocidental, ocupado pela Espanha como territ\u00f3rio de ultramar. A RASD, reconhecida como Estado pela Uni\u00e3o Africana \u00e9 um pa\u00eds da do tamanho da metade da Espanha, com minas de fosfato, ingrediente essencial para os fertilizantes, e cujos 1.100 km de costa atl\u00e2ntica representam n\u00e3o s\u00f3 uma grande riqueza pesqueira, como tamb\u00e9m um valor geoestrat\u00e9gico. E antes de Trump, os Estados Unidos sempre seguiram a orienta\u00e7\u00e3o da ONU, desde 1975, de negar a Rabat a soberania sobre este territ\u00f3rio.<\/em><\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o, de onde vem esta defesa da pol\u00edtica colonial de um pa\u00eds que, em outra ocasi\u00e3o, em 1777, foi o primeiro a reconhecer formalmente a independ\u00eancia dos Estados Unidos do outro lado do Atl\u00e2ntico?<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Liga Comunista dos Trabalhadores (LCT), se\u00e7\u00e3o belga da LIT-QI<\/p>\n<p>Um tweet de Trump explica: \u201c<em>Outro \u00eaxito HIST\u00d3RICO hoje! Nossos dois GRANDES amigos, Israel e o Reino de Marrocos, concordaram em estabelecer rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas plenas, um grande passo \u00e0 frente para a paz no Oriente M\u00e9dio!<\/em>\u201d[1] Trata-se de um duro golpe para a luta do povo palestino, mas tamb\u00e9m para o povo saharaui, que se converteu em moeda de troca na pol\u00edtica criminosa estadunidense de apoio ao Estado sionista.<\/p>\n<p>No final de seu mandato, Donald Trump apresenta este an\u00fancio como um \u00eaxito de sua diplomacia pr\u00f3-Israel. Este acordo \u00e9 mais um elo de uma pol\u00edtica de suposta \u201cpacifica\u00e7\u00e3o\u201d no Oriente M\u00e9dio. Na realidade, um apoio ao Estado sionista como gendarme para derrotar as lutas dos povos em solidariedade com as justas reivindica\u00e7\u00f5es do povo palestino contra a coloniza\u00e7\u00e3o de seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>A normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com Israel j\u00e1 tinha ocorrido no Egito (1979) e na Jord\u00e2nia (1994). E em 13 de agosto de 2020, Trump anunciou outro \u201cgrande acordo hist\u00f3rico\u201d. Os \u201cAcordos de Abra\u00e3o\u201d [2] entre Israel e os Emirados \u00c1rabes Unidos e entre Israel e Bahrein foram assinados em 12 e 15 de setembro de 2020 em Washington para normalizar as rela\u00e7\u00f5es entre estes Estados \u00e1rabes e o Estado sionista. E em 23 de outubro, Trump anunciou um acordo similar entre Israel e o Sud\u00e3o. Neste caso, trata-se do pre\u00e7o que o Sud\u00e3o pagou pela sua retirada, por parte de Trump, da lista de \u201cestados terroristas\u201d estabelecida em 1993[3].<\/p>\n<p>A raz\u00e3o final de todos estes acordos \u00e9 romper a solidariedade dos respectivos povos com a causa palestina, que se negam a banalizar a coloniza\u00e7\u00e3o israelense da Palestina.<\/p>\n<p>Mas nas rela\u00e7\u00f5es entre Marrocos e Israel n\u00e3o existe apenas Trump. O governo marroquino, o Partido Justi\u00e7a e Desenvolvimento (PJD \u2013 isl\u00e2mico) teve que enfrentar inclusive a rebeli\u00e3o de seus jovens, escandalizados por estes acordos.<\/p>\n<p><strong>Os la\u00e7os entre Marrocos e Israel<\/strong><\/p>\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica Marrocos-Israel j\u00e1 ocorre h\u00e1 v\u00e1rios meses, sen\u00e3o anos, de maneira informal.<\/p>\n<p>As autoridades marroquinas apresentam este acordo como necess\u00e1rio, com o argumento de que h\u00e1 muitos judeus de origem marroquina: um milh\u00e3o para uma popula\u00e7\u00e3o israelense de oito milh\u00f5es. Al\u00e9m disso, um ter\u00e7o dos ministros s\u00e3o judeus de origem marroquina. Por isso se diz que h\u00e1 que se reconhecer este estado de coisas e encontrar uma solu\u00e7\u00e3o humana para o conflito, com o tempo\u2026<\/p>\n<p>O que as autoridades marroquinas n\u00e3o dizem \u00e9 que os dirigentes marroquinos sempre tiveram rela\u00e7\u00f5es com o Estado sionista e que, de fato, trata-se de formalizar estreitos v\u00ednculos. As ra\u00edzes desta colabora\u00e7\u00e3o entre ambos os Estados remontam \u00e0 cumplicidade do regime marroquino na emigra\u00e7\u00e3o massiva de judeus marroquinos para Israel nos anos 50 e 60. Somente entre 1961 e 1964 houve uma emigra\u00e7\u00e3o de 97.000 pessoas.<\/p>\n<p>A diplomacia secreta de Hassan II \u00e9 agora parcialmente conhecida, incluindo sua colabora\u00e7\u00e3o com o Mossad (que pode estabelecer uma sucursal no Marrocos) para eliminar Mehdi Ben Barka, o grande l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o marroquina e pan-africanista convicto, em setembro de 1965. Assim como sua espionagem nas negocia\u00e7\u00f5es da Liga \u00c1rabe no mesmo m\u00eas de setembro de 1965 durante os preparativos para a guerra contra Israel. Isto n\u00e3o \u00e9 surpreendente, j\u00e1 que Hassan II defendeu em 1964 na Liga \u00c1rabe uma atitude \u00abrealista\u00bb com Israel e criou uma comiss\u00e3o, que presidiu, sobre a solu\u00e7\u00e3o do conflito. A partir de ent\u00e3o, Marrocos converteu-se no interlocutor privilegiado dos pa\u00edses ocidentais com a Liga \u00c1rabe.<\/p>\n<p>Em 2000, sob a press\u00e3o do movimento popular que mostrava sua profunda solidariedade com a Intifada do povo palestino e contra o Estado sionista de Israel, Marrocos fechou o escrit\u00f3rio de liga\u00e7\u00e3o com Israel em Rabat. Hoje, no exato momento em que as autoridades marroquinas anunciam o acordo, h\u00e1 uma palavrinha hip\u00f3crita que reafirma seu apoio ao povo palestino. Hip\u00f3crita porque, diferente do povo marroquino e da comunidade judaica marroquina da Cidade Velha de Jerusal\u00e9m, o regime marroquino colabora com os crimes do sionismo, que viola o territ\u00f3rio palestino e destr\u00f3i suas culturas e lares.<\/p>\n<p>Hoje, um novo passo foi dado ao expor claramente a colabora\u00e7\u00e3o com o enclave colonial. Porque, se um aspecto dos acordos facilita as conex\u00f5es a\u00e9reas, \u00e9 antes de tudo para as mercadorias e n\u00e3o para os cidad\u00e3os israelenses de origem marroquina. \u00c9 o cap\u00edtulo das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e a liberdade de investimento que beneficiar\u00e1 o Marrocos em primeiro lugar. E quanto ao benef\u00edcio para Israel, o principal \u00e9, com certeza, o enfraquecimento do apoio \u00e0 causa palestina entre os governos da regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O regime marroquino e o imperialismo estadunidense e europeu contra o povo saharaui<\/strong><\/p>\n<p>O acordo prev\u00ea o reconhecimento pelos Estados Unidos da soberania do Marrocos sobre a Rep\u00fablica \u00c1rabe Saharaui Democr\u00e1tica (RASD), at\u00e9 1975 o Sahara Ocidental, um\u00a0<em>Territ\u00f3rio Ultramarino<\/em>\u00a0da Espanha, de fato uma col\u00f4nia. Atualmente, o territ\u00f3rio continua sendo reclamado pelo Marrocos e est\u00e1 ocupado em grande parte por suas tropas. Para isso, numerosas campanhas e opera\u00e7\u00f5es de propaganda tentaram criar artificialmente um nacionalismo marroquino que reivindique este territ\u00f3rio. Esta propaganda chauvinista \u00e9 muito inteligente e transforma todos os que se atrevem a criticar o acordo com Israel, em inimigos da causa nacional marroquina, j\u00e1 que equivale a por em d\u00favida o reconhecimento do \u201cSahara Ocidental\u201d como parte integrante do territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o deste territ\u00f3rio n\u00e3o est\u00e1 aberta s\u00f3 ao Marrocos, mas tamb\u00e9m ao imperialismo estadunidense e europeu, atrav\u00e9s de tratados de investimento comercial. Assim, o Marrocos \u00e9 uma plataforma de investimento de capital para explorar o sul do Sahara. Em primeiro plano est\u00e1 o imperialismo franc\u00eas, que aplica ali sua pol\u00edtica neocolonial.<\/p>\n<p>A luta do povo saharaui \u00e9, portanto, um verdadeiro problema para o Marrocos e para o imperialismo mundial. Por isso, o ex\u00e9rcito marroquino construiu na RASD, com a colabora\u00e7\u00e3o de Israel e da Ar\u00e1bia Saudita, o <em>Muro das Areias<\/em>, um muro de 2.700 km de longitude, equipado com sete milh\u00f5es de minas e defendido por mais de cem mil soldados. Um muro que \u00e9 uma trag\u00e9dia para a popula\u00e7\u00e3o local, j\u00e1 que separa as fam\u00edlias e destr\u00f3i a economia local[4].<\/p>\n<p>No marco destes acordos, os Estados Unidos celebraram, de passagem, um contrato para a venda de quatro drones de vigil\u00e2ncia e combate no valor de um milh\u00e3o de d\u00f3lares. Isto complementa o montante de mais de 10 bilh\u00f5es em 2019. A Fran\u00e7a, por seu lado, vendeu ao Marrocos desde 2008 mais de 2 bilh\u00f5es de euros em equipamento militar (armas, muni\u00e7\u00f5es, sat\u00e9lites espi\u00f5es), incluindo a aquisi\u00e7\u00e3o em 2019 de sistemas de artilharia montados em caminh\u00f5es tipo Ceasar. Isto deveria consolidar um ex\u00e9rcito marroquino cuja tarefa esperada \u00e9 recuperar o controle sobre seu \u201cSahara Ocidental\u201d.<\/p>\n<p><strong>Lutar pela soberania dos povos!<\/strong><\/p>\n<p>Diante desta en\u00e9sima trai\u00e7\u00e3o do Rei e da burguesia marroquina, reafirmamos nosso<strong> total apoio ao povo palestino<\/strong> recha\u00e7ando este acordo que constitui um verdadeiro crime contra seus leg\u00edtimos direitos. Tamb\u00e9m recha\u00e7amos todas as reivindica\u00e7\u00f5es do regime marroquino sobre seu antigo <em>Territ\u00f3rio Ultramarino <\/em>e <strong>apoiamos plenamente o povo saharaui da RASD em suas leg\u00edtimas reivindica\u00e7\u00f5es de independ\u00eancia<\/strong>.<\/p>\n<p>Os <strong>trabalhadores marroquinos <\/strong>n\u00e3o devem sucumbir \u00e0 propaganda chauvinista do regime marroquino que os coloca em confronto com seus irm\u00e3os do Sahara. Pelo contr\u00e1rio, s\u00f3 atrav\u00e9s de uma luta unida por uma federa\u00e7\u00e3o de rep\u00fablicas socialistas no Magreb, respeitando as caracter\u00edsticas espec\u00edficas de cada uma, poder\u00e3o prosperar em um Marrocos que desenvolva seu potencial em colabora\u00e7\u00e3o com seus vizinhos.<\/p>\n<p>Mas para que isto ocorra, devemos come\u00e7ar por recha\u00e7ar estes vergonhosos acordos.\u00a0 A <strong>B\u00e9lgica deve reconhecer a RASD<\/strong>\u00a0como Estado independente. Na B\u00e9lgica, mas tamb\u00e9m na Fran\u00e7a e em todo o mundo, chamamos as organiza\u00e7\u00f5es, movimentos, partidos e sindicatos que apoiam a causa palestina a manifestar seu <strong>recha\u00e7o a este acordo vergonhoso<\/strong>.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>(<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/el-acuerdo-marruecos-israel-un-acuerdo-contra-los-pueblos\/#sdfootnote1anc\">1<\/a>)\u00a0<a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2020-12-10\/marruecos-logra-que-ee-uu-reconozca-su-soberania-sobre-el-sahara-occidental-a-cambio-de-iniciar-relaciones-diplomaticas-con-israel.html?ssm=whatsapp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/elpais.com\/internacional\/2020-12-10\/marruecos-logra-que-ee-uu-reconozca-su-soberania-sobre-el-sahara-occidental-a-cambio-de-iniciar-relaciones-diplomaticas-con-israel.html<\/a><\/p>\n<p>(<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/el-acuerdo-marruecos-israel-un-acuerdo-contra-los-pueblos\/#sdfootnote2anc\">2<\/a>) O nome trata de camuflar a agress\u00e3o sionista sob um manto multicultural: \u00ab <em>Os povos \u00e1rabe e judeu s\u00e3o descendentes de um ancestral comum, Abra\u00e3o, e aspiram fomentar uma vis\u00e3o realista de um Oriente M\u00e9dio no qual mu\u00e7ulmanos, judeus, crist\u00e3os e povos de todas as cren\u00e7as, confiss\u00f5es e nacionalidades vivam em um esp\u00edrito de coexistencia, compreens\u00e3o e respeito m\u00fatuos \u201c<\/em><a href=\"https:\/\/fr.wikipedia.org\/wiki\/Accords_d%27Abraham#Trait%E9_de_paix_entre_les_%C9mirats_arabes_unis_et_Isra%EBl\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/fr.wikipedia.org\/wiki\/Accords_d\u2019Abraham#Trait\u00e9_de_paix_entre_les_\u00c9mirats_arabes_unis_et_Isra\u00ebl<\/a><\/p>\n<p>(<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/el-acuerdo-marruecos-israel-un-acuerdo-contra-los-pueblos\/#sdfootnote3anc\">3<\/a>)\u00a0<a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2020-10-23\/israel-y-sudan-normalizaran-sus-relaciones-con-la-mediacion-de-ee-uu.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/elpais.com\/internacional\/2020-10-23\/israel-y-sudan-normalizaran-sus-relaciones-con-la-mediacion-de-ee-uu.html<\/a><\/p>\n<p>(<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/el-acuerdo-marruecos-israel-un-acuerdo-contra-los-pueblos\/#sdfootnote4anc\">4<\/a>)\u00a0<a href=\"https:\/\/www.spsrasd.info\/news\/fr\/articles\/2016\/10\/16\/4803.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.spsrasd.info\/news\/fr\/articles\/2016\/10\/16\/4803.html<\/a><\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 10 de dezembro de 2020, o presidente Trump anunciou que reconhece o direito do Marrocos de anexar a Rep\u00fablica \u00c1rabe Saharaui Democr\u00e1tica (RASD) ao seu territ\u00f3rio. \u00c9 seu vizinho do sul, um pa\u00eds independente desde 27 de fevereiro de 1976, ap\u00f3s a vit\u00f3ria da Frente Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Saguia al-Hamas e Rio de 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