{"id":63015,"date":"2021-02-09T16:02:48","date_gmt":"2021-02-09T19:02:48","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63015"},"modified":"2021-02-09T16:02:48","modified_gmt":"2021-02-09T19:02:48","slug":"homenagem-a-francisco-quisbert","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/02\/09\/homenagem-a-francisco-quisbert\/","title":{"rendered":"Homenagem a Francisco Quisbert"},"content":{"rendered":"<p><em>Tristeza profunda. Meu grande amigo e companheiro de lutas h\u00e1 25 anos, Pancho, faleceu no dia 5 de fevereiro de 2021, em sua casa, de complica\u00e7\u00f5es de sa\u00fade ligadas \u00e0 pandemia. Em alguns dias, ele faria 77 anos.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Texto publicado por Candi, ex-militante da LIT-QI<\/p>\n<p>Escrito em 02\/06\/2021.<\/p>\n<p><strong>Francisco Quisbert Salinas, um grande l\u00edder campon\u00eas da regi\u00e3o do Altiplano Sul da Bol\u00edvia.<\/strong><\/p>\n<p>Em 1982, com a volta da democracia na Bol\u00edvia, lan\u00e7ou a constru\u00e7\u00e3o de comit\u00eas de defesa da quinoa, cereal nativo do altiplano sul, que na \u00e9poca n\u00e3o tinha mercado e nem pre\u00e7o. Foram as primeiras experi\u00eancias organizacionais na prov\u00edncia de Nor Lipez e no Altiplano Sul, ap\u00f3s 10 anos de ditadura, at\u00e9 chegar na Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Produtores de Quinoa, ANAPQUI, que conseguiu defender os pequenos produtores dos grandes mercados.<\/p>\n<p>Em 1985, ele organizou um bloqueio hist\u00f3rico da ferrovia internacional que vai da fronteira do Chile a Uyuni, por uma semana e com mais de 1.000 pessoas das comunidades, na pequena localidade de Julaca. Posteriormente, conquistou em um congresso a dire\u00e7\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o \u00danica Regional de Trabalhadores Camponeses do Altiplano Sul, conhecida como FRUTCAS, representando as comunidades das 5 prov\u00edncias em torno do Grande Salar de Uyuni, tirando-a das m\u00e3os do oficialismo para transform\u00e1-la em uma central sindical s\u00f3lida, combativa e independente.<\/p>\n<p>Francisco foi a pedra angular da federa\u00e7\u00e3o por mais de 20 anos e ser\u00e1 lembrado como seu dirigente hist\u00f3rico. Pancho foi um grande dirigente, um lutador incans\u00e1vel pelo seu povo e pela defesa dos recursos naturais de sua regi\u00e3o e do pa\u00eds. Com coragem e sem descanso, ao longo da vida, acreditou no coletivo e sempre o priorizava. Com muito trabalho e ousadia, constru\u00edmos uma organiza\u00e7\u00e3o sindical camponesa forte, combativa, democr\u00e1tica e revolucion\u00e1ria, a FRUTCAS, que esteve na vanguarda das lutas no Altiplano Sul por mais de 2 d\u00e9cadas. Muitas vezes nos enfrentamos com interesses de empresas transnacionais que se apropriam dos recursos naturais em seu exclusivo benef\u00edcio. Em defesa do salar, das \u00e1guas subterr\u00e2neas da regi\u00e3o, do territ\u00f3rio comunit\u00e1rio, do l\u00edtio, exigindo Soberania e Respeito dos direitos territoriais ancestrais.<\/p>\n<p>Com ele empreendemos tantas experi\u00eancias, a r\u00e1dio comunit\u00e1ria, a cooperativa de sal CORACA e tantas lutas, algumas vitoriosas, como em 1992, quando a transnacional Lithium Corporation foi expulsa do pa\u00eds. Essa luta foi registrada em v\u00e1rios v\u00eddeos que alimentam e s\u00e3o mem\u00f3ria desse outro lado da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 um revolucion\u00e1rio socialista que nos deixa hoje, um desses &#8220;imprescind\u00edveis&#8221; que a vida me deu a sorte de conhecer. Agora resta lembrar seus ensinamentos e seguir em frente. Ele foi um lutador por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida para seu povo, para sua classe, por profundas e radicais mudan\u00e7as pol\u00edticas e sociais. Era um militante revolucion\u00e1rio dedicado, altamente respeitado nas bases e com grande habilidade organizacional. Durante v\u00e1rios anos, integrou o Movimento Socialista dos Trabalhadores, partido da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI), contribuindo com seu grande conhecimento do mundo campon\u00eas e seu <em>\u201cfeeling\u201d<\/em> de estar sempre em contato com as bases.<\/p>\n<p>Em seu livro <em>&#8220;Grano de Oro y Asalto&#8221;<\/em> onde conta parte de suas experi\u00eancias, ele escreveu sua vis\u00e3o da tarefa: <em>&#8220;o dirigente \u00e9 reconhecido por seu comportamento, sua coragem, sua abordagem, sua responsabilidade s\u00e9ria, que n\u00e3o se vende ou se corrompe, tem uma ideologia de servir suas bases e n\u00e3o fazer uso delas, mant\u00e9m sua terra, n\u00e3o abandona sua comunidade, \u00e9 combativo, est\u00e1 sempre nas mobiliza\u00e7\u00f5es, para o dirigente n\u00e3o h\u00e1 descanso . Quando chego em minha casa meus companheiros sempre aparecem, para qualquer situa\u00e7\u00e3o, at\u00e9 mesmo problemas familiares.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m um dos ide\u00f3logos do Instrumento Pol\u00edtico pela Soberania dos Povos (IPSP, projeto anterior do atual Movimento ao Socialismo-MAS), um movimento pol\u00edtico que inicialmente foi pensado como instrumento de e para nossa classe, n\u00e3o para servir de escada para ningu\u00e9m, sen\u00e3o para os camponeses sindicalistas se apresentarem e assumirem um papel pol\u00edtico independente da burguesia, buscando a alian\u00e7a de toda a classe trabalhadora. Este esbo\u00e7o de projeto foi apresentado pela FRUTCAS no Congresso Nacional Campon\u00eas de Sucre, em 1988. A ideia amadureceu 7 anos, em meio \u00e0s diferentes lutas do setor campon\u00eas. Posteriormente, quando o projeto pol\u00edtico foi aprovado no congresso campon\u00eas de 1995, ele foi eleito como um dos 4 que constitu\u00edram a primeira dire\u00e7\u00e3o nacional do IPSP. Escreveu e defendeu a primeira carta de princ\u00edpios do Instrumento Pol\u00edtico, antes de ser afastado pela burocracia e pelas elites do movimento. Sempre defendeu a necessidade de voltar ao projeto inicial, dizia: \u201c<em>Devemos lutar para reconstruir o verdadeiro Instrumento Pol\u00edtico<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Francisco n\u00e3o teve a sorte de ir muito \u00e0 escola, frequentou apenas o ensino b\u00e1sico, mas gostava de escrever e tinha uma boa escrita e reda\u00e7\u00e3o. Durante sua gest\u00e3o como Secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o da Confedera\u00e7\u00e3o dos Camponeses da Bol\u00edvia (CSUTCB) lan\u00e7ou o jornal PUTUTU. Em Cochabamba, trabalhou v\u00e1rios anos com a institui\u00e7\u00e3o CENDA e tornou-se rep\u00f3rter popular do jornal qu\u00e9chua CONOSUR \u00d1AWPAQMAN, fazendo reportagens sobre as lutas das comunidades. Ele entendia a import\u00e2ncia de escrever, de fazer balan\u00e7os. Passava a noite na m\u00e1quina de escrever, depois no computador, fazendo relat\u00f3rios de suas atividades, reuni\u00f5es, visitas pelas comunidades e impunha essa pr\u00e1tica a toda a equipe. Qualquer reuni\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o, a qualquer momento, sempre come\u00e7ava no ponto de \u201cconjuntura\u201d em que discut\u00edamos a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, da regi\u00e3o e os eventos internacionais.<\/p>\n<p>Uma anedota pessoal antes de terminar, uma entre muitas. Foi em 1983, durante um passeio de jipe \u200b\u200bpara construir o Comit\u00ea da Quinoa, est\u00e1vamos exaustos porque esses passeios duravam v\u00e1rios dias devido \u00e0 dist\u00e2ncia entre as comunidades. Durante o encontro noturno em sua comunidade de Calcha K, uma velhinha de l\u00edngua qu\u00e9chua havia causado gargalhadas, v\u00e1rias vezes, por meu nome, segundo ela, imposs\u00edvel de entender. De volta para casa, ele pegou um calend\u00e1rio que est\u00e1 sempre nas paredes das casas de camponeses, e decidiu que a partir de ent\u00e3o me chamaria de Candel\u00e1ria. E assim foi, ficou como Candi.<\/p>\n<p>Foi uma honra e um aprendizado para toda a vida trabalharmos juntos, lado a lado, por 25 anos. Aprendi muito com ele &#8230; com o trabalho sindical, o trabalho pol\u00edtico e as lutas que enfrentamos. Tudo isso \u00e9 parte integrante de quem eu sou agora. Serei eternamente grata por t\u00ea-lo conhecido e por ter podido crescer ao seu lado.<\/p>\n<p>Hoje nos deixa um ser humano de grandes qualidades, gentil e corajoso, atencioso e sempre preocupado com sua fam\u00edlia e seus 9 filhos, em busca permanente pela justi\u00e7a social. Que o seu exemplo viva nas pessoas que inspirou.<\/p>\n<p><strong>Pancho, at\u00e9 o socialismo sempre!<\/strong><\/p>\n<p><strong>Companheiro FRANCISCO, PRESENTE, hoje e sempre!<\/strong><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lena Souza<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tristeza profunda. Meu grande amigo e companheiro de lutas h\u00e1 25 anos, Pancho, faleceu no dia 5 de fevereiro de 2021, em sua casa, de complica\u00e7\u00f5es de sa\u00fade ligadas \u00e0 pandemia. 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