{"id":63002,"date":"2021-02-08T12:16:25","date_gmt":"2021-02-08T15:16:25","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63002"},"modified":"2021-02-08T12:16:25","modified_gmt":"2021-02-08T15:16:25","slug":"63002-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/02\/08\/63002-2\/","title":{"rendered":"O patriarcado do ponto de vista marxista"},"content":{"rendered":"<p><em>Patriarcado \u00e9 uma palavra muito utilizada nos debates sobre a condi\u00e7\u00e3o da mulher, que costuma apontar a principal causa da opress\u00e3o da mulher no mundo. O termo \u00e9 utilizado como regra para se referir a tudo o que oprime ou exterioriza a opress\u00e3o da mulher como tal na sociedade, mas muito raramente quem usa tem uma ideia definida do que \u00e9 ou \u00e9 capaz de dar uma defini\u00e7\u00e3o exata. Isso porque n\u00e3o existe uma \u00fanica, comum e coerente defini\u00e7\u00e3o: as diversas variantes da ideologia feminista fazem diferentes interpreta\u00e7\u00f5es do que deveria ser essa estrutura social chamada patriarcado e como aboli-la. O patriarcado aparece mais como uma ideia daquilo que precisa ser mudado socialmente, mas uma ideia, nem sempre, bem definida.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Laura Sguazzabia<\/p>\n<p>A teoria marxista, desde o in\u00edcio, fez um uso muito cuidadoso do termo patriarcado porque para os marxistas tornar os conceitos expl\u00edcitos, estabelecer as origens, hist\u00f3ria, fundamentos, esclarecer e especificar como um conceito nasce e se adapta \u00e0 realidade hist\u00f3rica, e mut\u00e1vel, \u00e9 fundamental para avan\u00e7ar n\u00e3o apenas empiricamente, mas, sobretudo, na luta de classes. Na obra na qual se desenvolve principalmente a teoria marxista sobre a origem da opress\u00e3o da mulher, <em>A Origem da Fam\u00edlia, a Propriedade Privada e o Estado<\/em> publicada em 1884 [1], Engels utiliza o termo \u00abpatriarcal\u00bb para caracterizar certo tipo de fam\u00edlia, em uma \u00e9poca na qual as fam\u00edlias eram comunidades. E a certa altura fala de \u00abcomunidade familiar patriarcal\u00bb: \u00e9, na an\u00e1lise de Engels, uma forma transit\u00f3ria que surge entre a fam\u00edlia constru\u00edda nos direitos maternos (ou o que se denomina erroneamente matriarcado, mais propriamente a fam\u00edlia matrilinear ou matrilocal), e a fam\u00edlia monog\u00e2mica moderna.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia patriarcal \u00e9 aquela que surge quando a filia\u00e7\u00e3o feminina e os direitos maternos s\u00e3o substitu\u00eddos pela filia\u00e7\u00e3o masculina e pelo direito heredit\u00e1rio paterno, de modo que o pai passa a ser o chefe da fam\u00edlia, constituindo-se ao redor dele a gens paterna. A fam\u00edlia patriarcal \u00e9 caracterizada por uma autoridade e poder crescentes do pai sobre o grupo e pela incorpora\u00e7\u00e3o de membros independentes e submissos nesta estrutura de domina\u00e7\u00e3o. Esse tipo de fam\u00edlia, para Engels, assim como para os antrop\u00f3logos da \u00e9poca, sobrevive por uma fase relativamente breve da hist\u00f3ria humana porque depois se produz uma grande mudan\u00e7a que cristalizar\u00e1 a opress\u00e3o da mulher: muito rapidamente, com o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, a sociedade dividida em classes se afirmar\u00e1 e, assim, um novo tipo de fam\u00edlia baseada no casamento monog\u00e2mico, onde o homem reduz a sua mulher a uma propriedade e, assim, estabelece uma autoridade firme e ampliada no sistema social.<\/p>\n<p><strong>A an\u00e1lise marxista sobre a opress\u00e3o da mulher<\/strong><\/p>\n<p>A obra <em>A Origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado<\/em> \u00e9 em grande parte baseada na pesquisa pioneira do antrop\u00f3logo do s\u00e9culo XIX Lewis Henry Morgan. A pesquisa de Morgan, <em>Ancient Society,<\/em> publicada em 1877, pode ser considerada a primeira tentativa de abordar a evolu\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o social humana de um ponto de vista materialista.<\/p>\n<p>Morgan pesquisa, ap\u00f3s um extenso contato com os \u00edndios iroqueses em Nova York, um sistema de parentesco estruturado de forma completamente diferente da moderna fam\u00edlia nuclear. O estudo de Morgan sobre os iroqueses mostra dois fatos: 1) que no interior desse sistema as mulheres e os homens tinham uma r\u00edgida divis\u00e3o do trabalho entre os sexos, mas 2) que as mulheres eram iguais aos homens, com total autonomia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00f3prias responsabilidades e poder de decis\u00e3o dentro da sociedade como um todo. Essa descoberta o inspirou a estudar outras sociedades e o levou a descobrir outros nativos americanos, situados a milhares de quil\u00f4metros dos iroqueses e estruturados com formas de parentesco notavelmente semelhantes. Morgan conclui que a sociedade humana evoluiu atrav\u00e9s de sucessivas fases, com base no desenvolvimento de \u00absucessivas artes de subsist\u00eancia\u00bb.<\/p>\n<p>Engels toma como base a teoria de Morgan para escrever sua obra e, como sugere o t\u00edtulo, para desenvolver a teoria de como o nascimento da sociedade dividida em classes levou ao nascimento do Estado, representando os interesses da classe dominante, e da fam\u00edlia, como um meio pelo qual a classe dominante transmite as riquezas mantendo a propriedade privada. A descoberta de Morgan confirma que o per\u00edodo do \u00abcomunismo primitivo\u00bb precedeu por muito tempo \u00e0 sociedade de classes e auxilia Engels a esclarecer com precis\u00e3o como nasce a opress\u00e3o da mulher em concomit\u00e2ncia com o nascimento da sociedade dividida em classes.<\/p>\n<p>Tr\u00eas per\u00edodos distintos s\u00e3o delineados na obra de Engels, cada um como um est\u00e1gio progressivo do desenvolvimento social: estado selvagem, barb\u00e1rie e civiliza\u00e7\u00e3o. Esses termos, refletindo a terminologia vitoriana, mudaram desde ent\u00e3o, mas mant\u00eam v\u00e1lido o esquema de base: o estado selvagem se refere \u00e0 ca\u00e7a e a coleta; a barb\u00e1rie, \u00e0 fase em que predomina a agricultura, primeiro atrav\u00e9s da horticultura (ou pr\u00e1tica do \u00abcorte e queima\u00bb) e, depois, pelo uso de t\u00e9cnicas avan\u00e7adas como o arado e a irriga\u00e7\u00e3o em grande escala; a civiliza\u00e7\u00e3o, \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da sociedade urbana e os prim\u00f3rdios da ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Essas tr\u00eas fases abarcaram um per\u00edodo muito longo. Os primeiros ancestrais humanos provavelmente surgiram h\u00e1 dois milh\u00f5es de anos ou mais, enquanto os humanos anatomicamente modernos o fizeram entre 200.000 e 100.000 anos atr\u00e1s. As primeiras formas de agricultura n\u00e3o come\u00e7aram antes de 10.000 anos atr\u00e1s, e apenas nos \u00faltimos mil anos que a sociedade humana se desenvolveu muito mais r\u00e1pido devido \u00e0 tecnologia. Esta periodiza\u00e7\u00e3o evolutiva significa que, na maior parte da hist\u00f3ria humana foi imposs\u00edvel acumular riqueza, nem havia motivos para isso. Para come\u00e7ar, n\u00e3o havia local onde armazen\u00e1-la: as sociedades de ca\u00e7a-coleta eram n\u00f4mades e se sustentavam com a coleta de frutos e ra\u00edzes, ca\u00e7a e pesca. Al\u00e9m disso, na maior parte dessas sociedades n\u00e3o era preciso trabalhar mais do que o necess\u00e1rio para obter o que lhes servia para o sustento. Mesmo nas primeiras sociedades de horticultura, n\u00e3o era realmente poss\u00edvel produzir muito mais do que seria consumido imediatamente pelos membros do grupo.<\/p>\n<p>Com a introdu\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas mais avan\u00e7adas, atrav\u00e9s do uso do arado e\/ou sistemas de irriga\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7ados, e com o nascimento de comunidades permanentes, em algumas sociedades, os homens conseguiam obter mais que os meios de subsist\u00eancia. Isso leva \u00e0 primeira acumula\u00e7\u00e3o de excedentes ou riquezas. Inicialmente, o excedente \u00e9 compartilhado com todo o cl\u00e3, de modo que a riqueza n\u00e3o \u00e9 acumulada por um \u00fanico indiv\u00edduo ou grupos de indiv\u00edduos. Mas, aos poucos, \u00e0 medida que as comunidades crescem em tamanho e se tornam organiza\u00e7\u00f5es sociais mais complexas, e cresce o excedente, a distribui\u00e7\u00e3o da riqueza se transforma em desigualdade e apenas um reduzido n\u00famero de homens se distingue pela riqueza e o poder sobre o restante da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Engels sustenta que o nascimento da sociedade de classe traz consigo n\u00e3o apenas o crescimento da desigualdade entre governantes e governados, mas tamb\u00e9m entre homens e mulheres. O centro da teoria de Engels sobre a opress\u00e3o da mulher baseia-se na rela\u00e7\u00e3o entre a divis\u00e3o sexual do trabalho e o modo de produ\u00e7\u00e3o, que sofre uma transforma\u00e7\u00e3o fundamental com o surgimento da sociedade de classe. Na sociedade de ca\u00e7adores-coletores e horticultores havia uma divis\u00e3o sexual do trabalho, um conjunto de responsabilidades rigidamente definido entre mulheres e homens.<\/p>\n<p>E a ambos os sexos era concedido um grau elevado de autonomia no desenvolvimento dessas habilidades: a coleta e a distribui\u00e7\u00e3o de alimentos na tribo, por exemplo, era realizada inteiramente pelas mulheres (elemento que aprendemos justamente na investiga\u00e7\u00e3o realizada no tempo de Engels), que podiam decidir inclusive n\u00e3o conceder a quem sentissem que n\u00e3o cumpriam adequadamente com seu dever no grupo. Nas sociedades pr\u00e9-classistas, as mulheres estavam em condi\u00e7\u00e3o de conciliar a maternidade como o trabalho produtivo, \u00e2mbitos entre os quais n\u00e3o havia uma separa\u00e7\u00e3o clara: em muitos casos podiam levar seus filhos durante a semeadura e a colheita, ou deix\u00e1-los aos cuidados de outros adultos; ao mesmo tempo, se encarregavam de produzir muitas mercadorias em casa. Uma vez que as mulheres eram fundamentais para a produ\u00e7\u00e3o nessas sociedades pr\u00e9-classistas, n\u00e3o existia a desigualdade sistem\u00e1tica entre os sexos e elas eram tidas em alta considera\u00e7\u00e3o, inclusive quando eram idosas.<\/p>\n<p>Tudo isso muda com o desenvolvimento da propriedade privada. O desenvolvimento da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola aumenta notavelmente a produtividade no trabalho, o que, por sua vez, aumenta a demanda de trabalho: quanto maior o n\u00famero de trabalhadores no campo, maior \u00e9 o excedente. Portanto, ao contr\u00e1rio da sociedade de ca\u00e7adores-coletores que procurava limitar o n\u00famero de filhos, a sociedade de agricultores buscava maximizar o potencial reprodutivo das mulheres porque a fam\u00edlia precisava ter mais filhos para ajudar no trabalho agr\u00edcola. Assim, enquanto os homens desempenhavam um papel cada vez mais exclusivo na produ\u00e7\u00e3o, as mulheres eram chamadas a cumprir um papel mais central na reprodu\u00e7\u00e3o. A estrita divis\u00e3o sexual do trabalho continua sendo a mesma, mas com a produ\u00e7\u00e3o, agora, distanciada do lar e a fam\u00edlia servindo apenas como fun\u00e7\u00e3o reprodutiva e, como tal, transformada em uma unidade econ\u00f4mica de consumo. As mulheres ficam presas em suas fam\u00edlias individuais, como reprodutoras da sociedade, isoladas da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estas mudan\u00e7as ocorrem inicialmente nas fam\u00edlias que t\u00eam propriedades, as da classe dominante. Mas com o tempo, a fam\u00edlia nuclear torna-se uma unidade econ\u00f4mica da sociedade em seu conjunto. Al\u00e9m disso, estas mudan\u00e7as ocorrem ao longo de um per\u00edodo de milhares de anos e todas as sociedades do mundo, embora n\u00e3o tenham experimentado uma sucess\u00e3o id\u00eantica de mudan\u00e7as no modo de produ\u00e7\u00e3o, se transformaram. \u00c9 importante sublinhar que a gan\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 a causa principal da distribui\u00e7\u00e3o desigual da riqueza, nem que o machismo \u00e9 a raz\u00e3o pela qual o poder cai em m\u00e3os de (alguns) homens, enquanto a autoridade das mulheres \u00e9 drasticamente reduzida. N\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia (e n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para supor) que as mulheres foram for\u00e7adas a desempenhar este papel pelos homens: de fato, para as fam\u00edlias ricas, um excedente maior seria do interesse de todos os membros da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a fam\u00edlia nuclear monog\u00e2mica como conhecemos hoje, inevitavelmente come\u00e7a a tomar forma. Por um lado, assistimos a um deslocamento do direito da linha materna (neste momento hist\u00f3rico, a maioria de sociedades continuam sendo matriarcais ou, melhor dizendo, matrilineares) ao paterno, de modo que a heran\u00e7a n\u00e3o passa pela m\u00e3e, mas pelo pai. Por outro lado, existe a necessidade de uma rigorosa monogamia que garanta o controle absoluto sobre a descend\u00eancia para que o homem tenha a certeza de que os filhos nascidos de sua mulher s\u00e3o seus. Desta forma, o homem passa a assumir o papel de <em>chefe<\/em> do seu lar.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, Engels tinha raz\u00e3o &#8211; com mais evid\u00eancias hoje do que quando escreveu sobre isso &#8211; que o nascimento da fam\u00edlia nuclear provocou uma degrada\u00e7\u00e3o social e a opress\u00e3o da mulher, desconhecidas nas sociedades pr\u00e9-classistas. A fam\u00edlia moderna nasceu com o \u00fanico prop\u00f3sito de transmitir a propriedade privada em forma de heran\u00e7a de uma gera\u00e7\u00e3o \u00e0 outra: \u201cFoi a primeira forma de fam\u00edlia que n\u00e3o se constituiu em condi\u00e7\u00f5es naturais, mas em condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, precisamente na vit\u00f3ria da propriedade privada sobre propriedade comum origin\u00e1ria e espont\u00e2nea. A domina\u00e7\u00e3o do homem na fam\u00edlia e a procria\u00e7\u00e3o de filhos indiscutivelmente seus, destinados a herdar suas riquezas: estes eram os fins \u00fanicos e exclusivos do casal monog\u00e2mico\u201d[2]. Todas as imagens rom\u00e2nticas do amor verdadeiro, que desde ent\u00e3o contribu\u00edram a idealizar o casamento na sociedade contempor\u00e2nea, n\u00e3o podem mudar o fato de que o casamento \u00e9 essencialmente uma rela\u00e7\u00e3o de propriedade. A monogamia oferece os meios pelos quais a propriedade pode ser herdada individualmente, enquanto a passagem para a linhagem paterna garante que a propriedade e as riquezas permane\u00e7am na nova fam\u00edlia e n\u00e3o transferidos para o cl\u00e3 materno como no passado.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise de Engels \u00e9 simples e \u00f3bvia: a divis\u00e3o sexual do trabalho que existia nas sociedades pr\u00e9-classistas cujo modo de produ\u00e7\u00e3o dominante era a produ\u00e7\u00e3o para o uso, n\u00e3o tinha as implica\u00e7\u00f5es da desigualdade de g\u00eanero. As mulheres podiam combinar seus pap\u00e9is reprodutivos e produtivos para que ambos os sexos pudessem realizar um trabalho produtivo. Mas com o surgimento da sociedade de classes, quando come\u00e7a a produ\u00e7\u00e3o para troca e pela domina\u00e7\u00e3o, a divis\u00e3o sexual do trabalho contribui para corroer a igualdade entre os sexos. A produ\u00e7\u00e3o e o com\u00e9rcio ocorrem cada vez mais fora de casa, de modo que o lar se torna um ambiente estritamente reprodutivo. Assim, a origem da opress\u00e3o da mulher deriva principalmente de seu papel na vida reprodutiva dentro da fam\u00edlia e do papel da fam\u00edlia como unidade econ\u00f4mica na sociedade.<\/p>\n<p><strong><em>A contribui\u00e7\u00e3o de Marx<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>A origem da fam\u00edlia, a propriedade privada e o Estado<\/em> foi publicado em 1884 com a assinatura de Engels. A aus\u00eancia do nome de Marx como autor do texto, foi utilizada estruturalmente por numerosos detratores do marxismo para sublinhar o desinteresse do \u201cMouro\u201d nas quest\u00f5es da opress\u00e3o da mulher.<\/p>\n<p>\u00c0 parte o fato de que, na \u00e9poca da publica\u00e7\u00e3o, Marx havia morrido h\u00e1 mais de um ano, \u00e9 preciso dizer que, segundo admite o pr\u00f3prio Engels, a obra resume uma vida de investiga\u00e7\u00e3o de ambos e se baseia em grande parte nas notas reunidas por Marx: sua pr\u00f3pria filha Eleanor, que foi assistente de seu pai enquanto ele viveu e editora de suas publica\u00e7\u00f5es ap\u00f3s sua morte, \u00e9 assiduamente consultada por Engels tanto na reda\u00e7\u00e3o como na revis\u00e3o da obra. Portanto, acusar Marx de desinteresse pela condi\u00e7\u00e3o feminina n\u00e3o \u00e9 apenas intelectualmente incorreto, mas ainda mais, conceitualmente. Este trabalho \u00fanico, que inclusive hoje as feministas n\u00e3o podem ignorar (na maioria dos casos para critic\u00e1-lo), e que se baseia em dois conceitos chaves &#8211; que as primeiras sociedades humanas eram sem classes e igualit\u00e1rias, e que a opress\u00e3o das mulheres acompanha o nascimento das classes \u2013 constitui a culmina\u00e7\u00e3o de uma elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e um compromisso militante que tanto Marx como Engels difundiram ao longo de suas vidas.<\/p>\n<p>Na <em>Quest\u00e3o Judaica<\/em>, publicado por Marx quando ele tinha 25 anos, l\u00ea-se: <em>\u00abA mesma rela\u00e7\u00e3o sexual, a rela\u00e7\u00e3o entre homem e mulher, etc., torna-se objeto de com\u00e9rcio!\u00bb <\/em>Na Em <em>A Sagrada Fam\u00edlia<\/em>, escrito mais tarde em 1844, Marx parafraseia de modo aproximado a Fourier, tocando um tema ao que ele retorna com frequ\u00eancia pelo resto de sua vida: <em>\u00abO grau de emancipa\u00e7\u00e3o da mulher \u00e9 a medida natural da emancipa\u00e7\u00e3o geral\u00bb.<\/em> No <em>Manifesto do Partido Comunista<\/em>, publicado em 1848, primeiro documento program\u00e1tico escrito para uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, sustenta que a classe dominante oprime as mulheres: <em>\u00abO burgu\u00eas v\u00ea na esposa um simples instrumento de produ\u00e7\u00e3o. Escuta dizer que os instrumentos de produ\u00e7\u00e3o ser\u00e3o explorados em comum e, evidente, n\u00e3o pode chegar \u00e0 outra conclus\u00e3o sen\u00e3o a de que acontecer\u00e1 o mesmo com as mulheres. Ele nem sequer suspeita que a verdadeira quest\u00e3o \u00e9 abolir o status das mulheres como meros instrumentos de produ\u00e7\u00e3o\u00bb<\/em>.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos continuar, mas \u00e9 suficiente dizer que, desde os primeiros anos de seu ativismo, tanto Marx como Engels escreveram sobre a quest\u00e3o da opress\u00e3o da mulher pensando sobre o que significava sua participa\u00e7\u00e3o ativa para a classe oper\u00e1ria e pela luta por uma sociedade melhor. Essa an\u00e1lise sobre os escritos de Marx, repleta de considera\u00e7\u00f5es sobre a quest\u00e3o da opress\u00e3o da mulher, \u00e9 deliberadamente ignorada e, em vez disso, a refer\u00eancia \u00e9 feita exclusivamente em <em>A origem da fam\u00edlia, a propriedade privada e o Estado,<\/em> de Engels. Mas j\u00e1 em seus primeiros trabalhos, e depois no <em>Capital<\/em>, a quest\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o da mulher \u00e9 um tema recorrente. Mesmo com as limita\u00e7\u00f5es de sua \u00e9poca, Marx encontrava-se entre os mais avan\u00e7ados na quest\u00e3o da opress\u00e3o da mulher: tinha clareza dos problemas que as mulheres teriam que enfrentar e o tratamento por parte dos homens.<\/p>\n<p>E na pr\u00e1tica, Marx tamb\u00e9m estava \u00e0 frente de todos. Imediatamente ap\u00f3s ajudar a fundar a Primeira Internacional, sugere que a companheira de Engels, Lizzie Burns, participasse imediatamente, e sua correspond\u00eancia mostra que ele incentivava as mulheres a se unirem independentemente de seus maridos. Marx foi o mais consciente de todos os membros do Conselho da Internacional em colocar o tema da mulher na agenda do dia: lutando contra os anarquistas cuja se\u00e7\u00e3o francesa era francamente hostil \u00e0s mulheres que trabalhavam na ind\u00fastria, alinhada com a infame proclama\u00e7\u00e3o de Proudhon de que a mulher \u00e9 dona-de-casa ou cortes\u00e3; prop\u00f5e regularmente pontos na agenda dos Congressos da Internacional sobre a condi\u00e7\u00e3o da mulher e da crian\u00e7a; \u00e9 quem impulsiona o debate da quest\u00e3o da mulher nas reuni\u00f5es da Internacional, mesmo quando n\u00e3o podia comparecer. No Congresso de 1867, Marx apresentou uma proposta para uma discuss\u00e3o aprofundada sobre <em>\u00abos meios pr\u00e1ticos de a\u00e7\u00e3o para as classes trabalhadoras, mulheres e homens, na luta por sua total emancipa\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio do capital\u00bb.<\/em> A partir desse momento, a cada declara\u00e7\u00e3o que escreve ou edita se refere a mulheres e homens trabalhadores. Depois da <em>Comuna de Paris<\/em>, ao apontar o importante papel das mulheres, prop\u00f4s em setembro de 1871 que a Internacional criasse se\u00e7\u00f5es femininas: isso n\u00e3o para eliminar as se\u00e7\u00f5es mistas, mas pela evidente necessidade das mulheres organizarem o crescente n\u00famero de trabalhadoras envolvidas.<\/p>\n<p>Marx pensava na opress\u00e3o das mulheres e levou a s\u00e9rio sua participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o s\u00f3 abordou o tema teoricamente, mas o considerou ativamente em sua atividade pol\u00edtica sempre que se apresentava uma oportunidade. No entanto, o apoio constante de Marx aos direitos das mulheres \u00e9 pouco conhecido ou inclusive mistificado. Shulamith Firestone, por exemplo, em seu livro <em>A dial\u00e9tica do sexo<\/em> aniquila Marx como [sendo] \u00abpior\u00bb do que Engels porque, em sua opini\u00e3o, existe um preconceito por parte de Marx contra as mulheres, j\u00e1 que sua an\u00e1lise da opress\u00e3o feminina seria apenas resultado de intui\u00e7\u00f5es acidentais.<\/p>\n<p><strong>As cr\u00edticas e as diferen\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p>A obra de Engels foi considerada, durante muito tempo e at\u00e9 poucos anos atr\u00e1s, um lixo por v\u00e1rios cientistas sociais porque continha a ideia de que os seres humanos viviam no que Engels e alguns antrop\u00f3logos como Morgan haviam chamado \u00abcomunismo primitivo\u00bb. A exist\u00eancia do \u00abcomunismo primitivo\u00bb nas primeiras sociedades humanas foi, de fato, um elemento chave, perigoso e minado pelos opositores do marxismo: se os seres humanos tivessem realmente vivido em sociedades coletivas igualit\u00e1rias como as descritas por Engels e outros, ent\u00e3o isso poderia ser poss\u00edvel tamb\u00e9m no futuro. Derrotar essa tese de que as mulheres nem sempre viveram em uma posi\u00e7\u00e3o subordinada que hoje \u00e9 tida como certa, significaria desconfiar do argumento b\u00e1sico de que a humanidade come\u00e7ou sua vida social de um modo n\u00e3o hier\u00e1rquico e igualit\u00e1rio. Com as mudan\u00e7as nos debates, inicialmente influenciados pelo radicalismo dos anos sessenta e setenta [do s\u00e9culo XX], agora \u00e9 amplamente aceito que existiam sociedades sem classes. Os estudiosos, mesmo os n\u00e3o marxistas, demonstraram indiscutivelmente que os seres humanos viviam em pequenos grupos antes do nascimento do Estado e a consolida\u00e7\u00e3o da desigualdade social. Nessas sociedades havia propriedade comum de terra e recursos, reciprocidade generalizada na distribui\u00e7\u00e3o de alimentos, e rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas relativamente igualit\u00e1rias.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise marxista define o momento hist\u00f3rico em que se consolida a opress\u00e3o da mulher, subvertendo assim a teoria, muito difundida, de que as mulheres sempre foram oprimidas, fundamentalmente por sua diferen\u00e7a biol\u00f3gica com os homens. Essa teoria cont\u00e9m, em si, dois preconceitos: o primeiro relativo \u00e0 imutabilidade da condi\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o da mulher, o segundo sobre a suposta inferioridade biol\u00f3gica da mulher, vinculada em particular \u00e0 sua capacidade reprodutiva.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro preconceito, estudos antropol\u00f3gicos, inclu\u00eddos os recentes, desmentiram a teoria de que o controle dos homens sobre as mulheres sempre tenha existido e, em vez disso, confirmaram a exist\u00eancia de um sistema matrilinear ou, como definido incorretamente na \u00e9poca de Engels, um per\u00edodo de matriarcado: nas sociedades primitivas, a \u00fanica forma segura de tra\u00e7ar a linha de descend\u00eancia era partir da m\u00e3e, ponto de partida indiscut\u00edvel para saber com certeza quem descendia de quem. N\u00e3o existia outro meio cient\u00edfico do que se referir \u00e0 maternidade, a \u00fanica descend\u00eancia que podia ser provada com certeza. A partir desta necessidade, gerou-se o chamado \u00abdireito materno\u00bb que atribuiu \u00e0 mulher um papel muito importante nas comunidades da \u00e9poca. O que Engels define como \u00aba derrota hist\u00f3rica universal do sexo feminino\u00bb ou \u00aba derrubada do matriarcado\u00bb ocorre quando se concretiza a domina\u00e7\u00e3o exclusiva do homem, que n\u00e3o apenas se ocupa da atividade produtiva, mas tamb\u00e9m assume o comando da casa, subordinando sua esposa e filhos. Essa passagem se configura com o nascimento de uma forma intermedi\u00e1ria de fam\u00edlia, a patriarcal, e tamb\u00e9m torna necess\u00e1ria a mudan\u00e7a do direito: \u00abassim foram revogados o c\u00e1lculo da descend\u00eancia pela linha feminina e o direito heredit\u00e1rio matriarcal e introduzido a descend\u00eancia pela linha masculina e o direito heredit\u00e1rio masculino\u00bb. E como diz Engels algumas linhas acima, a passagem foi indolor: \u00abBastou simplesmente decidir\u00bb.[3]<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 suposta inferioridade biol\u00f3gica da mulher, em particular no que diz respeito \u00e0 capacidade reprodutiva, deve-se dizer que estudos antropol\u00f3gicos recentes demonstraram que nas sociedades primitivas a fun\u00e7\u00e3o reprodutiva era tida em alta estima e, portanto, n\u00e3o explica como essa diferen\u00e7a biol\u00f3gica entre a mulher e o homem possa ser a causa de sua opress\u00e3o. Evid\u00eancias arqueol\u00f3gicas e antropol\u00f3gicas de sociedades de ca\u00e7adores-coletores existentes na \u00e9poca das invas\u00f5es imperialistas; pesquisas sobre as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero em sociedades ind\u00edgenas na Austr\u00e1lia antes da invas\u00e3o colonial; estudos de feministas como Karen Sachs, Christine Gailey e Ernestine Friedl revelam sociedades nas quais as mulheres n\u00e3o sofriam discrimina\u00e7\u00e3o nem opress\u00e3o sistem\u00e1tica e, de fato, testemunham a enorme autonomia das mulheres da \u00e9poca no gerenciamento de sua sexualidade e fertilidade: agora, \u00e9 verdade que as mulheres no Paleol\u00edtico, por exemplo, adotavam formas de controle da natalidade e muitas vezes, para evitar uma gravidez muito pr\u00f3xima, prolongavam o per\u00edodo de lacta\u00e7\u00e3o dos rec\u00e9m-nascidos. A procria\u00e7\u00e3o n\u00e3o era um impedimento nas comunidades primitivas; assim foi com o nascimento e o surgimento da fam\u00edlia patriarcal, ent\u00e3o monog\u00e2mica. O nascimento da propriedade privada e a afirma\u00e7\u00e3o do sistema capitalista \u2013 o est\u00e1gio final do desenvolvimento da sociedade de classes &#8211; n\u00e3o transformaram as rela\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres apenas dentro de casa, e sim mudou radicalmente as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas na sociedade de modo geral, criando as condi\u00e7\u00f5es para a opress\u00e3o das mulheres mesmo fora do contexto dom\u00e9stico: as mulheres, portanto, foram condenadas a sua condi\u00e7\u00e3o de oprimidas pelas mesmas for\u00e7as e rela\u00e7\u00f5es sociais que levaram \u00e0 opress\u00e3o de uma classe por outra, de uma etnia por outra e de uma na\u00e7\u00e3o por outra.<\/p>\n<p>Nos debates e nos movimentos pela liberta\u00e7\u00e3o das mulheres, ouve-se cada vez mais frequente que o patriarcado &#8211; e n\u00e3o o capitalismo &#8211; \u00e9 a verdadeira causa da opress\u00e3o da mulher: o patriarcado configura-se assim como um sistema estrutural da sociedade, paralelo e historicamente anterior ao capitalismo, constru\u00eddo ao longo do tempo sobre a diferen\u00e7a de g\u00eanero entre homens e mulheres, e sobre o poder dos homens sobre as mulheres. Derrubar o patriarcado, portanto, se converteria em uma prioridade para as mulheres, atrav\u00e9s de uma luta comum de todas as mulheres contra todos os homens, e at\u00e9 substituiria a necessidade de derrubar o capitalismo. Da\u00ed a ideia &#8211; sustentada por essas correntes do feminismo pequeno-burgu\u00eas &#8211; de que as mulheres devem se organizar, em um v\u00ednculo de <em>irmandade<\/em> que identifica o homem como o verdadeiro inimigo a derrotar, ou indo ao extremo desse v\u00ednculo, ou seja, que as mulheres constituem uma classe que deve colidir com uma <em>contra classe<\/em>, a masculina, para obter sua pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o. Ambas as interpreta\u00e7\u00f5es t\u00eam limita\u00e7\u00f5es para os marxistas.<\/p>\n<p>A ideia por tr\u00e1s de ambas, de que todas as mulheres em termos de sexo t\u00eam mais em comum do que os membros da mesma classe entre si \u00e9 falsa: as mulheres de classe m\u00e9dia t\u00eam la\u00e7os muito fortes com seus maridos, compartilham seus interesses econ\u00f4micos, sociais e pol\u00edticos, se unem a eles na defesa da propriedade privada, o lucro, o militarismo, o racismo e a explora\u00e7\u00e3o de outras mulheres. \u00c9 verdade que todas as formas de sociedade de classes foram dominadas pelos homens e que os homens est\u00e3o treinados desde o nascimento para ser machistas, mas n\u00e3o \u00e9 verdade que os homens, como tais, sejam o principal inimigo das mulheres. De fato, isto eliminaria a multid\u00e3o de homens oprimidos e explorados, eles pr\u00f3prios oprimidos pelo principal inimigo das mulheres, que \u00e9 o sistema capitalista. Estes homens tamb\u00e9m t\u00eam interesse na luta pela liberta\u00e7\u00e3o das mulheres; podem e devem se tornar aliados das mulheres na luta por um novo sistema social, econ\u00f4mico e pol\u00edtico que permita a ambos uma realiza\u00e7\u00e3o livre e igualit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Com base nessa coexist\u00eancia de dois sistemas, patriarcado e capitalismo, o primeiro mais prejudicial que o segundo para a mulher, a obra de Engels foi mal entendida e difamada por v\u00e1rias te\u00f3ricas feministas por ter, segundo elas, \u00abreduzido\u00bb a quest\u00e3o da mulher de um alcance geral a outro mais limitado, o econ\u00f4mico: nada poderia estar mais distante da abordagem de Engels, que sempre polemizou com as interpreta\u00e7\u00f5es mec\u00e2nicas do materialismo hist\u00f3rico (justamente aquelas que reduzem mecanicamente todos os aspectos da vida social, cultural e ideol\u00f3gica ao \u00abfator econ\u00f4mico\u00bb). Nos anos seguintes, isso foi agravado pela acusa\u00e7\u00e3o de que os marxistas n\u00e3o colocavam o patriarcado e o capitalismo na rela\u00e7\u00e3o correta: como \u00e9 poss\u00edvel que o patriarcado seja produto do capital se historicamente o precede? \u00c9 indiscut\u00edvel que quando falamos da opress\u00e3o da mulher n\u00e3o podemos utilizar apenas categorias econ\u00f4micas: a opress\u00e3o \u00e9 um conjunto de fatores psicol\u00f3gicos, emocionais, culturais, ideol\u00f3gicos que constituem a superestrutura ideol\u00f3gica e cuja rela\u00e7\u00e3o com a estrutura econ\u00f4mica da sociedade \u00e9 muito complexa e variou em diferentes per\u00edodos hist\u00f3ricos. N\u00e3o h\u00e1 correspond\u00eancia direta; entretanto, em \u00faltima inst\u00e2ncia (embora n\u00e3o mecanicamente) as leis econ\u00f4micas condicionam as leis ideol\u00f3gicas. Em seu \u00abPrefacio\u00bb \u00e0 primeira edi\u00e7\u00e3o de 1884, \u00e9 o pr\u00f3prio Engels quem nos d\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o mais n\u00edtida desta rela\u00e7\u00e3o: <em>\u00abSegundo a concep\u00e7\u00e3o materialista, o momento determinante da hist\u00f3ria, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o e a reprodu\u00e7\u00e3o da vida imediata. Mas isso, por sua vez, \u00e9 de dois tipos. De um lado, a produ\u00e7\u00e3o de meios de subsist\u00eancia, de alimentos, roupas, moradia e ferramentas necess\u00e1rias para essas coisas; de outro, a produ\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios homens: a reprodu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie. As institui\u00e7\u00f5es sociais em que vivem os homens de uma determinada \u00e9poca hist\u00f3rica e de um determinado pa\u00eds est\u00e3o condicionadas por ambos os tipos de produ\u00e7\u00e3o; da fase de desenvolvimento do trabalho, por um lado, e da fam\u00edlia, pelo outro\u00bb.<\/em> [4]<\/p>\n<p>O capitalismo, o sistema econ\u00f4mico que a sociedade se deu no tempo, utiliza o patriarcado de maneira instrumental e torna funcional a opress\u00e3o da mulher para sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia: n\u00e3o foi um processo mec\u00e2nico, mas apenas uma consequ\u00eancia da capacidade do capitalismo de assumir para si institui\u00e7\u00f5es e costumes anteriores ao seu surgimento &#8211; na forma plena em que a conhecemos &#8211; onde eles podem ser \u00fateis para obter benef\u00edcios ou para manter est\u00e1vel a ordem social (ou para se livrar deles quando j\u00e1 n\u00e3o os necessita mais ou s\u00e3o muito dif\u00edceis ou caros de manter). Valores culturais como fidelidade e monogamia n\u00e3o t\u00eam de fato uma origem de car\u00e1ter moral, mas est\u00e3o intimamente ligados \u00e0 ideia de funcionalidade: Engels, de fato, mostra que o desenvolvimento da fam\u00edlia baseado em uma rigorosa monogamia nada tem a ver com moral. Segundo ele, o ideal da fam\u00edlia monog\u00e2mica se baseia em uma hipocrisia fundamental, ou seja, o valor da monogamia apenas para a mulher, mas n\u00e3o para o homem, de modo a poder controlar a descend\u00eancia. Assim, junto com o desenvolvimento dos casamentos monog\u00e2micos, surgiu a primeira comercializa\u00e7\u00e3o do sexo na forma de prostitui\u00e7\u00e3o &#8211; ambos produtos da sociedade de classes -. A monogamia e a prostitui\u00e7\u00e3o s\u00e3o duas faces da mesma moeda, o que Engels chama \u00abcontradi\u00e7\u00f5es insepar\u00e1veis\u00bb do Estado social. Dependendo de sua origem e natureza, essas contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser erradicadas mediante uma revolu\u00e7\u00e3o apenas \u00e9tica ou de costumes, e sim material, econ\u00f4mica. Marx e Engels argumentavam que a independ\u00eancia econ\u00f4mica das mulheres era um passo crucial para alcan\u00e7ar os direitos pol\u00edticos e a igualdade: entendiam que, embora fosse progressivo para as mulheres ter um trabalho remunerado, isso tamb\u00e9m significava problemas na fam\u00edlia quanto ao cuidado das crian\u00e7as e do trabalho dom\u00e9stico. Mas n\u00e3o achavam, como afirmam algumas te\u00f3ricas feministas, que isso por si s\u00f3 conduziria \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o das mulheres, o que s\u00f3 poderia acontecer com a derrubada completa das rela\u00e7\u00f5es sociais do capitalismo.<\/p>\n<p>Por tanto, os marxistas n\u00e3o querem \u00abreduzir\u00bb a complexa e central quest\u00e3o da opress\u00e3o feminina unicamente ao componente econ\u00f4mico, mas sim \u00e0 constata\u00e7\u00e3o de que o status jur\u00eddico da desigualdade entre homens e mulheres n\u00e3o \u00e9 a causa da opress\u00e3o das mulheres, mas a consequ\u00eancia da afirma\u00e7\u00e3o da sociedade de classes. A verdadeira quest\u00e3o que Engels levanta n\u00e3o est\u00e1 na varia\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de parentesco ou filia\u00e7\u00e3o, mas na mudan\u00e7a do papel social da fam\u00edlia, mudan\u00e7a provocada por fatores puramente econ\u00f4micos. \u00abOs capitalistas t\u00eam muitas raz\u00f5es para glorificar a fam\u00edlia nuclear. Sua pequena fam\u00edlia \u00e9 uma mina de ouro para todos os tipos de vendedores ambulantes, desde agentes imobili\u00e1rios at\u00e9 fabricantes de detergentes e cosm\u00e9ticos. Assim como os autom\u00f3veis s\u00e3o produzidos para uso individual em vez do desenvolvimento de meios adequados de transporte de massa, as grandes empresas podem ganhar mais vendendo pequenas casas em lotes privados para equip\u00e1-las com m\u00e1quinas de lavar, geladeiras e outros artigos similares. Para eles \u00e9 mais rent\u00e1vel do que a construir moradias populares em larga escala com alugu\u00e9is baixos ou desenvolver servi\u00e7os comunit\u00e1rios e creches. Em segundo lugar, o isolamento das mulheres, cada uma fechada em uma casa particular e vinculada \u00e0 mesma tarefa de cozinha e creche, impede que se unam e se tornem uma for\u00e7a social forte ou uma s\u00e9ria amea\u00e7a pol\u00edtica para o establishment\u00bb [5].<\/p>\n<p>Essa descri\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel do papel da fam\u00edlia em sua rela\u00e7\u00e3o com o sistema capitalista levanta outro problema de longa data: que solu\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel neste sistema para livrar as mulheres do trabalho de cuidado e assist\u00eancia ao qual inevitavelmente est\u00e3o escravizadas? Os marxistas certamente s\u00e3o a favor da participa\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria dos homens nas tarefas dom\u00e9sticas, mas convencer aos homens a assumirem parte das tarefas dom\u00e9sticas n\u00e3o \u00e9 a resposta nem a solu\u00e7\u00e3o \u00e0 opress\u00e3o das mulheres, pois a reprodu\u00e7\u00e3o continuar\u00e1 sendo privatizada. \u00c9 uma solu\u00e7\u00e3o que interessaria apenas \u00e0s fam\u00edlias da classe oper\u00e1ria. De fato, isso n\u00e3o traria consequ\u00eancia alguma para as fam\u00edlias burguesas que disp\u00f5em de meios para garantir o servi\u00e7o dom\u00e9stico atrav\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o de outras mulheres. O que era verdade na \u00e9poca de Engels \u00e9 ainda mais verdade hoje: a sociedade tem riqueza mais do que suficiente para transformar o trabalho dom\u00e9stico e aspectos mais pesados como a educa\u00e7\u00e3o dos filhos ou o cuidado dos idosos e deficientes em uma <em>ind\u00fastria social<\/em>. Mas isso n\u00e3o pode acontecer enquanto a produ\u00e7\u00e3o existir apenas para fins de lucro. Com a transfer\u00eancia dos meios de produ\u00e7\u00e3o \u00e0 propriedade comum, a fam\u00edlia deixar\u00e1 de ser a \u00fanica unidade econ\u00f4mica da sociedade. O trabalho dom\u00e9stico privado se transformar\u00e1 em uma ind\u00fastria social. O cuidado e a educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as se tornar\u00e3o um assunto p\u00fablico, a sociedade cuidar\u00e1 de todas as crian\u00e7as igualmente.<\/p>\n<p><strong>Por que Engels tinha raz\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Alguns enunciados de Engels tiveram que ser revisados, em virtude de todas as informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o eram acess\u00edveis em sua \u00e9poca. No entanto, isso n\u00e3o diminui sua contribui\u00e7\u00e3o: ele desenvolveu uma an\u00e1lise hist\u00f3rica que n\u00e3o apenas identifica a raiz da opress\u00e3o das mulheres, mas a localiza cronologicamente dentro de um curso evolutivo social mais complexo. E, ao mesmo tempo, ao integr\u00e1-lo no contexto mais amplo da luta de classes, fornece a estrat\u00e9gia para acabar com essa opress\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00abComo marxistas [&#8230;] negamos que a inferioridade da mulher foi predestinada por sua constitui\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica ou sempre existiu. Longe de ser eterna, a submiss\u00e3o da mulher e a amarga hostilidade entre os sexos t\u00eam alguns milhares de anos. Foram produzidas pelas mudan\u00e7as sociais dr\u00e1sticas provocadas pela exist\u00eancia da fam\u00edlia, a propriedade privada e o Estado. Esta vis\u00e3o da hist\u00f3ria destaca a necessidade de uma revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o menos profunda nas rela\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas para erradicar as causas da desigualdade e alcan\u00e7ar a plena emancipa\u00e7\u00e3o de nosso sexo. Este \u00e9 o objetivo e a promessa do programa socialista e, por isto estamos lutando\u00bb. [6]<\/p>\n<p>No entanto, embora a liberta\u00e7\u00e3o total da mulher n\u00e3o possa ser alcan\u00e7ada sem a revolu\u00e7\u00e3o socialista, isso n\u00e3o significa que a luta deva ser adiada at\u00e9 ent\u00e3o: as mulheres marxistas lutam em todas as a\u00e7\u00f5es organizadas por objetivos espec\u00edficos, e assumem a lideran\u00e7a das lutas procurando envolver toda a classe trabalhadora no caminho para a revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1] Al\u00e9m da obra de Engels, <em>A origem da fam\u00edlia, a propriedade privada e o Estado<\/em>, os seguintes textos foram fundamentais para a reda\u00e7\u00e3o do artigo: C. Toledo, G\u00eanero e Classe, Edi\u00e7\u00f5es Marxismo vivo, 2016; F. Oppen, \u201cO feminismo radical e o surgimento das teorias do patriarcado &#8211; Um ponto de vista marxista\u201d, em Marxismo Vivo, n. 7, pags. 175-198 dispon\u00edvel em:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/phl.bibliotecaleontrotsky.org\/arquivo\/mv07neept\/mv07neept-19o.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/phl.bibliotecaleontrotsky.org\/arquivo\/mv07neept\/mv07neept-19o.pdf<\/a><\/p>\n<p>[2] F. Engels,\u00a0<em>L\u2019origine della famiglia, della propriet\u00e0 privata e dello Stato<\/em>, Editori Riuniti, Roma, 2019, p. 102.<\/p>\n<p>[3] Idem, p. 92.<\/p>\n<p>[4] Idem, p. 36<\/p>\n<p>[5] E. Reed, \u201cWomen: caste, class or oppressed sex\u201d, in International socialist review, September 1970, Vol. 31, N\u00b0 3, pp. 15-17 and 40-41. Dispon\u00edvel em ingl\u00eas, em:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/archive\/reed-evelyn\/1970\/caste-class-sex.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/archive\/reed-evelyn\/1970\/caste-class-sex.htm<\/a><\/p>\n<p>[6] Ib\u00eddem.<\/p>\n<p>Artigo original publicado na revista de teoria e pr\u00e1xis marxista Trotskismo Oggi n.\u00b0 17, do Partido de Alternativa Comunista da It\u00e1lia, dezembro de 2020.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3oitaliano\/espanhol: Natalia Estrada<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o espanhol\/portugu\u00eas: Roasangela Botelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Patriarcado \u00e9 uma palavra muito utilizada nos debates sobre a condi\u00e7\u00e3o da mulher, que costuma apontar a principal causa da opress\u00e3o da mulher no mundo. 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