{"id":62906,"date":"2021-01-24T16:59:10","date_gmt":"2021-01-24T19:59:10","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=62906"},"modified":"2021-01-24T16:59:10","modified_gmt":"2021-01-24T19:59:10","slug":"tunisia-e-as-novas-ondas-do-processo-revolucionario-em-curso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/01\/24\/tunisia-e-as-novas-ondas-do-processo-revolucionario-em-curso\/","title":{"rendered":"Tun\u00edsia e as novas ondas do processo revolucion\u00e1rio em curso"},"content":{"rendered":"<p><em>Ap\u00f3s dez anos de levantes \u00e1rabes revolucion\u00e1rios deflagrados em 2010, os direitos democr\u00e1ticos foram conquistados em um n\u00edvel satisfat\u00f3rio na Tun\u00edsia &#8211; em compara\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o anterior sob o regime de ditadura de Ben Ali. No entanto, o principal dilema que mobilizou as massas em primeiro lugar &#8211; as contradi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas &#8211; ainda existe, e a quest\u00e3o da justi\u00e7a social n\u00e3o est\u00e1 resolvida.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><br \/>\nPor: Tamer Khorma<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio de 2021, protestos massivos dominaram as ruas de v\u00e1rias cidades, incluindo a capital Tunis. As autoridades afirmam que esses protestos s\u00e3o meros motins, motivados por uma chamada \u201cagenda oculta\u201d para quebrar o toque de recolher e as medidas governamentais para enfrentar o Coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>No entanto, as principais e \u00fanicas raz\u00f5es genu\u00ednas por tr\u00e1s desses protestos s\u00e3o a pobreza, o desemprego e a busca por justi\u00e7a social. As estat\u00edsticas mostram que as taxas de desemprego na Tun\u00edsia aumentaram de 13% em 2010 para 16,2% em 2020 e atingiram 35,7% entre os jovens. Al\u00e9m disso, o pa\u00eds registrou uma recess\u00e3o econ\u00f4mica de 9%, um d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio de 13,4% e uma d\u00edvida externa pr\u00f3xima a 90% do PIB.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica decadente \u00e9 resultado do sistema burgu\u00eas isl\u00e2mico impulsionado pelo partido Al-Nahda e seus aliados laicos dentro do mesmo regime burgu\u00eas, que controla o pa\u00eds desde a derrubada do ditador. O Primeiro Ministro Hisham Al Meshishi come\u00e7ou seu mandato com um compromisso com o presidente do parlamento, Rashid Al Ghannouchi (Al Nahda), que levou a uma remodela\u00e7\u00e3o do governo, a fim de se livrar dos atores ligados ao populista presidente da rep\u00fablica Qais Saed. As massas reconhecem que seus problemas econ\u00f4micos resultantes do Al Nahda permanecer\u00e3o ou at\u00e9 mesmo se tornar\u00e3o ainda piores.<\/p>\n<p>Os partidos pol\u00edticos da burguesia (setores isl\u00e2micos e laicos) lutam pelo poder sem enfrentar os problemas econ\u00f4micos que provocaram as revoltas \u00e1rabes neste pa\u00eds. As massas, portanto, est\u00e3o tentando retomar o curso de sua revolu\u00e7\u00e3o no caminho correto. O cerne desta revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 representado pelo famoso slogan \u00e1rabe: P\u00e3o, Liberdade e Justi\u00e7a Social, que nem a burguesia isl\u00e2mica nem a laica t\u00eam interesse em abordar.<\/p>\n<p>Para muitos observadores, a revolu\u00e7\u00e3o tunisiana \u00e9 considerada como a \u00fanica revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa, que n\u00e3o foi derrotada por uma contra-revolu\u00e7\u00e3o ou roubada por for\u00e7as imperialistas ou capitalistas da regi\u00e3o. Mas, na verdade, mesmo essa revolu\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o atingiu seus objetivos principais e ainda \u00e9 influenciada por pot\u00eancias regionais e internacionais. Como resultado, o novo regime ainda representa os interesses da burguesia e, portanto, a classe trabalhadora n\u00e3o tem op\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser realizar uma revolu\u00e7\u00e3o permanente. Os principais atores que podem organizar e liderar os novos protestos s\u00e3o os sindicatos e as rec\u00e9m-formadas organiza\u00e7\u00f5es e movimentos juvenis de esquerda.<\/p>\n<p>Os direitos democr\u00e1ticos e as liberdades individuais n\u00e3o s\u00e3o o \u00fanico e mais essencial objetivo das massas tunisianas e \u00e1rabes. O p\u00e3o e busca por justi\u00e7a social foram e continuam sendo as demandas mais fundamentais dessas revoltas em curso, que come\u00e7aram sua primeira onda em 2010 e continuaram sua segunda onda no final de 2018 (Sud\u00e3o, Arg\u00e9lia, Iraque e L\u00edbano) e a terceira onda \u00e9 muito esperada agora na Tun\u00edsia, Jord\u00e2nia e Marrocos (as monarquias que at\u00e9 agora conseguiram se adaptar a essas ondas revolucion\u00e1rias).<\/p>\n<p>Mesmo os direitos humanos, como o direito de express\u00e3o, n\u00e3o est\u00e3o totalmente garantidos sob o regime burgu\u00eas da Tun\u00edsia. A viol\u00eancia policial contra os protestos recentes mostra a abordagem brutal de uma classe dominante liberal. O n\u00famero de presos pol\u00edticos atingiu cerca de 900 ativistas, a grande maioria deles jovens. Assim, al\u00e9m das demandas econ\u00f4micas, as massas clamam pela liberta\u00e7\u00e3o imediata e incondicional de todos os ativistas presos.<\/p>\n<p>T\u00fanis n\u00e3o sofreu uma contra-revolu\u00e7\u00e3o via guerra civil ou golpe militar ap\u00f3s a revolta de 2010. No entanto, o objetivo deste processo revolucion\u00e1rio nunca ser\u00e1 alcan\u00e7ado sob um governo burgu\u00eas, mesmo que seja um reformista \u201cdemocr\u00e1tico\u201d. A tomada do poder pela classe trabalhadora \u00e9 a \u00fanica forma de criar um verdadeiro sistema alternativo, no qual todas as contradi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas possam ser resolvidas. No entanto, o principal dilema na Tun\u00edsia e no resto dos pa\u00edses \u00e1rabes permanece o mesmo, ou seja, a aus\u00eancia do partido de vanguarda da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>No entanto, a aus\u00eancia de um partido socialista dirigente n\u00e3o implica em uma derrota inevit\u00e1vel dessas revoltas revolucion\u00e1rias em curso. Os fatores objetivos conduzem a estas revoltas, e novos movimentos de juventude est\u00e3o sendo formados por meio dos quais as massas podem aprender com sua pr\u00f3pria experi\u00eancia neste processo. \u00c9 necess\u00e1rio apoio internacional incondicional a essas forma\u00e7\u00f5es de juventude rec\u00e9m-surgidas, e aos sindicatos das massas. O que a Tun\u00edsia testemunha hoje mostra, sem d\u00favida, que as massas continuar\u00e3o com novas ondas revolucion\u00e1rias, e que os procedimentos reformistas burgueses nunca ser\u00e3o suficientes!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s dez anos de levantes \u00e1rabes revolucion\u00e1rios deflagrados em 2010, os direitos democr\u00e1ticos foram conquistados em um n\u00edvel satisfat\u00f3rio na Tun\u00edsia &#8211; em compara\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o anterior sob o regime de ditadura de Ben Ali. 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