{"id":62867,"date":"2021-01-19T15:05:14","date_gmt":"2021-01-19T18:05:14","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=62867"},"modified":"2021-01-19T15:05:14","modified_gmt":"2021-01-19T18:05:14","slug":"lucro-sem-fins-lucrativos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/01\/19\/lucro-sem-fins-lucrativos\/","title":{"rendered":"Lucro sem fins lucrativos"},"content":{"rendered":"<p><em>No capitalismo, as crises s\u00e3o end\u00eamicas. Cada vez mais e mesmo que os indicadores econ\u00f4micos apontem para a prosperidade, isso s\u00f3 chega a um pequeno setor da sociedade. Os trabalhadores carregam d\u00e9cadas de perdas salariais e corte em massa nos servi\u00e7os p\u00fablicos e outras interven\u00e7\u00f5es do Estado para minimizar os piores aspectos do capitalismo. Com falta de benef\u00edcios sociais financiados pelo governo, a classe trabalhadora e os pobres passaram a depender cada vez mais das organiza\u00e7\u00f5es sem fins lucrativos que ocupam esse vazio.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Brian Crawford &#8211; A Voz de l@s Trabalhadores, EUA<\/p>\n<p>A decad\u00eancia da esquerda semeou a divis\u00e3o entre os trabalhadores do mundo em seu confronto com o capital, deixando outro vazio que a burguesia aproveita para impor uma dura liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica \u00e0 classe trabalhadora. Para desorganizar a classe trabalhadora, o capital utiliza v\u00e1rias estrat\u00e9gias. Uma delas \u00e9 o controle da gest\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es que buscam compensar a desigualdade. As mesmas empresas que det\u00e9m quase monop\u00f3lios em uma determinada ind\u00fastria, investem em organiza\u00e7\u00f5es sem fins lucrativos ou n\u00e3o governamentais (ONGs) com objetivos espec\u00edficos. Assim, o capital, que criou as condi\u00e7\u00f5es de pauperiza\u00e7\u00e3o na classe trabalhadora, aparece como o salvador. Mas sua filantropia nada mais \u00e9 do que uma fachada para esconder a verdadeira natureza do sistema.<\/p>\n<p><strong>O anticapitalismo populista e o apogeu da filantropia<\/strong><\/p>\n<p>Para entender o atual papel desempenhado pelas ONGs, devemos examinar suas origens na hist\u00f3ria das funda\u00e7\u00f5es de caridade. Nos EUA, as funda\u00e7\u00f5es estabelecidas por Rockefeller ou Carnegie h\u00e1 mais de um s\u00e9culo s\u00e3o exemplos proeminentes disso. Esses e outros monopolistas sofriam o menosprezo p\u00fablico pela mis\u00e9ria que deixavam em seu rastro. A pol\u00edtica da \u201cEra Progressista\u201d neste pa\u00eds (do final do s\u00e9culo XIX at\u00e9 o in\u00edcio da Primeira Guerra Mundial) canalizava tanto a raiva da classe trabalhadora em rela\u00e7\u00e3o ao capital como o antagonismo popular e pequeno-burgu\u00eas contra os \u201cBar\u00f5es Ladr\u00f5es\u201d [1] for\u00e7ando a promulga\u00e7\u00e3o de leis para mitigar o poder dos monop\u00f3lios. Assim, a filantropia foi uma das primeiras formas de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do grande capital para limpar sua reputa\u00e7\u00e3o, influenciar a opini\u00e3o p\u00fablica, e apaziguar a amea\u00e7a populista contra a plutocracia que nos EUA representava o esp\u00edrito da Era Progressista.<\/p>\n<p>H\u00e1 cem anos, era comum suspeitar da filantropia. Inclusive as figuras mais conservadoras da \u00e9poca expressavam hostilidade. Por exemplo, <em>\u201cApesar de seus la\u00e7os estreitos com o grande capital, o candidato presidencial Progressista Teodoro Roosevelt se op\u00f4s ao esfor\u00e7o [da filantropia], declarando que nenhuma despesa de fortunas em caridade [tais como a de Rockefeller] poderia compensar, de nenhuma forma, as m\u00e1s a\u00e7\u00f5es em adquiri-las\u201d<\/em>. Samuel Gompers, presidente da Federa\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria Americana (AFL, por suas siglas em ingl\u00eas) e maior expoente do sindicalismo conservador tradicional, ironizava dizendo que <em>\u201co que o mundo agradeceria ao Sr. Rockefeller neste momento, seria o estabelecimento de um grande fundo de pesquisa e educa\u00e7\u00e3o para ajudar as pessoas verem a tempo como podem evitar se tornar algu\u00e9m como ele<\/em>\u201d. [2]<\/p>\n<p>Roosevelt, como membro da burguesia, temia que a rapinagem de Rockefeller pudesse minar a percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica sobre o sistema e, assim, intensificar a raiva coletiva da classe trabalhadora em um momento de crescente explora\u00e7\u00e3o. Um quarto de s\u00e9culo depois, outro Roosevelt enfrentaria a um desafio ainda maior para salvar a pr\u00f3pria exist\u00eancia do \u201csistema de livre empresa\u201d.<\/p>\n<p>Duas d\u00e9cadas ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, o medo da revolu\u00e7\u00e3o estava fresco na mem\u00f3ria da burguesia. Na d\u00e9cada de 1930, o capitalismo mundial atravessava a pior crise de sua hist\u00f3ria. Este foi o contexto do programa do \u201cnovo pacto social\u201d (o famoso New Deal) do ent\u00e3o presidente Franklin D. Roosevelt (FDR), que criou ou expandiu uma s\u00e9rie de programas e ag\u00eancias governamentais para enfrentar os efeitos da crise. Esses programas proporcionaram empregos no setor p\u00fablico, o direito a sindicaliza\u00e7\u00e3o, o seguro desemprego e a previd\u00eancia social. O mandato de FDR iniciou uma era de pol\u00edtica econ\u00f4mica keynesiana (que busca promover o consumo) nos Estados Unidos e um regime que promovia a interven\u00e7\u00e3o governamental na economia e que prevaleceria durante as seguintes quatro d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio, os programas governamentais do New Deal foram rotulados de \u201csocialistas\u201d. Nos Estados Unidos, esses ataques foram comuns diante de qualquer interven\u00e7\u00e3o governamental a favor das massas populares. A ortodoxia ideol\u00f3gica capitalista coloca o mercado como a principal fonte de tudo o que deve ser fornecido socialmente. De acordo com essa ideologia, a interven\u00e7\u00e3o governamental deve se limitar \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da propriedade privada e a defesa nacional. Assim, os impostos para financiar os programas sociais s\u00e3o considerados um mal, enquanto se sustenta que os capitalistas devem ter permiss\u00e3o para usar os meios financeiros (expropriados \u00e0 classe trabalhadora) como bem entenderem, caridosamente ou n\u00e3o. Dessa perspectiva, s\u00e3o os capitalistas os que melhor podem beneficiar \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p>Sob o New Deal e sua continua\u00e7\u00e3o nas medidas tamb\u00e9m keynesianas do presidente Lyndon B. Johnson na d\u00e9cada de 1960, foram aprofundados os programas governamentais para lidar com a pobreza, habita\u00e7\u00e3o e outros problemas que padeciam as massas trabalhadoras. Mas hoje, a burguesia j\u00e1 n\u00e3o v\u00ea essa forma de abordar as desigualdades estruturais causadas pelo capitalismo como parte da solu\u00e7\u00e3o delas. Quase meio s\u00e9culo depois dessas pol\u00edticas, a pol\u00edtica socioecon\u00f4mica tomou a dire\u00e7\u00e3o oposta.<\/p>\n<p><strong>O neoliberalismo intensifica seus ataques<\/strong><\/p>\n<p>Os ataques do neoliberalismo come\u00e7aram para valer durante a d\u00e9cada de 1980. O governo do presidente Ronald Reagan eliminou muitos programas sociais, supostamente para equilibrar o or\u00e7amento federal. A nova pol\u00edtica de responsabilidade fiscal da burguesia coincidiu com o aumento maci\u00e7o dos gastos militares durante a \u00faltima d\u00e9cada da Guerra Fria. A d\u00edvida nacional atingiu um trilh\u00e3o de d\u00f3lares pela primeira vez na hist\u00f3ria norte-americana, drenando os fundos de programas sociais.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, os cortes de impostos em favor dos ricos e das empresas reduziram as receitas fiscais. \u00c0 medida que a necessidade de servi\u00e7os sociais aumentava as organiza\u00e7\u00f5es sem fins lucrativos ou ONGs se tornaram mais vitais. As ONGs transformaram-se em uma forma do Estado \u201csubdelegar\u201d sua responsabilidade para a classe trabalhadora e os pobres. Conforme os benef\u00edcios aumentavam para os ricos ao ter seus impostos reduzidos, eles lan\u00e7aram programas filantr\u00f3picos, obtendo assim ainda mais incentivos fiscais. Mas, as inten\u00e7\u00f5es do capital sempre v\u00e3o al\u00e9m do benef\u00edcio fiscal.<\/p>\n<p>As empresas e suas respectivas ind\u00fastrias adotam m\u00e9todos para proteger seus interesses e o sistema empresarial de conjunto. Para o capitalismo, os movimentos radicais dos anos de 1960 representavam uma amea\u00e7a direta compar\u00e1veis ao radicalismo dos anos 1930. As lutas pela justi\u00e7a racial, o movimento contra a guerra no Vietn\u00e3, e a evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica geral durante essa d\u00e9cada levaram muitos a verem a rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre a opress\u00e3o dom\u00e9stica e a opress\u00e3o no exterior. As corpora\u00e7\u00f5es, por meio de suas funda\u00e7\u00f5es, colocaram uma camisa de for\u00e7a filantr\u00f3pica para subjugar os movimentos radicais ou liberais de esquerda. Como demonstra o soci\u00f3logo Efe Gurcan, com esta pol\u00edtica e articulado em conjunto com o Estado, eles <em>\u201cconseguiram cooptar as organiza\u00e7\u00f5es da esquerda liberal atrav\u00e9s de financiamento das funda\u00e7\u00f5es, transformando-as assim em ag\u00eancias reformistas de servi\u00e7os sociais, n\u00e3o antag\u00f4nicas e pr\u00f3-estatais, preenchendo o vazio deixado pela decad\u00eancia do Estado de Bem-estar social\u201d<\/em>. Assim, o capital dilui o potencial pol\u00edtico dos movimentos, neutraliza as for\u00e7as de oposi\u00e7\u00e3o, fornecendo uma medida de al\u00edvio \u00e0s comunidades, ao mesmo tempo em que assegura ao Estado um meio de controle social que n\u00e3o seja a viol\u00eancia. Atrav\u00e9s do controle das funda\u00e7\u00f5es, a classe dominante tamb\u00e9m for\u00e7a seus antigos advers\u00e1rios a subordinar seus princ\u00edpios \u00e0s necessidades de financiamento e aos interesses do capital.<\/p>\n<p>Como disse Jennifer Ceema Samimi, <em>\u201cquando os financiadores das funda\u00e7\u00f5es t\u00eam agendas que n\u00e3o se enquadram com a miss\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es que apoiam, as organiza\u00e7\u00f5es correm o risco de ficar \u00e0 deriva [&#8230;]. Esse conceito de deriva questiona se a organiza\u00e7\u00e3o mant\u00e9m suas metas e valores originais, expondo-a a colocar em risco sua contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade que atende\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Quando o financiamento estatal \u00e9 inadequado, as organiza\u00e7\u00f5es sem fins lucrativos procuram financiamentos adicionais. Sua depend\u00eancia do dinheiro das funda\u00e7\u00f5es resulta na perda de sua independ\u00eancia e aumenta a probabilidade de desvio da miss\u00e3o. Como diz Samini, <em>\u201cas doa\u00e7\u00f5es das funda\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m v\u00eam com um conjunto de requisitos desfavor\u00e1veis que devem ser atendidos [&#8230;] uma organiza\u00e7\u00e3o pode sentir-se compelida a modificar seus programas e, \u00e0s vezes, alterar sua declara\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios para se adequar aos requisitos dos pedidos das doa\u00e7\u00f5es\u201d<\/em>. As ONGs come\u00e7am a desviar sua aten\u00e7\u00e3o \u201cda redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza para a provis\u00e3o tempor\u00e1ria de servi\u00e7os sociais para manter as pessoas vivas\u201d, permitindo assim aos ricos o amortecimento das contradi\u00e7\u00f5es para evitar o caos, manter a f\u00e9 nas institui\u00e7\u00f5es, e controlar aqueles com inclina\u00e7\u00e3o a lutar pela mudan\u00e7a social.<\/p>\n<p>A estrutura organizacional b\u00e1sica das organiza\u00e7\u00f5es ONG segue o modelo corporativo empresarial. Cada uma tem um chefe executivo ou presidente, um chefe de finan\u00e7as, um chefe de opera\u00e7\u00f5es, e uma diretoria, refletindo assim uma dist\u00e2ncia cada vez maior do controle democr\u00e1tico das bases ou de presta\u00e7\u00e3o de contas \u00e0s comunidades. Como explica Ramsin Cannon, <em>\u201cgra\u00e7as \u00e0 concorr\u00eancia acirrada para captar doa\u00e7\u00f5es das funda\u00e7\u00f5es e do governo, a ind\u00fastria das ONGs desenvolveu uma classe profissional de executivos, escritores de ajudas (ou seja, angariadores de fundos), advogados, e controladores. Essa classe de profissionais est\u00e1 vinculada por meio de associa\u00e7\u00f5es profissionais, redes de financiamento, programas acad\u00eamicos, e o circuito de confer\u00eancias\u201d<\/em>. Em \u00faltima an\u00e1lise, \u201cassim que nasce uma profiss\u00e3o, tamb\u00e9m nasce o interesse material em proteger uma ind\u00fastria\u201d.<\/p>\n<p>Ironicamente, o desenvolvimento e expans\u00e3o de uma ONG, em muitos casos, ilustram a divis\u00e3o que existe entre a classe trabalhadora, por um lado, e a burguesia e o estrato gerencial profissional que a serve, por outro. As campanhas a favor da organiza\u00e7\u00e3o ou as campanhas eleitorais bienais geram conflitos de interesses e, assim, os interesses materiais da classe trabalhadora s\u00e3o postergados para servir aos das ONGs e seus benfeitores.<\/p>\n<p><strong>A conten\u00e7\u00e3o do radicalismo negro<\/strong><\/p>\n<p>Gurcan cita o trabalho de Dylan Rodr\u00edguez, que define a rela\u00e7\u00e3o entre as corpora\u00e7\u00f5es e as ONGs como <em>\u201cUma s\u00e9rie de rela\u00e7\u00f5es simbi\u00f3ticas que vinculam as tecnologias financeiras e pol\u00edticas do Estado com o patroc\u00ednio da classe propriet\u00e1ria e a vigil\u00e2ncia sobre o discurso pol\u00edtico p\u00fablico, incluindo especialmente os movimentos sociais progressistas e de esquerda, e tudo isto a partir de meados da d\u00e9cada de 1970\u201d<\/em>. Em particular, o movimento do poder negro foi cooptado, e uma ramifica\u00e7\u00e3o dele &#8211; o capitalismo negro &#8211; transformou-se para muitos em um ant\u00eddoto para a luta pol\u00edtica das massas negras e contra o espectro da atividade pol\u00edtica radical dos anos 60. Como o descontentamento no seio da classe trabalhadora era inevit\u00e1vel, foi necess\u00e1rio um m\u00e9todo de conten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O fortalecimento da liberaliza\u00e7\u00e3o do mercado e dos cortes or\u00e7ament\u00e1rios teve um efeito desproporcionalmente esmagador sobre as comunidades negras. Na d\u00e9cada de 1970, a partir da a\u00e7\u00e3o direta do movimento dos Direitos Civis, a popula\u00e7\u00e3o negra conquistou direitos civis e eleitorais. Com eles, conseguiram aumentar a representa\u00e7\u00e3o dos negros dentro do Estado. Por sua vez, a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica negra a n\u00edvel nacional come\u00e7ou a direcionar o que havia sido uma pol\u00edtica mais revolucion\u00e1ria e de oposi\u00e7\u00e3o independente para o campo do reformismo eleitoral, e isto em todos os n\u00edveis do governo.<\/p>\n<p>Historicamente, os negros tinham resistido \u00e0 opress\u00e3o estrutural atrav\u00e9s de diferentes formas do movimento de liberta\u00e7\u00e3o, e tendiam a constituir uma for\u00e7a por fora das institui\u00e7\u00f5es nacionais. Isso mudou \u00e0 medida que o movimento dos Direitos Civis obtinha sucessos legislativos, criando assim as condi\u00e7\u00f5es para o surgimento de uma classe pol\u00edtica negra. Como disse Adolph Reed, <em>\u201cO crescente estrato gerencial profissional dentro da comunidade negra convergiu com as elites brancas pr\u00f3-crescimento para assim produzir uma nova estrutura para a atividade pol\u00edtica negra na era p\u00f3s-Direitos Civis\u201d<\/em> (88). A pol\u00edtica redistributiva se contradiz com as abordagens pol\u00edticas e econ\u00f4micas a favor do crescimento. Estas \u00faltimas, invariavelmente conduzem a pol\u00edtica para formas aceitas que n\u00e3o entram em conflito com o capital. O resultado pr\u00e1tico \u00e9 a desapropria\u00e7\u00e3o das comunidades negras, mesmo que as administra\u00e7\u00f5es locais sejam negras. Anteriormente, as comunidades negras haviam experimentado a fuga de capitais para outras regi\u00f5es do pa\u00eds ou para o exterior.<\/p>\n<p>Apesar do giro ao reformismo liberal por parte da dire\u00e7\u00e3o nacional negra, as comunidades continuaram lutando por suas necessidades b\u00e1sicas, contra a recalcitrante classe dominante branca. A legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o protegia os negros da discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante da falta de financiamento federal e o esvaziamento dos centros c\u00edvicos, os munic\u00edpios recorreram cada vez mais a colabora\u00e7\u00f5es com entidades privadas. Os programas federais de habita\u00e7\u00e3o, erigidos sobre a base da colabora\u00e7\u00e3o entre o capital p\u00fablico e privado, acabaram sendo um fracasso. A motiva\u00e7\u00e3o do lucro estava enraizada na discrimina\u00e7\u00e3o racial que exclu\u00eda os negros dos bairros brancos a fim de preservar nestes \u00faltimos o valor da propriedade. Os negros ainda continuavam presos nas redes da segrega\u00e7\u00e3o Jim Crow<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, sem escapat\u00f3ria. Quando as melhorias eram feitas nos bairros negros, elas provaram n\u00e3o ser em benef\u00edcio da comunidade, e isso ainda acontece at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><strong>As ONGs como agentes do imperialismo<\/strong><\/p>\n<p>A liberaliza\u00e7\u00e3o da economia n\u00e3o se restringiu aos Estados Unidos. A \u00c1frica e a Am\u00e9rica Latina converteram-se em laborat\u00f3rios de um ajuste estrutural que manteve as na\u00e7\u00f5es perpetuamente endividadas. O fim da Guerra Fria significou que a Europa do Leste e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica tamb\u00e9m fossem obrigadas a aderir \u00e0 ortodoxia de Mercado. Assim como na descoberta do Novo Mundo, esses novos mercados foram visitados por \u201cmission\u00e1rios\u201d que divulgaram as virtudes do Livre Mercado.<\/p>\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o da Guerra Fria acabou no in\u00edcio dos anos de 1990, fornecendo aos Estados Unidos um meio de obrigar o mundo, incluindo a ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a se submeter \u00e0 hegemonia capitalista. Ap\u00f3s a Guerra Fria, um mundo unipolar eximiu o capitalismo ianque de qualquer impedimento a sua penetra\u00e7\u00e3o nos mercados e permitiu que ele submetesse o mundo \u00e0 sua vontade. Assim, em todos os lugares, entidades e programas estatais foram desmantelados, expondo ainda mais os pa\u00edses ao capital estrangeiro e \u00e0 especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ex-funcion\u00e1rios do Estado enriqueceram com a privatiza\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias estatais. A \u00c1frica e a Am\u00e9rica Latina se endividaram mais com o Fundo Monet\u00e1rio Internacional, cujos empr\u00e9stimos chegavam com a condi\u00e7\u00e3o de que os pa\u00edses beneficiados liberassem suas economias. Pa\u00edses inteiros ca\u00edram na mis\u00e9ria. A \u00e1gua foi privatizada, e os setores de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o nesses pa\u00edses forneceram \u201coportunidades de nicho interessantes para os investidores europeus\u201d, como explica Patrick Bond para o caso da \u00c1frica.<\/p>\n<p>Neste mundo unipolar, as ONGs e as institui\u00e7\u00f5es internacionais, como o FMI, auxiliam ao impulso do capital ianque e o ajudam a acessar novos mercados. Como explicou o chefe de uma alian\u00e7a de consultores de neg\u00f3cios internacionais<em>: \u201cPrecisamos de pessoas para entender que o nosso programa de assist\u00eancia externa \u00e9 um elemento vital de nossa capacidade de aumentar nossa visibilidade e nossa participa\u00e7\u00e3o no mercado\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Em seu arsenal, o imperialismo tem muito mais do que armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa, utiliza algo igualmente devastador: a amea\u00e7a de destrui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Institui\u00e7\u00f5es como o Fundo Monet\u00e1rio Internacional e o Banco Mundial s\u00e3o os agiotas do capitalismo global. Aparentemente mais benignos s\u00e3o os novos milion\u00e1rios do capital que est\u00e3o criando as condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para \u201ca exporta\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio, f\u00e1bricas clandestinas, minas de recursos, e parques de divers\u00f5es para turistas\u201d, como demonstrou Stephanie McMillan. Assim que um pa\u00eds \u00e9 devastado pelas for\u00e7as do mercado, a filantropia mascara a identidade desses criminosos econ\u00f4micos. As pol\u00edticas neoliberais, com respaldo da for\u00e7a imperial ianque, destroem o Estado redistributivo em n\u00edvel global. Consequentemente, a terceiriza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os sociais transforma-se no modus operandi prevalecente <em>\u201c\u00e0 medida que as popula\u00e7\u00f5es tanto dos pa\u00edses centrais como dos perif\u00e9ricos se veem condicionadas a atender suas necessidades, indo das cl\u00ednicas de caridade aos bancos de alimentos e uma s\u00e9rie intermin\u00e1vel de ag\u00eancias da tal sociedade civil\u201d<\/em>, como aponta McMillan. Por sua vez, os benfeitores \u201cdesinteressados\u201d caem como paraquedistas salvadores de \u00faltima hora.<\/p>\n<p>Mas, na verdade, a ilustre filantropia \u00e9 apenas uma tentativa de ocultar os efeitos corrosivos que o capital tem sobre a sociedade. Tanto no plano nacional quanto internacional, as corpora\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s de suas funda\u00e7\u00f5es e seu financiamento das ONGs, chancelam a opress\u00e3o das massas e, em certa medida, recebem o consentimento da popula\u00e7\u00e3o. As organiza\u00e7\u00f5es dedicadas ao bem-estar social tornam-se vitais para as comunidades privadas de recursos e que, como resultado da destrui\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os sociais nacionais, n\u00e3o t\u00eam absolutamente nenhuma outra assist\u00eancia dispon\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Em lugar das falsas solu\u00e7\u00f5es das ONGs, a pol\u00edtica revolucion\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel alcan\u00e7ar a emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora atrav\u00e9s da filantropia ou organiza\u00e7\u00f5es que dependem de funda\u00e7\u00f5es cujos conflitos de interesses s\u00e3o evidentes, ao serem financiadas pelo capital. Para o capitalismo, financiar organiza\u00e7\u00f5es com consci\u00eancia de classe seria o equivalente a lhes fornecer uma faca afiada para degol\u00e1-lo. Al\u00e9m disso, a ado\u00e7\u00e3o de estruturas empresariais corporativas e a depend\u00eancia das for\u00e7as de mercado apenas perpetuam as condi\u00e7\u00f5es que criam a necessidade das ONGs.<\/p>\n<p>Como Carl Rhodes e Peter Bloom explicam em um artigo que analisa os bilion\u00e1rios da caridade: <em>\u201co que estamos testemunhando \u00e9 a transfer\u00eancia da responsabilidade de fornecer servi\u00e7os e bens p\u00fablicos das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas para as m\u00e3os dos ricos, para serem administrados [a seu gosto] por uma classe executiva\u201d<\/em>. Como marxistas, dir\u00edamos ainda mais, colocando a democracia em seu contexto de classe: o problema com os bilion\u00e1rios da caridade e suas obras filantr\u00f3picas \u00e9 que eles mistificam as ra\u00edzes de classe da explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o e desviam \u00e0 classe trabalhadora da luta independente pela democracia prolet\u00e1ria.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-62868\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Foundations.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"312\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Foundations.jpg 640w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Foundations-300x146.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Foundations-150x73.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>O retrocesso da esquerda que abandonar a pol\u00edtica revolucion\u00e1ria para se curvar \u00e0s estrat\u00e9gias reformistas deixa \u00e0 classe trabalhadora sem dire\u00e7\u00e3o quando aumenta a raiva. Solu\u00e7\u00f5es em pequena escala s\u00e3o prescritas para problemas estruturais, que somente levam \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o e \u00e0 desmoraliza\u00e7\u00e3o quando os resultados esperados n\u00e3o s\u00e3o alcan\u00e7ados. \u00a0Para o capitalismo, o ant\u00eddoto \u00e0 mis\u00e9ria \u00e9 inevitavelmente o mercado.<\/p>\n<p>Mesmo durante a pandemia do coronav\u00edrus, chegou-se a sugerir que se utilizasse a motiva\u00e7\u00e3o de lucro como incentivo ao capital a investir em pesquisa e desenvolvimento de vacinas e equipamentos m\u00e9dicos. Vamos pensar um pouco sobre este racioc\u00ednio: a ind\u00fastria farmac\u00eautica far\u00e1 o que se pressup\u00f5e ser a raz\u00e3o de sua exist\u00eancia &#8211; a produ\u00e7\u00e3o de medicamentos para tratar e curar doen\u00e7as &#8211; <em>apenas<\/em> se a subornamos. Os hospitais est\u00e3o fechando, disponibilizando cada vez menos leitos de UTIs [unidades de terapia intensiva], faltam medicamentos para doen\u00e7as raras ou que atingem apenas os pobres. E quando h\u00e1 tratamentos, os custos s\u00e3o proibitivos. Da sa\u00fade, passando pela habita\u00e7\u00e3o e at\u00e9 a educa\u00e7\u00e3o, a burguesia provoca crises das quais a classe trabalhadora n\u00e3o pode se livrar por meio do sistema de benevol\u00eancia nem do pr\u00f3prio capitalismo. As ONGs s\u00e3o um rem\u00e9dio para conviver com a doen\u00e7a, em vez de fornecer a cura.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1] Os monopolistas industriais mais poderosos, como John D. Rockefeller, Henry Ford, Cornelius Vanderbilt e Andrew Carnegie, que nesta \u00e9poca destru\u00edam a sua concorr\u00eancia e exploravam seus trabalhadores sem considera\u00e7\u00f5es legais nem morais.<\/p>\n<p>[2] Peter Dobkin Hall, \u201cA Historical History of Philanthropy, Voluntary Associations and Non-Profit Organizations in the United States 1600-2000\u201d. The NonProfit Sector: A Research Handbook \u2013 Second Edition. Ed. Walter W. Powell e Richard Steinberg. Yale University Press, 2006, 32-65.<\/p>\n<p>Artigo publicado por<em> A Voz dos Trabalhadores<\/em>, 16\/12\/2020.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o do original em ingl\u00eas: Vera C.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Leis de Jim Crow &#8211; as leis estaduais que impunham a segrega\u00e7\u00e3o racial no sul dos Estados Unidos, ndt;<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Rosangela Botelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No capitalismo, as crises s\u00e3o end\u00eamicas. Cada vez mais e mesmo que os indicadores econ\u00f4micos apontem para a prosperidade, isso s\u00f3 chega a um pequeno setor da sociedade. Os trabalhadores carregam d\u00e9cadas de perdas salariais e corte em massa nos servi\u00e7os p\u00fablicos e outras interven\u00e7\u00f5es do Estado para minimizar os piores aspectos do capitalismo. 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