{"id":62805,"date":"2021-01-07T12:08:24","date_gmt":"2021-01-07T15:08:24","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=62805"},"modified":"2021-01-07T12:08:24","modified_gmt":"2021-01-07T15:08:24","slug":"covid-e-a-pequena-burguesia-empobrecida-uma-analise-social-do-negacionismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/01\/07\/covid-e-a-pequena-burguesia-empobrecida-uma-analise-social-do-negacionismo\/","title":{"rendered":"Covid e a pequena burguesia empobrecida. Uma an\u00e1lise social do negacionismo"},"content":{"rendered":"<p><em>A difus\u00e3o de teorias negacionistas da Covid \u00e9 de fato um dado. Embora o fen\u00f4meno tenha indubitavelmente aspectos psicol\u00f3gicos \u2013 quando uma realidade \u00e9 dif\u00edcil de aceitar tende-se a neg\u00e1-la, construindo um mundo que oferece um consolo ilus\u00f3rio- seria reducionista consider\u00e1-lo s\u00f3 do ponto de vista da psique individual. \u00c9 evidente que se trata de um fen\u00f4meno social: o negacionismo est\u00e1 se difundido em amplos estratos da popula\u00e7\u00e3o e, sobretudo, est\u00e1 se convertendo em ideologia de grupos, movimentos e partidos pol\u00edticos que, em alguns pa\u00edses, tamb\u00e9m d\u00e3o vida a manifesta\u00e7\u00f5es de massa. Neste artigo vamos buscar explicar, ent\u00e3o, a origem social. Acreditamos que a causa principal da difus\u00e3o do negacionismo radica em uma caracter\u00edstica t\u00edpica do capitalismo na fase de crise e decad\u00eancia: o empobrecimento em massa da pequena burguesia e das classes m\u00e9dias (drasticamente acelerado pela pandemia).<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Fabiana Stefanoni<\/p>\n<p><strong>Negacionistas de direita<\/strong><\/p>\n<p>Com o termo \u201cnegacionismo\u201d nos referimos a um conjunto de cren\u00e7as, teorias, atitudes destinadas a negar, de uma maneira mais ou menos descarada, a exist\u00eancia de uma emerg\u00eancia sanit\u00e1ria (isto \u00e9, de uma pandemia) que requer medidas de prote\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1rias. O espectro de defensores desta ideologia \u00e9 muito amplo e inclui setores aparentemente heterog\u00eaneos do ponto de vista da posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e cultural.<\/p>\n<p>As express\u00f5es mais extravagantes (e perigosas) est\u00e3o representadas pelos chamados movimentos No Mask (sem m\u00e1scaras) que deram vida, sobretudo em alguns pa\u00edses europeus \u2013 Alemanha, Fran\u00e7a, Espanha, Inglaterra \u2013 \u00e0 participa\u00e7\u00e3o em manifesta\u00e7\u00f5es de protesto contra as medidas de quarentena (que seriam lesivas \u00e0 \u201cliberdade individual\u201d): estas manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o em muitos casos hegemonizadas por grupos de extrema direita, neonazistas e populistas (na It\u00e1lia os partidos de extrema direita tamb\u00e9m t\u00eam promovido manifesta\u00e7\u00f5es contra a \u201cditadura sanit\u00e1ria\u201d, se bem que por ora com menor participa\u00e7\u00e3o que em outros pa\u00edses). Em alguns casos, estas cren\u00e7as s\u00e3o paralelas a estranhas teorias conspirat\u00f3rias (como aquela sobre o inescrut\u00e1vel poder do 5G) e as cren\u00e7as xen\u00f3fobas e reacion\u00e1rias (os \u201cinfectadores\u201d seriam os estrangeiros, em particular chineses e imigrantes africanos).<\/p>\n<p>Posi\u00e7\u00f5es descaradamente negacionistas tamb\u00e9m t\u00eam express\u00f5es institucionais, em particular nos pa\u00edses governados por l\u00edderes populistas e de direita: no Brasil, por exemplo, \u00e9 o pr\u00f3prio presidente Bolsonaro quem se converteu em porta-voz do negacionismo. Da mesma forma, Putin e o agora ex-presidente Trump t\u00eam frequentemente promovido teorias deste tipo, afirmando explicitamente que n\u00e3o existe nenhum perigo s\u00e9rio ligado \u00e0 pandemia.<\/p>\n<p>Queremos acrescentar que se trata de um fen\u00f4meno heterog\u00eaneo tamb\u00e9m do ponto de vista cultural: n\u00e3o s\u00e3o exclusivamente pessoas ignorantes, como \u00abAngela da Mondello\u00bb [uma mulher do povo que na It\u00e1lia se converteu em uma personagem famosa porque diante de uma c\u00e2mera de televis\u00e3o gritou \u201cn\u00e3o h\u00e1 Covid\u201d no idioma de seu povo, <em>ndt<\/em>.], as que t\u00eam tentado nos fazer acreditar que o v\u00edrus n\u00e3o existe ou n\u00e3o \u00e9 perigoso. Tamb\u00e9m entram nesta categoria m\u00e9dicos, intelectuais, artistas e jornalistas de renome. E n\u00e3o se trata de contrariar somente os casos grotescos (os Zangrillo e os Sgarbi* de plant\u00e3o, por assim dizer): na It\u00e1lia, a mensagem de que o v\u00edrus n\u00e3o representava uma amea\u00e7a, teve mais porta-vozes do que hoje queremos acreditar (e n\u00e3o s\u00f3 de direita).<\/p>\n<p>Para explicar este fen\u00f4meno <em>social<\/em>, para explicar porque a ideologia negacionista est\u00e1 se difundindo em amplos estratos da sociedade dando vida tamb\u00e9m a manifesta\u00e7\u00f5es de massa (como na Alemanha), temos que olhar para a sociedade, e, mais precisamente, para uma classe social: a pequena burguesia.<\/p>\n<p><strong>Pequena burguesia e crise econ\u00f4mica<\/strong><\/p>\n<p>Quando falamos da pequena burguesia (ou classes m\u00e9dias) nos referimos a um grupo social amplo e heterog\u00eaneo, que compreende todos os estratos sociais intermedi\u00e1rios entre a classe oper\u00e1ria e a grande burguesia industrial e financeira: comerciantes, pequenas empresas, artes\u00e3os, funcion\u00e1rio estatal, intelectuais, gerentes, propriet\u00e1rios de pequenas empresas de gest\u00e3o familiar, pequenos e m\u00e9dios propriet\u00e1rios de terras, etc. \u00c9 uma classe heterog\u00eanea, que compreende tanto setores ricos, que em termos de condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e estilo de vida s\u00e3o similares \u00e0 grande burguesia (pensemos em gerentes de empresas [fi\u00e9is aos grandes capitalistas e que defendem seus interesses], por exemplo, como setores pobres, que se confundem com o proletariado (e \u00e0s vezes com os l\u00fampens). Marx a definia como uma \u201cclasse intermedi\u00e1ria no interior da qual os interesses das duas classes s\u00e3o suavizados\u201d e que por isso \u201cse imagina superior aos conflitos de classe\u201d [1].<\/p>\n<p>Nas fases de profunda mudan\u00e7a hist\u00f3rica e, em particular, nos momentos de crise econ\u00f4mica (como a que estamos vivendo), a pequena burguesia se empobrece, assim como as filas da classe baixa aumentam. Nestas fases, registram-se frequentemente fen\u00f4menos \u2013 de car\u00e1ter ideol\u00f3gico e pol\u00edtico \u2013 como esses dos quais estamos falando.<\/p>\n<p>Se a classe oper\u00e1ria, por responsabilidade de suas dire\u00e7\u00f5es oportunistas, se mant\u00e9m a margem e n\u00e3o entra em campo como protagonista da vida pol\u00edtica, a pequena burguesia domina a cena. Trata-se de uma classe muito mais d\u00e9bil que a classe oper\u00e1ria: esta \u00faltima controla de fato os meios de produ\u00e7\u00e3o e de transporte e pode, com suas a\u00e7\u00f5es de greve e de luta, mudar o curso pol\u00edtico dos acontecimentos. A pequena burguesia n\u00e3o tem esta for\u00e7a: \u00e9 uma classe atomizada, desorganizada, cujos membros est\u00e3o isolados e fechados em um horizonte estreito, \u00e0s vezes mesquinho (\u201cp\u00f3 de humanidade\u201d, Trotsky a definia). Entretanto, \u00e9 uma classe que, se o cen\u00e1rio estiver livre, pode fazer-se sentir, inclusive em voz alta: como dizia Marx, n\u00e3o lhe importa apresentar-se como \u201csuperior aos conflitos de classe\u201d.<\/p>\n<p>Voltando ao contexto atual, nos \u00faltimos anos, sobretudo nos pa\u00edses imperialistas, a pequena burguesia tem sofrido um r\u00e1pido empobrecimento em massa. J\u00e1 em anos anteriores, o descontentamento deste amplo estrato social \u2013 que sendo numericamente consistente tem um peso vis\u00edvel nas elei\u00e7\u00f5es \u2013 tem dado vida a fen\u00f4menos pol\u00edticos novos, autodenominados \u201cnem de direita nem de esquerda\u201d (do M5S [Movimento Cinco Estrelas, da It\u00e1lia, ao Podemos do Estado espanhol), e levou ao topo dos Estados personagens grotescos, privados de qualquer profundidade pol\u00edtica (de Di Maio a Conte, de Trump a Bolsonaro).<\/p>\n<p>Parafraseando Marx, a hist\u00f3ria do mundo parece ter se reduzido, de elei\u00e7\u00e3o em elei\u00e7\u00e3o, a uma sucess\u00e3o de zombarias [2], e a raz\u00e3o est\u00e1, principalmente, no fen\u00f4meno social que descrevemos. Impacientes pela dr\u00e1stica piora de suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de vida, as massas pequeno burguesas, incapazes, pela sua pr\u00f3pria composi\u00e7\u00e3o heterog\u00eanea e fragmentada, de uma express\u00e3o pol\u00edtica realmente aut\u00f4noma, tem encontrado a \u00fanica unidade poss\u00edvel em um voto de protesto, dando seu consentimento a figuras t\u00e3o limitadas como limitado \u00e9, pela for\u00e7a das circunstancias, o horizonte de vida do comerciante: ao final do dia as contas tem que fechar, custe o que custar, em termos de respeitabilidade, cultura e intelig\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>E veio a Covid\u2026<\/strong><\/p>\n<p>A pandemia desferiu um novo duro golpe nas condi\u00e7\u00f5es de vida das classes m\u00e9dias e, em particular, de seus setores mais pobres. Quando governam, os partidos que devem sua vit\u00f3ria eleitoral ao mal estar da pequena burguesia se somam ao vag\u00e3o da grande burguesia: n\u00e3o desenvolvem uma pol\u00edtica aut\u00f4noma, mas acabam apoiando pol\u00edticas que beneficiam a grande ind\u00fastria e as finan\u00e7as. Os governos em todo o mundo, inclusive aqueles que com uma presen\u00e7a significativa de partidos com base na pequena burguesia (como o M5S ou Podemos), t\u00eam atacado duramente, com suas pol\u00edticas, n\u00e3o s\u00f3 a classe oper\u00e1ria como tamb\u00e9m estes estratos intermedi\u00e1rios. Tendo que escolher entre a grande burguesia industrial e financeira e as outras classes sociais, estes governos n\u00e3o duvidaram sobre qual lado tomar: foram dados enormes recursos p\u00fablicos \u00e0 grande ind\u00fastria, enquanto retiraram at\u00e9 as migalhas dos assalariados, comerciantes, trabalhadores aut\u00f4nomos. As t\u00edmidas medidas de quarentena adotadas pelos governos em todo o mundo raramente tem posto o fechamento das f\u00e1bricas na ordem do dia, enquanto os restaurantes, os bares e as pequenas empresas s\u00e3o fechados sem nenhum subs\u00eddio econ\u00f4mico digno desse nome.<\/p>\n<p>Sob a onda da desilus\u00e3o, constatando que seus bolsos est\u00e3o cada vez mais vazios, a pequena burguesia pode entrar em campo com a\u00e7\u00f5es de protesto, como est\u00e1 ocorrendo na It\u00e1lia com as manifesta\u00e7\u00f5es contra as medidas de <em>lockdown<\/em>. No plano ideol\u00f3gico \u2013 da <em>mentalidad<\/em><em>e<\/em>, como se costuma dizer \u2013 as teorias negacionistas sobre a Covid encontraram nesta classe pauperizada um terreno f\u00e9rtil. Se chegar ao fim do m\u00eas j\u00e1 era dif\u00edcil para os restaurantes e os pequenos com\u00e9rcios, o fechamento das atividades e as consequentes perdas econ\u00f4micas s\u00e3o um espectro a exorcizar. \u201cSe a Covid fecha meu neg\u00f3cio, ent\u00e3o a Covid n\u00e3o existe! Se a obriga\u00e7\u00e3o de m\u00e1scaras vem junto com a perda de clientela, cortemos as m\u00e1scaras!\u201d: assim se induzir\u00e1 a pensar o pequeno burgu\u00eas que em torno de seu neg\u00f3cio construiu todo o sentido de sua vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso grupos fascistas e de extrema direita se aproveitaram da situa\u00e7\u00e3o para converterem-se em porta-vozes do mal estar destes setores. Ao seu lado juntaram-se inclusive setores da \u201cesquerda\u201d que, n\u00e3o tendo uma perspectiva de classe e de sistema, veem em qualquer protesto um sinal positivo de rebeli\u00e3o [3].<\/p>\n<p>Entendendo: a pequena burguesia \u00e9 realmente uma v\u00edtima das vergonhosas pol\u00edticas burguesas dos governos. Sobretudo, \u00e9 um setor que sempre desempenhou um papel importante nas revolu\u00e7\u00f5es: Trotsky nos anos 30 do s\u00e9culo passado escrevia que, para que uma crise social possa desembocar em revolu\u00e7\u00e3o, \u201c\u00e9 necess\u00e1rio que as classes pequenas burguesas se dirijam com decis\u00e3o para o proletariado\u201d [4]. Mas n\u00e3o podem estar na lideran\u00e7a das mobiliza\u00e7\u00f5es: devem encontrar na classe oper\u00e1ria organizada um s\u00f3lido guia para a a\u00e7\u00e3o na luta, que possa representar, na mente do pequeno burgu\u00eas, uma alternativa radical e confi\u00e1vel \u00e0s tentadoras sereias da extrema direita.<\/p>\n<p><strong>A classe dominante permite <\/strong><\/p>\n<p>Se a base de classe da ideologia negacionista est\u00e1 nas classes m\u00e9dias, \u00e9 ao mesmo tempo verdade que a classe dominante \u2013 aquela que det\u00e9m os meios de produ\u00e7\u00e3o, logo a grande burguesia \u2013 se mostre totalmente incapaz de opor-se a ela. Pelo contrario, nos \u00faltimos meses foi deixada ao abandono, o que serviu para dar for\u00e7a e vigor a estas teorias reacion\u00e1rias. N\u00e3o querendo implementar medidas eficazes e reais de quarentena generalizada, preocupada essencialmente em manter ativa a produ\u00e7\u00e3o e a compra e venda de mercadorias (e, ent\u00e3o, manter altas taxas de lucro), tem sustentado em acordo com seus governos, a falsa convic\u00e7\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel \u201cconviver com a Covid\u201d.<\/p>\n<p>Os governos burgueses em todo o mundo, uns mais outros menos, endossaram a ideia de que a pandemia n\u00e3o representa um perigo real para as massas populares: de Macron a S\u00e1nchez, de Conte a Merkel todos os principais l\u00edderes dos pa\u00edses capitalistas justificaram o relaxamento das medidas de quarentena com discursos destinados a ocultar a exist\u00eancia de uma pandemia em pleno apogeu. Os argumentos usados foram os mais disparatados: desde o argumento de que o v\u00edrus estava controlado (enquanto eram registrados centenas de infectados), at\u00e9 \u00e0 falsa cren\u00e7a de que tinha mutado (que era menos mortal e perigoso).<\/p>\n<p>A grande burguesia, \u00e9 sabido, controla tamb\u00e9m os meios de comunica\u00e7\u00e3o: e n\u00e3o por casualidade na It\u00e1lia toda a imprensa italiana e todas as transmiss\u00f5es radiotelevisivas (intercaladas com publicidades que convidavam a comprar como se a vida tivesse voltado \u00e0 absoluta normalidade) ofereceram um suporte nada insignificante ao discurso negacionista. Por meses ocultaram ou minimizaram os dados sobre a Covid, dando a entender que a emerg\u00eancia tinha acabado. Na It\u00e1lia, o enorme espa\u00e7o medi\u00e1tico que personagens \u201cestranhos\u201d como Zangrillo tiveram, frequentemente convidado em transmiss\u00f5es de orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica opostas \u00e0s do pr\u00f3prio Zangrillo, que \u00e9 um marionete de Berlusconi (pensemos na Annunziata ou em Gruber, ambas condutoras de transmiss\u00f5es televisivas muito fi\u00e9is \u00e0 linha do Partido Democrata, o principal partido burgu\u00eas de centro-esquerda), n\u00e3o foi casual: criava confus\u00e3o nas consci\u00eancias das massas sempre mais pobres e ansiosas por voltar \u00e0 \u201cnormalidade\u201d. \u201cO v\u00edrus est\u00e1 clinicamente morto\u201d, \u201cN\u00e3o, n\u00e3o morreu mas enfraqueceu\u201d, \u201cZangrillo exagera mas, efetivamente, com o calor as coisas v\u00e3o melhor\u201d, \u201co v\u00edrus parece menos agressivo\u201d, etc: bastava ligar a TV ou o r\u00e1dio para escutar argumentos deste tipo repetidos obsessivamente. N\u00e3o \u00e9 de se estranhar que, neste marasmo de ideias, os jovens foram \u00e0s discotecas ou tomar um aperitivo em grupo em Navigli [bairro dos canais em Mil\u00e3o, onde os jovens v\u00e3o beber, <em>ndt<\/em>.]. Se os fatos se apresentam de modo nebuloso e amb\u00edguo, \u00e9 melhor acreditar na vers\u00e3o que exige menos sacrif\u00edcios.<\/p>\n<p>Na melhor das hip\u00f3teses, surgiu uma perigosa confus\u00e3o em torno do perigo da Covid: e esta confus\u00e3o tem sido muito \u00fatil para os lucros da burguesia. Acreditar que a emerg\u00eancia terminou, serviu para reativar o mercado: quem, afinal, teria comprado um autom\u00f3vel ou uma casa nova sabendo que tem que passar um inverno como o que estamos vivendo, no qual se arriscam a morrer de fome ou ent\u00e3o de Covid?<\/p>\n<p>Se agora nos encontramos a cada dia com centenas de novas mortes, com dezenas de milhares de novos infectados, com os hospitais em colapso, sabemos a quem agradecer: os capitalistas prepararam o prato, os meios de comunica\u00e7\u00e3o o temperaram, e, por fim, o governo o serviu!<\/p>\n<p><strong>O papel da classe oper\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>Mais uma vez, na hist\u00f3ria, a solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 nas m\u00e3os da classe oper\u00e1ria. S\u00f3 a classe trabalhadora, dirigida pelo partido revolucion\u00e1rio, poder\u00e1 oferecer uma sa\u00edda ao desastre em curso. J\u00e1 em mar\u00e7o, os oper\u00e1rios na It\u00e1lia deram provas de n\u00e3o estarem destinados ao papel de passivos espectadores: sa\u00edram a campo, organizaram greves por cima de tudo e todos, com ades\u00f5es que n\u00e3o eram vistas h\u00e1 anos, muitas vezes em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00f3prias orienta\u00e7\u00f5es de seus dirigentes sindicais (que os convidavam a se resignar). Atualmente os oper\u00e1rios est\u00e3o organizando duras lutas e greves, das quais pouco se fala: da Whirlpool de N\u00e1poles a Ex-Ilva de G\u00eanova at\u00e9 a Sevel (grupo FCA) de Atessa. Numerosas greves est\u00e3o em curso em outros setores, das escolas at\u00e9 os correios, do transporte \u00e0 sa\u00fade. \u00c9 a partir dessas experi\u00eancias, que precisam se organizar e generalizar, que podem se construir as bases para uma continua\u00e7\u00e3o da luta de classes inclusive na It\u00e1lia, capaz de arrastar tamb\u00e9m os setores da pequena burguesia empobrecida, na perspectiva de derrotar o capitalismo.<\/p>\n<p>Muitos, inclusive o proletariado, criaram de fato ilus\u00f5es sobre o fim da emerg\u00eancia sanit\u00e1ria. As ideias dominantes s\u00e3o as ideias da classe dominante e contaminam tamb\u00e9m a consci\u00eancia dos assalariados. A realidade se apresenta agora como \u00e9: uma realidade amarga. Mas quando se rasga o v\u00e9u do engano, quando o monstro tira a m\u00e1scara \u2013 o capitalismo que sacrifica milh\u00f5es de vidas humanas pela sede de lucro \u2013 se abre igualmente a possibilidade de uma mudan\u00e7a de consci\u00eancia na vanguarda das lutas. As trabalhadoras e os trabalhadores tem frequentado uma dura escola, que acarretou altos custos em termos de vida e sa\u00fade. Mas \u00e9, ao mesmo tempo, uma escola de <em>verdade<\/em>: o fim da ilus\u00e3o de que este sistema ainda possa garantir uma exist\u00eancia digna pode vir a ser o in\u00edcio de uma transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>* Alberto Zangrillo \u00e9 conhecido na It\u00e1lia como \u201co m\u00e9dico de Berlusconi\u201d e disse, por exemplo, \u201c\u00e9 hora de deixar de aterrorizar o pa\u00eds\u201d; \u201co v\u00edrus j\u00e1 n\u00e3o existe clinicamente\u201d, enquanto cada dia eram registrados entre 300 e 500 novos casos de Covid-19. Por seu lado, Vittorio Sgarbi, pol\u00edtico de direita, ex deputado pela Forza Italia, cr\u00edtico e historiador de arte, hoje colunista do <em>il Giornale<\/em>\u00a0e que tamb\u00e9m escreve para a revista <em>Panorama<\/em>, est\u00e1 sempre muito presente na televis\u00e3o disse que a Covid n\u00e3o \u00e9 um problema real, <em>ndt<\/em>).<\/p>\n<p>[1] MARK, Karl.\u00a0<em>O 18 Brum\u00e1rio de Luis Bonaparte<\/em>\u00a0(1852).<\/p>\n<p>[2] Refere-se a uma c\u00e9lebre passagem de<em> A luta de classes na Fran\u00e7a<\/em>, onde Marx define a elei\u00e7\u00e3o de Luis Bonaparte para presidente da Rep\u00fablica francesa (10 de dezembro de 1848) como uma \u201czombaria da hist\u00f3ria mundial\u201d (a alus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 frequente j\u00e1 que esse resultado eleitoral teve como causa principal o descontentamento dos camponeses).<\/p>\n<p>[3] \u00c9 o caso, por exemplo, de alguns centros sociais (\u201cautonomistas\u201d), mas tamb\u00e9m de alguns setores sindicais, que se somaram \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es contra o fechamento das atividades comerciais.<\/p>\n<p>[4] TROTSKY, Le\u00f3n.\u00a0<em>E agora?<\/em>\u00a0(1932).<\/p>\n<p>Artigo publicado no site do Partido de Alternativa Comunista, PdAC-Italia, 15\/11\/2020. Original dispon\u00edvel em:\u00a0<u><a href=\"https:\/\/www.partitodialternativacomunista.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.partitodialternativacomunista.org\/<\/a><\/u><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o espanhol-portugu\u00eas: Lilian Enck<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A difus\u00e3o de teorias negacionistas da Covid \u00e9 de fato um dado. Embora o fen\u00f4meno tenha indubitavelmente aspectos psicol\u00f3gicos \u2013 quando uma realidade \u00e9 dif\u00edcil de aceitar tende-se a neg\u00e1-la, construindo um mundo que oferece um consolo ilus\u00f3rio- seria reducionista consider\u00e1-lo s\u00f3 do ponto de vista da psique individual. \u00c9 evidente que se trata de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":62806,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[218,3523,30],"tags":[3522,515,531,1936,516,3524],"class_list":["post-62805","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-italia","category-opiniao","category-coronavirus","tag-crise-pequena-burguesia","tag-especial-coronavirus","tag-fabiana-stefanoni","tag-negacionismo","tag-pdac-italia","tag-pequena-burguesia-e-negacionismo"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/rome-1.jpg","categories_names":["It\u00e1lia","Opini\u00e3o","Pandemia"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62805","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62805"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62805\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/62806"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62805"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62805"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62805"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}