{"id":62751,"date":"2020-12-23T15:37:16","date_gmt":"2020-12-23T18:37:16","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=62751"},"modified":"2020-12-23T15:37:16","modified_gmt":"2020-12-23T18:37:16","slug":"62751-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/12\/23\/62751-2\/","title":{"rendered":"A mulher em A situa\u00e7\u00e3o da Classe Trabalhadora na Inglaterra, de Friedrich Engels"},"content":{"rendered":"<p><em>Como abordado no texto Engels e a compreens\u00e3o materialista da Hist\u00f3ria sobre a opress\u00e3o das mulheres, neste momento em que celebramos os 200 anos do nascimento de Engels, n\u00e3o poder\u00edamos deixar de destacar a import\u00e2ncia de suas elabora\u00e7\u00f5es e seu papel na constitui\u00e7\u00e3o do legado marxista para a nossa luta contra a opress\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o. Neste artigo, destacamos suas an\u00e1lises sobre a situa\u00e7\u00e3o das mulheres, no cl\u00e1ssico A Situa\u00e7\u00e3o da Classe Trabalhadora na Inglaterra. <\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Roberta Maiani \u2013 secretaria nacional de forma\u00e7\u00e3o do PSTU<br \/>\nEsta obra foi escrita em um ano muito importante para o surgimento do marxismo: 1844; ano em que Marx e Engels estreitam sua amizade, e juntos, em Paris, planejam a Sagrada Fam\u00edlia e estabelecem rela\u00e7\u00f5es com as organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores de Paris e Bruxelas; neste mesmo ano, Marx escreveu os Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos.<br \/>\nEngels estava em Manchester desde o final de 1842, trabalhando na f\u00e1brica que era de propriedade de seu pai, e assim, p\u00f4de ter contato direto com o funcionamento e as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo.<br \/>\nEngels pretendia escrever sobre a hist\u00f3ria social da Inglaterra, terreno cl\u00e1ssico da revolu\u00e7\u00e3o industrial e tamb\u00e9m para o desenvolvimento do proletariado. O estudo sobre a classe trabalhadora inglesa seria uma parte deste grande material. No entanto, acaba desenvolvendo um livro todo dedicado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios e suas lutas. Dizia que a situa\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria era \u201ca base real e ponto de partida de todos os movimentos sociais do nosso tempo porque ela \u00e9, simultaneamente, a express\u00e3o m\u00e1xima e a mais vis\u00edvel manifesta\u00e7\u00e3o de nossa mis\u00e9ria social. O comunismo dos oper\u00e1rios franceses e alem\u00e3es \u00e9 seu produto direto\u201d. Aos te\u00f3ricos alem\u00e3es, \u201cque ainda conhecemos muito pouco o mundo real (&#8230;) o conhecimento dos fatos \u00e9 uma necessidade imperiosa\u201d. Portanto, era fundamental \u201cconhecer esta condi\u00e7\u00e3o para demonstrar a justeza das ideias socialistas\u201d.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><br \/>\nPara tal empreitada recorreu a in\u00fameros documentos, entre relat\u00f3rios de comiss\u00f5es que investigavam as condi\u00e7\u00f5es das f\u00e1bricas, sess\u00f5es do parlamento, jornais e relat\u00f3rios m\u00e9dicos, mas a principal fonte de investiga\u00e7\u00e3o e motiva\u00e7\u00e3o veio da conviv\u00eancia com os oper\u00e1rios e suas fam\u00edlias. Por interm\u00e9dio de Mary Burns, uma combativa oper\u00e1ria irlandesa que se tornou sua companheira de vida, Engels circulou pelos principais bairros oper\u00e1rios, casas e tavernas.<br \/>\nVejamos a dedicat\u00f3ria escrita <em>\u201c\u00c0s Classes Trabalhadoras da Gr\u00e3-Bretanha:<\/em><br \/>\n<em>Trabalhadores!<\/em><br \/>\n<em>\u00c9 a v\u00f3s que dedico uma obra na qual me esforcei por apresentar aos meus compatriotas alem\u00e3es um quadro fiel de vossas condi\u00e7\u00f5es de vida, de vossos sofrimentos e lutas, de vossas esperan\u00e7as e perspectivas. Vivi entre v\u00f3s tempo bastante para alcan\u00e7ar o conhecimento de vossas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia, \u00e0s quais consagrei a mais s\u00e9ria aten\u00e7\u00e3o, examinando os in\u00fameros documentos oficiais e n\u00e3o oficiais que tive oportunidade de consultar. Contudo, n\u00e3o me contentei com isso: n\u00e3o me interessava um conhecimento apenas abstrato do meu tema \u2013 eu queria conhecer-vos em vossas casas, observar-vos em vossa vida cotidiana, debater convosco vossas condi\u00e7\u00f5es de vida e vossos tormentos; eu queria ser uma testemunha de vossas lutas contra o poder social e pol\u00edtico de vossos opressores. Eis como procedi: renunciei ao mundanismo e \u00e0s liba\u00e7\u00f5es, ao vinho do Porto e ao Champagne da classe m\u00e9dia<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a>, e consagrei quase exclusivamente minhas horas vagas ao conv\u00edvio com simples oper\u00e1rios \u2013 e estou, ao mesmo tempo, feliz e orgulhoso por ter agido assim.\u201d<\/em><br \/>\nNeste cl\u00e1ssico da literatura marxista, Engels denuncia o que os oper\u00e1rios chamavam de <strong><em>assassinato social<\/em><\/strong> promovido pela burguesia.\u00a0 A miser\u00e1vel classe trabalhadora tinha uma \u00a0expectativa de vida baix\u00edssima, pois sua sa\u00fade era degradada pelas enormes jornadas, por doen\u00e7as e deforma\u00e7\u00f5es provocadas pelo trabalho, pela p\u00e9ssima alimenta\u00e7\u00e3o, quando n\u00e3o, a falta de qualquer alimento, e pela condi\u00e7\u00e3o insalubre das moradias e ruas.<br \/>\nUma das partes mais marcantes do livro, e que nos faz pensar nas megal\u00f3poles atuais, \u00e9 quando Engels descreve Londres e as grandes cidades, fruto da revolu\u00e7\u00e3o industrial:<br \/>\n<em>\u201cEsses milhares de indiv\u00edduos, de todos os lugares e de todas as classes, que se apressam e se empurram, n\u00e3o ser\u00e3o todos eles seres humanos com as mesmas qualidades e capacidades e com o mesmo desejo de serem felizes? (&#8230;) entretanto, essas pessoas se cruzam como se nada tivessem em comum, (&#8230;) entre elas s\u00f3 existe o t\u00e1cito acordo pelo qual cada uma s\u00f3 utiliza uma parte do passeio para que as duas correntes da multid\u00e3o que caminham em dire\u00e7\u00f5es opostas n\u00e3o impe\u00e7am seu movimento m\u00fatuo \u2013 e ningu\u00e9m pensa em conceder ao outro sequer um olhar. (&#8230;) mesmo que saibamos que esse isolamento do indiv\u00edduo, esse mesquinho ego\u00edsmo, constitui em toda a parte o princ\u00edpio fundamental da nossa sociedade moderna, em lugar nenhum ele se manifesta de modo t\u00e3o impudente e claro como na confus\u00e3o da grande cidade. A desagrega\u00e7\u00e3o da humanidade em m\u00f4nadas, cada qual com um princ\u00edpio de vida particular, e com um objetivo igualmente particular, essa atomiza\u00e7\u00e3o do mundo, \u00e9 aqui levada \u00e0s suas m\u00e1ximas consequ\u00eancias. <\/em><br \/>\n<em>\u00c9 por isso que a guerra social, a guerra de todos contra todos, \u00e9 aqui explicitamente declarada. (&#8230;) o resultado \u00e9 que o mais forte pisa no mais fraco e os poucos fortes, isto \u00e9, os capitalistas, se apropriam de <strong>tudo, <\/strong>enquanto aos mais fracos, aos pobres, mal lhes resta apenas a vida. <\/em><br \/>\n<em>(&#8230;.) Em todas as partes, indiferen\u00e7a b\u00e1rbara e grosseiro ego\u00edsmo de um lado e, de outro, mis\u00e9ria indescrit\u00edvel; em todas as partes, a guerra social: (&#8230;) e tudo isso t\u00e3o despudorada e abertamente que ficamos assombrados diante das consequ\u00eancias das nossas condi\u00e7\u00f5es sociais, aqui apresentadas sem v\u00e9us, e permanecemos espantados com o fato de este mundo enlouquecido ainda continuar funcionando. <\/em><br \/>\n<em>Na escala em que, nessa guerra social, as armas de combate s\u00e3o o capital, a propriedade direta ou indireta dos meios de subsist\u00eancia e dos meios de produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 \u00f3bvio que todos os \u00f4nus de uma tal situa\u00e7\u00e3o recaem sobre o pobre. Ningu\u00e9m se preocupa com ele: lan\u00e7ado nesse turbilh\u00e3o ca\u00f3tico, ele deve sobreviver como puder. Se tem a sorte de encontrar trabalho, isto \u00e9, se a burguesia lhe faz o favor de enriquecer \u00e0 sua custa, espera-o um sal\u00e1rio apenas suficiente para mant\u00ea-lo vivo; se n\u00e3o encontrar trabalho e n\u00e3o temer a pol\u00edcia, pode roubar; pode ainda morrer de fome, caso em que a pol\u00edcia tomar\u00e1 cuidado para que a morte seja silenciosa para n\u00e3o chocar a burguesia\u201d. <\/em><br \/>\nNessa guerra social contra os trabalhadores, as mulheres prolet\u00e1rias passavam por uma situa\u00e7\u00e3o terr\u00edvel, de profunda opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o, e a elas, Engels dedicou parte importante de seu livro.<br \/>\nA Situa\u00e7\u00e3o da Classe Trabalhadora na Inglaterra \u00e9 um marco na tradi\u00e7\u00e3o marxista, quanto \u00e0 an\u00e1lise das transforma\u00e7\u00f5es que o capitalismo imp\u00f4s na condi\u00e7\u00e3o social e na vida das mulheres, e \u00e9 uma denuncia aberta da explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o a que estavam submetidas. A situa\u00e7\u00e3o das mulheres prolet\u00e1rias est\u00e1 relatada em v\u00e1rios aspectos: a superexplora\u00e7\u00e3o, os abusos da patronal, os impactos do trabalho na sa\u00fade (que s\u00e3o objeto deste artigo) e especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es que estavam ocorrendo na fam\u00edlia dos oper\u00e1rios e na rela\u00e7\u00e3o entre os sexos (tema de um pr\u00f3ximo artigo).<br \/>\n<strong>Sobre a incorpora\u00e7\u00e3o da mulher na ind\u00fastria<\/strong><br \/>\nAntes de entrarmos nos relatos do livro propriamente dito, cabe nos voltarmos um pouco para a compreens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre a opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o das mulheres no processo de ascens\u00e3o do capitalismo.<br \/>\nMassas de mulheres foram incorporadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o social no desenvolvimento da grande ind\u00fastria. Segundo Marx, \u201cO trabalho das mulheres e crian\u00e7as foi a primeira palavra de ordem da aplica\u00e7\u00e3o capitalista da maquinaria.\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><br \/>\nEngels descreve que em alguns ramos da produ\u00e7\u00e3o o trabalho de homens adultos foi transformado em simples vigil\u00e2ncia. Em outros, como na fia\u00e7\u00e3o e tecelagem, o trabalho humano consistia principalmente na repara\u00e7\u00e3o dos fios que se rompiam, o que n\u00e3o exigia for\u00e7a f\u00edsica, mas dedos \u00e1geis. O maior desenvolvimento dos m\u00fasculos e da ossatura das m\u00e3os tornava os homens menos aptos a esse trabalho que as mulheres e crian\u00e7as.<br \/>\n\u00c9 fato que a aplica\u00e7\u00e3o de novas tecnologias \u00e0 maquinaria, \u201cao tornar a for\u00e7a muscular dispens\u00e1vel, \u00e9 um meio de usar trabalhadores sem for\u00e7a muscular ou desenvolvimento corporal imaturo\u201d; mas, sobretudo, havia uma motiva\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica muito forte para a incorpora\u00e7\u00e3o das mulheres: a necessidade de expans\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o. Esta passava a exigir mais e mais trabalhadores, e, para os burgueses, quanto mais baixo pagassem os sal\u00e1rios, melhor. A incorpora\u00e7\u00e3o das mulheres e crian\u00e7as era muito vantajosa: realizavam o mesmo trabalho que homens adultos, mas eram \u201ctrabalho barato por excel\u00eancia\u201d (\u201c<em>cheap labour\u201d<\/em>)<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<br \/>\nAqui s\u00e3o importantes algumas considera\u00e7\u00f5es: a incorpora\u00e7\u00e3o em massa das mulheres \u00e0 ind\u00fastria com a maquinaria, n\u00e3o significa dizer que estas eram seres fr\u00e1geis; as mulheres que foram incorporadas como oper\u00e1rias realizavam trabalhos extenuantes, e que exigiam for\u00e7a f\u00edsica, seja no campo ou dentro dos lares. Essa ideologia da fragilidade feminina tamb\u00e9m cai por terra ao analisarmos a situa\u00e7\u00e3o das mulheres negras, especialmente as que foram escravizadas. Elas trabalhavam arduamente, lado a lado com os homens nas lavouras e em todo o tipo de servi\u00e7os.<br \/>\nO mais importante \u00e9 buscarmos as bases materiais dessa integra\u00e7\u00e3o das mulheres como <em>cheap labour: <\/em>Quais eram as condi\u00e7\u00f5es dessas mulheres? Como se formou este ex\u00e9rcito de m\u00e3o de obra barata?<br \/>\nA burguesia encontrava uma massa de mulheres em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, que lutando pela sobreviv\u00eancia, aceitavam todo o tipo de trabalho.<br \/>\nKolontai, em <em>\u201cA mulher no desenvolvimento social\u201d,<\/em> mostra-nos que a forma\u00e7\u00e3o do sistema capitalista foi um processo doloroso. Os tempos eram muito duros para os que n\u00e3o tinham a sorte de pertencer \u00e0 classe de propriet\u00e1rios. O ex\u00e9rcito de mendigos, sem teto e sem trabalho crescia como uma bola de neve.<br \/>\nAs mulheres foram impulsionadas durante um per\u00edodo relativamente curto ao mercado de trabalho. Ali chegavam mulheres de artes\u00e3os arruinados, esposas de camponeses que haviam fugido dos senhores feudais, vi\u00favas de soldados mortos nas guerras, \u00f3rf\u00e3s. Um ex\u00e9rcito de mulheres famintas e sem lar inundava as cidades. Muitas ca\u00edam na prostitui\u00e7\u00e3o, e outras ofereciam sua for\u00e7a de trabalho com muita insist\u00eancia aos artes\u00e3os. O aluvi\u00e3o de m\u00e3o de obra barata ao final do s\u00e9culo XIV e in\u00edcio do s\u00e9culo XV foi t\u00e3o massivo que as organiza\u00e7\u00f5es gremiais, por medo da competi\u00e7\u00e3o feminina, passavam a restringir e impedir o acesso das mulheres aos of\u00edcios artesanais. As mulheres, que tinham ent\u00e3o que buscar trabalho em outros of\u00edcios, sabiam de sua situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, e subvalorizavam a sua m\u00e3o de obra.<br \/>\nQuando o capital comercial crescente busca forma de aumentar os lucros, as primeiras v\u00edtimas da classe dos empres\u00e1rios foram as mulheres que n\u00e3o podiam encontrar prote\u00e7\u00e3o ou sustento. Desenvolve-se o trabalho a domic\u00edlio, que emprega uma maioria de mulheres. Nesta situa\u00e7\u00e3o, suas jornadas eram imensas e os sal\u00e1rios muito baixos. Quanto mais aumentava a produ\u00e7\u00e3o e o n\u00famero de trabalhadores dispon\u00edveis, mais vergonhosos se tornavam os m\u00e9todos dos exploradores. \u201cA situa\u00e7\u00e3o das mulheres era especialmente digna de compaix\u00e3o; os empres\u00e1rios sabiam perfeitamente que com essas pobres podiam fazer o que quisessem. Podiam, por exemplo, amea\u00e7ar a alde\u00e3 que fugia de entreg\u00e1-la ao seu senhor, ou a cidad\u00e3, de denunci\u00e1-la por prostitui\u00e7\u00e3o e vagabundagem\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><br \/>\nAl\u00e9m disso, a dura tarefa da trabalhadora a domic\u00edlio era um trabalho desvalorizado, considerado um complemento de suas tarefas dom\u00e9sticas. Al\u00e9m disso, era considerado um trabalho complementar ao do marido, o \u201cchefe da fam\u00edlia\u201d.<br \/>\nEm s\u00edntese, as mulheres que chegam depois \u00e0 manufatura e \u00e0 grande ind\u00fastria, carregavam uma condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica anterior de superexplora\u00e7\u00e3o e vulnerabilidade, de desigualdade de direitos na lei e na fam\u00edlia, refor\u00e7adas pelas ideologias dominantes de que a mulher era um ser inferior, e de que seu trabalho \u201cvalia menos\u201d, mesmo que realizassem o mesmo trabalho dos homens adultos, ou que fossem elas que sustentassem a fam\u00edlia.<br \/>\n<strong>As condi\u00e7\u00f5es de trabalho das mulheres e o impacto na sa\u00fade<\/strong><br \/>\nAl\u00e9m dos sal\u00e1rios mais baixos, as mulheres enfrentavam uma rotina de trabalho muito \u00e1rdua, com jornadas extremamente longas e sem direito a descanso. Um exemplo categ\u00f3rico que Engels nos traz \u00e9 o das costureiras e modistas:<br \/>\nOs estabelecimentos ocupam grande n\u00famero de mo\u00e7as \u2013 parece que cerca de 15 mil ao todo \u2013 que vivem, comem e dormem no pr\u00f3prio local em que trabalham, na maioria origin\u00e1rias do campo e completamente escravizadas pelos patr\u00f5es que as empregam. Durante a <em>alta esta\u00e7\u00e3o (fashionable)<\/em>, que dura quatro meses por ano, a jornada de trabalho, inclusive nos melhores estabelecimentos, atinge 15 horas e mesmo, se h\u00e1 encomendas urgentes, 18 horas; na maioria dos estabelecimentos, nesse per\u00edodo se trabalha sem hor\u00e1rio determinado, de tal modo que as mo\u00e7as nunca t\u00eam mais de 6 (at\u00e9 mesmo 3 ou 4 e, no limite, 2 horas) em 24 horas para repousar e dormir \u2013 e \u00e0s vezes, trabalham 24 horas sem parar! O \u00fanico limite para o trabalho \u00e9 a efetiva incapacidade f\u00edsica de segurar a agulha entre os dedos nem que seja por mais um minuto.<br \/>\nO excessivo trabalho fabril em condi\u00e7\u00f5es insalubres trazia diversos danos \u00e0 sa\u00fade das mulheres. Na fabrica\u00e7\u00e3o \u00famida do linho, por exemplo, podia levar a deforma\u00e7\u00f5es na bacia, resfriados cr\u00f4nicos, afec\u00e7\u00f5es pulmonares e deforma\u00e7\u00f5es na espalda [ombros] e nos joelhos. A constante necessidade de inclinar-se e a baixa altura das m\u00e1quinas acarretava em geral um crescimento anormal da estrutura \u00f3ssea. Engels relata que as mo\u00e7as que trabalhavam nos tecidos de algod\u00e3o eram <em>\u201cpequenas, atarracadas, disformes; em uma palavra, defeituosas de corpo\u201d.<\/em><br \/>\nNa fabrica\u00e7\u00e3o das rendas, as crian\u00e7as trabalhavam em ambientes pequenos e mal arejados, sempre sentadas e curvadas. Para sustentar o corpo assim por horas as meninas usavam corpetes de madeira, que lhes deformavam o externo e as costelas, provocando atrofiamento do t\u00f3rax. A maioria delas, depois de sofrer tamb\u00e9m dist\u00farbios digestivos, morria tuberculosa.<br \/>\nEm sua indigna\u00e7\u00e3o, Engels tamb\u00e9m nos evidencia a indiferen\u00e7a burguesa quanto \u00e0 sa\u00fade dos trabalhadores e o abismo existente entre as mulheres oper\u00e1rias e as damas da burguesia.<br \/>\n\u201c\u00c9 esse o pre\u00e7o que a sociedade paga para oferecer \u00e0s belas damas da burguesia o prazer de usar rendas \u2013 e n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel? Somente alguns milhares de oper\u00e1rios cegos, somente algumas filhas de oper\u00e1rios tuberculosas, somente uma gera\u00e7\u00e3o doente e raqu\u00edtica que transmitir\u00e1 suas enfermidades a seus descendentes \u2013 mas o que isso importa? Nada, absolutamente nada: nossa burguesia, indiferente, afastar\u00e1 de seus olhos o relat\u00f3rio da comiss\u00e3o governamental e suas mulheres e filhas continuar\u00e3o normalmente a enfeitar-se com rendas. De fato, \u00e9 admir\u00e1vel a serenidade da burguesia!\u201d<br \/>\nAs oper\u00e1rias fabris tinham gesta\u00e7\u00f5es muito dif\u00edceis, pois al\u00e9m do debilitamento f\u00edsico geral a que estavam submetidas, eram obrigadas a trabalhar quase at\u00e9 o momento do parto, pelo medo de se verem substitu\u00eddas e postas na rua.<br \/>\n\u201c\u00c9 frequente que mulheres que trabalharam at\u00e9 tarde num dia tenham o parto na manh\u00e3 seguinte e n\u00e3o \u00e9 incomum que a crian\u00e7a nas\u00e7a na pr\u00f3pria f\u00e1brica, entre as m\u00e1quinas.<br \/>\nMas isso n\u00e3o \u00e9 tudo: as mulheres sentem-se muito felizes se, ap\u00f3s o parto, podem passar duas semanas sem trabalhar \u2013 muitas retornam \u00e0 f\u00e1brica oito dias depois, e algumas tr\u00eas ou quatro, para trabalhar em <em>turno <\/em>completo<em>. <\/em>Certa feita, ouvi um industrial perguntar a um contramestre: \u2018Fulana ainda n\u00e3o voltou\u2019?; diante da resposta negativa, prosseguiu: \u2018H\u00e1 quanto tempo teve o filho\u2019?; diante da informa\u00e7\u00e3o \u2018oito dias\u2019, comentou: \u2018J\u00e1 podia ter vindo h\u00e1 tempo. Aquela ali\u2019 \u2013 e indicou uma oper\u00e1ria \u2013 \u2018s\u00f3 costuma ficar em casa tr\u00eas dias\u2019.\u201d<br \/>\nA maioria delas, quando voltava ao trabalho ap\u00f3s o parto, n\u00e3o tinha outra op\u00e7\u00e3o que deixar os filhos em casa. Algumas conseguiam voltar na hora das refei\u00e7\u00f5es para amamentar, e voltavam correndo para a f\u00e1brica, mas outras praticamente n\u00e3o conseguiam ver os beb\u00eas, os deixando sob os cuidados dos filhos mais velhos, que muitas vezes eram crian\u00e7as. Engels exp\u00f5e no livro um relato sobre algumas dessas mulheres:<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><br \/>\n\u201c M.H, de vinte anos, tem duas crian\u00e7as; a menor \u00e9 um beb\u00ea, que fica aos cuidados do mais velho; ela sai para a f\u00e1brica pouco depois das cinco horas da manh\u00e3 e retorna \u00e0s oito da noite; durante o dia, o leite escorre-lhe dos seios, ensopando-lhe o vestido. M.W. tem tr\u00eas crian\u00e7as; sai de casa por volta das cinco da manh\u00e3 de segunda-feira e s\u00f3 retorna no s\u00e1bado, \u00e0s sete horas da noite; no seu regresso, tem tanto a fazer pelas crian\u00e7as que n\u00e3o pode se deitar antes das tr\u00eas horas da manh\u00e3; \u00e0s vezes, a chuva parece molhar-lhe at\u00e9 os ossos e ela trabalha nesse estado; afirma: \u2018Meu seios me causam dores terr\u00edveis e com frequ\u00eancia escorrem a ponto de deixar-me molhada\u2019.<br \/>\nAqui podemos ver a hipocrisia burguesa, que refor\u00e7a ideologicamente o papel da mulher enquanto m\u00e3e, mas n\u00e3o possibilitava \u00e0s oper\u00e1rias os cuidados mais b\u00e1sicos com seus filhos.<br \/>\n<strong>A tirania nas f\u00e1bricas, os abusos sexuais, e a prostitui\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nParte dos abusos cometidos pela patronal eram as puni\u00e7\u00f5es aos trabalhadores, que podiam ser multados por coisas como deixar janelas abertas ou assobiar<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Algumas f\u00e1bricas adiantavam os rel\u00f3gios na hora da entrada, para multar os que chegavam \u201cdepois da hora\u201d, e os atrasavam na sa\u00edda, para prolongar as jornadas.<br \/>\nEssa tirania era ainda mais insuport\u00e1vel com as mulheres. Era comum que se multasse as que, em adiantado estado de gravidez, se sentassem por um momento para descansar. Um inspetor de f\u00e1brica aponta que conheceu algumas mo\u00e7as que obrigadas a suportar esse regime, \u201cpreferiram abandonar-se \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o a sofrer tamanha tirania\u201d.<br \/>\nAs oper\u00e1rias tamb\u00e9m estavam submetidas aos abusos sexuais. Os patr\u00f5es se sentiam no direito do <em>jus primaenoctis<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><strong>[8]<\/strong><\/a><\/em>, e faziam de sua f\u00e1brica o seu har\u00e9m, pressionando as trabalhadoras com a amea\u00e7a de demiss\u00e3o.<br \/>\nNo livro s\u00e3o feitas duras cr\u00edticas \u00e0 moral hip\u00f3crita da burguesia, que condenava a \u201camoralidade\u201d dos oper\u00e1rios<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, mas alimentava a prostitui\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida das mulheres, e as utilizava como mercadorias e servas sexuais. A cada dia, a prostitui\u00e7\u00e3o recebia mais oper\u00e1rias, demitidas ou desempregadas. Segundo Engels, entre as jovens trabalhadoras das rendas era \u201cquase epid\u00eamica\u201d.<br \/>\n<strong>O legado marxista<\/strong><br \/>\nAs mulheres, submetidas a essas condi\u00e7\u00f5es que Engels analisa, tamb\u00e9m se colocaram em luta, e foram parte da organiza\u00e7\u00e3o dos sindicatos e partidos, como posteriormente da I Internacional. A intoler\u00e1vel combina\u00e7\u00e3o entre a opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o foi respondida pelas mulheres, que em diversos momentos da Hist\u00f3ria, estiveram na linha de frente em processos revolucion\u00e1rios, como a Comuna de Paris, e a Revolu\u00e7\u00e3o Russa.<br \/>\n\u00c9 um patrim\u00f4nio do Marxismo a considera\u00e7\u00e3o de que em meio a essas dur\u00edssimas condi\u00e7\u00f5es, e num contexto em que era muito forte a ideologia de que a mulher deveria \u201cvoltar ao lar\u201d, a incorpora\u00e7\u00e3o das mulheres na produ\u00e7\u00e3o social era um fen\u00f4meno altamente progressivo, que colocou as bases para a sua liberta\u00e7\u00e3o, ao torna-las parte do proletariado, da for\u00e7a social revolucion\u00e1ria, e que a revolu\u00e7\u00e3o socialista \u00e9 que pode colocar as bases de uma sociedade sem opress\u00e3o, ao acabar com a explora\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 patrim\u00f4nio de nossa tradi\u00e7\u00e3o a compreens\u00e3o da necessidade do combate a todas as formas de opress\u00e3o, que s\u00e3o alimentadas pela burguesia para dividir a nossa classe.<br \/>\nEngels nos trouxe uma contribui\u00e7\u00e3o inestim\u00e1vel para este entendimento.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Engels, Friedrich: <em>A Situa\u00e7\u00e3o da Classe Trabalhadora na Inglaterra, <\/em>Boitempo editorial. [O conjunto das cita\u00e7\u00f5es de Engels no artigo \u00e9 desta mesma obra].<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><em><strong>[2]<\/strong><\/em><\/a><em> Engels utiliza a express\u00e3o classe m\u00e9dia no sentido do ingl\u00eas middle-<\/em>class, que designa como a palavra francesa\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 bourgeoisie, a classe propriet\u00e1ria, distinta da aristocracia.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Marx, Karl: <em>A entrada da mulher na f\u00e1brica. <\/em><br \/>\n<a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Marx, Karl; ibid.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Kolontai, Alexandra, <em>A la mujer en el desarrollo social.<\/em><br \/>\n<a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Relato feito por Lorde Ashley<br \/>\n<a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Ver Huberman, Leo: <em>A Hist\u00f3ria da Riqueza do Homem<\/em>.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Direito \u00e0 primeira noite; pretenso direito dos senhores feudais de ter rela\u00e7\u00f5es com as esposas de seus vassalos ou dependentes na noite de n\u00fapcias.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Os burgueses atribu\u00edam v\u00edcios aos oper\u00e1rios, como o alcoolismo e o desregramento sexual. Engels<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como abordado no texto Engels e a compreens\u00e3o materialista da Hist\u00f3ria sobre a opress\u00e3o das mulheres, neste momento em que celebramos os 200 anos do nascimento de Engels, n\u00e3o poder\u00edamos deixar de destacar a import\u00e2ncia de suas elabora\u00e7\u00f5es e seu papel na constitui\u00e7\u00e3o do legado marxista para a nossa luta contra a opress\u00e3o e a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":71048,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[6,8],"tags":[6035,79,6036],"class_list":["post-62751","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-200-anos-de-engels","category-historia","tag-200-anos-engels","tag-roberta-maiani","tag-situacao-da-classe-trabalhadora-na-inglaterra"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Inglat-3-1.jpg","categories_names":["200 anos de Engels","Hist\u00f3ria"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62751","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62751"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62751\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/71048"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62751"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62751"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62751"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}