{"id":62707,"date":"2020-12-16T18:56:13","date_gmt":"2020-12-16T21:56:13","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=62707"},"modified":"2020-12-16T18:56:13","modified_gmt":"2020-12-16T21:56:13","slug":"62707-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/12\/16\/62707-2\/","title":{"rendered":"A dial\u00e9tica da natureza e do trabalho em Friedrich Engels: Um debate a partir d\u2019O papel do trabalho na hominiza\u00e7\u00e3o do macaco"},"content":{"rendered":"<p><em>Primeiramente o trabalho, em seguida e depois com ele a linguagem<\/em><br \/>\n<strong><em>(Friedrich Engels)<\/em><\/strong><br \/>\n<em>\u00c9\u00a0por ter sido faber (artes\u00e3o), que o homem se tornou sapiens (inteligente)<\/em><br \/>\n<strong><em>(Ki-Zerbo)<\/em><\/strong><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Wagner Damasceno (artigo de debate publicado no site Teoria e Revolu\u00e7\u00e3o)*<br \/>\nNeste ano se completaram 200 anos de nascimento daquele que foi, junto com Karl Marx, o maior tit\u00e3 na luta pela liberta\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora: Friedrich Engels. Esta efem\u00e9ride \u00e9 motivo de alegria para trabalhadores do mundo inteiro e tem reavivado o interesse por sua vida e obra com a publica\u00e7\u00e3o de biografias, novas edi\u00e7\u00f5es de seus livros e a produ\u00e7\u00e3o de especiais como o feito pela Liga Internacional dos Trabalhadores \u2013 Quarta Internacional (LIT-QI)<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote1sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>1<\/sup><\/a>.<br \/>\nEm meio a isso, dirigimos nossa aten\u00e7\u00e3o ao artigo\u00a0<em>Apontamentos sobre a quest\u00e3o evolutiva e a origem da linguagem em Engels<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote2sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>2<\/sup><\/a>\u00a0<\/em>que tem o m\u00e9rito de se debru\u00e7ar sobre um dos textos mais originais do marxismo,\u00a0<em>O papel do trabalho na hominiza\u00e7\u00e3o do macaco<\/em>, de Engels.<br \/>\nEm seu artigo o autor afirma que: 1) Engels era\u00a0<em>lamarckista<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote3sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>3<\/sup><\/a><\/em>; 2) Engels apresenta uma no\u00e7\u00e3o de<em>\u00a0trabalho\u00a0<\/em>equivocada e diferente daquela desenvolvida por Karl Marx<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote4sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>4<\/sup><\/a>; 3) a linguagem pressup\u00f5e o trabalho<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote5sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>5<\/sup><\/a>; 4) a conclus\u00e3o de Engels \u00e9 antidial\u00e9tica<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote6sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>6<\/sup><\/a>.<br \/>\nPara confrontar essas afirma\u00e7\u00f5es, faremos o que achamos mais prudente: consultaremos diretamente as obras de Charles Darwin, particularmente, <em>A Origem das Esp\u00e9cies<\/em>, publicada em 1859 e\u00a0<em>A Origem do Homem e a sele\u00e7\u00e3o sexual<\/em>, publicado em 1871. E, evidentemente, mencionaremos o manuscrito de Engels em sua mais recente edi\u00e7\u00e3o em l\u00edngua portuguesa. Vamos l\u00e1!<br \/>\n<strong>O que diz a Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o de Charles Darwin?<\/strong><br \/>\nDarwin elaborou uma consistente teoria que repeliu definitivamente \u201cDeus\u201d do centro das Ci\u00eancias Naturais demolindo o seu \u00faltimo ref\u00fagio nesse campo: a ideia de que o surgimento das esp\u00e9cies deu-se de forma completamente individual e at\u00e9 mesmo pronta.<br \/>\nA\u00a0<em>Origem das Esp\u00e9cies\u00a0<\/em>come\u00e7a explicando a varia\u00e7\u00e3o dos seres vivos no estado dom\u00e9stico, abordando especialmente a sele\u00e7\u00e3o operada pelo ser humano em plantas e animais segundo suas inten\u00e7\u00f5es. Darwin d\u00e1 exemplos de modifica\u00e7\u00f5es empreendidas pelo ser humano que, em poucos anos, conseguiram produzir grandes modifica\u00e7\u00f5es em bois e ovelhas.<br \/>\n<em>N\u00e3o poder\u00edamos supor que todas essas variedades e ra\u00e7as j\u00e1 se tenham formado de uma s\u00f3 vez t\u00e3o perfeitas e \u00fateis como hoje as temos. Em muitos casos, efetivamente, sabemos que sua hist\u00f3ria n\u00e3o foi assim t\u00e3o simples. A explica\u00e7\u00e3o reside na capacidade humana de sele\u00e7\u00e3o acumulativa: a natureza fornece as varia\u00e7\u00f5es sucessivas; o homem sabe como lev\u00e1-las para determinadas dire\u00e7\u00f5es \u00fateis para ele. Nesse sentido pode-se at\u00e9 dizer que o homem criou ra\u00e7as \u00fateis para si pr\u00f3prio (DARWIN, 2012, p. 58).<\/em><br \/>\nEm oposi\u00e7\u00e3o a essa\u00a0<em>sele\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em>realizada pelo ser humano, Darwin chama a sele\u00e7\u00e3o operada numa longa dura\u00e7\u00e3o pela natureza de\u00a0<em>sele\u00e7\u00e3o natural<\/em>:<br \/>\n<em>A esses princ\u00edpios [a luta pela sobreviv\u00eancia e a preserva\u00e7\u00e3o das modifica\u00e7\u00f5es \u00fateis para os indiv\u00edduos de uma determinada esp\u00e9cie e subsequente transmiss\u00e3o heredit\u00e1ria] atrav\u00e9s do qual toda varia\u00e7\u00e3o, por menor que seja, deve preservar-se, desde que apresente utilidade para o indiv\u00edduo, denominei Princ\u00edpio de Sele\u00e7\u00e3o Natural, a fim de frisar sua rela\u00e7\u00e3o com a capacidade humana de sele\u00e7\u00e3o (2012, p. 80).<\/em><br \/>\nMas, apesar de ignorar o que o pr\u00f3prio Darwin escrevera e ignorar que Engels mencionara Darwin duas vezes, o artigo \u00e9 categ\u00f3rico: h\u00e1 uma evidente leitura lamarckista feita por Engels.<br \/>\nE come\u00e7a atribuindo \u00e0 Lamarck a no\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>uso e desuso<\/em>\u00a0ignorando que esta no\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi utilizada por Darwin. O resultado \u00e9 que, para ele, a no\u00e7\u00e3o de Engels \u00e9 equivocada pois concebe um movimento de fora para dentro: \u201co ambiente pressiona os indiv\u00edduos a se adaptarem\u201d (PONTES, 2020).<br \/>\nMas, no que realmente consiste a Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o de Darwin? Nas palavras do pr\u00f3prio Darwin, consiste no conjunto destas leis:<br \/>\n<em>a do\u00a0<strong><u>Crescimento<\/u><\/strong><u>,<\/u>\u00a0que caminha ao lado da de\u00a0<strong><u>Reprodu\u00e7\u00e3o<\/u><\/strong>; a de\u00a0<strong><u>Hereditariedade<\/u><\/strong>, quase sempre englobada na precedente; a da\u00a0<strong><u>Variabilidade<\/u><\/strong>, decorrente da a\u00e7\u00e3o direta e indireta das\u00a0<strong><u>condi\u00e7\u00f5es externas<\/u><\/strong>\u00a0de vida e do\u00a0<strong><u>uso<\/u><\/strong><u>\u00a0<\/u>e\u00a0<strong><u>desuso<\/u><\/strong>; a da\u00a0<strong><u>Multiplica\u00e7\u00e3o<\/u><\/strong>\u00a0dos Indiv\u00edduos, t\u00e3o acelerada que acaba por acarretar a da\u00a0<strong><u>Luta pela Exist\u00eancia<\/u><\/strong>, e consequentemente a da\u00a0<strong><u>Sele\u00e7\u00e3o Natural<\/u><\/strong>, atr\u00e1s da qual seguem a da\u00a0<strong><u>Diverg\u00eancia dos Caracteres<\/u><\/strong>\u00a0e a da Extin\u00e7\u00e3o das Formas menos aptas (2012, p. 381, grifos nossos).<\/em><br \/>\nPortanto, as condi\u00e7\u00f5es externas e o uso e o desuso s\u00e3o fatores importantes dentro da chamada Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o darwiniana. Assim, j\u00e1 de in\u00edcio, h\u00e1 dois equ\u00edvocos: 1) uma vis\u00e3o unilateral sobre a evolu\u00e7\u00e3o (de dentro do organismo do indiv\u00edduo para fora); 2) um m\u00e9todo individualista que pensa a evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies centrado no indiv\u00edduo, como aqueles que tratavam o\u00a0<em>trabalho<\/em>\u00a0como uma atividade desempenhada por um R\u00f3binson Cruso\u00e9.<br \/>\nDito isto, vejamos o que realmente diz a passagem de Engels tomada como uma \u201cevid\u00eancia\u201d de seu lamarckismo:<br \/>\n<em>O dom\u00ednio sobre a natureza que come\u00e7ou com o aprimoramento da m\u00e3o, com o trabalho, ampliou o campo visual do ser humano a cada novo progresso. Nos objetos da natureza ele descobria continuamente novas propriedades at\u00e9 ali desconhecidas. Em contrapartida, o aprimoramento do trabalho necessariamente contribuiu para estreitar os la\u00e7os entre os membros da sociedade, na medida em que multiplicou os casos de apoio m\u00fatuo, de coopera\u00e7\u00e3o, e proporcionou uma clara consci\u00eancia da utilidade dessa coopera\u00e7\u00e3o para cada indiv\u00edduo.<strong>\u00a0<\/strong>Em suma, os humanos em forma\u00e7\u00e3o chegaram ao ponto de\u00a0terem algo a dizer\u00a0uns aos outros.\u00a0<strong>A necessidade criou um \u00f3rg\u00e3o para isso:<\/strong>\u00a0a laringe pouco evolu\u00edda do macaco foi mudando de forma de maneira lenta, mas segura, passando da modula\u00e7\u00e3o para uma modula\u00e7\u00e3o cada vez mais desenvolvida, e os \u00f3rg\u00e3os da boca aprenderam aos poucos a articular uma letra ap\u00f3s a outra (ENGELS, 2020, p. 341, grifo nosso).<\/em><br \/>\nOra, mas vejamos o que diz o pr\u00f3prio Darwin sobre os insetos da Ilha da Madeira:<br \/>\n<em>J\u00e1 os insetos da Ilha da Madeira que n\u00e3o s\u00e3o terrestres e que, como os cole\u00f3pteros e lepid\u00f3pteros que se nutrem de flores, s\u00e3o obrigados a\u00a0<strong><u>usar<\/u><\/strong>\u00a0suas asas para subsistir, sofreram, conforme suspeita Wollaston, n\u00e3o uma redu\u00e7\u00e3o nas asas, mas sim um maior desenvolvimento das mesmas. Esse fato \u00e9 inteiramente compat\u00edvel com a a\u00e7\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o natural.\u00a0<strong><u>Quando um inseto novo chegou pela primeira vez \u00e0 ilha, a tend\u00eancia da sele\u00e7\u00e3o natural de aumentar ou\u00a0reduzir suas asas dependeria dos resultados da batalha desse animal contra os ventos.\u00a0<\/u><\/strong>Se muitos indiv\u00edduos enfrentassem com sucesso essa batalha, o resultado seria um; se a tentativa fosse suspensa e os indiv\u00edduos passassem a voar raramente, ou nunca, o resultado seria outro (2012, p. 133, grifo nosso).<\/em><br \/>\nOu quando fala da redu\u00e7\u00e3o ou amplia\u00e7\u00e3o de algum \u00f3rg\u00e3o:<br \/>\n<em>[\u2026] acredito que a sele\u00e7\u00e3o natural sempre ter\u00e1 \u00eaxito no longo processo de poupar-se de um desgaste atrav\u00e9s da redu\u00e7\u00e3o e perda de qualquer parte do organismo, t\u00e3o logo esta se torne sup\u00e9rflua, sem que isso de modo algum acarrete o desenvolvimento correspondente de outra parte qualquer. E, de modo inverso, que\u00a0<strong><u>a sele\u00e7\u00e3o natural possa perfeitamente ter \u00eaxito em desenvolver grandemente qualquer \u00f3rg\u00e3o, sem que isso acarrete a necessidade de uma compensa\u00e7\u00e3o<\/u><\/strong>, isto \u00e9, de se reduzir outra parte adjacente do organismo (DARWIN, 2012, p. 142, grifo nosso).<\/em><br \/>\nOu, ainda, quando fala de pequenos roedores:<br \/>\n<em>Do mesmo modo que na [Ilha da] Madeira as asas de certos insetos\u00a0<strong><u>aumentavam de tamanho, enquanto que as de outros insetos foram reduzidas<\/u><\/strong><u>\u00a0pela sele\u00e7\u00e3o natural,\u00a0<strong>auxiliada pelo uso e desuso<\/strong><\/u>, no caso do rato-das-cavernas a sele\u00e7\u00e3o natural parece ter aceitado o desafio da falta de luz, aumentando o tamanho dos olhos, enquanto que, no caso dos demais habitantes das grutas escuras, o pr\u00f3prio desuso seria o respons\u00e1vel pelas varia\u00e7\u00f5es neles verificadas (2012, p. 135, grifos nossos).<\/em><br \/>\nPerguntamos: acaso Charles Darwin estava sendo lamarckista?<br \/>\nDarwin foi mais longe do que\u00a0<strong>todos os demais naturalistas\u00a0de seu tempo<\/strong>\u00a0porque, dentre outras coisas, ele se apoiou nos estudos da nascente Geologia, sobretudo nas pesquisas de Charles Lyell.<br \/>\nAo dar uma nova escala temporal \u00e0 vida e \u00e0 pr\u00f3pria Terra (na ordem de milh\u00f5es e bilh\u00f5es de anos), a Geologia permitiu que Darwin pensasse a sele\u00e7\u00e3o natural operando nas esp\u00e9cies numa longa dura\u00e7\u00e3o temporal: \u201cFugazes s\u00e3o os desejos e esfor\u00e7os do homem, e curto \u00e9 seu tempo \u2013 e como! Da\u00ed a pequenez de sua obra de sele\u00e7\u00e3o, comparada com a que pode ser acumulada pela natureza durante per\u00edodos geol\u00f3gicos inteiros\u201d (DARWIN, 2012, p. 96).<br \/>\nEngels tamb\u00e9m estava atento a isto: \u201cCertamente se passaram centenas de milhares de anos \u2013 que na hist\u00f3ria da Terra n\u00e3o representam mais do que um segundo da vida humana \u2013 antes que o bando de macacos que vivia trepado nas \u00e1rvores desse origem a uma sociedade de humanos\u201d (2020, p. 343).<br \/>\nPor isso, quando se ignora essa longa escala temporal na qual Darwin e Engels inserem os exemplos de modifica\u00e7\u00f5es nas esp\u00e9cies, se tem a impress\u00e3o de que eles operam com concep\u00e7\u00f5es lamarckistas de evolu\u00e7\u00e3o onde indiv\u00edduos simplesmente mudam (quase da noite para o dia, por raz\u00f5es unilaterais).<br \/>\nQuando Engels diz que a necessidade criou o \u00f3rg\u00e3o \u201cmudando de forma de maneira lenta, mas segura, passando da modula\u00e7\u00e3o para uma modula\u00e7\u00e3o cada vez mais desenvolvida\u201d ele estava argumentando tal qual Darwin: a Sele\u00e7\u00e3o Natural foi preservando, acumulando e transmitindo de forma heredit\u00e1ria<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote7sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>7<\/sup><\/a>\u00a0as caracter\u00edsticas que culminaram no desenvolvimento da laringe pressionadas por uma\u00a0<em>atividade<\/em>: o\u00a0<em>trabalho<\/em>.<br \/>\nVoltaremos a este tema ao final deste artigo quando formos tratar da rela\u00e7\u00e3o entre\u00a0<em>trabalho<\/em>\u00a0e\u00a0<em>linguagem<\/em>.<br \/>\nParte dos equ\u00edvocos postos no artigo de Pontes decorrem do amalgamento de duas coisas bastante distintas: as modifica\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias dos indiv\u00edduos (modifica\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas) com a ideia de aleatoriedade da Sele\u00e7\u00e3o Natural, inexistente na\u00a0<em>Origem das Esp\u00e9cies<\/em>. Nas palavras do pr\u00f3prio Pontes:<br \/>\n<em>Hoje sabemos e \u00e9 demonstr\u00e1vel que, mais importante que a especializa\u00e7\u00e3o que um \u00f3rg\u00e3o pode ter na vida de um indiv\u00edduo, s\u00e3o as pequenas mudan\u00e7as provocadas pela completa aleatoriedade gen\u00e9tica provocada pela reprodu\u00e7\u00e3o. Combinadas com as condi\u00e7\u00f5es ambientais, essas aleatoriedades criam indiv\u00edduos mais adaptados \u2013\u00a0<strong>o que n\u00e3o significa mais aperfei\u00e7oados<\/strong>\u00a0como dizia Lamark ou como entende o senso comum. Em outras condi\u00e7\u00f5es, esses mesmo indiv\u00edduos podiam ser extremamente prejudicados.\u00a0<strong>Assim, a tese de Lamark sobre a press\u00e3o externa que cria necessidades pode ser entendida como unilateral.<\/strong>\u00a0Concomitante \u00e0s condi\u00e7\u00f5es ambientais, temos que considerar a aleatoriedade gen\u00e9tica dos indiv\u00edduos que, juntas, criam o que chamamos de press\u00e3o evolutiva que, por sua vez, nada mais \u00e9 do que a maior reprodu\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos mais adaptados no conjunto da esp\u00e9cie a um determinado contexto.\u00a0N\u00e3o \u00e9 o determinismo ambiental, mas a combina\u00e7\u00e3o desses fatores que est\u00e1 no centro do que chamamos de sele\u00e7\u00e3o natural e da evolu\u00e7\u00e3o provocada por ela.<strong>\u00a0E esse componente aleat\u00f3rio \u00e9 justamente o que n\u00e3o consta na formula\u00e7\u00e3o de Engels\u00a0<\/strong>(2020).<\/em><br \/>\nPara Darwin, a a\u00e7\u00e3o da Sele\u00e7\u00e3o Natural n\u00e3o \u00e9 (des)guiada pelo acaso. Atribuir as varia\u00e7\u00f5es ao mero acaso \u201c<strong>trata-se, indubitavelmente, de um modo de falar inteiramente incorreto<\/strong>, numa demonstra\u00e7\u00e3o cabal de nossa ignor\u00e2ncia quanto \u00e0s causas de cada varia\u00e7\u00e3o em particular\u201d (DARWIN, 2012, p. 130, grifo nosso).<br \/>\nIsso porque, para ele, \u201ca sele\u00e7\u00e3o natural, n\u00e3o podemos esquecer, pode atuar sobre qualquer parte de um ser vivo,\u00a0<strong>mas sempre e unicamente em seu benef\u00edcio<\/strong>\u201d (2012, p. 143, grifo nosso). Para deixar isto mais n\u00edtido:<br \/>\n<em>Qualquer que possa ser a causa de cada pequena diferen\u00e7a que distinga os descendentes de seus ascendentes \u2013 pois cada uma deve ter uma causa espec\u00edfica, \u2013\u00a0<strong><u>\u00e9 a acumula\u00e7\u00e3o constante dessas diferen\u00e7as, quando ben\u00e9ficas ao indiv\u00edduo, dentro de um processo conduzido pela sele\u00e7\u00e3o natural<\/u><\/strong>, que produz todas as modifica\u00e7\u00f5es estruturais mais importantes (DARWIN, 2012, p. 156, grifo nosso).<\/em><br \/>\nDarwin diz o mesmo quando fala dos instintos: \u201cn\u00e3o vejo dificuldade em crer que, sob condi\u00e7\u00f5es mut\u00e1veis de vida, a sele\u00e7\u00e3o natural acumule modifica\u00e7\u00f5es ligeiras de instintos,\u00a0<strong>no<\/strong>\u00a0<strong>rumo de alguma dire\u00e7\u00e3o \u00fatil<\/strong>. Em certos casos, provavelmente houve a participa\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito ou do uso-e-desuso\u201d (2012, p. 208, grifo nosso)<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote8sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong><sup>8<\/sup><\/strong><\/a>.<br \/>\nResumindo: Engels agiu de acordo com a teoria exposta por Darwin na\u00a0<em>Origem das Esp\u00e9cies<\/em>. Se a ci\u00eancia moderna negou ou retificou alguma parte desta teoria \u00e9 outro debate<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote9sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>9<\/sup><\/a>.<br \/>\n<strong>A m\u00e3o de Darwin<\/strong><br \/>\nO artigo <em>Apontamentos sobre a quest\u00e3o evolutiva e a origem da linguagem em Engels\u00a0<\/em>\u00e9 novamente categ\u00f3rico: 1) uma determinada atividade pode mudar indiv\u00edduos, mas n\u00e3o uma esp\u00e9cie; 2) o\u00a0<em>trabalho<\/em>\u00a0n\u00e3o operou mudan\u00e7as morfol\u00f3gicas na esp\u00e9cie humana; 3) o\u00a0<em>trabalho<\/em>\u00a0\u201cse deu em um animal cuja a natureza biol\u00f3gica, morfol\u00f3gica, j\u00e1 existia como condi\u00e7\u00e3o para isso\u201d.<br \/>\nIsto \u00e9, o\u00a0<em>trabalho\u00a0<\/em>j\u00e1 encontrou um\u00a0<em>ser pronto<\/em>\u00a0para manejar as ferramentas e pensar no que fazer. Donde sentencia: \u201cN\u00e3o \u00e9 por desenvolver o trabalho que o macaco pode assumir determinada constitui\u00e7\u00e3o, mas foi por ter determinada constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 que o macaco pode desenvolver o trabalho\u201d\u00a0(PONTES, 2020).<br \/>\nMas quando Darwin defendeu a tese de que todos os indiv\u00edduos de uma esp\u00e9cie \u2013 e at\u00e9 mesmo as esp\u00e9cies e grupos \u2013 n\u00e3o nascem prontos e descendem de ancestrais comuns, ele d\u00e1 o exemplo\u2026 da m\u00e3o:<br \/>\n<em>Dada a exist\u00eancia da mesma disposi\u00e7\u00e3o \u00f3ssea na m\u00e3o do homem, na asa do morcego, na barbatana do boto e na pata do cavalo, assim como o mesmo n\u00famero de v\u00e9rtebras compondo o pesco\u00e7o da girafa e do elefante, al\u00e9m de in\u00fameros outros fatos desse tipo, a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel e imediata reside na teoria da descend\u00eancia com modifica\u00e7\u00f5es lentas, ligeiras e sucessivas (DARWIN, 2012, p. 374).<\/em><br \/>\nPara Darwin, o ser humano \u00e9 o \u201canimal mais potente que jamais apareceu sobre a terra\u201d (1974, p. 63-64). E seu \u201cdom\u00ednio\u201d sobre todas as outras esp\u00e9cies deve-se \u201c\u00e0s suas faculdades intelectuais, aos seus costumes sociais que o guiam em ajuda e defesa dos companheiros bem como \u00e0 sua estrutura f\u00edsica\u201d (1978, p. 64). Mas Darwin \u00e9 taxativo: \u201cO homem\u00a0<strong>n\u00e3o poderia<\/strong>\u00a0ter alcan\u00e7ado a sua atual posi\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio no mundo sem o uso das m\u00e3os que est\u00e3o t\u00e3o<strong>\u00a0<\/strong>maravilhosamente<strong>\u00a0adaptadas\u00a0<\/strong>para agir segundo a sua vontade\u201d (1974, p. 67, grifos nossos).<br \/>\nH\u00e1 um processo dial\u00e9tico aqui. Sob a reg\u00eancia da Sele\u00e7\u00e3o Natural, o g\u00eanero\u00a0<em>homo<\/em>\u00a0foi acumulando sucessivas modifica\u00e7\u00f5es que se mostravam \u00fateis em sua luta pela vida. A m\u00e3o humana n\u00e3o nasceu pronta. Grosso modo: ela \u00e9 produto do\u00a0<em>externo\u00a0<\/em>e do\u00a0<em>interno<\/em>. Isto \u00e9, do uso cont\u00ednuo deste membro (n\u00e3o o indiv\u00edduo, mas o\u00a0<em>continuum\u00a0<\/em>dos seres que possu\u00edam melhores estruturas morfol\u00f3gicas para manusear algo conseguiam se perpetuar e transmitir suas pequenas modifica\u00e7\u00f5es aos seus descendentes), e dessas modifica\u00e7\u00f5es que iam se acumulando ao longo do tempo.<br \/>\nVejamos o que o pr\u00f3prio Darwin diz a respeito:<br \/>\n<em>\u00c0 medida que os antepassados do homem iam sempre mais assumindo a posi\u00e7\u00e3o ereta, com as m\u00e3os e os bra\u00e7os sempre mais modificados de maneira a tornarem-se capazes de agarrar e aptos para outros fins, com os p\u00e9s e as pernas transformados ao mesmo tempo qual base firme e meio de locomo\u00e7\u00e3o, deviam fazer-se necess\u00e1rias outras mudan\u00e7as infinitas de estrutura. O osso p\u00e9lvico deve ter-se alargado, a espinha dorsal deve ter-se curvado particularmente para dentro e a cabe\u00e7a deve ter-se fixado numa posi\u00e7\u00e3o diferente;<strong><u>\u00a0mudan\u00e7as estas todas elas conseguidas pelo homem.\u00a0<\/u><\/strong>[\u2026] Poderiam ser acrescentadas v\u00e1rias outras estruturas que aparecem conexas com a posi\u00e7\u00e3o ereta do homem. \u00c9 dif\u00edcil decidir em que medida estas modifica\u00e7\u00f5es correlatas constituem o resultado da sele\u00e7\u00e3o natural e at\u00e9 que ponto s\u00e3o o resultado dos efeitos heredit\u00e1rios do aumento do uso de certas partes ou da a\u00e7\u00e3o de uma parte sobre a outra. N\u00e3o resta d\u00favida alguma de que estes instrumentos de mudan\u00e7a muitas vezes cooperam; assim, quando certos m\u00fasculos e a parte de cima, do osso a que est\u00e3o presos se alargam para o uso habitual,\u00a0<strong><u>este fator revela que certas a\u00e7\u00f5es se realizam habitualmente e devem ser \u00fateis<\/u>.<\/strong>\u00a0O resultado disto \u00e9 que\u00a0<strong><u>os indiv\u00edduos que as realizavam tinham melhor tend\u00eancia a sobreviver em maior n\u00famero<\/u><\/strong>\u00a0(1974, p. 68-69, grifos nossos).<\/em><br \/>\nCharles Darwin seguramente foi um dos maiores g\u00eanios que habitou a Terra. Foi um estudioso extremamente disciplinado e profundamente materialista e dial\u00e9tico. No entanto, como veremos ao final deste texto, a sua grande debilidade foi justamente n\u00e3o ter levado \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias o papel do\u00a0<em>trabalho\u00a0<\/em>para esta esp\u00e9cie t\u00e3o singular: o<em>\u00a0homo sapiens sapiens<\/em>.<br \/>\n<strong>O papel desempenhado pelo\u00a0<em>trabalho\u00a0<\/em>para o surgimento da\u00a0<em>linguagem<br \/>\n<\/em><\/strong>Seguramente, a Antropologia \u00e9 um dos grandes basti\u00f5es do\u00a0<em>p\u00f3s-modernismo<\/em>\u00a0e do\u00a0<em>idealismo<\/em>\u00a0dentre as chamadas Ci\u00eancias Humanas e Sociais. Mas nem sempre foi assim. Para que a\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0pudesse se tornar a categoria central na Antropologia, foi preciso uma dura investida contra o\u00a0<em>trabalho<\/em>.<br \/>\nNos s\u00e9culos XVIII e XIX a Antropologia oferecia justificativas te\u00f3ricas\u00a0<em>evolucionistas<\/em>\u00a0e de\u00a0<em>darwinismo social<\/em>\u00a0para a escravid\u00e3o e para a domina\u00e7\u00e3o de povos origin\u00e1rios, t\u00e3o necess\u00e1rias para a acumula\u00e7\u00e3o primitiva do capitalismo. J\u00e1 nos s\u00e9culos XX e XXI ela marginaliza de seus dom\u00ednios a Antropologia F\u00edsica \u2013 respons\u00e1vel pelos estudos acerca da forma\u00e7\u00e3o do g\u00eanero\u00a0<em>homo \u2013<\/em>\u00a0sob a justificativa de combater o\u00a0<em>evolucionismo\u00a0<\/em>e\u00a0<em>o darwinismo social<\/em>.<br \/>\nO pr\u00f3prio conceito de c<em>ultura\u00a0<\/em>vai sendo esvaziado de toda materialidade, para se tornar algo quase et\u00e9reo<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote10sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>10<\/sup><\/a>.<br \/>\nSomente apartando o\u00a0<em>trabalho\u00a0<\/em>do interesse antropol\u00f3gico \u2013 da forma\u00e7\u00e3o da nossa esp\u00e9cie at\u00e9 os dias de hoje \u2013 seria poss\u00edvel analisar os seres humanos sob o\u00a0<em>imperialismo<\/em>\u00a0com a superficialidade relativista que marca boa parte dos estudos antropol\u00f3gicos contempor\u00e2neos. Na d\u00e9cada de 1980 algo semelhante aconteceu na Sociologia: junto da ideologia da supera\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e das ind\u00fastrias, surgiu o discurso de que o\u00a0<em>trabalho\u00a0<\/em>j\u00e1 n\u00e3o possu\u00eda uma centralidade sociol\u00f3gica explicativa. Disto, in\u00fameras classifica\u00e7\u00f5es surgiram: \u201cSociedade P\u00f3s-Industrial\u201d, \u201cSociedade da Informa\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cSociedade do Conhecimento\u201d etc.<br \/>\nE foi assim porque o debate entre as concep\u00e7\u00f5es\u00a0<em>idealistas\u00a0<\/em>e<em>\u00a0materialistas\u00a0<\/em>se revestem na fundamenta\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica da\u00a0<em>linguagem<\/em>\u00a0e do\u00a0<em>trabalho<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote11sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>11<\/sup><\/a>,\u00a0<\/em>respectivamente<em>.<\/em><br \/>\nNa pol\u00edtica, in\u00fameras organiza\u00e7\u00f5es se vergaram a essas formula\u00e7\u00f5es idealistas que contribu\u00edram para a designa\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>outro<\/em>\u00a0sujeito social da revolu\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o os\u00a0<em>trabalhadores<\/em>.<br \/>\nRelembramos isso porque opinamos que o texto\u00a0<em>Apontamentos sobre a quest\u00e3o evolutiva e a origem da linguagem em Engels<\/em>\u00a0se aproxima deste caminho, culminando em conclus\u00f5es antidial\u00e9ticas e antimaterialistas.<br \/>\nO texto enuncia que h\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o entre\u00a0<em>trabalho<\/em>\u00a0e\u00a0<em>linguagem<\/em>\u00a0mas faz o seguinte encadeamento argumentativo: 1) antes do\u00a0<em>trabalho<\/em>\u00a0veio o pensamento e a linguagem; 2) o corpo humano j\u00e1 estava formado fisicamente antes que manejasse ferramentas.<br \/>\nE para refor\u00e7ar essas conclus\u00f5es o texto se apoia\u2026 na b\u00edblia!<br \/>\nIsto mesmo: usa uma alegoria do\u00a0<em>idealismo por excel\u00eancia<\/em>\u00a0(a b\u00edblia) para tentar comprovar que a comunica\u00e7\u00e3o precede o trabalho: \u201cN\u00e3o \u00e0 toa no mito b\u00edblico sobre a origem das l\u00ednguas \u2013 a Torre de Babel \u2013 o Deus do antigo testamento impede, justamente, a comunica\u00e7\u00e3o entre os homens. Isso \u00e9 suficiente para impedir a realiza\u00e7\u00e3o do trabalho audacioso de se alcan\u00e7ar os c\u00e9us. N\u00e3o h\u00e1 trabalho sem comunica\u00e7\u00e3o\u201d (PONTES, 2020).<br \/>\nNosso camarada poderia ter recuado um pouco mais e se apoiado no \u201cfato\u201d de que Ad\u00e3o \u2013 nascido morfologicamente pronto \u2013 primeiro\u00a0<em>falou<\/em>! E por possuir tamanho dom\u00ednio da linguagem, Ad\u00e3o tornou-se o pai da Taxonomia: saiu pelo \u00c9den classificando e nomeando todos os seres vivos. E s\u00f3 depois de ser expulso do \u00c9den \u00e9 que conheceu o\u00a0<em>trabalho.<\/em><br \/>\nBom, mas fa\u00e7amos como Darwin e Engels e deixemos a b\u00edblia de lado. Vejamos abaixo o que Engels diz em seu manuscrito:<br \/>\n<em>Primeiramente o trabalho, em seguida e depois com ele a linguagem \u2013 estes s\u00e3o os dois impulsos mais essenciais, sob cuja influ\u00eancia o c\u00e9rebro de um macaco gradativamente passou a ser o de um humano, que, apesar de toda a semelhan\u00e7a, \u00e9 bem maior e mais aperfei\u00e7oado. O aperfei\u00e7oamento do c\u00e9rebro, por\u00e9m, foi acompanhado do aperfei\u00e7oamento de seus instrumentos mais imediatos, os \u00f3rg\u00e3os dos sentidos. Do mesmo modo que o aperfei\u00e7oamento gradativo da linguagem necessariamente foi acompanhado do refinamento de todos os sentidos [\u2026] O efeito retroativo do desenvolvimento do c\u00e9rebro e dos sentidos a seu servi\u00e7o, da consci\u00eancia cada vez mais esclarecida, da capacidade de abstra\u00e7\u00e3o e dedu\u00e7\u00e3o sobre o trabalho e a linguagem\u00a0<strong><u>conferiu-lhes est\u00edmulos sempre renovados para o aperfei\u00e7oamento continuado<\/u><\/strong>, um aperfei\u00e7oamento que n\u00e3o se encerrou assim que o ser humano se separou definitivamente do macaco, mas, desde ent\u00e3o, apesar de interrompido por algum retrocesso local e temporal, avan\u00e7ou tremendamente em termos globais nos diferentes povos e em diferentes \u00e9pocas, diferenciando-se quanto ao grau e \u00e0 tend\u00eancia; por um lado, impulsionado com for\u00e7a para a frente, por outro, conduzido em dire\u00e7\u00f5es mais espec\u00edficas por um elemento novo que se somou \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do ser humano completo \u2013\u00a0a sociedade\u00a0(2020, p. 342, grifo nosso).<\/em><br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 determinismo algum nessa concep\u00e7\u00e3o de Engels. O que h\u00e1, sim, \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de um ponto de partida: o\u00a0<em>trabalho<\/em>. Depois surge a\u00a0<em>linguagem<\/em>\u00a0e a partir da\u00ed ambos passam a caminhar juntos. Vejamos, agora, como Darwin abordou o assunto:<br \/>\n<em>Merece aten\u00e7\u00e3o o fato de que, t\u00e3o logo os antepassados do homem se tornaram sociais (e isto deve ter acontecido, provavelmente, num per\u00edodo muito remoto), o princ\u00edpio de\u00a0<strong><u>imita\u00e7\u00e3o<\/u><\/strong>, a\u00a0<strong><u>raz\u00e3o<\/u><\/strong>\u00a0e a\u00a0<strong><u>experi\u00eancia<\/u><\/strong>\u00a0devem<strong>\u00a0<\/strong>ter<strong><u>\u00a0incrementado e modificado em muito as capacidades intelectivas\u00a0<\/u><\/strong>de maneira tal que lhe vemos somente os tra\u00e7os nos animais inferiores [\u2026] Ora, se algum indiv\u00edduo de uma tribo, mais sagaz do que os outros, inventou uma nova armadilha ou arma, ou qualquer outro meio de ataque ou de defesa, o mais \u00f3bvio interesse pessoal, sem necessidade de demasiada capacidade de racioc\u00ednio, poderia levar os outros membros a imit\u00e1-lo e disto todos se aproveitariam.<strong><u>\u00a0A pr\u00e1tica habitual de toda nova t\u00e9cnica numa certa medida pode igualmente revigorar o intelecto.<\/u><\/strong>\u00a0Se uma nova inven\u00e7\u00e3o \u00e9 importante, a tribo se desenvolver\u00e1 em n\u00famero, estender-se-\u00e1 e suplantar\u00e1 as outras (1974, p. 156).<\/em><br \/>\nAt\u00e9 aqui estivemos simplesmente nos apoiando no que Darwin escreveu. Abriremos uma exce\u00e7\u00e3o para recorrer a um estudo chefiado pelo bi\u00f3logo Thomas Morgan, da Universidade do Estado do Arizona<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote12sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>12<\/sup><\/a>, intitulado\u00a0<em>Experimental evidence for the co-evolution of hominin tool-making teaching and language,\u00a0<\/em>em<em>\u00a0<\/em>2015. Fazemos isto porque em nossa opini\u00e3o as conclus\u00f5es deste estudo corroboram e lan\u00e7am luz \u00e0 tese de Engels.<br \/>\nA hip\u00f3tese \u00e9 a seguinte: a produ\u00e7\u00e3o de ferramentas de pedras pelos nossos ancestrais na Garganta de Olduvai, na atual Tanz\u00e2nia-\u00c1frica, h\u00e1 2,5 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, conduziu-os \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o do ensino e da linguagem.<br \/>\nPara corroborar esta hip\u00f3tese, Morgan estruturou um experimento com 184 estudantes adultos recrutados pela Universidade Saint Andrews que produziram mais de 6 mil pedras de s\u00edlex \u2013 posteriormente pesadas, medidas e analisadas \u2013 executando 05 mecanismos de transmiss\u00e3o diferentes: 1) engenharia reversa; 2) imita\u00e7\u00e3o\/emula\u00e7\u00e3o; 3) ensino b\u00e1sico; 4) ensino gestual; 5) ensino verbal. Conforme a figura abaixo.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-62708\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/W-D.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"505\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/W-D.jpg 600w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/W-D-300x253.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/W-D-150x126.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n(\u00a0<strong>a<\/strong>\u00a0) Um diagrama do processo de moldagem da pedra. A pedra-martelo atinge o n\u00facleo com o objetivo de produzir uma lasca. A borda e o \u00e2ngulo da plataforma s\u00e3o importantes para o sucesso do golpe. (\u00a0<strong>b<\/strong>\u00a0\u2013\u00a0<strong>f<\/strong>\u00a0) As cinco condi\u00e7\u00f5es de aprendizagem. (\u00a0<strong>g<\/strong>\u00a0) A estrutura do experimento. Para cada condi\u00e7\u00e3o, foram realizadas seis correntes (quatro curtas e duas longas); um dos dois experimentadores treinados iniciou cada cadeia (igualmente dentro de cada condi\u00e7\u00e3o).<br \/>\nSegundo Morgan, havia uma rela\u00e7\u00e3o co-evolutiva entre a fabrica\u00e7\u00e3o de ferramentas e a evolu\u00e7\u00e3o cognitiva, sugerindo que haveria uma sele\u00e7\u00e3o \u201cpara formas mais complexas de transmiss\u00e3o social que aumentaram a fidelidade da transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es\u201d (2015, p. 02).<br \/>\nAl\u00e9m disso, Morgan indica que, para sustentar a sua hip\u00f3tese \u201cvest\u00edgios arqueol\u00f3gicos mostram que as mudan\u00e7as na morfologia dos homin\u00eddeos, incluindo aumento do tamanho geral do c\u00e9rebro,\u00a0<strong>siga o advento da fabrica\u00e7\u00e3o de ferramentas olduvaienses<\/strong>\u201d (2015, p. 02, grifo nosso).<br \/>\nAo analisar as 05 formas de transmiss\u00e3o, Morgan concluiu que o\u00a0<em>trabalho<\/em>\u00a0\u00e9 mais eficiente no grupo em que h\u00e1 o ensino (e n\u00e3o apenas a imita\u00e7\u00e3o) e a\u00a0<em>linguagem<\/em>.<br \/>\n<em>A descoberta central deste trabalho \u00e9 que a transmiss\u00e3o social da tecnologia olduvaiense \u00e9 potencializada pelo ensino e, em particular, pela linguagem. Isso est\u00e1 de acordo com um relato co-evolucion\u00e1rio de cultura gen\u00e9tica da evolu\u00e7\u00e3o humana e apoia a hip\u00f3tese de que\u00a0<strong><u>a fabrica\u00e7\u00e3o de ferramentas de pedra de\u00a0Olduvai\u00a0gerou sele\u00e7\u00e3o\u00a0<\/u><\/strong>que favorece o ensino e a linguagem cada vez mais complexos. (MORGAN et al, 2015, p. 03-04, grifo nosso).<\/em><br \/>\nMorgan tamb\u00e9m afirma que \u201cnossos dados implicam que a fabrica\u00e7\u00e3o de ferramentas olduvaienses teria criado\u00a0<strong>um gradiente seletivo cont\u00ednuo<\/strong>, levando do aprendizado por observa\u00e7\u00e3o ao ensino verbal muito mais complexo\u201d (2015, p. 05, grifo nosso).<br \/>\n<em>Em resumo, Morgan sustenta que h\u00e1 uma co-evolu\u00e7\u00e3o \u2013 o que \u00e9 completamente diferente da no\u00e7\u00e3o relativista de que n\u00e3o h\u00e1 pontos de partida \u2013 entre a fabrica\u00e7\u00e3o de ferramentas e a comunica\u00e7\u00e3o: \u201c[\u2026<\/em><em>]\u00a0a depend\u00eancia dos homin\u00eddeos na tecnologia de pedra\u00a0<strong><u>teria gerado uma sele\u00e7\u00e3o para uma comunica\u00e7\u00e3o<\/u><\/strong>\u00a0cada vez mais complexa que permitia a dissemina\u00e7\u00e3o mais eficaz de ferramentas de pedra\u201d\u00a0(2015, p. 06, grifo nosso).<\/em><br \/>\nEm outras palavras,\u00a0o\u00a0<em>trabalho<\/em>\u00a0estimulou o desenvolvimento da\u00a0linguagem\u00a0produzindo, por seu turno,\u00a0\u201csele\u00e7\u00e3o\u201d entre os indiv\u00edduos.\u00a0E,\u00a0na medida em que o trabalho\u00a0vai se tornando\u00a0mais produtivo com o desenvolvimento da linguagem, ela pr\u00f3pria vai se tornando mais complexa tamb\u00e9m j\u00e1 que influi positivamente no resultado do trabalho.<br \/>\nPara usar uma frase do historiador de Burkina Faso, Joseph Ki-Zerbo, \u201c\u00e9\u00a0por ter sido\u00a0<em>faber<\/em>\u00a0(artes\u00e3o), que o homem se tornou\u00a0<em>sapiens<\/em>\u00a0(inteligente)\u201d<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote13sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>13<\/sup><\/a>.<br \/>\n<strong>O\u00a0<em>trabalho<\/em>\u00a0para Marx e Engels<\/strong><br \/>\nTalvez o mais grave no artigo <em>Apontamentos sobre a quest\u00e3o evolutiva e a origem da linguagem em Engels<\/em>\u00a0seja a conclus\u00e3o de que Engels tinha uma concep\u00e7\u00e3o equivocada sobre o trabalho e, portanto, diferente da de Marx.<br \/>\n\u00c9 importante ressaltar que n\u00f3s n\u00e3o\u00a0consideramos\u00a0Marx e Engels uma s\u00f3 pessoa.\u00a0Cada um possu\u00eda \u2013 para usar um termo em voga hoje \u2013 uma \u201cagenda de pesquisa\u201d,\u00a0e\u00a0suas pr\u00f3prias idiossincrasias.\u00a0Mas tamb\u00e9m n\u00e3o estamos dentre aqueles que os veem de forma\u00a0completamente separada. Isso porque suas \u201cagendas de pesquisas\u201d convergiam numa s\u00f3 estrat\u00e9gia de luta pol\u00edtica e te\u00f3rica e, porque,\u00a0ao tornarem-se amigos\u00a0em 1844, trabalharam em estreita colabora\u00e7\u00e3o por toda suas vidas desenvolvendo, por exemplo, acordos de divis\u00e3o de trabalho como revelara o pr\u00f3prio Engels\u00a0em pref\u00e1cio de 1887 dos textos reunidos e publicados sob o t\u00edtulo de\u00a0<em>Sobre a quest\u00e3o da moradia<\/em>: \u201cem consequ\u00eancia da divis\u00e3o do trabalho acordada entre mim e Marx, cabia-me defender nossas concep\u00e7\u00f5es na imprensa peri\u00f3dica e principalmente, portanto, na luta contra opini\u00f5es advers\u00e1rias, para que Marx dispusesse de tempo para elaborar sua grande obra principal\u201d (2015, p. 28).<br \/>\nPor isso, concordamos com Daniel Sugasti quando diz que \u201cal\u00e9m de relegada, a obra de Engels foi sistematicamente atacada<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote14sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>14<\/sup><\/a>\u00a0por diversos intelectuais desde o s\u00e9culo XX \u2013 Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs, Jean Paul Sartre, Louis Althusser, entre outros\u2013 que, em nome de um pretenso marxismo purificado, se empenharam em separar seu pensamento do de Marx, destacando supostas diferen\u00e7as te\u00f3ricas, program\u00e1ticas e metodol\u00f3gicas entre ambos\u201d<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote15sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>15<\/sup><\/a>.<br \/>\nPara n\u00f3s,<em>\u00a0O papel do trabalho na hominiza\u00e7\u00e3o do macaco<\/em>\u00a0de Engels\u00a0<strong>alarga<\/strong>\u00a0o marxismo ao oferecer uma esp\u00e9cie de\u00a0<strong>arqueologia do\u00a0<em>trabalho<\/em><\/strong>\u00a0que vai ao encontro do que Marx escrevera nos\u00a0<em>Manuscritos Econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos<\/em>\u00a0e n\u2019<em>O capital.<\/em><br \/>\n<em>O trabalho come\u00e7a com a confec\u00e7\u00e3o de ferramentas. E quais s\u00e3o as mais antigas ferramentas que encontramos? [Quais s\u00e3o] as mais antigas a julgar pelas pe\u00e7as mais antigas que se encontram do legado de gente pr\u00e9-hist\u00f3rica e pelo modo de vida dos mais antigos povos hist\u00f3ricos, bem como pelo modo de vida dos mais primitivos selvagens contempor\u00e2neos? S\u00e3o ferramentas de ca\u00e7a e pesca, sendo as primeiras ao mesmo tempo armas (ENGELS, 2020, p. 343-344).<\/em><br \/>\nLogo ap\u00f3s, Engels nos oferece uma das mais belas e dial\u00e9ticas passagens do marxismo quando fala do dom\u00ednio do ser humano sobre a natureza:<br \/>\n<em>[\u2026] n\u00e3o fiquemos demasiado lisonjeados com nossas vit\u00f3rias humanas sobre a natureza. Esta se vinga de n\u00f3s por toda vit\u00f3ria desse tipo [\u2026]\u00a0<strong><u>E, assim, a cada passo somos lembrados de que n\u00e3o dominamos de modo nenhum a natureza como um conquistador domina um povo estrangeiro<\/u><\/strong>, ou seja, como algu\u00e9m que se encontra fora da natureza \u2013 mas fazemos parte e estamos dentro dela com carne e sangue e c\u00e9rebro e todo o nosso dom\u00ednio sobre ela consiste em que, distinguindo-nos de todas as outras criaturas, somos capazes de conhecer suas leis e aplic\u00e1-las corretamente<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote16sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>16<\/sup><\/a>\u00a0(2020, p. 348, grifo nosso).<\/em><br \/>\nVejamos, agora, o que Marx disse nos\u00a0<em>Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos<\/em>, no ano em que sua vida se entrela\u00e7ou a de Engels:<br \/>\n<em>A natureza \u00e9 o\u00a0corpo inorg\u00e2nico\u00a0do homem, a saber, a natureza enquanto ela mesma n\u00e3o \u00e9 corpo humano. O homem\u00a0vive\u00a0da natureza significa: a natureza \u00e9 o seu\u00a0corpo, com o qual ele tem de ficar num processo cont\u00ednuo para n\u00e3o morrer. Que a vida f\u00edsica e mental do homem est\u00e1 interconectada com a natureza n\u00e3o tem outro sentido sen\u00e3o que a natureza est\u00e1 interconectada consigo mesma, pois o homem \u00e9 uma parte da natureza (2004, p. 84).<\/em><br \/>\nPor fim, Engels defende uma revolu\u00e7\u00e3o completa do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista para conseguirmos a regula\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas donde<br \/>\n<em>os seres humanos voltar\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 a se sentir em unidade com a natureza, mas tamb\u00e9m a ter ci\u00eancia disso, e tanto mais invi\u00e1vel se tornar\u00e1 aquela representa\u00e7\u00e3o absurda e antinatural de um antagonismo entre esp\u00edrito e mat\u00e9ria, homem e natureza, alma e corpo, que surgiu ap\u00f3s a decad\u00eancia da Antiguidade cl\u00e1ssica na Europa e alcan\u00e7ou no cristianismo o seu maior aprimoramento (2020, p. 348).<\/em><br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 absolutamente nada nesta elabora\u00e7\u00e3o que divirja do que Marx escreveu sobre o\u00a0<em>trabalho.<\/em><br \/>\n<strong>Os limites de Darwin<\/strong><br \/>\nEm <em>O papel do trabalho na hominiza\u00e7\u00e3o do macaco\u00a0<\/em>Engels faz uma pequena mas contundente cr\u00edtica aos cientistas naturais: \u201ccada coisa atua sobre a outra e vice-versa, e na maioria das vezes \u00e9 o esquecimento desse movimento e dessa intera\u00e7\u00e3o universais que impede nossos pesquisadores da natureza de ter uma vis\u00e3o clara sobre as coisas mais simples\u201d (2020, p. 346). Uma cr\u00edtica que bem podemos aplicar \u00e0 Darwin.<br \/>\nAfinal, ele cometeu grandes equ\u00edvocos em\u00a0<em>A Origem do Homem.<\/em><br \/>\nEle era um materialista e um dial\u00e9tico, mas ao ignorar o papel fundamental do\u00a0<em>trabalho<\/em>\u00a0para o ser humano na intera\u00e7\u00e3o com a\u00a0<em>natureza<\/em>\u00a0\u2013 combinado com a sua origem de classe, e com o grande prest\u00edgio que sua teoria angariou<em>\u00a0\u2013<\/em>\u00a0fez com que ele n\u00e3o resistisse \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de estender \u00e0s sociedades humanas de seu tempo a lei da Sele\u00e7\u00e3o Natural. O resultado disso foram in\u00fameras formula\u00e7\u00f5es preconceituosas e racistas.<br \/>\nHaviam m\u00e9ritos, tamb\u00e9m. Ele reconheceu, por exemplo, que negros, ind\u00edgenas e brancos formavam uma s\u00f3 esp\u00e9cie. No entanto oscilou entre classific\u00e1-los como\u00a0<em>ra\u00e7as<\/em>\u00a0distintas e como\u00a0<em>subesp\u00e9cies<\/em>.<br \/>\nCom muitas reservas, reconheceu que a civiliza\u00e7\u00e3o do antigo Egito era composta em sua maioria por negros e que, \u2013 nas palavras atuais \u2013 a alta concentra\u00e7\u00e3o de melanina na pele foi uma modifica\u00e7\u00e3o operada pela Sele\u00e7\u00e3o Natural.<br \/>\n<em>Por isso creio que os negros e outras ra\u00e7as escuras podem ter adquirido a sua cor de indiv\u00edduos mais escuros que se subtra\u00edram \u00e0 influ\u00eancia mortal do sistema da sua regi\u00e3o natal durante uma s\u00e9rie de gera\u00e7\u00f5es [\u2026] (DARWIN, 1974, p. 230).<\/em><br \/>\nPor\u00e9m, com a vis\u00e3o turvada pelo racismo, Darwin \u2013 cuja capacidade de s\u00edntese e de dedu\u00e7\u00e3o excedeu a de todos os naturalistas de seu tempo \u2013 n\u00e3o foi capaz de deduzir que o g\u00eanero<em>\u00a0homo\u00a0<\/em>e a esp\u00e9cie\u00a0<em>homo sapiens sapiens\u00a0<\/em>foram \u201co presente da \u00c1frica para o mundo\u201d<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote17sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>17<\/sup><\/a>\u00a0e que eram negros e negras. Adiando, assim, por quase um s\u00e9culo esta conclus\u00e3o cient\u00edfica que s\u00f3 a sua teoria era capaz de fazer.<br \/>\n<em>A adapta\u00e7\u00e3o ao meio foi um dos mais poderosos fatores de forma\u00e7\u00e3o do homem, desde suas origens. As caracter\u00edsticas morfossom\u00e1ticas das popula\u00e7\u00f5es africanas at\u00e9 o presente foram elaboradas nesse per\u00edodo crucial da Pr\u00e9-Hist\u00f3ria. Assim, o car\u00e1ter glabro da pele, sua cor morena, acobreada ou negra, a abund\u00e2ncia de gl\u00e2ndulas sudor\u00edparas, as narinas e os l\u00e1bios proeminentes de grande n\u00famero de africanos, os cabelos crespos, encaracolados ou encarapinhados, tudo isso prov\u00e9m das condi\u00e7\u00f5es tropicais. A melanina e o cabelos encarapinhados, por exemplo, protegem do calor. Al\u00e9m disso, a postura ereta, que foi uma etapa t\u00e3o decisiva do processo de hominiza\u00e7\u00e3o e que implicou ou acarretou um novo arranjo dos ossos da cintura p\u00e9lvica, est\u00e1 ligada, na opini\u00e3o de alguns pr\u00e9-historiadores, \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o ao meio geogr\u00e1fico das savanas de ervas altas dos planaltos do leste africano: era preciso manter\u2010se sempre ereto para olhar por cima, a fim de espreitar sua presa ou fugir dos animais hostis (KI-ZERBO, 2010, p. 834-835).<\/em><br \/>\nDarwin se apoiou em in\u00fameros preconceitos de Thomas Malthus<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote18sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>18<\/sup><\/a>\u00a0e de Francis Galton, contra negros, ind\u00edgenas, asi\u00e1ticos e irlandeses.<br \/>\n<em>A mesma observa\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida com igual ou maior for\u00e7a no que diz respeito aos numerosos pontos de semelhan\u00e7a mental entre as mais diversas ra\u00e7as humanas. Os abor\u00edgenes americanos, os negros e os europeus s\u00e3o t\u00e3o diferentes entre si intelectualmente quanto o podem ser tr\u00eas ra\u00e7as quaisquer (DARWIN, 1974, p. 213).<\/em><br \/>\nE chegou \u00e0s raias da\u00a0<em>eugenia<\/em>, quando lamentou que, nas sociedades humanas, os \u201cmais fracos\u201d podem sobreviver e prosperar:<br \/>\n<em>Devemos, portanto, suportar o efeito, indubitavelmente mau, do fato de que os fracos sobrevivem e propagam o pr\u00f3prio g\u00eanero, mas pelo menos se deveria deter a sua a\u00e7\u00e3o constante, impedindo os membros mais d\u00e9beis e inferiores de se casarem livremente como os sadios (1974, p. 162).<\/em><br \/>\nEm suma, ao n\u00e3o levar \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias a import\u00e2ncia do\u00a0<em>trabalho\u00a0<\/em>para os seres humanos, foi incapaz de entender a fundo que o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas \u201cfreava\u201d enormemente a for\u00e7a da Sele\u00e7\u00e3o Natural sobre os seres humanos e foi incapaz de entender que todos os diferentes povos \u2013 com suas diferentes caracter\u00edsticas f\u00edsicas e culturais \u2013 constitu\u00edam uma s\u00f3 esp\u00e9cie plenamente evolu\u00edda, o\u00a0<em>homo sapiens sapiens.<\/em><br \/>\nCabe a n\u00f3s, trabalhadores, a tarefa de demolir de forma revolucion\u00e1ria o capitalismo e p\u00f4r fim \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>trabalho<\/em>\u00a0e a todas as formas de opress\u00e3o que desumanizam a nossa classe. Pavimentando, assim, o caminho para uma sociedade comunista, in\u00edcio da hist\u00f3ria realmente humana.<br \/>\n<strong>Refer\u00eancias<\/strong><br \/>\nCONNAH, Graham.\u00a0<strong>\u00c1frica Desconhecida:\u00a0<\/strong>Uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 sua Arqueologia. S\u00e3o Paulo: USP, 2013.<br \/>\nDARWIN, Charles.\u00a0<strong>A origem do homem a sele\u00e7\u00e3o sexual.\u00a0<\/strong>S\u00e3o Paulo: Hemus, 1974.<br \/>\nDARWIN, Charles.\u00a0<strong>Origem das esp\u00e9cies.\u00a0<\/strong>Belo Horizonte: Itatiaia, 2012.<br \/>\nEAGLETON, Terry.\u00a0<strong>A ideia de cultura.\u00a0<\/strong>S\u00e3o Paulo: UNESP, 2011.<br \/>\nENGELS, Friedrich.\u00a0<strong>Dial\u00e9tica da Natureza.\u00a0<\/strong>S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2020.<br \/>\nENGELS, Friedrich.\u00a0<strong>Sobre a quest\u00e3o da moradia.\u00a0<\/strong>S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2015.<br \/>\nLENIN, Vladimir.\u00a0<strong>O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong>o que ensina o marxismo sobre o Estado e o papel do proletariado na revolu\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2010.<br \/>\nKI-ZERBO, Joseph.\u00a0<strong>Conclus\u00e3o:\u00a0<\/strong>Da natureza bruta \u00e0 humanidade liberada. In: KI-ZERBO, Joseph (Org). Hist\u00f3ria Geral da \u00c1frica I: Metodologia e Pr\u00e9-Hist\u00f3ria da \u00c1frica. Bras\u00edlia: 2\u00aa ed. UNESCO, 2010.<br \/>\nMARX, Karl.\u00a0<strong>Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos.\u00a0<\/strong>S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2004.<br \/>\nMOREIRA, Roberto.\u00a0<strong>Terra, poder e territ\u00f3rio.\u00a0<\/strong>S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2007.<br \/>\nMORGAN, T. J. H.\u00a0<em>et al.<\/em>\u00a0Experimental evidence for the co-evolution of hominin tool-making teaching and language.\u00a0<strong>Nature Communications.\u00a0<\/strong>6:6029 doi: 10.1038\/ncomms7029 (2015). Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/ncomms7029\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.nature.com\/articles\/ncomms7029<\/a>&gt;. Acesso em: 12 dez. 2020.<br \/>\nPONTES, Romerito. Apontamentos sobre a quest\u00e3o evolutiva e a origem da linguagem em Engels.\u00a0<strong>Teoria &amp; Revolu\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/strong>Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/apontamentos-sobre-a-questao-evolutiva-e-a-origem-da-linguagem-em-engels\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/apontamentos-sobre-a-questao-evolutiva-e-a-origem-da-linguagem-em-engels\/<\/a>&gt;. Acesso em: 11 dez. 2020.<br \/>\n<strong>Notas:<\/strong><br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote1anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1<\/a>Ver:\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/assista-o-video-200-anos-de-engels-parte-1\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/assista-o-video-200-anos-de-engels-parte-1\/<\/a>. Acesso em 12 dez. 2020.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote2anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">2<\/a>Ver:\u00a0<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/apontamentos-sobre-a-questao-evolutiva-e-a-origem-da-linguagem-em-engels\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/apontamentos-sobre-a-questao-evolutiva-e-a-origem-da-linguagem-em-engels\/<\/a>, de Romerito Pontes. Acesso em: 13 de dez. 2020.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote3anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">3<\/a>\u201cTalvez o ponto mais cr\u00edtico no texto de Engels seja sua evidente leitura lamarkista sobre as transforma\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas que operaram na transforma\u00e7\u00e3o do macaco em homem\u201d (PONTES, 2020).<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote4anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">4<\/a>\u201c[\u2026] de que trabalho fala Engels? Do trabalho instintivo ou do trabalho humano? O mais apropriado seria considerar o trabalho instintivo, que pode preceder a linguagem articulada, embora ele mesmo n\u00e3o entre no m\u00e9rito da defini\u00e7\u00e3o\u201d (PONTES, 2020).<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote5anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">5<\/a>\u201cO trabalho pressup\u00f5e a linguagem e n\u00e3o h\u00e1 trabalho sem linguagem\u201d (PONTES, 2020).<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote6anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">6<\/a>\u201cCriticamos pela natureza antidial\u00e9tica de sua conclus\u00e3o\u201d (PONTES, 2020).<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote7anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">7<\/a>O\u00a0artigo\u00a0supracitado menciona repetidas vezes a import\u00e2ncia da descoberta do DNA para a Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o mas n\u00e3o menciona a import\u00e2ncia das descobertas do monge Johann Gregor Mendel acerca da transmiss\u00e3o heredit\u00e1ria de caracter\u00edsticas entre os indiv\u00edduos para a eleva\u00e7\u00e3o da teoria darwiniana no pante\u00e3o das ci\u00eancias. Em 1857 Mendel\u00a0realizou\u00a0experimentos cultivando\u00a0ervilhas e ao cruz\u00e1-las, observa\u00a0a transmiss\u00e3o heredit\u00e1ria de certas\u00a0caracter\u00edsticas para as novas gera\u00e7\u00f5es de ervilhas. Seus estudos s\u00f3 foram descobertos no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, e com justi\u00e7a \u00e9 considerado o pai da gen\u00e9tica. Essa era\u00a0a explica\u00e7\u00e3o\u00a0para a\u00a0hereditariedade das modifica\u00e7\u00f5es que faltava a Darwin.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote8anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">8<\/a>Na quinta edi\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>Origem das Esp\u00e9cies\u00a0<\/em>Darwin\u00a0passa a considerar a possibilidade de que algumas caracter\u00edsticas estruturais nos seres vivos podem n\u00e3o ter serventia, mas reitera que \u201ccom base nos conhecimentos colhidos nos \u00faltimos poucos anos estou convencido de que se poder\u00e1 demonstrar depois a utilidade de muit\u00edssimas estruturas que agora nos parecem in\u00fateis e que entrar\u00e3o consequentemente no \u00e2mbito da sele\u00e7\u00e3o natural\u201d (DARWIN, 1974, p. 78).<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote9anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">9<\/a>Darwin,\u00a0por exemplo,\u00a0aceitava a\u00a0hip\u00f3tese da\u00a0hereditariedade de caracteres\u00a0tamb\u00e9m aceita por Lamarck,\u00a0mas com uma diferen\u00e7a:\u00a0secundada\u00a0pela\u00a0Sele\u00e7\u00e3o Natural.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote10anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">10<\/a>\u201ca\u00a0palavra inglesa\u00a0<em>coulter<\/em>, que \u00e9 um cognato de cultura, significa \u2018relha de arado\u2019. Nossa palavra para a mais nobre das atividades humanas, assim, \u00e9 derivada de trabalho e agricultura, colheita e cultivo\u201d (EAGLETON, 2011, p. 09).<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote11anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">11<\/a>Na academia brasileira, o soci\u00f3logo Ricardo Antunes teve o m\u00e9rito de combater as posi\u00e7\u00f5es do fil\u00f3sofo\u00a0J\u00fcrgen\u00a0Habermas que colocava\u00a0como centro a esfera comunicacional,\u00a0pondo\u00a0a\u00a0<em>linguagem<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0no\u00a0n\u00facleo do que chamava\u00a0de \u201cmundo da vida\u201d.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote12anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">12<\/a>Morgan conduziu este estudo em seu p\u00f3s-doutoramento na Universidade da Calif\u00f3rnia em parceria com a Universidade Saint Andrews e a Universidade de Liverpool.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote13anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">13<\/a>\u201c\u00c9 por ter sido\u00a0<em>faber<\/em>\u00a0(artes\u00e3o), que o homem se tornou\u00a0<em>sapiens<\/em>\u00a0(inteligente). Com as m\u00e3os livres da necessidade de apoiar o corpo, o homem estava apto a aliviar os m\u00fasculos e os ossos do maxilar e do cr\u00e2nio de numerosos trabalhos. Da\u00ed a libera\u00e7\u00e3o e o crescimento da caixa craniana, onde os centros sensitivo\u2010motores do c\u00f3rtex se desenvolvem. Al\u00e9m disso, a m\u00e3o confronta o homem com o mundo natural. \u00c9 uma antena que capta um n\u00famero infinito de mensagens, as quais organizam o c\u00e9rebro e o fazem chegar ao julgamento, particularmente atrav\u00e9s do conceito de meios apropriados para alcan\u00e7ar um dado fim (princ\u00edpio de identidade e causalidade) (KI-ZERBO, 2010, p. 835-836).<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote14anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">14<\/a>No\u00a0<em>Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, Lenin rebatia aqueles que tentavam opor a no\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Estado\u00a0<\/em>em Marx e Engels: \u201cNo entanto, seria um profundo erro crer numa diverg\u00eancia de opini\u00f5es entre Marx e Engels. Um estudo mais atento mostra que as ideias de Marx e Engels a respeito do Estado e do seu definhamento s\u00e3o absolutamente id\u00eanticas, e que a express\u00e3o de Marx aplica-se justamente a um Estado em vias de definhamento\u201d (2010, p. 104).<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote15anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">15<\/a>Ver:\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/bicentenarioengels\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/bicentenarioengels\/<\/a>. Acesso em: 11 de dez. 2020.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote16anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">16<\/a>Como visto, h\u00e1\u00a0tamb\u00e9m\u00a0uma riqu\u00edssima contribui\u00e7\u00e3o de Engels \u00e0 chamada\u00a0<em>quest\u00e3o ambiental<\/em>\u00a0que pode ser extra\u00edda neste\u00a0manuscrito.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote17anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">17<\/a>\u201cAssim, os mais antigos representantes de nossa esp\u00e9cie podem ser vistos como o presente da \u00c1frica para o mundo\u201d (CONNAH, 2013, p. 40).<br \/>\n<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/#sdfootnote18anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">18<\/a>Galton e Malthus s\u00e3o mencionados em\u00a0<em>Origem das Esp\u00e9cies<\/em>, mas nem de longe t\u00eam tamanho relevo quanto nesta obra. A elabora\u00e7\u00f5es acerca da\u00a0<em>popula\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em>de Malthus lhe inspiraram. Mas, se\u00a0eram razo\u00e1veis\u00a0para se pensar o crescimento\u00a0<em>sustent\u00e1vel<\/em>\u00a0de uma determinada esp\u00e9cie \u2013 isto \u00e9, a capacidade de\u00a0<em>sustentabilidade \u201c<\/em>associada \u00e0 m\u00e1xima popula\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie que pode manter-se indefinitivamente em um territ\u00f3rio sem provocar uma degrada\u00e7\u00e3o na base de recursos que possa fazer diminuir essa mesma popula\u00e7\u00e3o no futuro\u201d (MOREIRA, 2007, p. 202) \u2013 n\u00e3o faziam o menor sentido quando aplicadas para as sociedades humanas.<br \/>\n* artigo publicado originalmente em:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"Tuy5NLMjVt\"><p><a href=\"http:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A dial\u00e9tica da natureza e do trabalho em Friedrich Engels:  Um debate a partir d\u2019O papel do trabalho na hominiza\u00e7\u00e3o do macaco<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; visibility: hidden;\" title=\"&#8220;A dial\u00e9tica da natureza e do trabalho em Friedrich Engels:  Um debate a partir d\u2019O papel do trabalho na hominiza\u00e7\u00e3o do macaco&#8221; &#8212; Teoria e Revolu\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-dialetica-da-natureza-e-do-trabalho-em-friedrich-engels-um-debate-a-partir-do-papel-do-trabalho-na-hominizacao-do-macaco\/embed\/#?secret=79BBvQXNcO#?secret=Tuy5NLMjVt\" data-secret=\"Tuy5NLMjVt\" width=\"500\" height=\"282\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Primeiramente o trabalho, em seguida e depois com ele a linguagem (Friedrich Engels) \u00c9\u00a0por ter sido faber (artes\u00e3o), que o homem se tornou sapiens (inteligente) (Ki-Zerbo)<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":62709,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[6,49],"tags":[37,6021,7,6022,6023,74],"class_list":["post-62707","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-200-anos-de-engels","category-polemica","tag-200-anos-de-engels","tag-darwin","tag-engels","tag-evolucao","tag-linguagem","tag-wagner-damasceno"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Texto-resposta-Wagner.jpg","categories_names":["200 anos de Engels","Pol\u00eamica"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62707","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62707"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62707\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/62709"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62707"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62707"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62707"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}