{"id":62703,"date":"2020-12-16T17:26:34","date_gmt":"2020-12-16T20:26:34","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=62703"},"modified":"2020-12-16T17:26:34","modified_gmt":"2020-12-16T20:26:34","slug":"apontamentos-sobre-a-questao-evolutiva-e-a-origem-da-linguagem-em-engels","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/12\/16\/apontamentos-sobre-a-questao-evolutiva-e-a-origem-da-linguagem-em-engels\/","title":{"rendered":"Apontamentos sobre a quest\u00e3o evolutiva e a origem da linguagem em Engels"},"content":{"rendered":"<p><em>Em 1876 Engels escreveu\u00a0O papel do trabalho na transforma\u00e7\u00e3o do macaco em homem. O texto foi inclu\u00eddo como ap\u00eandice ao seu\u00a0Dial\u00e9tica da Natureza. O livro, por si s\u00f3, \u00e9 pol\u00eamico e divide opini\u00f5es entre os marxistas, mas n\u00e3o vamos nos deter a isso. Queremos nos deter aqui sobre os apontamentos de Engels sobre a origem da linguagem.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Romerito Pontes (artigo de debate publicado no site Teoria e Revolu\u00e7\u00e3o)*<br \/>\nNo nosso entendimento, Engels se apoia em uma hip\u00f3tese evolutiva que era amplamente aceita em sua \u00e9poca mas que hoje j\u00e1 sabemos ultrapassada. Isso coloca, inegavelmente, um horizonte hist\u00f3rico em seu texto. Sua leitura hoje, descontextualizada, \u00e9 porta de entrada para alguns entendimentos unilaterais sobre a natureza do trabalho que, por sua vez, leva a entendimentos equivocados sobre linguagem. Justamente na contram\u00e3o do que h\u00e1 de mais interessante no texto de Engels: a dial\u00e9tica trabalho-linguagem que, em nossa opini\u00e3o, \u00e9 o que permanece como v\u00e1lido.<br \/>\n<strong>A rela\u00e7\u00e3o com Lamark e a concep\u00e7\u00e3o evolutiva<\/strong><br \/>\nTalvez o ponto mais cr\u00edtico no texto de Engels seja sua evidente leitura lamarkista sobre as transforma\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas que operaram na transforma\u00e7\u00e3o do macaco em homem, o que o empurra a uma determinada concep\u00e7\u00e3o evolutiva j\u00e1 superada.<br \/>\nJean-Baptiste Lamark foi um naturalista franc\u00eas muito influente em sua \u00e9poca. Ele publicou em 1809 sua\u00a0Filosofia zool\u00f3gica\u00a0e em 1815 sua\u00a0Hist\u00f3ria natural dos animais sem v\u00e9rtebras\u00a0(tradu\u00e7\u00e3o livre). Nessas duas obras Lamark desenvolve seus pensamentos acerca da origem das esp\u00e9cies e os meios pelos quais elas se diferenciam. Embora hoje seja mais apropriado se falar em uma teoria da progress\u00e3o de Lamark do que em uma teoria da evolu\u00e7\u00e3o propriamente dita, seu pensamento foi muito influente no s\u00e9culo XIX. Quem reconhece isso \u00e9 o pr\u00f3prio Darwin nas primeiras p\u00e1ginas de seu\u00a0A origem das esp\u00e9cies\u00a0(1859), quando tece coment\u00e1rios elogiosos a Lamark reconhecendo sua import\u00e2ncia como primeira contesta\u00e7\u00e3o s\u00e9ria e cient\u00edfica aos ideais criacionistas. Apesar de acabar superando sua teoria, Darwin nunca escondeu que se apoiou nas teses de Lamark.<br \/>\nE o que diz a teoria da progress\u00e3o de Lamark? O franc\u00eas sustenta que h\u00e1 uma \u201ctend\u00eancia geral de aperfei\u00e7oamento dos seres vivos\u201d ao longo do tempo. Essa tend\u00eancia se materializaria atrav\u00e9s do que ficou conhecido como a\u00a0Lei do uso e desuso. Segundo Lamark, o uso intenso de um \u00f3rg\u00e3o levaria ao seu desenvolvimento e especializa\u00e7\u00e3o sendo o contr\u00e1rio tamb\u00e9m verdadeiro: a falta de uso levaria um \u00f3rg\u00e3o \u00e0 atrofia e consequente desaparecimento. Assim, as condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia impostas por determinado ambiente levariam \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de necessidades que pressionariam os animais \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o e \u00e0 especializa\u00e7\u00e3o pelo maior uso de determinadas fun\u00e7\u00f5es. Como no exemplo cl\u00e1ssico das girafas que alongaram seus pesco\u00e7os para alcan\u00e7ar \u00e1rvores mais altas. O movimento \u00e9 de fora para dentro: o ambiente pressiona os indiv\u00edduos a se adaptarem. As pequenas conquistas dessa especializa\u00e7\u00e3o na vida de um indiv\u00edduo seriam transmitidas aos seus descendentes atrav\u00e9s do que ficou conhecido como a segunda lei de Lamark, a\u00a0Lei da transmiss\u00e3o dos caracteres adquiridos.<br \/>\nApesar de todos seus m\u00e9ritos, hoje sabemos que as leis de Lamark n\u00e3o correspondem muito bem \u00e0 realidade e esse \u00e9 um consenso amplamente aceito. A especializa\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de um \u00f3rg\u00e3o provocada pelo uso repetitivo e h\u00e1bito pode at\u00e9 ser verdade para alguns casos espec\u00edficos como no da hipertrofia dos m\u00fasculos provocada pelos exerc\u00edcios. Mas n\u00e3o o \u00e9 para outras coisas. Por exemplo, no caso os olhos que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se aperfei\u00e7oam como sentem mais rapidamente o desgaste do uso e do envelhecimento, ou ent\u00e3o a perda de l\u00edquido sinovial e o desgaste das articula\u00e7\u00f5es. Tampouco, essas caracter\u00edsticas s\u00e3o transmitidas de forma heredit\u00e1ria. N\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o nenhuma em frequentar academia e ter filhos mais fortes.<br \/>\nLamark estava no caminho certo, mas n\u00e3o tinha como prever que cinquenta anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de seus trabalhos descobrir\u00edamos a exist\u00eancia de uma prote\u00edna respons\u00e1vel pelas fun\u00e7\u00f5es celulares, o DNA (batizado na \u00e9poca de nucle\u00edna). E que a partir disso entender\u00edamos os mecanismos de transmiss\u00e3o de caracteres entre gera\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAlguns dizem que o argumento de que Engels faz uma leitura lamarkista n\u00e3o procede. Entendemos justamente o contr\u00e1rio: \u00e9 gritante essa influ\u00eancia em seu texto. Ora, como dissemos acima, a concep\u00e7\u00e3o de Lamark sobre o progresso das esp\u00e9cies \u00e9 justamente a de que a necessidade cria o \u00f3rg\u00e3o, desenvolvido pelo h\u00e1bito. \u00c9 precisamente esse o argumento usado por Engels em todo o seu texto e que fica expl\u00edcito na seguinte passagem: <strong>\u201cA necessidade criou o \u00f3rg\u00e3o:<\/strong>\u00a0a laringe pouco desenvolvida do macaco foi-se transformando, lenta mas firmemente, mediante modula\u00e7\u00f5es que produziam por sua vez modula\u00e7\u00f5es mais perfeitas\u201d (ENGELS, 2004, grifo nosso). Sobre a m\u00e3o, Engels afirma que<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>era livre e podia agora adquirir cada vez mais destreza e habilidade; e\u00a0<strong>essa maior flexibilidade adquirida transmitia-se por heran\u00e7a e aumentava de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o.<\/strong> Vemos, pois, que\u00a0<strong>a m\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas o \u00f3rg\u00e3o do trabalho; \u00e9 tamb\u00e9m produto dele.<\/strong> <\/em>(ENGELS, 2004, grifo nosso).<\/p>\n<p>Ou ainda, sobre as consequ\u00eancias da alimenta\u00e7\u00e3o sobre as esp\u00e9cies, Engels nos diz que<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Essa \u201cexplora\u00e7\u00e3o rapace\u201d levada a efeito pelos animais desempenha um grande papel na transforma\u00e7\u00e3o gradual das esp\u00e9cies, ao obrig\u00e1-las a adaptar-se a alimentos que n\u00e3o s\u00e3o os habituais para elas,\u00a0<strong>com o que muda a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica de seu sangue e se modifica toda a constitui\u00e7\u00e3o f\u00edsica do animal;<\/strong> as esp\u00e9cies j\u00e1 plasmadas desaparecem (ENGELS, 2004, grifo nosso)<\/em>.<\/p>\n<p>N\u00e3o podem haver afirma\u00e7\u00f5es mais categ\u00f3ricas da influ\u00eancia lamarkista sobre as formula\u00e7\u00f5es de Engels.<br \/>\nApesar de seu texto ser posterior ao descobrimento do DNA, n\u00e3o podemos cobr\u00e1-lo por isso. Engels n\u00e3o era um naturalista e por isso dizemos que h\u00e1 um limite provocado por um horizonte hist\u00f3rico, n\u00e3o um erro propriamente dito. Engels estava em conson\u00e2ncia com as teorias da \u00e9poca mas que, muito rapidamente, foram superadas. Hoje sabemos e \u00e9 demonstr\u00e1vel que, mais importante que a especializa\u00e7\u00e3o que um \u00f3rg\u00e3o pode ter na vida de um indiv\u00edduo, s\u00e3o as pequenas mudan\u00e7as provocadas pela completa aleatoriedade gen\u00e9tica provocada pela reprodu\u00e7\u00e3o. Combinadas com as condi\u00e7\u00f5es ambientais, essas aleatoriedades criam indiv\u00edduos mais adaptados \u2013 o que n\u00e3o significa mais aperfei\u00e7oados como dizia Lamark ou como entende o senso comum. Em outras condi\u00e7\u00f5es, esses mesmo indiv\u00edduos podiam ser extremamente prejudicados. Assim, a tese de Lamark sobre a press\u00e3o externa que cria necessidades pode ser entendida como unilateral. Concomitante \u00e0s condi\u00e7\u00f5es ambientais, temos que considerar a aleatoriedade gen\u00e9tica dos indiv\u00edduos que, juntas, criam o que chamamos de press\u00e3o evolutiva que, por sua vez, nada mais \u00e9 do que a maior reprodu\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos mais adaptados no conjunto da esp\u00e9cie a um determinado contexto.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 o determinismo ambiental, mas a combina\u00e7\u00e3o desses fatores que est\u00e1 no centro do que chamamos de sele\u00e7\u00e3o natural e da evolu\u00e7\u00e3o provocada por ela. E esse componente aleat\u00f3rio \u00e9 justamente o que n\u00e3o consta na formula\u00e7\u00e3o de Engels. E isso \u00e9 o que permite a ele fazer afirma\u00e7\u00f5es de que o trabalho \u2013 enquanto atividade social \u2013 \u00e9 o que cria o humano enquanto organismo biol\u00f3gico, em um sentido unilateral.<br \/>\nN\u00e3o estamos com isso querendo dizer que Engels tinha uma concep\u00e7\u00e3o estreita e determinista. Mas uma leitura desatenta e pouco contextualizada pode levar \u00e0 confus\u00f5es. O trabalho, enquanto atividade social, cria sim o sujeito social. E o trabalho, enquanto atividade f\u00edsica, pode sim moldar o corpo biol\u00f3gico. Mas saltar da pr\u00e1xis para a evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies n\u00e3o parece apropriado diante de tudo o que j\u00e1 desenvolvemos em termos de compreens\u00e3o evolutiva. Sem essa contextualiza\u00e7\u00e3o, o texto de Engels pode ser uma armadilha.<br \/>\n<strong>Precedentes morfol\u00f3gicos na transforma\u00e7\u00e3o do macaco em homem<\/strong><br \/>\nO que estamos dizendo \u00e9 que determinada atividade pode ter rela\u00e7\u00e3o com mudan\u00e7as f\u00edsicas a n\u00edvel de indiv\u00edduo, mas n\u00e3o a n\u00edvel de esp\u00e9cie. Sabemos hoje que essas \u00faltimas se d\u00e3o pela aleatoriedade gen\u00e9tica e pelas vantagens geradas por elas combinadas com as condi\u00e7\u00f5es ambientais. Em outras palavras, o trabalho n\u00e3o opera mudan\u00e7as em nossa esp\u00e9cie diretamente, mas sim, indiretamente, tornando-nos mais adapt\u00e1veis para as mais diversas situa\u00e7\u00f5es. E se as atividades n\u00e3o implicam na mudan\u00e7a direta da esp\u00e9cie, isso significa que toda a pot\u00eancia humana liberada pelo trabalho se deu em um animal cuja a natureza biol\u00f3gica, morfol\u00f3gica, j\u00e1 existia como condi\u00e7\u00e3o para isso. Ou seja, primeiro vieram as condi\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas. N\u00e3o \u00e9 por desenvolver o trabalho que o macaco pode assumir determinada constitui\u00e7\u00e3o, mas foi por ter determinada constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 que o macaco pode desenvolver o trabalho.<br \/>\nE que constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 essa?<br \/>\nA primeira grande mudan\u00e7a morfol\u00f3gica significativa na passagem do macaco ao homem foi, sem d\u00favida, o bipedismo. Andar em p\u00e9 foi uma revolu\u00e7\u00e3o operada, muito provavelmente, pelo Autralopithecus afarensis cerca de 3,7 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, segundo a pegada-evid\u00eancia achada em 1976 no s\u00edtio arqueol\u00f3gico de Laetoli, na Tanz\u00e2nia. A estimativa coloca o bipedismo a algumas centenas de milhares de anos antes das primeiras ferramentas. A capacidade de andar em p\u00e9, muito provavelmente e segundo a chamada \u201chip\u00f3tese da savana\u201d, beneficiou os indiv\u00edduos mais aptos a isso em uma situa\u00e7\u00e3o de escassez em que eram obrigados a descer ao ch\u00e3o e caminhar at\u00e9 outras \u00e1rvores. E junto com o bipedismo vieram outras mudan\u00e7as.<br \/>\nA mais evidente \u00e9 a libera\u00e7\u00e3o das m\u00e3os que, deixando de serem usadas exclusivamente para trepar em galhos puderam ser usadas para outros fins. Sobre esse aspecto, Engels (2004, s\/p) afirma que \u201c\u00e9 grande a dist\u00e2ncia que separa a m\u00e3o primitiva dos macacos, inclusive os antrop\u00f3ides mais superiores, da m\u00e3o do homem, aperfei\u00e7oada pelo trabalho durante centenas de milhares de anos\u201d. Al\u00e9m da j\u00e1 afastada quest\u00e3o do h\u00e1bito como motor de mudan\u00e7as na esp\u00e9cie, estudos recente n\u00e3o confirmam que a m\u00e3o do homem \u00e9 mais moderna que a dos macacos superiores. Pelo contr\u00e1rio. Um estudo publicado pelo Centro de Paleobiologia Humana da Universidade de Washington demonstra que nossa m\u00e3o atual tem praticamente a mesma constitui\u00e7\u00e3o da m\u00e3o dos homin\u00eddeos que desenvolveram as primeiras ferramentas h\u00e1 3 milh\u00f5es de anos. Ou seja, a sele\u00e7\u00e3o natural continuou operando nas m\u00e3os dos macacos modernos, especializando-as em trepar em galhos. N\u00e3o foi a nossa que se especializou, foi a deles. Entre a m\u00e3o humana e a m\u00e3o de um bonobo (nossos primos mais pr\u00f3ximos atualmente), a nossa m\u00e3o est\u00e1 mais pr\u00f3xima da m\u00e3o de nosso ancestral comum. Ou seja, a m\u00e3o humana \u00e9 \u201cmais primitiva\u201d nesse sentido.<br \/>\nUma segunda vantagem do bipedismo \u00e9 o encurtamento da gesta\u00e7\u00e3o. Andar em p\u00e9 dificultou a gesta\u00e7\u00e3o e criou restri\u00e7\u00f5es na passagem do beb\u00ea pelo canal vaginal. Isso nos obrigou a parir mais cedo, quando o beb\u00ea \u00e9 ainda menor. O ser humano \u00e9, dentre os animais, o que termina a gesta\u00e7\u00e3o com um menor grau de desenvolvimento. Ao contr\u00e1rio de outros animais que nascem andando e prontos para comer, o ser humano vem \u00e0 vida completamente dependente de seus pares a ponto de que, se deixado sozinho, morrer\u00e1 com certeza. Isso pode parecer em um primeiro momento como uma desvantagem, mas esse parto precoce \u00e9 o que permite que nossas crian\u00e7as terminem o desenvolvimento e matura\u00e7\u00e3o encef\u00e1lica j\u00e1 inseridas no ambiente social. Do ponto de vista da assimila\u00e7\u00e3o da cultura, \u00e9 uma grande vantagem.<br \/>\nAinda sobre o enc\u00e9falo, que em n\u00f3s tem um alto grau de plasticidade, o bipedismo mudou a estrutura \u00f3ssea do cr\u00e2nio. A posi\u00e7\u00e3o ereta veio acompanhada de novos dobramentos e mudan\u00e7as de posi\u00e7\u00e3o do osso esfen\u00f3ide, que conecta o cr\u00e2nio \u00e0 coluna. Com a mudan\u00e7a da posi\u00e7\u00e3o, a coluna vai se descolando da regi\u00e3o occipital para mais pr\u00f3xima da mand\u00edbula. Essa mudan\u00e7a est\u00e1 diretamente ligada ao aumento do volume encef\u00e1lico deixado pela regi\u00e3o que antes era \u201cpressionada\u201d pela coluna. Nosso volume encef\u00e1lico dobrou em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro primata a andar em p\u00e9.<br \/>\nPor fim, o bipedismo est\u00e1 ligado diretamente \u00e0 nossa capacidade de fala e de vocaliza\u00e7\u00e3o. Nossa capacidade de voca\u00e7\u00e3o se d\u00e1, principalmente, pela posi\u00e7\u00e3o de nossa laringe, muito mais baixa em n\u00f3s do que em outros primatas. Isso se deu, sobretudo, pela mudan\u00e7as morfol\u00f3gicas operadas pelo bipedismo. Quer dizer, nossa posi\u00e7\u00e3o ereta acabou por afastar a laringe do cr\u00e2nio o que permitiu voca\u00e7\u00f5es mais precisas. E aqui discordamos novamente de Engels com sua afirma\u00e7\u00e3o sobre o desenvolvimento da laringe. Temos em nosso pesco\u00e7o um osso chamado hi\u00f3ide que \u00e9 onde se prende a base da musculatura da l\u00edngua. A descoberta de f\u00f3sseis com o hi\u00f3ide preservado nos permite calcular, pela seu formato e sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 coluna e \u00e0 base do cr\u00e2nio, o tamanho da laringe e fazer uma reconstitui\u00e7\u00e3o do trato vocal. \u00c9 a partir disso que alguns pesquisadores hoje afirmam que outros homin\u00eddeos eram perfeitamente capazes, em termos morfol\u00f3gicos, de vocalizar tantas palavras quanto n\u00f3s. Ou pelo mesmo algo bem pr\u00f3ximo disso.<br \/>\nIsso tudo algumas centenas de milhares de anos antes das primeiras evid\u00eancias que temos das primeiras ferramentas do paleol\u00edtico inferior. Ou seja, al\u00e9m da j\u00e1 demonstrada a\u00e7\u00e3o da aleatoriedade gen\u00e9tica na evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies, todas as evid\u00eancias que temos hoje apontam para o fato de que a constitui\u00e7\u00e3o morfol\u00f3gica do homem j\u00e1 estava dada em sua grande parte antes do aparecimento das primeiras ferramentas.<br \/>\n<strong>Trabalho, aspectos sociais e comunica\u00e7\u00e3o nos animais<\/strong><br \/>\nPrecisamos notar ainda que aspectos centrais do que entendemos como trabalho existem em formas embrion\u00e1rias nos animais. Por exemplo, o uso de ferramentas n\u00e3o \u00e9 exclusividade do Homo sapiens. Outros g\u00eaneros de macacos s\u00e3o perfeitamente capazes de usarem paus e pedras como armas de combate ou mesmo construir abrigos, como o pr\u00f3prio Engels coloca em seu texto. Gostar\u00edamos de pontuar, contudo, que o uso de ferramentas extrapola inclusive os primatas. Elefantes s\u00e3o capazes de manejar ferramentas com suas trombas e corvos s\u00e3o ex\u00edmios no uso de ferramentas e mesmo no uso de objetos para recrea\u00e7\u00e3o. Ou mesmo golfinhos, capazes de proteger seus narizes com esponjas marinhas para evitar esfolia\u00e7\u00f5es ao revirar o fundo do mar. Ou seja, o uso de ferramentas independe da disponibilidade de m\u00e3os livres.<br \/>\nMesmo a capacidade de comunicar j\u00e1 existe de maneira sofisticada em outros animais, mesmo que sem a palavra articulada. Enquanto algumas aves apresentam canto inato como no caso dos bem-te-vis (todos cantam mais ou menos da mesma maneira em toda a regi\u00e3o geogr\u00e1fica por onde se espalha a esp\u00e9cie), em uma parcela significativa das aves o canto \u00e9 aprendido por imita\u00e7\u00e3o, como no caso dos sabi\u00e1s, o que d\u00e1 a ele uma varia\u00e7\u00e3o regional. Um sotaque, por assim dizer. Levando em conta que aves t\u00eam voca\u00e7\u00f5es para alerta, marca\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio e cantos nupciais, \u00e9 de se considerar que a capacidade de comunica\u00e7\u00e3o entre elas \u00e9 bem desenvolvida. Estudos recentes come\u00e7am a apontar certa correla\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica entre a comunica\u00e7\u00e3o das aves e a fala humana. Golfinhos tamb\u00e9m tem alta capacidade de comunica\u00e7\u00e3o e hoje sabemos que eles s\u00e3o capazes de atribuir assobios espec\u00edficos para indiv\u00edduos, algo que funciona como um nome. Ou ent\u00e3o os elefantes, capazes de expressar sentimentos e, al\u00e9m de sons, usar gestos e posi\u00e7\u00f5es da tromba para se comunicarem.<br \/>\nPor fim, o h\u00e1bito greg\u00e1rio e a constitui\u00e7\u00e3o de grupos entre os animais \u00e9 amplamente conhecido. Desde os inseto e suas formas r\u00edgidas de sociedade, passando por uma vasta gama de mam\u00edferos com fun\u00e7\u00f5es sociais estabelecidas, at\u00e9 os primatas com suas regras sociais e complexas, envolvendo trai\u00e7\u00e3o e disputa de poder.<br \/>\nUsos de ferramentas, grupos sociais com distribui\u00e7\u00e3o de tarefas, capacidade complexa de comunica\u00e7\u00e3o. Nada disso \u00e9 exclusividade do ser humano. Encontramos isso j\u00e1 da natureza selvagem. \u00c9 verdade que em nenhuma esp\u00e9cie encontramos tudo junto e ao mesmo tempo bem desenvolvido. Mas fato \u00e9 que n\u00e3o podemos colocar a origem de nenhuma dessas caracter\u00edsticas na execu\u00e7\u00e3o de trabalho.<br \/>\n<strong>Imprecis\u00e3o na ideia de trabalho<\/strong><br \/>\nAt\u00e9 aqui, tentamos mostrar que todos os apontamentos biol\u00f3gicos ou morfol\u00f3gicos de que fala Engels n\u00e3o correspondem ao que hoje entendemos em termos evolutivos, e que isso est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 influ\u00eancia lamarkista de sua elabora\u00e7\u00e3o, uma teoria j\u00e1 superada. E que, portanto, n\u00e3o podem ser atribu\u00eddas ao trabalho.<br \/>\nUm segundo aspecto no texto de Engels que merece aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que essa leitura lamarkista leva Engels a um uso do conceito de trabalho que, pela tem\u00e1tica, exigiria uma defini\u00e7\u00e3o muito mais precisa. Talvez porque esse n\u00e3o fosse o foco, talvez por se tratar de um texto corriqueiro, digamos assim. Pouco importa para a quest\u00e3o. No debate geral do marxismo, a simples distin\u00e7\u00e3o entre o\u00a0trabalho instintivo\u00a0(Marx, 2013) dos animais e o\u00a0trabalho planejado\u00a0dos homens basta.<br \/>\nNa c\u00e9lebre passagem do cap\u00edtulo 5 do primeiro livro d\u2019O Capital\u00a0Marx diz que<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Pressupomos o trabalho numa forma em que ele diz respeito unicamente ao homem. (\u2026) o que desde o in\u00edcio distingue o pior arquiteto da melhor abelha \u00e9 o fato de que o primeiro tem a colmeia em sua mente antes de constru\u00ed-la com a cera. No final do processo de trabalho, chega-se a um resultado que j\u00e1 estava presente na representa\u00e7\u00e3o do trabalhador no in\u00edcio do processo, portanto, um resultado que j\u00e1 existia idealmente. (\u2026) Al\u00e9m do esfor\u00e7o dos \u00f3rg\u00e3os que trabalham, a atividade laboral exige a vontade orientada a um fim, que se manifesta como aten\u00e7\u00e3o do trabalhador durante a realiza\u00e7\u00e3o de sua tarefa (MARX, 2013, pp. 255-256).<\/em><\/p>\n<p>Ou seja, a distin\u00e7\u00e3o entre o trabalho instintivo dos animais e o trabalho humano est\u00e1, justamente, no seu aspecto teleol\u00f3gico, quer dizer, na sua intencionalidade e no seu planejamento pr\u00e9vio e representa\u00e7\u00e3o mental. Ora, nesse sentido, o trabalho de que fala Marx em\u00a0O capital, esse trabalho em forma \u00fanica que caracteriza o homem, pressup\u00f5e a capacidade de racioc\u00ednio que, por sua vez, pressup\u00f5e a linguagem articulada. A \u201crepresenta\u00e7\u00e3o\u201d nada mais \u00e9 do que o racioc\u00ednio baseado em conceitos. Isso tudo basta na diferencia\u00e7\u00e3o quando tratamos de temas relativos \u00e0 economia pol\u00edtica.<br \/>\nContudo, quando o debate passa da economia pol\u00edtica para as quest\u00f5es evolutivas, mais propriamente da transforma\u00e7\u00e3o do macaco em homem, a linha divis\u00f3ria entre trabalho instintivo e trabalho planejado torna-se um borr\u00e3o de algumas dezenas ou centenas de milhares de anos e a precis\u00e3o com que usamos o conceito de trabalho torna-se um imperativo. As coisas s\u00e3o \u00f3bvias e n\u00edtidas apenas nos extremos. No longo percurso que liga uma ponta \u00e0 outra h\u00e1 uma infinitude de nuances.<br \/>\nNesse sentido, quando Engels (2004, s\/p) afirma que \u201corigem da linguagem a partir do trabalho e pelo trabalho \u00e9 a \u00fanica acertada\u201d, dever\u00edamos nos perguntar: de que trabalho fala Engels? Do trabalho instintivo ou do trabalho humano? O mais apropriado seria considerar o trabalho instintivo, que pode preceder a linguagem articulada, embora ele mesmo n\u00e3o entre no m\u00e9rito da defini\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que essa considera\u00e7\u00e3o, colocando as coisas como uma simples rela\u00e7\u00e3o de causa efeito entre o uso de ferramentas e o desenvolvimento de linguagem, nos coloca a contradi\u00e7\u00e3o de afirmar que o trabalho instintivo, do mesmo g\u00eanero que existe em outras esp\u00e9cies animais como as abelhas, \u00e9 que transformou o macaco em homem e originou a linguagem. Continua sem explica\u00e7\u00e3o a passagem do trabalho instintivo ao trabalho planejado.<br \/>\nAinda, se consider\u00e1ssemos o trabalho de que fala Marx, estar\u00edamos explicando a coisa pela pr\u00f3pria coisa. Uma atividade que exige racioc\u00ednio e linguagem articulada n\u00e3o pode ser a origem da linguagem articulada. Al\u00e9m disso, o trabalho mesmo enquanto atividade social pressup\u00f5e a exist\u00eancia de uma sociedade pr\u00e9via que, por sua vez, pressup\u00f5e formas elementares de comunica\u00e7\u00e3o (como j\u00e1 existem nos animais, como j\u00e1 dissemos). N\u00e3o \u00e0 toa no mito b\u00edblico sobre a origem das l\u00ednguas \u2013 a Torre de Babel \u2013 o Deus do antigo testamento impede, justamente, a comunica\u00e7\u00e3o entre os homens. Isso \u00e9 suficiente para impedir a realiza\u00e7\u00e3o do trabalho audacioso de se alcan\u00e7ar os c\u00e9us. N\u00e3o h\u00e1 trabalho sem comunica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTampouco a origem da linguagem pode ser explicada por \u201cuma necessidade criada pelo trabalho\u201d, uma vez que a pr\u00f3pria ideia de necessidade implica em algum grau de considera\u00e7\u00e3o \u2013 leia-se, racioc\u00ednio \u2013 a respeito disso. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar em necessidade biol\u00f3gica da linguagem articulada. Diferentemente da fome, bem concreta e assentada em uma firme natureza fisiol\u00f3gica, n\u00e3o existe correspondente intelectual para necessidade de c\u00f3digos lingu\u00edsticos. Nada at\u00e9 hoje nos indica algo nesse sentido.<br \/>\n<strong>Correla\u00e7\u00e3o entre trabalho e linguagem<\/strong><br \/>\nEssa frase de Engels sobre a origem da linguagem \u00e9 fonte de grande confus\u00e3o. Primeiro, pelas incorre\u00e7\u00f5es da teoria evolutiva das quais Engels n\u00e3o tinha como se esquivar. Suas afirma\u00e7\u00f5es sobre processos biol\u00f3gicos s\u00e3o, hoje, equivocadas. Mas se o problema fosse apenas esse seria tudo muito simples de se resolver com uma simples contextualiza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOutra confus\u00e3o enorme \u00e9 que Engels fala em desenvolvimento da linguagem a partir e pelo trabalho, o que coloca o trabalho como origem mas em uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica de determina\u00e7\u00e3o e desenvolvimento m\u00fatuo com a linguagem. A leitura desatenta disso tem levado muitas pessoas a afirmarem que, segundo Engels, \u201co trabalho \u00e9 a origem da linguagem\u201d. Mesmo que assim o fosse, se em algum momento o gesto precedeu o pensamento, a vantagem decorrente disso em est\u00e1gios primordiais \u00e9 t\u00e3o insignificante em uma escala temporal gigantesca que n\u00e3o faz o menor sentido falar em uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito entre um e outro. Estamos falando de um processo lento e que se arrasta por dezenas ou centenas de milhares de anos. Nesse sentido, nos parece mais apropriado afirmar que trabalho e linguagem se desenvolvem juntos. Ou melhor \u2013 tratando-se do trabalho enquanto atividade humana, que nos caracteriza enquanto humanidade \u2013 entendemos que trabalho humano e linguagem s\u00e3o, em ess\u00eancia, o mesmo processo, mas operados em inst\u00e2ncias diferentes.<br \/>\nVejamos o que no j\u00e1 referido cap\u00edtulo de\u00a0O Capital\u00a0Marx afirma sobre o trabalho. \u201cO trabalho \u00e9, antes de tudo, um processo entre o homem e a natureza, processo este em que o homem, por sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o,\u00a0medeia, regula e controla seu metabolismo com a natureza\u201d (Marx, 2013, p. 255. Grifo nosso). Destacamos aqui a dimens\u00e3o mediata dessa atividade. Ao contr\u00e1rio de um animal selvagem que rasga a presa com seus dentes ou mesmo um jo\u00e3o-de-barro que no seu trabalho instintivo constr\u00f3i um abrigo usando apenas o barro e seu bico, o trabalho humano n\u00e3o opera de forma imediata sobre a mat\u00e9ria e a natureza. Do machado de pedra lascada \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o do avi\u00e3o, o trabalho humano exige instrumentos de media\u00e7\u00e3o. E em seu desenvolvimento esse tipo particular de trabalho vai exigindo cada vez mais media\u00e7\u00f5es entre os que executam um trabalho e a mat\u00e9ria. Nossa rela\u00e7\u00e3o com a natureza, com a mat\u00e9ria, \u00e9, portanto, mediada por ferramentas, por instrumentos de media\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO mesmo processo que aplicamos \u00e0 mat\u00e9ria f\u00edsica, aplicamos \u00e0 n\u00edvel de pensamento, em n\u00edvel simb\u00f3lico. A experi\u00eancia dos animais com o mundo de se d\u00e1 de maneira\u00a0imediata. Quer dizer, os animais experimentam o mundo \u00fanica e exclusivamente pelos seus \u00f3rg\u00e3os sensoriais. Para saber que gosto tem, \u00e9 preciso experimentar. Para saber a textura, \u00e9 preciso tocar. Assim \u00e9 com os animais e por isso (e por muitos outros motivos) s\u00e3o incapazes de acumular experi\u00eancias hist\u00f3ricas. O ser humano, ao contr\u00e1rio, faz sua experi\u00eancia com o mundo de maneira mediata tamb\u00e9m a n\u00edvel intelectual. Al\u00e9m de experimentar o mundo pelos \u00f3rg\u00e3os dos sentidos \u2013 tamb\u00e9m sentimos gostos, ouvimos sons, enxergamos cores etc. \u2013 conhecemos o mundo pelos instrumentos de media\u00e7\u00e3o, ferramentas mentais de racioc\u00ednio. E que ferramentas s\u00e3o essas? S\u00e3o justamente os s\u00edmbolos, a palavra articulada, a base da linguagem e do racioc\u00ednio l\u00f3gico. Tal como nas ferramentas de interven\u00e7\u00e3o na mat\u00e9ria, o desenvolvimento do trabalho exige cada vez mais ferramentas de media\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica com a realidade. O desenvolvimento do trabalho exige tamb\u00e9m conceitos e abstra\u00e7\u00f5es mais complexas e em maior quantidade. \u00c9 exatamente o que fala Lenin em seus Cadernos sobre a dial\u00e9tica de Hegel. \u201cO conhecimento \u00e9 o reflexo da natureza pelo homem. Mas n\u00e3o \u00e9 um reflexo simples, imediato, total; este processo consiste em toda uma s\u00e9rie de abstra\u00e7\u00f5es, de formula\u00e7\u00f5es, de forma\u00e7\u00e3o de conceitos, leis etc.\u201d (Lenin, 2011, p.159).<br \/>\nNosso conhecimento do mundo n\u00e3o \u00e9 reflexo\u00a0imediato, mas sim,\u00a0mediato. \u00c0s ferramentas de media\u00e7\u00e3o com a mat\u00e9ria concreta correspondem \u00e0s ferramentas de media\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica a n\u00edvel intelectual. Por isso afirmamos que trabalho e linguagem correspondem, um ao outro, em planos diferentes. S\u00e3o duas faces do mesmo processo de media\u00e7\u00e3o da realidade.<br \/>\nE isso nos deu uma conquista evolutiva muito grande na medida em que conseguimos, via media\u00e7\u00e3o, compartilhar experi\u00eancias. N\u00e3o \u00e9 preciso que toda a humanidade queime o dedo em uma vela para saber que o fogo queima. Basta um indiv\u00edduo fazer a experi\u00eancia e socializ\u00e1-la atrav\u00e9s das ferramentas de media\u00e7\u00e3o. Isso acelera em muito a experi\u00eancia social e, sem d\u00favidas, salva vidas. Some-se a isso o fato da matura\u00e7\u00e3o encef\u00e1lica de nossos filhotes se completar em um contexto j\u00e1 de cultura e temos uma acelera\u00e7\u00e3o imensa no aprendizado em rela\u00e7\u00e3o aos outros animais.<br \/>\nHavendo media\u00e7\u00e3o tanto \u00e0 n\u00edvel da mat\u00e9ria quanto a n\u00edvel do intelecto, est\u00e3o colocadas as condi\u00e7\u00f5es objetivas para a completa revolu\u00e7\u00e3o do macaco em homem. Ferramentas n\u00e3o precisam mais ser reinventadas a cada gera\u00e7\u00e3o ou copiadas por mimese. Est\u00e1 posta a reprodu\u00e7\u00e3o por aprendizado: leia-se, a experi\u00eancia mediata. \u00c9 essa combina\u00e7\u00e3o entre o\u00a0software\u00a0(media\u00e7\u00e3o da realidade) com o\u00a0hardware\u00a0(aspectos morfol\u00f3gicos da esp\u00e9cie) que v\u00e3o permitir o homem chegar onde chegou.<br \/>\nBasta reparar que, quando pensamos, nada mais fazemos do que um di\u00e1logo internalizado baseado em nossa l\u00edngua materna. Um brasileiro pensa em portugu\u00eas, assim como um alem\u00e3o pensa em alem\u00e3o e um ingl\u00eas pensa em ingl\u00eas. Isso demonstra que os s\u00edmbolos, os c\u00f3digos lingu\u00edsticos, s\u00e3o a ferramenta do racioc\u00ednio por excel\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 racioc\u00ednio l\u00f3gico sem o uso da ferramenta linguagem. O fato j\u00e1 foi amplamente discutido por Vigostky em seu\u00a0Pensamento e Linguagem.<br \/>\nSe o trabalho \u00e9 atividade teleol\u00f3gica, se existe intencionalidade no trabalho, isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel pelo racioc\u00ednio. O racioc\u00ednio, por sua vez, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel mediado pela ferramenta da linguagem. Assim, n\u00e3o se pode falar em trabalho, enquanto atividade humana, enquanto pr\u00e1xis, sem se considerar a linguagem. O trabalho pressup\u00f5e a linguagem e n\u00e3o h\u00e1 trabalho sem linguagem. No borr\u00e3o milenar que separa o trabalho instintivo, comum a um grande n\u00famero de animais, e o trabalho teleol\u00f3gico, caracter\u00edsticos dos humanos, est\u00e1 a origem da linguagem. \u00c9 ela que muda o car\u00e1ter qualitativo desses media\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPor tudo que dissemos, n\u00e3o h\u00e1 por que falar em cria\u00e7\u00e3o da linguagem a partir do trabalho. Trabalho e linguagem s\u00e3o processos de media\u00e7\u00e3o correlatos, n\u00e3o causa e consequ\u00eancia. Ao desenvolvimento de um corresponde o desenvolvimento de outro. Um n\u00e3o existe sem o outro e \u00e9 a dial\u00e9tica entre eles que fez o homem brotar do macaco, juntamente com os fatores biol\u00f3gicos e as condi\u00e7\u00f5es ambientais.<br \/>\n<strong>A busca pela origem<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 dissemos que na forma\u00e7\u00e3o e diferencia\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies fator determinante \u00e9 a aleatoriedade gen\u00e9tica provocada pela reprodu\u00e7\u00e3o. Dissemos tamb\u00e9m que todos os elementos biol\u00f3gicos e comportamentais que constituem o que chamamos de trabalho j\u00e1 est\u00e3o presentes em outras esp\u00e9cies do reino animal. Tamb\u00e9m argumentamos que linguagem e trabalho s\u00e3o correspondentes da atividade humana em planos diferentes, que \u00e0 ferramenta f\u00edsica corresponde a ferramenta simb\u00f3lica na media\u00e7\u00e3o intelectual do sujeito com o mundo. E que por tudo isso \u00e9 simpl\u00f3rio, de maneira descontextualizada e antidial\u00e9tica, simplesmente afirmar unilateralmente que o trabalho criou a linguagem. Essas confus\u00f5es podem acontecer em uma leitura desatenta do texto de Engels.<br \/>\nResta ainda perguntar: se n\u00e3o por equ\u00edvoco ou desaten\u00e7\u00e3o, qual a raz\u00e3o em se apontar uma causa unilateral nesse processo? A quem interessa a busca pela origem em seu momento exato?<br \/>\nA busca pela genealogia, a afirma\u00e7\u00e3o da exatid\u00e3o da origem interessa mais aos metaf\u00edsicos do que aos marxistas. Mais \u00e0queles que buscam o estado de pureza anterior \u00e0 ca\u00edda do para\u00edso que os que tentam entender o processo hist\u00f3rico. Interessa \u00e0queles que querem instituir um ponto de partida para afirma\u00e7\u00e3o de um discurso da verdade, sem se preocupar com a correspond\u00eancia dos fatos<br \/>\nColocar o trabalho unilateralmente como fonte de tudo, inclusive da evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie e mesmo desprezando a complexidade da din\u00e2mica social, \u00e9 coloc\u00e1-lo como fonte inesgot\u00e1vel de man\u00e1, alimento miraculoso dado por Deus a seu povo no deserto. De maneira tosca, \u00e9 reafirmar uma certa \u201contologia do ser\u201d baseada em um entendimento materialista vulgar do que seja o trabalho. Vulgar porque al\u00e9m de estreito reduz o trabalho de atividade social a mera atividade f\u00edsica do indiv\u00edduo.<br \/>\nDeixamos claro: Engels n\u00e3o tem nada a ver com isso. Mas os limites hist\u00f3ricos de seu texto combinado com um marxismo catequista e n\u00e3o cr\u00edtico levam \u00e0 leituras tacanhas e perigosas de sua obra. Engels escreveu esse texto como ap\u00eandice de seu livro Dial\u00e9tica da natureza. Era uma defesa ampla da dial\u00e9tica, por mais pol\u00eamico que seja. Afirma\u00e7\u00f5es mec\u00e2nicas, unilaterais e deterministas n\u00e3o tem nada a ver com isso, s\u00e3o estranhas ao marxismo.<br \/>\nEnfim. Criticamos a ideia de que \u201co trabalho criou a linguagem\u201d n\u00e3o porque propomos a invers\u00e3o do bin\u00f4mio ou porque queremos propor outra data nessa genealogia. Criticamos pela natureza antidial\u00e9tica de sua conclus\u00e3o. A data exata da origem do trabalho como caracter\u00edstica da atividade humana e da linguagem articulada, fundamento do racioc\u00ednio l\u00f3gico, seguem indefinidas sem que com isso haja algum preju\u00edzo para nosso entendimento da realidade. O trabalho, tal qual entende o marxismo, pressup\u00f5e a linguagem, pressup\u00f5e alguma forma de comunica\u00e7\u00e3o social. N\u00e3o pode, por si s\u00f3, explicar a g\u00eanese de si mesmo. E se Engels, porventura de um horizonte hist\u00f3rico tenha se apoiado em teses paleobiol\u00f3gicas e evolutivas que hoje passaram da data de validade, seu apontamento sobre a dial\u00e9tica trabalho-linguagem continua mais v\u00e1lida do que nunca.<br \/>\nBibliografia:<br \/>\nENGELS, Friedrich. O papel do trabalho na transforma\u00e7\u00e3o do macaco em homem.<br \/>\nLENIN, Vladmir. Cadernos sobre a dial\u00e9tica de Hegel. Editora UFRJ: Rio de Janeiro, 2011. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.afoiceeomartelo.com.br\/posfsa\/Autores\/Lenin,%20Vladimir%20Ilyich\/Cadernos%20sobre%20a%20dial%C3%A9tica%20de%20Hegel.pdf&gt;<br \/>\nMARX, Karl. O capital. Livro I. Boitempo: S\u00e3o Paulo, 2013.<br \/>\nVIGOTSKY, Lev Semenovich. Pensamento e linguagem. 2011. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/vygotsky\/ano\/pensamento\/index.htm&gt;<br \/>\n* artigo publicado originalmente em:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"VaiKeJc7YO\"><p><a href=\"http:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/apontamentos-sobre-a-questao-evolutiva-e-a-origem-da-linguagem-em-engels\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Apontamentos sobre a quest\u00e3o evolutiva e a origem da linguagem em Engels<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; visibility: hidden;\" title=\"&#8220;Apontamentos sobre a quest\u00e3o evolutiva e a origem da linguagem em Engels&#8221; &#8212; Teoria e Revolu\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/apontamentos-sobre-a-questao-evolutiva-e-a-origem-da-linguagem-em-engels\/embed\/#?secret=0sOyGzJC0e#?secret=VaiKeJc7YO\" data-secret=\"VaiKeJc7YO\" width=\"500\" height=\"282\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1876 Engels escreveu\u00a0O papel do trabalho na transforma\u00e7\u00e3o do macaco em homem. 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