{"id":62649,"date":"2020-12-08T15:52:15","date_gmt":"2020-12-08T18:52:15","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=62649"},"modified":"2020-12-08T15:52:15","modified_gmt":"2020-12-08T18:52:15","slug":"62649-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/12\/08\/62649-2\/","title":{"rendered":"Sud\u00e3o&#124; A luta das mulheres em uma revolu\u00e7\u00e3o inacabada"},"content":{"rendered":"<p><em>Em 2019 correu o mundo, atrav\u00e9s das redes sociais, a foto de uma jovem mulher sudanesa, usando um thoub<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> branco e brincos em formato de disco de cor dourada<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, falando do teto de um carro para centenas de pessoas que atentamente a escutavam.<\/em><br \/>\n<em>Na foto em destaque podemos ver ent\u00e3o, Alaa Salah, uma estudante de apenas 22 anos.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Ashura Nassor<br \/>\nEsta imagem acima \u00e9 uma cena singular na hist\u00f3ria de um pa\u00eds como o Sud\u00e3o, dominado por governos que usam a base religiosa do Isl\u00e3 para o controle pol\u00edtico-ideol\u00f3gico e empregam uma legisla\u00e7\u00e3o extremamente repressiva contra as mulheres. E por isso, a imagem \u00e9 duplamente fant\u00e1stica, primeiro pelo pr\u00f3prio processo revolucion\u00e1rio, e segundo porque o setor mais oprimido socialmente cumpriu um papel de destaque.<br \/>\nDito isso, algu\u00e9m poderia ent\u00e3o questionar \u201ccomo uma jovem mulher, num pa\u00eds como o Sud\u00e3o, ocupou o centro da aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica, ou seja, um lugar em que s\u00e3o socialmente exclu\u00eddas?\u201d; ou ainda \u201cpor que a mulher ocupou este espa\u00e7o?\u201d. V\u00e1rias quest\u00f5es tamb\u00e9m nos ocorrem e muitas delas precisamos analisar melhor para respond\u00ea-las. No entanto, com o intuito de tentar responder algumas quest\u00f5es \u00e9 necess\u00e1ria a compreens\u00e3o de como e porque se deu a revolu\u00e7\u00e3o sudanesa e nela a participa\u00e7\u00e3o das mulheres.<br \/>\n<strong>A import\u00e2ncia da terra para os sudaneses<\/strong><br \/>\nOs povos que habitam o Sud\u00e3o s\u00e3o os primeiros que compuseram a hist\u00f3ria humanidade, aqueles que constru\u00edram as pir\u00e2mides, muitos escravizados pelos eg\u00edpcios na Idade Antiga. Depois foram colonizados pelos \u00e1rabes. A partir do s\u00e9culo XIX, s\u00e3o colonizados pela Inglaterra e posteriormente pelo Egito junto com a Inglaterra. Em 1956, conquistam a independ\u00eancia pol\u00edtica sem romper com as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas imperialistas.<br \/>\nA Rep\u00fablica do Sud\u00e3o \u00e9 um lugar estrat\u00e9gico pelos recursos naturais e localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. Est\u00e1 localizado ao nordeste da \u00c1frica, faz fronteira com o Mar Vermelho, Egito, a Eritr\u00e9ia, Rep\u00fablica Central Africana, L\u00edbia e o Sud\u00e3o do Sul<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Possui uma diversidade de recursos naturais como o petr\u00f3leo e reservas de min\u00e9rio de ferro, cobre, cromo, zinco, tungst\u00eanio, mica, prata e ouro. O rio Nilo \u00e9 a principal fonte de \u00e1gua do Sud\u00e3o e de outros pa\u00edses, servindo tamb\u00e9m como importante meio de comunica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO pa\u00eds possui uma popula\u00e7\u00e3o de mais 45 milh\u00f5es de habitantes de diferentes grupos \u00e9tnicos locais e imigrantes de origem \u00e1rabe<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Existem centenas de l\u00ednguas faladas no pa\u00eds<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> como nubian, ta bedawie e fur, dentre outras, por\u00e9m apenas duas oficiais impostas pela coloniza\u00e7\u00e3o, o \u00e1rabe e o ingl\u00eas. A maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 de religi\u00e3o mu\u00e7ulmana sunita e uma pequena minoria crist\u00e3.<br \/>\nA maior parte da popula\u00e7\u00e3o vive na zona rural, e apenas 35% da popula\u00e7\u00e3o vive em \u00e1reas urbanas. Sendo que a popula\u00e7\u00e3o rural, hoje majoritariamente, forma a classe trabalhadora sem terras, muitos deles antigos pastores que realizavam migra\u00e7\u00f5es sazonais com seus rebanhos<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> e outras comunidades tradicionais compartilhavam a apropria\u00e7\u00e3o coletiva da terra. Isso porque a popula\u00e7\u00e3o foi sendo expulsa das terras tradicionais para dar lugar as grandes empresas de agroneg\u00f3cio. Tomemos, ent\u00e3o, como exemplo de Gezire, uma das \u00e1reas mais f\u00e9rteis do pa\u00eds de onde comunidades inteiras foram expulsas, por volta de 1970, atualmente 60% dos trabalhadores rurais constituem 40% da popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola \u00e9 voltada para exporta\u00e7\u00e3o, tornando o pa\u00eds o maior exportador mundial de goma ar\u00e1bica, que n\u00e3o representa economicamente grandes vantagens, pois \u00e9 um produto secund\u00e1rio. A agricultura emprega 80% da for\u00e7a de trabalho, mesmo assim o pa\u00eds enfrenta uma crise de abastecimento de alimentos e alta da infla\u00e7\u00e3o h\u00e1 v\u00e1rios anos atingindo 47%, em novembro de 2012, depois caiu para cerca de 35% por ano em 2017 e agora se encontra a mais de 200%.<br \/>\n<strong>A mulher sudanesa<\/strong><br \/>\nDe um modo geral as mulheres se identificam como \u00e1rabe e n\u00e3o \u00e1rabe (ou africana), muitas vezes esta identifica\u00e7\u00e3o tem uma rela\u00e7\u00e3o direta ou n\u00e3o com quest\u00f5es religiosas, ou at\u00e9 mesmo com a tonalidade da pele mais clara ou mais escura.<br \/>\nA hist\u00f3ria das mulheres sudanesas foi ao longo dos anos marcada pela explora\u00e7\u00e3o, espolia\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o social. Isto se intensificou nos anos de 1990 com as leis da sharia<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, implementadas na Lei da Fam\u00edlia e Direito Penal, apesar da Constitui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds se referir a direitos iguais entre homens e mulheres.<br \/>\nDuas principais leis colocam a mulher em situa\u00e7\u00e3o de inferioridade e extrema opress\u00e3o, sendo a primeira delas, o Direito da Fam\u00edlia Mu\u00e7ulmana (1991), estabelecendo: que pode ocorrer o casamento com uma mulher durante a puberdade; a escolha do marido necessita da autoriza\u00e7\u00e3o de um tutor masculino; a fam\u00edlia da mulher deve receber um dote pelo casamento; podendo ainda o marido, de acordo com a vontade dele, constituir mais quatro esposas; e ao marido cabe negar o direito da mulher ao trabalho e ao div\u00f3rcio.<br \/>\nOutra lei \u00e9 o Direito Penal (1991), em que h\u00e1 tr\u00eas elementos dela que particularmente diz respeito \u00e0s mulheres: o primeiro \u00e9 sobre o vestu\u00e1rio, previsto no artigo 152, que determina que, em local p\u00fablico, se a mulher se comportar de forma \u201cindecente\u201d, isso inclui sua vestimenta, ser\u00e1 punida com at\u00e9 40 chicotadas, ou com uma multa, ou ambas. Em dezembro de 1991, o hijab (len\u00e7o usado na cabe\u00e7a) tornou-se uma pe\u00e7a de uso obrigat\u00f3rio para as mulheres.<br \/>\nO segundo elemento do c\u00f3digo penal \u00e9 o adult\u00e9rio, previsto nos Artigos 145-146. E estabelece que toda mulher que tiver rela\u00e7\u00f5es sexuais com um homem, sem ter v\u00ednculo legal, \u00e9 condenada \u00e0 morte por apedrejamento, se for casada, e a 100 chicotadas, se for solteira.<br \/>\nPor\u00e9m, a lei n\u00e3o estabele\u00e7a a distin\u00e7\u00e3o clara entre o adult\u00e9rio e a viola\u00e7\u00e3o\/estupro. E ao denunciar uma viola\u00e7\u00e3o\/estupro, a mulher deve comprovar um ato de estupro com quatro testemunhas masculinas que o tenham presenciado. Assim, o governo sudan\u00eas legaliza o estupro a medida que n\u00e3o existe a previs\u00e3o legal clara, e coloca a mulher numa condi\u00e7\u00e3o de impossibilidade de comprovar o crime, podendo ser condenada por denunci\u00e1-lo.<br \/>\nO terceiro elemento do c\u00f3digo penal \u00e9 a de apostasia (artigo 125-126), ou seja, o ato de renegar a f\u00e9. Este artigo se aplica a homens e mulheres que podem ser condenados \u00e0 morte por negar a religi\u00e3o.<br \/>\nDesta forma, as mulheres sudanesas, independente da origem \u00e9tnica ou religiosa, s\u00e3o consideradas propriedade da fam\u00edlia e\/ou do marido e do Estado. No entanto, \u00e9 nesse clima de viol\u00eancia estatal e familiar que as mulheres foram a vanguarda na revolu\u00e7\u00e3o para derrotar o regime e o governo de Al-Bashir.<br \/>\n<strong>Comit\u00eas de resist\u00eancia e o papel das mulheres <\/strong><br \/>\nOs comit\u00eas de resist\u00eancia, ou comit\u00eas de bairros, nasceram da necessidade dos manifestantes se organizarem em seu cotidiano para os confrontos com o aparato de seguran\u00e7a repressivo do governo. O Servi\u00e7o Nacional de Intelig\u00eancia e Seguran\u00e7a (NISS)<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>, \u00a0a For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido (RSF) e as mil\u00edcias aliadas.\u00a0 E cresceram durante o pico do movimento de protesto, no in\u00edcio de 2019. <a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><br \/>\nNo entanto, a exist\u00eancia destes comit\u00eas de resist\u00eancia n\u00e3o era algo novo no Sud\u00e3o<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>, j\u00e1 haviam surgido em 2012\/2013, tanto que o ditador Al-Bashir criou os Comit\u00eas Populares que eram agentes dele atuando nos bairros, numa tentativa de controlar este movimento espont\u00e2neo de resist\u00eancia nestes locais.<br \/>\nPor\u00e9m, algo de diferente ocorreu neste \u00faltimo processo revolucion\u00e1rio, em 2018\/19, que foi a maior participa\u00e7\u00e3o das mulheres e o papel que elas desempenharam nestes comit\u00eas de bairro e\/ou de resist\u00eancia. E \u00e9 exatamente em um dos pa\u00edses em que os direitos e a liberdade das mulheres s\u00e3o t\u00e3o violentados, como a imposi\u00e7\u00e3o de leis aliadas a quest\u00f5es morais e religiosas como a Sharia, que as mulheres passaram a cumprir um papel fundamental no processo revolucion\u00e1rio.<br \/>\nAs mulheres, s\u00e3o extremamente marginalizadas, s\u00e3o obrigadas a se organizam em grupos espec\u00edficos s\u00f3 para mulheres, at\u00e9 mesmo nas redes sociais. Nestes grupos, onde n\u00e3o h\u00e1 participa\u00e7\u00e3o de homens, elas discutem seus problemas cotidianos, desde quest\u00f5es religiosas quanto quest\u00f5es privadas, como os problemas conjugais.<br \/>\nPor\u00e9m, estes grupos de mulheres no processo revolucion\u00e1rio v\u00e3o ter um car\u00e1ter completamente diferente do usual. Isso permitiu que as mulheres circulassem informa\u00e7\u00f5es sigilosas e organizativas de forma r\u00e1pida e eficiente. Conseguiram identificar os agentes da repress\u00e3o do governo e repassavam a informa\u00e7\u00e3o direto aos comit\u00eas de resist\u00eancia das quais participavam. Com estas informa\u00e7\u00f5es foi poss\u00edvel organizar e articular os comit\u00eas de resist\u00eancia, e enfrentar a repress\u00e3o, em que cada casa, bairro, rua e qualquer espa\u00e7o conquistado significou o enfraquecimento e a derrota das for\u00e7as de Al-Bashir.<br \/>\nEm dezembro de 2018, todas as universidades governamentais, institutos superiores, escolas secund\u00e1rias e prim\u00e1rias tiveram as aulas suspensas e a Internet foi desligada. As redes sociais mais populares como as plataformas de m\u00eddia, incluindo Facebook, WhatsApp, Twitter e Instagram, foram bloqueadas por mais de dois meses. E as pessoas s\u00f3 podiam acessar esses sites atrav\u00e9s da Rede Privada Virtual (VPN), esta foi a principal plataforma utilizada pelas mulheres. \u00c9, no entanto, neste per\u00edodo que cresce de forma coordenada as lutas para a derrota do governo do ditador Al-Bashir.<br \/>\nPara as mulheres s\u00f3 restou lutar, pois al\u00e9m de toda opress\u00e3o social imposta pelo Estado tamb\u00e9m eram alvo de ataques permanentes. Durante as ondas repressivas<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a> lan\u00e7adas pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a sudanesas e as mil\u00edcias aliada do governo, Janjaweed, as mulheres e meninas eram as principais v\u00edtimas violentadas, estupradas muitas vezes em p\u00fablico, reduzidas \u00e0 escravid\u00e3o sexual, sujeitas \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o da nudez e mutila\u00e7\u00e3o sexual.<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> At\u00e9 mesmo homens foram submetidos \u00e0 viol\u00eancia sexual e \u00e0 mutila\u00e7\u00e3o. Se analisarmos atentamente a viol\u00eancia sexual foi definitivamente utilizada como arma de guerra no governo de Al-Bashir.<br \/>\nNo dia 3 de junho de 2019, as For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido (RSF) atacaram uma reuni\u00e3o pac\u00edfica na parte externa do Minist\u00e9rio da Defesa, matando 128 pessoas e ferindo outras 500. A RSF usou muni\u00e7\u00e3o viva contra os manifestantes, lan\u00e7aram os corpos no Rio Nilo, invadiram hospitais e agrediram as equipes m\u00e9dicas. Por\u00e9m, a rea\u00e7\u00e3o das massas se intensificou at\u00e9 a derrubada de Al-Bashir.<br \/>\n<strong>A pol\u00edtica de coopta\u00e7\u00e3o dos comit\u00eas<\/strong><br \/>\nA queda de Al-Bashir pela a\u00e7\u00e3o das massas, coordenada pelos comit\u00eas, deu a estes prest\u00edgio e for\u00e7a, tanto que a primeira pol\u00edtica do novo governo foi a de tentar coopt\u00e1-los. H\u00e1 uma disputa em curso pelo controle dos comit\u00eas, em Khartoum, por exemplo, alguns Comit\u00eas e algumas coordena\u00e7\u00f5es de comit\u00eas regionais, fizeram an\u00fancios p\u00fablicos se declarando politicamente independ\u00eancia das For\u00e7as de Liberdade de Mudan\u00e7a (FFC)<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> que hoje comp\u00f5e o novo governo.<br \/>\n<strong>Mudou o governo, mas n\u00e3o o regime <\/strong><br \/>\nA queda de Al-Bashir foi uma vit\u00f3ria parcial na medida em que caiu o governo. No entanto, se preservou as leis de exce\u00e7\u00e3o, a depend\u00eancia econ\u00f4mica imperialista, sem resolver os problemas da terra, da mulher e das liberdades democr\u00e1ticas.\u00a0 E ainda mantiveram no governo os militares, associados \u00e0s mil\u00edcias, que s\u00e3o acusados de genoc\u00eddio em Darfur.<br \/>\nA ditadura de Al-Bashir foi marcada por conflitos internos, de natureza militar, que resultou em genoc\u00eddio de 300.000 pessoas e mais 3 milh\u00f5es de pessoas foram expulsas de suas terras, de acordo com ONU (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas). As terras foram negociadas por Al-Bashir e o novo governo vem mantendo a popula\u00e7\u00e3o em campos de refugiados, em condi\u00e7\u00f5es desumanas, ao mesmo tempo em que garante a propriedade da terra ao capital estrangeiro.<br \/>\nParafraseando Lampedusa, algo tinha que mudar para que continuasse do mesmo jeito. Isso significa dizer que o regime no Sud\u00e3o ainda \u00e9 um regime ditatorial, n\u00e3o avan\u00e7ou em nada na implementa\u00e7\u00e3o da democracia. O que avan\u00e7ou, mais ainda, foi o controle do pa\u00eds nas m\u00e3os dos militares e as pol\u00edticas neoliberais.<br \/>\n<strong>O hero\u00edsmo das massas e a crise de dire\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nA fant\u00e1stica foto da jovem Alaa Salah, falando de cima de um autom\u00f3vel, \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o da forte presen\u00e7a das mulheres no processo revolucion\u00e1rio da queda de Al-Bashir. Esse hero\u00edsmo das mulheres se deu, apesar de toda repress\u00e3o e viol\u00eancia que sofrem.<br \/>\nComo em todos os processos revolucion\u00e1rios os setores mais explorados e oprimidos da classe protagonizam as lutas.\u00a0 E no caso espec\u00edfico do Sud\u00e3o coube \u00e0s mulheres esse protagonismo.<br \/>\nO hero\u00edsmo das massas se deu em v\u00e1rios momentos, como por exemplo, em junho de 2019, quando 128 pessoas foram assassinadas pelas for\u00e7as policiais de Al-Bashir.<br \/>\nPor\u00e9m, todo este esfor\u00e7o ficou limitado pelo programa aplicado pela Associa\u00e7\u00e3o dos Profissionais Sudaneses (SPA)<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>, For\u00e7as de Liberdade de Mudan\u00e7a (FFC) e o Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o (TMC) e pelo Partido Comunista.<br \/>\nA Associa\u00e7\u00e3o dos Profissionais Sudaneses (SPA) \u00e9 formada por profissionais liberais, m\u00e9dicos, engenheiros, advogados dentre outros. Socialmente, a SPA, \u00e9 um grupo privilegiado num pa\u00eds extremamente pobre. A SPA se associou aos militares que comp\u00f5e o Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o (TMC), que por sua vez, foram parte do governo de Al-Bashir. Estes militares foram formados por Al-Bashir, s\u00e3o respons\u00e1veis pelos crimes e atrocidades durante todo o per\u00edodo do governo.<br \/>\nO Partido Comunista Sudan\u00eas \u00e9 um cap\u00edtulo a parte nesta trai\u00e7\u00e3o. Eles s\u00e3o program\u00e1tica e metodologicamente stalinistas. O Partido Comunista n\u00e3o negou sua origem, defende o governo do Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o e nas palavras de Kamal Abdelkarim, membro do PC, \u201creconheceu a import\u00e2ncia do papel do Fundo Monet\u00e1rio Internacional&#8230; se referiu \u00e0 possibilidade de compensar as d\u00edvidas do Sud\u00e3o com o Banco Mundial com as grandes somas de dinheiro contrabandeadas para o exterior pelo antigo regime.\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a><br \/>\nAssim, o Partido Comunista defende a continuidade do pagamento de uma d\u00edvida ilegal e imoral realizada para financiar a guerra de Al-Bashir contra o povo sudan\u00eas, faz uma \u201cmea culpa\u201d em dizer como deve ser paga. Contudo, \u00e9 evidente que para o Partido Comunista stalinista quem resolve os problemas do Sud\u00e3o \u00e9 o FMI, e n\u00e3o a luta revolucion\u00e1ria das massas.<br \/>\n<strong>A luta continua!<\/strong><br \/>\nA luta continua para 3 milh\u00f5es de pessoas que foram expulsas de suas terras e vivem em campos de refugiados no pr\u00f3prio pa\u00eds e, em outros pa\u00edses. E ainda, para 300 mil fam\u00edlias que tiveram seus parentes assassinados pelas for\u00e7as de Al-Bashir.<br \/>\nA luta continua pela revoga\u00e7\u00e3o imediata de todas as leis que reduzem a mulher \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de propriedade da fam\u00edlia e do Estado, tornando-a um mero objeto.<br \/>\nA luta continua para os trabalhadores dos portos que est\u00e3o lutando contra a privatiza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA luta continua por uma assembleia constituinte, livre democr\u00e1tica e soberana. E pelo boicote a assembleia constituinte que os militares est\u00e3o convocando.<br \/>\nComo dizem alguns Comit\u00eas, \u201cnenhuma confian\u00e7a no governo Militar de Transi\u00e7\u00e3o\u201d composto por militares genocidas educados pelo Al-Bashir, pela Associa\u00e7\u00e3o dos Profissionais e pelo Partido Comunista.<br \/>\nE por isso, \u00e9 necess\u00e1rio que os trabalhadores e trabalhadoras, estudantes e comunidades sem terras se unifiquem num processo revolucion\u00e1rio, fortificando os comit\u00eas de bairro e resist\u00eancia para derrubar o governo e o regime do Sud\u00e3o. E avan\u00e7ar para o controle da produ\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos organismos democr\u00e1ticos da classe.<br \/>\nEste programa s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel ser aplicado com a organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria dos jovens, dos trabalhadores\/trabalhadoras, sem terras e dos setores populares. Para tanto, \u00e9 necess\u00e1rio iniciar j\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o dessa ferramenta. N\u00f3s, da LIT-QI, estamos dispostos a ajudar nessa grande tarefa para a emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora sudanesa.<br \/>\n<strong>-Nenhuma confian\u00e7a no governo militar de transi\u00e7\u00e3o;<\/strong><br \/>\n<strong>-Abaixo o governo militar;<\/strong><br \/>\n<strong>-Que os comit\u00eas de bairro e resist\u00eancia governem junto com os trabalhados;<\/strong><br \/>\n<strong>-Elei\u00e7\u00f5es livres e gerais para a nova constituinte;<\/strong><br \/>\n<strong>-Fim da Sharia e liberdades \u00e0s mulheres;<\/strong><br \/>\n<strong>-Reestatiza\u00e7\u00e3o de todos os recursos naturais;<\/strong><br \/>\n<strong>-Controle de toda produ\u00e7\u00e3o pelos comit\u00eas de bairro\/resist\u00eancia e dos trabalhadores;<\/strong><br \/>\n<strong>-N\u00e3o ao pagamento da d\u00edvida;<\/strong><br \/>\n<strong>-Campos de refugiados n\u00e3o \u00e9 moradia. Devolu\u00e7\u00e3o das terras j\u00e1!<\/strong><br \/>\n<strong>-Repara\u00e7\u00e3o dos crimes de guerra e ditatoriais. <\/strong><br \/>\n<strong>\u00a0<\/strong><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Vestimenta tradicional de povos \u00e1rabes.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> https:\/\/www.nytimes.com\/2019\/04\/10\/fashion\/demonstration-clothing-women-sudan.html<br \/>\n<a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> O Sud\u00e3o do Sul tornou-se um pa\u00eds independente do Sud\u00e3o em 2011.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> \u00c9 importante destacar que algumas etnias que aderiram ao isl\u00e3 passaram a se identificar como povo \u00e1rabe.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Alguns linguistas e antrop\u00f3logos que estudam a diversidade lingu\u00edstica na regi\u00e3o, sustentam que esta se deve ao um processo cultural e socioecon\u00f4mico. Uma das justificativas para isso seria porque a maioria das comunidades ainda vivem em \u00e1reas rurais, em pequenos povoados, e acabaram por desenvolver diferentes l\u00ednguas partindo dos troncos lingu\u00edsticos comuns.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Alguns autores desenvolvem alguns aspectos referentes a este processo, s\u00e3o eles: JOK, Madut Jok. War and Slavery in Sudan (The Ethnography of Political Violence). Philadelphia: University of Pennsylvania, 2001; JOHNSON, Douglas H. The Root Causes of Sudan&#8217;s Civil Wars: Old Wars and New Wars. United States e Canada: India University Press, 2016.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> A <em>Sharia<\/em> \u00e9 um conjunto de leis isl\u00e2micas baseadas no livro sagrado do Isl\u00e3, o Alcor\u00e3o. As leis da Sharia s\u00e3o respons\u00e1veis por ditar as regras de comportamento dos mu\u00e7ulmanos. Por\u00e9m, n\u00e3o existe um c\u00f3digo de leis fechado, as regras s\u00e3o interpretadas e aplicadas da maneira que bem entender pelo governo, ou l\u00edder religioso.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> National Intelligence and Security Service (NISS)<br \/>\n<a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a>https:\/\/riftvalley.net\/sites\/default\/files\/publication-documents\/Mobilization%20and%20resistance%20in%20Sudan%27s%20uprising%20by%20Magdi%20el%20Gizouli%20-%20RVI%20X-Border%20Briefing%20%282020%29_0.pdf<br \/>\n<a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Nos processos de revolu\u00e7\u00e3o anteriores j\u00e1 haviam surgido, como em 2013. Estas eram originalmente apenas c\u00e9lulas organizacionais dedicadas \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o para o protesto. Os participantes eram estudantes ou jovens graduados, da oposi\u00e7\u00e3o Partido do Congresso, muitos dos jovens ap\u00f3s uma violenta repress\u00e3o fugiram, ou mortos e\/ou ainda presos.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Realizados em v\u00e1rios momentos da hist\u00f3ria do Sud\u00e3o, sob o governo do Al-Bashir, principalmente nos anos de maior convuls\u00e3o social em 2003, 2005, 2013, 2016, 2018 e 2019.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> https:\/\/www.refworld.org\/pdfid\/46f146ca0.pdf<br \/>\n<a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Forces of Freedom of Change (FFC).<br \/>\n<a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Sudanese Professionals Association (SPA)<br \/>\n<a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> https:\/\/www.dabangasudan.org\/en\/all-news\/article\/sudan-economy-call-for-real-reforms<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2019 correu o mundo, atrav\u00e9s das redes sociais, a foto de uma jovem mulher sudanesa, usando um thoub[1] branco e brincos em formato de disco de cor dourada[2], falando do teto de um carro para centenas de pessoas que atentamente a escutavam. 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