{"id":62613,"date":"2020-12-02T15:28:14","date_gmt":"2020-12-02T18:28:14","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=62613"},"modified":"2020-12-02T15:28:14","modified_gmt":"2020-12-02T18:28:14","slug":"62613-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/12\/02\/62613-2\/","title":{"rendered":"O materialismo dial\u00e9tico e ecol\u00f3gico de Engels"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00c9 ineg\u00e1vel que Marx nutria uma profunda curiosidade sobre o desenvolvimento das ci\u00eancias do seu tempo. N\u00e3o somente das ci\u00eancias naturais como das ci\u00eancias humanas, o que ficou patente em seu caderno de estudos sobre Lewis Henry Morgan, que acabou se tornando a mat\u00e9ria-prima do livro A Origem da Fam\u00edlia, da Propriedade e do Estado, escrito em 1884 por Friedrich Engels (1820-1895).\u00a0<\/em><em>No entanto, foi o pr\u00f3prio Engels quem mais dedicou aten\u00e7\u00e3o aos problemas das ci\u00eancias e da rela\u00e7\u00e3o entre o ser humano e a natureza sob o prisma do materialismo dial\u00e9tico, enquanto Marx se encontrava absorvido com sua pesquisa em economia pol\u00edtica, desvelando as engrenagens da explora\u00e7\u00e3o capitalista.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Jeferson Choma<br \/>\nE ambos foram parceiros em um projeto de organiza\u00e7\u00e3o independente do movimento oper\u00e1rio, sob a base de um programa revolucion\u00e1rio, que se manifestou em iniciativas como a elabora\u00e7\u00e3o do Manifesto do Partido Comunista e, posteriormente, na cria\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores (AIT).<br \/>\nFoi um Engels maduro que escreveu \u201cDial\u00e9tica da Natureza\u201d, obra inacabada e que cont\u00e9m apenas anota\u00e7\u00f5es e fragmentos para um projeto de um livro nunca conclu\u00eddo. Mesmo assim, s\u00e3o muito interessantes suas passagens e notas incompletas sobre como a l\u00f3gica dial\u00e9tica pode contribuir substancialmente no entendimento dos processos naturais a partir de uma aproxima\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias com a filosofia, \u00e0 luz das descobertas cient\u00edficas revolucion\u00e1rias que testemunhava.<br \/>\nNo s\u00e9culo XX, essa obra foi muito criticada por autores como Luk\u00e1cs e outros influenciados pela Escola de Frankfurt. Um exemplo \u00e9 o livro \u201cO Conceito de Natureza em Marx\u201d, de Alfred Schmidt, um trabalho de doutorado orientado por Max Horkheimer, no qual Engels \u00e9 acusado de cair em uma metaf\u00edsica dogm\u00e1tica e apresentar uma interpreta\u00e7\u00e3o da natureza desligada de toda a pr\u00e1xis humana<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Engels tamb\u00e9m foi acusado de \u201cdesvios positivistas\u201d, j\u00e1 que ele \u2013 assim como os positivistas<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> \u2013 procurava aplicar um m\u00e9todo que fosse v\u00e1lido tanto nas ci\u00eancias sociais como nas ci\u00eancias naturais.<br \/>\nA maioria das cr\u00edticas a Engels s\u00e3o desprovidas de qualquer refer\u00eancia ou conhecimento sobre ci\u00eancias naturais, o que resultou na total impossibilidade de compreender em profundidade as conex\u00f5es ecol\u00f3gicas contidas no seu pensamento e no de Marx. Ambos n\u00e3o eram alheios \u00e0s ci\u00eancias naturais e \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas de sua \u00e9poca. Schmidt, por exemplo, cita em v\u00e1rios momentos o conceito de falha metab\u00f3lica de Marx. Contudo, o faz sem baixar a terra, sem relacionar as condi\u00e7\u00f5es materiais naturais e sem explicar o contexto hist\u00f3rico do seu surgimento no pensamento de Marx<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Na realidade, sua cr\u00edtica \u00e9 baseada em abstra\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas que, em muitas ocasi\u00f5es, flertam com o idealismo.<br \/>\nEntretanto, nas cr\u00edticas feitas \u00e0 obra de Engels, tanto por autores da Escola de Frankfurt como em Luk\u00e1cs, h\u00e1 tamb\u00e9m claramente um recha\u00e7o ao positivismo e a sua generaliza\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria dos m\u00e9todos das ci\u00eancias naturais aplicados \u00e0s ci\u00eancias humanas, como foi o darwinismo social, uma ideologia reacion\u00e1ria burguesa que serviu para \u201cnaturalizar\u201d o dom\u00ednio dos capitalistas e a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. N\u00e3o que Engels fosse positivista, o problema \u00e9 que muitos marxistas da Segunda Internacional foram bastante influenciados pelo evolucionismo.<br \/>\nKautsky, por exemplo, compreendia a obra de Marx como uma s\u00edntese entre marxismo e darwinismo e que ambos tinham em comum o fato de serem teorias da evolu\u00e7\u00e3o. Na sua interpreta\u00e7\u00e3o de Marx, a \u201c[&#8230;] evolu\u00e7\u00e3o social foi assim situada no quadro da evolu\u00e7\u00e3o natural; o esp\u00edrito humano, mesmo nas suas manifesta\u00e7\u00f5es mais elevadas e mais complicadas, nas suas manifesta\u00e7\u00f5es sociais, era explicado como sendo uma parte da natureza [&#8230;]\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<br \/>\nO principal te\u00f3rico da socialdemocracia alem\u00e3 entendia que as leis da sociedade podiam ser definidas por leis sociais, e o marxismo seria simplesmente um meio de busca cient\u00edfica das leis da evolu\u00e7\u00e3o e do movimento do organismo social.<br \/>\nPlekhanov, \u201co pai do marxismo russo\u201d, foi outro autor bastante influenciado pelo evolucionismo. Para ele, nem a hist\u00f3ria nem a natureza d\u00e3o saltos, tudo no mundo s\u00f3 se transforma lenta e gradualmente. No seu entender, a luta de classes deixou de ser o motor da hist\u00f3ria e cedeu lugar para a evolu\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas. \u201cAssim como Darwin enriquecera a biologia com a teoria das esp\u00e9cies, t\u00e3o admir\u00e1vel em simplicidade quanto rigorosamente cient\u00edfica, os fundadores do socialismo cient\u00edfico tamb\u00e9m nos mostraram, na evolu\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas e na luta destas for\u00e7as contra as formas sociais de produ\u00e7\u00e3o atrasadas, o grande princ\u00edpio da transforma\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies sociais\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><br \/>\nMuito desse materialismo dogm\u00e1tico foi resgatado pelo stalinismo, e o \u201cmaterialismo dial\u00e9tico\u201d se converteu em uma ideologia de Estado que serviu para corroborar uma pseudoci\u00eancia materialista a servi\u00e7o de uma odiosa burocracia que havia se apropriado do poder sovi\u00e9tico. De certo modo, o stalinismo criou um positivismo invertido: se o positivismo buscava extrair das ci\u00eancias naturais uma ideologia para naturalizar as rela\u00e7\u00f5es sociais, o stalinismo ideologizava as ci\u00eancias da natureza a partir da pol\u00edtica.<br \/>\nO Caso Lyssenko \u00e9 um dos mais repugnantes epis\u00f3dios da ideologiza\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Nos anos 1930, Lyssenko iniciou uma torpe campanha de cal\u00fanias contra a gen\u00e9tica mendeliana, alegando que ela n\u00e3o era \u201cdial\u00e9tica\u201d nem \u201cmaterialista\u201d e que ainda possu\u00eda desvios burgueses. Os geneticistas sovi\u00e9ticos chegaram a ser chamados de \u201csabotadores trotskystas\u201d\u00a0 que defendiam uma \u201cci\u00eancia burguesa\u201d, o neodarwinismo, isto \u00e9, gen\u00e9tica moderna. Em seu lugar, promoveu-se uma autointitulada \u201cgen\u00e9tica sovi\u00e9tica\u201d que negava a pr\u00f3pria exist\u00eancia dos genes e valorizava \u201co meio ambiente\u201d, os \u201cfatores externos\u201d.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><br \/>\nO stalinismo transformou o \u201cmaterialismo dial\u00e9tico\u201d em um materialismo tosco travestido de \u201cdial\u00e9tico\u201d at\u00e9 torn\u00e1-lo uma cartilha que todos os cientistas deveriam reverenciar e, por vezes, citar alguma passagem do livro de Engels, em busca de uma verdadeira \u201cci\u00eancia prolet\u00e1ria\u201d. Dentro na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica o resultado para as ci\u00eancias foi catastr\u00f3fico, especialmente no campo da biologia, e\u00a0 fora dela\u00a0 muitos cientistas se afastaram\u00a0 da dial\u00e9tica ao associ\u00e1-la com as atrocidades cient\u00edficas cometidas pelo stalinismo.<br \/>\nMas nem Engels nem seu livro tem alguma responsabilidade\u00a0 por essa deforma\u00e7\u00e3o grotesca ou pelo fato do stalinismo imputar normas ideol\u00f3gicas \u00e0 pesquisa cient\u00edfica. Ao contr\u00e1rio, as anota\u00e7\u00f5es de Engels s\u00e3o uma declara\u00e7\u00e3o de guerra contra as vis\u00f5es mecanicistas e reducionistas da natureza, e n\u00e3o apenas contra formas idealistas de pensamento contidas nas ci\u00eancias naturais. \u00a0 Contra um materialismo tosco, Engels apresenta uma vis\u00e3o dial\u00e9tica das rela\u00e7\u00f5es seres humanos-natureza e tamb\u00e9m da pr\u00f3pria maneira de se ver os processos naturais. Uma vis\u00e3o radicalmente oposta ao reducionismo que v\u00ea os fen\u00f4menos em fragmentos isolados e que, portanto, possuem propriedades a serem estudadas isoladamente. \u201cO todo da natureza acess\u00edvel a n\u00f3s \u2013 explica Engels &#8211; forma um sistema, uma totalidade interconectada de corpos, e por corpos n\u00f3s entendemos aqui como exist\u00eancias materiais que se estendem de estrelas a \u00e1tomos\u201d, explica.<br \/>\nEngels op\u00f5e ao materialismo vulgar a dial\u00e9tica como um m\u00e9todo heur\u00edstico, \u00fatil a uma vis\u00e3o mais refinada da complexidade da natureza e das ci\u00eancias que a estudam. N\u00e3o por acaso, sua obra influenciou muitas d\u00e9cadas depois toda uma gera\u00e7\u00e3o de bi\u00f3logos anglo-sax\u00f5es, como Stephan Jay Gold, Richard Lewontin, Richard Levins, Steven Rose e Leon Kamin, que polemizaram contra formas atuais do reducionismo cient\u00edfico, como a sociobiologia que explica comportamentos como racismo e a agress\u00e3o como determinados geneticamente.<br \/>\n\u00c9 importante notar que na \u00e9poca em que Engels escreveu suas anota\u00e7\u00f5es, o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas do capitalismo, a filosofia e as ci\u00eancias naturais avan\u00e7avam cada vez mais distanciadas entre si, e cada vez mais se cristalizava a\u00a0 tend\u00eancia \u00e0 especializa\u00e7\u00e3o. As discuss\u00f5es filos\u00f3ficas eram vistas como meras especula\u00e7\u00f5es. Justus von Liebig, qu\u00edmico alem\u00e3o que tanto influenciou Marx no desenvolvimento do conceito da falha metab\u00f3lica, responsabilizava as especula\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas por terem atrasado o progresso das ci\u00eancias naturais na Alemanha por mais de 50 anos.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><br \/>\nNesse sentido, Engels procurava uma reaproxima\u00e7\u00e3o da filosofia e da ci\u00eancia e sua obra procurava mobilizar o melhor das categorias l\u00f3gicas da dial\u00e9tica hegeliana para expor uma abordagem filos\u00f3fica original dos processos naturais.<br \/>\nFoi nessa obra que Engels combateu a no\u00e7\u00e3o de imutabilidade da natureza e defendia que a mat\u00e9ria est\u00e1 em permanente transforma\u00e7\u00e3o, e que h\u00e1 mudan\u00e7as abruptas, do tipo \u201csaltos\u201d, no transcorrer dos processos naturais. Por isso seu entusiasmo com Darwin, pois via nele algu\u00e9m que finalmente apresentava uma concep\u00e7\u00e3o de que a natureza tinha um desenvolvimento hist\u00f3rico. Ali\u00e1s, sua conhecida assertiva a respeito da transforma\u00e7\u00e3o de quantidade em qualidade influenciou a no\u00e7\u00e3o de desenvolvimento \u201cpor saltos\u201d presente na teoria de equil\u00edbrio pontuado de Stephan Jay Gold.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><br \/>\nUm exemplo da sofistica\u00e7\u00e3o do seu pensamento \u00e9 o fato de Engels ser o primeiro a ver na teoria de Darwin a explica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica da liga\u00e7\u00e3o interna entre conting\u00eancia e necessidade. Assim ele explica:<br \/>\nNa sua obra que fez \u00e9poca, Darwin parte da base factual mais ampla que repousava na conting\u00eancia. S\u00e3o precisamente as diferen\u00e7as infinitas criadas pelo acaso entre indiv\u00edduos no interior de cada esp\u00e9cie, diferen\u00e7as que se acentuam at\u00e9 fazer rebentar o car\u00e1ter da esp\u00e9cie e de que mesmo as causas mais imediatas s\u00f3 podem ser demonstradas em casos muito raros, que obrigam a reconsiderar os fundamentos anteriores de qualquer lei biol\u00f3gica: a no\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cie na sua rigidez e imutabilidade metaf\u00edsica de outrora. Mas sem a no\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cie, toda ci\u00eancia ruiria. Nenhum desses ramos poderia ignorar a no\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cie como base: que seriam, sem ela, a anatomia humana e a anatomia comparada, a embriologia, a zoologia, a paleontologia, a bot\u00e2nica etc.?<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 nenhum prop\u00f3sito definido na evolu\u00e7\u00e3o da vida. O processo n\u00e3o transcorre com o objetivo de formar sempre organismos mais complexos ou mais \u201cevolu\u00eddos\u201d. A sele\u00e7\u00e3o natural n\u00e3o funciona como um engenheiro que age sob um projeto e busca perfei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 nenhum plano definido.<br \/>\nO surgimento de novas esp\u00e9cies est\u00e1 relacionado \u00e0 variabilidade dos organismos. Varia\u00e7\u00f5es que ocorrem aleatoriamente e que s\u00e3o herdadas pelos seus descendentes. Tais caracter\u00edsticas se tornam predominantes em gera\u00e7\u00f5es sucessivas de uma popula\u00e7\u00e3o de organismos que se reproduzem, ao mesmo tempo em que outras caracter\u00edsticas tornam-se menos comuns e podem desaparecer.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 nenhuma forma pr\u00e9-dirigida para que a varia\u00e7\u00e3o se incline a caracter\u00edsticas mais favor\u00e1veis. Pelo contr\u00e1rio, em geral, as varia\u00e7\u00f5es de novos organismos n\u00e3o resultam em vantagens adaptativas ao meio, e seu destino, inexoravelmente, \u00e9 a sua extin\u00e7\u00e3o. No entanto, h\u00e1 varia\u00e7\u00f5es casuais que podem resultar em alguma vantagem adaptativa, e esse organismo sobreviver\u00e1 e passar\u00e1 suas caracter\u00edsticas aos seus descendentes. Como afirma Stephan Jay Gold, \u201ca evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 um misto de acaso e necessidade \u2013 acaso no n\u00edvel da varia\u00e7\u00e3o, necessidade no trabalho de sele\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><br \/>\n<strong>Engels, natureza e hist\u00f3ria<\/strong><br \/>\nNo que se refere \u00e0 natureza, entendida como processos biogeoqu\u00edmicos, Engels compartilhava da mesma vis\u00e3o de Marx. Em \u201cA Ideologia Alem\u00e3\u201d, ambos criticaram as limita\u00e7\u00f5es do materialismo est\u00e1tico de Feuerbach, sublinhando sua incapacidade de apreender o mundo como um processo, como uma mat\u00e9ria compreendida numa continua forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, incluindo a rela\u00e7\u00e3o da natureza com a vida pr\u00e1tica humana.<br \/>\nMarx e Engels concordam com Feuerbach sobre o primado da natureza externa, que se apresenta independente da exist\u00eancia humana, sendo apreendida pela nossa capacidade sensorial. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No entanto, os dois pensadores alem\u00e3es v\u00e3o muito al\u00e9m. Para \u00a0Feuerbach, a natureza \u00e9 meramente \u00a0contemplativa. Ele ignora que a percep\u00e7\u00e3o sensorial \u00e9 feita por homens hist\u00f3ricos reais. Sobre isso, Marx e Engels explicam:<br \/>\nEle [Feuerbach] n\u00e3o v\u00ea como o mundo sens\u00edvel que o rodeia n\u00e3o \u00e9 uma coisa dada de imediato por toda a eternidade e sempre igual a si mesma, mas o produto da ind\u00fastria e do estado de coisas da sociedade, e isso precisamente no sentido de que \u00e9 um produto hist\u00f3rico, o resultado da atividade de toda uma s\u00e9rie de gera\u00e7\u00e3o, cada uma das quais ultrapassava a precedente, desenvolvendo sua ind\u00fastria e o seu com\u00e9rcio, modificando a sua ordem social em fun\u00e7\u00e3o da modifica\u00e7\u00e3o das necessidades. (\u2026). Como se sabe, a cerejeira, como quase todas as \u00e1rvores frut\u00edferas, foi transplantada para nossa regi\u00e3o pelo com\u00e9rcio, h\u00e1 apenas alguns s\u00e9culos e, portanto, foi dada &#8216;certeza sens\u00edvel&#8217; de Feuerbach apenas mediante essa a\u00e7\u00e3o de uma sociedade determinada numa determinada \u00e9poca. <a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a><br \/>\nDesse modo, o pr\u00f3prio mundo sensorial j\u00e1 n\u00e3o existe mais em sua forma origin\u00e1ria, pois se tornou o reposit\u00f3rio da atividade desencadeada por sucessivas gera\u00e7\u00f5es de homens, isto \u00e9, o pr\u00f3prio meio, a natureza, foi continuamente transformado pela a\u00e7\u00e3o humana. Essa natureza apresentada por Feuerbach, ironizam Marx e Engels \u201c[&#8230;] n\u00e3o existe em nossos dias, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o, talvez, de uma ou outra ilha de coral australiana de origem recente [\u2026]\u201d.<br \/>\nDesde o surgimento da esp\u00e9cie humana, portanto, iniciou-se um processo de transforma\u00e7\u00e3o da natureza, onde n\u00e3o existe nenhum ambiente natural que n\u00e3o tenha sido afetado pela hist\u00f3ria e pela cultura das diferentes sociedades que se apresentaram no curso da civiliza\u00e7\u00e3o, e cada forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00a0apresentou uma forma de se relacionar com a natureza. Da\u00ed a famosa frase de Marx, \u201ca natureza sem o homem n\u00e3o \u00e9 nada\u201d, estar bem distante de frequentes interpreta\u00e7\u00f5es idealistas.<br \/>\nA natureza tem seu pr\u00f3prio desenvolvimento comandado por processo biogeoqu\u00edmicos, independente da a\u00e7\u00e3o humana. Mas desde o surgimento da esp\u00e9cie humana, a nossa hist\u00f3ria se entrela\u00e7a com a hist\u00f3ria da natureza. Assim, defende Marx, o homem sempre teve diante de si \u201cuma natureza hist\u00f3rica e uma hist\u00f3ria natural\u201d.<br \/>\nAnos mais tarde, Engels retoma essa discuss\u00e3o de uma maneira ainda mais expl\u00edcita:<br \/>\nPois, n\u00f3s n\u00e3o vivemos apenas na Natureza, mas tamb\u00e9m na sociedade humana, e tamb\u00e9m esta tem a sua hist\u00f3ria de desenvolvimento e a sua ci\u00eancia, n\u00e3o menos do que a Natureza. Tratava-se, portanto, de p\u00f4r a ci\u00eancia da sociedade, isto \u00e9, o conjunto das chamadas ci\u00eancias hist\u00f3ricas e filos\u00f3ficas, em conson\u00e2ncia com a base materialista e de reconstru\u00ed-las a partir dela. Isto, por\u00e9m, n\u00e3o foi dado a Feuerbach. Aqui, ele permaneceu, apesar da &#8216;base&#8217;, preso nos la\u00e7os idealistas tradicionais [&#8230;].<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a><br \/>\n<strong>Engels ecol\u00f3gico <\/strong><br \/>\nMas Engels tamb\u00e9m se notabilizou pelas suas preocupa\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas e a destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente provocado pela sociedade capitalista. Tais preocupa\u00e7\u00f5es ficam expl\u00edcitas em seu famoso manuscrito, \u201cO papel desempenhado pelo trabalho na transi\u00e7\u00e3o do macaco para o homem\u201d, no qual Engels apresenta uma compreens\u00e3o instigante sobre o papel do trabalho no desenvolvimento dos seres humanos. Ele refuta a vis\u00e3o unilateral de que nossa evolu\u00e7\u00e3o foi impulsionada por um c\u00e9rebro em crescimento. O bipedismo permitiu o desenvolvimento do c\u00e9rebro e das m\u00e3os; as m\u00e3os humanas libertaram-se para que os seres humanos pudessem transformar a natureza e a si pr\u00f3prios. O desenvolvimento das m\u00e3os \u00e9 visto por Engels como parte \u201cde todo um organismo extremamente complexo\u201d. \u201cAquilo que revertia em proveito da m\u00e3o, revertia em proveito ao corpo inteiro, corpo ao servi\u00e7o do qual ela trabalhava [&#8230;]\u201d(p. 174).<br \/>\n\u00c9 necess\u00e1rio fazer algumas ressalvas a Engels que \u00a0sugere \u00a0em seu manuscrito no\u00e7\u00f5es lamarckianas como a transmiss\u00e3o de caracteres adquiridos. Apenas no s\u00e9culo XX a gen\u00e9tica mendeliana, refutar\u00e1 totalmente essas ideias. Mas nem por isso devemos dar menor aten\u00e7\u00e3o a sua abordagem dial\u00e9tica. A natureza \u00e9 vista como um todo, um complexo de rela\u00e7\u00f5es de trocas rec\u00edprocas, inclusive entre os organismos bi\u00f3ticos e abi\u00f3ticos e sua \u00edntima conex\u00e3o, conforme Darwin havia demonstrado e posteriormente foi desenvolvido pela pr\u00f3pria biologia e geologia.<br \/>\nAssim como Marx, Engels tamb\u00e9m via que o trabalho mediava a rela\u00e7\u00e3o do metabolismo entre os seres humanos com a natureza. O processo de trabalho \u00e9 condi\u00e7\u00e3o universal da rela\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica ser humano\/natureza. Mas diferentemente dos outros animais, h\u00e1 um prop\u00f3sito, uma intencionalidade na realiza\u00e7\u00e3o de um trabalho humano. Se um animal destr\u00f3i uma vegeta\u00e7\u00e3o qualquer sem ter consci\u00eancia dessa a\u00e7\u00e3o, o ser humano destr\u00f3i uma vegeta\u00e7\u00e3o para semear e cultivar o solo; domestica plantas e animais \u00fateis a ponto de deix\u00e1-los irreconhec\u00edveis, e os transfere de uma regi\u00e3o para outra, modificando todo um sistema ecol\u00f3gico, transformando a paisagem, se apropria de territ\u00f3rios. E, desse modo, estabelece uma coevolu\u00e7\u00e3o com o seu ambiente e as criaturas que modificou.<br \/>\nNessa rela\u00e7\u00e3o os seres humanos afirmam sua pr\u00f3pria objetividade e subjetividade, modificam o meio ambiente e, ao mesmo tempo, a si pr\u00f3prios. \u00c9 pelo trabalho que os seres humanos alargam o seu horizonte, posto que por sua a\u00e7\u00e3o cada elemento natural, cada potencial contido nele, mostra propriedades at\u00e9 ent\u00e3o ignoradas. Basta lembrar da ancestral domestica\u00e7\u00e3o de plantas ou ainda nosso entendimento atual da energia contida em um \u00e1tomo de hidrog\u00eanio.<br \/>\nAo agir sobre a natureza e transform\u00e1-la, os seres humanos aprofundam la\u00e7os de sociabilidade entre os membros da sociedade, multiplicam a assist\u00eancia m\u00fatua, promovem a coopera\u00e7\u00e3o comum e transmitem esses conhecimentos \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras. Imagine, por exemplo, como foi para os primeiros seres humanos a inven\u00e7\u00e3o de uma simples canoa, que quebrou barreiras naturais at\u00e9 ent\u00e3o insuper\u00e1veis e lhes permitiu desbravar novos horizontes, rompendo limites geogr\u00e1ficos at\u00e9 ent\u00e3o insuper\u00e1veis. Isso transformou totalmente sua mentalidade sobre o mundo e sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza. Mas a inven\u00e7\u00e3o de uma simples canoa, por mais r\u00fastico e primitivo que tenha sido o seu projeto, requer mobilizar e coordenar esfor\u00e7os e experi\u00eancias de todo um grupo social para constru\u00ed-la: escolher (ou reconhecer) uma madeira adequada, mobilizar pessoas para cort\u00e1-la, imprimir nela com o trabalho da m\u00e3o humana o que foi pensado no c\u00e9rebro, as formas adequadas para que flutue, resista \u00e0s intemp\u00e9ries e longas travessias etc.<br \/>\nFabricar um instrumento como esse suscitou aptid\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidas por aqueles homens e mulheres, transformou as rela\u00e7\u00f5es entre eles, transformou o indiv\u00edduo, a sociedade, sua vis\u00e3o de mundo, sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza, a linguagem e a pr\u00f3pria esp\u00e9cie. Do mesmo modo, a atividade ca\u00e7a ou a inven\u00e7\u00e3o da agricultura tamb\u00e9m deixaram os humanos mais h\u00e1beis, inteligentes e astutos.<br \/>\nApesar de exibir algumas vezes certo tom \u201ctriunfalista\u201d em suas linhas sobre os feitos realizados pela civiliza\u00e7\u00e3o, algo t\u00edpico da sua \u00e9poca, que assistia em velocidade avassaladora as descobertas cient\u00edficas, Engels revela ao mesmo tempo uma profunda consci\u00eancia ecol\u00f3gica identificando os limites da natureza. Tinha plena consci\u00eancia de que estava testemunhando grandes inova\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas revolucion\u00e1rias que transformariam o mundo. Mas tamb\u00e9m alertava para problemas ecol\u00f3gicos causados por muitas dessas inova\u00e7\u00f5es e descobertas que, inclusive, poderiam resultar no desaparecimento de esp\u00e9cies e ecossistemas. Em tom de advert\u00eancia sobre o suposto dom\u00ednio humano da natureza, escreveu:<br \/>\n[&#8230;] n\u00e3o nos lisonjeemos demasiado com as nossas vit\u00f3rias sobre a natureza. \u00c9 verdade que as primeiras consequ\u00eancias dessas vit\u00f3rias s\u00e3o as previstas por n\u00f3s, mas em segundo e em terceiro lugar aparecem consequ\u00eancias muito diversas, totalmente imprevistas e que, com frequ\u00eancia, anulam as primeiras. Os homens que na Mesopot\u00e2mia, na Gr\u00e9cia, na \u00c1sia Menor e outras regi\u00f5es devastavam os bosques para obter terra de cultivo, nem sequer podiam imaginar que, eliminando junto com os bosques os centros de acumula\u00e7\u00e3o e reserva de umidade, estavam assentando as bases da atual aridez dessas terras. Os italianos dos Alpes, que destru\u00edram nas encostas meridionais os bosques de pinheiros, conservados com tanto carinho nas encostas setentrionais, n\u00e3o tinham ideia de que com isso estavam [\u2026] privando de \u00e1gua os mananciais das suas montanhas, e que durante a esta\u00e7\u00e3o de chuvas iriam se produzir inunda\u00e7\u00f5es ainda mais furiosas. [\u2026] \u00a0A cada passo, a natureza vinga-se. [\u2026] os fatos lembram-nos a cada passo que n\u00e3o reinamos sobre a natureza como conquistadores sobre um povo estrangeiro submetido, como algu\u00e9m que estaria para al\u00e9m da natureza, mas que lhe pertencemos como nossa carne, o nosso c\u00e9rebro, que mergulhamos nela e que o dom\u00ednio que sobre ela exercemos reside na vantagem que temos sobre outras criaturas de lhe conhecermos as leis e de nos podermos servir delas judiciosamente.<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a><br \/>\nEm tempos em que a humanidade se v\u00ea acossada por uma pandemia causada pela apropria\u00e7\u00e3o mercantil da natureza e por mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que amea\u00e7am toda a civiliza\u00e7\u00e3o, essas palavras soam como prof\u00e9ticas e tentaram, sim, despertar um justo alarmismo em meio a uma sociedade embriagada pela ideologia do progresso.<br \/>\nEngels sabia que o desenvolvimento das ci\u00eancias servia aos senhores do capital, incrementando a apropria\u00e7\u00e3o da mais-valia relativa. Mas nunca apresentou uma vis\u00e3o unilateral reprovando os avan\u00e7os da ci\u00eancia, uma vez que ela poderia servir de via para a supera\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o do ser humano perante a natureza: \u201c[\u2026] quanto mais caminhamos nesta via, mais sentiremos e melhor saberemos que n\u00f3s e a natureza formamos um todo, e mais imposs\u00edvel se tornar\u00e1 a ideia absurda e contranatureza de uma oposi\u00e7\u00e3o entre o esp\u00edrito e a mat\u00e9ria, o ser humano e a natureza, a alma e o corpo [&#8230;]\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<br \/>\nMas acreditar que o desenvolvimento cient\u00edfico vai por si s\u00f3 nos salvar da cat\u00e1strofe ambiental, permitindo uma rela\u00e7\u00e3o mais regulada com o meio ambiente, \u00e9 t\u00e3o ing\u00eanuo como responsabilizar o desenvolvimento cient\u00edfico pelos desequil\u00edbrios ambientais. Sobre isso, j\u00e1 alertava Engels: \u201c[&#8230;] para conseguirmos essa regula\u00e7\u00e3o, faz falta algo mais do que mero conhecimento. Precisamos de uma revolu\u00e7\u00e3o completa do nosso modo de produ\u00e7\u00e3o dominante at\u00e9 os dias de hoje e, com ele, de toda nossa ordem social existente\u201d.<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a><br \/>\nA profunda concep\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica sobre a din\u00e2mica dos sistemas naturais est\u00e1 em perfeita conson\u00e2ncia com aquilo que Ernst Haeckel chamou em 1866 de ecologia. Mas, como vimos acima, o estudo sobre ecossistemas precisa levar em considera\u00e7\u00e3o o desenvolvimento hist\u00f3rico das sociedades. O \u201cfator antr\u00f3pico\u201d n\u00e3o deve ser uma mera abstra\u00e7\u00e3o de contabilidade sobre o desequil\u00edbrio do fluxo energ\u00e9tico de um ecossistema. \u00c9 preciso explicar a raz\u00e3o do desequil\u00edbrio do fluxo energ\u00e9tico, que est\u00e1 na explica\u00e7\u00e3o de como uma sociedade \u00e9 estruturada, nas lutas entre classes sociais, nos interesses econ\u00f4micos e nas rela\u00e7\u00f5es de poder que regem a apropria\u00e7\u00e3o realizada pelas classes sociais de uma fra\u00e7\u00e3o da crosta terrestre. Afinal, quem \u00e9 o anthropos respons\u00e1vel pelo aquecimento global e pela destrui\u00e7\u00e3o dos ecossistemas em uma escala global que nem Engels ou Marx imaginaram?<br \/>\nO\u00a0 desenvolvimento da nossa compreens\u00e3o sobre a natureza refor\u00e7a o alerta de Engels: \u201cn\u00e3o reinamos sobre a natureza como conquistadores\u201d. Pandemias e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas provocadas pelo capitalismo exigem a necessidade da supera\u00e7\u00e3o desse sistema baseado na explora\u00e7\u00e3o do trabalho e da natureza. Exigem a cria\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista, que revolucione as rela\u00e7\u00f5es sociais e as for\u00e7as produtivas, para que seres humanos superem sua aliena\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao produto do seu trabalho e se reconhe\u00e7am como parte da natureza, aquela que pensa sobre si mesma.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A maior demonstra\u00e7\u00e3o desse argumento est\u00e1 na segunda parte do primeiro cap\u00edtulo da obra de SCHMIDT, Alfred. <strong>El concepto de naturaleza en Marx<\/strong>. Ed. Siglo Vintiuno: Madri, 1977.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O positivismo \u00e9 uma corrente filos\u00f3fica que surgiu na Fran\u00e7a no s\u00e9culo XIX com Auguste Comte e foi desenvolvida por pensadores como Herbert Spencer e \u00c9mile Durkheim. O positivismo alega que a sociedade precisa ser estudada com um rigoroso \u201cm\u00e9todo cient\u00edfico imparcial\u201d. Para isso aplica o mesmo m\u00e9todo utilizado nas ci\u00eancias naturais para o estudo das ci\u00eancias sociais. Durkheim, por exemplo, comparava a sociedade a um organismo biol\u00f3gico, \u201cum sistema de \u00f3rg\u00e3os no qual cada um tem o seu papel em particular\u201d. Certos \u00f3rg\u00e3os t\u00eam uma situa\u00e7\u00e3o especial e privilegiada, o que \u00e9 natural para o bom funcionamento de todo organismo. Desse modo, o positivismo\u00a0 justificava aos privil\u00e9gios de classe e a ordem social estabelecida. O darwinismo serviu a essa ideologia quando conceitos como \u201csobreviv\u00eancia do mais apto\u201d foram importados \u00e0s ci\u00eancias sociais para justificar o dom\u00ednio de classes.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0 Para saber mais, leia: <a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/usar-marx-para-entender-e-enfrentar-a-crise-ecologica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.pstu.org.br\/usar-marx-para-entender-e-enfrentar-a-crise-ecologica\/<\/a><br \/>\n<a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 KAUTSKY, Karl. As tr\u00eas fontes do marxismo. 5\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Centauro, 2002, p.17.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 PLEKHANOV, G. V. Os Princ\u00edpios Fundamentais do Marxismo. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/plekhanov\/1908\/principios\/index.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/plekhanov\/1908\/principios\/index.htm<\/a><br \/>\n<a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Lisenko desprezava muitos aspectos da teoria da evolu\u00e7\u00e3o de Darwin, e sugeriu uma abordagem evolutiva que se apoiava nas ideias de Jean-Baptiste Lamarck do in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. Qual seja: que os organismos poderiam adquirir tra\u00e7os em suas vidas e pass\u00e1-los atrav\u00e9s da hereditariedade para seus filhos. Arraigado ao argumento de que a mudan\u00e7a do gen\u00f3tipo \u00e9 resultado das influ\u00eancias externas, do meio ambiente, Lisenko foi \u00e0 guerra contra a gen\u00e9tica mendeliana e contra o bot\u00e2nico Nikol\u00e1i Vav\u00edlov, seu mais not\u00e1vel defensor. Essa teoria, entretanto, j\u00e1 estava absolutamente superada na \u00e9poca e carecia totalmente de evid\u00eancias emp\u00edricas. A maioria dos bi\u00f3logos evolucionistas, como Vavilov, defendia que nos processos evolutivos as caracter\u00edsticas de um organismo vivo eram herdados geneticamente dos seus ancestrais.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 UTZ, Konrad, SOARES, Marly Carvalho (Org). <strong>A noiva do esp\u00edrito: natureza em Hegel<\/strong>. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para saber mais: GASPER, Phil.O Bi\u00f3logo dial\u00e9tico Stephan Jay Gould. In: <strong>Marxismo Vivo n\u00ba6,<\/strong> novembro de 2002. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/marxismovivo.org\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Primera-Epoca\/POR\/MV6\/MV6pt\/mv06pt.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/marxismovivo.org\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Primera-Epoca\/POR\/MV6\/MV6pt\/mv06pt.pdf<\/a><br \/>\n<a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 ENGELS, F. <strong>Dial\u00e9tica da natureza<\/strong>. Lisboa. Ed. Presen\u00e7a, 1974, p. 230.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 GOULD, Stephan Jay. <strong>Darwin e os Grandes Enigmas da Vida. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, s\/d, p.2.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 MARX, K. ENGELS, F. <strong>Ideologia Alem\u00e3. S\u00e3o Paulo<\/strong>. Ed. Boitempo, 2005, p.32.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 ENGELS, F. <strong>Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia cl\u00e1ssica alem\u00e3<\/strong>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1886\/mes\/fim.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1886\/mes\/fim.htm<\/a><br \/>\n<a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 ENGELS, F. Dial\u00e9tica da natureza. Lisboa. Ed. Presen\u00e7a, 1974, p. 182-83.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idem, p. 183.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idem, p. 184.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que Marx nutria uma profunda curiosidade sobre o desenvolvimento das ci\u00eancias do seu tempo. N\u00e3o somente das ci\u00eancias naturais como das ci\u00eancias humanas, o que ficou patente em seu caderno de estudos sobre Lewis Henry Morgan, que acabou se tornando a mat\u00e9ria-prima do livro A Origem da Fam\u00edlia, da Propriedade e do Estado, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":71001,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[6,3498,3766],"tags":[37,6005,6006,633],"class_list":["post-62613","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-200-anos-de-engels","category-crise-climatica-e-ambiental","category-meio-ambiente","tag-200-anos-de-engels","tag-engels-e-crise-climatica","tag-engels-e-ecologia","tag-jeferson-choma"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/3f346bec-ca1e-46f4-854c-3fdb8eb224ce-1.jpg","categories_names":["200 anos de Engels","Crise clim\u00e1tica e ambiental","Meio Ambiente"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62613","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62613"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62613\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/71001"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62613"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62613"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62613"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}