{"id":62598,"date":"2020-12-01T18:31:59","date_gmt":"2020-12-01T21:31:59","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=62598"},"modified":"2020-12-01T18:31:59","modified_gmt":"2020-12-01T21:31:59","slug":"62598-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/12\/01\/62598-2\/","title":{"rendered":"Para onde vai a economia mundial?"},"content":{"rendered":"<p><em>Os governos burgueses e a imprensa destacam a recupera\u00e7\u00e3o da economia mundial no terceiro trimestre deste ano e exaltam a &#8220;nova normalidade&#8221; que a permitiu. Um olhar mais aprofundado mostra, no entanto, uma realidade diferente.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Alejandro Iturbe<br \/>\nUma an\u00e1lise da din\u00e2mica da economia mundial at\u00e9 agora em 2020 mostra tr\u00eas momentos distintos que esquematizaremos em cada um dos trimestres j\u00e1 contabilizados:<\/p>\n<ul>\n<li>No primeiro trimestre, a economia mundial caiu cerca de 1,2%, como reflexo da <strong>desacelera\u00e7\u00e3o e da din\u00e2mica recessiva<\/strong> que j\u00e1 vinha desde o ano passado (as medidas restritivas contra a pandemia s\u00f3 come\u00e7aram a ser aplicadas no final do per\u00edodo).<\/li>\n<li>No segundo trimestre, houve uma queda m\u00e9dia pr\u00f3xima a 10%, uma cifra cuja magnitude n\u00e3o se via desde a crise de 1929, com <strong>retrocessos hist\u00f3ricos<\/strong> em muitos pa\u00edses, inclusive nas pot\u00eancias imperialistas. As medidas restritivas contra a pandemia impactaram a din\u00e2mica anterior e geraram <strong>um salto qualitativo no retrocesso<\/strong> do PIB mundial.<\/li>\n<li>O terceiro mostra <strong>um freio na queda e o in\u00edcio de uma recupera\u00e7\u00e3o<\/strong> em praticamente todos os pa\u00edses. As organiza\u00e7\u00f5es financeiras internacionais preveem que essa recupera\u00e7\u00e3o se manter\u00e1 no quarto trimestre e que vai continuar em 2021. Nessa altera\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica incidem essencialmente a retirada das restri\u00e7\u00f5es \u00e0 pandemia (a hip\u00f3crita e criminosa pol\u00edtica da &#8220;nova normalidade&#8221;) e o reflexo dos pacotes de ajuda dos governos imperialistas \u00e0s empresas.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Um saldo l\u00edquido de retrocessos<\/strong><br \/>\nNo entanto, a recupera\u00e7\u00e3o no terceiro trimestre (e a que possivelmente ocorra no quarto) n\u00e3o \u00e9 suficiente para compensar o retrocesso acumulado no ano e principalmente no segundo trimestre.<br \/>\nQual ser\u00e1 o saldo l\u00edquido sobre o PIB mundial? Respondemos rapidamente: ser\u00e1 profundamente negativo. Nesse sentido, vejamos alguns c\u00e1lculos e previs\u00f5es.<\/p>\n<ol>\n<li>Em seu \u00faltimo relat\u00f3rio, o FMI prev\u00ea uma queda global de -4,4%, com retrocessos superiores na maioria dos pa\u00edses imperialistas. Das grandes economias, apenas a China ter\u00e1 um saldo anual positivo (estimado em 1,9%), enquanto os EUA cair\u00e3o 4,5% [1].<\/li>\n<li>A OCDE prev\u00ea uma queda um pouco maior: -4,5% [2]<\/li>\n<li>A previs\u00e3o mais pessimista \u00e9 a do Banco Mundial (BM) com uma queda de -5,2% [3].<\/li>\n<\/ol>\n<p>Isso significa que, em 2020, haveria o pior retrocesso da economia mundial desde a crise de 1929, muito superior \u00e0 queda produzida em 2008 (-1,7%).<br \/>\nMas vamos avan\u00e7ar um pouco mais. Todas essas organiza\u00e7\u00f5es preveem que essa recupera\u00e7\u00e3o continue em 2021. O FMI prev\u00ea um crescimento de 5,2%; a OCDE 5% e o Banco Mundial 3%. Ou seja, se voltarmos \u00e0 subida e queda dos n\u00fameros, na previs\u00e3o mais otimista (FMI) ao final de 2021 o n\u00edvel do PIB mundial somente se recuperar\u00e1 ao n\u00edvel de 2019. Enquanto na previs\u00e3o mais pessimista (BM) o saldo continuaria sendo negativo. Tudo isso, \u00e9 claro, se n\u00e3o surgirem novos acontecimentos.<br \/>\n<strong>Que tipo de V?<\/strong><br \/>\nOs economistas burgueses chamam de &#8220;rebote&#8221; o movimento ascendente que come\u00e7a depois de uma queda que teria atingido seu piso. Tamb\u00e9m \u00e9 frequentemente referido como U ou V por causa da forma que essas oscila\u00e7\u00f5es assumem em um gr\u00e1fico sequencial.<br \/>\nNesse caso, na mais otimista das previs\u00f5es (FMI) se veria um V com bra\u00e7os sim\u00e9tricos (a recupera\u00e7\u00e3o equivale \u00e0 queda) com um saldo l\u00edquido de 0. Se pegarmos os n\u00fameros do Banco Mundial, nos d\u00e1 uma forma assim\u00e9trica: a recupera\u00e7\u00e3o n\u00e3o coincide com o retrocesso e a altura do bra\u00e7o direito \u00e9 menor que a do esquerdo. Nesse caso, alguns falam de uma forma semelhante ao s\u00edmbolo da raiz quadrada, outros de &#8220;logo da Nike&#8221; (por causa do logotipo desta marca).<br \/>\nAs previs\u00f5es econ\u00f4micas t\u00eam sempre um car\u00e1ter hipot\u00e9tico devido \u00e0 quantidade de fatores pr\u00f3prios da economia e de fatores externos que incidem neles. Com esse cuidado, parece-nos que a din\u00e2mica mais prov\u00e1vel \u00e9 a da recupera\u00e7\u00e3o em forma de raiz quadrada (ou seja, parcial) para depois tender a desacelerar. Tentaremos fundamentar isso.<br \/>\n<strong>Os par\u00e2metros de uma an\u00e1lise marxista<\/strong><br \/>\nO marxismo analisa a situa\u00e7\u00e3o presente e as poss\u00edveis din\u00e2micas da economia capitalista com crit\u00e9rios diferentes dos economistas burgueses. Ele considera que o motor dessa economia \u00e9 a busca pelo lucro ou, o que \u00e9 a mesma coisa, a acumula\u00e7\u00e3o de novo capital.<br \/>\nEsse lucro capitalista \u00e9 baseado na mais-valia; isto \u00e9, no novo valor criado na produ\u00e7\u00e3o pela for\u00e7a de trabalho e n\u00e3o pago pelo sal\u00e1rio. Marx assim define uma taxa de lucro que, considerada socialmente, deriva da divis\u00e3o da mais-valia total extra\u00edda em um determinado per\u00edodo pelo total do capital investido.<br \/>\nPor v\u00e1rias raz\u00f5es, que o pr\u00f3prio Marx analisa em sua obra <em>O capital<\/em>, a certa altura de um ciclo econ\u00f4mico completo, a taxa de lucro tende a cair [4]. Esse retrocesso vai acabar se refletindo tamb\u00e9m na queda do volume de investimentos capitalistas gerando assim a fase descendente de um ciclo econ\u00f4mico, o que Marx denomina <strong>crises c\u00edclicas<\/strong>.<br \/>\nMarx faz ent\u00e3o duas considera\u00e7\u00f5es importantes. A primeira \u00e9 que essas crises s\u00e3o uma parte absolutamente normal (e, nesse sentido, inevit\u00e1veis) do processo de acumula\u00e7\u00e3o do capital. A segunda \u00e9 que as pr\u00f3prias crises proporcionam as condi\u00e7\u00f5es para super\u00e1-las.<br \/>\nExistem dois mecanismos b\u00e1sicos para essa supera\u00e7\u00e3o. <strong>O primeiro \u00e9 o aumento da extra\u00e7\u00e3o da mais-valia<\/strong> ou, o que \u00e9 o mesmo, o aumento da massa da mais-valia total. Algo que se consegue reduzindo o valor real dos sal\u00e1rios e aumentando a produtividade.<br \/>\nO segundo \u00e9 a <strong>queima de capitais<\/strong>, por meio de fechamentos de empresas, fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es pelos mais fortes. Vai haver assim um processo que Marx denomina <em>centraliza\u00e7\u00e3o do capital<\/em> (reduzindo o n\u00famero de burgueses que o controlam).<br \/>\nReestabelecido o equil\u00edbrio de uma taxa de lucro satisfat\u00f3ria, a din\u00e2mica dos investimentos \u00e9 retomada e se inicia assim uma nova fase ascendente da economia. Em outras palavras, um novo ciclo.<br \/>\n<strong>O que acontece agora?<\/strong><br \/>\nOu seja, para o marxismo \u00e9 necess\u00e1rio observar a situa\u00e7\u00e3o da taxa de lucro e do n\u00edvel de investimentos para formular tanto o diagn\u00f3stico do momento presente quanto para formular hip\u00f3teses da din\u00e2mica.<br \/>\nSe analisarmos a seguinte tabela elaborada pelo economista marxista brit\u00e2nico Michael Roberts, vemos que, a partir do final de 2018, come\u00e7a uma queda na taxa de lucro (que se refletiu ao longo de 2019 para terminar com uma din\u00e2mica recessiva) e que esta queda se torna muito mais abrupta e pronunciada em 2020 [5]. Ou seja, qualquer recupera\u00e7\u00e3o da taxa de lucro para &#8220;n\u00edveis satisfat\u00f3rios&#8221; deve partir desse po\u00e7o em que caiu.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-62599\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/tabela.png\" alt=\"\" width=\"480\" height=\"314\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/tabela.png 480w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/tabela-300x196.png 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/tabela-150x98.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 480px) 100vw, 480px\" \/><br \/>\nVejamos agora a quest\u00e3o dos investimentos, por meio de um exemplo. No terceiro trimestre deste ano, a economia dos Estados Unidos teve um crescimento de 7,4% em rela\u00e7\u00e3o ao trimestre anterior [6]. Uma an\u00e1lise dos dados, apresentados pelos relat\u00f3rios trimestrais do BEA (sigla em ingl\u00eas do Bir\u00f4 de An\u00e1lises Econ\u00f4micas), mostra que esse crescimento foi produzido pelo ac\u00famulo de pequenos aumentos em diversos ramos (gastos em consumo pessoal e investimentos privados, entre eles.) [7].<br \/>\nPor\u00e9m, no item \u201cinvestimentos privados\u201d ele informa que <em>\u201cEsse aumento reflete principalmente um aumento do com\u00e9rcio varejista (liderado pelos distribuidores de ve\u00edculos automotores)\u201d<\/em>. Ou seja, \u00e9 um crescimento que ocorre pela utiliza\u00e7\u00e3o do que se denomina \u201ccapacidade ociosa\u201d (potencial produtivo n\u00e3o utilizado nas ind\u00fastrias que alcan\u00e7aram recordes hist\u00f3ricos em 2020) e no movimento do estoque acumulado, e n\u00e3o em novos investimentos. Encontramos um panorama semelhante nas economias da zona do euro e no Jap\u00e3o.<br \/>\nCom uma taxa de lucro que caiu muito abaixo e com n\u00edveis muito pobres ou inexistentes de novos investimentos, essa recupera\u00e7\u00e3o come\u00e7a ent\u00e3o com uma base e com um impulso muito fracos. A burguesia aspira, no melhor dos casos, recuperar os n\u00edveis anteriores, mas mesmo este objetivo parece dif\u00edcil de ser alcan\u00e7ado.<br \/>\n<strong>O recrudescimento da pandemia<\/strong><br \/>\nDissemos que o impressionante retrocesso da economia mundial no segundo trimestre deste ano foi resultado do impacto das medidas restritivas adotadas contra a pandemia do Covid-19 que agravaram o decl\u00ednio j\u00e1 existente. Dissemos tamb\u00e9m que este in\u00edcio de recupera\u00e7\u00e3o deve-se essencialmente \u00e0 retirada das restri\u00e7\u00f5es e \u00e0 pol\u00edtica criminosa da &#8220;nova normalidade&#8221; promovida pelas burguesias (sem ter vencido a pandemia) para recuperar os seus n\u00edveis de lucro, mesmo \u00e0 custa de milh\u00f5es de infectados e muit\u00edssimos mortos da classe trabalhadora.<br \/>\nMas essa pol\u00edtica retorna como um bumerangue com o ressurgimento da pandemia, que retorna aos n\u00edveis cr\u00edticos (ou at\u00e9 mais altos) dos meses anteriores, em muitos pa\u00edses que pareciam estar conseguindo estancar (Europa) ou que nunca a estancaram (Estados Unidos). Nesse quadro, sem abandonar o impulso criminoso \u00e0 &#8220;nova normalidade&#8221;, muitos governos s\u00e3o obrigados a adotar convulsivamente um retorno \u00e0s medidas parciais de restri\u00e7\u00e3o, como estamos vendo na Europa ou em v\u00e1rios estados dos Estados Unidos.<br \/>\nExiste inclusive a possibilidade de que essas medidas sejam mais r\u00edgidas, pelo menos at\u00e9 que se generalize a aplica\u00e7\u00e3o de vacinas eficazes. Algo que, no melhor dos casos, exigir\u00e1 todo o ano de 2021.<br \/>\nEnt\u00e3o, o retorno \u00e0s medidas restritivas e o sentimento de inseguran\u00e7a sanit\u00e1ria que permanece (e seu reflexo pol\u00edtico e econ\u00f4mico) s\u00e3o um obst\u00e1culo \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o que as burguesias tanto almejam. \u00c9 um fator importante a considerar, cuja estimativa ainda n\u00e3o pode ser prevista.<br \/>\n<strong>A brutal queda do n\u00edvel de vida das massas<\/strong><br \/>\nSe em toda crise a burguesia ataca o n\u00edvel de vida dos trabalhadores e das massas para aumentar a massa de mais-valia extra\u00edda; nessa em particular, este ataque adquiriu caracter\u00edsticas brutais: demiss\u00f5es massivas e suspens\u00f5es, redu\u00e7\u00e3o salarial, elimina\u00e7\u00e3o de conquistas, aumento da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, etc. Os n\u00fameros do crescimento do desemprego, pobreza, mis\u00e9ria e fome em todos os pa\u00edses (mesmo nas pot\u00eancias imperialistas) s\u00e3o impressionantes. A isso devemos acrescentar o sofrimento e os riscos causados \u200b\u200bpela pandemia.<br \/>\nMas mesmo com a brutalidade desse ataque, o capitalismo n\u00e3o consegue, por enquanto, uma recupera\u00e7\u00e3o da taxa de lucro. Precisa n\u00e3o apenas consolidar os ataques que fez, mas avan\u00e7ar ainda mais. Em outras palavras, esta recupera\u00e7\u00e3o parcial da economia n\u00e3o representar\u00e1 simultaneamente uma melhoria do n\u00edvel das massas, mas sim uma continuidade dos ataques por parte das burguesias e dos seus governos. O pr\u00f3prio relat\u00f3rio do FMI adverte que <em>&#8220;a pandemia reverter\u00e1 os avan\u00e7os realizados desde os anos 1990 na redu\u00e7\u00e3o da pobreza e aumentar\u00e1 a desigualdade&#8221;<\/em>.<br \/>\n<strong>As contradi\u00e7\u00f5es da queima de capitais<\/strong><br \/>\nVimos que o segundo caminho que utiliza a burguesia \u00e9 a queima de capitais. Esse processo est\u00e1 ocorrendo com o fechamento de muitas pequenas e m\u00e9dias empresas no mundo, e tamb\u00e9m com as \u201cpodas\u201d realizadas pelas gigantes atrav\u00e9s do fechamento de f\u00e1bricas e setores, e da redu\u00e7\u00e3o de outras. Um exemplo disso \u00e9 a reestrutura\u00e7\u00e3o do conglomerado metal\u00fargico alem\u00e3o Thyssenkrupp [8].<br \/>\nAo mesmo tempo em que ocorre essa queima (dir\u00edamos &#8220;natural&#8221;), governos e bancos centrais &#8220;injetam&#8221; quantias fabulosas nos mercados para conter a crise e tentar revert\u00ea-la. Mas apenas uma fra\u00e7\u00e3o menor desses &#8220;pacotes de ajuda&#8221; gera novos investimentos produtivos. A maior parte permanece nas m\u00e3os dos bancos e do setor financeiro.<br \/>\nNa crise de 2007\/2008, os bancos usaram essas &#8220;ajudas&#8221; para cobrir seus d\u00e9ficits e evitar a fal\u00eancia. Nesta, diretamente, representa um ganho financeiro fabuloso (que foi recorde em 2019) e a cria\u00e7\u00e3o de fortes reservas para conting\u00eancias futuras, em 2020, que disfar\u00e7am esses lucros na contabilidade [9].<br \/>\n\u00c9 a exacerba\u00e7\u00e3o de uma contradi\u00e7\u00e3o profunda do capitalismo atual: enquanto a economia como um todo retrocede (para n\u00e3o falar da situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e das massas), o setor financeiro e especulativo ganha cada vez mais e se fortalece com &#8220;reservas&#8221;. Isso mostra os dados que fornecemos e tamb\u00e9m a alta do \u00edndice S&amp;P 500 em Wall Street.<br \/>\nIsso n\u00e3o s\u00f3 acentua cada vez mais o car\u00e1ter especulativo parasit\u00e1rio do capitalismo imperialista, j\u00e1 analisado por L\u00eanin em sua famosa obra sobre o imperialismo, mas tamb\u00e9m representa um obst\u00e1culo \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o da taxa de lucro porque acentua a propor\u00e7\u00e3o de capital improdutivo no volume total de capital. Ou seja, a propor\u00e7\u00e3o do capital que n\u00e3o ajuda a gerar nova mais-valia, mas disputa (com vantagens, como vimos) sua apropria\u00e7\u00e3o [10].<br \/>\n<strong>A curva descendente<\/strong><br \/>\nAt\u00e9 o momento, analisamos alguns dados e caracter\u00edsticas da crise atual e suas poss\u00edveis perspectivas. Achamos interessante revisar, mesmo que brevemente, alguns processos de longo alcance que a enquadram.<br \/>\nTodo um setor do marxismo considera que, al\u00e9m dos ciclos curtos e suas crises estudados por Marx em O capital, estes se entrela\u00e7am em s\u00e9ries longas de natureza ascendente ou descendente (ou estagna\u00e7\u00e3o) por uma combina\u00e7\u00e3o de fatores mais complexos (externos e internos \u00e0 economia) do que os analisados \u200b\u200bpor ele.<br \/>\nEm seu escrito <em>A curva do desenvolvimento capitalista<\/em>, Leon Trotsky afirma que os ciclos capitalistas n\u00e3o s\u00e3o iguais entre si, e tampouco \u00e9 o seu saldo. Se a recupera\u00e7\u00e3o for maior que a queda (e isso se repete), podemos falar de uma curva de desenvolvimento ascendente. Ao contr\u00e1rio, se for menor, a curva geral ser\u00e1 descendente. Finalmente, se ambos forem equiparados, podemos falar de um momento de estagna\u00e7\u00e3o [11]. Vimos que, sob esta perspectiva, a recupera\u00e7\u00e3o atual muito possivelmente ser\u00e1 menor que o decl\u00ednio (ou, nas previs\u00f5es mais otimistas, uma estagna\u00e7\u00e3o dif\u00edcil).<br \/>\nJunto com isso, \u00e9 necess\u00e1rio considerar que as crises n\u00e3o s\u00e3o iguais em profundidade e impacto. O crash de 1929 (tamb\u00e9m precedido por uma grande &#8220;festa financeira&#8221; na Bolsa de Valores de Nova York), por exemplo, teve um impacto muito profundo e abriu uma curva descendente de ciclos (conhecida como a Grande Depress\u00e3o) que s\u00f3 seria superada ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial.<br \/>\nPor nossa parte, consideramos que a crise de 2007\/2008 teve um impacto, no m\u00ednimo, igual ao de 1929 e que foi tamb\u00e9m o in\u00edcio de uma longa curva descendente. Opini\u00e3o tamb\u00e9m compartilhada por Michael Roberts [12].<br \/>\nUsando um bom crit\u00e9rio marxista, ele mostra que a rentabilidade capitalista hoje \u00e9 muito baixa (enquanto as d\u00edvidas acumuladas s\u00e3o muito altas). Se olharmos novamente para a tabela preparada por ele, vemos, por um lado, uma tend\u00eancia de longo prazo para o decrescimento da taxa de lucro, desde os anos dourados do boom econ\u00f4mico do p\u00f3s-guerra.<br \/>\nPor outro lado, para al\u00e9m dos seus altos e baixos, como esta tend\u00eancia se acentuou desde 2007\/2008. Conclui ent\u00e3o que esta curva descendente continuar\u00e1 at\u00e9 que o capitalismo imperialista consiga restaurar uma lucratividade satisfat\u00f3ria. Concordamos com esse ponto de vista.<br \/>\n<strong>A luta entre o &#8220;velho&#8221; e o \u201cnovo\u201d capital<\/strong><br \/>\nO capitalismo \u00e9 caracterizado por uma disputa permanente entre diferentes setores do capital. Uma luta que se agrava em per\u00edodos de crise. Um aspecto muito importante dessa disputa \u00e9 entre o capital \u201cnovo\u201d e o capital \u201cvelho\u201d.<br \/>\nO \u201cnovo capital\u201d direciona seus investimentos para o desenvolvimento e incorpora\u00e7\u00e3o de novas tecnologias que aumentam a produtividade e aceleram o ciclo de reprodu\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o. Essas novas tecnologias, em v\u00e1rios casos, geram reestrutura\u00e7\u00f5es nos processos produtivos, surgimento de novos produtos e mudan\u00e7as de h\u00e1bitos de consumo que refor\u00e7am o ciclo. O \u201cvelho capital\u201d deve competir em condi\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis \u200b\u200be \u00e9 for\u00e7ado a se reestruturar, reduzir e at\u00e9 desaparecer.<br \/>\nVejamos dois exemplos hist\u00f3ricos: o surgimento do autom\u00f3vel condenou o desaparecimento da produ\u00e7\u00e3o de carro\u00e7as; o surgimento da petroqu\u00edmica impactou toda a ind\u00fastria, mas reduziu principalmente o setor t\u00eaxtil de fibras naturais.<br \/>\nNas \u00faltimas d\u00e9cadas, o desenvolvimento mais din\u00e2mico ocorreu na combina\u00e7\u00e3o da eletr\u00f4nica e da computa\u00e7\u00e3o, dando origem \u00e0 inform\u00e1tica e, em seguida, sua combina\u00e7\u00e3o com as comunica\u00e7\u00f5es, no que se denominou telem\u00e1tica. Simultaneamente, isso se expressou na robotiza\u00e7\u00e3o dos processos de montagem e outros.<br \/>\nN\u00e3o s\u00f3 gerou profundas reestrutura\u00e7\u00f5es nos m\u00e9todos de planejamento, produ\u00e7\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m mudan\u00e7as nos produtos demandados e nos pr\u00f3prios h\u00e1bitos de compra. Computadores pessoais port\u00e1teis, tablets e telefones celulares (inexistentes h\u00e1 duas d\u00e9cadas) s\u00e3o agora mercadorias massivas e as compras virtuais est\u00e3o em constante crescimento.<br \/>\nAlgumas dessas tecnologias est\u00e3o em constante renova\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o centro da disputa comercial entre os EUA e a China \u00e9 o controle da produ\u00e7\u00e3o e dos mercados da tecnologia 5G para celulares e computadores [13].<br \/>\nHoje falamos do FAANG, sigla que re\u00fane Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Alphabet-Google, aos quais posteriormente se juntaram as empresas Alibaba, Baidu, NVidia, Tesla e Twitter (todas relacionadas \u00e0s novas tecnologias). FAANGs s\u00e3o as estrelas dos \u00edndices de a\u00e7\u00f5es S&amp;P 500 e Nasdaq. Apenas quatro empresas (Amazon, Alphabet e Facebook + Microsoft) acumulam um quarto do capital representado no S&amp;P 500 [14].<br \/>\nO caso Tesla \u00e9 muito interessante. Fundada em 2003, teve um desenvolvimento exponencial com a fabrica\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis de motores el\u00e9tricos e seus projetos em andamento para a constru\u00e7\u00e3o de duas novas f\u00e1bricas no Texas (EUA) e nos arredores de Berlim (Alemanha), que empregar\u00e3o 5.000 trabalhadores cada um [15].<br \/>\nPrecisamente, a ind\u00fastria automotiva \u00e9 um exemplo interessante de processos simult\u00e2neos e contradit\u00f3rios entre capitais novos e velhos. Enquanto fecha f\u00e1bricas e reduz no setor de ve\u00edculos com motores de combust\u00e3o interna, esse setor tenta se reconverter e investir no de ve\u00edculos movidos a eletricidade. A ag\u00eancia Reuters estimou que grandes empresas t\u00eam planos de investimentos de 90 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para esse empreendimento. Por\u00e9m, no setor de ve\u00edculos el\u00e9tricos esta produ\u00e7\u00e3o ainda representa menos de 1% do total [16].<br \/>\nEssa disputa entre capitais velhos e novos, ou seja, a din\u00e2mica da propor\u00e7\u00e3o entre eles, \u00e9 um fator muito importante na din\u00e2mica mais geral da curva de desenvolvimento que vimos. As FAANGs (e o setor de novas tecnologias) s\u00e3o as empresas de maiores lucros e os acumuladores de capital de crescimento mais r\u00e1pido. Assim, ajudam a dinamizar o processo como um todo. No entanto, embora tenham tido impacto em v\u00e1rios aspectos, ainda n\u00e3o podem ser uma locomotiva que puxa todo o grupo cuja rentabilidade, como vimos, \u00e9 \u201cmuito baixa\u201d devido ao peso maiorit\u00e1rio que conserva o capital \u201cvelho\u201d.<br \/>\nH\u00e1 um processo, que j\u00e1 mencionamos, que agrava esse quadro do capitalismo imperialista: a tend\u00eancia crescente da propor\u00e7\u00e3o do capital especulativo e parasit\u00e1rio (totalmente improdutivo), cuja din\u00e2mica de reprodu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 muito r\u00e1pida e que, ao se apropriar (\u201cdevorar\u201d, dir\u00edamos) de uma parte importante da massa de mais-valia extra\u00edda na produ\u00e7\u00e3o, &#8220;puxa para baixo&#8221; a taxa de lucro dos outros setores e impede uma revers\u00e3o r\u00e1pida da dire\u00e7\u00e3o da curva.<br \/>\n<strong>A luta de classes<\/strong><br \/>\nDeixamos para o final um fator essencial na din\u00e2mica de todo o processo. Os ataques brutais da burguesia sobre os trabalhadores e as massas baixam constantemente seu padr\u00e3o de vida (ou o que \u00e9 o mesmo, a fra\u00e7\u00e3o do novo valor produzido que recebem). Mesmo assim, a burguesia n\u00e3o consegue recuperar uma taxa de lucro satisfat\u00f3ria nessas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e os ataques continuam de forma constante.<br \/>\nMas nesse processo provoca condi\u00e7\u00f5es t\u00e3o intoler\u00e1veis \u200b\u200bpara os trabalhadores e as massas que geram explos\u00f5es e processos revolucion\u00e1rios em v\u00e1rios pa\u00edses, e sua simultaneidade. Esta foi a situa\u00e7\u00e3o que vivemos no ano passado, antes da pandemia [17]. S\u00e3o lutas e processos que provocam crises em governos e regimes (mesmo nos Estados Unidos com a rebeli\u00e3o antirracista) e at\u00e9 derrubam alguns deles.<br \/>\nO impacto da pandemia do Covid-19 abriu um impasse nessa din\u00e2mica que agora parece ser retomada com os recentes acontecimentos no Peru e com in\u00fameras lutas, menos impactantes e difundidas, em outros pa\u00edses. As burguesias tentam manobrar para frear e diluir esses processos, por meio de t\u00e1ticas como as elei\u00e7\u00f5es. Em outros casos, apelam diretamente para a repress\u00e3o, como parece ser o caso na Belarus.<br \/>\nA luta de classes \u00e9 uma \u201cdor de cabe\u00e7a\u201d na necessidade burguesa de recuperar sua taxa de lucro. Em seus resultados (vit\u00f3rias e derrotas) est\u00e3o grande parte da din\u00e2mica da curva. Ao mesmo tempo, h\u00e1 a possibilidade de lutas mais generalizadas e profundas que avancem no caminho da destrui\u00e7\u00e3o deste sistema capitalista imperialista cada vez mais retr\u00f3grado e desumano e sua substitui\u00e7\u00e3o por um sistema muito mais racional e humano, atrav\u00e9s da revolu\u00e7\u00e3o socialista.<br \/>\nNotas:<br \/>\n[1] https:\/\/www.imf.org\/es\/Publications\/WEO\/Issues\/2020\/09\/30\/world-economic-outlook-october-2020<br \/>\n[2] https:\/\/cincodias.elpais.com\/cincodias\/2020\/09\/16\/economia\/1600250006_456002.html<br \/>\n[3] https:\/\/www.worldbank.org\/pt\/publication\/global-economic-prospects<br \/>\n[4] Ver especialmente o cap\u00edtulo XIII do volume III de El Capital<br \/>\n[5] A tabela foi retirada de https:\/\/www.nuevatribuna.es\/articulo\/global\/notas-reflexiones-crisis-capitalista-2020-2021\/20201004101328179783.html. Para uma vis\u00e3o mais geral da an\u00e1lise de Roberts, veja a entrevista publicada nesta p\u00e1gina em: https:\/\/litci.org\/es\/la-larga-depresion-entrevista-a-michel-roberts\/<br \/>\n[6] https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2020\/10\/pib-dos-eua-cresce-74-no-3o-trimestre-acima-do-esperado.shtml<br \/>\n[7] https:\/\/www.bea.gov\/news\/2020\/gross-domestic-product-third-quarter-2020-advance-estimate<br \/>\n[8] https:\/\/www.ambito.com\/negocios\/crisis\/el-gigante-aleman-thyssenkrupp-no-logra-controlar-la-y-planea-11000-despidos-n5149350<br \/>\n[9] https:\/\/forbescentroamerica.com\/2020\/08\/25\/bajaron-70-las-ganancias-de-los-bancos-en-estados-unidos\/<br \/>\n[10] Sobre esse assunto, sugerimos a leitura do livro O sistema financeiro e a crise econ\u00f4mica mundo de Alejandro Iturbe, Editora Sundermann, S\u00e3o Paulo, Brasil, 2009.<br \/>\n[11] http:\/\/orientacaomarxista.blogspot.com\/2012\/04\/curva-do-desenvolvimento-capitalista.html<br \/>\n[12] ROBERTS, Michael, The Great Depression. Entre outras edi\u00e7\u00f5es, veja a do editor Topo Viejo, Buenos Aires, Argentina, 2017.<br \/>\n[13] https:\/\/litci.org\/es\/armas-de-guerra\/<br \/>\n[14] https:\/\/cincodias.elpais.com\/cincodias\/2020\/08\/06\/mercados\/1596729079_487354.html<br \/>\n[15] Veja: https:\/\/es.cointelegraph.com\/news\/tesla-stock-surpasses-1-200-now-30-higher-than-bitcoin-market-cap; https:\/\/cincodias.elpais.com\/cincodias\/2020\/06\/25\/companias\/1593092391_976427.html e<br \/>\nhttps:\/\/parabrisas.perfil.com\/noticias\/novedades\/asi-sera-la-fabrica-de-tesla-en-alemania-elon-musk-giga-berlin.phtml<br \/>\n[16] https:\/\/br.reuters.com\/article\/idLTAKBN1F42PV-OUSLB<br \/>\n[17] Veja, por exemplo: https:\/\/litci.org\/es\/tiempos-de-rebelion\/<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Tae Amaru<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os governos burgueses e a imprensa destacam a recupera\u00e7\u00e3o da economia mundial no terceiro trimestre deste ano e exaltam a &#8220;nova normalidade&#8221; que a permitiu. Um olhar mais aprofundado mostra, no entanto, uma realidade diferente.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":62600,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[32,3523,30,49],"tags":[1551,6001,649,515],"class_list":["post-62598","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia","category-opiniao","category-coronavirus","category-polemica","tag-alejandro-iturbe","tag-economia-e-pandemia","tag-economia-mundial","tag-especial-coronavirus"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/atencao-imagem-cadastrada-para-a-especial-de-economia-coronavirus-tem-afetado-as-financas-de-todo-o-mundo-238829-article.jpg","categories_names":["Economia","Opini\u00e3o","Pandemia","Pol\u00eamica"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62598","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62598"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62598\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/62600"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62598"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62598"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62598"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}