{"id":62563,"date":"2020-11-28T02:35:36","date_gmt":"2020-11-28T05:35:36","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=62563"},"modified":"2020-11-28T02:35:36","modified_gmt":"2020-11-28T05:35:36","slug":"estrategia-e-tatica-revolucionarias-engels-apos-a-morte-de-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/11\/28\/estrategia-e-tatica-revolucionarias-engels-apos-a-morte-de-marx\/","title":{"rendered":"Estrat\u00e9gia e t\u00e1tica revolucion\u00e1rias: Engels ap\u00f3s a morte de Marx"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cA cabe\u00e7a mais formid\u00e1vel de nosso partido deixou de pensar;\u00a0o cora\u00e7\u00e3o mais poderoso que conheci deixou de bater\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>F. Engels<\/em><\/p>\n<p><em>Depois da morte de Marx, em 14 de mar\u00e7o de 1883, Engels viu-se sozinho na tarefa de continuar a obra pol\u00edtica que os dois haviam empreendido por toda sua vida adulta. Mesmo com Marx morto em sua cama, ele ainda n\u00e3o tinha concebido que aquele \u201chomem genial tivesse deixado de fecundar o movimento oper\u00e1rio dos dois continentes com suas ideias estupendas\u201d e dizia que tudo que este movimento tinha conseguido era devido a Marx, do ponto de vista te\u00f3rico e pr\u00e1tico.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Marcos Margarido<br \/>\n\u00c9 imposs\u00edvel imaginar o vazio que o atingiu. Ainda mais porque Marx havia dito a Eleanor, sua filha mais nova, que o manuscrito do <em>Capital<\/em> (cujo primeiro volume j\u00e1 havia sido publicado) devia ser editado por Engels. Obviamente, ele era o \u00fanico em quem Marx confiava para manter suas ideias intactas.<br \/>\nPor\u00e9m, n\u00e3o pensemos que aquele que se definia como o segundo violino daquela orquestra fosse uma pessoa de car\u00e1ter dependente. Marx n\u00e3o suportaria um amigo assim. Na verdade, Engels tornou-se comunista antes de Marx e estava escrevendo <em>Condi\u00e7\u00e3o da Classe Trabalhadora na Inglaterra<\/em>, que cont\u00e9m o esbo\u00e7o de v\u00e1rios conceitos utilizados por Marx no <em>Capital<\/em>, quando come\u00e7aram sua colabora\u00e7\u00e3o m\u00fatua. Quando sua m\u00e3e lhe repreendia por andar em companhia daquele \u201ccomunista\u201d, Engels respondia que nada mudaria se Marx n\u00e3o existisse e que, na verdade, era a fam\u00edlia de Marx que dizia que \u201c<em>eu<\/em> o havia corrompido\u201d.<br \/>\nNesse artigo vamos abordar alguns aspectos da vida pol\u00edtica de Engels ap\u00f3s a morte de Marx para avaliar se ele teria mantido a mesma estrat\u00e9gia expressa no texto fundacional do comunismo moderno, o <em>Manifesto Comunista<\/em>. Seria verdadeira a afirma\u00e7\u00e3o de Gustav Mayer, em sua biografia de Engels, de que \u201co ideal que continuava vivo no grande detrator do filiste\u00edsmo aos sessenta anos de idade era o mesmo que o do jovem de vinte e dois anos\u201d?<br \/>\n<strong>A lei antissocialista<\/strong><br \/>\nMarx ainda estava vivo quando o governo do Imp\u00e9rio Alem\u00e3o, comandado por Bismarck, implantou a lei antissocialista em 1878, mas foi Engels que travou uma verdadeira batalha contra os l\u00edderes do partido alem\u00e3o para resistirem \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de capitular a ela para mant\u00ea-lo legalizado. Esta lei bania o Partido Oper\u00e1rio Alem\u00e3o (o nome do Partido Social-democrata Alem\u00e3o, SPD, na \u00e9poca) da vida p\u00fablica, proibia a edi\u00e7\u00e3o de jornais, a manuten\u00e7\u00e3o de sedes e qualquer a\u00e7\u00e3o identificada com o partido, como a a\u00e7\u00e3o sindical. Mas permitia aos membros que apresentassem candidaturas independentes em elei\u00e7\u00f5es.<br \/>\nFrente a isso, a maioria dos deputados social-democratas no parlamento, os \u00fanicos que agora, gra\u00e7as \u00e0 imunidade parlamentar, podiam assumir a representa\u00e7\u00e3o e defesa do partido, defendeu a submiss\u00e3o do partido \u00e0s novas condi\u00e7\u00f5es impostas, que abandonasse seu car\u00e1ter de classe e estabelecesse contatos com a ala democr\u00e1tica da burguesia para manter sua legalidade.<br \/>\nFrente a isso, Engels respondia \u201cque n\u00e3o pod\u00edamos pensar em baixar a bandeira do proletariado que t\u00ednhamos mantido por cerca de 40 anos, muito menos juntarmo-nos \u00e0s ilus\u00f5es pequeno-burguesas da fraternidade universal, que enfrentamos, novamente, por cerca de 40 anos\u201d.<br \/>\nSua ira era dirigida particularmente \u00e0s \u201cpessoas cultas\u201d do partido, aos deputados e dirigentes pequeno-burgueses, a quem apontava a porta da rua: \u201cSe estes senhores constitu\u00edrem um partido social-democrata da pequena burguesia, eles est\u00e3o em seu perfeito direito; neste caso, talvez possamos negociar com eles e tom\u00e1-los at\u00e9 mesmo como aliados em certas circunst\u00e2ncias, etc. Mas, em um partido oper\u00e1rio, eles s\u00e3o um elemento perturbador\u201d.<br \/>\nA batalha n\u00e3o foi f\u00e1cil. Passaram-se anos antes que Engels e Marx voltassem a aceitar escrever para o jornal <em>O Social-democrata<\/em>, publicado na Su\u00ed\u00e7a e contrabandeado para a Alemanha, pois tinham grande desconfian\u00e7a no rumo que o partido estava tomando.<br \/>\nMas, a minoria dos deputados tinha muito peso, pois inclu\u00eda os dois principais l\u00edderes do partido, Bebel e Liebknecht. Aos poucos, eles conseguiram refazer as conex\u00f5es quebradas pela clandestinidade e dotar o partido com uma pol\u00edtica de enfrentamento \u00e0 lei.<br \/>\nFinalmente, em 1880, no primeiro congresso realizado sob a lei antissocialista, na Su\u00ed\u00e7a, as resolu\u00e7\u00f5es aprovadas devolveram a Engels e Marx a certeza de que o partido voltava aos rumos que eles defendiam.<br \/>\nPesou muito para isso a convic\u00e7\u00e3o de que os ventos dos acontecimentos hist\u00f3ricos sopravam com for\u00e7a a vela da social-democracia. Em 1874, Engels dizia que, por fim, a implanta\u00e7\u00e3o de uma grande ind\u00fastria e uma burguesia modernas geravam um proletariado realmente poderoso. Era a esse proletariado que ele voltava seus olhos, pois \u201cnunca vimos um proletariado capaz de aprender em t\u00e3o pouco tempo a agir coletivamente e a marchar em fileiras cerradas\u201d. E grande parte dessa a\u00e7\u00e3o coletiva em torno ao partido era devido \u00e0 pr\u00f3pria lei antissocialista, que \u201censinava\u201d a classe a defender seu partido dos ataques desferidos pela burguesia.<br \/>\n<strong>A t\u00e1tica parlamentar<\/strong><br \/>\nEmbora o trabalho clandestino nos sindicatos fosse mantido, o parlamento tornou-se o principal instrumento de a\u00e7\u00e3o p\u00fablica do partido, devido \u00e0 lei antissocialista. Mas, n\u00e3o sem problemas. A social-democracia alem\u00e3 tinha um lema: \u201cNenhuma pessoa; nenhum tost\u00e3o para esse sistema\u201d. Isto significava n\u00e3o votar a favor de nenhuma proposta de or\u00e7amento favor\u00e1vel ao governo, pois refor\u00e7aria o Estado opressor que se queria destruir.<br \/>\nMas, sempre que Bismarck apresentava um projeto de lei que envolvia a concess\u00e3o de cr\u00e9ditos a determinados setores, deputados social-democratas defendiam sua aprova\u00e7\u00e3o sob o pretexto, por exemplo, de que aquilo poderia abrir novas oportunidades de emprego \u00e0 classe oper\u00e1ria. Engels era contra essa forma de ver as coisas, mesmo quando o governo implantou uma forma de seguro para a classe oper\u00e1ria, que hoje poder\u00edamos comparar com o seguro-desemprego, algo in\u00e9dito na \u00e9poca.<br \/>\nEm 1885, Bismarck apresentou uma pol\u00edtica de concess\u00f5es de subs\u00eddios a empresas de navega\u00e7\u00e3o, que gerou expectativas na classe oper\u00e1ria, pois poderia abrir muitos postos de trabalho nos estaleiros do pa\u00eds. Alguns deputados social-democratas passaram a apoiar essa proposta, mesmo que fosse claro que era uma pol\u00edtica colonialista, de exporta\u00e7\u00e3o de produtos alem\u00e3es. Engels, levando em conta estas expectativas, definiu sua t\u00e1tica parlamentar:<br \/>\n\u201cA melhor maneira, nestes casos em que os preconceitos pequenos burgueses dos eleitores devem ser levados em considera\u00e7\u00e3o, \u00e9, em minha opini\u00e3o, dizer: por raz\u00f5es de princ\u00edpio, somos contra, mas, tendo em vista o fato de que voc\u00eas exigem de n\u00f3s propostas positivas e afirmam que estas coisas tamb\u00e9m favorecem os trabalhadores &#8211; o que n\u00f3s negamos, \u00e0 medida que se ventila um benef\u00edcio pouco mais que microsc\u00f3pico -, pedimos que se coloque os trabalhadores e os burgueses em p\u00e9 de igualdade. Para cada milh\u00e3o que voc\u00ea tirar direta ou indiretamente dos bolsos dos trabalhadores para dar \u00e0 burguesia, voc\u00ea deve dar outro milh\u00e3o para os trabalhadores.\u201d<br \/>\nE dizia a Liebknecht, ao mencionar a posi\u00e7\u00e3o do deputado social-democrata Schumacher, que, para respeitar as ilus\u00f5es dos eleitores, sempre que o Estado quisesse oferecer subs\u00eddios \u00e0 burguesia, os deputados deveriam posicionar-se \u201ca favor somente se um mesmo subs\u00eddio estatal do mesmo valor fosse diretamente alocado aos oper\u00e1rios, tanto urbanos quanto rurais\u201d.<br \/>\n\u00c9 claro que esta t\u00e1tica tinha o objetivo de esclarecer \u00e0 classe oper\u00e1ria porque as propostas vindas do governo deviam ser rejeitadas, n\u00e3o para fazer qualquer acordo com ele. Por isso, quando Bebel manifestou d\u00favidas, Engels explicou:<br \/>\n\u201cQuando propomos algo positivo, s\u00f3 devemos formular propostas que sejam <em>vi\u00e1veis<\/em>. Mas, vi\u00e1veis <em>por si pr\u00f3prias<\/em>, mesmo que o governo existente n\u00e3o possa coloc\u00e1-las em pr\u00e1tica. Al\u00e9m disso: quando propomos medidas socialistas, que levariam (como neste caso) \u00e0 derrubada da produ\u00e7\u00e3o capitalista, formulamos propostas que sejam <em>essencialmente pr\u00e1ticas<\/em>, mas que <em>n\u00e3o<\/em> podem ser implementadas por <em>este<\/em> governo.\u201d<br \/>\nQue li\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias Engels nos deixa sobre t\u00e1tica parlamentar!<br \/>\n<strong>Estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria<\/strong><br \/>\nEvidentemente, esta t\u00e1tica parlamentar estava a servi\u00e7o de uma estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria, de tomada do poder pela classe trabalhadora atrav\u00e9s de uma revolu\u00e7\u00e3o, necessariamente violenta, socialista. A b\u00fassola de Engels nunca deixou de apontar para esse norte.<br \/>\nNo entanto, \u00e9 necess\u00e1rio entender que a luta concreta da classe oper\u00e1ria tinha como objetivo a conquista da rep\u00fablica democr\u00e1tica, pela destrui\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do Imp\u00e9rio Alem\u00e3o, pois a burguesia havia demonstrado sua incapacidade de realizar esta tarefa que era historicamente sua. Marx e Engels j\u00e1 haviam chegado a essa conclus\u00e3o ap\u00f3s a trai\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de 1848 pela burguesia. Em 1850 Marx afirmava que a bandeira desta luta passava para as m\u00e3os da classe oper\u00e1ria, mesmo que ela tivesse que passar pelas diversas op\u00e7\u00f5es pequeno-burguesas de \u201csocialismo verdadeiro\u201d que se apresentassem.<br \/>\nMas, a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia e a realiza\u00e7\u00e3o do comunismo nunca estiveram ausentes desse objetivo, nem em 1850, quando Marx declarou a \u201cperman\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o\u201d at\u00e9 seu objetivo final, nem naquela \u00e9poca em que Engels previa a vit\u00f3ria da classe oper\u00e1ria para \u201co fim do s\u00e9culo\u201d.<br \/>\nEm 1883, ele mantinha o mesmo racioc\u00ednio, ao falar da futura revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica na Alemanha:<br \/>\n\u201cO primeiro resultado imediato da revolu\u00e7\u00e3o, entre n\u00f3s, no que diz respeito \u00e0 <em>forma<\/em>, n\u00e3o pode ser outro que a Rep\u00fablica <em>burguesa<\/em>. Mas isto n\u00e3o ser\u00e1 mais do que uma breve fase de transi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que, felizmente, n\u00e3o existe na Alemanha um partido burgu\u00eas puramente republicano. A rep\u00fablica burguesa, talvez liderada pelo Partido Progressista, s\u00f3 nos servir\u00e1, inicialmente, <em>para atrair as grandes massas trabalhadoras para o socialismo revolucion\u00e1rio &#8211;<\/em> o que alcan\u00e7aremos em um ou dois anos &#8211; e servir\u00e1 para desgastar e autodestrui\u00e7\u00e3o de todos os poss\u00edveis partidos intermedi\u00e1rios, mas n\u00e3o o nosso. S\u00f3 ent\u00e3o poderemos tomar o controle com sucesso.\u201d<br \/>\nO tema da conquista da rep\u00fablica era fundamental. Mas, n\u00e3o se tratava de declarar a rep\u00fablica ap\u00f3s a obten\u00e7\u00e3o de uma maioria parlamentar ou de fazer acordo com os partidos burgueses republicanos mais progressistas. As vit\u00f3rias parlamentares eram importantes e ele via a obten\u00e7\u00e3o de uma maioria como poss\u00edvel, mas apenas como ponto de apoio para desencadear a revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria nas ruas.<br \/>\nPor isso, ele dizia a Paul Lafargue, l\u00edder do Partido Oper\u00e1rio franc\u00eas, de orienta\u00e7\u00e3o marxista, em 1894:<br \/>\n\u201cMas uma rep\u00fablica, como qualquer outra forma de governo, \u00e9 determinada pelo que a comp\u00f5e. Desde que seja a forma de governo <em>burgu\u00eas<\/em>, ela \u00e9 t\u00e3o hostil para n\u00f3s como qualquer monarquia (exceto <em>pelas<\/em> <em>formas<\/em> dessa hostilidade). Portanto, \u00e9 uma ilus\u00e3o gratuita trat\u00e1-la como uma forma essencialmente socialista; confiar a ela, enquanto \u00e9 dominada pela burguesia, tarefas socialistas.\u201d<br \/>\nMas, para ele, isso n\u00e3o bastava. Pois, mesmo uma maioria de trabalhadores seria uma presa f\u00e1cil para o ex\u00e9rcito alem\u00e3o poderosamente armado. Seu racioc\u00ednio, que v\u00e1rios detratores chamam de reformista<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, de esperar uma maioria eleitoral para lan\u00e7ar-se ao ataque, tinha um complemento obrigat\u00f3rio: ganhar a base das for\u00e7as armadas, uma necessidade que ele n\u00e3o se cansava de repetir nos \u00faltimos artigos de sua vida. Ao analisar o resultado da elei\u00e7\u00e3o geral de 1877, quando o partido social-democrata obteve cerca de 600 mil votos, uma vit\u00f3ria espetacular, Engels n\u00e3o se deixou levar pelo canto da sereia do parlamentarismo. Ele dizia que a \u201cvota\u00e7\u00e3o permite-nos calcular nossas for\u00e7as\u201d, mas n\u00e3o no parlamento, e sim de apoio dos batalh\u00f5es oper\u00e1rios, e conclu\u00eda:<br \/>\n\u201cE quando digo batalh\u00f5es e corpo do ex\u00e9rcito, n\u00e3o estou falando metaforicamente. Pelo menos metade, se n\u00e3o mais destes homens de 25 anos que votaram em n\u00f3s, passaram dois a tr\u00eas anos de uniforme e sabem perfeitamente como manejar uma pistola de agulha e um canh\u00e3o estriado, e s\u00e3o reservistas do ex\u00e9rcito. Mais alguns anos deste tipo de progresso e teremos conosco os reservistas e a Landwehr (tr\u00eas quartos do ex\u00e9rcito) de modo a imobilizar as for\u00e7as armadas como um todo e tornar imposs\u00edvel qualquer tipo de guerra ofensiva [por parte do governo]\u2026\u201d<br \/>\nA conquista da rep\u00fablica era apenas um passo em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo revolucion\u00e1rio, e as duas coisas n\u00e3o estavam dissociadas. Em rela\u00e7\u00e3o ao programa eleitoral para o campo, por exemplo, Engels disse, em 1894, que \u201cassim que nosso partido estiver de posse do poder pol\u00edtico, ter\u00e1 simplesmente que expropriar os grandes propriet\u00e1rios de terras, assim como os fabricantes industriais\u201d. Isto \u00e9, a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia.<br \/>\nPor que Engels tinha tanta certeza da vit\u00f3ria revolucion\u00e1ria das massas? Em primeiro lugar, pela marcha dos acontecimentos hist\u00f3ricos, como j\u00e1 vimos. Mas, esta marcha de nada serviria se n\u00e3o fosse forjado um proletariado capaz de cumprir com sua tarefa hist\u00f3rica. E Engels tinha uma confian\u00e7a inabal\u00e1vel na classe oper\u00e1ria. Em 1884 ele faria uma s\u00edntese dessas duas condi\u00e7\u00f5es:<br \/>\n\u201cA grande vantagem que temos \u00e9 que a revolu\u00e7\u00e3o industrial na Alemanha apenas se inicia, enquanto na Fran\u00e7a e na Inglaterra ela essencialmente j\u00e1 est\u00e1 completa [&#8230;] Desta forma, conseguimos uma revolu\u00e7\u00e3o industrial mais profunda, e geograficamente mais extensa e mais ampla que a dos outros pa\u00edses e, al\u00e9m disso, com um proletariado perfeitamente saud\u00e1vel, intacto, n\u00e3o desmoralizado pelas derrotas e, finalmente &#8211; gra\u00e7as a Marx &#8211; com uma consci\u00eancia mais clara das causas que movem o desenvolvimento econ\u00f4mico e pol\u00edtico e dos pr\u00e9-requisitos para a revolu\u00e7\u00e3o vindoura que nenhum de nossos antecessores possu\u00eda. Mas, em troca, <em>temos a obriga\u00e7\u00e3o<\/em> de vencer.\u201d<br \/>\n<strong>A funda\u00e7\u00e3o da Segunda Internacional<\/strong><br \/>\nEssa expans\u00e3o da classe oper\u00e1ria, bem como de suas lutas, traduzia-se na organiza\u00e7\u00e3o de partidos socialistas na Europa, influenciados, em maior ou menor medida, pelo marxismo. Na Fran\u00e7a, foi fundado o Partido Oper\u00e1rio; na Inglaterra, surge o Novo Sindicalismo, por fora da estrutura burocr\u00e1tica dos sindicatos comandados pelo TUC (Trades Union Congress), a central oper\u00e1ria do pa\u00eds.<br \/>\nEste ascenso oper\u00e1rio abre a possibilidade da reorganiza\u00e7\u00e3o internacional da classe oper\u00e1ria, cuja \u00faltima express\u00e3o havia sido a I Internacional, que foi levada a um fim ap\u00f3s a derrota da Comuna de Paris, em 1871. Uma demonstra\u00e7\u00e3o disso foram as resolu\u00e7\u00f5es semelhantes adotadas pelo partido social-democrata alem\u00e3o e pelo TUC em seus congressos de 1888, de convocar um encontro internacional para discutir legisla\u00e7\u00e3o trabalhista. Ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o do encontro convocado pelo TUC, foi decidida a convoca\u00e7\u00e3o de um encontro internacional no ano seguinte, em Paris, por ocasi\u00e3o do centen\u00e1rio da revolu\u00e7\u00e3o francesa (4 de julho).<br \/>\nFoi nesta circunst\u00e2ncia que Engels entrou em cena, pois a tarefa de sua convoca\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o foi dada aos chamados Possibilistas, uma organiza\u00e7\u00e3o francesa que restringia a luta do movimento oper\u00e1rio ao que era \u201cposs\u00edvel\u201d conseguir. Ele n\u00e3o podia admitir que uma \u201calian\u00e7a entre os Possibilistas e a Federa\u00e7\u00e3o Social-democrata [inglesa] constitu\u00edsse o n\u00facleo da nova Internacional a ser fundada em Paris\u201d.<br \/>\nSegundo ele, \u201cos esfor\u00e7os persistentes dos Possibilistas e de Hyndman [da Federa\u00e7\u00e3o Social-democrata da Inglaterra] para se infiltrarem na lideran\u00e7a de uma nova Internacional, por meio de seus congressos, tornaram uma luta inevit\u00e1vel para n\u00f3s, e aqui est\u00e1 o \u00fanico ponto em que concordo com Brousse [l\u00edder dos Possibilistas]: que \u00e9 a velha divis\u00e3o na Internacional novamente, que agora divide os trabalhadores em dois campos opostos\u201d. De um lado os herdeiros de Bakunin, sob novas bandeiras, mas com as velhas manobras e t\u00e1ticas, e do outro o movimento oper\u00e1rio real.<br \/>\nEngels orientou o Partido Oper\u00e1rio, cujos dirigentes eram Lafargue e Guesde, a convocar um congresso internacional para Paris na mesma data que o congresso dos Possibilistas; escreveu um panfleto, junto com Bernstein, para denunciar as manobras de Hyndman na Inglaterra e acusando os Possibilistas de serem financiados pelo \u201cfundo dos r\u00e9pteis dos Oportunistas, isto \u00e9, da <em>haute finance<\/em> (alta finan\u00e7a)\u201d; e escreveu aos pequenos partidos socialistas de toda a Europa explicando a situa\u00e7\u00e3o e convidando-os ao congresso do Partido Oper\u00e1rio.<br \/>\nMas, o maior esfor\u00e7o foi feito para convencer o partido alem\u00e3o. Alguns dirigentes defendiam a participa\u00e7\u00e3o no congresso dos Possibilistas, e Liebknecht e Bebel tentavam, a todo custo, unir os dois setores. Liebknecht estava sempre preocupado em encontrar solu\u00e7\u00f5es conciliat\u00f3rias, pois considerava lament\u00e1vel dar \u00e0s classes propriet\u00e1rias o espet\u00e1culo de dois congressos socialistas internacionais que rivalizassem entre si. Para Engels, \u00e0 medida que o congresso dos Possibilistas conseguiu atrair apenas \u201csindicatos n\u00e3o socialistas ou meio-socialistas\u201d, com \u201cum car\u00e1ter bastante distinto do nosso\u201d, a quest\u00e3o da fus\u00e3o era uma quest\u00e3o secund\u00e1ria, e os \u201cdois congressos podem sentar-se lado a lado, sem esc\u00e2ndalo\u201d.<br \/>\nO Congresso Internacional (Socialista) de Trabalhadores foi realizado em Paris entre 14 e 20 de julho de 1889 e tornou-se um congresso constituinte da Segunda Internacional. Participaram 393 delegados, representando os partidos oper\u00e1rios e socialistas de 20 pa\u00edses da Europa e dos Estados Unidos. Uma das principais decis\u00f5es do congresso foi a aprova\u00e7\u00e3o da campanha pela regulamenta\u00e7\u00e3o da jornada de 8 horas e a realiza\u00e7\u00e3o de atos, em 1\u00ba de maio de 1890, em apoio a essa reivindica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEngels ficou exultante com o resultado, descrito acima, e afirmou que \u201cmeus servi\u00e7os n\u00e3o s\u00e3o mais necess\u00e1rios\u201d. Voltaria ao trabalho de edi\u00e7\u00e3o do Livro III do Capital e \u00e0 sua atividade liter\u00e1ria, deixados de lado por alguns meses para poder garantir que a Segunda Internacional fosse uma organiza\u00e7\u00e3o marxista.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ver artigo: <em>Teria Engels se transformado em reformista no final de sua vida? <\/em>Revista Marxismo Vivo n. 16, (a ser publicada online).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA cabe\u00e7a mais formid\u00e1vel de nosso partido deixou de pensar;\u00a0o cora\u00e7\u00e3o mais poderoso que conheci deixou de bater\u201d F. Engels Depois da morte de Marx, em 14 de mar\u00e7o de 1883, Engels viu-se sozinho na tarefa de continuar a obra pol\u00edtica que os dois haviam empreendido por toda sua vida adulta. Mesmo com Marx morto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":62564,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[6,8],"tags":[37,5989,1075,5990],"class_list":["post-62563","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-200-anos-de-engels","category-historia","tag-200-anos-de-engels","tag-engels-e-marx","tag-marcos-margarido","tag-tatica-e-estrategia"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/friedrich-engels-1891-3-1.jpg","categories_names":["200 anos de Engels","Hist\u00f3ria"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62563","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62563"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62563\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/62564"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62563"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62563"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62563"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}