{"id":62503,"date":"2020-11-24T12:23:15","date_gmt":"2020-11-24T15:23:15","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=62503"},"modified":"2020-11-24T12:23:15","modified_gmt":"2020-11-24T15:23:15","slug":"25-de-novembro-de-2020-um-balanco-mortal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/11\/24\/25-de-novembro-de-2020-um-balanco-mortal\/","title":{"rendered":"25 de novembro de 2020: Um balan\u00e7o mortal"},"content":{"rendered":"<p><em>O dia 25 de novembro, Dia Internacional de combate \u00e0 Viol\u00eancia contra a Mulher, \u00e9 a cada ano a triste ocasi\u00e3o para um balan\u00e7o que em 2020 ser\u00e1 muito mais dram\u00e1tico. A viol\u00eancia contra a mulher, definida h\u00e1 algum tempo como uma &#8220;pandemia global&#8221;, tem experimentado um crescimento exponencial em fun\u00e7\u00e3o de outra pandemia, a do Coronav\u00edrus. <\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Laura Sguazzabia<br \/>\nPor meses, a popula\u00e7\u00e3o mundial ficou confinada em suas pr\u00f3prias casas. O confinamento, medida absolutamente necess\u00e1ria para conter a pandemia, tem refor\u00e7ado a situa\u00e7\u00e3o de isolamento em que j\u00e1 se encontravam milhares de mulheres que conviviam com seu agressor. O fato de n\u00e3o poderem sair de casa dificultou ou quase impossibilitou o acesso de muitas dessas mulheres aos recursos de prote\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, a crise econ\u00f4mica anterior, acentuada pela pandemia, atingiu principalmente as mulheres, tornando-as mais vulner\u00e1veis, economicamente dependentes de seus parceiros e impossibilitadas de se distanciar deles, mesmo em situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia.<br \/>\n<strong>A estrutura global e as medidas institucionais<\/strong><br \/>\nCertamente n\u00e3o era necess\u00e1rio chegar at\u00e9 o dia de hoje para perceber a natureza dram\u00e1tica dos dados. J\u00e1 nos meses de primavera [no hemisf\u00e9rio norte], em meio ao <em>lockdown<\/em> [bloqueio], in\u00fameros alarmes foram disparados a esse respeito em v\u00e1rias partes do mundo e de diferentes fontes sobre o agravamento da situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo final de mar\u00e7o, na Fran\u00e7a, onde o isolamento social come\u00e7ou no dia 17 daquele m\u00eas, o Ministro do Interior revelou que a viol\u00eancia de g\u00eanero havia aumentado 30%.<br \/>\nNos Estados Unidos, durante a pandemia, a cada minuto, em algum lugar, uma mulher relatava que estava sendo abusada pelo parceiro.<br \/>\nNa Gr\u00e3-Bretanha, a pol\u00edcia de Londres fez mais de 4.000 pris\u00f5es por viol\u00eancia dom\u00e9stica nas primeiras seis semanas de &#8220;parada&#8221; no pa\u00eds; uma linha direta confidencial recebeu 49% a mais de liga\u00e7\u00f5es desde que as medidas de seguran\u00e7a e isolamento entraram em vigor.<br \/>\nNa Argentina, ocorreram 20 feminic\u00eddios no per\u00edodo de um m\u00eas, de 20 de mar\u00e7o a 20 de abril.<br \/>\nEm El Salvador, a Promotoria de Direitos Humanos denunciou nove feminic\u00eddios no primeiro m\u00eas do <em>lockdown<\/em> e, segundo as autoridades, o n\u00famero real provavelmente \u00e9 maior.<br \/>\nNo M\u00e9xico, desde 13 de abril, foram assassinadas mais mulheres (367) do que aquelas que morreram de Covid-19 (100) desde o primeiro caso confirmado de coronav\u00edrus no pa\u00eds, em 28 de fevereiro.<br \/>\nUm estudo recente do F\u00f3rum de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Brasil constatou que o feminic\u00eddio em seis estados brasileiros aumentou 56% em mar\u00e7o, em compara\u00e7\u00e3o com o mesmo per\u00edodo do ano passado (de 32 para 50 mortes).<br \/>\nCom o <em>lockdown<\/em>, as liga\u00e7\u00f5es para linhas de ajuda no L\u00edbano, Mal\u00e1sia e at\u00e9 na China triplicaram.<br \/>\nNa Som\u00e1lia, as medidas de <em>lockdown<\/em> levaram a um aumento da mutila\u00e7\u00e3o genital feminina, de acordo com a ONG Plan International.<br \/>\nNa Austr\u00e1lia, sites de busca como o Google tiveram o maior volume de solicita\u00e7\u00f5es de assist\u00eancia \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica nos \u00faltimos cinco anos.<br \/>\nNa It\u00e1lia, de acordo com o Istat, que examinou as liga\u00e7\u00f5es para o antiviol\u00eancia, n\u00famero 1522, durante o <em>lockdown<\/em> houve um aumento de 73% nos pedidos de ajuda em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo do ano passado. Al\u00e9m disso, 45,3% das v\u00edtimas temiam pela pr\u00f3pria seguran\u00e7a ou pela morte; mas 72,8% n\u00e3o denunciaram o crime imediatamente. Assim, 30 mulheres foram assassinadas nos primeiros cinco meses de 2020.<br \/>\nUma tend\u00eancia cujo destino n\u00e3o \u00e9 parar. Dados divulgados pelo United Nations Population Fund apontam para um aumento de 20% na viol\u00eancia desde o in\u00edcio da pandemia nos 193 Estados membros das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Os pesquisadores preveem um n\u00famero de casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica perto de 15 milh\u00f5es a cada tr\u00eas meses de prolongamento do <em>lockdown<\/em>, e que, com a continua\u00e7\u00e3o das restri\u00e7\u00f5es e a interrup\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os, at\u00e9 44 milh\u00f5es de mulheres de baixa e m\u00e9dia renda em 114 pa\u00edses n\u00e3o ter\u00e3o mais acesso \u00e0 contracep\u00e7\u00e3o, resultando em aproximadamente um milh\u00e3o de gravidezes indesejadas.<br \/>\nOrganiza\u00e7\u00f5es ativas na luta contra a viol\u00eancia de g\u00eanero imediatamente relataram o risco e conclamaram os governos do mundo a tomar medidas para enfrentar o problema. Na It\u00e1lia, como em outros pa\u00edses, o Estado lan\u00e7ou tardiamente campanhas de emerg\u00eancia contra a viol\u00eancia dom\u00e9stica, criando alguns aplicativos, um c\u00f3digo de den\u00fancia (m\u00e1scara), um n\u00famero de telefone: mas \u00e9 preciso dizer que nem todas as mulheres t\u00eam facilidade de acesso \u00e0 Internet e mesmo quando o faz, a presen\u00e7a constante do agressor muitas vezes constitui um limite para acessar o servi\u00e7o.<br \/>\n<strong>Viol\u00eancia do sistema contra as mulheres<\/strong><br \/>\nAgress\u00f5es f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas, feminic\u00eddios, viol\u00eancia e outras formas de ass\u00e9dio; mutila\u00e7\u00f5es genitais, casamentos for\u00e7ados e tr\u00e1fico de pessoas para explora\u00e7\u00e3o sexual s\u00e3o os tipos mais comuns de viol\u00eancia contra a mulher, constituem a parte mais evidente do fen\u00f4meno denominado \u201cviol\u00eancia de g\u00eanero\u201d e s\u00e3o a parte mais vis\u00edvel, aquela fotografada pelos dados oficiais. Existe, no entanto, uma realidade submersa e igualmente brutal, constitu\u00edda pelo trabalho prec\u00e1rio e mal remunerado, de concilia\u00e7\u00e3o dos tempos de trabalho e vida, de cuidado da fam\u00edlia, de trabalho dom\u00e9stico, em que as mulheres enfrentam formas mais sutis e menos percept\u00edveis de viol\u00eancia.<br \/>\nO impacto da crise de sa\u00fade da Covid-19, somado ao da crise econ\u00f4mica j\u00e1 em curso h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, foi devastador para todos os trabalhadores, por\u00e9m, mais uma vez, atingiu as mulheres com mais for\u00e7a que normalmente j\u00e1 t\u00eam menos seguran\u00e7a no emprego, ganham menos e t\u00eam o fardo de cuidar e ajudar os familiares. As consequ\u00eancias para as mulheres trabalhadoras foram, s\u00e3o e ser\u00e3o particularmente cru\u00e9is porque a combina\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o, que as coloca em uma situa\u00e7\u00e3o de desigualdade na sociedade, as torna o alvo preferencial de agressores machistas.<br \/>\nEm um momento t\u00e3o dram\u00e1tico, nenhum governo discutiu um valor m\u00ednimo para atribuir \u00e0s mulheres que, mais do que os homens, se encontravam sem independ\u00eancia econ\u00f4mica, absolutamente necess\u00e1ria para poder fugir das situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia. A indiferen\u00e7a de todos os governos burgueses em proteger os direitos das mulheres e as jovens n\u00e3o pode ser considerada uma mera superficialidade: sua falta de vontade pol\u00edtica e sua coniv\u00eancia t\u00eam a ver com o fato de que o capitalismo se beneficia da viol\u00eancia e da opress\u00e3o para dividir os trabalhadores e sujeit\u00e1-los ainda mais, a servi\u00e7o da explora\u00e7\u00e3o de toda a classe e da superexplora\u00e7\u00e3o de setores inteiros dela, como as mulheres.<br \/>\nA viol\u00eancia social condena as mulheres trabalhadoras, seus filhos e suas fam\u00edlias \u00e0 fome, \u00e0 doen\u00e7a e \u00e0 pobreza, mas n\u00e3o \u00e9 denunciada pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas ou outras ag\u00eancias do imperialismo, muito h\u00e1beis em estat\u00edstica, porque, precisamente, \u00e9 provocada pelo pr\u00f3prio sistema capitalista que eles defendem e sustentam.<br \/>\nEste sistema n\u00e3o pode e n\u00e3o quer resolver as quest\u00f5es de g\u00eanero porque o controle social de uma classe sobre a outra \u00e9 baseado nessas diferen\u00e7as. A onda de viol\u00eancia que atingiu o universo feminino no mundo n\u00e3o \u00e9 fruto de uma emerg\u00eancia, mas consequ\u00eancia de escolhas precisas, operadas por um sistema em crise, o capitalista, que tenta se auto preservar. \u00c9, portanto, hip\u00f3crita pensar que o pr\u00f3prio Estado capitalista que contribui para criar e fomentar essas situa\u00e7\u00f5es de isolamento dom\u00e9stico das mulheres, essa falta de autonomia econ\u00f4mica e autodetermina\u00e7\u00e3o, possa proteger seus direitos. As condi\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria e pobreza s\u00e3o o terreno ideal porque a viol\u00eancia e os maus tratos \u00e0s mulheres se aprofundam.<br \/>\nComo mulheres prolet\u00e1rias, oprimidas e exploradas, lutaremos at\u00e9 a morte para derrotar a viol\u00eancia machista e a opress\u00e3o das mulheres. No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio unir esta luta com a de toda a classe trabalhadora pela derrubada do sistema capitalista em dire\u00e7\u00e3o a um novo modo de vida, o socialismo, que tornar\u00e1 imposs\u00edveis as bases materiais para a opress\u00e3o de g\u00eanero.<br \/>\nArtigo publicado no Progetto Comunista n. \u00b0 97, novembro 2020, p. 12<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o italiano\/espanhol: Natalia Estrada, espanhol\/portugu\u00eas: Lena Souza<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dia 25 de novembro, Dia Internacional de combate \u00e0 Viol\u00eancia contra a Mulher, \u00e9 a cada ano a triste ocasi\u00e3o para um balan\u00e7o que em 2020 ser\u00e1 muito mais dram\u00e1tico. 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