{"id":62433,"date":"2020-11-28T02:36:05","date_gmt":"2020-11-28T05:36:05","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=62433"},"modified":"2020-11-28T02:36:05","modified_gmt":"2020-11-28T05:36:05","slug":"engelsbiografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/11\/28\/engelsbiografia\/","title":{"rendered":"Engels, uma nova biografia"},"content":{"rendered":"<p>Desde a eclos\u00e3o da nova crise econ\u00f4mica, uma d\u00fazia de monografias sobre Karl Marx foram publicadas (quase todas med\u00edocres), enquanto Friedrich Engels continua sendo ignorado. Da\u00ed as expectativas que nos despertam o aparecimento, nas prateleiras das livrarias, da biografia escrita por Tristram Hunt, <em>A vida revolucion\u00e1ria de Friedrich Engels<\/em> (1).<br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Francesco Ricci<br \/>\n<strong>Engels n\u00e3o era um monge trapista<\/strong><br \/>\nInfelizmente, as expectativas s\u00e3o frustradas com a leitura: embora o livro de Hunt n\u00e3o seja de todo ruim, como veremos.<br \/>\nBoa metade das quase 400 p\u00e1ginas que comp\u00f5em o volume \u00e9 dedicada \u00e0 juventude de Engels, ou seja, ao Engels pr\u00e9-marxista. Muitas anedotas familiares, dezenas de p\u00e1ginas dedicadas \u00e0s aventuras galantes e menos galantes do futuro cofundador do socialismo cient\u00edfico. Namoros, embriaguez, duelos. Hunt (um professor universit\u00e1rio ingl\u00eas, laborista) parece ter investigado durante anos epis\u00f3dios que tamb\u00e9m podem intrigar (e \u00e0s vezes divertir), mas que n\u00e3o t\u00eam nenhum interesse especial em entender como aquele jovem turbulento cresceu um dos maiores revolucion\u00e1rios de todos os tempos. O objetivo de Hunt, pelo menos na primeira parte do livro, parece ser mostrar que os comunistas (e mesmo um dos pais do comunismo revolucion\u00e1rio) n\u00e3o s\u00e3o frades trapistas dedicados a meditar sobre a morte. Meta facilmente alcan\u00e7ada, j\u00e1 que Engels nunca escondeu seu car\u00e1ter extrovertido e alegre, um homem de a\u00e7\u00e3o em todos os campos (inclusive do conhecimento) e seu profundo amor pela vida.<br \/>\n<strong>Um livro documentado, mas privado de uma b\u00fassola materialista<\/strong><br \/>\nPor\u00e9m, as p\u00e1ginas um tanto in\u00fateis (mesmo que lidas com prazer) que comp\u00f5em a primeira metade da biografia de Hunt est\u00e3o bem documentadas e o mesmo se pode dizer da obra como um todo: n\u00e3o se trata de um dos tantos livros. (se pensarmos sobre Marx e L\u00eanin) escrito apenas para tentar diminuir os gigantes do pensamento revolucion\u00e1rio. E, al\u00e9m disso, Hunt tem um estilo de escrita agrad\u00e1vel e sabe como combinar o aned\u00f3tico com boa aten\u00e7\u00e3o \u00e0s fontes (o que torna o texto n\u00e3o muito pesado). No entanto, falta a compreens\u00e3o do bi\u00f3grafo (e isso \u00e9 crime para uma biografia) do bi\u00f3grafo sobre o personagem. O que determina que debates de import\u00e2ncia primordial na hist\u00f3ria do pensamento comunista tenham o mesmo espa\u00e7o que reconstru\u00e7\u00f5es detalhadas de epis\u00f3dios secund\u00e1rios da vida privada de Engels: algumas dezenas de p\u00e1ginas s\u00e3o consumidas, por assim dizer, para nos informar da paix\u00e3o de Engels pela ca\u00e7a (e ca\u00e7a da raposa em particular).<br \/>\nEm suma, o verdadeiro problema com Tristram Hunt \u00e9 que, para colocar em uma express\u00e3o amada por Engels e Marx, ele \u00e9 um verdadeiro filisteu. Hunt, que deve ter estudado os textos de Engels cuidadosamente, n\u00e3o entende alguns elementos b\u00e1sicos do materialismo hist\u00f3rico. E isso o leva a cometer erros. Alguns exemplos. A certa altura (p\u00e1gina 210 da edi\u00e7\u00e3o italiana), ele explica que Engels, s\u00f3 quando velho, corrigiu sua concep\u00e7\u00e3o de dial\u00e9tica em um sentido antimecanicista (curioso: na verdade \u00e9 exatamente o oposto do que geralmente defendem, com o erro oposto, os muitos que quiseram deter Marx e Engels nos primeiros escritos quando jovens).<br \/>\nUm pouco mais adiante, Hunt tenta entender a posi\u00e7\u00e3o de Marx e Engels na guerra civil franco-prussiana (prel\u00fadio da Comuna de Paris): mas o bi\u00f3grafo prescinde de usar a concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria, a posi\u00e7\u00e3o dos dois grandes revolucion\u00e1rios se remonta a seu &#8220;\u00f3dio por Napole\u00e3o III&#8221;. E novamente, Hunt chega ao absurdo de afirmar que Marx e Engels estavam felizes com a aus\u00eancia de um partido marxista desenvolvido na primavera de 1871 em Paris, porque assim (citamos Hunt) se na Comuna &#8220;tudo tinha dado errado, teria sido culpa de qualquer outro&#8221; (p. 244).<br \/>\nE paramos aqui, mas poder\u00edamos continuar a listar exemplos da evidente incompreens\u00e3o de Hunt sobre alguns eventos hist\u00f3ricos fundamentais. O lado positivo (que j\u00e1 mencionamos acima) \u00e9 que a refer\u00eancia constante e abundante das fontes (Hunt revisou os textos de Engels, a correspond\u00eancia sem fim, etc.) permite ao leitor distinguir as informa\u00e7\u00f5es do julgamento muitas vezes tosco do autor.<br \/>\n<strong>Esperando por outros bi\u00f3grafos<\/strong><br \/>\nQuanto ao marxismo, Hunt o trata com certa benevol\u00eancia: a mesma que reserva \u00e0 paix\u00e3o de Engels pelo vinho do porto e os charutos. Mas o rebaixa (ao marxismo) a uma filosofia ut\u00f3pica que n\u00e3o se reconcilia com a realidade. Tanto \u00e9 assim que (esta \u00e9 a tese, n\u00e3o muito original para dizer a verdade, da parte final do livro) quando o marxismo tentou se realizar, nasceu o monstro stalinista: que Hunt (como todos os historiadores burgueses) rebaixa Lenin e sua suposta &#8220;sede de poder&#8221; (p. 344).<br \/>\nEm \u00faltima an\u00e1lise, o objetivo do bi\u00f3grafo laborista \u00e9, como se evidencia no final da leitura, demonstrar a inviabilidade do projeto comunista e a necessidade, portanto, de se adaptar \u00e0 sociedade capitalista, no m\u00e1ximo entregando-a a gest\u00e3o laborista.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nAssim, a agrad\u00e1vel surpresa de ver o nome de Engels reaparecer nas livrarias \u00e9, em grande parte, frustrada. Os leitores que desejam ler uma biografia cient\u00edfica sobre o &#8220;segundo violino&#8221; do marxismo (como o companheiro de Marx se autodenominava, com injustificada mod\u00e9stia) devem continuar se baseando no estudo de Gustav Mayer dos anos 1930 (Friedrich Engels). No livro de Mayer n\u00e3o se encontrar\u00e1 detalhes sobre os charutos de Engels, mas se descobrir\u00e1 como o marxismo deve a Engels n\u00e3o apenas os textos assinados junto com Marx, mas tamb\u00e9m muitas obras que apareceram com o nome de Marx, mas escritas por Engels ou baseadas em estudos de Engels ou textos iniciados por Marx, mas conclu\u00eddos por Engels (come\u00e7ando por <em>O Capital<\/em>). N\u00e3o s\u00f3 isso: Mayer demonstra o papel fundamental que Engels teve na segunda parte de sua vida e ap\u00f3s a morte de Marx (em 1883): foi gra\u00e7as ao seu trabalho pol\u00edtico que o marxismo e os partidos marxistas se desenvolveram internacionalmente.<br \/>\nInfelizmente, al\u00e9m de Mayer (e um bom livro, que recomendamos, de Steven Marcus, <em>Engels, Manchester e a classe oper\u00e1ria<\/em>, que, no entanto, se concentra apenas no jovem Engels de <em>A situa\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria na Inglaterra<\/em>), n\u00e3o temos por agora outros textos biogr\u00e1ficos sobre Engels escritos por historiadores materialistas: tamb\u00e9m porque o piolet de Stalin interrompeu (entre outras coisas) o projeto de Trotsky de escrever uma biografia de Marx e Engels. O leitor que, j\u00e1 tendo lido Mayer, ainda deseja conhecer melhor Engels, pode ler o livro de Hunt. At\u00e9 porque o assunto \u00e9 t\u00e3o interessante que nem pode ser afogado pelo mar de ideias filisteias de um professor laborista.<br \/>\nFinalmente, deve-se dar um cr\u00e9dito a Hunt: por ter escapado pelo menos do principal clich\u00ea enfatizado in\u00fameras vezes pelos reformistas: apresentar o falecido Engels como um pacifista convicto de um caminho parlamentar para o socialismo. N\u00e3o, senhor, at\u00e9 o professor admite (p. 330 e seguintes), n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico texto de Engels que possa ser invocado por algu\u00e9m que pretenda apoiar esta teoria rid\u00edcula. Quando jovem e velho, Engels sempre foi um revolucion\u00e1rio que via em cada t\u00e1tica (inclusive a eleitoral) apenas um passo em dire\u00e7\u00e3o ao inevit\u00e1vel confronto revolucion\u00e1rio com as &#8220;gangues armadas&#8221; com as quais o Estado capitalista defende a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o, por derrubar o capitalismo e seus governos e constituir a ditadura do proletariado, ou seja, o poder dos trabalhadores. E assim, sem esconder essa estranha simpatia que \u00e0s vezes \u00e9 sentida pelo que \u00e9 visto como totalmente estranho, Hunt conclui esbo\u00e7ando um Engels (a quem seus amigos chamaram de &#8220;general&#8221; por causa de seu interesse tamb\u00e9m pelos aspectos militares da revolu\u00e7\u00e3o) que tamb\u00e9m velho &#8220;Ainda palpitava para se juntar \u00e0 cavalaria para o ataque.&#8221; E nessa representa\u00e7\u00e3o finalmente sincera, encontramos o verdadeiro Engels, comunista revolucion\u00e1rio, inimigo inflex\u00edvel de todas as ilus\u00f5es gradualistas e reformistas.<br \/>\n(1) A vers\u00e3o original em ingl\u00eas foi lan\u00e7ada em 2009. Foi traduzida para os principais idiomas, com t\u00edtulos parcialmente diferentes: &#8220;Comunista de Casaca. A revolucion\u00e1ria vida de Friedrich Engels&#8221; (portugu\u00eas do Brasil); &#8220;O cavalheiro comunista: a vida revolucion\u00e1ria de Friedrich Engels&#8221; (em espanhol), etc.<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o italiano\/espanhol: Natalia Estrada<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o espanhol\/portugu\u00eas: Lena Souza<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde a eclos\u00e3o da nova crise econ\u00f4mica, uma d\u00fazia de monografias sobre Karl Marx foram publicadas (quase todas med\u00edocres), enquanto Friedrich Engels continua sendo ignorado. 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