{"id":61825,"date":"2020-10-02T17:53:20","date_gmt":"2020-10-02T20:53:20","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/sem-categoria\/premio-nobel-da-paz-para-trump\/"},"modified":"2020-10-02T17:53:20","modified_gmt":"2020-10-02T20:53:20","slug":"premio-nobel-da-paz-para-trump","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/10\/02\/premio-nobel-da-paz-para-trump\/","title":{"rendered":"Pr\u00eamio Nobel da Paz para Trump?"},"content":{"rendered":"<p><em>Um parlamentar noruegu\u00eas e v\u00e1rios deputados do Partido Republicano dos EUA anunciaram a indica\u00e7\u00e3o do presidente Donald Trump ao Pr\u00eamio Nobel da Paz de 2021 por <strong>\u201cseu papel no acordo de paz entre Israel e os Emirados \u00c1rabes Unidos\u201d<\/strong><\/em> [1].<br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Alejandro Iturbe<br \/>\nPode parecer uma piada que algu\u00e9m como Trump seja objeto desta indica\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o o \u00e9, e menos ainda, se considerarmos que, no passado, v\u00e1rios presidentes dos Estados Unidos j\u00e1 receberam este pr\u00eamio e, muitas outras personalidades pol\u00edticas consideradas n\u00e3o muito \u201cpac\u00edficas\u201d.<br \/>\n<strong>A hist\u00f3ria do Pr\u00eamio Nobel<\/strong><br \/>\nAlfred Nobel (1833-1896) foi o qu\u00edmico sueco que inventou a dinamite e ganhou uma fortuna com essa inven\u00e7\u00e3o. Em seu testamento (dizem que lamentou o uso b\u00e9lico de sua inven\u00e7\u00e3o) ordenou que os rendimentos desse capital fossem usados \u200b\u200bpara premiar <em>&#8220;aqueles que, no ano anterior, tivessem proporcionado maior benef\u00edcio \u00e0 humanidade&#8221;<\/em>.<br \/>\nEm 1901, a Funda\u00e7\u00e3o Nobel que administra esses bens criou o pr\u00eamio que leva seu nome. Esses mesmos comit\u00eas de intelectuais e cientistas passaram a escolher os vencedores nas \u00e1reas de F\u00edsica, Qu\u00edmica, Medicina e Fisiologia, Literatura e da Paz. Em 1969, por decis\u00e3o da funda\u00e7\u00e3o, foi incorporada a \u00e1rea de Economia.<br \/>\nOs de F\u00edsica, Qu\u00edmica e Economia s\u00e3o atualmente concedidos pela Real Academia de Ci\u00eancias da Su\u00e9cia; o de Medicina e Fisiologia pelo Instituto Karolinska, e o de Literatura pela Academia Sueca. Por sua vez, o Pr\u00eamio Nobel da Paz \u00e9 concedido na vizinha Noruega por um comit\u00ea de cinco membros nomeados pelo Parlamento daquele pa\u00eds.<br \/>\nAl\u00e9m do prest\u00edgio internacional que o acompanha, o ganhador de um Nobel recebe o equivalente a 1,1 milh\u00f5es de d\u00f3lares. Se o pr\u00eamio for partilhado entre duas ou mais pessoas ou institui\u00e7\u00f5es, o valor \u00e9 dividido em partes iguais.<br \/>\n<strong>Os pr\u00eamios cient\u00edficos<\/strong><br \/>\nOs crit\u00e9rios de atribui\u00e7\u00e3o dos pr\u00eamios nas \u00e1reas cient\u00edficas s\u00e3o os mais objetivos e tendem a responder ao que os respectivos j\u00faris consideram contribui\u00e7\u00f5es significativas na respectiva \u00e1rea. Por exemplo, Albert Einstein recebeu o Pr\u00eamio de F\u00edsica em 1922, <em>&#8220;por suas contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 f\u00edsica te\u00f3rica&#8221;<\/em>.<br \/>\nPode-se objetar o fato de que a esmagadora maioria dos pr\u00eamios foi concedida a cientistas de pa\u00edses imperialistas (EUA, Jap\u00e3o, Austr\u00e1lia, Europa como um todo) ou que residem e fazem pesquisas em alguns desses pa\u00edses. Muito raramente os pr\u00eamios foram para cientistas que pesquisavam e\/ou residiam em outros pa\u00edses e regi\u00f5es fora dos mencionados.<br \/>\nEm Medicina e Fisiologia isso s\u00f3 aconteceu com Bernardo Houssey (1947, Argentina); Max Teller (1951, \u00c1frica do Sul); Sydney Brenner (2002, \u00c1frica do Sul) e Tu Youyou (2015, China). Em F\u00edsica esta situa\u00e7\u00e3o se repete, com exce\u00e7\u00e3o de alguns pr\u00eamios concedidos, individualmente ou compartilhados, aos f\u00edsicos da ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (1958, 1962, 1963 e 1968) e ao paquistan\u00eas Abdus Salam, em 1979. Em Qu\u00edmica, apenas dois vencedores fogem dessa regra: o argentino Luis Federico Leloir (1970) e o mexicano Mario Molina (1995).<br \/>\nNesta realidade existe, \u00e9 claro, algum grau de discrimina\u00e7\u00e3o. Mas, essencialmente, reflete o controle da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica mantido pelos pa\u00edses imperialistas, com pouco ou nenhum espa\u00e7o para outras na\u00e7\u00f5es. Quando, apesar da falta de financiamento e apoio estatal, um cientista desses pa\u00edses se destaca notoriamente, na maioria das vezes os pa\u00edses imperialistas o &#8220;importam&#8221; para pesquisar para eles.<br \/>\n<strong>Literatura e Economia<\/strong><br \/>\nOs pr\u00eamios de literatura s\u00e3o concedidos com crit\u00e9rios bem mais subjetivos. \u00c9 dado a figuras indiscut\u00edveis por sua import\u00e2ncia e transcend\u00eancia, bem como para escritores praticamente desconhecidos. Uma subjetividade que muitas vezes, n\u00e3o est\u00e1 isenta de inten\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<br \/>\nAo mesmo tempo, nesta \u00e1rea \u00e9 reiterada a vis\u00e3o imperialista e europeia do mundo Poucos pr\u00eamios s\u00e3o atribu\u00eddos a autores n\u00e3o origin\u00e1rios desses pa\u00edses. Por exemplo, apenas seis latino-americanos o receberam, e somente um em l\u00edngua portuguesa: Jos\u00e9 Saramago.<br \/>\nPor sua vez, a concess\u00e3o do Pr\u00eamio de Economia tem um conte\u00fado claramente pol\u00edtico, que tem seguido a proposta e as preocupa\u00e7\u00f5es imperialistas do momento nessa \u00e1rea. Por exemplo, em 1976 foi premiado o norte-americano Milton Friedman, criador da chamada &#8220;Escola de Chicago&#8221; e principal te\u00f3rico da ofensiva contra os sal\u00e1rios e as conquistas dos trabalhadores, pol\u00edtica implementada pelo imperialismo e as burguesias nacionais ap\u00f3s o fim do boom econ\u00f4mico do per\u00edodo p\u00f3s-guerra.<br \/>\nPosteriormente, frente aos dois ciclos de crise econ\u00f4mica internacional, em uma oscila\u00e7\u00e3o do p\u00eandulo, receberam o pr\u00eamio os economistas neokeynesianos [2] Joseph Stiglitz (2001) e Paul Krugman (2008), ambos norte-americanos.<br \/>\nA preocupa\u00e7\u00e3o com a explosiva situa\u00e7\u00e3o mundial criada pela decad\u00eancia irrevers\u00edvel do capitalismo imperialista foi expressa, de forma mais contundente, na premia\u00e7\u00e3o de 2019 concedida a Michel Kremer (EUA), Esther Duflo (Fran\u00e7a) e Ahijiot Banerjee (\u00cdndia) por sua <em>&#8220;abordagem experimental para aliviar a pobreza global&#8221;.<\/em><br \/>\n<strong>Paz, que paz?<\/strong><br \/>\nVoltando \u00e0 indica\u00e7\u00e3o da candidatura de Trump para 2021. O Pr\u00eamio Nobel da Paz \u00e9, sem d\u00favida, o mais \u201cpol\u00edtico\u201d dos pr\u00eamios. Em muitas ocasi\u00f5es, \u00e9 outorgado com uma vis\u00e3o claramente imperialista do que significa &#8220;paz&#8221;. Em outras, visa &#8220;desmontar as bombas&#8221; da luta de classes a n\u00edvel internacional e premia aqueles que ajudam nisso.<br \/>\nNo primeiro caso, receberam o pr\u00eamio figuras nada pac\u00edficas, como o teuto-norte-americano Henry Kissinger (1973), principal assessor do presidente Richard Nixon em sua escalada na Guerra do Vietn\u00e3; os assassinos sionistas israelenses Menahem Begin (1978) e Shimon Peres (1994), as erroneamente chamadas For\u00e7as de Paz da ONU (os Capacetes Azuis), em 1988 (os mesmos que, poucos anos depois, atuariam como tropa de ocupa\u00e7\u00e3o imperialista no Haiti) e o colombiano Juan Manuel Santos, em 2016.<br \/>\nSobre aqueles que ajudaram (ou pelo menos tentaram) \u201cdesmontar as bombas\u201d da luta de classes, podemos citar o dirigente sindical polon\u00eas Lech Walesa (1983); o sul-africano Nelson Mandela (1993) e o l\u00edder palestino Yasser Arafat (1994).<br \/>\nEm alguns casos, essa linha de &#8220;acalmar os \u00e2nimos&#8221; avan\u00e7ou em dire\u00e7\u00e3o a figuras que geravam grande simpatia por seu papel em circunst\u00e2ncias muito dif\u00edceis, como o l\u00edder negro Martin Luther King (1964), em meio \u00e0 luta pelos direitos civis; o ativista cat\u00f3lico argentino Adolfo P\u00e9rez Esquivel pelos direitos humanos (1980), durante os anos da sangrenta ditadura no pa\u00eds, e a l\u00edder ind\u00edgena guatemalteca Rigoberta Mench\u00fa (1992).<br \/>\nPodemos dizer que a indica\u00e7\u00e3o de Trump, figura beligerante, machista e xen\u00f3foba, parece uma piada (de mau gosto). Mas n\u00e3o o \u00e9, basta lembrar que tr\u00eas presidentes norte-americanos j\u00e1 foram premiados. O primeiro foi Theodore \u201cTeddy\u201d Roosevelt (1906), ide\u00f3logo da tese do <em>big stick<\/em>, o \u201cgrande porrete\u201d, que os Estados Unidos poderiam aplic\u00e1-la aos povos de seu autoproclamado \u201cquintal\u201d latino-americano.<br \/>\n\u00c9 verdade que, ao contr\u00e1rio de muitos antecessores nesse cargo, Trump n\u00e3o iniciou nenhuma guerra internacional e est\u00e1 tentando retirar definitivamente os Estados Unidos do conflito no Afeganist\u00e3o. No entanto, Trump tem uma \u201cvoca\u00e7\u00e3o b\u00e9lica\u201d: em 2017, amea\u00e7ou atacar a Cor\u00e9ia do Norte; sempre amea\u00e7a invadir a Venezuela, e na guerra s\u00edria interv\u00e9m consideravelmente.<br \/>\nSe ele n\u00e3o avan\u00e7ou mais em suas inten\u00e7\u00f5es, n\u00e3o foi devido ao &#8220;pacifismo&#8221;, mas porque &#8220;a realidade o obrigou a parar&#8221; (leia-se a luta de classes e a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mundial). Na aus\u00eancia de guerras cl\u00e1ssicas, Trump aflora sua \u201cvoca\u00e7\u00e3o\u201d na guerra tecnol\u00f3gico-comercial que iniciou com a China e, em n\u00edvel nacional, \u00e9 o \u201ccomandante\u201d da guerra contra a popula\u00e7\u00e3o negra e os imigrantes.<br \/>\nN\u00e3o acreditamos que Donald Trump receber\u00e1 este pr\u00eamio. \u00c9 mesmo poss\u00edvel que nem passe da fase em que a lista dos indicados \u00e9 reduzida a um n\u00famero menor de candidatos. Nas atuais condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do mundo, isso seria visto como uma provoca\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCertamente, os membros pr\u00f3-imperialistas do comit\u00ea noruegu\u00eas que o concede gostariam de ter novamente um presidente dos Estados Unidos como Barack Obama, uma figura muito mais \u201cvend\u00e1vel\u201d, que j\u00e1 foi premiado em 2009 <em>\u201cpor seus esfor\u00e7os pela paz mundial\u201d<\/em>. Foi uma total hipocrisia: Obama det\u00e9m o recorde de manter seu pa\u00eds em uma guerra internacional (Afeganist\u00e3o) e, nacionalmente, foi o presidente que expulsou mais imigrantes dos Estados Unidos na hist\u00f3ria.<br \/>\nPara o comit\u00ea que elege o Pr\u00eamio Nobel da Paz, como vimos, isso n\u00e3o \u00e9 um obst\u00e1culo. No entanto, no atual contexto internacional, premiar Trump j\u00e1 seria um excesso.<br \/>\nNotas:<br \/>\n[1] <a href=\"https:\/\/www.baenegocios.com\/mundo\/Nominan-a-Donald-Trump-para-el-Nobel-de-la-Paz-2021-20200909-0003.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.baenegocios.com\/mundo\/Nominan-a-Donald-Trump-para-el-Nobel-de-la-Paz-2021-20200909-0003.html<\/a><br \/>\n[2] Refere-se \u00e0queles que adotam a vis\u00e3o do economista brit\u00e2nico John Maynard Keynes (1883-1946), uma figura-chave na configura\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica internacional do segundo p\u00f3s-guerra. Keynes postula a necessidade de uma interven\u00e7\u00e3o ativa do estado burgu\u00eas e das organiza\u00e7\u00f5es internacionais para corrigir os profundos desequil\u00edbrios criados pelo livre mercado puro e assim evitar ciclos peri\u00f3dicos de crise.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um parlamentar noruegu\u00eas e v\u00e1rios deputados do Partido Republicano dos EUA anunciaram a indica\u00e7\u00e3o do presidente Donald Trump ao Pr\u00eamio Nobel da Paz de 2021 por \u201cseu papel no acordo de paz entre Israel e os Emirados \u00c1rabes Unidos\u201d [1].<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":70738,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3519,3523],"tags":[1551,5844,20],"class_list":["post-61825","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-eua","category-opiniao","tag-alejandro-iturbe","tag-premio-nobel-da-paz","tag-trump"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/arton38553.jpg","categories_names":["Estados Unidos","Opini\u00e3o"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61825","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61825"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61825\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70738"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61825"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61825"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61825"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}