{"id":61712,"date":"2020-09-08T15:15:27","date_gmt":"2020-09-08T18:15:27","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=61712"},"modified":"2020-09-08T15:15:27","modified_gmt":"2020-09-08T18:15:27","slug":"luiz-gama-um-exemplo-a-ser-eternizado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/09\/08\/luiz-gama-um-exemplo-a-ser-eternizado\/","title":{"rendered":"Luiz Gama: um exemplo a ser eternizado"},"content":{"rendered":"<p><em>Em 24 de agosto de 1882, morreu Luiz Gama, uma das figuras mais excepcionais de nossa hist\u00f3ria, t\u00e3o excepcional que foi esquecido de prop\u00f3sito pelos livros did\u00e1ticos e por aqueles que se prestam a falar da luta abolicionista no pa\u00eds.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Wilson Hon\u00f3rio da Silva, da Secretaria Nacional de Forma\u00e7\u00e3o do PSTU<br \/>\nMesmo quando \u00e9 lembrado, em tempos de busca por sa\u00eddas conciliat\u00f3rias e remediadas, n\u00e3o tem sido raro que sua vida seja filtrada por uma perspectiva que tenta empared\u00e1-lo na luta institucional ou retrat\u00e1-lo como um intelectual negro s\u00edmbolo de um tal empoderamento que, com certeza, o faria erguer seu vozeir\u00e3o em protesto.<br \/>\nPara se ter uma ideia de quem foi Gama, basta lembrar que, h\u00e1 132 anos, seu cortejo f\u00fanebre, saindo da regi\u00e3o da Mooca, em S\u00e3o Paulo, em dire\u00e7\u00e3o ao Cemit\u00e9rio da Consola\u00e7\u00e3o, foi considerado, pela imprensa da \u00e9poca, como o maior jamais visto na cidade, arrastando cerca de 30 mil pessoas, a maioria escravos, negros e negras forros, gente do povo e brancos pobres que o viam como porta-voz dos anseio por liberdade e por um mundo novo \u2013 o que na \u00e9poca significava no m\u00ednimo republicano.<br \/>\nPor que esse apagamento? A resposta tem a ver com toda uma vida dedicada \u00e0 luta sem tr\u00e9guas pela liberdade e pela justi\u00e7a, a uma l\u00edngua t\u00e3o afiada quanto a pena que usava para produzir seus textos (po\u00e9ticos, liter\u00e1rios, jur\u00eddicos e jornal\u00edsticos).<br \/>\nMas, acima de tudo, em fun\u00e7\u00e3o de sua vis\u00e3o de mundo, era um rebelde e radical no melhor sentido do termo: sempre a busca das ra\u00edzes dos problemas, vendo al\u00e9m da superf\u00edcie das coisas e, por consequ\u00eancia, n\u00e3o poupando esfor\u00e7os para transform\u00e1-las de forma radical, desde suas estruturas. Uma vis\u00e3o de mundo sintetizada numa frase proferida, sem medo nem rodeios, em pleno Tribunal de Justi\u00e7a: \u201cO escravo que mata o senhor, seja em que circunst\u00e2ncia for, mata sempre em leg\u00edtima defesa.\u201d<br \/>\n<strong>Nascido e cunhado na rebeldia<\/strong><br \/>\nA hist\u00f3ria de Gama tem origem e se confunde com a de outra grande lutadora de nossa hist\u00f3ria, sua m\u00e3e, Luiza Mahin, que ele pr\u00f3prio descreveu, mencionando sua participa\u00e7\u00e3o na Revolta do Mal\u00eas (1835) e na Sabinada (1837), numa carta autobiogr\u00e1fica que enviou em 1880 ao amigo L\u00facio de Mendon\u00e7a.<br \/>\nApesar de ter nascido livre, foi vendido em 1840 pelo pr\u00f3prio pai, um homem branco atolado em d\u00edvidas, e levado para Santos, no litoral. De l\u00e1, seguiu a p\u00e9 at\u00e9 Campinas, onde ningu\u00e9m quis compr\u00e1-lo por \u201cser baiano\u201d, sin\u00f4nimo para \u201crebelde\u201d na \u00e9poca, o que fez com que acabasse parando nas m\u00e3os de um comerciante de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nAprendeu a ler e escrever com um estudante que era pensionista do dono. Assim que pode, forjou documentos que \u201clhe restitu\u00edram\u201d a liberdade. Em 1850, mesmo ano em que se casou com Claudina Gama, com quem teve um \u00fanico filho, Benedito Graco, tentou frequentar o curso de Direito do Largo de S\u00e3o Francisco, enfrentando forte hostilidade (tanto de professores quanto de alunos) em fun\u00e7\u00e3o de sua negritude. No entanto, seguiu nas aulas como ouvinte, o que acabou o qualificando como r\u00e1bula ou advogado provisionado (sem forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, mas licenciado pelo poder judici\u00e1rio). Isso n\u00e3o o impediu, como veremos, de se tornar um dos mais competentes advogados de nossa hist\u00f3ria.<br \/>\n<span style=\"color: #ff0000;\"><strong>PARA SEMPRE, UM DE N\u00d3S!<\/strong><\/span><br \/>\n<strong>Um revolucion\u00e1rio, por todos meios necess\u00e1rios<\/strong><br \/>\nA frase est\u00e1 desde sempre associada a Malcolm X, mas n\u00e3o h\u00e1 porque n\u00e3o a utilizar para falar de Luiz Gama. Na introdu\u00e7\u00e3o que fez para\u00a0Com a palavra Luiz Gama: poemas, artigos, cartas, m\u00e1ximas, organizado por L\u00edgia Fonseca Ferreira, uma das obras mais importantes sobre o autor-militante, exatamente por dar voz a ele pr\u00f3prio, o historiador F\u00e1bio Konder Comparado, sintetiza sua vida excepcional, a amplitude e a import\u00e2ncia de seus feitos:<br \/>\n\u201cO menino negro, vendido como escravo pelo pr\u00f3prio pai quando tinha dez anos, tendo aprendido a ler e escrever somente aos 17 anos, tornou-se um intelectual apurado e o maior advogado de escravos que este pa\u00eds conheceu. Praticamente sozinho, logrou livrar do cativeiro ilegal mais de 500 negros \u2013 fato sem precedentes na hist\u00f3ria mundial da advocacia. Mas, sobretudo, Luiz Gama, muito mais que qualquer abolicionista brasileiro, n\u00e3o hesitou em desmascarar pela imprensa \u2013 o grande instrumento de contrapoder da \u00e9poca \u2013 a falsidade de nossas pretensas elites.\u201d<br \/>\nMesmo que precisa em v\u00e1rios sentidos, a s\u00edntese de Comparato ainda \u00e9 um tanto parcial. Primeiro porque, para Gama, apesar de sua paix\u00e3o pela escrita \u2013 tanto na sua forma po\u00e9tica e liter\u00e1ria, quanto jornal\u00edstica e jur\u00eddica \u2013, n\u00e3o foi exatamente a imprensa a sua principal ferramenta de contrapoder. \u00c9 verdade que suas s\u00e1tiras sociais e pol\u00edticas, seus textos afiados e suas pe\u00e7as jur\u00eddicas imbat\u00edveis foram fundamentais em sua luta, tanto com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escravid\u00e3o quanto \u00e0 monarquia.<br \/>\nVale dizer que a palavra para ele tamb\u00e9m tinha uma for\u00e7a para al\u00e9m do papel. Seu poder de orat\u00f3ria era quase lend\u00e1rio em sua \u00e9poca. Por\u00e9m tudo que escreveu e produziu foi resultante de sua atividade militante concreta, tamb\u00e9m nas a\u00e7\u00f5es diretas, na luta pela liberdade. Algo que n\u00e3o se limitava aos textos publicados no jornal\u00a0A Reden\u00e7\u00e3o, mas implicava em m\u00e9todos de luta que inclu\u00edam libertar escravos de forma clandestina (mesmo quando isso significasse confronto aberto com os senhores, feitores e capit\u00e3es-do-mato) e envi\u00e1-los para o Quilombo do Jabaquara ou outras regi\u00f5es fora de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nMesti\u00e7o consciente de sua negritude, homem que soube usar todas as armas em sua luta, rebelde contra toda e qualquer ordem estabelecida, conspirador que sabia atuar por dentro das institui\u00e7\u00f5es para deton\u00e1-las, Luiz Gama \u00e9, para n\u00f3s do PSTU, um exemplo de revolucion\u00e1rio negro, mesmo que o socialismo ainda n\u00e3o estivesse em seu horizonte.<br \/>\nIsso, contudo, n\u00e3o o impediu de sentir e entender o verdadeiro sentido da revolu\u00e7\u00e3o, como escreveu no folhetim\u00a0O Polichenelo, em 31 de dezembro de 1876: \u201c\u00c9 muito dif\u00edcil organizar uma revolu\u00e7\u00e3o, muito mais dif\u00edcil realiz\u00e1-la, e absolutamente insuport\u00e1vel a opini\u00e3o dos humanit\u00e1rios que nos apregoam m\u00e1ximas e d\u00e3o li\u00e7\u00f5es de prud\u00eancia no meio das tempestades e hecatombes.\u201d<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 24 de agosto de 1882, morreu Luiz Gama, uma das figuras mais excepcionais de nossa hist\u00f3ria, t\u00e3o excepcional que foi esquecido de prop\u00f3sito pelos livros did\u00e1ticos e por aqueles que se prestam a falar da luta abolicionista no pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":70709,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[121,8,3501,1018],"tags":[5806,5807,735],"class_list":["post-61712","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","category-historia","category-negras-os","category-racismo","tag-luiz-gama","tag-luiza-mahin","tag-wilson-honorio-da-silva"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Luis-Gama-1.jpg","categories_names":["Brasil","Hist\u00f3ria","Negras\/os","Racismo"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61712","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61712"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61712\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70709"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61712"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61712"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61712"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}