{"id":61649,"date":"2020-08-31T16:22:30","date_gmt":"2020-08-31T19:22:30","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=61649"},"modified":"2020-08-31T16:22:30","modified_gmt":"2020-08-31T19:22:30","slug":"o-verao-quente-das-lutas-operarias-no-ira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/08\/31\/o-verao-quente-das-lutas-operarias-no-ira\/","title":{"rendered":"O ver\u00e3o quente das lutas oper\u00e1rias no Ir\u00e3"},"content":{"rendered":"<p><em>Durante o ver\u00e3o as temperaturas podem atingir 50\u00ba graus cent\u00edgrados facilmente no sul do Ir\u00e3. Neste ano, al\u00e9m da alta temperatura, acontece tamb\u00e9m a maior onda de lutas oper\u00e1rias desde que a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de 1979 derrubou a ditadura do X\u00e1 Reza Pahlevi no Ir\u00e3. Estas greves se d\u00e3o no contexto da deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas no pa\u00eds \u00e0 qual colaboram v\u00e1rios fatores.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Fabio Bosco, de S\u00e3o Paulo<br \/>\nTrinta anos de neoliberalismo levou \u00e0s privatiza\u00e7\u00f5es e \u00e0 flexibiliza\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas. A retomada das criminosas san\u00e7\u00f5es americanas em 2018, derrubou a moeda local que perdeu 70% de seu valor atingindo a cota\u00e7\u00e3o de 236 mil rials por um d\u00f3lar americano, impactando o n\u00edvel de vida da classe trabalhadora. \u00c0s san\u00e7\u00f5es se juntaram a recess\u00e3o econ\u00f4mica mundial, a pandemia do coronav\u00edrus da qual o Ir\u00e3 foi um dos pa\u00edses mais afetados no mundo, e a corrup\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica do regime que privilegia a burguesia bazaari e as burocracias estatal e paraestatal (funda\u00e7\u00f5es e a guarda revolucion\u00e1ria).<br \/>\nNeste cen\u00e1rio, entre 1 e 8 de agosto de 2020, mais de dez mil oper\u00e1rios de 29 empresas da ind\u00fastria petroqu\u00edmica entraram em greve pelo pagamento de sal\u00e1rios atrasados e do seguro-desemprego, e contra a terceiriza\u00e7\u00e3o, os contratos tempor\u00e1rios e os contratos em branco (sem defini\u00e7\u00e3o formal dos direitos trabalhistas). Entre as empresas paralisadas est\u00e3o: Usina Termoel\u00e9trica de Tabriz, Usina de Mashhad, Refinaria de Isfahan, Refinaria de Qeshm, Refinaria de Abadan, Refinaria de Jafir, Refinaria de Kangan, Refinarias 4, 24 e fase 24 de South Pars, Refinaria de Parsian, Petroqu\u00edmica de Lamerd, Refinaria de Mahshahr, Refinaria de Isfahan, Usina Bidkhon de South Pars, Companhia de Asfalto de Toos Dasht Azadegan, Petroqu\u00edmica de Assaluyeh, Usina de Mashhad, Usina de Tabriz e a Hepco, a maior ind\u00fastria pesada do oeste da \u00c1sia.<br \/>\nAl\u00e9m destas, h\u00e1 outras greves importantes como a Urmia Single Line Bus, v\u00e1rios setores de funcion\u00e1rios p\u00fablicos e a principal greve do pa\u00eds no Cuzest\u00e3o onde 800 oper\u00e1rios do complexo agroindustrial de Haft Tappeh est\u00e3o em greve desde 14 de junho.\u00a0 Eles lutam pelo pagamento de sal\u00e1rios atrasados, pelo direito de organiza\u00e7\u00e3o sindical independente do estado, contra a privatiza\u00e7\u00e3o realizada, contra gerentes corruptos e pela liberdade de seus companheiros presos. Estes mesmos trabalhadores realizaram tr\u00eas greves em 2018 pelas mesmas reivindica\u00e7\u00f5es e se tornaram um ponto de refer\u00eancia das lutas oper\u00e1rias no pa\u00eds.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><br \/>\nOutros setores entraram em greve no final de Agosto: as enfermeiras de Esfahan por sal\u00e1rios n\u00e3o pagos; professores em Tehran e Karaj contra contratos de trabalho prec\u00e1rios; trabalhadores municipais de Lali pelo pagamento de sal\u00e1rios atrasados h\u00e1 12 meses e plano de sa\u00fade n\u00e3o pago h\u00e1 seis meses; oper\u00e1rios do departamento de medidores de g\u00e1s e energia el\u00e9trica de Qazvin que fizeram bloqueios de vias pelo pagamento de sal\u00e1rios atrasados; aposentados de Teer\u00e3; trabalhadores em Varamin e as empresas petroqu\u00edmicas South Pars.<br \/>\n<strong>Esta onda de greves foi antecedida por v\u00e1rias lutas neste ano <\/strong><br \/>\nOs primeiros protestos de 2020 ocorreram contra a derrubada de um avi\u00e3o com 176 passageiros a bordo em 7 de janeiro de 2020. Al\u00e9m de manifestos de artistas e jornalistas, estudantes de duas universidades protestaram durante quatro dias.<br \/>\nNo dia 1 de maio, trabalhadores realizaram a\u00e7\u00f5es em Sanandaj, Saqqez, Dezli e Teer\u00e3. Entre suas bandeiras constavam \u201cTrabalho, p\u00e3o e liberdade\u201d, \u201cConselhos oper\u00e1rios\u201d, \u201cGreve geral\u201d, \u201cLiberdade para todos os trabalhadores presos\u201d, \u201cTrabalhadores de todos os pa\u00edses, uni-vos\u201d, \u201cAbaixo a opress\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o\u201d. Algumas reivindica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas tamb\u00e9m foram levantadas como melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho para os trabalhadores da sa\u00fade em contratos tempor\u00e1rios e o pagamento de sal\u00e1rio para trabalho dom\u00e9stico.<br \/>\nDesde o final de abril, os 3 mil trabalhadores da companhia de carv\u00e3o Kerman paralisaram suas atividades intermitentemente nas minas de Ravar, Kuhbanan and Zarand contra a privatiza\u00e7\u00e3o da empresa, por melhoria salarial, seguran\u00e7a no trabalho e pelo fim dos contratos tempor\u00e1rios.<br \/>\nEm meados de maio houve uma s\u00e9rie de protestos dos trabalhadores da sa\u00fade nas prov\u00edncias de Gilan, Lorestan, Qazvin and Hamadan em frente aos edif\u00edcios de Ci\u00eancias M\u00e9dicas e do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade contra condi\u00e7\u00f5es de trabalho insalubres, sal\u00e1rios atrasados e contratos tempor\u00e1rios. V\u00e1rios enfermeiros e enfermeiras perderam suas vidas no combate \u00e0 pandemia de COVID-19.<br \/>\n\u00c9 importante notar que fora dos hospitais, formaram-se grupos de ajuda m\u00fatua em v\u00e1rias cidades particularmente no Curdist\u00e3o para orientar e distribuir m\u00e1scaras, luvas e \u00e1lcool-gel gr\u00e1tis.<br \/>\nEm 30 de junho os trabalhadores municipais de Bushehr entraram em greve pelo pagamento de sal\u00e1rios e contra a terceiriza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO futuro destas lutas n\u00e3o ainda est\u00e1 resolvido. Enquanto a crise econ\u00f4mica e sanit\u00e1ria empurra os trabalhadores \u00e0 luta para garantir sua sobreviv\u00eancia, a repress\u00e3o do regime e o desemprego servem de contrapeso. De qualquer forma, \u00e9 este agir da classe trabalhadora que pode abrir o caminho para uma greve geral e uma nova revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica.<br \/>\n<strong>A devastadora pandemia do coronav\u00edrus<\/strong><br \/>\nO Ir\u00e3 foi e continua sendo um dos pa\u00edses mais devastados pela pandemia. A pandemia levou o sistema hospitalar ao colapso, a milhares de mortos e infectados al\u00e9m de gerar protestos dentro dos pres\u00eddios e tamb\u00e9m dos trabalhadores da sa\u00fade.<br \/>\nAssim como governos em todo o mundo, o regime iraniano tamb\u00e9m tentou ocultar os dados terr\u00edveis da pandemia. No entanto os dados reais de relat\u00f3rios de sa\u00fade foram vazados para a BBC. Ao inv\u00e9s dos 14.405 mortos at\u00e9 20 de julho, o n\u00famero real \u00e9 o triplo, quase 42 mil mortos. J\u00e1 o n\u00famero de contaminados \u00e9 quase o dobro dos n\u00fameros oficiais (278.827 \u00e9 o n\u00famero oficial mas o real \u00e9 451.024). A primeira morte ocorreu em 22 de janeiro e n\u00e3o um m\u00eas depois como afirma o regime. Nas \u00faltimas semanas houve um aumento do n\u00famero de contaminados o que pode significar que est\u00e1 em curso uma segunda onda da pandemia.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><br \/>\nDevido \u00e0 pandemia, a superlota\u00e7\u00e3o dos pres\u00eddios iranianos se tornou insustent\u00e1vel e o governo anunciou a liberta\u00e7\u00e3o de um n\u00famero entre 50 mil a 85 mil presos. Mesmo assim houve uma onda de protestos dentro dos pres\u00eddios.<br \/>\nEm 16 de mar\u00e7o, 128 presos pol\u00edticos entraram em greve de fome na pris\u00e3o de Evin. No dia seguinte, mais 45 presos pol\u00edticos entraram em greve na pris\u00e3o de Fashafuyeh em Teer\u00e3. Em 26 de mar\u00e7o os presos da pris\u00e3o de Tabriz se rebelaram contra a pol\u00edcia queimando seus cobertores e foram reprimidos a bala. V\u00e1rios foram feridos. J\u00e1 no dia 27 de mar\u00e7o, 70 presos na pris\u00e3o de Saqqez no Curdist\u00e3o conseguiram fugir.<br \/>\nNo dia 28 de mar\u00e7o, houve protestos dentro das pris\u00f5es de Hamedan, Mahabad, Khoramahad e Aligodarz. No dia seguinte alguns presos conseguiram fugir da pris\u00e3o de Adelabad no munic\u00edpio de Shiraz.<br \/>\nNo dia 31 de mar\u00e7o houve uma outra rebeli\u00e3o na pris\u00e3o de Sepidar no munic\u00edpio de Ahwaz. A pris\u00e3o tem capacidade para 2 mil presos mas 4500 est\u00e3o alocados. Durante o enfrentamento com a pol\u00edcia, sete presos foram mortos e v\u00e1rios feridos.<br \/>\n<strong>As lutas contra a pena de morte e por liberdade<\/strong><br \/>\nO Ir\u00e3 \u00e9 o segundo pa\u00eds com maior n\u00famero de execu\u00e7\u00f5es no mundo, ap\u00f3s a China. No ano passado foram 251 presos executados pelo estado, de acordo com a Anistia Internacional. Em abril deste ano, 25 presos foram executados em menos de dez dias. As autoridades iranianas aproveitaram a pandemia para realizar as execu\u00e7\u00f5es sem protestos de rua.<br \/>\nEntre os executados est\u00e1 o ativista curdo Mostafa Salimi. Ele foi um dos 70 prisioneiros que conseguiram fugir da pris\u00e3o de Saqqez em 27 de mar\u00e7o. Ele foi preso pelas autoridades curdas iraquianas e deportado para o Ir\u00e3. Ele foi condenado \u00e0 morte por integrar um partido pol\u00edtico curdo.<br \/>\nEm 14 de julho, Diaku Rasoulzadeh e Saber Sheikh Abdollah foram executados na pris\u00e3o de Urumieh na prov\u00edncia do Azerbaij\u00e3o Ocidental. Eles foram condenados \u00e0 morte em 2015 por supostamente colocar uma bomba numa parada militar na cidade de Mahabad em 2010.<br \/>\nNo m\u00eas anterior o jornalista dissidente e fundador da conta de Telegram AmadNews Rouhollah Zam foi condenado \u00e0 morte por \u201cespalhar a corrup\u00e7\u00e3o sobre a terra\u201d. Entre outras, foi acusado de encorajar as pessoas a participar dos protestos contra o regime em 2017 e 2018. Zam trabalhava em Paris de onde foi sequestrado pela Guarda Revolucion\u00e1ria Iraniana e levado para o Iraque e depois para o Ir\u00e3.<br \/>\nNo dia 14 de julho a Suprema Corte manteve a condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte de tr\u00eas jovens ativistas Amirhossein Moradi, Mohammad Rajabi e Saeed Tamjidi presos nos protestos de novembro de 2019 contra a alta no pre\u00e7o da gasolina.<br \/>\nMas um twita\u00e7o de 7,5 milh\u00f5es de tweets no mesmo dia, incluindo personalidades do mundo art\u00edstico e esportivo obrigou a Suprema Corte a suspender a execu\u00e7\u00e3o dos ativistas e anunciar um novo julgamento. Nos dois dias seguintes houve manifesta\u00e7\u00f5es de vanguarda em Teer\u00e3, Shiraz, Behbahan, Isfahan, Orumiyeh e Mahshahr.<br \/>\nO regime iraniano contou com o apoio da pol\u00edcia turca para prender dois destes tr\u00eas jovens ativistas. Rajabi e Tamjidi fugiram para a Turquia em 20 de novembro onde solicitaram asilo pol\u00edtico. No entanto a pol\u00edcia turca, sem qualquer explica\u00e7\u00e3o, os deportou para o Ir\u00e3 em 28 de dezembro, dias depois da visita do presidente iraniano \u00e0 Ancara.<br \/>\nVale lembrar que a colabora\u00e7\u00e3o entre os regimes iraniano e turco n\u00e3o se limita a isso. Desde 18 de mar\u00e7o as for\u00e7as militares turcas e iranianas realizam opera\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas contra bases do PKK no Curdist\u00e3o iraquiano. Vale tamb\u00e9m lembrar que o servi\u00e7o de intelig\u00eancia turco (MIT) deteve o ativista Balochi\/Iraniano Abdollah Bozorgzadeh em Ancara em 11 de junho de 2020. Se extraditado ao Ir\u00e3, ele pode ser executado.<br \/>\nAl\u00e9m da pena de morte, o regime iraniano tamb\u00e9m realiza puni\u00e7\u00f5es exemplares contra grevistas. \u00c9 o caso de 42 trabalhadores das Ind\u00fastrias AzarAb condenados a um ano de pris\u00e3o, 74 chicotadas e um ano de trabalho comunit\u00e1rio for\u00e7ado. Seu \u201ccrime\u201d foi protestar contra o atraso de sal\u00e1rios e falta de estabilidade no emprego ap\u00f3s a privatiza\u00e7\u00e3o desse grande conglomerado industrial. Ap\u00f3s protestos internacionais, esses trabalhadores ter\u00e3o direito a um novo julgamento.<br \/>\nOutro caso \u00e9 do sindicalista Jafar Azimzadeh, l\u00edder do conselho de sindicatos livres do Ir\u00e3. Condenado a cinco anos de cadeia por organizar atividades sindicais, ele sofre de problemas card\u00edacos e pulmonares. H\u00e1 poucos dias ele se contaminou com coronav\u00edrus e as autoridades iranianas, ao inv\u00e9s de intern\u00e1-lo num hospital o transferiram para a pris\u00e3o Rajai Shahr numa clara tentativa de mat\u00e1-lo. Agora ele est\u00e1 em greve de fome desde 17 de agosto. Tamb\u00e9m em greve de fome na pris\u00e3o est\u00e1 a conhecida advogada Nasrin Sotudeh.<br \/>\nA ativista feminista e ecologista Atena Daemi foi condenada a 2 anos de pris\u00e3o e 75 chibatadas. Outras ativistas feministas como Golrokh Iraee, a curda Zeynab Jalalian e a ativista de direitos humanos Narges Mohmammadi continuam presas. V\u00e1rias ativistas jovens conhecidas como \u201cAs garotas da Avenida Revolu\u00e7\u00e3o\u201d que retiraram seus hijabs (len\u00e7os usados para cobrir os cabelos) para protestar contra a obriga\u00e7\u00e3o de seu uso receberam longas penas de pris\u00e3o.<br \/>\nA jovem jornalista e ativista sindical Sepideh Gholian foi presa novamente por se recusar a firmar um pedido de desculpas ao L\u00edder Supremo Ayatollah Khamenei.<br \/>\nAlguns ativistas homens como Arash Sadeghi e Soheil Arabi tamb\u00e9m est\u00e3o presos por defender os direitos das mulheres.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><br \/>\n<strong>Sabotagem israelense afeta atividades industriais e nucleares iranianas <\/strong><br \/>\nPara al\u00e9m das criminosas san\u00e7\u00f5es americanas contra o Ir\u00e3, h\u00e1 v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es de sabotagem em curso. Desde 26 de junho, ocorre uma s\u00e9rie de explos\u00f5es e\/ou inc\u00eandio em instala\u00e7\u00f5es iranianas.<br \/>\nEm 26 junho a base militar de Parchin onde se produz m\u00edsseis bal\u00edsticos teve uma explos\u00e3o. Em 30 de junho houve uma explos\u00e3o em uma cl\u00ednica m\u00e9dica em Teer\u00e3. No dia 2 de julho houve uma explos\u00e3o seguida de fogo na usina nuclear de Natanz onde se localizam centrifugas para enriquecimento de ur\u00e2nio. Segundo o jornal New York Times, o Estado de Israel \u00e9 o respons\u00e1vel pela poderosa bomba plantada dentro da usina pr\u00f3ximo a uma tubula\u00e7\u00e3o de g\u00e1s.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><br \/>\nNo dia 3 de julho foi a vez da usina de energia em Shiraz pegar fogo. No dia 4 houve um vazamento de g\u00e1s na ind\u00fastria petroqu\u00edmica em Karoun e uma explos\u00e3o na usina de energia de Ahwaz. No dia 12 foi a vez de um inc\u00eandio em um complexo petroqu\u00edmico no Cuzest\u00e3o.<br \/>\nNo dia 13 pelo menos seis tanques de armazenamento explodiram e pegaram fogo na f\u00e1brica de g\u00e1s liquefeito na zona industrial de Kavian Fariman. Nesse mesmo dia uma f\u00e1brica de alum\u00ednio na cidade fabril de Lamard, na prov\u00edncia de Fars pegou fogo. No dia 15 pelo menos sete navios pegaram fogo no porto de Bushehr. No dia 19 houve uma explos\u00e3o no transformador da usina termoel\u00e9trica de Islamabad na prov\u00edncia de Isfahan.<br \/>\nAl\u00e9m disso houve 1100 queimadas nos \u00faltimos tr\u00eas meses que destru\u00edram 150 milhas quadradas de florestas. As autoridades iranianas acreditam que pelo menos um quinto dessas queimadas foram propositais.<br \/>\nApesar do governo israelense n\u00e3o reivindicar a autoria desses atos de sabotagem, v\u00e1rios analistas coincidem em afirmar que os israelenses est\u00e3o por tr\u00e1s da sabotagem, com sinal verde dos Estados Unidos (e talvez at\u00e9 mesmo colabora\u00e7\u00e3o direta). Questionado, o ministro da defesa israelense declarou em 5 de julho que \u201crealizamos a\u00e7\u00f5es sobre as quais \u00e9 melhor n\u00e3o comentar\u201d.<br \/>\nH\u00e1 4 anos, as for\u00e7as israelenses conseguiram roubar arquivos iranianos que estavam numa instala\u00e7\u00e3o fabril e h\u00e1 2 anos usaram um v\u00edrus virtual chamado Stuxnet, provavelmente em conjunto com os Estados Unidos, para sabotar as centr\u00edfugas nucleares iranianas.<br \/>\nEsses atos de sabotagem atrasam o programa nuclear iraniano e atingem a estrutura produtiva do pa\u00eds. Os agressores, Estado de Israel e Estados Unidos, saem fortalecidos. Mas o pr\u00f3prio regime iraniano n\u00e3o sai mal j\u00e1 que utiliza essas agress\u00f5es para legitimar a repress\u00e3o contra a popula\u00e7\u00e3o trabalhadora iraniana.<br \/>\n<strong>O imperialismo, o regime e a classe trabalhadora em disputa pelo futuro do Ir\u00e3 <\/strong><br \/>\nO Ir\u00e3 \u00e9 um pa\u00eds semicolonial que se constitu\u00eda em um basti\u00e3o dos interesses imperialistas estadunidense e europeu sob o antigo regime do X\u00e1 Reza Pahlevi.<br \/>\nA revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de 1979 na qual a classe oper\u00e1ria cumpriu um papel decisivo atrav\u00e9s da greve geral, das manifesta\u00e7\u00f5es de rua e dos conselhos oper\u00e1rios (denominados shoras na l\u00edngua farsi) foi sequestrada pelo seu principal dirigente, o Ayatollah Khomeini apoiado pela forte burguesia comercial denominada bazaaris, que imp\u00f4s o fechamento do regime e a persegui\u00e7\u00e3o aos dissidentes liberais e aos partidos de esquerda.<br \/>\nA sa\u00edda da \u00f3rbita americana n\u00e3o impediu o novo regime autorit\u00e1rio iraniano de realizar acordos importantes por debaixo do pano com o regime americano como foi o caso da compra de armas nos anos 1980 conhecido nos Estados Unidos como o esc\u00e2ndalo Ir\u00e3-contras), a sustenta\u00e7\u00e3o do regime t\u00edtere de Karzai no Afeganist\u00e3o, e a pr\u00f3pria invas\u00e3o americana e a imposi\u00e7\u00e3o de um regime de ocupa\u00e7\u00e3o no Iraque a partir de 2003.<br \/>\nApesar desses acordos, os Estados Unidos impuseram san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas contra o Ir\u00e3 desde 1979 com alguns intervalos como o per\u00edodo entre 2015 e 2018 quando vigorou o acordo nuclear com o imperialismo americano e europeu.<br \/>\nO assassinato do general iraniano Kassem Suleimani pelos Estados Unidos em janeiro<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> e os atos de sabotagem israelense em julho, com o apoio dos Estados Unidos, fazem parte desse esfor\u00e7o de \u201cpress\u00e3o m\u00e1xima\u201d atrav\u00e9s do qual o Governo Trump busca um novo acordo nuclear mais restrito que lhe renda votos nas elei\u00e7\u00f5es americanas.<br \/>\nIsso n\u00e3o impediu que os regimes americano e iraniano realizassem um acordo que deu posse ao novo primeiro-ministro iraquiano Mustafa Al-Kadhimi, o ent\u00e3o chefe da intelig\u00eancia iraquiana, mais pr\u00f3ximo dos interesses americanos, possivelmente em troca da repatria\u00e7\u00e3o de fundos iranianos no exterior.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><br \/>\nJ\u00e1 o imperialismo europeu tamb\u00e9m busca aprofundar a recoloniza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica do pa\u00eds, mas com uma t\u00e1tica diferente do imperialismo americano. Os europeus apoiam o acordo nuclear firmado em 2015 e por isso as vota\u00e7\u00f5es no Conselho de Seguran\u00e7a em agosto de 2020 n\u00e3o renovaram o embargo de armas nem aprovaram san\u00e7\u00f5es sobre o Ir\u00e3 no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU.<br \/>\nEstes fatos mostram a exist\u00eancia de forte opress\u00e3o imperialista americano contra a na\u00e7\u00e3o iraniana. Mas tamb\u00e9m mostram a disposi\u00e7\u00e3o do regime burgu\u00eas iraniano de se acomodar a esta ordem internacional imperialista, e n\u00e3o de derrub\u00e1-la.<br \/>\nNa impossibilidade de acordo com o imperialismo americano, o regime iraniano busca ampliar sua influ\u00eancia regional sustentando regimes burgueses autorit\u00e1rios na S\u00edria, no L\u00edbano e no Iraque, e apoiando os Houthis no Iemen e o Hamas em Gaza. Em escala internacional, ele se aproxima dos regimes russo, chin\u00eas e venezuelano. Desta forma busca a negocia\u00e7\u00e3o com o imperialismo em melhores condi\u00e7\u00f5es de for\u00e7a, com mais cartas na manga. Mas n\u00e3o tem o objetivo de expuls\u00e1-lo da regi\u00e3o, e muito menos de liquid\u00e1-lo.<br \/>\nAs for\u00e7as pol\u00edticas iranianas que apoiam a pol\u00edtica do imperialismo americano (os monarquistas e o MEK) querem um regime capitalista autorit\u00e1rio que submeta o pa\u00eds \u00e0 ordem imperialista.<br \/>\nJ\u00e1 as diferentes alas do regime iraniano, seja o setor linha-dura ou o setor moderado, tamb\u00e9m querem a manuten\u00e7\u00e3o do regime capitalista autorit\u00e1rio e aceitam uma submiss\u00e3o negociada do pa\u00eds \u00e0 ordem imperialista.<br \/>\n<strong>A terceira via nasce das lutas oper\u00e1rias e sociais<\/strong><br \/>\nA \u00fanica for\u00e7a social com interesse hist\u00f3rico e imediato de levar adiante a completa liberta\u00e7\u00e3o nacional e implantar um regime socialista com amplas liberdades democr\u00e1ticas \u00e9 a classe oper\u00e1ria iraniana e seus aliados naturais entre as massas urbanas despossu\u00eddas, a juventude, as mulheres e as nacionalidades oprimidas.<br \/>\nUma nova revolu\u00e7\u00e3o iraniana que leve a classe oper\u00e1ria ao poder poder\u00e1 dar os passos necess\u00e1rios para alimentar as revolu\u00e7\u00f5es em toda a regi\u00e3o para liquidar com a domina\u00e7\u00e3o imperialista e para levar ao poder governos dos trabalhadores que se unam em uma Federa\u00e7\u00e3o de Rep\u00fablicas Socialistas do Oriente M\u00e9dio.<br \/>\nAs for\u00e7as sociais dessa nova revolu\u00e7\u00e3o iraniana pulsam na onda de mobiliza\u00e7\u00f5es de novembro passado<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, nas greves oper\u00e1rias e nas lutas democr\u00e1ticas de estudantes, trabalhadores, trabalhadoras, mulheres e nacionalidades oprimidas.<br \/>\nRecentemente a classe trabalhadora iraniana realizou duas importantes a\u00e7\u00f5es: o twita\u00e7o em julho contra a pena de morte de tr\u00eas ativistas e o ver\u00e3o quente de lutas oper\u00e1rias em agosto em meio a um cen\u00e1rio devastador de crise econ\u00f4mica devido \u00e0s dur\u00edssimas san\u00e7\u00f5es americanas, ao flagelo da pandemia do COVID-19, \u00e0 recess\u00e3o econ\u00f4mica internacional e \u00e0 sabotagem israelense contra instala\u00e7\u00f5es nucleares, industriais, militares e portu\u00e1rias no pa\u00eds.<br \/>\nA essas for\u00e7as oper\u00e1rias e populares devemos dirigir toda nossa solidariedade para por fim \u00e0 opress\u00e3o imperialista, ao regime autorit\u00e1rio e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o capitalista.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/iranianprotestslive\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.facebook.com\/iranianprotestslive<\/a><br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/news\/world-middle-east-53598965\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.bbc.com\/news\/world-middle-east-53598965<\/a><br \/>\n<a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <a href=\"https:\/\/allianceofmesocialists.org\/iran-explosions-and-growing-internal-repression\/?fbclid=IwAR3kDe-uV7OAPivHqSZZokS9lQR42_Cjq5WxdhcaK0y_wRlm3LsliBWypsQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/allianceofmesocialists.org\/iran-explosions-and-growing-internal-repression\/?fbclid=IwAR3kDe-uV7OAPivHqSZZokS9lQR42_Cjq5WxdhcaK0y_wRlm3LsliBWypsQ<\/a><br \/>\n<a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2020\/07\/10\/world\/middleeast\/iran-nuclear-trump.html?action=click&amp;module=RelatedLinks&amp;pgtype=Article\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.nytimes.com\/2020\/07\/10\/world\/middleeast\/iran-nuclear-trump.html?action=click&amp;module=RelatedLinks&amp;pgtype=Article<\/a><br \/>\n<a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> <a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/mundo\/oriente-medio-mundo\/ira\/revolucao-e-contrarrevolucao-no-oriente-medio-apos-assassinato-de-lider-iraniano-e-derrubada-de-aviao-de-carreira\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/mundo\/oriente-medio-mundo\/ira\/revolucao-e-contrarrevolucao-no-oriente-medio-apos-assassinato-de-lider-iraniano-e-derrubada-de-aviao-de-carreira\/<\/a><br \/>\n<a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.middleeasteye.net\/news\/revealed-secret-us-iran-deal-installed-kadhimi-baghdad\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.middleeasteye.net\/news\/revealed-secret-us-iran-deal-installed-kadhimi-baghdad<\/a><br \/>\n<a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> <a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/mundo\/oriente-medio-mundo\/ira\/mais-uma-vez-morte-ao-ditador\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/mundo\/oriente-medio-mundo\/ira\/mais-uma-vez-morte-ao-ditador\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante o ver\u00e3o as temperaturas podem atingir 50\u00ba graus cent\u00edgrados facilmente no sul do Ir\u00e3. Neste ano, al\u00e9m da alta temperatura, acontece tamb\u00e9m a maior onda de lutas oper\u00e1rias desde que a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de 1979 derrubou a ditadura do X\u00e1 Reza Pahlevi no Ir\u00e3. 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