{"id":61642,"date":"2020-08-28T13:31:30","date_gmt":"2020-08-28T16:31:30","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=61642"},"modified":"2020-08-28T13:31:30","modified_gmt":"2020-08-28T16:31:30","slug":"modo-de-vida-e-a-crise-ambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/08\/28\/modo-de-vida-e-a-crise-ambiental\/","title":{"rendered":"Modo de vida e a crise ambiental"},"content":{"rendered":"<p><em>Trotsky escreve, em 1924, seis anos ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o de outubro na URSS, Quest\u00f5es do Modo de Vida, onde diz que o ser humano n\u00e3o vive s\u00f3 de \u201cpol\u00edtica\u201d e que a aten\u00e7\u00e3o naquele momento deveria se voltar para os detalhes, \u00e0s quest\u00f5es culturais, aos comportamentos, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ou seja, ao modo de vida das massas prolet\u00e1rias. Dizia que era necess\u00e1rio refletir sobre o modo de vida e os costumes para transform\u00e1-los. Entretanto, antes de tudo afirma que para construir um novo modo de vida \u00e9 preciso mudar as bases econ\u00f4micas e materiais da sociedade, quest\u00e3o que j\u00e1 estava resolvida na URSS naquele momento.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Lena Souza e Jeferson Choma<br \/>\nAtualmente, diante da crise ambiental que vivemos, a discuss\u00e3o sobre o modo de vida tem ganhado muita import\u00e2ncia. E a pergunta que est\u00e1 colocada \u00e9 se \u00e9 poss\u00edvel estabelecer um modo de vida que respeite os limites dos recursos naturais dentro do pr\u00f3prio capitalismo. Tomando como base o texto de Trotsky, acreditamos que sua obra pode ter enorme serventia sobre o tema.<br \/>\n<strong>O modo de vida capitalista e a preserva\u00e7\u00e3o dos recursos naturais<\/strong><br \/>\nO capitalismo constr\u00f3i o seu modo de vida baseado na produ\u00e7\u00e3o e no consumo permanente de mercadorias, uma vez que o consumo desenfreado \u00e9 a raz\u00e3o da manuten\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio sistema. Isso explica, em parte, a raz\u00e3o da grande explos\u00e3o das metr\u00f3poles urbanas que serviram historicamente ao capital para concentrar a for\u00e7a de trabalho, a produ\u00e7\u00e3o e o consumo das mercadorias. O desdobramento desse processo foi enormes consequ\u00eancias sociais e tamb\u00e9m ambientais que n\u00e3o passaram despercebidos de Marx e Engels, como atestam certas partes do \u201cO Capital\u201d e do livro \u201cA Situa\u00e7\u00e3o da Classe Trabalhadora na Inglaterra\u201d.<br \/>\nPara a sobreviv\u00eancia do sistema, no capitalismo o consumo \u00e9 sin\u00f4nimo de felicidade e o prest\u00edgio est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 capacidade de adquirir mais e novas mercadorias. O consumo significa felicidade e bem-estar e a conquista de um n\u00edvel superior na concorr\u00eancia. Para isso valores como o individualismo e a competi\u00e7\u00e3o s\u00e3o refor\u00e7ados em todos os \u00e2mbitos na forma\u00e7\u00e3o de nossa personalidade.<br \/>\nJunto com estabelecer esses valores como base do nosso modo de vida, estrat\u00e9gias publicit\u00e1rias e a obsolesc\u00eancia dos produtos (programada, perceptiva e tecnol\u00f3gica) nos mant\u00e9m presos a uma l\u00f3gica de consumo que garante a acelera\u00e7\u00e3o do ciclo de acumula\u00e7\u00e3o do capital, ou seja, mais rapidez na produ\u00e7\u00e3o e consumo para concretizar o lucro.<br \/>\nCom essa l\u00f3gica o capitalismo n\u00e3o pode conviver com a produ\u00e7\u00e3o de bens dur\u00e1veis e que possam ser reutiliz\u00e1veis, por isso os bens chamados \u201cdur\u00e1veis\u201d foram tendo uma diminui\u00e7\u00e3o de seu tempo de vida, o que \u00e9 chamada a obsolesc\u00eancia programada. Como isso n\u00e3o \u00e9 suficiente, outro m\u00e9todo utilizado \u00e9 a obsolesc\u00eancia perceptiva, na qual se utiliza o recurso da mudan\u00e7a do design dos produtos, com novos retoques visuais que leva a uma percep\u00e7\u00e3o de que um modelo se tornou ultrapassado, colocando novos modelos no mercado e induzindo \u00e0 sua compra.\u00a0 E para complementar vai se adicionando a tecnologia em conta-gotas para que uma pequena mudan\u00e7a de capacidade tecnol\u00f3gica no produto possa obrigar o seu descarte e reposi\u00e7\u00e3o por outro novo.<br \/>\nAs consequ\u00eancias ambientais da obsolesc\u00eancia planejada s\u00e3o devastadoras. Imagine a quantidade de lixo eletr\u00f4nico, como celulares, computadores, baterias e seus in\u00fameros componentes t\u00f3xicos que seguem para \u201clix\u00f5es\u201d, isto \u00e9, s\u00e3o descartados e sem o menor cuidado, mundo afora. Mundo afora n\u00e3o. A grande maioria desses componentes \u00e9 descartada em pa\u00edses pobres e miser\u00e1veis, como as na\u00e7\u00f5es africanas. A ONU estima que 80% do lixo eletr\u00f4nico do mundo v\u00e3o parar nesse continente. Al\u00e9m disso, h\u00e1 um enorme desperd\u00edcio de mat\u00e9rias-primas na obsolesc\u00eancia planejada. Mat\u00e9ria-prima que geralmente \u00e9 extra\u00edda desses pa\u00edses perif\u00e9ricos do sistema com enormes consequ\u00eancias ambientais a la Brumadinho (MG). Imagine a enorme quantidade de a\u00e7o, ferro e pl\u00e1stico que s\u00e3o usados para a fabrica\u00e7\u00e3o de celulares que duram apenas um ano ou de autom\u00f3veis cuja vida \u00fatil \u00e9 estimada em cinco ou seis anos. Sem falar que, para baratear cada vez mais as mercadorias, o capital instala ind\u00fastrias nesses pa\u00edses da periferia do sistema para explorar m\u00e3o de obra barata e recursos, como ocorre em Bangladesh, China, \u00cdndia, Vietn\u00e3, entre muitos outros.<br \/>\nAl\u00e9m disso, a sociedade de consumo constru\u00edda pelo capitalismo se utiliza cada vez mais da intelig\u00eancia artificial. Essa tecnologia permite associar uma simples busca que voc\u00ea faz na internet sobre um determinado produto ao seu perfil nas redes sociais. \u00c9 por isso que surgem an\u00fancios quando acessamos o computador ou celular. Essa associa\u00e7\u00e3o dos nossos dados pessoais, prefer\u00eancias de consumo (e at\u00e9 mesmo de leituras ou participa\u00e7\u00e3o de grupos virtuais) procura nos integrar em determinados nichos de consumo.<br \/>\nOs te\u00f3ricos do capitalismo dizem que isso significa liberdade de mercado, concorr\u00eancia, mas essa chamada \u201cliberdade\u201d na verdade significa uma pris\u00e3o milim\u00e9tricamente calculada, com muitos algoritmos e alimentada pela propaganda a favor do consumo. Significa tamb\u00e9m a contamina\u00e7\u00e3o de rios, solos, do ar e muito, mas muito desperd\u00edcio. Significa, por fim, empurrar toneladas de lixo para os pa\u00edses da periferia do sistema capitalista, evidenciando uma \u201cdivis\u00e3o internacional da crise ambiental\u201d.<br \/>\nMas isso tamb\u00e9m tem consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas. Com esse modo de vida capitalista v\u00eam as doen\u00e7as relacionadas com a frustra\u00e7\u00e3o e o estado permanente de ansiedade, pois a grande maioria n\u00e3o consegue chegar ao padr\u00e3o de consumo idealizado. Essa qualidade e quantidade de consumo s\u00e3o alcan\u00e7adas por apenas 20% da sociedade, que tamb\u00e9m padece dos mesmos problemas de sa\u00fade provocados pela necessidade de estar sempre alerta, em estado de ansiedade para manter-se no topo da cadeia de prest\u00edgio.<br \/>\nPara os pobres, que s\u00e3o a grande maioria a compra de um produto com maior tecnologia, mais qualidade e melhor apar\u00eancia \u00e9 sin\u00f4nimo de conquista de prest\u00edgio e aceita\u00e7\u00e3o em camadas superiores. Mas essa maioria da popula\u00e7\u00e3o apenas consegue ter acesso a mercadorias de menor qualidade, na maioria das vezes imita\u00e7\u00f5es dos produtos sonhados, e que s\u00e3o mais rapidamente descartados. Em geral o consumo de um produto dos sonhos, para esse setor, \u00e9 colocado como objetivo de vida e se passa anos de trabalho para adquiri-lo. Muitas vezes, quando consegue, antes mesmo de terminar de pagar, o perde ironicamente em uma enchente ou deslizamento pelo qual \u00e9 atingido como consequ\u00eancia do desequil\u00edbrio ambiental.<br \/>\nE, na realidade o sistema capitalista \u00e9 baseado numa l\u00f3gica t\u00e3o absurda e irrespons\u00e1vel que se fosse poss\u00edvel estender o n\u00edvel de consumo desses 20% ou, o chamado \u201csonho americano de consumo\u201d, para toda a popula\u00e7\u00e3o, nos moldes da produ\u00e7\u00e3o no sistema capitalista, seria necess\u00e1rio recursos de mais 5 planetas terra. De acordo com a WWF, a quantidade de combust\u00edveis f\u00f3sseis consumida atualmente aumentaria 10 vezes e a de recursos minerais, 200 vezes.<br \/>\nPor isso para sustentar esse modo de vida tamb\u00e9m \u00e9 preciso instituir uma vis\u00e3o de uma natureza apartada, colocando a quest\u00e3o ambiental, a utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e o seu esgotamento como algo muito abstrato e separado da realidade de cada um. Nesse marco, toda \u201cindividualiza\u00e7\u00e3o\u201d do problema ambiental, isto \u00e9, as ideologias que jogam o problema na conta no indiv\u00edduo e buscam solu\u00e7\u00f5es \u201cindividuais\u201d para solucionar a crise ecol\u00f3gica, ganham bastante serventia ao sistema, posto que refor\u00e7am a aliena\u00e7\u00e3o dos seres humanos com o produto do seu trabalho e com a pr\u00f3pria natureza.<br \/>\nIsso \u00e9 necess\u00e1rio para impor um ritmo que n\u00e3o o da natureza, mas do capital impulsionando a utiliza\u00e7\u00e3o irracional dos recursos naturais e provocando consequentemente a crise ambiental, pois a utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos naturais n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com o tempo necess\u00e1rio para a sua recomposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDe acordo com Trotsky: \u201c\u00c9 o problema do modo de vida que nos mostra, mais claramente do que qualquer outra coisa, em que medida um indiv\u00edduo isolado se mostra ser objeto dos acontecimentos e n\u00e3o o seu sujeito. O modo de vida, isto \u00e9 o meio ambiente e os h\u00e1bitos cotidianos, elabora-se mais ainda do que a economia \u2018nas costas das pessoas\u2019.\u201d<br \/>\nPortanto, pensar a rela\u00e7\u00e3o do sistema econ\u00f4mico com a natureza, e a forma como o ser humano se relaciona com ela no contexto do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 necess\u00e1rio para entender como chegamos \u00e0 crise ambiental que vivemos e sobre as perspectivas de super\u00e1-la. E para isso \u00e9 preciso pensar e elaborar conscientemente um modo de vida que respeite os limites dos recursos naturais.<br \/>\n<strong>\u00c9 poss\u00edvel construir um modo de vida que mude a rela\u00e7\u00e3o da sociedade com a natureza no sistema capitalista? <\/strong><br \/>\nCom a crise ambiental crescendo a olhos vistos nas \u00faltimas d\u00e9cadas uma parte dos ricos e administradores do capitalismo assumiram um discurso enganoso baseado no desenvolvimento sustent\u00e1vel dentro do pr\u00f3prio sistema.<br \/>\nEssa defini\u00e7\u00e3o surgiu na Comiss\u00e3o Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas em 1972, na Confer\u00eancia sobre Meio Ambiente em Estocolmo. Em 1987, o Relat\u00f3rio Brundtland, formalizou o termo e em 1992, na ECO-92 esse conceito definido como \u201c<em>satisfazer as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gera\u00e7\u00f5es futuras de suprir suas pr\u00f3prias necessidades<\/em>\u201d tornou-se a principal discuss\u00e3o com a elabora\u00e7\u00e3o da Agenda 21, ou seja, o estabelecimento do compromisso de cada pa\u00eds acerca dos problemas socioambientais. Tamb\u00e9m consagrou o conceito de desenvolvimento sustent\u00e1vel, amplamente utilizado por governos e grandes empresas capitalistas.<br \/>\nNo entanto, como n\u00e3o poderia deixar de ser, esse caminho est\u00e1 cada vez mais desmoralizado, pois embora tenha sido apresentado na d\u00e9cada de 70 n\u00e3o modificou a tend\u00eancia ao aprofundamento da crise ambiental. Na realidade a suposta produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel foi incorporada pelo pr\u00f3prio capitalismo e tornou-se mais uma forma de marketing que \u00e9 utilizada pelas empresas para aumentar o consumo, atrav\u00e9s da propaganda de que seus produtos t\u00eam certifica\u00e7\u00f5es ambientais como selo ecol\u00f3gico, selo verde e outras.\u00a0 \u00c9 comum ver propagandas na TV de empresas automotivas, mineradoras e at\u00e9 mesmo petroleiras vendendo uma suposta imagem de \u201csustentabilidade ecol\u00f3gica\u201d.<br \/>\nPara dar f\u00f4lego a essa grande mentira, os administradores do sistema capitalista, atrav\u00e9s de organismos internacionais criados para discutir a quest\u00e3o ambiental, come\u00e7aram a realizar c\u00fapulas ambientais onde s\u00e3o estabelecidas metas de emiss\u00f5es de carbono para os pa\u00edses. Outra fraude do sistema capitalista que tamb\u00e9m j\u00e1 foi percebida e movimentos como o \u201cFridays for future\u201d tem questionado a aplica\u00e7\u00e3o dessas metas.<br \/>\nDiante dessa realidade, outras alternativas que se auto intitulam \u201cfora do poder\u201d t\u00eam ganhado muitos adeptos nos \u00faltimos anos e est\u00e3o relacionadas com estimular um modo de vida mais sustent\u00e1vel, defendendo a\u00e7\u00f5es individuais para enfrentar a crise ambiental. Dessa forma, algumas pessoas assumem um modo de vida alternativo, individualmente ou em grupos, para praticar e mostrar uma sa\u00edda \u00e0 crise ambiental. Nesse contexto se insere desde a economia solid\u00e1ria, com\u00e9rcio justo e solid\u00e1rio, o Lowsumerism (ser mais consciente e consumir menos), at\u00e9 reciclar, consertar, trocar, etc.\u00a0 Todo esse movimento se baseia em que a mudan\u00e7a tem que vir da consci\u00eancia de cada um.<br \/>\nInfelizmente, ainda que esses movimentos partam de uma quest\u00e3o real e necess\u00e1ria, que \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o com a crise ambiental e com o futuro da humanidade, a verdadeira causa n\u00e3o se encontra no \u00e2mbito individual. Como diz Trotsky em Quest\u00f5es do Modo de Vida para que haja mudan\u00e7as de h\u00e1bitos de comportamento e de um modo de vida em sua totalidade \u00e9 necess\u00e1ria uma revolu\u00e7\u00e3o social que destrua as bases econ\u00f4micas do modo de vida capitalista, isto \u00e9, construir novas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o em que a natureza seja transformada em um bem comum a toda humanidade, e n\u00e3o apenas a uma pequena parte que destr\u00f3i o planeta e ganha muito dinheiro com isso. De acordo com Trotsky \u201cn\u00e3o se pode racionalizar o modo de vida, isto \u00e9, transform\u00e1-lo segundo as exig\u00eancias da raz\u00e3o, se n\u00e3o se racionaliza a produ\u00e7\u00e3o, visto que o modo de vida tem suas ra\u00edzes na economia\u201d, ou seja, na apropria\u00e7\u00e3o privada ou coletiva dos recursos naturais.<br \/>\nIsso n\u00e3o significa que para Trotsky, a luta relacionada \u00e0s quest\u00f5es do modo de vida tenha que ser relegada e menosprezada at\u00e9 que se possam transformar as bases materiais e econ\u00f4micas da sociedade. Tem que fazer parte da luta da classe trabalhadora desde j\u00e1. Ali\u00e1s, o surgimento de tecnologias sustent\u00e1veis, como a agroecologia ou a agricultura sintr\u00f3pica apontam para um modelo de agricultura muito mais racional e em equil\u00edbrio com os sistemas naturais do que os modelos voltados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de commodities. Assim como existem projetos urbanos que podem servir para auxiliar no fim da dicotomia entre a cidade e o campo. Ou ainda, o desenvolvimento atual de tecnologias que diminuam o uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis e permitam uma transi\u00e7\u00e3o para outras matrizes energ\u00e9ticas. Podemos tamb\u00e9m citar a necess\u00e1ria amplia\u00e7\u00e3o massiva da reciclagem, um tema que fez o pr\u00f3prio Marx dedicar um cap\u00edtulo no O Capital.<br \/>\nTudo isso somado a luta contra a destrui\u00e7\u00e3o e mercantiliza\u00e7\u00e3o da natureza s\u00e3o essenciais para a constru\u00e7\u00e3o de qualquer sociedade futura pautada no fim da explora\u00e7\u00e3o do trabalho e da natureza. Afinal, fica mais dif\u00edcil construir o socialismo em um planeta devastado pelas for\u00e7as destrutivas do capital. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. S\u00f3 em uma sociedade, na qual a reprodu\u00e7\u00e3o humana seja o central (e n\u00e3o da mercadoria), pode fazer florescer de verdade modos de vida mais ecologicamente sustent\u00e1veis, sintr\u00f3picos, pautados na colabora\u00e7\u00e3o (e n\u00e3o domina\u00e7\u00e3o) dos processos naturais. Afinal, a constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociabilidade e de um novo modo de vida ser\u00e1 muito mais f\u00e1cil se ela estiver apoiada em elementos que j\u00e1 existem no nosso mundo, mas que s\u00e3o marginalizados pelo capitalismo.<br \/>\nMas \u00e9 imprescind\u00edvel entender que dentro do sistema capitalista qualquer conquista nesse campo vai ser incompleta, parcial, desvirtuada e provis\u00f3ria, j\u00e1 que o sistema capitalista \u00e9 incompat\u00edvel com as mesmas.<br \/>\nE isso fica evidente quando vemos, no caso da quest\u00e3o ambiental, v\u00e1rios movimentos serem incorporados pelo sistema, transformando alguns h\u00e1bitos de preserva\u00e7\u00e3o ambiental em mais um nicho de mercado capaz de fazer as pessoas manter o consumo. Um exemplo concreto no Brasil \u00e9 o consumo de alimentos org\u00e2nicos que \u00e9 restringindo a uma pequena parcela da popula\u00e7\u00e3o que tem condi\u00e7\u00f5es financeiras para adquirir esse tipo de alimento que \u00e9 bem mais caro enquanto que a maioria, o amplo consumo \u00e9 de alimentos produzidos com agrot\u00f3xicos, muitos deles proibidos em v\u00e1rios pa\u00edses. A maior parte do povo pobre n\u00e3o tem a op\u00e7\u00e3o de escolher entre um alimento envenenado ou n\u00e3o.<br \/>\nAssim todas as tentativas de modificar o modo de vida no capitalismo v\u00e3o ser insuficientes, pois \u00e9 imposs\u00edvel concorrer com a m\u00e1quina do sistema montada para estabelecer um modo de vida dirigido pelo mercado.<br \/>\nPodemos concluir que \u00e9 necess\u00e1rio que os movimentos ou indiv\u00edduos que identificam no atual modo de vida as causas dos problemas ambientais avancem para a consci\u00eancia da necessidade de destruir as bases econ\u00f4micas da sociedade capitalista. E, ao mesmo tempo \u00e9 preciso que avancemos em um programa, inclusive nos baseando em v\u00e1rias experi\u00eancias existentes, que contemple um modo de vida compat\u00edvel com a utiliza\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o dos recursos naturais em uma sociedade socialista, que \u00e9 a \u00fanica que pode estabelecer as bases para uma rela\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel com a natureza.<br \/>\nSe tomarmos como refer\u00eancia o pensamento de Trotsky, a transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das bases econ\u00f4micas \u00e9 a primeira etapa da mudan\u00e7a revolucion\u00e1ria da sociedade capitalista e a tomada do poder pol\u00edtico pelo proletariado \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o preliminar para a transforma\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es conservadoras nas rela\u00e7\u00f5es sociais. A partir da\u00ed, \u00e9 necess\u00e1rio todo um lento processo de autoeduca\u00e7\u00e3o para estabelecer um novo modo de vida.<br \/>\nA hist\u00f3ria da humanidade e a pr\u00f3pria realidade atual mostram que uma rela\u00e7\u00e3o coletiva ou comunit\u00e1ria com a natureza, isto \u00e9, sem a presen\u00e7a da propriedade privada, \u00e9 muito mais eficiente na preserva\u00e7\u00e3o dos ecossistemas. \u00c9 justamente por esse motivo que territ\u00f3rios ind\u00edgenas servem como exemplo de preserva\u00e7\u00e3o ambiental no Brasil, saindo em imagens de sat\u00e9lite como \u201cmanchas verdes\u201d de florestas preservadas em meio \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio. Mas mesmo esses regimes de base comum s\u00e3o amea\u00e7ados pelo avan\u00e7o do capitalismo, como vemos nas investidas do governo Bolsonaro contra as terras ind\u00edgenas.<br \/>\nA constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista exige a cria\u00e7\u00e3o e o florescimento de um novo o modo de vida para criar uma sociedade ambientalmente sustent\u00e1vel. Para a supera\u00e7\u00e3o da crise socioambiental \u00e9 preciso a <strong>constru\u00e7\u00e3o de uma outra l\u00f3gica<\/strong>\u00a0de produ\u00e7\u00e3o e de consumo na sociedade, pautada em uma rela\u00e7\u00e3o racional com a natureza. Para isso \u00e9 preciso mudar as bases econ\u00f4micas e materiais que permitir\u00e1 uma sociedade socialista desenvolver uma nova \u00e9tica e um modo de vida que respeite os limites da natureza, superando a aliena\u00e7\u00e3o produzida pela propriedade privada e os valores estabelecidos em base a essa aliena\u00e7\u00e3o. Sem essa condi\u00e7\u00e3o como diz Trotsky \u201c\u00e9 imposs\u00edvel pensar numa verdadeira racionaliza\u00e7\u00e3o do modo de vida das massas populares\u201d.<br \/>\n<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trotsky escreve, em 1924, seis anos ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o de outubro na URSS, Quest\u00f5es do Modo de Vida, onde diz que o ser humano n\u00e3o vive s\u00f3 de \u201cpol\u00edtica\u201d e que a aten\u00e7\u00e3o naquele momento deveria se voltar para os detalhes, \u00e0s quest\u00f5es culturais, aos comportamentos, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ou seja, ao modo de vida das [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":61643,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[4200,3498,31,3766],"tags":[],"class_list":["post-61642","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-81-anos-sem-trotsky","category-crise-climatica-e-ambiental","category-ecologia","category-meio-ambiente"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/obsolescencia-programada-beco-sem-saida-1.jpg","categories_names":["81 anos sem Trotsky","Crise clim\u00e1tica e ambiental","Ecolog\u00eda","Meio Ambiente"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61642","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61642"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61642\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61643"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61642"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61642"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61642"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}