{"id":61527,"date":"2020-08-21T09:13:59","date_gmt":"2020-08-21T11:13:59","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=61527"},"modified":"2020-08-21T09:13:59","modified_gmt":"2020-08-21T11:13:59","slug":"trotsky-o-chefe-do-exercito-vermelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/08\/21\/trotsky-o-chefe-do-exercito-vermelho\/","title":{"rendered":"Trotsky: O chefe do ex\u00e9rcito vermelho"},"content":{"rendered":"<p><em>Clausewitz afirmava que a dire\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito \u00e9 sempre pol\u00edtica, e que nos momentos de a\u00e7\u00e3o e de conflito se substitui \u201ca pena pela espada\u201d. Deutscher afirmava, que como Comandante do Ex\u00e9rcito Vermelho, para ganhar a guerra civil, Trotsky, usou \u201ca espada e a pena\u201d.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Am\u00e9rico Gomes<br \/>\nUsou a \u201cespada\u201d quando percorreu pessoalmente toda Rep\u00fablica Sovi\u00e9tica para organizar o Ex\u00e9rcito, seu abastecimento e suprimento, e dar-lhe moral e vigor, indo diretamente ao campo de batalha e \u00e0s frentes de combate durante estes dois anos e meio. Usou a \u201cpena\u201d quando esteve \u00e0 frente dos debates te\u00f3ricos e pol\u00edticos sobre a quest\u00e3o militar que foram realizados no Ex\u00e9rcito, no Soviete e no partido. E que foram fundamentais para construir este Ex\u00e9rcito e ganhar a guerra.<br \/>\nLeon Davidovich Bronstein, Trotsky foi nomeado presidente do Conselho Supremo da Guerra, em 4 de mar\u00e7o de 1918, dia seguinte \u00e0 assinatura do acordo de Brest-Litovsk, e em abril passou a ser Comiss\u00e1rio do Povo para a Guerra. Seu lema: \u201c<em>Trabalho obstinado e disciplina revolucion\u00e1ria<\/em>\u201d <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<br \/>\n<strong>A paz e a guerra civil <\/strong><br \/>\nTrotsky foi o chefe da delega\u00e7\u00e3o das negocia\u00e7\u00f5es do acordo de Brest-Litovsk, feito pelo governo sovi\u00e9tico em 3 de mar\u00e7o de 1918. Uma \u201c<em>paz vergonhosa<\/em>\u201d, chamada assim pelo pr\u00f3prio Lenin, que foi quem a orientou, contra a posi\u00e7\u00e3o dos dirigentes do partido bolchevique, que se autointitulavam \u201c<em>comunistas de esquerda<\/em>\u201d, organizados por Bukharin e Piatakov, e defendiam a continuidade da guerra sob o nome de \u201c<em>guerra revolucion\u00e1ria<\/em>\u201d, e tamb\u00e9m contra a posi\u00e7\u00e3o de Trotsky, que defendia uma posi\u00e7\u00e3o intermediaria.<br \/>\nEla foi realizada com os Imp\u00e9rios do Centro (Alemanha, \u00c1ustria-Hungria, Bulg\u00e1ria e Imp\u00e9rio Otomano), sob duras condi\u00e7\u00f5es. Absolutamente necess\u00e1ria para reconstruir a economia e, al\u00e9m disso, o povo queria paz, uma grande promessa da revolu\u00e7\u00e3o. A R\u00fassia teve que abrir m\u00e3o de regi\u00f5es importantes, que tamb\u00e9m viviam processos revolucion\u00e1rios. Como a Finl\u00e2ndia, os pa\u00edses b\u00e1lticos e a Ucr\u00e2nia, que foram ocupados pelo ex\u00e9rcito alem\u00e3o. Tamb\u00e9m tiveram que ceder parte do C\u00e1ucaso.<br \/>\nSignificou a entrega de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o, 50% da ind\u00fastria, 90% da produ\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis, 55% do trigo e a maior parte dos cereais, nas m\u00e3os do imp\u00e9rio alem\u00e3o.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><br \/>\nMas quando a Revolu\u00e7\u00e3o Alem\u00e3 derrubou o Imp\u00e9rio, e com ela, todos seus acordos a Finl\u00e2ndia, Est\u00f4nia, Let\u00f4nia, Litu\u00e2nia e Pol\u00f4nia, tornaram-se estados independentes; Bielorr\u00fassia e Ucr\u00e2nia integraram-se \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e todos os demais territ\u00f3rios foram recuperados.<br \/>\nPoucas semanas depois da assinatura de Brest-Litovsk, os pa\u00edses imperialistas da Tr\u00edplice Entente, com seus aliados internos, atacaram a nascente na\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica, em v\u00e1rias frentes, iniciando uma guerra civil que tinha como principal objetivo sufocar a revolu\u00e7\u00e3o e derrubar o governo.<br \/>\nEm 3 de abril, tropas japonesas desembarcaram em Vladivostok e ocuparam o leste da Sib\u00e9ria. No dia seguinte, os turcos tomaram Batumi, na Ge\u00f3rgia, Mar Negro, e entraram no C\u00e1ucaso. Os romenos tomaram a Bessar\u00e1bia. A tem\u00edvel Legi\u00e3o Checoslovaca, patrocinada pela Fran\u00e7a, se insurge e alia-se ao Ex\u00e9rcito Branco no oeste da Sib\u00e9ria. Tropas francesas tomam o sul da Ucr\u00e2nia e a Crimeia; e brit\u00e2nicos tomam Arcangel a leste do rio Don, enquanto suas unidades da P\u00e9rsia tomam o centro petrol\u00edfero de Baku. O Ex\u00e9rcito Branco, \u00e9 comandado pelos antigos generais czaristas: Nicolai Yudenich, Lavr Kornilov, Alexander Kolchak e Anton Denikin.<br \/>\nEm fins de 1918 a Rep\u00fablica Sovi\u00e9tica Federal Socialista Russa era praticamente do tamanho da Mosc\u00f3via medieval, antes das conquistas de Ivan, o Terr\u00edvel. Nas palavras de L\u00eanin \u201c<em>uma ilha em um oceano enfurecido, cheio de bandidos imperialistas<\/em>\u201d <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<br \/>\n<strong>Nas frentes de batalha<\/strong><br \/>\nNo in\u00edcio do conflito, em maio de 1918, o Ex\u00e9rcito Vermelho fugia apavorado de Kazan, frentes aos ataques da Legi\u00e3o Checoslovaca aliada ao Ex\u00e9rcito Branco, que j\u00e1 haviam tomado <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Samara_Oblast\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Samara<\/a> e <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Saratov\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Saratov<\/a>. Trotsky foi para esta frente e puniu os comunistas carreiristas e covardes assim como os funcion\u00e1rios burocr\u00e1ticos ineficientes. Os comiss\u00e1rios locais pediram que ele se retirasse para um lugar mais seguro, mas ele ficou. Atuou com os comandantes mais capazes: Frunze, Vatzetis, Tukachevski, Raskolnikov, Mezhlauk, Larissa Reissner e Ivan Smirnov. Homens e mulheres formaram depois o comando do ex\u00e9rcito.<br \/>\nDirigiu-se aos soldados que estavam em p\u00e2nico despejando sobre eles \u201c<em>torrentes de otimismo e disposi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria<\/em>\u201d, com seu discurso: \u201c<em>Os soldados do Ex\u00e9rcito Vermelho n\u00e3o s\u00e3o covardes nem canalhas. Querem lutar pela liberdade da classe oper\u00e1ria. Se recuam e lutam mal, os comandantes e comiss\u00e1rios s\u00e3o culpados. (\u2026) se qualquer destacamento recuar sem ordem, o primeiro a ser fuzilado ser\u00e1 o comiss\u00e1rio, depois o comandante. Covardes, canalhas e traidores n\u00e3o escapar\u00e3o da bala<\/em>\u201d <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Montou um Tribunal Militar Revolucion\u00e1rio e estabeleceu o estado de s\u00edtio em toda a regi\u00e3o. Submeteu \u00e0 corte marcial comandantes e comiss\u00e1rios que retiraram seus homens da linha de frente.<br \/>\nTrotsky defendia tamb\u00e9m ser benevolente com o inimigo que reconhecesse seus crimes e estivesse disposto a depor armas e servir honestamente ao Estado Oper\u00e1rio: \u201c<em>Morte aos traidores! Mas miseric\u00f3rdia com o inimigo que se converteu e pede clem\u00eancia!\u201d.<\/em><br \/>\nDepois das vit\u00f3rias no Volga, Trotsky desloca-se para a Ucr\u00e2nia para remontar o Ex\u00e9rcito, que estava em p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es, sendo derrotado por Denikin. Realiza este trabalho, agora com ajuda de Tukachevski e Antonov-Ovseenko e derrota novamente os \u201cbrancos\u201d. Deste conflito Trotsky concluiu que para se obter a vit\u00f3ria na \u201cguerra moderna\u201d era fundamental combinar a habilidade dos combatentes, e seu treinamento bem desenvolvido, com uma capacidade sofisticada da produ\u00e7\u00e3o industrial militar.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><br \/>\nQuando, desde a Finl\u00e2ndia, as tropas da contrarrevolu\u00e7\u00e3o comandadas por Yudenich, atacaram Petrogrado, em outubro de 1919, alguns membros do comit\u00ea central bolchevique estavam dispostos a desistir da cidade e fugir para o interior do pa\u00eds. Trotsky foi contra aceitar a perda da cidade e organizou suas defesa. A estrat\u00e9gia era a \u201c<em>defesa urbana<\/em>\u201d, anunciando &#8220;<em>se defenderia em seu pr\u00f3prio terreno<\/em>&#8221; e prevendo que o inimigo se perderia em um labirinto de ruas, fortificadas ali &#8220;<em>encontraria seu t\u00famulo<\/em>&#8220;. Os batalh\u00f5es regulares do Ex\u00e9rcito Vermelho combateram \u201combro a ombro\u201d com os destacamentos de mulheres e da Guarda Vermelha. As f\u00e1bricas produziam armamentos sob uma chuva de balas, enviando-as imediatamente ao combate. Todos envolvidos no que foi classificado como uma \u201c<em>loucura heroica<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><br \/>\nOs brancos foram derrotados em quinze dias. Por este combate Trotsky foi aclamado como o \u201cPai da Vit\u00f3ria\u201d e recebeu a \u201cOrdem da Bandeira Vermelha\u201d.<br \/>\n<strong>O ex\u00e9rcito vermelho de oper\u00e1rios e soldados<\/strong><br \/>\nCom a tomada de poder pelos bolcheviques, o ex\u00e9rcito czarista foi feito em frangalhos. O proletariado contava para a defesa de seu Estado com os Guardas Vermelhos e parte das tropas e divis\u00f5es do antigo ex\u00e9rcito.<br \/>\nA Guarda Vermelha tinha sido constru\u00edda como pol\u00edtica do partido bolchevique, para o armamento do proletariado e a materializa\u00e7\u00e3o da tomada do poder. Foi composta a partir dos oper\u00e1rios que se armavam e treinavam nas f\u00e1bricas e nos bairros da periferia e os soldados que rompiam com as tropas regulares. A tentativa de golpe de Kornilov, foi aproveitada pelos revolucion\u00e1rios para expandi-la, como for\u00e7a de resist\u00eancia aos golpistas, legaliz\u00e1-la frente ao Soviete e ao Governo Provis\u00f3rio e arm\u00e1-la e trein\u00e1-la. Em Petrogrado eram 4.000 combatentes, comandadas por Antonov-Ovseenko, e em Moscou 3.000 por Gregory Frunze<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, coordenados por Aleksandr Gavrilovicj Schliapnikov<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><br \/>\n\u201c<em>O Ex\u00e9rcito Vermelho s\u00f3 podia nascer sobre uma base social e psicol\u00f3gica nova. A passividade, o esp\u00edrito greg\u00e1rio e a submiss\u00e3o \u00e0 natureza deram lugar, nas novas gera\u00e7\u00f5es, \u00e0 aud\u00e1cia e ao culto da t\u00e9cnica<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><br \/>\nA confer\u00eancia do Partido Bolchevique de 19 de dezembro de 1917 votou pela funda\u00e7\u00e3o do <em>Ex\u00e9rcito Vermelho dos Oper\u00e1rios e Camponeses<\/em>. A seguir, o Conselho de Comiss\u00e1rios Sovi\u00e9ticos aprovou esta resolu\u00e7\u00e3o em 18 de janeiro de 1918, e em 22 de fevereiro o jornal <em>Pravda<\/em> publicou uma proclama\u00e7\u00e3o com o t\u00edtulo \u201c<em>A p\u00e1tria socialista est\u00e1 em perigo\u201d<\/em>, ponto de partida para a campanha de recrutamento.<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><br \/>\n<strong>Um ex\u00e9rcito sem patentes<\/strong><br \/>\n<em>\u201cO Ex\u00e9rcito Vermelho foi constru\u00eddo de cima, segundo os princ\u00edpios da ditadura da classe oper\u00e1ria. O corpo de mando foi selecionado e comprovado pelos \u00f3rg\u00e3os do poder sovi\u00e9tico e do Partido Comunista.<\/em>\u201d <a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a><br \/>\nO Ex\u00e9rcito Vermelho n\u00e3o tinha uma hierarquia de oficiais, nem postos como tenente ou marechal, Lenin e Trotsky acreditavam que o comando se consolidaria, sobretudo, pela confian\u00e7a dos soldados em seus comandantes, e seria assegurada pelo conhecimento, talento, car\u00e1ter e experi\u00eancia. Para Trotsky as \u201cestrelas\u201d n\u00e3o conferiam aos chefes nem talento nem autoridade. \u201c<em>A designa\u00e7\u00e3o dos comandantes por suas virtudes pessoais s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se a cr\u00edtica e a iniciativa se manifestarem livremente em um ex\u00e9rcito colocado sob o controle da opini\u00e3o p\u00fablica. Uma rigorosa disciplina pode acomodar-se muito bem com uma ampla democracia, e encontrar apoio nela<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a><br \/>\n<strong>Pol\u00eamicas te\u00f3ricas e pol\u00edticas para a constru\u00e7\u00e3o do novo ex\u00e9rcito<\/strong><br \/>\nComo n\u00e3o poderia deixar de ser, pol\u00eamica e discuss\u00e3o foi o que n\u00e3o faltou na constru\u00e7\u00e3o deste Ex\u00e9rcito revolucion\u00e1rio. Como em todos os seus aspectos, o poder sovi\u00e9tico enfrentou a quest\u00e3o militar com grandes debates. \u201c<em>O problema da organiza\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito Vermelho era um problema totalmente novo, jamais tinha sido colocado antes, nem sequer no plano te\u00f3rico<\/em>\u201d <a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.<br \/>\nTrotsky defendeu um ex\u00e9rcito centralizado, o recrutamento obrigat\u00f3rio, a utiliza\u00e7\u00e3o dos oficiais czaristas e a forma\u00e7\u00e3o do comissariado pol\u00edtico. Para o restabelecimento da disciplina militar reprimiu severamente a deser\u00e7\u00e3o e a trai\u00e7\u00e3o. Explicou que n\u00e3o se podia centralizar e dirigir as for\u00e7as armadas com comit\u00eas eleitos pelos soldados em meio a uma guerra civil imperialista e acabou com a guerra de guerrilha como estrat\u00e9gia militar, apesar de continuar utilizando-a como t\u00e1tica.<br \/>\n\u201c<em>A capacidade guerreira de um ex\u00e9rcito requer, sobretudo, exist\u00eancia de um aparelho diretivo regular e centralizado<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a> Diferente de como acreditava que devia se dar na Insurrei\u00e7\u00e3o onde a descentraliza\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es era chave<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>.<br \/>\nContra suas posi\u00e7\u00f5es, formou-se a \u201c<em>Oposi\u00e7\u00e3o Militar<\/em>\u201d, que defendia: o princ\u00edpio eleitoral do comando; contra a incorpora\u00e7\u00e3o de especialistas czaristas; contra a introdu\u00e7\u00e3o da disciplina f\u00e9rrea e a centraliza\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito. Esta \u201cOposi\u00e7\u00e3o\u201d era formada por Bukharin, Piatakov e Bubnov, com aliados importantes como I. N. Smirnov. Bukharin que publicou no <em>Pravda<\/em> suas pol\u00eamicas contra Trotsky, mesmo durante a Guerra Civil.<br \/>\nOutro foco de diverg\u00eancia com as posi\u00e7\u00f5es e orienta\u00e7\u00f5es de Trotsky era o comando do X Ex\u00e9rcito, chefiado por Voroshilov, que contava com o apoio explicito de Stalin, que se recusavam a seguir as orienta\u00e7\u00f5es do comando central. Trotsky prop\u00f4s a destitui\u00e7\u00e3o de Stalin e enviou Voroshilov a um Tribunal Revolucion\u00e1rio. Sverdlov intermediou a crise que se formara na dirig\u00eancia bolchevique e Voroshilov foi transferido para a Ucr\u00e2nia e Stalin para o Conselho de Guerra da Rep\u00fablica. Trotsky: \u201c<em>Considero que o tratamento favor\u00e1vel que Stalin d\u00e1 a esta gente \u00e9 um tumor muito perigoso, pior do que qualquer trai\u00e7\u00e3o dos especialistas militares<\/em>\u2026\u201d.<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a><br \/>\nA cria\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito centralizado foi uma grande polemica afinal a tradi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, desde a Primeira Internacional, era defesa da substitui\u00e7\u00e3o dos ex\u00e9rcitos permanentes pelo armamento geral do povo e a elei\u00e7\u00e3o dos seus comandantes. A \u201cOposi\u00e7\u00e3o Militar\u201d considerava o ex\u00e9rcito centralizado a configura\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito do tipo imperialista e defendia a estrat\u00e9gia da guerra de movimento com pequenas unidades independentes atacando livremente as retaguardas do inimigo.<br \/>\nTrotsky explicava: \u201c<em>Se os perigos que nos amea\u00e7am se limitassem ao perigo da contrarrevolu\u00e7\u00e3o interna, n\u00e3o ter\u00edamos necessidade, em geral, de um ex\u00e9rcito. Os oper\u00e1rios das f\u00e1bricas de Petrogrado e Moscou podiam criar em qualquer momento destacamentos de combate suficientes para aplastar, antes de seu nascimento, qualquer tentativa de subleva\u00e7\u00e3o armada com o objetivo de devolver o poder \u00e0 burguesia. Nossos inimigos interiores s\u00e3o demasiado insignificantes e lastimosos para que seja necess\u00e1rio criar um aparato militar perfeito, sobre bases cient\u00edficas, na luta contra eles, e mobilizar toda a for\u00e7a armada do povo. Se agora necessitamos desta for\u00e7a \u00e9, justamente, porque o regime e o pa\u00eds sovi\u00e9tico est\u00e3o gravemente amea\u00e7ados do exterior (\u2026) N\u00e3o h\u00e1 outra maneira de proteger e defender o regime sovi\u00e9tico que a resist\u00eancia direta e en\u00e9rgica contra o capital estrangeiro, o qual empreende, contra nosso pa\u00eds, exclusivamente porque este \u00e9 governado por oper\u00e1rios e camponeses\u201d<\/em>.<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a> (&#8230;) \u201cA <em>URSS paga caro por sua defesa porque \u00e9 demasiado pobre para ter um ex\u00e9rcito territorial que resultaria mais barato<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a><br \/>\nA necessidade desta centraliza\u00e7\u00e3o se demonstrava quando se deparava com um cerco de oito mil quil\u00f4metros \u00e0 Rep\u00fablica Sovi\u00e9tica, por todos os lados. Nem mesmo um ex\u00e9rcito poderoso poderia lutar em todas as frentes. Movimentar o Ex\u00e9rcito Vermelho, na linha interna, indo de uma frente \u00e0 outra era a melhor estrat\u00e9gia. Para isso, as opera\u00e7\u00f5es tinham que ser planejadas e os recursos controlados. O principal organizador deste operativo militar foi E. M. Sklianki, chamado por Trotsky de o \u201c<em>Carnot da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>.<br \/>\nMas sem d\u00favida, a quest\u00e3o mais pol\u00eamica foi o trabalho com os oficiais militares especialistas e ex-czaristas. Para Trotsky, apesar de ser uma quest\u00e3o pr\u00e1tica, n\u00e3o de princ\u00edpios, ela era essencial. O pr\u00f3prio L\u00eanin tinha d\u00favidas desta proposta, inicialmente, mas depois aderiu completamente a ela, afirmando que Trotsky construiu o comunismo \u201c<em>com os restos do edif\u00edcio destru\u00eddo da velha ordem burguesa<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a><br \/>\nAos que continuaram se opondo a esta pol\u00edtica Trotsky respondia: \u201c<em>Tal como a ind\u00fastria precisa de engenheiros, como a agricultura precisa de agr\u00f4nomos qualificados, tamb\u00e9m os especialistas militares s\u00e3o indispens\u00e1veis para a defesa<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a><br \/>\nComo realmente havia risco de trai\u00e7\u00f5es e deser\u00e7\u00f5es, junto a cada um destes oficiais foi colocado um \u201c<em>Comiss\u00e1rio Pol\u00edtico<\/em>\u201d, que confirmava aos oper\u00e1rios, camponeses e soldados as ordens que deveriam ser cumpridas e n\u00e3o maquina\u00e7\u00f5es contrarrevolucion\u00e1rias. Trotsky tamb\u00e9m ordenou que os familiares destes oficiais fossem feitos ref\u00e9ns, pois em caso de trai\u00e7\u00e3o, toda sua fam\u00edlia seria punida, alguns realmente tra\u00edram e foram fuzilados.<br \/>\n<strong>Os expurgos stalinistas<\/strong><br \/>\nO Ex\u00e9rcito Vermelho foi constitu\u00eddo em base \u00e0 democracia oper\u00e1ria da Ditadura do Proletariado, por isso as pol\u00eamicas militares prosseguiram depois da vit\u00f3ria da guerra civil. Frunze e, depois, Tukhachevsky, os mais importantes comandantes do Ex\u00e9rcito Vermelho, elaboraram a \u201c<em>doutrina militar prolet\u00e1ria<\/em>\u201d defendendo a \u201c<em><u>guerra<\/u> ofensiva e de grande mobilidade<\/em>\u201d, em base a teoria da \u201c<em>revolu\u00e7\u00e3o que vem de fora<\/em>\u201d, foi considerado o maior estrategista de sua \u00e9poca em combate de tanques o \u201c<em>mecanizador do Ex\u00e9rcito Vermelho<\/em>\u201d, para Trotsky, ele era capaz de avaliar \u201c<em>uma situa\u00e7\u00e3o militar de todos os \u00e2ngulos<\/em>\u201d (&#8230;) <em>embora um tanto aventureiro<\/em>\u201d.<br \/>\nTrotsky se contrap\u00f4s a esta teoria: \u201c<em>A guerra se baseia em muitas ci\u00eancias, mas n\u00e3o constitui uma ci\u00eancia em si, \u00e9 uma arte pr\u00e1tica, um of\u00edcio (\u2026) uma arte selvagem e sangrenta<\/em>\u201d (&#8230;) \u201c<em>Somente o traidor renuncia ao ataque, (e) somente o idiota reduz toda estrat\u00e9gia ao ataque<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a>. Ele tinha assimilado as vantagens t\u00e1ticas da defesa combinadas com necessidade da ousadia da a\u00e7\u00e3o ofensiva.<br \/>\nCom o dom\u00ednio da burocracia stalinista do Estado sovi\u00e9tico o Ex\u00e9rcito revolucion\u00e1rio se acabou. Stalin assim como fez com o partido, decapitou o comando do Ex\u00e9rcito, de alguns de seus mais competentes comandantes. Sacrificou os interesses da defesa sovi\u00e9tica no altar da autodefesa da burocracia dominante. Mais de 30 mil oficiais foram destitu\u00eddos, presos, enviados para gulags e fuzilados. O que custou mais de 13 milh\u00f5es de mortos aos sovi\u00e9ticos na Segunda Guerra.<br \/>\nFrunze que substituiu Trotsky, em janeiro de 1925, na chefia do Comissariado do Povo para a Guerra, morreu em outubro, com 40 anos, de maneira suspeita, durante uma cirurgia. Tukhachevsky, que seria substituto natural de Frunze, foi denunciado por Radek, mentirosamente, como espi\u00e3o alem\u00e3o, levado a julgamento nos expurgos de 1937, foi assassinado. Budyonny e Voroshilov<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a> escaparam das \u201cpurgas\u201d e uniram-se a Stalin. Fracassaram de maneira grandiosa na Segunda Guerra, o primeiro na Ucr\u00e2nia, entregou Kiev e teve mais de 65 mil soldados presos, o segundo foi derrotado no C\u00e1ucaso.<br \/>\nO stalinismo restabeleceu as patentes, inclusive a de marechal em 1935. \u201c<em>O restabelecimento da casta de oficiais, dezoito anos depois de sua supress\u00e3o revolucion\u00e1ria, atesta com igual for\u00e7a o abismo que se abriu entre os dirigentes e os dirigidos, e que o ex\u00e9rcito perdeu as qualidades essenciais que lhe permitiam chamar-se Ex\u00e9rcito Vermelho\u201d<\/em>.<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a><br \/>\nInegavelmente Trotsky foi o construtor do Ex\u00e9rcito Vermelho que garantiu o governo Sovi\u00e9tico. Seus ensinamentos na arte da Insurrei\u00e7\u00e3o e da guerra s\u00e3o inestim\u00e1veis e v\u00e1lidos para serem estudados por todos aqueles que ainda visualizam a necessidade da tomada do poder pela classe operaria e a instaura\u00e7\u00e3o de um Estado que seja dirigido pelos trabalhadores atrav\u00e9s de seus Conselhos.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Victor Serge.\u00a0<em>O Ano I da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em>. A Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Editora Boitempo, p.265.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Victor Serge.\u00a0<em>O Ano I da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em>. Editora Boitempo, p.252.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> E. H. Carr.\u00a0<em>Hist\u00f3ria da R\u00fassia Sovi\u00e9tica<\/em>. A Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique. Vol.3, p.95.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Isaac Deutscher.\u00a0<em>Trotsky, O Profeta Armado.<\/em>\u00a0Civiliza\u00e7\u00e3o Brasiliense, p.447.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Harold Walter Nelson, Leon Trotsky y a arte de la insurreicion, 1905-1917<br \/>\n<a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Isaac Deutscher,\u00a0<em>Trotsky, O Profeta Armado<\/em>, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasiliense, p 473<br \/>\n<a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Isaac Deutscher.\u00a0<em>Trotsky, O Profeta Armado<\/em>. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasiliense, p.432.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Harold Walter Nelson, Leon Trotsky y a arte de la insurreicion, 1905-1917<br \/>\n<a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Leon Trotsky.\u00a0<em>A Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda.<\/em>\u00a0O Ex\u00e9rcito Vermelho e sua doutrina. Ed. Sundermann, p.191.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> E. H. Carr.\u00a0<em>Hist\u00f3ria da R\u00fassia Sovi\u00e9tica.<\/em>\u00a0A Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique. Vol.3, p.76.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Trotsky.\u00a0<em>C\u00f3mo se arm\u00f3 la revoluci\u00f3n.\u00a0<\/em>El camino del Ej\u00e9rcito Rojo. https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/em\/rev-arm\/volumen1-1918.pdf<br \/>\n<a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Leon Trotsky.\u00a0<em>A Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda.<\/em>\u00a0O Ex\u00e9rcito Vermelho e sua doutrina. Ed. Sundermann, p.149.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Informe do CC ao VIII Congresso do Partido Bolchevique, mar\u00e7o de 1919<br \/>\n<a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Trotsky, Comunismo e Terrorismo<br \/>\n<a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Los problemas de la guerra civil<br \/>\n<a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Le\u00f3n Trotsky,\u00a0<em>Mi Vida<\/em>, Ed. Pluma, p 346<br \/>\n<a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Trotsky.\u00a0<em>C\u00f3mo se arm\u00f3 la revoluci\u00f3n<\/em>, El Ej\u00e9rcito Rojo, https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/em\/rev-arm\/volumen1-1918.pdf<br \/>\n<a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Trotsky.\u00a0<em>A Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda<\/em>. Ed. Sundermann, p.201.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Jacobino, um dos organizadores da defesa da Fran\u00e7a contra a coliga\u00e7\u00e3o de Estados europeus.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Isaac Deutscher.\u00a0<em>Trotsky, O Profeta Armado,\u00a0<\/em>p.457.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> Isaac Deutscher.\u00a0<em>Trotsky, O Profeta Armado.<\/em>\u00a0Civiliza\u00e7\u00e3o Brasiliense, p.434.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> Isaac Deutscher.\u00a0<em>Trotsky, O Profeta Armado.<\/em>\u00a0Civiliza\u00e7\u00e3o Brasiliense, p.515.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> Totalmente submisso a Stalin, apesar de sua valentia pessoal, com \u201c<em>falta total de talento militar e administrativo e uma vis\u00e3o completamente estreita e provinciana\u201d<\/em><br \/>\n<a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> Leon Trotsky.\u00a0<em>A Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda.<\/em>\u00a0O Ex\u00e9rcito Vermelho e sua doutrina. Ed. Sundermann, p.149.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clausewitz afirmava que a dire\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito \u00e9 sempre pol\u00edtica, e que nos momentos de a\u00e7\u00e3o e de conflito se substitui \u201ca pena pela espada\u201d. 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