{"id":61408,"date":"2020-08-13T12:56:05","date_gmt":"2020-08-13T14:56:05","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=61408"},"modified":"2020-08-13T12:56:05","modified_gmt":"2020-08-13T14:56:05","slug":"caetano-veloso-a-voz-das-dores-e-delicias-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/08\/13\/caetano-veloso-a-voz-das-dores-e-delicias-do-brasil\/","title":{"rendered":"Caetano Veloso: A voz das dores e del\u00edcias do Brasil"},"content":{"rendered":"<p><em>Em 7 de agosto, Caetano Veloso comemorou seus 78 anos em grande estilo, com uma\u00a0live, ao lado dos filhos Moreno, Tom e Zeca. Gente mais atenta deve ter percebido que a m\u00fasica de abertura foi escolhida a dedo. \u201cMilagres do povo\u201d, gravada em 1985 \u2013 ou seja, no \u201cano um\u201d da nossa tortuosa e sempre inacabada redemocratiza\u00e7\u00e3o \u2013, para a miniss\u00e9rie\u00a0Tenda dos milagres\u00a0(Jorge Amado, 1969), \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o de nossas lutas, sintetizada na hist\u00f3ria do povo negro, como lembram os versos:\u00a0\u201cE o povo negro entendeu \/ Que o grande vencedor \/ Se ergue al\u00e9m da dor\u201d.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Wilson Hon\u00f3rio da Silva<br \/>\nTrata-se de um paralelo com a atualidade que foi ressaltado em in\u00fameros momentos nos quais o cantor criticou o governo Bolsonaro e sua gangue de genocidas, lembrando, por exemplo, que\u00a0\u201co Brasil n\u00e3o tem um ministro da sa\u00fade definitivo\u00a0(\u2026). E o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente parece ser contra o meio ambiente. S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es graves que os brasileiros est\u00e3o enfrentando\u00a0(\u2026)\u00a0Mas a gente vai superar, o Brasil \u00e9 o Brasil.\u201d<br \/>\nEle seguiu denunciando:\u00a0\u201c\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o alarmante\u00a0em\u00a0que se v\u00ea o racismo, as queimadas e o desmatamento ilegal que segue avan\u00e7ando contra os ind\u00edgenas.\u201d\u00a0Tudo isso recheado com muitos dos sucessos em mais de cinco d\u00e9cadas e umas tantas novidades que demonstram que ele ainda tem muito a oferecer.<br \/>\nS\u00e3o raz\u00f5es de sobra para festejarmos um compositor e int\u00e9rprete que tem traduzido como poucos as dores, as del\u00edcias, os prazeres e as ang\u00fastias de nosso povo.<br \/>\nUm espelho de nossas dores e prazeres<br \/>\nH\u00e1 um lembrete importante para escaparmos de uma idolatria cega que isente os artistas de cr\u00edticas, mas que tamb\u00e9m precisa ser balanceado por outra pondera\u00e7\u00e3o: n\u00e3o s\u00e3o apenas os posicionamentos pol\u00edticos que servem como par\u00e2metros para falarmos de arte e cultura. Basta lembrar que Lenin tinha Tolstoi (autor de cl\u00e1ssicos como\u00a0Guerra e Paz\u00a0e\u00a0Anna Karierina) como seu escritor favorito, mesmo ele sendo um beato crist\u00e3o, m\u00edstico, nobre e monarquista.<br \/>\nPor qu\u00ea? Nas palavras de Lenin, num texto intitulado \u201cLev Tolstoi como Espelho da Revolu\u00e7\u00e3o Russa\u201d (1908), porque todo\u00a0\u201cartista realmente grande reflete nas suas obras pelo menos alguns dos aspectos essenciais da revolu\u00e7\u00e3o\u201d, seja expondo as contradi\u00e7\u00f5es de sua \u00e9poca, seja escancarando a\u00a0\u201cexplora\u00e7\u00e3o capitalista, o desmascaramento das viol\u00eancias governamentais\u00a0(\u2026)\u00a0da mis\u00e9ria, da incultura e dos sofrimentos das massas\u201d\u00a0ou\u00a0\u201co \u00f3dio acumulado, a aspira\u00e7\u00e3o amadurecida a um destino melhor, o desejo de se libertar do passado\u201d.<br \/>\nAntropof\u00e1gico, por isso, universal<br \/>\nDesde que surgiu no cen\u00e1rio art\u00edstico, ainda em Salvador, em meados dos anos 1960, ao lado de sua irm\u00e3 Maria Beth\u00e2nia, ele tem sido um porta-voz bastante contundente dessas coisas todas, tanto na forma quanto no conte\u00fado de suas cria\u00e7\u00f5es.<br \/>\nUm de seus primeiros sucessos, \u201cAlegria, Alegria\u201d, apresentada no 3\u00ba Festival da MPB da TV Record em 1967, n\u00e3o s\u00f3 foi um marco de todo um movimento musical, a Tropic\u00e1lia, como continua, at\u00e9 hoje, sendo um hino da rebeldia juvenil.<br \/>\nDe l\u00e1 para c\u00e1, pode-se dizer que sua carreira segue arrancando for\u00e7a da mesma met\u00e1fora que alimentou o tropicalismo, impulsionado por nomes como Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Z\u00e9, Torquato Neto (1944-1972), Capinan e os Os Mutantes: o exerc\u00edcio da antropofagia (ou canibalismo), ou seja, a capacidade, \u00e0 semelhan\u00e7a dos povos ind\u00edgenas, de se alimentar da energia do outro (at\u00e9 mesmo dos inimigos) e mescl\u00e1-la com sua pr\u00f3pria ess\u00eancia para criar algo novo, \u00fanico e ao mesmo tempo universal.<br \/>\nSeu ex\u00edlio em Londres, entre 1969 e 1972, depois de amargar dois meses na pris\u00e3o ajudou a coloc\u00e1-lo ainda mais em sintonia com a vanguarda da m\u00fasica de sua \u00e9poca, influenciando obras como\u00a0Transa\u00a0(1972) e\u00a0Ara\u00e7\u00e1 Azul\u00a0(1973) e incutindo, desde sempre, uma pegada rockeira, um gingado do reggae ou uma batida jazz\u00edstica em muitos de seus discos, como\u00a0C\u00ea\u00a0(2006),\u00a0Zii e Zie\u00a0(2009) e\u00a0Abra\u00e7a\u00e7o\u00a0(2012).<br \/>\nDepois que voltou ao Brasil, vale resgatar o fant\u00e1stico\u00a0Doces B\u00e1rbaros\u00a0(1976), show e disco (e depois filme), produzido ao lado de Gil, Gal e Beth\u00e2nia. Al\u00e9m de ser uma obra-prima em termos musicais, ajudou a ati\u00e7ar o debate sobre a abertura e as drogas em fun\u00e7\u00e3o da persegui\u00e7\u00e3o que sofreu por parte da pol\u00edcia.<br \/>\nSua explora\u00e7\u00e3o das coisas de sua regi\u00e3o de origem e do Norte do pa\u00eds, explodem de forma particularmente bela em coisas como\u00a0Circulad\u00f4\u00a0(1992) e\u00a0Noites do Norte\u00a0(2001), ao mesmo tempo em que sua urbanidade resultou em can\u00e7\u00f5es magistrais como \u201cLondon, London\u201d e, \u00e9 evidente, \u201cSampa\u201d.<br \/>\nInt\u00e9rprete do povo<br \/>\nVale dizer tamb\u00e9m que sua antropofagia o inspira como int\u00e9rprete. Seja na recria\u00e7\u00e3o do povo das antigas, como Noel Rosa, Vicente Celestino e Luiz Gonzaga, seja daqueles que foram seus contempor\u00e2neos, do jovem Cazuza a parceiros de longa data como Chico Buarque e os Novos Baianos, passando por\u00a0hits\u00a0internacionais, como Nirvana, Beatles e Michael Jackson.<br \/>\nTamb\u00e9m n\u00e3o faltam imers\u00f5es na cultura latino-americana, muitas delas agrupadas em\u00a0Fina Estampa\u00a0(1994). Ou, ainda, a musicaliza\u00e7\u00e3o da obra de grandes poetas, como em \u201cTriste Bahia\u201d, a partir do poema de Greg\u00f3rio de Matos, e \u201cO amor\u201d, inspirado no poeta russo Vladimir Maiak\u00f3vski.<br \/>\nDono de uma obra imposs\u00edvel de ser sintetizada num artigo, seu sucesso est\u00e1 longe de ser produto de mercado ou modismo. O fato de ele continuar a nos emocionar, a nos fazer pensar e a servir de trilha para os momentos mais diversos da vida \u00e9 algo que precisa ser celebrado.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 7 de agosto, Caetano Veloso comemorou seus 78 anos em grande estilo, com uma\u00a0live, ao lado dos filhos Moreno, Tom e Zeca. 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