{"id":61288,"date":"2020-08-06T10:00:45","date_gmt":"2020-08-06T12:00:45","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=61288"},"modified":"2020-08-06T10:00:45","modified_gmt":"2020-08-06T12:00:45","slug":"a-covid-e-a-exploracao-dos-migrantes-na-alemanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/08\/06\/a-covid-e-a-exploracao-dos-migrantes-na-alemanha\/","title":{"rendered":"A Covid e a explora\u00e7\u00e3o dos migrantes na Alemanha"},"content":{"rendered":"<p><em>A maioria dos trabalhadores migrantes transfronteiri\u00e7os e sazonais na Europa depois que conseguem escapar da ilegalidade s\u00e3o os que fazem os piores trabalhos nos principais pa\u00edses imperialistas do continente. Majoritariamente de maneira precarizada, em p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de moradia, sal\u00e1rios baixos, horas n\u00e3o remuneradas, pouca \u00e1gua ou prote\u00e7\u00e3o contra a epidemia. Trabalhando sob press\u00e3o, horas a fio, sol escaldante ou chuvas encharcantes, sofrendo de exaust\u00e3o, abuso verbal, f\u00edsico e at\u00e9 sexual. Atuam principalmente na \u00e1rea de alimenta\u00e7\u00e3o (abate de animais e setor agr\u00edcola) e constru\u00e7\u00e3o civil.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Am\u00edlcar Costa, de Berlim<br \/>\nNo momento em que a pandemia de coronav\u00edrus, e a crise econ\u00f4mica, atinge duramente a Europa estes s\u00e3o os trabalhadores mais afetados.<br \/>\nOs dirigentes da Uni\u00e3o Europeia (UE) reunidos em Bruxelas previram que uma parte substancial dos subs\u00eddios propostos nos planos de recupera\u00e7\u00e3o ser\u00e3o direcionados a apoiar os propriet\u00e1rios de fazendas, injetando quase 60 bilh\u00f5es de euros no setor nos pr\u00f3ximos anos, no entanto, nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o foi manifestada com seus empregados.<br \/>\nTeve repercuss\u00e3o internacional o surto infeccioso entre os trabalhadores do maior frigor\u00edfico alem\u00e3o: T\u00f6nnies, de propriedade de Clemens T\u00f6nnies, o \u201cBar\u00e3o da Carne\u201d. Ele opera o maior matadouro do pa\u00eds, nas proximidades de Rheda-Wiedenbr\u00fcck. Uma multinacional que possui 28 filiais em todo o mundo, emprega 16.500 pessoas e em 2019 faturou mais de 7 bilh\u00f5es de euros.<br \/>\n\u00c9 conhecida por ter aperfei\u00e7oado o trabalho de extrair tudo o que pode dos animais e process\u00e1-los, transformando-os em produto industrial. Tem um alto volume de produ\u00e7\u00e3o: abate 55 milh\u00f5es de porcos por ano e at\u00e9 500 vacas por dia, reduzindo custos e fornecendo carne barata para redes de supermercados que alimenta a popula\u00e7\u00e3o da Alemanha, que come cerca de 60 kg de carne por ano (frango, carne bovina e, especialmente, carne de porco). A empresa tamb\u00e9m envia produtos ao redor do mundo: quadruplicando as exporta\u00e7\u00f5es para 82 pa\u00edses (a maior parte vai para a China, onde os p\u00e9s dos porcos, n\u00e3o ao gosto dos consumidores na Alemanha, s\u00e3o vendidos como uma iguaria). Opera instala\u00e7\u00f5es na Gr\u00e3-Bretanha e Dinamarca; sendo o maior players do pais e um dos quatro maiores da Europa<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> (nenhum deles abatendo mais porcos que o alem\u00e3o).<br \/>\nA maioria de seus trabalhadores s\u00e3o contratados na Europa Oriental, principalmente na Rom\u00eania, por terceirizadas e subempreiteiros, que cobram destes trabalhadores migrantes centenas de euros pelas viagens e alojamentos. A tal ponto que a ministra do Trabalho da Rom\u00eania, Violeta Alexandru, reclamou do tratamento dado a seus compatriotas.<br \/>\nCom a pandemia e muitos sendo infectados, os alojamentos destes trabalhadores se transformaram em verdadeiras pris\u00f5es, com janelas gradeadas, quando colocados em quarentena. Foram criados bloqueios nas regi\u00f5es pr\u00f3ximas \u00e0s cidades de Gutersl\u00f6h e Warendorf.<br \/>\nUm exemplo categ\u00f3rico de como o v\u00edrus \u00e9 capaz de se espalhar rapidamente nas f\u00e1bricas, de maneira geral, e matadouros de maneira particular.<br \/>\n<strong>Na Alemanha os mais pobres pagam o pre\u00e7o da crise<\/strong><br \/>\nO governo Merkel \u00e9 apresentado como um dos que melhor administrou os efeitos da crise da pandemia. Mas o que foi feito neste principal pa\u00eds imperialista da Europa, foi que o Estado garantiu os lucros da sua burguesia, jogando a conta da crise nos setores mais explorados da classe trabalhadora.<br \/>\nEm fevereiro deste ano o governo estabeleceu um Comit\u00ea de Gerenciamento de Crises, de onde partiram as pol\u00edticas econ\u00f4micas e fiscais que est\u00e3o sendo implementadas. Decretou a expans\u00e3o do \u201ctrabalho de meio per\u00edodo\u201d e a libera\u00e7\u00e3o da \u201clicen\u00e7a com remunera\u00e7\u00f5es parciais\u201d, com a suspens\u00e3o dos contratos de trabalho regulares, durante a pandemia.<br \/>\nAl\u00e9m disso o Estado alem\u00e3o cobre parte do sal\u00e1rio de trabalhadores nestas condi\u00e7\u00f5es, isentando as empresas de pagar sua parte no sistema de seguro social permitindo aos capitalistas transferirem custos trabalhistas para o Estado, reduzindo-os, ao mesmo tempo que fornece cr\u00e9ditos e garantias aos mesmos patr\u00f5es.<br \/>\nIsso diminui arrecada\u00e7\u00e3o de receitas em tempos que os gastos com seguridade social deveriam aumentar, gerando um aumento do d\u00e9ficit p\u00fablico, que ser\u00e1 pago, novamente, pelos trabalhadores.<br \/>\nComo os novos programas introduzidos por meio do Kreditanstalt f\u00fcr Wiederaufbau (KfW &#8211; Instituto de Cr\u00e9dito para Reconstru\u00e7\u00e3o) o \u201cFundo de Estabiliza\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica\u201d (FSM) destina exclusivamente a grandes empresas fundos que chegam a 600 bilh\u00f5es de euros. Beneficia empresas como a Daimler AG, que est\u00e1 negociando uma linha de cr\u00e9dito de \u20ac 10 bilh\u00f5es, e a companhia a\u00e9rea Lufthansa, que busca subs\u00eddios de 9 bilh\u00f5es.<br \/>\nAo mesmo tempo em que o Estado renuncia a qualquer papel na gest\u00e3o das empresas envolvidas, para que n\u00e3o se tenha nenhuma d\u00favida que est\u00e1 afastando qualquer proposta de estatiza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEnquanto isso a classe trabalhadora est\u00e1 sendo afetada com a perda de renda, devido a diminui\u00e7\u00e3o das jornadas com diminui\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios, e o desemprego. Nenhum outro aux\u00edlio p\u00fablico foi decretado aos desempregados, al\u00e9m do que j\u00e1 existe, e que somente abarca os trabalhadores que fazem parte do sistema de seguro-desemprego, excluindo os chamados trabalhadores &#8220;marginais&#8221; (precarizados) ou sazonais, e somente abarcando um percentual dos sal\u00e1rios l\u00edquidos anteriores. Em abril este subs\u00eddio aumentou para 70% do sal\u00e1rio l\u00edquido (ou 77% para os agregados familiares com filhos), para quem est\u00e1 desempregado h\u00e1 mais de tr\u00eas meses e 80% (ou 87% para fam\u00edlias com crian\u00e7as) a partir do s\u00e9timo m\u00eas. Uma reivindica\u00e7\u00e3o m\u00ednima, que era feita pelos sindicatos e a Die Linke, mas s\u00f3 vale at\u00e9 31 de dezembro de 2020.<br \/>\nO que n\u00e3o \u00e9 suficiente, para o custo de vida na Alemanha. Como dizem os pr\u00f3prios trabalhadores alem\u00e3es: \u201cum aporte que n\u00e3o os deixa morrer de fome, mas insuficiente para viver\u201d<br \/>\nO governo imperialista alem\u00e3o tenta posar como preocupado com os trabalhadores e com os destinos de todos os pa\u00edses na Europa. Uma grande fal\u00e1cia.<br \/>\nPara garantir seus lucros e sua estabilidade a burguesia deste pais precisa que os pa\u00edses da Europa continuem comprando seus produtos e garantir a preserva\u00e7\u00e3o do euro para seu modelo de exporta\u00e7\u00e3o, e assim poder tentar encarar a brutal crise econ\u00f4mica que se aproxima. Esta \u00e9 a f\u00f3rmula aplicada por todos os governos capitalistas.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Os outros s\u00e3o Westfleisch (com sede em M\u00fcnster), Danish Crown (da Dinamarca) e Vion Food (da Holanda).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A maioria dos trabalhadores migrantes transfronteiri\u00e7os e sazonais na Europa depois que conseguem escapar da ilegalidade s\u00e3o os que fazem os piores trabalhos nos principais pa\u00edses imperialistas do continente. Majoritariamente de maneira precarizada, em p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de moradia, sal\u00e1rios baixos, horas n\u00e3o remuneradas, pouca \u00e1gua ou prote\u00e7\u00e3o contra a epidemia. Trabalhando sob press\u00e3o, horas a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":70569,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3989,30],"tags":[1384,5697,5698,5699],"class_list":["post-61288","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alemanha","category-coronavirus","tag-amilcar-costa","tag-angela-merkel","tag-coronavirus-alemanha","tag-tonnies"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/1_frigorifico_f1_1-17820224-1.jpg","categories_names":["Alemanha","Pandemia"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61288","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61288"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61288\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70569"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}