{"id":61281,"date":"2020-08-05T09:32:08","date_gmt":"2020-08-05T11:32:08","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=61281"},"modified":"2020-08-05T09:32:08","modified_gmt":"2020-08-05T11:32:08","slug":"o-pstu-e-extremista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/08\/05\/o-pstu-e-extremista\/","title":{"rendered":"O PSTU \u00e9 \u201cextremista\u201d?"},"content":{"rendered":"<p><em>Qual a raz\u00e3o pela qual setores acusam o PSTU de &#8220;extremista&#8221; ao mesmo tempo em que aplaudem de p\u00e9 a pol\u00edtica econ\u00f4mica de Bolsonaro e Guedes que joga a crise nas costas dos trabalhadores e do o povo pobre no momento em que o pa\u00eds se aproxima das 100 mil mortes pela pandemia?<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Diego Cruz<br \/>\nNum artigo publicado no jornal O Globo do dia 2 de julho, intitulado \u201c<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/opiniao\/quem-sao-os-inimigos-24510468\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Quem s\u00e3o os inimigos?<\/a>\u201c, o colunista Asc\u00e2nio Seleme tra\u00e7a uma falsa simetria a fim de criticar os arroubos autorit\u00e1rios do governo Bolsonaro, mas tamb\u00e9m para atacar partidos como o PSTU. Falsa simetria porque faz um paralelo absurdo tentando refor\u00e7ar o estigma de \u201cautorit\u00e1rio\u201d ao partido ecoando algo que a burguesia, e a sua imprensa especificamente, fazem h\u00e1 anos.<br \/>\nFalando sobre a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds, o colunista diz: \u201cDe um lado desses extremos est\u00e3o agremia\u00e7\u00f5es como o Partido da Causa Oper\u00e1ria (PCO) e o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU). Do outro lado, est\u00e3o partidos por onde trafega Bolsonaro, como o Patriotas e o Partido Social Liberal (PSL)\u201c.\u00a0 Esses \u201cextremos\u201d, para o colunista, seriam uma amea\u00e7a \u00e0 \u201cdemocracia\u201d: \u201cOs inimigos de verdade residem nos extremos. S\u00e3o os que atropelam leis, desrespeitam outros poderes, amea\u00e7am a democracia, ou os que pregam a ruptura democr\u00e1tica\u201c, diz.<br \/>\nO colunista expressa, na verdade, posi\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria da burguesia que pretende conter os instintos ditatoriais de Bolsonaro, continuar tocando as pautas de Guedes no Congresso Nacional e alavancar, desde j\u00e1, uma alternativa por fora dos \u201cextremos\u201d para 2022. Ou seja, uma alternativa burguesa por dentro da ordem que, em ess\u00eancia, mantenha a atual pol\u00edtica econ\u00f4mica, mas que se abstenha das sucessivas amea\u00e7as bolsonaristas de ditadura para garantir uma certa estabilidade pol\u00edtica. Um Luciano Huck ou algo do tipo.<br \/>\nNessa perspectiva, o colunista chama a combater os \u201cextremistas\u201d: Bolsonaro e a extrema-direita, e o que ele chama de extrema-esquerda, ambas, em sua vis\u00e3o, igualmente inimigas da \u201cdemocracia\u201d. \u00c9 um tipo de ataque que encontra eco nas redes sociais, tanto em setores da direita quanto da dita esquerda, onde n\u00e3o \u00e9 incomum tacharem o PSTU de \u201cBolsonaro da esquerda\u201d e express\u00f5es do tipo.<br \/>\nEsse tipo de posi\u00e7\u00e3o tem dois \u00e2mbitos. Um deles, mais superficial, \u00e9 a cal\u00fania pura e simples. Uma breve consulta na Internet que n\u00e3o gastaria alguns poucos segundos do tempo do articulista, mostraria a permanente den\u00fancia do PSTU contra Bolsonaro e a sua ofensiva pr\u00f3-ditadura. Tanto a den\u00fancia da defesa expl\u00edcita da ditadura militar, sua ode constante a torturadores, mas tamb\u00e9m a persegui\u00e7\u00e3o e censura que o governo imp\u00f5e a pesquisadores que contrariam sua pol\u00edtica genocida e anti-ambiental e \u00e0 tentativa de esconder e maquiar os dados dos mortos da pandemia.<br \/>\nUm conhecimento m\u00ednimo da trajet\u00f3ria do PSTU, por sua vez, j\u00e1 explicitaria o disparate desse falso paralelo. A principal corrente pol\u00edtica do qual o partido se formou forjou-se na luta contra a ditadura militar, tendo sentido na pele os efeitos da persegui\u00e7\u00e3o desse regime que uniu a c\u00fapula das For\u00e7as Armadas e grandes empresas, inclusive multinacionais. Militantes foram presos, torturados, perseguidos e demitidos pela ditadura. Mesmo depois de anos do fim do regime militar, continuaram sendo monitorados pelos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o. Um dos principais dirigentes e figuras p\u00fablicas do PSTU, Z\u00e9 Maria, foi preso e barbaramente torturado. Nesse mesmo per\u00edodo, \u00e9 bom lembrar, o grupo Globo alinhava-se \u00e0 ditadura. Estabelecer uma compara\u00e7\u00e3o, por m\u00ednima que seja, entre Bolsonaro e o PSTU, j\u00e1 seria um insulto leviano.<br \/>\nDa mesma forma que o PSTU tem a sua tradi\u00e7\u00e3o marcada pela luta contra a ditadura, hoje defende n\u00e3o s\u00f3 as atuais liberdades democr\u00e1ticas contra os ataques de Bolsonaro, mas a amplia\u00e7\u00e3o dessas liberdades. Medidas como a incondicional liberdade de imprensa, revogabilidade dos mandatos a qualquer momento, redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios dos parlamentares ao de um oper\u00e1rio ou professor, fim dos privil\u00e9gios de pol\u00edticos, ju\u00edzes e c\u00fapula das For\u00e7as Armadas, elei\u00e7\u00f5es mais democr\u00e1ticas com condi\u00e7\u00f5es iguais para todos, etc.<br \/>\nPor tr\u00e1s desse ataque, por\u00e9m, esconde-se bem mais que uma suposta ignor\u00e2ncia. E a\u00ed entramos na outra dimens\u00e3o dessa posi\u00e7\u00e3o e esse tipo de argumento.<br \/>\n<strong>Uma estranha no\u00e7\u00e3o de extremismo<\/strong><br \/>\n\u00c9 sintom\u00e1tico que os que atacam a ofensiva ditatorial de Bolsonaro, sob uma perspectiva da burguesia como a rede Globo, omitam dessa den\u00fancia o ministro Paulo Guedes. Ao contr\u00e1rio, Guedes, que assessorou a ditadura Pinochet no Chile, \u00e9 defendido como uma ilha de racionalidade em meio ao mar de insanidade e obscurantismo. Assim, pautas econ\u00f4micas defendidas pelo governo, como a rec\u00e9m-aprovada Medida Provis\u00f3ria 936, que permite a redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios em at\u00e9 70% e a suspens\u00e3o dos contratos de trabalho em meio \u00e0 pandemia, s\u00e3o vistas como bom senso e at\u00e9 mesmo necess\u00e1rias.<br \/>\nAinda nessa perspectiva, o presidente da C\u00e2mara, Rodrigo Maia (DEM), e partidos como o PSDB, s\u00e3o considerados \u201cmoderados\u201d ao defenderem medidas que permitem a demiss\u00e3o em massa num momento em que a crise econ\u00f4mica e a pandemia, aprofundada por essa mesma pol\u00edtica econ\u00f4mica, atingem milh\u00f5es de trabalhadores, fazendo com que, pela primeira vez na hist\u00f3ria, mais da metade da for\u00e7a de trabalho do pa\u00eds esteja desempregada. E o PSTU, que defende desde o in\u00edcio da pandemia a estabilidade no emprego sem redu\u00e7\u00e3o nos sal\u00e1rios (adotado inclusive por outros pa\u00edses), e uma renda social que pudesse garantir um isolamento de fato (o que teria evitado o mortic\u00ednio que testemunhamos hoje e \u00e9 defendido pela pr\u00f3pria OMS), \u00e9 \u201cextremista\u201d.<br \/>\nFazer uma greve contra redu\u00e7\u00e3o nos sal\u00e1rios, como os metrovi\u00e1rios de S\u00e3o Paulo, \u00e9 \u201cradicalismo\u201d, mas o fato de que 42 bilion\u00e1rios no pa\u00eds tenham enriquecido 34 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em plena pandemia, como muito bem respondeu o dirigente da categoria e militante do PSTU, Altino Prazeres, ao apresentador da rede Globo, Rodrigo Bocardi, \u00e9 algo que esses setores consideram normal. Como normal consideram o fato de termos quase cem mil mortos pela COVID-19, enquanto governadores reabrem shopping, bares e at\u00e9 academias de forma indiscriminada.<br \/>\nA pandemia exp\u00f5e de forma aguda as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo, essas sim cada vez mais extremas. Se antes j\u00e1 era absurdo que ainda exista fome no mundo, num momento em que s\u00f3 no Brasil se produz o que j\u00e1 seria suficiente para alimentar o planeta inteiro, com a pandemia essa desigualdade social se expressa diretamente em pilhas de mortos. \u00c9 a barb\u00e1rie normalizada pela burguesia e os grandes ve\u00edculos de m\u00eddia. Bolsonaro \u00e9 criticado quando investe contra a \u201cdemocracia\u201d e as suas institui\u00e7\u00f5es, como o STF, mas aplaudido quando refor\u00e7a ataques \u00e0 classe trabalhadora em favor dos ricos e dos banqueiros.<br \/>\nO PSTU denuncia tanto a ofensiva bolsonarista \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas, quanto a pol\u00edtica econ\u00f4mica ultraliberal de Guedes, apoiada pelo Congresso Nacional e grande parte da imprensa. Qual a raz\u00e3o pela qual os mesmos setores que hoje confrontam o autoritarismo de Bolsonaro e saem em defesa da \u201cdemocracia\u201d e do \u201cEstado democr\u00e1tico de Direito\u201d, batem palmas para Guedes e as medidas que jogam grande parte da popula\u00e7\u00e3o para o desemprego e a mis\u00e9ria?<br \/>\n<strong>Democracia, mas para que classe?<\/strong><br \/>\nEssa \u00e9 a pergunta que todo marxista, segundo L\u00eanin, deve fazer quando ouve essa palavra. Vivemos mesmo num sistema onde prevalece a vontade da maioria? A maioria da popula\u00e7\u00e3o e da classe trabalhadora escolheriam trabalhar a vida inteira para enriquecer um punhado de ricos, viver na pobreza e, na pandemia, ser exposto \u00e0 morte e \u00e0 mis\u00e9ria? Onde nem mesmo o direito de ter um emprego, ou seja, de ser explorado para ter o m\u00ednimo para sobreviver, \u00e9 assegurado.<br \/>\nO que chamam genericamente de \u201cdemocracia\u201d \u00e9, na verdade, uma democracia para a burguesia, para os ricos. Assim como na Gr\u00e9cia Antiga, a \u201cdemocracia\u201d era restrita aos propriet\u00e1rios de escravos, na Idade M\u00e9dia \u00e0 nobreza, no capitalismo \u00e9 uma democracia circunscrita apenas aos grandes capitalistas. Sempre na hist\u00f3ria, uma minoria submeteu a maioria \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o atrav\u00e9s do Estado.<br \/>\nNo capitalismo voc\u00ea tem a liberdade, em tese, de entrar numa concession\u00e1ria e comprar uma Ferrari. Ou para viajar para qualquer lugar do mundo. Na pr\u00e1tica, se voc\u00ea tiver um emprego para sobreviver j\u00e1 pode ser considerado um privilegiado. Se voc\u00ea for um jovem negro, ou uma mulher na periferia, mal pode andar pela rua sem medo. Isso porque o que chamam de \u201cdemocracia\u201d \u00e9, na verdade, uma ditadura de classe garantida e sustentada pelo Estado capitalista a fim de manter esse sistema. A \u201cliberdade\u201d na democracia burguesa se resume a votar e eleger os representantes que te explorar\u00e3o pelos quatro anos seguintes. Quem decide \u00e9 quem tem o poder econ\u00f4mico. A igualdade jur\u00eddica, assim, \u00e9 uma farsa que se revela diante da desigualdade social que, em tempos de pandemia, aproxima-se da barb\u00e1rie.<br \/>\nL\u00eanin, em \u201cO Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o\u201d, obra escrita no calor da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, entre a revolu\u00e7\u00e3o de fevereiro que derrubou o czarismo e instaurou uma democracia burguesa, e a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, polemizou sobre o car\u00e1ter de classe do Estado e sobre a \u201cdemocracia\u201d e \u201cditadura\u201d. Retomando o estudo de Marx e Engels a partir da Comuna de Paris, primeira revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria da Hist\u00f3ria ocorrida em 1871, L\u00eanin atesta que \u201co Estado \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o de classe, um \u00f3rg\u00e3o de submiss\u00e3o de uma classe por outra\u201c. Fruto da impossibilidade de concilia\u00e7\u00e3o de classes, o Estado assegura a domina\u00e7\u00e3o de uma classe e, atrav\u00e9s de um aparelho burocr\u00e1tico e, principalmente, militar, garante certa estabilidade e a perpetua\u00e7\u00e3o desse equil\u00edbrio. Essa \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o do marxismo de \u201cditadura\u201d. N\u00e3o \u00e9 uma forma de governo, mais autorit\u00e1ria ou menos, mas \u201cuma forma ou tipo de Estado\u201d, que submete uma classe sobre a outra.<br \/>\nNa breve experi\u00eancia da Comuna de Paris, os trabalhadores tomaram o poder e instauraram o primeiro Estado oper\u00e1rio que existiu. Os representantes dos trabalhadores eram eleitos por bairros, os privil\u00e9gios da casta burocr\u00e1tica do Estado foram abolidos e o antigo Ex\u00e9rcito dissolvido, sendo substitu\u00eddo pelo pr\u00f3prio povo em armas. Ap\u00f3s a Comuna, e a sua derrota, Marx e Engels estudaram essa experi\u00eancia, tiraram conclus\u00f5es, e avan\u00e7aram na defini\u00e7\u00e3o de que todo o Estado tem um car\u00e1ter intr\u00ednseco de classe, e que \u00e9 imposs\u00edvel, atrav\u00e9s de reformas ou elei\u00e7\u00e3o, mud\u00e1-lo. Era necess\u00e1rio, portanto, destru\u00ed-lo para construir um outro.<br \/>\nNo pref\u00e1cio de \u201cGuerra Civil na Fran\u00e7a\u201d (1871), Engels afirma que \u201co Estado n\u00e3o \u00e9 mais do que uma m\u00e1quina para a opress\u00e3o de uma classe por outra e de modo nenhum menos na rep\u00fablica democr\u00e1tica do que na monarquia\u201c. Ou seja, tanto num regime absolutista quanto numa \u201cdemocracia\u201d, o Estado sempre vai ser uma ditadura na medida em que assegura a domina\u00e7\u00e3o de uma classe, independentemente do n\u00edvel de liberdades democr\u00e1ticas que permita ou n\u00e3o.<br \/>\nO que n\u00e3o significa que devamos ser indiferentes \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas sob o capitalismo, pelo contr\u00e1rio. Lutamos pelo direito de organiza\u00e7\u00e3o, express\u00e3o, al\u00e9m das demais liberdades fundamentais para que a classe possa lutar. A quest\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o podemos parar por a\u00ed. Como explica mais uma vez L\u00eanin: \u201cSomos partid\u00e1rios da rep\u00fablica democr\u00e1tica como sendo a melhor forma de governo para o proletariado sob o regime capitalista, mas andar\u00edamos mal se esquec\u00eassemos que a escravid\u00e3o assalariada \u00e9 o quinh\u00e3o do povo mesmo na rep\u00fablica burguesa mais democr\u00e1tica\u201c.<br \/>\n<strong>Ditadura do Proletariado \u00e9 a democracia para a maioria<\/strong><br \/>\nNa tese de que os marxistas s\u00e3o \u201cautorit\u00e1rios\u201d, \u00e9 muito comum sacarem do bolso o argumento de que defendemos a \u201cditadura do proletariado\u201d, express\u00e3o cunhada por Marx para definir a tomada do poder pela classe oper\u00e1ria na transi\u00e7\u00e3o ao socialismo. Usam a palavra \u201cditadura\u201d como sin\u00f4nimo para um governo autorit\u00e1rio e chegam ao c\u00famulo de comparar com Bolsonaro. A realidade \u00e9 que toda forma de Estado \u00e9 uma ditadura. E \u00e9 imposs\u00edvel \u201creformar\u201d o Estado capitalista para que sirva \u00e0s necessidades da maioria.<br \/>\nA tarefa colocada aos revolucion\u00e1rios \u00e9, desse modo, lutar para tomar o poder e destruir essa Estado, e substitu\u00ed-lo por outro, com um outro car\u00e1ter de classe. Um Estado oper\u00e1rio onde quem governe n\u00e3o seja uma \u00ednfima minoria da popula\u00e7\u00e3o como sempre ocorreu na hist\u00f3ria, mas a classe oper\u00e1ria, a popula\u00e7\u00e3o pobre e a grande maioria do povo, atrav\u00e9s de seus pr\u00f3prios organismos de classe. E que as liberdades democr\u00e1ticas n\u00e3o sejam uma mera abstra\u00e7\u00e3o que apare\u00e7am como concess\u00f5es \u00e0 classe trabalhadora, mas express\u00e3o direta do fato de essa classe ter\u00e1 em m\u00e3os os meios de produ\u00e7\u00e3o, ou seja, o controle da produ\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria riqueza, hoje roubada pela burguesia.<br \/>\nUm Estado oper\u00e1rio que sirva \u00e0 classe trabalhadora contraria os interesses da burguesia. Por isso, seria ainda a express\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o de uma classe sobre outra e, assim, uma ditadura na defini\u00e7\u00e3o de Marx. Mas, pela primeira vez na hist\u00f3ria, um Estado que representa a maioria do povo contra uma minoria. Seria poss\u00edvel, assim, assegurar liberdades democr\u00e1ticas superiores a qualquer democracia burguesa. Na verdade, como nunca antes existiu na hist\u00f3ria.<br \/>\n<strong>Socialismo n\u00e3o \u00e9 capitalismo de rosto humano ou ditadura stalinista<\/strong><br \/>\nO estalinismo e a degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica que promoveu nos Estados oper\u00e1rios, assim como seu m\u00e9todo de persegui\u00e7\u00f5es a opositores pol\u00edticos em todo o mundo durante o s\u00e9culo passado, conferiu uma poderosa arma para a burguesia e o imperialismo atacarem qualquer perspectiva revolucion\u00e1ria. E continua assim at\u00e9 hoje, ao colocarem a caricatura dos regimes estalinistas como modelo de socialismo.<br \/>\nO PSTU reivindica os primeiros anos da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, e compartilha da mesma tradi\u00e7\u00e3o de L\u00eanin e Trotsky, um novo modelo de sociedade onde as liberdades democr\u00e1ticas ser\u00e3o muito superiores \u00e0 mais democr\u00e1tica das democracias burguesas, nada que ver, portanto, com as ditaduras stalinistas. Os trotsquistas, por isso mesmo, foram duramente perseguidos por quase um s\u00e9culo pelo stalinismo, e muitos perderam suas vidas nesse processo. Associar o PSTU ao stalinismo e aos regimes castro-chavistas n\u00e3o deixa de ser outro absurdo, o mesmo que associar revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 contrarrevolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTanto o stalinismo n\u00e3o tem nada a ver com socialismo que conduziram os pa\u00edses que dirigiram \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo, e a pr\u00f3pria casta burocr\u00e1tica converteu-se em burguesias.<br \/>\nOutra parte da esquerda, por outro lado, abandonou qualquer estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria para aderir \u00e0 \u201cdemocracia\u201d, na verdade, a democracia burguesa. Traduzindo: a ditadura capitalista da burguesia.<br \/>\nQuando setores reformistas clamam por \u201cuma democracia de verdade\u201d, defendem, na realidade, mais liberdades democr\u00e1ticas dentro do regime capitalista. Al\u00e9m de perpetuar a \u201cescravid\u00e3o assalariada\u201d, o regime de explora\u00e7\u00e3o, mis\u00e9ria e fome, nem mesmo essas restritas liberdades podem ser asseguradas sob o regime capitalista. No capitalismo, o que determina o grau de liberdade \u00e9 a luta de classes. Uma vez amea\u00e7ada, a burguesia n\u00e3o hesita em lan\u00e7ar m\u00e3o de repress\u00e3o, medidas autorit\u00e1rias ou at\u00e9 mesmo do fechamento do regime. Sob os governos do PT, por exemplo, foram aprovadas as leis antiterrorismo, e mobiliza\u00e7\u00f5es como as de ind\u00edgenas foram reprimidas pela For\u00e7a Nacional.<br \/>\nMesmo com uma fraseologia aparentemente mais \u00e0 esquerda, n\u00e3o escapam dos limites do capitalismo, mesmo que n\u00e3o o chamem assim. O caso, por exemplo, de Guilherme Boulos e a sua defini\u00e7\u00e3o de \u201csocialismo\u201d. Em seu programa \u201cCaf\u00e9 Com Boulos\u201d, o atual pr\u00e9-candidato do PSOL \u00e0 prefeitura de S\u00e3o Paulo afirmou que \u201cser socialista \u00e9 defender um novo modelo de sociedade com outros valores\u201c. Que valores? \u201cA vida acima do lucro, igualdade, democracia e solidariedade\u201c. Se voc\u00ea perguntar aos maiores burgueses, dificilmente algum discordaria desses \u201cvalores\u201d. Ali\u00e1s, grandes burgueses como Bill Gates fazem quest\u00e3o de dedicar suas vidas \u00e0 filantropia.<br \/>\nDefender \u201cnovos valores\u201d ou, no m\u00e1ximo, a amplia\u00e7\u00e3o da \u201cparticipa\u00e7\u00e3o popular\u201d atrav\u00e9s de plebiscitos e referendos, conselhos e associa\u00e7\u00f5es aos moldes do que fez o PT no passado, n\u00e3o \u00e9 nada menos que defender um capitalismo de rosto humano. Identificar as mazelas do capitalismo e se limitar a medidas por dentro da ordem, sem atacar a causa desse sistema de explora\u00e7\u00e3o, \u00e9 como tratar uma pneumonia com dipirona: prop\u00f5e-se a aliviar os efeitos, mas n\u00e3o a doen\u00e7a. E \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 exatamente a que esses setores t\u00eam tanto medo de dizer: uma revolu\u00e7\u00e3o socialista.<br \/>\n<strong>Qual ent\u00e3o o verdadeiro antagonismo?<\/strong><br \/>\nBolsonaro quer uma ditadura aberta para continuar, e aprofundar, sua pol\u00edtica genocida e de guerra social contra a classe trabalhadora. O Congresso Nacional, o PSDB, e o PT, querem manter as atuais liberdades do regime democr\u00e1tico burgu\u00eas, e ponto. Diferentes a seu modo, todos eles defendem, ao fim e ao cabo, a ditadura capitalista burguesa. Essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual certos setores podem, confortavelmente, criticar Bolsonaro por seus arroubos autorit\u00e1rios, ao mesmo tempo em que aplaudem efusivamente a pol\u00edtica econ\u00f4mica imposta pelo mesmo governo, atrav\u00e9s de Paulo Guedes, junto com o Congresso Nacional e os governadores.<br \/>\nSe politicamente existe hoje uma polariza\u00e7\u00e3o entre Bolsonaro e setores da c\u00fapula militar, aliados a grupos \u00ednfimos, a favor do fechamento do regime; e outros setores contra o ataque \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas (os quais tamb\u00e9m nos localizamos), no fundo, a verdadeira disjuntiva colocada pela realidade, e que a pandemia torna cada vez mais candente, \u00e9 entre a barb\u00e1rie capitalista e uma revolu\u00e7\u00e3o socialista, a \u00fanica forma de garantir ampla liberdade econ\u00f4mica e social \u00e0 maioria da popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSe existe uma \u201cliberdade\u201d que o PSTU quer realmente acabar, \u00e9 a da burguesia explorar e oprimir a maioria do povo, e mandar \u00e0 morte milh\u00f5es para manter seus lucros e privil\u00e9gios.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qual a raz\u00e3o pela qual setores acusam o PSTU de &#8220;extremista&#8221; ao mesmo tempo em que aplaudem de p\u00e9 a pol\u00edtica econ\u00f4mica de Bolsonaro e Guedes que joga a crise nas costas dos trabalhadores e do o povo pobre no momento em que o pa\u00eds se aproxima das 100 mil mortes pela pandemia?<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":61282,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[121],"tags":[5693,470,849,4994,1047,190,5694,192],"class_list":["post-61281","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-ascanio-seleme","tag-bolsonaro","tag-diego-cruz","tag-ditadura","tag-estado","tag-pstu-brasil","tag-radicalismo","tag-socialismo"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/14492592_1139985906084320_2184311753896622713_n1-696x464-1.jpg","categories_names":["Brasil"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61281","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61281"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61281\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61282"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61281"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61281"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61281"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}