{"id":61248,"date":"2020-08-03T17:50:12","date_gmt":"2020-08-03T19:50:12","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=61248"},"modified":"2020-08-03T17:50:12","modified_gmt":"2020-08-03T19:50:12","slug":"o-estado-burgues-e-o-fascismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/08\/03\/o-estado-burgues-e-o-fascismo\/","title":{"rendered":"O Estado burgu\u00eas e o fascismo"},"content":{"rendered":"<p><em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em><br \/>\n<em>\u00c9 muito dif\u00edcil discutir o fascismo, e qualquer outro regime pol\u00edtico, sem discutir o estado. Em primeiro lugar, porque o fascismo \u00e9 uma forma, um regime, assumida dentro do estado burgu\u00eas, assim como tamb\u00e9m \u00e9 a democracia, as ditaduras militares e os regimes bonapartistas cl\u00e1ssicos ou\u00a0sui generis.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Jer\u00f4nimo Castro*<br \/>\nO estado n\u00e3o existe desde sempre, ele se origina desde quando o trabalho humano se tornou capaz de produzir excedentes e passou haver a disputa por esse excedente, de forma velada ou n\u00e3o. Quando a humanidade se tornou capaz de produzir excedentes a sua necessidade foi tamb\u00e9m quando surgiu a explora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs povos que viviam como coletores e ca\u00e7adores eram capazes de produzir mais ou menos o necess\u00e1rio para sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, n\u00e3o havia como explorar o trabalho de outrem na medida em que este trabalho n\u00e3o produzia excedente. Toda explora\u00e7\u00e3o se baseia no fato de que, em um determinado momento, o trabalho passou a produzir mais que o estritamente necess\u00e1rio para a sobreviv\u00eancia dos trabalhadores.<br \/>\nO h\u00e1bito de alguns povos primitivos de comer seus prisioneiros, a antropofagia ritual\u00edstica, vem justamente do fato de que n\u00e3o valia a pena p\u00f4-lo para trabalhar.<br \/>\nO estado surge, portanto, da necessidade de desarmar o conjunto da sociedade, de criar um aparato armado independente da comunidade, que proteja os interesses da classe que domina. A classe que se apropriar\u00e1 dos excedentes produzidos.<br \/>\nPara dar um exemplo, no escravista, havia uma sociedade baseado na explora\u00e7\u00e3o do trabalho na forma de escravid\u00e3o, ou seja, quando o trabalhador n\u00e3o vendia apenas seu trabalho, mas era comprado inteiramente e de uma s\u00f3 vez. Era uma ferramenta como outra qualquer, propriedade de seu dono.<br \/>\nHouve muitas formas de estado escravista, houve a democracia grega, houve a tirania, a rep\u00fablica romana, o imp\u00e9rio, na rep\u00fablica tivemos a ditadura. Todas essas formas de domina\u00e7\u00e3o \u2013 rep\u00fablica, democracia, tirania, ditadura \u2013 eram bastante distintas, mas tinham um mesmo conte\u00fado de estado, era um estado escravista, que defendia o senhor de escravos contra os escravos e, \u00e0s vezes, contra a plebe.<br \/>\nEscravos e plebeus se rebelaram mais de uma vez contra essa domina\u00e7\u00e3o dos senhores de escravos, basta nos lembrar dos Irm\u00e3os Graco, em Roma, que eram representantes dos plebeus, e da rebeli\u00e3o de Spartacus, o gladiador que havia se rebelado e conseguiu derrotar v\u00e1rias vezes o ex\u00e9rcito romano.<br \/>\nNa atualidade, \u00e9 a mesma coisa. O estado se apresenta de diversas formas, mas tem sempre um mesmo conte\u00fado, o da domina\u00e7\u00e3o burguesa. Ou seja, a garantia de que a burguesia possa seguir explorando a classe trabalhadora, extraindo dela os excedentes que ela pr\u00f3pria produz.<br \/>\n<strong>1 A Burguesia: de classe revolucion\u00e1ria a reacion\u00e1ria<\/strong><br \/>\nA democracia burguesa veio \u00e0 luz, no mundo, sob o fogo e o ferro das revolu\u00e7\u00f5es burguesas. Houve um processo de transforma\u00e7\u00e3o no qual, em sua juventude, a burguesia apresentava-se como uma classe social progressiva e, em seu momento de auge e hero\u00edsmo, alternou-se entre per\u00edodos de democracias e ditadura revolucion\u00e1ria.<br \/>\nA assembleia nacional, constituinte e legislativa, a conven\u00e7\u00e3o, os clubes, em que os jacobinos se tornaram o mais famoso, s\u00e3o alguns momentos que retratam o nascimento tormentoso desta forma de governar. Igualmente, o terror que matou milhares em Paris, inclusive ao rei Lu\u00eds XVI, a Danton e Robespierre, bem como as guerras defensivas do per\u00edodo revolucion\u00e1rio, e tamb\u00e9m o imp\u00e9rio napole\u00f4nico, s\u00e3o todos, entre idas e vindas, parte deste processo ao mesmo tempo glorioso, sangrento e terr\u00edvel.<br \/>\nN\u00e3o foi somente na Fran\u00e7a que a burguesia travou uma sangrenta luta para assumir o poder, houve revolu\u00e7\u00f5es burguesas de diversos tipos e em v\u00e1rias partes do mundo, com caracter\u00edsticas distintas, mas que buscavam a constru\u00e7\u00e3o de um novo estado.<br \/>\nDesta maneira, foram as guerras de independ\u00eancia nos Estados Unidos, no Haiti e na Am\u00e9rica Espanhola, por exemplo. Assim foi, tamb\u00e9m, com a Revolu\u00e7\u00e3o Inglesa, no s\u00e9culo XVII, cem anos antes da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. A burguesia ascendente liderou, com maior ou menor fervor, as classes exclu\u00eddas do antigo regime em dire\u00e7\u00e3o a um novo mundo, onde quem governaria seria ela. Ao faz\u00ea-lo, colocou \u00e0 margem as antigas for\u00e7as pol\u00edticas, a nobreza e o clero, e construiu um estado que a defendesse e garantisse sua exist\u00eancia.<br \/>\nNaquele momento, s\u00e3o aliados da burguesia o terceiro estado, os pequeno burgueses, os artes\u00f5es, os semiprolet\u00e1rios e prolet\u00e1rios existentes, o baixo clero empobrecido, a nobreza esclarecida (at\u00e9 certo ponto), os intelectuais e profissionais liberais. A burguesia reuniu, ao seu redor, os descontentes e desvalidos para mudar o mundo segundo os seus pr\u00f3prios interesses.<br \/>\nTerminada a onda revolucion\u00e1ria, e as guerras napole\u00f4nicas, veio ent\u00e3o a restaura\u00e7\u00e3o mon\u00e1rquica. A Fran\u00e7a, Alemanha e a It\u00e1lia seguiam sem conseguir se unificar. As tarefas burguesas seguiam pendentes e eram necess\u00e1rias novas revolu\u00e7\u00f5es para resolv\u00ea-las.<br \/>\nEm 1848, uma nova revolu\u00e7\u00e3o explode na Fran\u00e7a e se espalha pela Europa, era a Primavera dos Povos. Mas as classes sociais haviam se desenvolvido, o terceiro estado, aquela jun\u00e7\u00e3o entre burguesia, pequena burguesia, proletariado, baixo clero, mendigos etc., havia se redefinido. Estas classes ganharam contornos mais n\u00edtidos, a burguesia e o proletariado j\u00e1 tinham seus interesses antag\u00f4nicos bem definidos. A revolu\u00e7\u00e3o come\u00e7a, aparentemente, com este terceiro estado unido. No entanto, na medida em que se avan\u00e7a e que as massas abaixo da burguesia exigem mais direitos e concess\u00f5es e que a palavra de ordem por uma rep\u00fablica social vai ganhando contorno, a burguesia se separa violentamente do proletariado. Ela o enfrenta e o derrota, muitas vezes \u00e0 custa de massacres. A burguesia, ent\u00e3o, se une com os restos do regime feudal e\u00a0adota novamente\u00a0o Bonapartismo como regime politico baseado na burocracia e no ex\u00e9rcito permanente, no medo e paralisia da pr\u00f3pria burguesia e na sua necessidade de um \u00e1rbitro aparentemente neutro para resolver os conflitos sociais, sempre defendendo sua propriedade e seus lucros.<br \/>\nVale dizer, que j\u00e1 o regime do primeiro Bonaparte, napole\u00e3o, \u00e9 bonapartista, s\u00f3 quer progressivo, pois buscava \u00e0 sua maneira preservar e consolidar as conquistas da revolu\u00e7\u00e3o francesa.<br \/>\nNa Alemanha, as tarefas burguesas n\u00e3o ser\u00e3o resolvidas \u00e0 moda revolucion\u00e1rias, de 1789, mas por uma s\u00e9rie de acordos e por um tipo especial de bonapartismo, o Bismarkismo.<br \/>\n<strong>2. Democracia e ditaduras<\/strong><br \/>\nDizer que um governo \u00e9 democr\u00e1tico n\u00e3o significa que ele n\u00e3o seja violento. A ess\u00eancia de todo estado, j\u00e1 dizia Engels, \u00e9 a viol\u00eancia organizada a servi\u00e7o de uma determinada classe social. Portanto, as democracias s\u00e3o violentas, e praticam a repress\u00e3o duramente. Basta vermos o quanto mata a pol\u00edcia brasileira, quantos mil presos temos nos pres\u00eddios, a quantidade de massacres perpetrados nos \u00faltimos 30 anos, para vermos que n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de viol\u00eancia organizada pelo estado que distingue um regime do outro.<br \/>\nA democracia se distingue de todas os demais regimes de domina\u00e7\u00e3o burguesa por ela garantir a todos determinadas liberdades formais. O direito de reuni\u00e3o, de express\u00e3o, de livre manifesta\u00e7\u00e3o, de livre associa\u00e7\u00e3o. A garantia de um ju\u00edzo justo, do direito a ampla defesa, de n\u00e3o ser preso sem um julgamento, nem de ser acusado sem uma lei previamente existente.<br \/>\nDizemos que \u00e9 uma garantia formal porque, para exercer esses direitos, parte-se de condi\u00e7\u00f5es muito desiguais e, muitas vezes, \u00e9 imposs\u00edvel consegui-lo. Por exemplo, para um oper\u00e1rio exercer seu direito de livre associa\u00e7\u00e3o, ele corre o risco de perder seu emprego, pois, ao final de contas o patr\u00e3o dele \u00e9 livre para contratar ou n\u00e3o seu servi\u00e7o. N\u00e3o temos nem o que dizer em respeito ao direito a ampla defesa, ao julgamento justo etc.<br \/>\nA outra caracter\u00edstica, da democracia burguesa, \u00e9 a triparti\u00e7\u00e3o dos poderes, divididos em executiva, legislativo e judici\u00e1rio. \u00c9 uma f\u00f3rmula que permite que os diversos setores burgueses se vigiem mutuamente no exerc\u00edcio do controle do estado.<br \/>\nUm terceiro aspecto importante da democracia burguesa \u00e9 a elegibilidade dos representantes e governantes. H\u00e1 lugares em que, inclusive, se elegem ju\u00edzes e delegados, noutros apenas os deputados. No entanto, n\u00e3o apenas as democracias fazem elei\u00e7\u00f5es e o fato de que estas existam n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimos de democracia. Ditaduras, como foi o caso da brasileira, realizam elei\u00e7\u00f5es. Nestes casos, os organismos eleitos nas elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o normalmente os que governam. Voltaremos a isso mais a frente.<br \/>\nA pr\u00f3pria democracia burguesa n\u00e3o ocorre de maneira sempre igual. Em primeiro lugar, ela \u00e9 fruto das diversas formas em que foi institu\u00edda. Temos as rep\u00fablicas presidencialistas, onde a figura central \u00e9 do poder executivo, do presidente, os regimes parlamentaristas, em que \u00e9 o parlamento que governa e as monarquias constitucionais que, ao lado do parlamento e do executivo, segue existindo de forma mais ou menos decorativa as fam\u00edlias mon\u00e1rquicas.<br \/>\nAl\u00e9m disso, \u00e9 bom que se diga, a democracia varia ao longo tempo e do espa\u00e7o. A democracia nos pa\u00edses imperialista, s\u00e3o, normalmente, muito mais democr\u00e1ticas que nos pa\u00edses coloniais e semi coloniais. H\u00e1 muito mais liberdade real na Europa, e nos EUA, do que no Brasil, Argentina e M\u00e9xico, por exemplo.<br \/>\nOutro aspecto, \u00e9 que o grau de liberdades democr\u00e1ticas tamb\u00e9m varia no tempo. Uma situa\u00e7\u00e3o mais ou menos acirrada influencia no grau de repress\u00e3o que se aplica contra as massas, sem que necessariamente se rompa os marcos da democracia burguesa. Uma democracia pode ter mais ou menos elementos de Bonapartismo, sem que se cruze a fronteira de um regime para o outro.<br \/>\nA democracia apresenta uma s\u00e9rie de vantagens, quando ela pode ser aplicada, com a permiss\u00e3o n\u00e3o apenas para resolu\u00e7\u00e3o dos problemas entre os distintos setores burgueses de forma mais pac\u00edfica, mas, tamb\u00e9m, por proporcionar as melhores condi\u00e7\u00f5es para cooptar para dentro do regime burgu\u00eas a parcelas da classe oper\u00e1ria, e mesmo da pequena burguesia que, em determinadas condi\u00e7\u00f5es, poderiam se enfrentar violentamente contra o estado e o regime.<br \/>\nAl\u00e9m disso, a democracia se monta em um estado que funciona a custa de funcion\u00e1rios permanentes, uma burocracia que de fato controla muita mais coisa do que o que se imagina. Milh\u00f5es de funcion\u00e1rios permanecem na administra\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios de estado. Muda-se o governo e, inclusive, muda-se o regime e muitos destes permanecessem nesta tarefa. Isto diminui a influ\u00eancia das elei\u00e7\u00f5es sobre o conjunto dos neg\u00f3cios burgueses e garante a burguesia que, mesmo que porventura as elei\u00e7\u00f5es saiam do controle, e se eleja um parlamento ou um governo menos d\u00f3cil, o aparelho do pr\u00f3prio estado seja ainda controlado pela burguesia por conta de sua pr\u00f3pria natureza.<br \/>\nNo entanto, os regimes de domina\u00e7\u00e3o das classes n\u00e3o s\u00e3o como um menu onde a classe dominante escolhe, a seu bel prazer, como ela vai dominar as demais classes da sociedade. Entram a\u00ed outros fatores que v\u00e3o muito al\u00e9m da vontade das classes. Uma s\u00e9rie de elementos que poderiam ser resumidos na seguinte express\u00e3o: \u201ccorrela\u00e7\u00e3o de for\u00e7a na luta de classes\u201d. Neste pomposo nome, encontra-se a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em geral. Quando se tem uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as favor\u00e1vel para a classe dominante, tende-se a permitir uma domina\u00e7\u00e3o com menos problemas e, quando ela \u00e9 desfavor\u00e1vel, \u00e9 comum, inclusive, que surjam divis\u00f5es na pr\u00f3pria classe dominante, na situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, na rela\u00e7\u00e3o entre os estados, no grau de descontentamento das classes dominadas e no seu grau de mobiliza\u00e7\u00e3o etc.<br \/>\nDadas as contradi\u00e7\u00f5es dentro da pr\u00f3pria burguesia, uma fra\u00e7\u00e3o dela pode lan\u00e7ar a carta do Bonapartismo. Este regime se difere da democracia, n\u00e3o pelos temas meramente formais, mas pelo conte\u00fado de sua domina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUm regime bonapartista pode ter elei\u00e7\u00f5es e plebiscitos, e inclusive \u00f3rg\u00e3o eleitos. Assim como um parlamento e um presidente da rep\u00fablica eleito. No entanto, isso \u00e9 a forma e n\u00e3o conte\u00fado.<br \/>\nEm primeiro lugar, n\u00e3o s\u00e3o nestes \u00f3rg\u00e3os eleitos, no parlamento ou no presidente da rep\u00fablica que o poder reside. O Bonaparte se apoia no corpo de funcion\u00e1rios do pr\u00f3prio estado para governar, ou seja, no empoderamento da burocracia estatal, por outro lado, e principalmente, ele se apoia tamb\u00e9m no ex\u00e9rcito permanente. \u00c9 um governo do aparelho do estado que, aparentemente, se torna independente da sociedade. \u00c0 sua cabe\u00e7a est\u00e1 o iluminado, o C\u00e9sar, o Napole\u00e3o, o homem forte.<br \/>\nAl\u00e9m disso, podendo manter a triparti\u00e7\u00e3o do poder, ainda que formalmente, a verdade \u00e9 que o Bonaparte submete a justi\u00e7a e o legislativo ao seu poder exercido por meio do executivo. Por fim, as chamadas \u201cliberdades democr\u00e1ticas\u201d s\u00e3o reduzidas. Inclusive a liberdade para setores burgueses. Um regime bonapartista fecha jornais, prende opositores, persegue os dissidentes, impede ou dificulta o exerc\u00edcio da liberdade de express\u00e3o, de organiza\u00e7\u00e3o e manifesta\u00e7\u00e3o. Mas faz isso nos limites que seu pr\u00f3prio aparato militar \u2013 policial \u2013 burocr\u00e1tico permite. Este \u00e9 um elemento importante, pois, veremos adiante, que no fascismo isso \u00e9 diferente.<br \/>\nH\u00e1 uma importante varia\u00e7\u00e3o do bonapartismo, o chamado bonapartismo\u00a0sui generis, que s\u00e3o regimes que se apoiam nos setores oper\u00e1rios para enfrentar setores de sua pr\u00f3pria burguesia e, tamb\u00e9m, ao imperialismo e assim conseguir melhores condi\u00e7\u00f5es para o pa\u00eds no cen\u00e1rio mundial.<br \/>\nS\u00e3o regimes que surgem nos pa\u00edses semi-colonias, em condi\u00e7\u00f5es muito espec\u00edficas da luta de classes.<br \/>\n\u00c9 um regime burgu\u00eas, bonapartista, ou seja, com caracter\u00edsticas autorit\u00e1rias, ditatoriais, que tamb\u00e9m golpeiam aos setores oper\u00e1rios independentes, mas que faz importantes concess\u00f5es a outros setores.<br \/>\nH\u00e1 uma s\u00e9rie de exemplos deste tipo de regime que podemos citar, a America Latina passou por v\u00e1rios deles. O governo de C\u00e1rdenas (M\u00e9xico), Nasser (Egito), Peron (Argentina), Velasco (Peru), Ch\u00e1vez (Venezuela) s\u00e3o todos regimes bonapartistas\u00a0sui generis. Velasco deu sedes imensas aos sindicatos, Nasser nacionalizou mais de 80% da economia e manteve rela\u00e7\u00f5es muito pr\u00f3ximas com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. C\u00e1rdenas nacionalizou a ind\u00fastria petroleira e criou um conselho de administra\u00e7\u00e3o que incorporava os sindicatos, Peron, na Argentina, criou uma legisla\u00e7\u00e3o protetiva e ia frequentemente aos sindicatos tomar mate com os trabalhadores e dirigentes sindicais. Do ponto de vista social, pode ser circunstancialmente mais progressivos, pois d\u00e3o aos trabalhadores melhores condi\u00e7\u00f5es para a venda de sua for\u00e7a de trabalho. Do ponto de vista pol\u00edtico, s\u00e3o uma trag\u00e9dia, pois borram a consci\u00eancia dos trabalhadores sobre a necessidade de uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica independente. O Peronismo, o Nasserismo, o Velasquismo, o Chavismo e por a\u00ed vai, s\u00e3o correntes burguesas que se apoiam nesta experi\u00eancia e no saudosismo que ela causa diante da piora permanente do n\u00edvel de vida das massas.<br \/>\nH\u00e1 uma longa discuss\u00e3o sobre se bonapartismo se limita a estes elementos ou se as demais ditaduras e governos autorit\u00e1rios tamb\u00e9m podem ser considerados bonapartismo. Para al\u00e9m desta pol\u00eamica vale a pena destacar alguns pontos.<br \/>\nNa America Latina foram comuns as ditaduras militares que,\u00a0uma variante\u00a0do bonapartismo cl\u00e1ssico, onde \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o, ou as institui\u00e7\u00f5es militares (nomeadamente a marinha, ex\u00e9rcito e a aeron\u00e1utica), que governam. Este \u00e9 um tipo de regime baseado nas for\u00e7as armadas, e que normalmente p\u00f5e um general para governar. Vale lembrar que Velasco, Ch\u00e1vez, Per\u00f3n e Nasser eram militares.<br \/>\nO ex\u00e9rcito, pelo seu peso social e capilaridade, confere ao regime uma base pol\u00edtica que, dependendo das circunst\u00e2ncias, pode lhe dar longevidade. A ditadura militar brasileira, por exemplo, durou 21 anos. Como todo bonapartismo, a ditadura militar elimina as liberdades democr\u00e1ticas na medida em que seu aparato policial militar o permite, reprimindo, inclusive, setores burgueses dissidentes.<br \/>\nPoder\u00edamos falar, ainda, de regimes menos comuns como a teocracia no Ir\u00e3, baseado nos Aiatol\u00e1s, ou no governo absolutista da Ar\u00e1bia Saudita, onde ainda se apedreja mulheres, corta-se a m\u00e3o de ladr\u00f5es e uma s\u00e9rie de castigos medievais s\u00e3o aplicados legalmente.<br \/>\n<strong>3. O fascismo: O que \u00e9?<\/strong><br \/>\nSendo um regime burgu\u00eas, o fascismo \u00e9 muito diferente de todos os que apresentamos at\u00e9 agora. N\u00e3o porque n\u00e3o existam pontos em comum entre estes regimes, sim h\u00e1. Por exemplo, o fascismo tamb\u00e9m se apoia na figura de um grande chefe e salvador (inclusive com mais \u00eanfase) de modo parecido ao que ocorre no bonapartismo. Uma vez no poder, o fascismo instaura uma ditadura de car\u00e1ter policial profunda, tal qual fazem as ditaduras policias militares.<br \/>\nAssim como em outras formas de ditadura, o fascismo se apoia em uma ideologia que refor\u00e7a as opress\u00f5es preexistentes na sociedade (opress\u00e3o nacional, racial, de g\u00eanero e sexual) e ataca as liberdades democr\u00e1ticas. N\u00e3o por acaso, os descuidados em geral, os ultraesquerdistas e os oportunistas, cada um por seus motivos, confundem, propositalmente, ou por falta de capacidade, o fascismo com um ou outro regime, algumas vezes inclusive com coisas que n\u00e3o tem nada a ver com o fascismo. A este ponto voltaremos mais tarde.<br \/>\nPossuindo pontos de contatos com outros regimes de domina\u00e7\u00e3o burguesa, o fascismo se difere dos demais em v\u00e1rios aspectos. Enumerarei algumas de suas caracter\u00edsticas fundamentais:<br \/>\n1) Em primeiro lugar, o surgimento do fascismo \u00e9 fruto de uma crise geral que se instala na sociedade, uma crise que, sendo de origem econ\u00f4mica, \u00e9 tamb\u00e9m pol\u00edtica e social e que coloca sucessivas vezes o real perigo da derrocada do regime de domina\u00e7\u00e3o burguesa. \u00c9 necess\u00e1rio que setores majorit\u00e1rios da burguesia realmente creiam que est\u00e3o sob um perigo iminente de sua total destrui\u00e7\u00e3o para que ela lance m\u00e3o desta cartada t\u00e3o decisiva.<br \/>\n2) Em segundo lugar, o fascismo \u00e9 fruto da incapacidade do proletariado de dirigir e apresentar uma sa\u00edda para esta crise. Normalmente, o fascismo surge como uma resposta da pequena burguesia por sua perda de f\u00e9 na capacidade da classe trabalhadora de tomar o poder e resolver a crise nacional a que o pa\u00eds esta submergido.<br \/>\n3) Em terceiro lugar, e muito importante, o fascismo \u00e9 um movimento de massas, que abarca milh\u00f5es de pessoas, em sua maioria pequeno-burgueses arruinados pela crise ou temerosos de se arruinar e l\u00fampens que se enquadram em seus bandos uniformizados cuja principal tarefa \u00e9 atacar fisicamente, mesmo antes da tomada do poder, ao proletariado.<br \/>\nEste poderoso movimento de massas \u00e9 organizado e enquadrado militarmente. Apenas para termos uma ideia, os camisas pardas (mil\u00edcia paramilitar nazista), na Alemanha, organizavam mais de 4,5 milh\u00f5es de pessoas. \u00c9 um movimento radical plebeu, em certo sentido descontrolado, que a burguesia usa como um ar\u00edete para enfrentar e derrotar ao movimento de massas.<br \/>\nNeste sentido, pese ter participa\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es e representantes parlamentares, o fascismo \u00e9 antes de mais nada um movimento extraparlamentar, que usa m\u00e9todos ilegais, desde antes da tomada do poder, para se enfrentar ao movimento de massas e \u00e0 classe operaria<br \/>\nEsse movimento, que possui algumas caracter\u00edsticas altamente contradit\u00f3rias, com uma base popular e plebeia, \u00e9, uma vez que a burguesia ou alguns setores destas se decidam, armado, uniformizado e alimentado pela alta burguesia e seus setores mais decididos a dar uma li\u00e7\u00e3o duradoura \u00e0 classe operaria.<br \/>\n4) Seguimos ent\u00e3o para a quarta caracter\u00edstica do fascismo. Em seu processo de desenvolvimento em ascens\u00e3o para a tomada do poder, mas tamb\u00e9m ap\u00f3s conseguir este objetivo, o fascismo tem como objetivo travar uma guerra civil, sem tr\u00e9guas, at\u00e9 que se destruam todas as organiza\u00e7\u00f5es, de todos os tipos, que a classe oper\u00e1ria possa ter. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 destruir partidos, sindicatos, clubes, times de futebol, escolas, centros recreativos etc. Isto \u00e9 diferente dos outros regimes, que buscam incorporar as organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, ou coibi-las, ainda que sem poder acabar com elas. Ou seja, o objetivo do fascismo \u00e9 a total atomiza\u00e7\u00e3o da classe enquanto ente organizado, em qualquer aspecto da vida social.<br \/>\nPara atingir este fim, n\u00e3o h\u00e1 aparelho policial que de conta, nenhum estado pode incorporar em si esta quantidade de agentes, se faz necess\u00e1rio envolver setores sociais inteiros, por isso, a import\u00e2ncia da pequena burguesia e do lumpesinato, eles s\u00e3o os agentes pol\u00edticos da burguesia nesta luta mortal contra a classe trabalhadora.<br \/>\nUma vez no poder, o fascismo tem que se adaptar ao estado burgu\u00eas e, ao mesmo tempo, exigir que aspectos deste estado se adaptem a ele. Na Alemanha e It\u00e1lia, foram necess\u00e1rias purgas importantes para impor a ordem nas hordas fascistas ap\u00f3s a tomada do poder. Famosa \u00e9 a Noite das Facas Longas, quando, sob o comando de Hitler, as SA (abrevia\u00e7\u00e3o de Sturmabteilung) passaram por uma pesada purga, em que seus principais dirigentes foram mortos, suas mil\u00edcias depuradas e, finalmente, foram incorporadas \u00e0s tropas de prote\u00e7\u00e3o nazistas SS (Schutzstaffel) e tamb\u00e9m ao ex\u00e9rcito.<br \/>\nAinda assim, mantiveram-se importantes discrep\u00e2ncias entre estes grupos armados. Citamos, como exemplo, as diferen\u00e7as entre as SS, mil\u00edcias cada vez mais militarizadas, e o pr\u00f3prio ex\u00e9rcito alem\u00e3o. Basta lembrarmos que, j\u00e1 no meio da guerra, o general Erwin Rommel narrou em seus di\u00e1rios que ele n\u00e3o havia permitido ao seu filho a servir nas SS que, naquele momento, j\u00e1 era um corpo militar de elite, exigindo que ele se engajasse no ex\u00e9rcito regular alem\u00e3o.<br \/>\nEstas duas caracter\u00edsticas do fascismo se devem ao mesmo motivo, o fato de ele ser um movimento de massas, que, por um lado, precisa ser controlado uma vez que chegue ao poder e, por outro, a tarefa de criar novos l\u00edderes, muitos de origem plebeia, popular. As outras institui\u00e7\u00f5es, como as mil\u00edcias, exigem uma reacomoda\u00e7\u00e3o ao chegar ao poder.<br \/>\nEsta caracter\u00edstica, t\u00e3o importante do fascismo, de ser um movimento de massas \u00e9 o que ao mesmo tempo: a) faz com que a burguesia o tema e s\u00f3 lance m\u00e3o dele como \u00faltimo recurso; b) faz dele um inimigo t\u00e3o perigoso e poderoso, o \u00fanico que de fato pode levar a cabo sua miss\u00e3o de exterminar politicamente ao proletariado.<br \/>\nOutro elemento de confus\u00e3o, importante, \u00e9 que o fascismo n\u00e3o apenas ataca aos partidos e as organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, sejam elas de qualquer orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O fascismo ataca tamb\u00e9m os liberais e, inclusive, os conservadores burgueses. Isso \u00e9 assim pois o fascismo v\u00ea os liberais, e tamb\u00e9m os conservadores mais ou menos \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d, como c\u00famplices das organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, uma vez que \u201cpermitiam\u201d sua exist\u00eancia. Estes setores que, muitas vezes apoiam o fascismo em sua ascens\u00e3o crendo poder control\u00e1-lo e negociar um acordo com ele, veem-se ao final frustrados e, n\u00e3o raro, acabam encostados ao mesmo pared\u00e3o que os membros da classe trabalhadora.<br \/>\nDisso n\u00e3o se deduz que o fascismo se coloque acima do capital e do trabalho, como uma express\u00e3o pr\u00f3pria de estado por cima das classes. Nada mais equivocado, pois, ao atacar as representa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas tradicionais da burguesia, o fascismo expropria politicamente esta. Por\u00e9m, ao mesmo tempo, mant\u00eam e aprofunda sua domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Ao destruir toda forma de organiza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, abrem-se as comportas para um aumento inimagin\u00e1vel da explora\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, permitindo congelar e reduzir sal\u00e1rios e benef\u00edcios que os trabalhadores por ventura gozem. Al\u00e9m disso, o desenvolvimento de uma pol\u00edtica armamentista leva a que o estado se torne um grande comprador o que acaba por beneficiar o conjunto da burguesia.<br \/>\n3.2 O combate ao fascismo<br \/>\nComo expressamos mais acima, n\u00e3o foi f\u00e1cil para as diversas correntes pol\u00edticas que enfrentaram ou, para ser mais exato, que foram enfrentadas pelo fascismo, a chegarem a uma justa interpreta\u00e7\u00e3o do que de fato o fascismo representava. E, a partir desta dificuldade, a de ter uma caracteriza\u00e7\u00e3o correta do fen\u00f4meno, muitas delas cometeram erros que lhes custaram caro.<br \/>\nOs liberais e os conservadores, ver\u00e3o, nos nazistas e fascistas, uma plebe arruaceira que podem controlar a seu dispor e usar como tropa de choque contra o conjunto do movimento oper\u00e1rio.<br \/>\nA social democracia dir\u00e1 que representam a rea\u00e7\u00e3o feudal, mas, ao mesmo tempo, creem que seja capaz de negociar e conviver com eles, da mesma forma que convivem com outras for\u00e7as burguesas. E tentar\u00e1, desde um in\u00edcio, se juntar as for\u00e7as burguesas, e clamar ao estado que reprimam as for\u00e7as fascistas quando estas saem do controle. Ela cometer\u00e1 um triplo crime no combate ao fascismo, deixa-os atuar contra os comunistas em proveito pr\u00f3prio, tenta unir-se \u00e0 burguesia contra os comunistas e os fascistas e acredita que o estado burgu\u00eas combateria de alguma forma o fascismo, e a defenderia.<br \/>\nQuando surgiu na It\u00e1lia, houve uma tend\u00eancia de enxergar o fascismo como mais uma forma de rea\u00e7\u00e3o pol\u00edtica burguesa, ou seja, uma varia\u00e7\u00e3o desta. Inclusive, logo ap\u00f3s a chegada ao poder, Mussolini atuou lentamente, esta dificuldade se mant\u00eam.<br \/>\nA terceira internacional dar\u00e1 uma s\u00e9rie de caracteriza\u00e7\u00f5es parcialmente corretas, seja a da Clara Zetkin, seja a de Trogliatti, seja a de Gramsci e, inclusive, a de Thalheimer. Escritas no per\u00edodo que vai de 1923 a 1934, buscaram entender o fen\u00f4meno novo a que depararam. No entanto, desta totalidade parcialmente correta, muitas vezes contradit\u00f3ria, n\u00e3o surgira uma s\u00edntese proveitosa, mas, j\u00e1 marcada e influenciada pela estaliniza\u00e7\u00e3o, a terceira internacional produzir\u00e1 as mais terr\u00edveis e bizarras interpreta\u00e7\u00f5es do fascismo.<br \/>\nDurante o per\u00edodo que vai de 1928 a 1933, o Comintern, que neste momento era caracterizado por Trotsky como centrismo burocr\u00e1tico, dir\u00e1 que tudo \u00e9 fascismo, inclusive a social democracia, e dir\u00e1 tamb\u00e9m que para derrotar o fascismo \u00e9 necess\u00e1rio primeiro derrotar a social democracia.<br \/>\nA teoria do social fascismo custar\u00e1 car\u00edssimo ao proletariado alem\u00e3o, e a revolu\u00e7\u00e3o socialista europeia.<br \/>\nEm 1933, com a vit\u00f3ria de Hitler na Alemanha, o Comintern dar\u00e1 um giro de 180 graus, e passar\u00e1 a defender uma pol\u00edtica diametralmente oposta, e igualmente equivocada. As frentes populares para combater o fascismo.<br \/>\nA frente popular, que foi concebida por George Dimitrov, era a teoriza\u00e7\u00e3o ou a \u201clegaliza\u00e7\u00e3o\u201d de uma pol\u00edtica eleitoral discutida por d\u00e9cadas dentro do movimento oper\u00e1rio. A tese de que se era l\u00edcito ou n\u00e3o compor frentes com for\u00e7as burguesas no processo eleitoral para governar o estado burgu\u00eas. Uma composi\u00e7\u00e3o feita, inclusive, em bases program\u00e1ticas. Esta proposta definia as tarefas por uma etapa dentro do governo. O estalinismo, no \u201ccombate\u201d ao fascismo, concluiu que sim era poss\u00edvel este caminho. Seria correto se juntar \u00e0s for\u00e7as reformistas e \u201cdemocr\u00e1ticas\u201d para derrotar o fascismo. Na verdade, poderia fazer tal composi\u00e7\u00e3o com quase qualquer uma que n\u00e3o fosse fascista ou que aceitasse aliar-se com os comunistas.<br \/>\n(Ao mesmo tempo, o fascismo foi por assim dizer, uma \u00f3tima desculpa para legitimar tal politica que no plano internacional seria a alian\u00e7a com os imperialismo democr\u00e1ticos contra os imperialismos fascistas.)<br \/>\nImplicitamente, nesta politica, se conclu\u00eda que era poss\u00edvel derrotar o fascismo pela via eleitoral. Que mesmo em uma situa\u00e7\u00e3o de crise aguda a burguesia e o estado burgu\u00eas podiam combater consequentemente o fascismo e que seria pela via das institucionalidades burguesas que se combateria o fascismo, e n\u00e3o pelas a\u00e7\u00f5es das massas.<br \/>\n3.3 \u2013 Trotsky e a luta contra o fascismo<br \/>\nVir\u00e1 de Trotsky a mais brilhante interpreta\u00e7\u00e3o do que \u00e9 o fascismo, como ele surge, se organiza, se desenvolve e, principalmente, como combat\u00ea-lo.<br \/>\nEm uma s\u00e9rie de textos, Trotsky sintetizar\u00e1 o aprendizado do movimento dos trabalhadores, em especial de sua vanguarda, os comunistas. Isto ele faz j\u00e1 em sua di\u00e1spora for\u00e7ada pelo estalinismo.<br \/>\nNas obras em que ele discute a situa\u00e7\u00e3o Alem\u00e3 (e que depois ser\u00e1 editado com o t\u00edtulo,\u00a0Revolu\u00e7\u00e3o e contra revolu\u00e7\u00e3o na Alemanha), a situa\u00e7\u00e3o na Fran\u00e7a (que ser\u00e1 editado com o t\u00edtulo\u00a0Aonde vai a Fran\u00e7a), na Espanha (em\u00a0Escritos sobre a Espanha) Trotsky vai demostrar, com maestria, n\u00e3o apenas o que \u00e9 o fascismo e quais perigos ele encera. Vai, tamb\u00e9m, demolir os erros do estalinismo na Alemanha, onde este se nega a formar uma frente \u00fanica com a social democracia para derrotar o fascismo. Na Fran\u00e7a e, posteriormente, na Espanha, o erro oposto de formar uma frente popular e se iludir de que era poss\u00edvel derrotar o fascismo se unindo a um suposto bloco democratico. Neste \u00faltimo, as consequ\u00eancias foram muito piores.<br \/>\nNingu\u00e9m que n\u00e3o tenha estudado estes tr\u00eas materiais t\u00eam qualquer condi\u00e7\u00e3o de dar uma opini\u00e3o realmente valida sobre o assunto.<br \/>\n3.3.1 \u2013 O que prop\u00f5e Trotsky<br \/>\nTrotsky dir\u00e1 que \u00e9 necess\u00e1rio defender os elementos de democracia oper\u00e1ria existente dentro da democracia burguesa. Defender as liberdades democr\u00e1ticas, que mais acima dizemos que s\u00e3o formais, pois para sua real execu\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio condi\u00e7\u00f5es materiais, que s\u00f3 podem ser exercidas pela classe operaria coletivamente.<br \/>\nAssim, defender os jornais oper\u00e1rios, os edif\u00edcios e locais de reuni\u00f5es (sedes de partidos e sindicatos oper\u00e1rios), as manifesta\u00e7\u00f5es e a pr\u00f3prias reuni\u00f5es, torna-se uma pol\u00edtica central de combate ao fascismo.<br \/>\nEsta defesa n\u00e3o pode ser feita clamando a pol\u00edcia e ao estado burgu\u00eas que desarmem ou detenha o fascismo. Em muitos casos, as poucas armas que a pol\u00edcia toma desses bandos com a m\u00e3o direita, lhe devolve em dobro com a m\u00e3o esquerda. N\u00e3o \u00e9 desconhecido por ningu\u00e9m que oficiais da pol\u00edcia, e do ex\u00e9rcito, sempre facilitaram o armamento dos bandos de direita, de extrema direita e do fascismo. Em algumas ocasi\u00f5es, eles s\u00e3o inclusive parte destes bandos.<br \/>\nPara defender as conquistas democr\u00e1ticas do proletariado, no seio da democracia burguesa, \u00e9 necess\u00e1rio construir mil\u00edcias oper\u00e1rias. Estes s\u00e3o grupos que, partindo de experi\u00eancias comuns, como um piquete de greve, um grupo de defesa de uma manifesta\u00e7\u00e3o, estejam dispostos a se organizar para proteger ao conjunto do movimento oper\u00e1rio.<br \/>\nEsta medida \u00e9 uma das fundamentais na constru\u00e7\u00e3o de uma frente \u00fanica oper\u00e1ria contra o fascismo.<br \/>\nMuito j\u00e1 se falou da frente \u00fanica oper\u00e1ria, por\u00e9m n\u00e3o nos custa nada repetir algumas coisas. \u00c9 imposs\u00edvel formar uma frente \u00fanica operaria com o reformismo com o objetivo de tomar o poder. A ess\u00eancia do reformismo \u00e9, justamente, sua luta contra a revolu\u00e7\u00e3o no seio da classe oper\u00e1ria. No entanto, na medida em que o fascismo amea\u00e7a a exist\u00eancia material e f\u00edsica dos dirigentes do reformismo, na medida em que suas sedes s\u00e3o atacadas, seus com\u00edcios desbaratados por arruaceiros, na medida em que seus militantes, quadros e dirigentes s\u00e3o amea\u00e7ados, intimidados, espancados e mortos por bando para militares, surge, em especial na base, mas tamb\u00e9m em setores dirigentes do reformismo a consci\u00eancia do real perigo do fascismo.<br \/>\n\u00c9 claro que sempre haver\u00e1 oscila\u00e7\u00f5es, que sempre haver\u00e1 o desejo de confiar mais no estado burgu\u00eas, na justi\u00e7a, nos liberais, republicanos e democratas burgueses. Mas uma pol\u00edtica justa de chamado \u00e0 dire\u00e7\u00e3o, por um lado, e de a\u00e7\u00e3o junto \u00e0s bases que demonstre a viabilidade de uma frente \u00fanica para se defender do fascismo demover\u00e1 ou, pelo menos, dividir\u00e1 a dire\u00e7\u00e3o e as bases do reformismo.<br \/>\nPor outro lado, \u00e9 preciso prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 pequena burguesia. Em que pese esta classe n\u00e3o poder ter um projeto pr\u00f3prio para a sociedade, ela \u00e9 fundamental para a domina\u00e7\u00e3o burguesa e igualmente muito importante para a vit\u00f3ria do proletariado.<br \/>\nSendo uma classe muito desigual, em que seus extratos superiores imperam uma determinada mentalidade e um modo de vida pr\u00f3ximo \u00e0 burguesia, mas em seus extratos mais pobres h\u00e1 muitas condi\u00e7\u00f5es materiais e psicol\u00f3gicas do proletariado.<br \/>\nUma pol\u00edtica justa para a pequena burguesia passa, em primeiro lugar, por incutir nela seguran\u00e7a de que o proletariado est\u00e1 disposto a lutar e que pode vencer. Passar tal seguran\u00e7a a pequena burguesia s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se o pr\u00f3prio proletariado acredita em suas possibilidades de vit\u00f3ria.<br \/>\nO proletariado, pela sua pr\u00f3pria natureza, pelo fato social de que uma de suas grandes vantagens est\u00e1 em seu n\u00famero, sente invariavelmente a necessidade de unidade para lutar e passa a acreditar na possibilidade de vit\u00f3ria. Eis que voltamos novamente \u00e0 quest\u00e3o. Uma pol\u00edtica de frente \u00fanica contra o fascismo se faz fundamental para derrot\u00e1-lo, incutir nas massas a certeza da vit\u00f3ria e arrastrar atr\u00e1s de si \u00e0 pequena burguesia.<br \/>\nAs medidas econ\u00f4micas voltadas a este setor, a pequena burguesia, e a garantia de que a vit\u00f3ria do proletariado lhe trar\u00e1 mais vantagens que desvantagens, a busca incessante de di\u00e1logo com os extratos empobrecidos desta classe s\u00e3o parte central da pol\u00edtica revolucion\u00e1ria contra o fascismo.<br \/>\nPor fim, a burguesia n\u00e3o \u00e9, em nenhum momento, um aliado confi\u00e1vel na luta contra o fascismo. Acreditar que uma hipot\u00e9tica burguesia democr\u00e1tica se colocar\u00e1 ao lado do proletariado e permitir\u00e1 que este ven\u00e7a ao fascismo em uma luta f\u00edsica, permitindo neste \u00ednterim que o fascismo se una e se arme, e crer na ilus\u00e3o de as classes sociais se suicidam. A burguesia ama mais suas propriedades e seus privil\u00e9gios do que a democracia.<br \/>\nDito isso, n\u00e3o est\u00e1 descartado em situa\u00e7\u00f5es pontuais fazer um acordo bastante restrito para em comum, inclusive com alguma for\u00e7a burguesa defender, na a\u00e7\u00e3o, alguma liberdade democr\u00e1tica. Como a liberta\u00e7\u00e3o de algum preso politico ou a revoga\u00e7\u00e3o de alguma lei draconiana.<br \/>\nNo entanto, sempre vale lembrar que nenhuma c\u00e9dula eleitoral \u00e9 suficientemente forte para derrotar o fascismo, as muitas maquina\u00e7\u00f5es e combina\u00e7\u00f5es eleitorais antifascistas foram, no geral, a antessala da vit\u00f3ria do fascismo. Al\u00e9m de desviar a luta de rua para a luta legal e eleitoral, este mecanismo cometeu sempre o crime de apagar a fronteira de classe no combate, e fez com que uma parcela da classe trabalhadora acreditasse que existe uma burguesia \u201cboazinha\u201d e democr\u00e1tica e outra \u201cm\u00e1\u201d e fascista.<br \/>\nPor fim, nunca enquanto houver capitalismo, se poder\u00e1 dizer que o fascismo est\u00e1 derrotado para sempre. Enquanto houver capitalismo esta \u00e9 uma hip\u00f3tese vigente.<br \/>\nConclus\u00f5es<br \/>\nPor mais que n\u00f3s odiemos a direita, os regimes democr\u00e1ticos burgueses cada vez mais com tra\u00e7os bonapartistas, os regimes militares com seu rol de tortura, mortes, ex\u00edlios e persegui\u00e7\u00f5es, os esdr\u00faxulos regimes da Ar\u00e1bia Saudita, com seus apedrejamentos de mulheres, persegui\u00e7\u00f5es e sofrimento sem fim \u00e0s pessoas LGBTs, o regime \u201cteocr\u00e1tico\u201d dos Aiatol\u00e1s, no Ir\u00e3, que derrotou e desviou a revolu\u00e7\u00e3o iraniana e tantos outros que vemos todos os dias atuais n\u00f3s n\u00e3o podemos, ao nosso bel prazer, e por conta de nossa justa indigna\u00e7\u00e3o, utilizar gratuitamente para defini-los o epiteto de fascismo.<br \/>\nO fascismo \u00e9, como n\u00f3s tentamos definir aqui, uma forma muito espec\u00edfica de domina\u00e7\u00e3o, que se forma em condi\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m muito espec\u00edficas da luta de classes. Defini-lo significa demarcar qual \u00e9 a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, uma pol\u00edtica e tamb\u00e9m um perigo real que amea\u00e7a a classe trabalhadora e suas organiza\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u00c9 obvio, que na vida cotidiana, e de forma corriqueira, muitas vezes o grito de \u201cfascista!\u201d nos vem \u00e0 boca como uma maneira de manifestar nosso \u00f3dio e desprezo por uma atitude que condenamos. Isso \u00e9 uma coisa. Outra \u00e9 quando organiza\u00e7\u00f5es gastam litros e litros de tintas para demonstrar que uma coisa, definitivamente n\u00e3o \u00e9, aquilo que se est\u00e1 dizendo.<br \/>\n\u00c9 preciso investigar os motivos que levam a esta op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Definir qualquer inimigo, que esteja mais \u00e0 direita, como pertencente ao fen\u00f4meno do fascismo pode ser mera ignor\u00e2ncia, o que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma coisa boa, mas tamb\u00e9m pode servir de justificativa para uma s\u00e9rie de pol\u00edticas, t\u00e3o equivocadas como a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de um fascismo que n\u00e3o existe.<br \/>\nSe apoiando nesta defini\u00e7\u00e3o, de que h\u00e1 o fascismo, ou de que o fascismo bate a nossa porta, n\u00e3o s\u00e3o poucos os \u201cesquerdistas\u201d que imediatamente sacam da manga a carta da frente popular, ou da frente ampla, ou da unidade democr\u00e1tica, e por a\u00ed vai. De conte\u00fado, prop\u00f5e-se diante do \u201cperigo fascista\u201d (real ou imagin\u00e1rio, mas na maioria das vezes imagin\u00e1rio) juntar todos os defensores da democracia, em um grande bloco eleitoral, e pedir sacrif\u00edcios a todos (mas s\u00f3 exigi-los dos trabalhadores) para derrotar o perigo eminente.<br \/>\nPortanto, uma defini\u00e7\u00e3o correta do perigo que nos amea\u00e7a, nos permite n\u00e3o apenas combat\u00ea-lo corretamente, mas permite, al\u00e9m disto, combater corretamente \u00e0queles que nos prop\u00f5e uma sa\u00edda t\u00e3o danosa quanto \u00e0 amea\u00e7a existente.<br \/>\nMas h\u00e1 outro tema, mais importante ainda, que \u00e9 quando de fato existe o perigo fascismo, ou seu risco iminente. Neste caso, a pol\u00edtica de unidade com a burguesia, como j\u00e1 dissemos mais acima \u00e9 ainda mais grave, mais perigoso e, com certeza, levar\u00e1 a derrotas ainda mais desastrosas. S\u00f3 h\u00e1 uma for\u00e7a social capaz de deter uma verdadeira amea\u00e7a fascista, o proletariado, e conseguir convenc\u00ea-lo disso a tempo, conseguir demonstrar o risco que se corre e as medidas necess\u00e1rias para impedi-las, se torna ainda mais fundamental.<br \/>\n* Colabora\u00e7\u00e3o: J\u00falio Anselmo<br \/>\nBibliografia:<br \/>\nAugust Thalheimer. Sobre o fascismo<br \/>\nClara Zetkin. Como nasce e morre o fascismo<br \/>\nMandel.\u00a0O Fascismo<br \/>\n______, Teoria Marxista do Estado<br \/>\nNicos Poulantzas\u00a0. Fascismo y dictadura, La tercera internacional frente al fascismo<br \/>\nTrotsky. Revolu\u00e7\u00e3o e contra revolu\u00e7\u00e3o na Alemanha<br \/>\n______, Aonde vai a fran\u00e7a.<br \/>\n______, Escritos sobre a Espanha<br \/>\n* Publicado em: https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/o-estado-burgues-e-o-fascismo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o \u00c9 muito dif\u00edcil discutir o fascismo, e qualquer outro regime pol\u00edtico, sem discutir o estado. 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