{"id":61232,"date":"2020-08-02T12:12:44","date_gmt":"2020-08-02T14:12:44","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=61232"},"modified":"2020-08-02T12:12:44","modified_gmt":"2020-08-02T14:12:44","slug":"o-imperialismo-alemao-e-a-volkswagen-o-jogo-sujo-continua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/08\/02\/o-imperialismo-alemao-e-a-volkswagen-o-jogo-sujo-continua\/","title":{"rendered":"O imperialismo alem\u00e3o e a Volkswagen: o jogo sujo continua"},"content":{"rendered":"<p><em>O imperialismo alem\u00e3o e suas empresas t\u00eam uma longa hist\u00f3ria de usurpa\u00e7\u00e3o de terras, roubo de riquezas minerais e agr\u00edcolas, como tamb\u00e9m de superexplora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. E os seus opositores foram tratados com viol\u00eancia, pris\u00f5es, torturas, assassinatos e genoc\u00eddio. Neste texto fazemos um paralelo desse processo de viol\u00eancia colonial que ocorreu na \u00c1frica e no Brasil.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Cesar Neto<br \/>\nNo Brasil, o imperialismo alem\u00e3o apoiou e sustentou a Ditadura Empresarial Militar (1964-1985), e a empresa Volkswagen que \u00e9 uma das maiores empresas alem\u00e3s, que possui uma longa tradi\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas de viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos e se apresenta como a express\u00e3o mais clara dos m\u00e9todos do capital imperialista alem\u00e3o. Constata-se que no dado per\u00edodo escondeu criminosos nazistas, e ainda junto com a pol\u00edcia pol\u00edtica prendeu e torturou trabalhadores dentro de suas instala\u00e7\u00f5es e como se ainda fosse pouco, se utilizaram de trabalho escravo na fazenda Rio Cristalino no Estado do Par\u00e1, que fazia parte de suas propriedades.<br \/>\n<strong>Vergonhosa tradi\u00e7\u00e3o da burguesia alem\u00e3<\/strong><br \/>\nA tradi\u00e7\u00e3o repressiva da burguesia alem\u00e3 sempre foi associada ao nazismo nas figuras de Hitler, Franz Paul Stangl, Goebbels e outros genocidas. Por\u00e9m, o nazismo necessitou de um per\u00edodo gesta\u00e7\u00e3o antes de ser aplicado diretamente na Europa. Esse macabro per\u00edodo de treinamento e experimenta\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos e l\u00e9xicos de atos genocidas come\u00e7aram na parte sul da \u00c1frica, especificamente na Nam\u00edbia.<br \/>\nEntre 1904-1908, os alem\u00e3es invadiram a regi\u00e3o ocupada pelos povos Oveherero (ou Herero) e Namas e mataram mais de 80 mil pessoas. Assim, as pris\u00f5es, torturas, viol\u00eancia contra mulheres, estupros, enforcamentos e fuzilamentos sum\u00e1rios fizeram parte do cotidiano de massacres a esses povos. Foram constru\u00eddos campos de trabalho for\u00e7ado, campos de concentra\u00e7\u00e3o e campos de exterm\u00ednio. Na Alemanha os campos de exterm\u00ednio empregavam c\u00e2maras de g\u00e1s para matar e o g\u00e1s utilizado, o Zyklon B, foi produzido pela empresa Bayer. Na Nam\u00edbia, como ainda n\u00e3o tinham desenvolvido essa t\u00e9cnica de exterm\u00ednio, os presos eram enviados para Ilha dos Tubar\u00f5es (<em>Shark Island<\/em>). A Ilha de Tubar\u00f5es \u00e9 uma ilha de granito, sem grande vegeta\u00e7\u00e3o e a\u00e7oitada pelo nevoeiro do Atl\u00e2ntico Sul, que \u00e9 extremamente frio.<br \/>\nO chefe Herero que conseguiu sair com vida da ilha, Daniel Karik, contou<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>:<em>\u201cN\u00e3o t\u00ednhamos roupas adequadas nem cobertores, e o ar da noite vinda do mar era muito fr<\/em><em>io. O nevoeiro do mar nos encharcava e nosso dentes tiritavam. (..) As pessoas morriam como moscas que haviam sido envenenadas. A grande maioria dos presos de guerra e suas fam\u00edlias morreram l\u00e1. As criancinhas e os idosos morreram primeiro, e depois as mulheres e os homens mais fracos. Nenhum dia se passou sem in\u00fameras mortes\u201d<\/em>.\u00a0 Das mais de 3.500 pessoas que chegaram l\u00e1 apenas 193 voltaram com vida.<br \/>\nO Gal Lothar von Trotha, comandante das tropas de \u201cpacifica\u00e7\u00e3o\u201d Schtztruppe, foi categ\u00f3rico contra os povos origin\u00e1rios: \u201c<em>A na\u00e7\u00e3o dos Hereros deve agora deixar o pa\u00eds. Se recusar, eu os obrigarei a faz\u00ea-lo com o \u201ccano longo\u201d (canh\u00e3o Maxxin). Qualquer Herero encontrado dentro da fronteira alem\u00e3, com ou sem uma arma ou gado, ser\u00e1 executado. Eu n\u00e3o pouparei nem mulheres e nem crian\u00e7as. Eu darei a ordem para afast\u00e1-los e atirar neles. Tais s\u00e3o as minhas palavras para o povo Herero.\u201d<\/em><br \/>\nNa regi\u00e3o onde hoje \u00e9 parte da Tanz\u00e2nia, em 1898, os alem\u00e3es atrav\u00e9s da empresa Sociedade Colonizadora Alem\u00e3, dirigida por Karl Peters, ocuparam a regi\u00e3o para produzir algod\u00e3o destinado a ind\u00fastria t\u00eaxtil inglesa. Para garantir o projeto exportador, foi necess\u00e1rio construir estradas, pontes, portos, entre outras obras de infraestrutura.<br \/>\nPeters, imp\u00f4s uma odiosa divis\u00e3o de trabalho diferente daquela que existia antes da chegada dos invasores alem\u00e3es. Cabia aos homens o trabalho escravo na constru\u00e7\u00e3o civil e \u00e0s mulheres e crian\u00e7as o plantio e colheita do algod\u00e3o. Havia resist\u00eancia por parte da popula\u00e7\u00e3o que foi submetida a tais condi\u00e7\u00f5es. No entanto, eram resist\u00eancias pontuais que terminavam em sofrimentos f\u00edsicos, mutila\u00e7\u00f5es e at\u00e9 em mortes praticado pelos colonizadores.<br \/>\nPara enfrentar as pontuais resist\u00eancias Karl Peters reagia com extrema viol\u00eancia. Por este motivo foi alcunhado de \u201cMilokono Wa Damu\u201d (Homem com a m\u00e3o cheia de sangue). Por seu trabalho genocida e pelos lucros da Sociedade Colonizador Alem\u00e3, Karl Peters se transformou em \u00eddolo na Alemanha, na \u00e9poca do nazismo. Inclusive a sua vida foi tema de um filme dirigido por Herbert Selpin, e Adolfo Hitler foi o maior propagandista do filme<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<br \/>\nAo impor a divis\u00e3o social do trabalho na qual aos homens eram destinados a trabalhar na constru\u00e7\u00e3o da infraestrutura e \u00e0s mulheres a cuidar da fam\u00edlia, da casa e ainda tinham uma segunda jornada nos algodoais, a produ\u00e7\u00e3o de alimentos de subsist\u00eancia como era a pr\u00e1tica anterior foi destru\u00edda e, consequentemente, come\u00e7ou a escassez de produtos aliment\u00edcios. Esta situa\u00e7\u00e3o se viu agravada, em 1905, com uma enorme seca que afetou a regi\u00e3o. Os n\u00edveis de escassez de alimentos chegaram ao seu limite e a popula\u00e7\u00e3o se rebelou, pois j\u00e1 n\u00e3o eram mais revoltas individuais e pontuais, passaram a ser coletivas.<br \/>\nComo repres\u00e1lia os alem\u00e3es reagiram violentamente. Al\u00e9m do enforcamento p\u00fablico dos l\u00edderes, a Alemanha adotou a t\u00e1tica da terra queimada, isto \u00e9, colocar fogo nas aldeias, planta\u00e7\u00f5es, destrui\u00e7\u00e3o das fontes de \u00e1gua e de alimentos. O Capit\u00e3o Wangenheim escreveu: <em>\u201cS\u00f3 a fome pode trazer uma solu\u00e7\u00e3o final. As a\u00e7\u00f5es militares ser\u00e3o mais ou menos uma gota no oceano \u201c. <\/em><br \/>\nA pol\u00edtica de terra queimada e escassez de alimentos foi potencializada pelos fuzilamentos. Acredita-se que aproximadamente 250 mil a 300 mil pessoas, entre eles homens, mulheres, velhos e crian\u00e7as morreram de sede, fome ou foram assassinadas.<br \/>\nA Nam\u00edbia e a Tanz\u00e2nia s\u00e3o dois pa\u00edses que carregam as marcas do genoc\u00eddio praticado pelo imperialismo alem\u00e3o. E ainda na Rep\u00fablica de Camar\u00f5es e na Togol\u00e2ndia (atual Togo e Gana) os alem\u00e3es tamb\u00e9m estenderam seus tent\u00e1culos com a mesma f\u00faria contra a popula\u00e7\u00e3o em busca de lucros para suas empresas. Essas empresas e bancos \u00a0que se enriqueceram com trabalho escravo, usurpa\u00e7\u00e3o de terras e genoc\u00eddio, t\u00eam nome: a) Deutsche Bank que junto com o <em>Disconto-Gesellschaft<\/em> controlavam 90% dos servi\u00e7os financeiros e banc\u00e1rios nas col\u00f4nias alem\u00e3s; b) <em>Terex Corporation<\/em>, sucessora <em>Orenstein &amp; Koppel<\/em>, respons\u00e1vel por obras de terraplanagem e ferrovi\u00e1ria com utiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra escrava; c) <em>Woermann-Linnie (Deutsche Afrika Linien GmbH &amp; Co<\/em>) que utilizava trabalho escravo e tinha o seu pr\u00f3prio campo de concentra\u00e7\u00e3o na Nam\u00edbia. Outras empresas tamb\u00e9m lucraram com a ocupa\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios africano. Entre elas, podemos citar: <em>Mannesman, Krupp, Bayer, Hoechst e Siemens.<\/em><br \/>\n<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/51180fbc-400c-429c-89b8-32fc80ab0b48.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-61233\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/51180fbc-400c-429c-89b8-32fc80ab0b48.jpg\" alt=\"\" width=\"1177\" height=\"1191\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/51180fbc-400c-429c-89b8-32fc80ab0b48.jpg 1177w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/51180fbc-400c-429c-89b8-32fc80ab0b48-296x300.jpg 296w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/51180fbc-400c-429c-89b8-32fc80ab0b48-1012x1024.jpg 1012w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/51180fbc-400c-429c-89b8-32fc80ab0b48-768x777.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/51180fbc-400c-429c-89b8-32fc80ab0b48-150x152.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/51180fbc-400c-429c-89b8-32fc80ab0b48-300x304.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/51180fbc-400c-429c-89b8-32fc80ab0b48-696x704.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/51180fbc-400c-429c-89b8-32fc80ab0b48-1068x1081.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1177px) 100vw, 1177px\" \/><\/a><br \/>\n<strong>O imperialismo alem\u00e3o e suas empresas no Brasil<\/strong><br \/>\nAs primeiras rela\u00e7\u00f5es importantes do Brasil com o imperialismo alem\u00e3o datam de 1871, durante o Reinado de Pedro II. <em>&#8220;Alfred Krupp que convidou Pedro II para conhecer as f\u00e1bricas Krupp, o recebeu em sua suntuosa mans\u00e3o <\/em><em>Villa H\u00fcgel e deu de presente um daqueles canh\u00f5es de artilharia prussianos que haviam revelado seu terr\u00edvel efeito na Guerra Franco-Prussiana (1870\u20131871)&#8221;<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a>. <\/em>Esse canh\u00e3o de artilharia e outros que seriam adquiridos pelo Imp\u00e9rio brasileiro fariam a diferen\u00e7a para derrotar Ant\u00f4nio Conselheiro e seus rebeldes. O governo central havia feito tr\u00eas frustradas tentativa de prend\u00ea-lo, mas 1896 enviou metade de todos os soldados do pa\u00eds munidos com os canh\u00f5es Krupp para dar fim a rebeli\u00e3o. A derrota de Ant\u00f4nio Conselheiro, em Canudos, provocou a morte de pelo menos 30 mil pessoas. \u00a0De um lado a morte e destrui\u00e7\u00e3o. E do outro lado o Imperador respirou aliviado ao eliminar fisicamente seus opositores e a Krupp viu seus lucros aumentarem com a venda do material b\u00e9lico.<br \/>\nAs rela\u00e7\u00f5es do Estado brasileiro, seus governantes com o imperialismo alem\u00e3o e suas empresas viveram per\u00edodos de cumplicidade e lucro exorbitantes. No golpe de Estado, de 1964, o presidente alem\u00e3o, Heinrich Lubke, realizou a primeira visita oficial de um chefe de Estado ao Brasil em tempos de Ditadura Empresarial Militar. Desta maneira, 40 dias ap\u00f3s o golpe o presidente alem\u00e3o veio ao pa\u00eds para dar seu apoio t\u00e1cito aos golpistas. Esse apoio ao governo militar seguiu e se ampliou nos anos posteriores. Outra autoridade que visitou o Brasil foi o vice-presidente da Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica do Parlamento Alem\u00e3o, em 1971, ap\u00f3s a visita afirmou euf\u00f3rico que: <em>\u201co governo n\u00e3o precisa enfrentar nenhum tipo de luta trabalhista\u201d<\/em> e conclu\u00eda\u00a0\u00a0 <em>\u201cenquanto a expans\u00e3o econ\u00f4mica [brasileira] est\u00e1 em sua fase inicial, a pol\u00edtica salarial deve proteger as empresas de uma press\u00e3o de custos a partir dos sal\u00e1rios\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a>. \u00a0<\/em>Ele queria dizer, trocando em mi\u00fados que: a ditadura deveria seguir controlando e reprimindo os trabalhadores para impedir o aumento de sal\u00e1rios e garantir o lucro das empresas.<br \/>\nCom total acordo a esta posi\u00e7\u00e3o apresentada pelo governo alem\u00e3o a Volkswagen, seguiu na mesma linha de apoio a ditadura empresarial militar e ajudou a refutar as den\u00fancias que circulavam na Europa das pris\u00f5es, tortura e assassinato de opositores no Brasil. E Rudolf Leidig, executivo da empresa afirmou: <em>\u201cEstou convencido de que o Brasil, do ponto de vista pol\u00edtico, seguramente \u00e9 o pa\u00eds mais est\u00e1vel em toda a Am\u00e9rica Latina. O fato de que aqui na Europa surjam cr\u00edticas eventuais ao sistema se funda seguramente no fato de que aqui as pessoas n\u00e3o t\u00eam o conhecimento e a compreens\u00e3o necess\u00e1rios sobre o pa\u00eds. Sou da opini\u00e3o de que essa estabilidade contribui para criar uma base econ\u00f4mica necess\u00e1ria e inalien\u00e1vel para o pa\u00eds. Este \u00e9 certamente o objetivo mais urgente e priorit\u00e1rio.\u201d<\/em><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><br \/>\n<strong>A associa\u00e7\u00e3o da ditadura empresarial e militar com a Volkswagen em pr\u00f3 da &#8220;estabilidade&#8221;<\/strong><br \/>\n<strong>\u00a0<\/strong>A visita do presidente alem\u00e3o, a declara\u00e7\u00e3o do vice-presidente da Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica do Parlamento Alem\u00e3o, Gustav Stein, em 1971, e a declara\u00e7\u00e3o do diretor-presidente da VW, Rudolf Leidig, tinha um endere\u00e7o certo: ajudar a controlar e reprimir a classe trabalhadora para que o pa\u00eds tivesse estabilidade e um ch\u00e3o de f\u00e1brica sem nenhuma manifesta\u00e7\u00e3o de rebeldia.<br \/>\nObviamente, a Volks tem buscado negar sua participa\u00e7\u00e3o direta na ditadura empresarial militar, mas uma an\u00e1lise dos fatos demonstra sua responsabilidade na implementa\u00e7\u00e3o e sustenta\u00e7\u00e3o do regime imposto aos trabalhadores. Vejamos:<br \/>\n* <strong>Financiamento \u00e0 Articula\u00e7\u00e3o e Prepara\u00e7\u00e3o do Golpe de Estado:<\/strong> O IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) foi o centro articulador e irradiador do Golpe de Estado. Entre seus dirigentes estava Jo\u00e3o Baptista Leopoldo Figueiredo que foi da mais alta estrutura diretiva da Volkswagen do Brasil entre os anos 1963 e 1970. A Comiss\u00e3o Nacional da Verdade o considera como um dos organizadores da arrecada\u00e7\u00e3o de dinheiro de empres\u00e1rios para ser usado na repress\u00e3o. Algu\u00e9m pode acreditar que a Volks n\u00e3o colocou dinheiro para reprimir?<br \/>\n* <strong>Fornecimento de Ve\u00edculos para Repress\u00e3o: <\/strong>A rede de comunica\u00e7\u00e3o da Alemanha, Deutsche Welle (DW) informa que: <em>&#8220;a multinacional alem\u00e3 doou ao regime militar cerca de 200 ve\u00edculos, depois usados pelos servi\u00e7os de repress\u00e3o&#8221;<\/em>.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><br \/>\n* <strong>Apoio aos nazistas:<\/strong> O primeiro presidente da Volks brasileira foi Schultz-Wenk, que havia sido da Juventude Hitlerista, lutou no Ex\u00e9rcito alem\u00e3o na frente oeste e foi detido pelos ingleses. Depois de liberto conseguiu emprego na empresa e transfer\u00eancia para o Brasil. Outro nazista na Volks foi Franz Paul Stangl, comandante dos campos de exterm\u00ednio, em Treblinka e Sobibor, que mataram por volta de 800 mil pessoas. Trabalhou da Volks, em S\u00e3o Bernardo do Campo, de 1960 a 1967 quando foi preso .<br \/>\n* <strong>Pris\u00e3o e Tortura dentro da f\u00e1brica:<\/strong> Em julho de 1972, o ferramenteiro Lucio Bellintani, em sua bancada, acostumado as brincadeiras de seus colegas, sentiu um cano nas costas, mas quando se virou, se deparou com a pol\u00edcia pol\u00edtica com uma arma de grosso calibre em suas costas. Dal\u00ed ele foi levado para a Seguran\u00e7a Patrimonial da empresa, na Ala 13, onde come\u00e7ou a sess\u00e3o de tortura que se estenderia pelos pr\u00f3ximos meses, inclusive sem que a pr\u00f3pria fam\u00edlia soubesse de seu paradeiro. Assim, a Volkswagen se acoplava ao sistema repressivo atuando junto a a\u00e7\u00e3o policial dentro de suas instala\u00e7\u00f5es e ainda o espa\u00e7o da empresa serviu para local de torturas.<br \/>\n* <strong>Coordena\u00e7\u00e3o de Pol\u00edcia Pol\u00edtica paralela:<\/strong> Na regi\u00e3o industrial do Vale do Para\u00edba onde a Volkswagen tem uma f\u00e1brica na cidade de Taubat\u00e9, ela coordenou o CECOSE (Centro Comunit\u00e1rio de Seguran\u00e7a) que congregava diversas empresas e \u00f3rg\u00e3os militares, em especial a Aeron\u00e1utica. Eempresas transnacionais como Caterpillar, Ericson, Ford, General Motors, Johnson-Johnson, Philips, National, Rhodia, empresas estatais brasileiras como Petrobras e Embraer faziam parte do Centro Comunit\u00e1rio de Informa\u00e7\u00f5es. A fun\u00e7\u00e3o primordial do CECOSE era discutir problemas trabalhistas e de greves, al\u00e9m de elaborar os \u201clembretes\u201d que na verdade eram listas de empregados considerados subversivos que circulava entre as empresas e, desta maneira, impediu os trabalhadores taxados de &#8220;subversivos&#8221; de conseguirem novos empregos numa clara express\u00e3o de acusa\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o sem que o acusado tivesse o direito de defesa.<br \/>\n* <strong>Trabalho Escravo:<\/strong> Como o imperialismo alem\u00e3o e suas empresas n\u00e3o foram punidos pelo trabalho escravo na \u00c1frica, eles se sentiram \u00e0 vontade para voltar a essa pr\u00e1tica no Brasil, em pleno final do S\u00e9culo XX, ao mesmo tempo em que na Europa se passava por arrependida pelos crimes praticados durante o nazismo. Assim, praticaram a escravid\u00e3o no Brasil, como o fizeram na fazenda de propriedade da Volks. A Fazenda do Rio Cristalino, no sul do Estado Par\u00e1, ainda realizou um desmatamento monstruoso e que para isso se utilizou de trabalho escravo, nesses locais onde as pessoas viviam t\u00e3o confinadas como nos campos de trabalhos for\u00e7ados na Nam\u00edbia, Tanz\u00e2nia e na pr\u00f3pria Alemanha sob o nazismo.<br \/>\n<strong>A longa luta por mem\u00f3ria, verdade, repara\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a<\/strong><br \/>\nNa Nam\u00edbia os Hereros e Namas, especialmente os Hereros, h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada tratam de fazer mem\u00f3ria, isto \u00e9, contar o que aconteceu para que n\u00e3o caia no esquecimento. Por\u00e9m contar a hist\u00f3ria desde o ponto de vista dos povos que foram derrotados para que se conte a verdade. Lutam para que o Governo alem\u00e3o reconhe\u00e7a seus erros e repare os danos causados. E assim, e somente assim se pode falar em justi\u00e7a.<br \/>\nOs Hereros t\u00eam realizado in\u00fameras atividades dentro e fora do pa\u00eds. Esther Muinjague<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>\u00a0 principal dirigente dos Hereros, faz emocionante relato das viola\u00e7\u00f5es cometidas pelos alem\u00e3s e da longa jornada de luta pela repara\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a.<br \/>\nNo Brasil, como desdobramento da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV), todas as centrais sindicais do pa\u00eds, junto com juristas e militantes dos direitos humanos, assinaram e apresentaram em 2015 uma den\u00fancia ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal para investigar e tomar as provid\u00eancias cab\u00edveis contra os crimes praticados pela Volkswagen no Brasil, no per\u00edodo de 1964 a 1985. Ap\u00f3s a investiga\u00e7\u00e3o, os MPs Federal, do Estado de S\u00e3o paulo e do Trabalho conclu\u00edram pela responsabilidade da empresa em graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos. Agora, negociam com a Volks formas de repara\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong>A Alemanha imperialista e a Volks tentam jogar para debaixo do tapete seus crimes<\/strong><br \/>\nOs crimes praticados na Nam\u00edbia e na Tanz\u00e2nia deixaram muitas marcas, muitos rastros e muitas provas. No caso da Nam\u00edbia, o trabalho de Esther Muinjangue e organiza\u00e7\u00e3o da qual participa resultou em um n\u00famero grande de provas do envolvimento de militares, civis e de empresas. Os relat\u00f3rios militares descrevem com riqueza de detalhes como eles, o Ex\u00e9rcito alem\u00e3, praticaram os crimes de lesa humanidade. Os documentos e fotos comprovam que diversas caixas com cr\u00e2nios de Hereros foram limpos pelas mulheres e embarcados com destino a Alemanha, onde foram estudados nas academias de medicina a fim de poderem comprovar a suposta &#8220;superioridade da ra\u00e7a ariana&#8221;. Isso sem falar das fotos de mulheres negras nuas tratadas como mero objeto sexual ex\u00f3tico e como tal usadas para exposi\u00e7\u00e3o aos soldados do ex\u00e9rcito de ocupa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMesmo assim, o imperialismo alem\u00e3o se nega a dois atos b\u00e1sicos: reconhecer seus crimes e indenizar as fam\u00edlias que foram expulsas de suas terras e tiveram seus animais, como o gado, confiscados ocasionando s\u00e9rio impacto alimentar de longa data na popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 que o leite e seus derivados eram a base da alimenta\u00e7\u00e3o dos povos da regi\u00e3o, depois disso nunca mais recuperaram sua qualidade de vida. Os Hereros, apesar do massacre sofrido, n\u00e3o exigem grandes coisa. Eles querem algo simples, querem um pedido de desculpas e indeniza\u00e7\u00e3o para a comunidade que vive em condi\u00e7\u00f5es de marginaliza\u00e7\u00e3o social sem acesso a condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para a sobreviv\u00eancia.<br \/>\n<strong>A Volkswagen tem que reparar os danos causados<\/strong><br \/>\nEnquanto a matriz, sediada na Alemanha, diz que n\u00e3o sabia dessas pr\u00e1ticas, ainda que os documentos encontrados na Alemanha provem exatamente o contr\u00e1rio. No Brasil, a Volkswagen vem tratando de aplicar a mesma pol\u00edtica, isto \u00e9, quer evadir-se de suas responsabilidades, pois\u00a0 ao que tudo indica, a estrat\u00e9gia da empresa \u00e9 protelar ao m\u00e1ximo a resolu\u00e7\u00e3o do caso para piorar os termos da negocia\u00e7\u00e3o, rebaixando as formas de repara\u00e7\u00e3o, particularmente no que se refere as repara\u00e7\u00f5es coletivas.<br \/>\nPor isso, recentemente, a empresa vem tentado destruir o principal ponto das negocia\u00e7\u00f5es at\u00e9 agora: um espa\u00e7o de mem\u00f3ria dos trabalhadores, local que preserve a mem\u00f3ria das lutas da classe trabalhadora na ditadura e possa ser visitado e conhecido pelas novas gera\u00e7\u00f5es. Essa reivindica\u00e7\u00e3o representa um ac\u00famulo constru\u00edda de forma unit\u00e1ria no movimento sindical desde a CNV. \u00c9 importante lembrar que em 1o de novembro de 2015 a pr\u00f3pria empresa declarou ao jornalista Marcelo Godoy, atrav\u00e9s do chefe de seu Departamento de Hist\u00f3ria Corportiva, Manfred Grieger, que construiria um memorial como forma de reparar sua participa\u00e7\u00e3o na ditadura.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><br \/>\nO maior problema da Volkswagen n\u00e3o \u00e9 financeiro \u2013 os valores que seriam destinados \u00e0s repara\u00e7\u00f5es s\u00e3o irris\u00f3rios para a empresa comparadas a sua riqueza \u2013 mas sim hist\u00f3rico e pol\u00edtico. A companhia n\u00e3o quer arcar com o \u00f4nus de ter seu nome vinculado a mais um regime ditatorial, pois objetiva manter uma apar\u00eancia de arrependida pelo que fez durante o nazismo.<br \/>\n<strong>Construir um grande arco de alian\u00e7as contra o imperialismo alem\u00e3o e suas empresas e por repara\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a<\/strong><br \/>\nO imperialismo alem\u00e3o e a Volkswagen desdenham das provas apresentadas, pois t\u00eam poder econ\u00f4mico suficiente para travar qualquer iniciativa jur\u00eddica. No caso brasileiro, eles contam com o apoio do Supremo Tribunal Federal que reconhece a anistia auto promulgada pelos militares e desconhecem as orienta\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o Interamericana dos Direitos Humanos.<br \/>\nPrecisamos construir uma grande ponte de solidariedade entre os povos coloniais para que juntos lutemos por mem\u00f3ria, verdade, repara\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a. A n\u00edvel dos trabalhadores das empresas, no caso Volkswagen \u00e9 preciso uma pol\u00edtica de den\u00fancia dos m\u00e9todos da VW de controle, repress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o. Para isso, as dire\u00e7\u00f5es dos sindicatos devem escolher claramente um lado.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> SANTOS, Adriana Gomes (org). \u00c1frica: <em>colonialismo, genoc\u00eddio e repara\u00e7\u00e3o<\/em>. Editorial Sundermann, 2019<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> https:\/\/www.pstu.org.br\/genocidio-e-reparacao-a-revolta-dos-maji-maji-contra-o-imperialismo-alemao-na-tanzania\/<br \/>\n<a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Russau, Christian. Empresas alem\u00e3s no Brasil. Elefante Editora, 2019<br \/>\n<a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> idem<br \/>\n<a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> idem<br \/>\n<a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/como-a-volks-cooperou-com-a-ditadura-brasileira\/a-39811612<br \/>\n<a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Genoc\u00eddio na Nam\u00edbia &#8211; https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=hWNIUglwo1A&amp;t=41s<br \/>\n<a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> https:\/\/politica.estadao.com.br\/noticias\/geral,volkswagen-negocia-reparacao-judicial-por-apoio-a-repressao-durante-ditadura,1789314<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O imperialismo alem\u00e3o e suas empresas t\u00eam uma longa hist\u00f3ria de usurpa\u00e7\u00e3o de terras, roubo de riquezas minerais e agr\u00edcolas, como tamb\u00e9m de superexplora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. E os seus opositores foram tratados com viol\u00eancia, pris\u00f5es, torturas, assassinatos e genoc\u00eddio. 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