{"id":61161,"date":"2020-07-28T13:04:53","date_gmt":"2020-07-28T15:04:53","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=61161"},"modified":"2020-07-28T13:04:53","modified_gmt":"2020-07-28T15:04:53","slug":"os-negreiros-ingleses-e-o-duelo-de-estatuas-em-bristol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/07\/28\/os-negreiros-ingleses-e-o-duelo-de-estatuas-em-bristol\/","title":{"rendered":"Os negreiros ingleses e o \u201cduelo de est\u00e1tuas\u201d em Bristol"},"content":{"rendered":"<p><em>As imagens da est\u00e1tua do traficante de escravos Edward Colston sendo derrubada, pichada e \u201cestrangulada\u201d por centenas de manifestantes, para depois ser jogada no rio na cidade portu\u00e1ria brit\u00e2nica de Bristol, permanecer\u00e3o por muito tempo em nossa memoria . A verdade \u00e9 que uma coisa assim n\u00e3o tem pre\u00e7o. Esse valente ato coletivo marcou um dos momentos mais significativos da enorme onda de protestos antirracistas que o brutal assassinato do afro estadunidense George Floyd desatou em escala internacional.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Daniel Sugasti<br \/>\nO justo ataque \u00e0 representa\u00e7\u00e3o do antigo negreiro abriu uma pol\u00eamica sobre o car\u00e1ter pol\u00edtico da chamada memoria hist\u00f3rica. Colston [1636-1721] era pouco menos que um santo em Bristol. No s\u00e9culo XVI se enriqueceu traficando africanos que depois seriam vendidos como escravos nas Am\u00e9ricas. O bom rumo de seus neg\u00f3cios valeu uma cadeira no Parlamento brit\u00e2nico, al\u00e9m de permitir-lhe atuar como filantropo em sua cidade natal. A burguesia local, sabendo que sua prosperidade era fruto, em boa medida, do comercio de escravos, decidiu eternizar a figura de Colston n\u00e3o s\u00f3 com a est\u00e1tua como tamb\u00e9m dando seu nome a pelo menos vinte ruas, escolas, edif\u00edcios, etc.<br \/>\n<div id=\"attachment_61162\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/6725_CBC5D3E3EEE02344.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-61162\" class=\"wp-image-61162 size-full\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/6725_CBC5D3E3EEE02344.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/6725_CBC5D3E3EEE02344.jpg 640w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/6725_CBC5D3E3EEE02344-300x169.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/6725_CBC5D3E3EEE02344-150x84.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-61162\" class=\"wp-caption-text\">Momento em que uma das est\u00e1tuas de Colston em Bristol \u00e9 jogada no rio, em junho passado<\/p><\/div><br \/>\nSe ainda cabe alguma d\u00favida sobre como a burguesia leva muito a s\u00e9rio a luta ideol\u00f3gica \u2013 e isto inclui a rela\u00e7\u00e3o entre simbologia e memoria hist\u00f3rica -, pode ser instrutivo recordar o que aconteceu depois que o movimento antirracista se enfureceu com o monumento de Colston. Sem perder tempo, a prefeitura resgatou a est\u00e1tua do fundo do rio e, segundo as noticias, ser\u00e1 restaurada para depois ser exibida em um museu.<br \/>\nMas o caso desse puxa-empurra sobre a simbologia entre os opressores e os oprimidos n\u00e3o terminou a\u00ed. Houve um novo epis\u00f3dio quando a escultura de uma ativista negra com o punho levantado apareceu no mesmo lugar do derrubado Colston. A est\u00e1tua representa a jovem Jen Reid (moradora da cidade) e foi criada pelo artista brit\u00e2nico Marc Quinn, que chamou sua obra \u201cA Surge of Power\u201d (uma onda de poder). O trabalho e a instala\u00e7\u00e3o foram feitos em completo sigilo, pegando as autoridades locais de surpresa. Assim, a cidade amanheceu no \u00faltimo 15 de julho com uma nova est\u00e1tua erguida, que a seus p\u00e9s tinha uma placa com a inscri\u00e7\u00e3o: \u201cBlack lives still matter\u201d (\u201cas vidas negras ainda importam\u201d). Um belo contra -ataque do movimento antirracista.<br \/>\nQuinn concebeu a escultura como uma \u201cinstala\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria\u201d, talvez porque sabia que a exposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia durar muito. Com efeito, o Conselho municipal retirou a est\u00e1tua em menos de 24 horas, alegando a obviedade de que Quinn n\u00e3o tinha autoriza\u00e7\u00e3o. Entretanto, sentiram o golpe. O prefeito de Bristol tamb\u00e9m n\u00e3o se atreveu a devolver o monumento de Colston ao seu antigo lugar, limitando-se a dizer que abriria um debate sobre racismo e mem\u00f3ria hist\u00f3rica. Por outro lado, anunciou que a obra de Quinn seria levada a um museu para que seu autor \u201ca recolha ou a doe\u201d \u00e0 cole\u00e7\u00e3o municipal.<br \/>\nA ativista Jen Reid permaneceu junto \u00e0 sua est\u00e1tua mantendo o punho erguido. \u201c\u00c9 algo de muita valentia, \u00e9 o que \u00e9\u201d, expressou. O momento mais intenso da manh\u00e3, segundo conta, foi \u201cver as crian\u00e7as se colocarem junto a mim e levantar os punhos. Crian\u00e7as brancas e negras, todas juntas\u201d. Por seu lado, o artista declarou que \u201cJen criou a escultura quando subiu ao pedestal e levantou o bra\u00e7o\u201d. Agora, \u201ccristalizamos isso\u201d.<br \/>\n<strong>O passado escravista do Reino Unido<\/strong><br \/>\nO que o movimento antirracista colocou em quest\u00e3o quando atacou n\u00e3o somente as est\u00e1tuas de traficantes de escravos mas tamb\u00e9m do pr\u00f3prio Churchill \u00e9 o \u201cintoc\u00e1vel\u201d passado colonialista e escravista do Reino Unido.<br \/>\nQuando pensamos no com\u00e9rcio de escravos africanos entre os s\u00e9culos XIV e XIX, \u00e9 comum pensar nos reinos de Portugal ou Espanha e em suas antigas possess\u00f5es coloniais. Isso tem sentido. Se tomarmos como crit\u00e9rio, por exemplo, o destino dos escravos negros, sabe-se que aproximadamente 38% desembarcaram na Am\u00e9rica portuguesa e 18% na hisp\u00e2nica. Quando se pensa na Inglaterra, \u00e9 comum associar a ideia com as press\u00f5es desse pa\u00eds para abolir o tr\u00e1fico de escravos e a escravid\u00e3o no s\u00e9culo XIX, quando a explora\u00e7\u00e3o do trabalho \u201clivre\u201d se mostrava nitidamente mais rent\u00e1vel.<br \/>\nMas a verdade \u00e9 que o Reino Unido \u00e9 um imperialismo que foi constru\u00eddo \u2013 como os demais \u2013 sobre a base do colonialismo e o conhecido \u201ccomercio triangular\u201d de escravos, neg\u00f3cio com o qual alcan\u00e7ou uma posi\u00e7\u00e3o importante at\u00e9 o s\u00e9culo XVIII.<br \/>\nO tr\u00e1fico brit\u00e2nico come\u00e7ou em 1562, por meio das viagens do famoso cors\u00e1rio John Hawkins, que depois seria nomeado cavalheiro pela rainha Isabel I como retribui\u00e7\u00e3o aos bons dividendos obtidos. Em 1625, os ingleses tomaram posse de Barbados, em nome de James I. Trinta anos mais tarde, arrebataram a Jamaica dos colonos espanh\u00f3is. Em 1660 foi fundada na Inglaterra a Real Companhia de Aventureiros do Com\u00e9rcio com a \u00c1frica. O pr\u00f3prio rei outorgou a patente para que seus barcos pudessem comercializar na costa ocidental africana e construir fortes. A condi\u00e7\u00e3o: ceder \u00e0 Coroa a metade dos lucros. Em 1672, a empresa se reestruturou e assumiu o nome de Real Companhia Africana (RAC, por sua sigla em ingl\u00eas). Agora, al\u00e9m de traficar africanos e construir fortes, podia estabelecer \u201cf\u00e1bricas\u201d (espa\u00e7os donde se retinha os escravos antes de embarcar), empregando seus pr\u00f3prios soldados.<br \/>\nNo s\u00e9culo XVI, Colston era subdiretor da RAC, que nesse tempo monopolizava o comercio de escravos. O diretor era nada menos que o irm\u00e3o do rei Carlos II, depois rei James II. Estima-se que mais de 84.000 cativos foram traficados nos barcos do \u201cfilho ilustre de Bristol\u201d. As horrendas condi\u00e7\u00f5es da travessia custaram a vida de ente 10% e 20% dos cativos. Aos sobreviventes lhes esperava uma vida de trabalhos for\u00e7ados e torturas.<br \/>\nNo final desse s\u00e9culo, outros traficantes se envolveram no tr\u00e1fico de escravos, ainda que devessem pagar \u00e0 RAC um imposto de 10% de todas suas exporta\u00e7\u00f5es a partir da \u00c1frica. O aumento das atividades fez com que no s\u00e9culo XVIII o comercio de escravos ocupasse um lugar importante na economia brit\u00e2nica.<br \/>\nDe fato, tanto o tr\u00e1fico de escravos como o escravismo contribu\u00edram enormemente para a acumula\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria de capital que desembocaria na consolida\u00e7\u00e3o do capitalismo na Europa ocidental. O tr\u00e1fico de africanos enriqueceu n\u00e3o somente os traficantes \u2013 europeus e seus s\u00f3cios africanos \u2013 mas tamb\u00e9m os donos de minas e planta\u00e7\u00f5es nas Am\u00e9ricas, os banqueiros que financiavam as expedi\u00e7\u00f5es, e inclusive os primeiros industriais, que dependiam das mat\u00e9rias primas importadas das zonas colonizadas e onde imperava o trabalho escravo.<br \/>\nA quantidade de escravos traficados pela \u201ccivilizada\u201d burguesia inglesa foi alta. Estima-se que em 1807, ano em que este tr\u00e1fico foi ilegalizado na Gr\u00e3 Bretanha, mais de tr\u00eas milh\u00f5es de africanos haviam sido transportados por barcos desta bandeira para as Am\u00e9ricas. O total do tr\u00e1fico pelo Atl\u00e2ntico foi de aproximadamente doze milh\u00f5es.<br \/>\n<div id=\"attachment_61163\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/bde82f0fd203c32a231ce45bfd317043.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-61163\" class=\"size-full wp-image-61163\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/bde82f0fd203c32a231ce45bfd317043.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/bde82f0fd203c32a231ce45bfd317043.jpg 400w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/bde82f0fd203c32a231ce45bfd317043-300x225.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/bde82f0fd203c32a231ce45bfd317043-150x113.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-61163\" class=\"wp-caption-text\">Navio negreiro, de Johann Moritz Rugenda (1802-1858)<\/p><\/div><br \/>\nA verdade \u00e9 que o comercio triangular foi chave na cria\u00e7\u00e3o da economia mundial dominada pelos europeus. Os pa\u00edses que dominaram o tr\u00e1fico experimentaram um crescimento material impressionante, produto da suc\u00e7\u00e3o de recursos e do roubo da m\u00e3o de obra das \u00e1reas colonizadas. O caso da Gr\u00e3 Bretanha n\u00e3o foi diferente. O montante de seu com\u00e9rcio exterior passou de dez para quarenta milh\u00f5es de libras durante o s\u00e9culo XVIII.<br \/>\nEste \u00e9 o passado que est\u00e1 em disputa, banhado em sangue de milh\u00f5es de africanos e dezenas de povos colonizados. Esta disputa se expressa de v\u00e1rias maneiras: o \u201cduelo de est\u00e1tuas\u201d de Bristol \u00e9 uma delas. Seu impacto foi uma importante conquista do amplo movimento <em>Black Lives Matters<\/em>\u00a0nos EUA, Reino Unido, e muitos outros pa\u00edses.\u00a0 Um exemplo de luta direta que devemos seguir.<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As imagens da est\u00e1tua do traficante de escravos Edward Colston sendo derrubada, pichada e \u201cestrangulada\u201d por centenas de manifestantes, para depois ser jogada no rio na cidade portu\u00e1ria brit\u00e2nica de Bristol, permanecer\u00e3o por muito tempo em nossa memoria . A verdade \u00e9 que uma coisa assim n\u00e3o tem pre\u00e7o. Esse valente ato coletivo marcou um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":61164,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[208,3558,8],"tags":[114,1083,1010,5650,5651,5641],"class_list":["post-61161","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-africa","category-gra-bretanha","category-historia","tag-daniel-sugasti","tag-edward-colston","tag-george-floyd","tag-jen-reid","tag-marc-quinn","tag-vidas-negras-importam"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Ec_isLWWkAAQOQW.jpg","categories_names":["\u00c1frica","Gr\u00e3-Bretanha","Hist\u00f3ria"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61161","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61161"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61161\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61164"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61161"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61161"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61161"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}