{"id":61134,"date":"2020-07-24T17:31:37","date_gmt":"2020-07-24T19:31:37","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=61134"},"modified":"2020-07-24T17:31:37","modified_gmt":"2020-07-24T19:31:37","slug":"crise-internacional-do-setor-aereo-e-da-industria-aeronautica-qual-e-a-saida-para-os-trabalhadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/07\/24\/crise-internacional-do-setor-aereo-e-da-industria-aeronautica-qual-e-a-saida-para-os-trabalhadores\/","title":{"rendered":"Crise internacional do setor a\u00e9reo e da ind\u00fastria aeron\u00e1utica: qual \u00e9 a sa\u00edda para os trabalhadores?"},"content":{"rendered":"<p><em>Ap\u00f3s anos de forte expans\u00e3o do transporte a\u00e9reo e da ind\u00fastria aeron\u00e1utica, estamos hoje, no meio da pandemia de Covid-19, na maior crise que o setor tem na sua hist\u00f3ria. Desde sempre, o setor a\u00e9reo teve que conviver com crises induzidas n\u00e3o apenas por fatores espec\u00edficos internos, mas tamb\u00e9m por fatores externos, muitas vezes repentinos e imprevis\u00edveis: crise do pre\u00e7o do petr\u00f3leo, guerras, geopol\u00edtica, pandemias, etc.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\n<em>Por: Carlos Ordaz, trabalhador Groundforce (Em Luta \u2013 Portugal; Herbert Claros, oper\u00e1rio Embraer (PSTU \u2013 Brasil)e Daniele Cofani, oper\u00e1rio Alitalia (Pdac \u2013 It\u00e1lia)<\/em><br \/>\nEm poucas semanas, o coronav\u00edrus conseguiu colocar por terra um setor inteiro, com companhias a\u00e9reas que tiveram que cortar at\u00e9 95% do pr\u00f3prio operativo. Cabe ressaltar que o gerenciamento e a redu\u00e7\u00e3o de voos n\u00e3o ocorreram com o objetivo de prevenir e conter a dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, mas apenas em raz\u00e3o de par\u00e2metros econ\u00f4micos. Em suma, o transporte a\u00e9reo n\u00e3o parou para combater o v\u00edrus, mas por falta de venda de passagens, ou seja, por falta de lucro. Isso ocorreu devido a forte press\u00e3o de grandes grupos internacionais que, depois de adiarem o bloqueio de voos no in\u00edcio da pandemia, agora est\u00e3o exigindo a sua reabertura com precau\u00e7\u00f5es limitadas e sem distanciamento dentro dos avi\u00f5es, tornando o transporte a\u00e9reo o maior ve\u00edculo internacional de difus\u00e3o do v\u00edrus.<br \/>\nNesse contexto, aparece sempre de modo mais evidente o papel dos governos burgueses (esquerda e direita) e tamb\u00e9m o papel conciliat\u00f3rio das grandes burocracias sindicais. Na primeira fase, os trabalhadores foram for\u00e7ados a trabalhar com dispositivos de seguran\u00e7a inadequados, e agora s\u00e3o deixados em casa em <em>lay-off<\/em> (It\u00e1lia <em>cassa integrazione<\/em><strong>, <\/strong>Estado Espanhol <em>Erte<\/em>), com pesados cortes salariais. Em resumo, os patr\u00f5es est\u00e3o isentos do pagamento de sal\u00e1rios, assegurando o seu capital, obrigando o coletivo a pagar o custo social e econ\u00f4mico da crise (atrav\u00e9s de impostos dos trabalhadores).<br \/>\nA crise econ\u00f4mica \u00e9 evidente, mas est\u00e1 contida dentro de uma mais geral e mais c\u00edclica do capitalismo, que este v\u00edrus apenas antecipou e detonou. No que diz respeito ao futuro dos trabalhadores do setor de avia\u00e7\u00e3o, o que se tem de perspetiva \u00e9 um futuro dram\u00e1tico. A IATA (Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Transporte A\u00e9reo) estimou que as companhias a\u00e9reas, neste per\u00edodo de pandemia, perderam US $ 252 bilh\u00f5es em receita e que no setor de turismo est\u00e3o previstas 25 milh\u00f5es de demiss\u00f5es, das quais muitas entre as companhias a\u00e9reas e empresas de servi\u00e7os aeroportu\u00e1rios (Handling). No que resguarda a ind\u00fastria aeron\u00e1utica, a Airbus declarou 15 mil demiss\u00f5es, a Boeing mais de 12 mil e a Embraer apresentou um plano de demiss\u00e3o volunt\u00e1ria.<br \/>\nAbaixo, relatamos evid\u00eancias diretas da situa\u00e7\u00e3o do setor a\u00e9reo, e tentaremos analisar e propor a \u00fanica sa\u00edda para os trabalhadores.<br \/>\n<strong>Alitalia: a fal\u00eancia da privatiza\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nFundada ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, por 61 anos foi propriedade p\u00fablica, com uma longa hist\u00f3ria de sucesso e desenvolvimento. Apesar de ter sido privatizada em 2009, no in\u00edcio dos anos 2000, houve uma tentativa fracassada de venda atrav\u00e9s de uma fus\u00e3o com a companhia de bandeira holandesa KLM.<br \/>\nEm 2004, houve um acordo entre a Alitalia, o Governo e as burocracias sindicais para modificar a reorganiza\u00e7\u00e3o da propriedade e dos acionistas, dando aval \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o com a possibilidade de privados comprarem a\u00e7\u00f5es da companhia.<br \/>\nEntre 2004 e 2008, a frota e as atividades foram reduzidas, principalmente na divis\u00e3o de manuten\u00e7\u00e3o, para tornar a Alitalia cada vez menos competitiva no mercado de transporte a\u00e9reo, agora, liberalizado e totalmente voltado para as privatiza\u00e7\u00f5es de companhias tradicionais e de aeroportos.<br \/>\nA privatiza\u00e7\u00e3o total e a perda do controle p\u00fablico da Alitalia ocorreram entre 2008 e 2009, com dois governos diferentes: em 2008, come\u00e7ou com o governo de centro-esquerda de Romano Prodi (considerado um governo progressista, com partidos Refunda\u00e7\u00e3o Comunista e Comunistas italianos) e terminou com o governo de centro-direita de Silvio Berlusconi.<br \/>\nA Alitalia privatizada tornou-se pouco mais do que uma companhia regional, a frota foi drasticamente reduzida e 10.000 trabalhadores foram demitidos. A estrutura corporativa viu como principal acionista a companhia franco-holandesa AirFrance-KLM (25%) e o restante para o pior empreendimento italiano. O Estado italiano, perdendo a propriedade da companhia de bandeira, perdeu tamb\u00e9m o controle do fluxo de turistas e mercadorias; foi uma loucura total para um pa\u00eds que vive do turismo e das exporta\u00e7\u00f5es. Todas as etapas da privatiza\u00e7\u00e3o da Alitalia foram partilhadas por v\u00e1rios governos e todas as organiza\u00e7\u00f5es sindicais, com exce\u00e7\u00e3o da Cub Trasporti.<br \/>\nAp\u00f3s alguns anos, a privatiza\u00e7\u00e3o da Alitalia demonstrou ser um fracasso total: em 2014, o governo teve que intervir novamente para evitar a fal\u00eancia, mas, em vez de nacionalizar a Alitalia, o governo do PD decidiu realizar uma segunda privatiza\u00e7\u00e3o, vendendo 49% das a\u00e7\u00f5es para a Etihad, companhia a\u00e9rea dos Emirados \u00c1rabes; nesta passagem, outros 2.000 trabalhadores foram demitidos. Essa privatiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi um desastre total e em 2017 foi apresentado, mais uma vez, um plano de corte de sal\u00e1rios e de demiss\u00f5es.<br \/>\nFinalmente, os trabalhadores da Alitalia rebelaram-se, decidindo, conjuntamente, apoiar uma dura luta, liderada pela Cub Trasporti, contra o plano dos patr\u00f5es e pela nacionaliza\u00e7\u00e3o da Alitalia. Entre fevereiro e abril de 2017, ocorreram quatro grandes greves e houve um referendo em que 67% dos trabalhadores da Alitalia rejeitaram o plano dos patr\u00f5es e das burocracias sindicais votando N\u00c3O. Um voto muito dif\u00edcil para os trabalhadores, que tinham contra eles o governo e todas as burocracias sindicais. O referendo da Alitalia pode ser considerado uma vit\u00f3ria hist\u00f3rica, que trouxe a empresa de volta \u00e0s m\u00e3os do Estado atrav\u00e9s de uma extraordin\u00e1ria administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<br \/>\nApesar dessa vit\u00f3ria, o governo Conte estava tentando uma nova venda, at\u00e9 \u00e0 chegada do Covid-19, que, em poucas semanas, redefiniu as atividades de voos internacionais.<br \/>\nEssa situa\u00e7\u00e3o obrigou os governos de diferentes pa\u00edses a investirem dinheiro p\u00fablico para salvarem as v\u00e1rias companhias, solicitando autoriza\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia. Para a Alitalia, o governo pediu a possibilidade de investir 3 bilh\u00f5es para nacionalizar a companhia, mas, para iniciar tal investimento, ter\u00e1 que garantir descontinuidade societ\u00e1ria, ou seja, uma divis\u00e3o da companhia em diversas sociedades (Holding). De fato, o governo italiano est\u00e1 se dispondo a utilizar o dinheiro da coletividade para enganar os trabalhadores com uma falsa nacionaliza\u00e7\u00e3o, que servir\u00e1 para fazer demiss\u00f5es e vender a Alitalia \u00e0s melhores ofertas, portanto, para terminar um velho projeto que dar\u00e1 \u00e0 nova Alitalia um papel sempre mais marginal no contexto do transporte a\u00e9reo europeu.<br \/>\nSomente uma real nacionaliza\u00e7\u00e3o sobre o controle dos trabalhadores, conquistada atrav\u00e9s da luta, poder\u00e1 salvar a companhia de uma morte anunciada.<br \/>\n<strong>Renacionalizar a Embraer sob controle dos trabalhadores<\/strong><br \/>\nA entrega da Embraer \u00e0 Boeing n\u00e3o se concretizou, mas a dire\u00e7\u00e3o da empresa e os acionistas trataram as negocia\u00e7\u00f5es como certas e, nos \u00faltimos dois anos, tomaram medidas temer\u00e1rias para preparar a empresa para os norte-americanos. Paralisaram investimentos, realizaram demiss\u00f5es, reestrutura\u00e7\u00f5es, cortes de custos e abandonaram a cria\u00e7\u00e3o de novos projetos que impuseram grandes preju\u00edzos e colocaram a Embraer numa situa\u00e7\u00e3o extremamente vulner\u00e1vel, que se agrava num cen\u00e1rio altamente competitivo.<br \/>\nMas a quase venda da Embraer revela que os seus acionistas, a sua maioria grandes fundos de investimentos estrangeiros, n\u00e3o se importam com os interesses do povo brasileiro. Eles n\u00e3o pensaram duas vezes ao abrir m\u00e3o do principal e mais din\u00e2mico neg\u00f3cio da Embraer, mesmo que isso fosse representar a desnacionaliza\u00e7\u00e3o completa da empresa e a sua destrui\u00e7\u00e3o em pouco tempo. No m\u00e1ximo, seria transformada numa montadora de pe\u00e7as de avi\u00f5es.<br \/>\nEsse projeto de desmantelamento e descaracteriza\u00e7\u00e3o nacional da empresa \u00e9 parte de um projeto que vem sendo aplicado pela dire\u00e7\u00e3o da empresa e pelos grupos de acionistas desde a sua privatiza\u00e7\u00e3o. A Embraer foi privatizada em 1994 sob o famoso discurso neoliberal da suposta efici\u00eancia do setor privado, que supostamente tamb\u00e9m seria imune \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, o discurso de que empresas p\u00fablicas e estatais s\u00e3o antros de corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos mais usados para defender privatiza\u00e7\u00f5es.<br \/>\nMas isso \u00e9 mentira. Os \u00faltimos fatos da pol\u00edtica no Brasil demonstram que as empreiteiras, por exemplo, grandes empresas e at\u00e9 multinacionais privadas corromperam e beneficiam de grandes esquemas de corrup\u00e7\u00e3o. A pr\u00f3pria Embraer, em 2016, admitiu pr\u00e1ticas ilegais com pagamento de subornos e foi multada pelos EUA, jogando depois o custo das suas trapa\u00e7as na demiss\u00e3o de trabalhadores.<br \/>\nA tal efici\u00eancia do setor privado tamb\u00e9m \u00e9 uma fal\u00e1cia. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria Embraer, todos os grandes projetos da empresa foram elaborados quando ainda era estatal; o dinheiro p\u00fablico sempre foi sustent\u00e1culo da empresa, mesmo depois de privatizada.<br \/>\nAgora a empresa est\u00e1 prestes a receber um empr\u00e9stimo de mais de 3 bilh\u00f5es de reais, sendo a maior contribui\u00e7\u00e3o a do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social). Ser\u00e1 mais uma ajuda de dinheiro p\u00fablico que a empresa recebe mesmo depois da privatiza\u00e7\u00e3o. Ainda assim, os trabalhadores est\u00e3o em risco de demiss\u00e3o. A empresa abriu um processo de demiss\u00e3o volunt\u00e1ria (PDV) nas \u00faltimas semanas.<br \/>\nEm todos os momentos de crise, as empresas tentam jogar a conta nas costas dos trabalhadores. Em 2009, por exemplo, a Embraer demitiu em massa porque perdeu dinheiro na Bolsa de Valores. Em 2016, ao ser multada em 200 milh\u00f5es de d\u00f3lares americanos pelo \u00f3rg\u00e3o de controle do mercado mobili\u00e1rio dos Estados Unidos por pr\u00e1tica de corrup\u00e7\u00e3o, a Embraer instituiu um PDV\u00a0que cortou 1.550 postos de trabalho. Agora, a hist\u00f3ria repete-se com a abertura desse PDV, ap\u00f3s o fracasso da venda \u00e0 Boeing.<br \/>\n<strong>Apenas a renacionaliza\u00e7\u00e3o da Embraer garantir\u00e1 empregos e a soberania nacional do Brasil<\/strong><br \/>\nExiste atualmente uma necessidade de aeronaves comerciais de curta dist\u00e2ncia que poderia ser explorada pela Embraer em todo o mundo, ou ainda a diversifica\u00e7\u00e3o da sua produ\u00e7\u00e3o, com mais desenvolvimento tecnol\u00f3gico. Por\u00e9m, nas m\u00e3os do setor privado, a busca pelo lucro r\u00e1pido, sem rela\u00e7\u00e3o com um projeto de soberania nacional, continuar\u00e1 a fragilizar a empresa, resultando na sua destrui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO Brasil precisa inverter a l\u00f3gica atual, investir em investiga\u00e7\u00e3o e barrar imediatamente o ciclo de desindustrializa\u00e7\u00e3o, para que o pa\u00eds deixe de ser apenas extrativista e exportador de mercadorias, como nos tempos do Brasil col\u00f4nia.<br \/>\nRenacionalizar a Embraer \u00e9 devolver a empresa \u00e0s m\u00e3os do povo brasileiro e direcionar dinheiro p\u00fablico para uma empresa p\u00fablica, a servi\u00e7o dos interesses nacionais, e n\u00e3o de um punhado de acionistas estrangeiros.<br \/>\nContudo, \u00e9 preciso que os trabalhadores discutam tamb\u00e9m sobre que tipo de renacionaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria. Defendemos a renacionaliza\u00e7\u00e3o da Embraer sob controle dos trabalhadores.<br \/>\nOs trabalhadores produzem a riqueza da empresa, det\u00eam todo o conhecimento cient\u00edfico e operacional da produ\u00e7\u00e3o de avi\u00f5es. S\u00e3o os \u00fanicos que t\u00eam interesse e, de forma democr\u00e1tica, podem impedir a corrup\u00e7\u00e3o, defender os empregos e buscar o desenvolvimento cient\u00edfico em prol dos interesses nacionais.<br \/>\nO Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, que \u00e9 filiado \u00e0 CSP-Conlutas,\u00a0 lan\u00e7ou uma campanha nacional que j\u00e1 conta com um manifesto com mais de 250 assinaturas. O manifesto pela renacionaliza\u00e7\u00e3o conta com a\u00a0 ades\u00e3o de entidades, partidos, personalidades, juristas e continua aberto a mais assinaturas. Queremos o apoio de todos os que defendem uma Embraer estatal, ao servi\u00e7o do povo brasileiro e do desenvolvimento do pa\u00eds.<br \/>\nAl\u00e9m disso, j\u00e1 foi protocolado na C\u00e2mara dos Deputados um projeto de lei pela renacionaliza\u00e7\u00e3o da Embraer que \u00e9 resultado de uma articula\u00e7\u00e3o do Sindicato com o deputado Orlando Silva (PCdoB). O projeto tem a co-autoria de 54 deputados. O Sindicato tamb\u00e9m est\u00e1 tamb\u00e9m pedindo na Justi\u00e7a o afastamento do Conselho Administrativo da Embraer, respons\u00e1vel pelos preju\u00edzos impostos \u00e0 empresa e que querem passar aos trabalhadores.<br \/>\nA luta pela renacionaliza\u00e7\u00e3o da Embraer trata-se da defesa de milhares de empregos, de manter uma empresa nacional de avi\u00f5es, p\u00fablica, de excel\u00eancia tecnol\u00f3gica, ao servi\u00e7o do desenvolvimento econ\u00f4mico e social e da soberania do pa\u00eds. Somente a luta da classe trabalhadora pode conquistar a renacionaliza\u00e7\u00e3o da Embraer. Essa \u00e9 a nossa luta.<br \/>\n<strong>S\u00f3 uma TAP 100% p\u00fablica garante qualidade de servi\u00e7o e emprego<\/strong><br \/>\nA TAP, \u00e0 semelhan\u00e7a de muitas companhias a\u00e9reas, particularmente as de pa\u00edses perif\u00e9ricos da Uni\u00e3o Europeia (UE), tem vivido anos &#8211; sen\u00e3o d\u00e9cadas &#8211; de incerteza. Ao longo destes anos, faliram companhias como a belga Sabena ou a su\u00ed\u00e7a Swisswair; ou foram absorvidas, como a Iberia, no Grupo IAG, da Dona British Airways. Todas estas tramas t\u00eam um fim comum, acabam nas redes das tr\u00eas grandes: Lufthansa, Air France com KLM e British Airways. Assim, como todo o neg\u00f3cio capitalista, tamb\u00e9m a avia\u00e7\u00e3o est\u00e1 sofrendo uma concentra\u00e7\u00e3o do capital, deixando nas m\u00e3os de cada vez menos empresas a gest\u00e3o privada de um setor naturalmente p\u00fablico. Isto tem funcionado? De todo, basta refletirmos sobre a pandemia e como o setor e as empresas reagiram desgovernadamente sem se importarem com os seus trabalhadores e com os seus passageiros. Foi assim no in\u00edcio da pandemia e est\u00e1 sendo assim agora na chamada volta \u00e0 normalidade.<br \/>\nA TAP, companhia de bandeira portuguesa fundada no p\u00f3s-guerra (1945), teve maioria de capital privado at\u00e9 1974. No in\u00edcio de 1975, na \u00e9poca mais quente que caracterizou o processo revolucion\u00e1rio portugu\u00eas, a TAP, \u00e0 semelhan\u00e7a de outros transportes e setores de economia, foi nacionalizada. Desde a derrota do processo revolucion\u00e1rio, no final de 1975, que \u00e9 vontade da burguesia reverter as nacionaliza\u00e7\u00f5es. E foi o que aconteceu, sobretudo na d\u00e9cada de 90. Com a anterior crise 2007-8 e com a imposi\u00e7\u00e3o da troika a Portugal de um plano de pagamentos para os resgates que estavam sendo feitos ao pa\u00eds pelo FMI e Banco Central Europeu, novas empresas foram listadas para venda, entre elas os aeroportos e a companhia de bandeira TAP.<br \/>\nNo final de 2015, e ap\u00f3s o governo de direita ter perdido legitimidade pela maioria parlamentar de esquerda, a qual viria a conformar um governo com nome carinhoso de Geringon\u00e7a, a direita assina, \u00e0s escondidas e com toda a urg\u00eancia, a privatiza\u00e7\u00e3o da Companhia a\u00e9rea; um golpe da burguesia em prol da burguesia. O governo de esquerda viria a tomar posse no final de novembro de 2015 e, em 2016, apresenta em estilo de conquista a chamada \u201crevers\u00e3o\u201d da privatiza\u00e7\u00e3o. Celebrado pela esquerda partid\u00e1ria e sindical, este ato n\u00e3o era mais do que mais uma opera\u00e7\u00e3o de cosm\u00e9tica da burguesia: o Estado n\u00e3o mandava na Companhia e embora tivesse 50% das ac\u00e7\u00f5es s\u00f3 tinha direitos econ\u00f4micos de 5% &#8211; o zero n\u00e3o ficou esquecido, foi mesmo assim a negociata.<br \/>\nHoje podemos e devemos fazer um balan\u00e7o das maravilhas de uma t\u00e3o divulgada gest\u00e3o privada: n\u00e3o conseguiram os prometidos lucros inscritos no c\u00e9lebre \u201cPlano Estrat\u00e9gico\u201d, bem pelo contr\u00e1rio aumentaram a d\u00edvida, e escolheram a via do sobredimensionamento da Companhia, despachando avi\u00f5es da Azul (Companhia a\u00e9rea brasileira do acionista privado) para a TAP e ganhando comiss\u00f5es com novas aeronaves. Bravo! Ainda no balan\u00e7o da gest\u00e3o privada dos \u00faltimos anos \u00e9 necess\u00e1rio entender como \u00e9 que se fizeram escolhas e empr\u00e9stimos diab\u00f3licos; para tal \u00e9 fundamental exigir uma auditoria p\u00fablica e independente \u00e0s contas da Companhia com presen\u00e7a das organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores para apurar responsabilidades.<br \/>\nMesmo assim, com esta anarquia toda instalada na TAP, o Governo decide-se agora pelo empr\u00e9stimo de 1,2 bilh\u00f5es de euros para salvar a Companhia de interesse nacional. Empr\u00e9stimo autorizado previamente por quem manda em Portugal: a Uni\u00e3o Europeia. Este empr\u00e9stimo autorizado pela madrasta Europa j\u00e1 parte com condicionantes: redu\u00e7\u00e3o de frota, de rotas e de trabalhadores. Empr\u00e9stimo este autorizado, reconhecendo que a Companhia antes da pandemia j\u00e1 n\u00e3o era vi\u00e1vel. Por culpa de quem? N\u00e3o, n\u00e3o foi da gest\u00e3o p\u00fablica; foi, sim, da gest\u00e3o privada!<br \/>\nEsta manobra do governo durante a pandemia continua garantindo a presen\u00e7a dos privados em 22,5% (ficou a burguesia nacional a fazer de bibelot, sem receber nem investir), dando a indica\u00e7\u00e3o de que ser\u00e1 um controle p\u00fablico ef\u00eamero com vista \u00e0 reprivatiza\u00e7\u00e3o. Que fique claro que esta manobra n\u00e3o \u00e9 de todo a nacionaliza\u00e7\u00e3o. Mais claro n\u00e3o podia ficar com a declara\u00e7\u00e3o do Presidente da Rep\u00fablica, no dia 16 de julho, ao promulgar o decreto-lei que permitiu esta ajuda \u00e0 companhia e a sua prepara\u00e7\u00e3o para privados: \u201cdepois de uma negocia\u00e7\u00e3o regida pelo Direito Privado, e que importava clarificar que \u00e9 o mesmo Direito Privado o aplic\u00e1vel \u00e0 mencionada aquisi\u00e7\u00e3o, o Presidente da Rep\u00fablica que, desde logo, afastou a hip\u00f3tese de uma nacionaliza\u00e7\u00e3o ou apropria\u00e7\u00e3o por instrumentos de Direito P\u00fablico, promulgou hoje [16 de Julho de 2020] o diploma do Governo que autoriza o Governo a adquirir participa\u00e7\u00f5es sociais, direitos econ\u00f4micos e presta\u00e7\u00f5es acess\u00f3rias relativas \u00e0 TAP &#8211; Transportes A\u00e9reos Portugueses, SGPS, S.A\u201d.<br \/>\nPortanto, caros e caras amigas, o controle p\u00fablico aqui n\u00e3o \u00e9 no interesse dos trabalhadores, mas sim dos futuros patr\u00f5es e da UE e quem manda nela. Para quem ainda n\u00e3o acredita, que veja o dinheiro que o Estado pagar\u00e1 a Neelman (o acionista privado que sai) pelos seus 22,5% do capital: 55 milh\u00f5es de euros, mais de 5 vezes o que ele pagou pela Companhia, deixando-lhe ainda levantar em 2026 os 90 milh\u00f5es do empr\u00e9stimo obrigacionista, com juros inimagin\u00e1veis nas nossas contas a prazo. Se o Estado tivesse nacionalizado como devia a Companhia, livrava-a da fal\u00eancia em que estava e n\u00e3o teria que pagar nada aos privados; com uma auditoria s\u00e9ria, talvez quem tivesse que pagar mais alguma coisa seriam eles, mas j\u00e1 se sabe que nesta sociedade, por esta hora, j\u00e1 teriam as suas contas em nome das m\u00e3es, tios e av\u00f3s nas Ilhas Caim\u00e3o ou no Luxemburgo.<br \/>\n<strong>Qual o futuro da avia\u00e7\u00e3o? <\/strong><br \/>\nRelatamos aqui tr\u00eas casos de pa\u00edses distintos, mas podiam ser quaisquer outros, noutros pa\u00edses ou continentes. A pandemia caminha hoje em paralelo com uma crise do capitalismo que j\u00e1 se vinha instalando antes e que ela somente acelerou, atingindo uma magnitude que muitos n\u00e3o esperavam e que v\u00eaem hoje como catastr\u00f3fica. Taxas de desemprego de dois d\u00edgitos nos Estado Unidos, a maior pot\u00eancia mundial, demiss\u00f5es de milhares e acordos de financiamento de austeridade e desemprego n\u00e3o s\u00e3o um bom aug\u00fario para o mundo e para a Humanidade.<br \/>\nA crise, palavra quase hom\u00f4nima de capitalismo, \u00e9 o resultado de como este n\u00e3o sabe organizar e desenvolver a sociedade, como aqui tentamos mostrar atrav\u00e9s do setor da avia\u00e7\u00e3o. A pandemia p\u00f4s a n\u00fa o sistema capitalista caduco que s\u00f3 nos traz desgra\u00e7a, fome, desemprego e perda de direitos para os capitalistas manterem os seus lucros.<br \/>\nPara os trabalhadores, desta vez, n\u00e3o bastar\u00e1 s\u00f3 resistir, h\u00e1 que ir mais al\u00e9m e passar \u00e0 ofensiva, exigindo prote\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, melhores hor\u00e1rios e melhores sal\u00e1rios. Sem as suas organiza\u00e7\u00f5es representativas ultrapassarem o trauma de \u201cesta situa\u00e7\u00e3o ser dif\u00edcil\u201d e come\u00e7arem a mobilizar quem trabalha e percebe de avia\u00e7\u00e3o, nada se conseguir\u00e1 fazer para reverter a mesma l\u00f3gica de benef\u00edcio dos privados em detrimento dos trabalhadores. Se voltar \u00e0 normalidade \u00e9 voltarmos ao mesmo, ent\u00e3o, \u00e9 melhor chamar-lhe a volta \u00e0 desorganiza\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e baixa qualidade de servi\u00e7o.<br \/>\nPor tudo isto, acreditamos n\u00f3s que a avia\u00e7\u00e3o como outros transportes devem ser nacionalizados e estar sob controle dos trabalhadores, aqueles que sabem da poda e conhecem a casa. Se h\u00e1 coisa que esta pandemia trouxe foram in\u00fameros exemplos de que os trabalhadores tiveram que se auto-organizar para garantir que o dia avan\u00e7asse. Exemplo m\u00e1ximo foram v\u00e1rios hospitais em todo o mundo em que, face \u00e0 desorganiza\u00e7\u00e3o e p\u00e2nico instalado, foram os trabalhadores da sa\u00fade que pegaram o leme do barco e garantiram a assist\u00eancia e sa\u00fade da classe trabalhadora.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s anos de forte expans\u00e3o do transporte a\u00e9reo e da ind\u00fastria aeron\u00e1utica, estamos hoje, no meio da pandemia de Covid-19, na maior crise que o setor tem na sua hist\u00f3ria. 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