{"id":61107,"date":"2020-07-22T09:38:23","date_gmt":"2020-07-22T11:38:23","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=61107"},"modified":"2020-07-22T09:38:23","modified_gmt":"2020-07-22T11:38:23","slug":"argentina-o-papel-da-populacao-negra-na-independencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/07\/22\/argentina-o-papel-da-populacao-negra-na-independencia\/","title":{"rendered":"Argentina&#124; O papel da popula\u00e7\u00e3o negra na independ\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><em>Sem d\u00favida a independ\u00eancia argentina da coroa espanhola foi o fato mais importante de nosso pa\u00eds. Mais ainda considerando que hoje est\u00e1 colocada a necessidade de uma segunda independ\u00eancia frente ao FMI e \u00e0s diferentes variantes que o imperialismo utiliza para explorar e oprimir a Argentina.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Cristian Verite<br \/>\nNessa hist\u00f3ria onde houve v\u00e1rios protagonistas como os patriotas, a coroa espanhola e a oligarquia, sem d\u00favida falta um e \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o dos escravos e afro-argentinos nessa independ\u00eancia. Uma participa\u00e7\u00e3o que ficou reduzida na hist\u00f3ria segundo as atas escolares \u00e0 venda de empanadas e <em>mazamorra#<\/em>.<br \/>\n<em>Este artigo tem como objetivo desenvolver o papel que os escravos tiveram e porque foi negado na hist\u00f3ria.<\/em><br \/>\n<strong>A chegada dos escravos ao Porto de Buenos Aires<\/strong><br \/>\nEntre os s\u00e9culos XVI e XIX, houve o tr\u00e1fico de africanos escravizados com o objetivo de funcionar como m\u00e3o de obra dos conquistadores europeus na Am\u00e9rica.<br \/>\nNa Argentina os escravos chegavam ao porto de Buenos Aires, a partir da\u00ed eram levados aos diferentes mercados onde eram comercializados, estavam localizados no atual Parque Lezama. Da\u00ed para seu destino final, que nesse per\u00edodo era o antigo Tucum\u00e1n.<br \/>\nNa segunda metade do s\u00e9culo XVIII isso mudou de maneira significativa, j\u00e1 que Buenos Aires se transformou no centro econ\u00f4mico e pol\u00edtico do vice-reino, a esta altura a presen\u00e7a de escravos no pa\u00eds era mais que significativa como demonstra o censo a seguir.<br \/>\nDe acordo com o primeiro levantamento realizado em 1778 para todo o territ\u00f3rio do vice-reino, a popula\u00e7\u00e3o classificada como \u201cnegros, mulatos, pardos e cafuzos\u201d livres e escravizados representava 37% da popula\u00e7\u00e3o. O mesmo censo lan\u00e7ou as seguintes cifras para algumas jurisdi\u00e7\u00f5es, nas quais se destacava o alt\u00edssimo n\u00famero da popula\u00e7\u00e3o africana e afrodescendente: em Santiago del Estero chegavam a 54%, em Catamarca a 52%, em Salta a 46%, em C\u00f3rdoba a 44%, em Jujuy a 13%, em La Rioja a 20%, em Mendoza a 24%, em San Juan a 16% e em San Luis a 8%. Para a cidade de Buenos Aires, o censo estabelecia que 28% do total da popula\u00e7\u00e3o era de ascend\u00eancia africana. (1)<br \/>\nOs escravos foram utilizados nos tarefas rurais, na pecu\u00e1ria, nos servi\u00e7os artesanais, no trabalho dom\u00e9stico. Al\u00e9m disto eram obrigados a pagar aos seus amos um imposto que chamavam \u201cjornal\u201d. Para isso n\u00e3o s\u00f3 se dedicavam \u00e0 venda de <em>mazamorra<\/em> (hist\u00f3ria que se reproduz nos textos escolares da atualidade). Em Buenos Aires, eram geralmente os oper\u00e1rios das f\u00e1bricas, das grandes padarias, carpintarias, curtumes e serralherias. Tamb\u00e9m eram a maioria nas associa\u00e7\u00f5es de sapateiros e alfaiates, quando as posi\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas mais elevadas (mestres artes\u00e3os) eram ocupadas por pessoas \u201cbrancas\u201d, europeias ou crioulas. (2)<br \/>\n<strong>Negros na independ\u00eancia:<\/strong><br \/>\nDurante os diferentes conflitos b\u00e9licos, a participa\u00e7\u00e3o dos negros foi significativa por varias raz\u00f5es.<br \/>\nA primeira era a \u201clei de resgate\u201d que obrigava os propriet\u00e1rios de escravos a ceder 40% ao ex\u00e9rcito. A segunda designava que todo escravo que servisse ao ex\u00e9rcito por 5 anos, seria um cidad\u00e3o livre, coisa que salvo exce\u00e7\u00f5es nunca aconteceu.<br \/>\nEm 1801 as forma\u00e7\u00f5es milicianas com negros s\u00e3o regulamentadas, \u00e0s quais se denomina Companhias de Granadeiros de Pardos e Morenos. Quando em 1806 acontece a primeira Invas\u00e3o Inglesa em Buenos Aires encontramos a participa\u00e7\u00e3o do negro na defesa da cidade.<br \/>\nEntre 1806 e 1870 a comunidade negra teve participa\u00e7\u00e3o em absolutamente todos os conflitos b\u00e9licos que se desenvolveram, isto foi uma raz\u00e3o muito importante para o descenso populacional negro (que sob nenhum ponto de vista autoriza falar em desaparecimento). S\u00f3 para dar um exemplo, entre 1816 e 1823 dos 2500 soldados negros que iniciaram o cruzamento dos Andes foram repatriados com vida 143. (3)<br \/>\nEm seguida vieram a guerra contra o Brasil, as guerras civis entre unit\u00e1rios e federalistas, as batalhas de Caseros, Cepeda e Pav\u00f3n. Por \u00faltimo a guerra contra o Paraguai, a qual determinar\u00e1 por longo per\u00edodo, o sofrimento do homem negro.<br \/>\nEra normal ver os negros sobreviventes pelas ruas de Buenos Aires mendigando com seus membros mutilados.<br \/>\n<strong>A m\u00e3e da p\u00e1tria:<\/strong><br \/>\nA figura mais representativa dos afro-argentinos \u00e9 Mar\u00eda Remedios del Valle, n\u00e3o s\u00f3 por sua condi\u00e7\u00e3o de negra e mulher, como tamb\u00e9m por ser a \u00fanica mulher reconhecida nas batalhas pela independ\u00eancia, por isso \u00e9 considerada a \u201cm\u00e3e da p\u00e1tria\u201d.<br \/>\nMar\u00eda foi auxiliar volunt\u00e1ria na primeira expedi\u00e7\u00e3o auxiliadora ao Alto Peru, que depois seria conhecida como Ex\u00e9rcito do Norte em 1810. Nesta expedi\u00e7\u00e3o perdeu seu marido e seus 2 filhos.<br \/>\nContinuou servindo como auxiliar durante o bem sucedido avan\u00e7o sobre o Alto Peru na derrota de Hualqui e na batalha de Tucum\u00e1n onde esteve na primeira linha e os soldados a batizaram de \u201ca m\u00e3e da p\u00e1tria\u201d, depois do triunfo, Belgrano a nomeou capit\u00e3 do ex\u00e9rcito.<br \/>\nEm 1813 na batalha de Ayohuma, onde os patriotas foram derrotados pelos realistas, Mar\u00eda foi ferida de bala e a\u00e7oitada durante 9 dias em pra\u00e7a p\u00fablica, conseguiu escapar e voltar ao ex\u00e9rcito.<br \/>\nFinalizada a guerra regressou a Buenos Aires, onde se viu obrigada a viver de esmolas. Em v\u00e1rias oportunidades solicitou uma pens\u00e3o ao congresso e foi negada.\u00a0 Teve que esperar at\u00e9 1828 para que lhe concedessem uma m\u00edsera pens\u00e3o de 30 pesos mensais.<br \/>\n<strong>A invisibiliza\u00e7\u00e3o dos negros como pol\u00edtica de Estado <\/strong><br \/>\nA ideia da p\u00e1tria branca, civilizada e europeia separada do resto da Am\u00e9rica Latina foi uma pol\u00edtica de Estado, partindo da pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o Nacional em seu artigo 25: \u201cO Governo federal fomentar\u00e1 a imigra\u00e7\u00e3o europeia; e n\u00e3o poder\u00e1 restringir, limitar nem taxar com imposto algum a entrada no territ\u00f3rio argentino dos estrangeiros que tragam por objeto lavrar a terra, melhorar as ind\u00fastrias, e introduzir e ensinar as ci\u00eancias e as artes\u201d.<br \/>\nEsta pol\u00edtica foi aprofundada pelos governos de Mitre e Sarmiento, este \u00faltimo abertamente racista, fomentava a elimina\u00e7\u00e3o dos <em>gauchos<\/em> \u00edndios e negros da Argentina para assim construir uma sociedade euroc\u00eantrica e civilizada. Para esta pol\u00edtica eliminaram dos censos a comunidade afrodescendente e ind\u00edgena, recentemente no censo de 2010 voltaram a ser incorporados.<br \/>\n<strong>Lutar pelo reconhecimento e contra a invisibiliza\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nAt\u00e9 o dia de hoje perdura a ideia de que a Argentina foi constru\u00edda a partir da imigra\u00e7\u00e3o europeia, isso se expressa na n\u00e3o exist\u00eancia de espa\u00e7os em nenhum \u00e2mbito para a comunidade afrodescendente e dos povos origin\u00e1rios.<br \/>\nA luta contra a invisibiliza\u00e7\u00e3o e o reconhecimento das minorias \u00e9 uma tarefa dos trabalhadores, da juventude e das mulheres contra todo tipo de opress\u00e3o, para assim construir uma segunda e definitiva Independ\u00eancia.<br \/>\nNotas:<br \/>\n# Comida t\u00edpica argentina elaborado \u00e0 base de milho (ndt)<br \/>\n1-\u00a0Dados obtidos de COMADR\u00c1N RUIZ, Jorge, Evoluci\u00f3n demogr\u00e1fica argentina durante el per\u00edodo hispano (1535-1810), Buenos Aires, EUDEBA, 1965.<br \/>\n2-\u00a0JOHNSON, Lyman, Los talleres de la revoluci\u00f3n. La Buenos Aires plebeya y el mundo atl\u00e1ntico, 1776-1810, Buenos Aires, Prometeo, 2013. p\u00e1gs. 66-80<br \/>\n3-\u00a0Miriam Victoria Gomes, Los negros\u2013africanos en la historia argentina<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem d\u00favida a independ\u00eancia argentina da coroa espanhola foi o fato mais importante de nosso pa\u00eds. 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