{"id":61078,"date":"2020-07-20T10:20:11","date_gmt":"2020-07-20T12:20:11","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=61078"},"modified":"2023-11-26T12:49:43","modified_gmt":"2023-11-26T12:49:43","slug":"notas-sobre-o-processo-de-colonizacao-europeia-nos-atuais-estados-unidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/07\/20\/notas-sobre-o-processo-de-colonizacao-europeia-nos-atuais-estados-unidos\/","title":{"rendered":"Notas sobre o processo de coloniza\u00e7\u00e3o europeia nos atuais Estados Unidos"},"content":{"rendered":"<p><em>Como foi poss\u00edvel que um territ\u00f3rio que, h\u00e1 menos de 250 anos, estava submetido ao jugo colonizador de uma pot\u00eancia estrangeira &#8211; a Coroa Brit\u00e2nica &#8211; n\u00e3o apenas se desenvolvesse ao ponto de ultrapassar sua antiga metr\u00f3pole, mas tamb\u00e9m se transformasse \u2013 h\u00e1 pouco menos de um s\u00e9culo &#8211; no imperialismo hegem\u00f4nico do planeta?<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Daniel Sugasti<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma das muitas perguntas que o estudo da hist\u00f3ria extraordin\u00e1ria dos atuais Estados Unidos da Am\u00e9rica imp\u00f5e. Na Am\u00e9rica hisp\u00e2nica, por exemplo, existe um mito de que os Estados Unidos se tornaram uma pot\u00eancia mundial porque foram colonizados por engenhosos anglo-sax\u00f5es que deixaram marcas n\u00e3o apenas da suposta superioridade racial, mas tamb\u00e9m de uma mentalidade mais ambiciosa e avan\u00e7ada em rela\u00e7\u00e3o aos h\u00e1bitos de trabalho.<br \/>\nOs ingleses, de acordo com essa cren\u00e7a, teriam promovido um modelo de coloniza\u00e7\u00e3o muito mais &#8220;capitalista&#8221; do que seus pares ib\u00e9ricos, que se limitaram a sugar todos os recursos que puderam enquanto &#8220;transplantavam&#8221; o feudalismo europeu nessas latitudes. Consequentemente, o atraso latino-americano seria o produto dessa &#8220;heran\u00e7a feudal&#8221;.<br \/>\nUm companheiro me comentou que em certa ocasi\u00e3o uma pessoa lamentava o fato de que os hispanoamericanos n\u00e3o tivessem sido colonizados pelos ingleses: &#8220;nossos pa\u00edses seriam poderosos como os Estados Unidos&#8230;&#8221;, argumentava amargamente. Meu amigo perspicaz respondeu que, se o problema se resumisse ao trabalho &#8220;civilizador&#8221; dos brit\u00e2nicos, tamb\u00e9m teria a possibilidade de sermos o espelho da \u00cdndia&#8230;<br \/>\nA interpreta\u00e7\u00e3o que exalta a &#8220;superioridade&#8221; da coloniza\u00e7\u00e3o anglo-sax\u00f4nica tem suas ra\u00edzes nas correntes historiogr\u00e1ficas liberais \u2013 mesmo que tenha sido posteriormente assumida pelos expoentes do stalinismo e suas variantes. Embora seja uma leitura superficial e, portanto, simplificadora, repousa sobre certos elementos verdadeiros. O primeiro \u00e9 que, efetivamente, a partir do processo de descoloniza\u00e7\u00e3o americano, os Estados Unidos emergiram como pot\u00eancia econ\u00f4mica e militar e o restante das Am\u00e9ricas permaneceu em uma condi\u00e7\u00e3o semicolonial.<br \/>\nO segundo tem a ver com as diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao tipo de colonos e ao padr\u00e3o de coloniza\u00e7\u00e3o entre o norte e o sul das Am\u00e9ricas. Os primeiros colonos ingleses na Am\u00e9rica do Norte &#8211; se tomarmos o exemplo cl\u00e1ssico dos &#8220;Padres Peregrinos&#8221; &#8211; constitu\u00edam um setor social perseguido pela monarquia absolutista anglicana devido ao dogma religioso que professavam: o calvinismo. Eram conservadores em todas as \u00e1reas, mas movidos pelo desejo de encontrar um lugar no mundo em meio \u00e0 repress\u00e3o e ao tumultuado ambiente pol\u00edtico na Inglaterra e em toda a Europa durante o s\u00e9culo XVII. Isso fez com que estes colonos &#8211; que haviam fugido da Europa &#8211; almejassem a se estabelecer do outro lado do Atl\u00e2ntico, de acordo com suas cren\u00e7as e costumes.<br \/>\nO caso dos conquistadores ib\u00e9ricos foi diferente. N\u00e3o constitu\u00edam nenhum setor perseguido, mas sim, estimulados a embarcar rumo \u00e0 conquista do Novo Mundo. Em termos gerais, \u00e9 correto afirmar que n\u00e3o pretendiam se estabelecer nos territ\u00f3rios conquistados &#8211; embora muitos evidentemente o fizeram -, mas enriquecer-se o mais r\u00e1pido e abundantemente poss\u00edvel para retornar \u00e0 metr\u00f3pole. O ideal para a maioria dos conquistadores ib\u00e9ricos era ascender socialmente em sua terra de origem.<br \/>\nEssas diferen\u00e7as subjetivas em rela\u00e7\u00e3o ao tipo de colonos no norte e no sul das Am\u00e9ricas foram importantes, ainda que, como veremos, tenham uma explica\u00e7\u00e3o objetiva.<br \/>\n\u00c9 essencial entender, antes de aprofundar o assunto, que se os Estados Unidos atingiram o grau de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas que possuem atualmente, n\u00e3o foi devido ao trabalho de sua antiga metr\u00f3pole, mas a um fato de sinal oposto.<br \/>\nA base sobre a qual os EUA foram constru\u00eddos est\u00e1 na maneira como o pa\u00eds quebrou as correntes que mantinham as treze col\u00f4nias a Londres. A conhecida Guerra da Independ\u00eancia (1775-1783) foi o primeiro e decisivo passo em um processo revolucion\u00e1rio que permitiu uma liberta\u00e7\u00e3o colossal de for\u00e7as produtivas, que possibilitou n\u00e3o apenas a pr\u00f3pria exist\u00eancia dos Estados Unidos, mas tamb\u00e9m que esse pa\u00eds desse um salto para alcan\u00e7ar o auge da domina\u00e7\u00e3o mundial. Mas esse \u00e9 um t\u00f3pico que merece ser tratado com cuidado, ent\u00e3o o deixaremos para outra ocasi\u00e3o.<br \/>\nOs primeiros europeus a conquistar partes da Am\u00e9rica do Norte foram espanh\u00f3is. Fundaram a Fl\u00f3rida em 1513 e, atrav\u00e9s de sucessivas expedi\u00e7\u00f5es, tomaram posse do oeste, at\u00e9 o Alasca. O Tratado de Paris &#8211; que selou o fim da Guerra dos Sete Anos &#8211; concedeu ao reino espanhol a Louisiana &#8211; ent\u00e3o sob o dom\u00ednio franc\u00eas &#8211; em 1763 [1].<br \/>\nA coloniza\u00e7\u00e3o inglesa come\u00e7aria quase um s\u00e9culo depois da empreendida pelos espanh\u00f3is. A expedi\u00e7\u00e3o que resultou na funda\u00e7\u00e3o de Jamestown (Virg\u00ednia) em 1607 fazia parte de um plano de coloniza\u00e7\u00e3o com o objetivo de explorar a \u00e1rea com planta\u00e7\u00f5es de tabaco. O projeto foi financiado por uma empresa chamada Compania de Virginia. Os primeiros puritanos de quem falamos anteriormente chegariam em 1620 a bordo do famoso navio chamado Mayflower para colonizar a regi\u00e3o nordeste (Nova Inglaterra). A expans\u00e3o desses colonos foi relativamente r\u00e1pida em uma faixa de territ\u00f3rio ao longo da costa atl\u00e2ntica, o que resultaria nas treze col\u00f4nias existentes no s\u00e9culo 18, de New Hampshire, no norte, at\u00e9 a Ge\u00f3rgia, no sul. A conquista de outros territ\u00f3rios, agora estadunidenses, foi ap\u00f3s a independ\u00eancia.<br \/>\nEm 1803, Napole\u00e3o Bonaparte, ent\u00e3o primeiro c\u00f4nsul franc\u00eas, vendeu a Louisiana para os EUA [2]. Em 1819, o monarca hisp\u00e2nico Fernando VII fez o mesmo com a Fl\u00f3rida, expandindo ainda mais o dom\u00ednio de Washington. Em 1867, adquiriram o Alasca do Imp\u00e9rio Russo. A expans\u00e3o para o oeste se realizou de maneira brutal. A doutrina do <em>Destino Manifesto<\/em> [3] guiou a pr\u00f3spera burguesia estadunidense n\u00e3o apenas a cometer todo tipo de atrocidades contra as comunidades ind\u00edgenas, mas, sobretudo, a travar uma guerra de agress\u00e3o contra o M\u00e9xico (1846-1848), que resultou em uma expans\u00e3o de 25% do territ\u00f3rio dos EUA como consequ\u00eancia da anexa\u00e7\u00e3o de aproximadamente metade do solo mexicano.<br \/>\nComo dissemos, \u00e9 fato que as treze col\u00f4nias apresentaram caracter\u00edsticas diferentes daquelas dos territ\u00f3rios conquistados pelos ib\u00e9ricos ou mesmo por outros ingleses, por exemplo, nas Antilhas. N\u00e3o foram desenvolvidos com base na mera extra\u00e7\u00e3o de metais preciosos, mas na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola destinada principalmente \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o para a metr\u00f3pole. Isso contribuiu para que os colonos concebessem o territ\u00f3rio conquistado como um estabelecimento mais permanente.<br \/>\nTamb\u00e9m \u00e9 verdade que, no contexto das treze col\u00f4nias brit\u00e2nicas, as do norte se especializaram na pequena agricultura (agricultores), al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o artesanal e, posteriormente, manufatura. A din\u00e2mica desse modelo estimulou a cria\u00e7\u00e3o de um mercado interno e, em longo prazo, tenderia a favorecer o trabalho \u201clivre\u201d. Este seria o terreno f\u00e9rtil para uma burguesia com seus pr\u00f3prios interesses. Disposta a levar tudo adiante, seria a vanguarda da luta pela independ\u00eancia e, quase um s\u00e9culo depois, da aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o. Por seu lado, as col\u00f4nias do sul se especializaram em extensas culturas (planta\u00e7\u00f5es), especialmente tabaco e algod\u00e3o, orientadas quase exclusivamente ao com\u00e9rcio exterior e apoiadas no trabalho de africanos escravizados.<br \/>\nPortanto, se no total as treze col\u00f4nias nasceram como engrenagens do mercado capitalista mundial, em escala local uma divis\u00e3o estava surgindo na burguesia nativa em torno de qual modelo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista deveria ser adotado. O duelo entre os dois projetos estrat\u00e9gicos da na\u00e7\u00e3o s\u00f3 seria resolvido ap\u00f3s a conhecida Guerra Civil (1861-1865).<br \/>\nMas as peculiaridades do norte dos Estados Unidos com rela\u00e7\u00e3o ao sul e ao resto do continente n\u00e3o podem ser explicadas com teorias racistas ou com foco na influ\u00eancia da ideologia calvinista nesse processo de modelagem nacional. Se os colonos puritanos n\u00e3o se dedicaram \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de metais preciosos &#8211; como os espanh\u00f3is, por exemplo, em Potos\u00ed &#8211; ou em planta\u00e7\u00f5es de exporta\u00e7\u00e3o em larga escala, como fizeram seus compatriotas do sul &#8211; tamb\u00e9m usando m\u00e3o de obra escrava importada da \u00c1frica &#8211; n\u00e3o foi porque eles n\u00e3o quiseram, mas porque n\u00e3o encontraram as condi\u00e7\u00f5es certas para isso.<br \/>\nO historiador marxista Milc\u00edades Pe\u00f1a apontou corretamente que a diferen\u00e7a fundamental entre os diferentes desenvolvimentos hist\u00f3ricos &#8211; no norte e no sul do continente &#8211; residia nas condi\u00e7\u00f5es objetivas em que a coloniza\u00e7\u00e3o se baseava. A principal diferen\u00e7a n\u00e3o era racial ou &#8220;espiritual&#8221;, mas de &#8220;clima, terreno, disponibilidade de m\u00e3o de obra&#8221; [4].<br \/>\nJunto com o dirigente trotskista Nahuel Moreno, Pe\u00f1a polemizava com intelectuais stalinistas que, para refor\u00e7ar a tese bem conhecida da coloniza\u00e7\u00e3o &#8220;feudal&#8221; na Am\u00e9rica Latina e justificar suas consequ\u00eancias pol\u00edticas no s\u00e9culo 20, reverenciavam o processo hist\u00f3rico da Am\u00e9rica do Norte como &#8220;capitalista&#8221; quase em estado puro.<br \/>\nOs marxistas respondiam que toda a Am\u00e9rica havia sido colonizada no contexto de conforma\u00e7\u00e3o do mercado capitalista mundial (n\u00e3o apenas o norte do continente), isto \u00e9, que a &#8220;ess\u00eancia&#8221; ou &#8220;sentido&#8221; dessa empresa era burguesa, apesar do fato de que a produ\u00e7\u00e3o orientada para o mercado internacional se materializar\u00e1 apelando a uma combina\u00e7\u00e3o complexa de formas de produ\u00e7\u00e3o pr\u00e9-capitalistas (encomendas ou outras variantes de servid\u00e3o, escravid\u00e3o ind\u00edgena e africana etc.) e embri\u00f5es de trabalho &#8220;livre&#8221;.<br \/>\nPe\u00f1a explica que no norte, do que \u00e9 hoje os Estados Unidos, as terras eram \u00e1ridas e s\u00f3 podiam ser exploradas em pequena escala; n\u00e3o havia abundante m\u00e3o de obra ind\u00edgena dispon\u00edvel, ent\u00e3o os colonos puritanos ingleses &#8211; que chegaram com uma mentalidade bastante feudal e procurando terras para subsistir &#8211; tiveram que sobreviver de seu trabalho como agricultores. Devido ao tipo de terreno e escassez de m\u00e3o de obra, tornou-se imposs\u00edvel desenvolver uma economia de planta\u00e7\u00e3o como era poss\u00edvel no sul. Por outro lado, no sul das possess\u00f5es brit\u00e2nicas na Am\u00e9rica, o clima e o influxo de tabaco determinavam que a terra n\u00e3o fosse cultivada por pequenos agricultores, mas em grandes \u00e1reas trabalhadas por trabalho escravo e servil [5].<br \/>\nDeve-se entender que, em todos os casos, os colonos europeus buscavam metais preciosos ou as mat\u00e9rias-primas exigidas pelo mercado mundial. A diferen\u00e7a objetiva foi que no norte dos Estados Unidos n\u00e3o havia metais preciosos ou povos ind\u00edgenas que pudessem ser facilmente subjugados. N\u00e3o havia muito que pudesse ser \u201cparasitado\u201d e isso criou as condi\u00e7\u00f5es para uma economia baseada em uma classe de m\u00e9dios e pequenos agricultores que produziam por meio do trabalho familiar, trocavam entre si e com artes\u00e3os e colocavam o excedente no mercado externo. Foi assim que foram constru\u00eddas as ra\u00edzes para um grande mercado interno.<br \/>\nEssa realidade \u00e9 oposta a encontrada pelos colonos ingleses no sul ou pelos ib\u00e9ricos no resto da Am\u00e9rica, que se estabeleceram em terras mais f\u00e9rteis ou exploraram minas de metais preciosos, sujeitando milh\u00f5es de ind\u00edgenas ou negros africanos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de servos ou escravos: uma massa de trabalho t\u00e3o imensa e relativamente &#8220;f\u00e1cil&#8221; de repor que aos colonizadores n\u00e3o importava que fossem &#8220;mo\u00eddos&#8221; nas usinas de a\u00e7\u00facar ou apodrecessem nas minas.<br \/>\nEm lugares como o Rio da Prata, os colonizadores europeus e a burguesia local embrion\u00e1ria, encontraram condi\u00e7\u00f5es t\u00e3o favor\u00e1veis \u200b\u200bao gado que praticamente era suficiente sentar e contemplar como as vacas engordavam e depois exportar os couros (a princ\u00edpio n\u00e3o transformados) ou o charque (carne salgada) na regi\u00e3o ou ao outro lado do Atl\u00e2ntico, conformando um modelo que Pe\u00f1a chamou ironicamente de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o do couro\u201d. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender, pelo menos grosso modo, que aqueles setores burgueses n\u00e3o tinham muitos motivos para se interessar pelo fortalecimento de um mercado interno ou em cultivar ambi\u00e7\u00f5es manufatureiras.<br \/>\nMas a verdade \u00e9 que, se os colonos \u201cindustriosos\u201d do norte tivessem encontrado metais preciosos ou melhores condi\u00e7\u00f5es para subjugar a for\u00e7a de trabalho local para extrair o excedente social, teriam se comportado como os colonos do sul e os ib\u00e9ricos no resto das Am\u00e9ricas.<br \/>\nNahuel Moreno abordou o problema de uma maneira mais complexa, apontando um paradoxo hist\u00f3rico digno de nota. Ele argumentou que o projeto de coloniza\u00e7\u00e3o original do noroeste dos EUA se fez com uma mentalidade feudal, isto \u00e9, trabalhar a terra no contexto de uma economia que, em primeiro lugar, pretendia que os colonos fossem autossuficientes, sem pretender muita conex\u00e3o com os com\u00e9rcio internacional. Nesse sentido, apesar das tentativas de recriar certas rela\u00e7\u00f5es feudais desenvolvidas pelos primeiros colonos, n\u00e3o foi poss\u00edvel cristalizar uma &#8220;classe de latifundi\u00e1rios feudais&#8221;, dado o excesso de terra e a escassez de &#8220;servos&#8221;. Havia tanta terra dispon\u00edvel que era dif\u00edcil sujeitar os trabalhadores a ela, pois sempre havia a possibilidade de migrar para o oeste e estabelecer uma propriedade, \u00e9 l\u00f3gico, com todos os riscos que isso implicava.<br \/>\nO resultado: <em>\u201co sul dos Estados Unidos e a Am\u00e9rica Latina foram colonizados de maneira capitalista [produ\u00e7\u00e3o em larga escala destinada ao com\u00e9rcio mundial, DS], mas sem dar origem a rela\u00e7\u00f5es capitalistas e que o norte dos Estados Unidos foi colonizado de maneira feudal (camponeses que estavam procurando terra e nada mais que terra para autossufici\u00eancia), mas sem rela\u00e7\u00f5es feudais \u201d<\/em>[6].<br \/>\nO historiador trotskista americano George Novack analisou a situa\u00e7\u00e3o antes da revolu\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia, enfatizando que, apesar da coexist\u00eancia de v\u00e1rias formas de produ\u00e7\u00e3o nas col\u00f4nias norteamericanas, o elemento burgu\u00eas havia se fortalecido a galope pela expans\u00e3o do com\u00e9rcio mundial, que ditava a din\u00e2mica \u00e0 qual as formas pr\u00e9-capitalistas de produ\u00e7\u00e3o foram se submetendo gradualmente. A burguesia nativa bateu \u00e0s portas da hist\u00f3ria e exigiu sua entrada.<br \/>\nComo mencionamos, nenhuma tentativa de &#8220;reimplantar&#8221; as institui\u00e7\u00f5es do feudalismo, a rigor, foi bem-sucedida. Por mais que certos setores de propriet\u00e1rios de terras se empenhassem nessa tarefa, simplesmente &#8220;n\u00e3o podiam trazer para aquela parte do novo mundo todo o contexto hist\u00f3rico e as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que floresceram na Idade M\u00e9dia em favor do feudalismo na Europa Ocidental&#8221; [7.]<br \/>\nO mesmo ocorreu com as tentativas de recriar agrupa\u00e7\u00f5es fechadas de caracter\u00edsticas medievais. Nenhuma casta fixa cristalizou nas cidades portu\u00e1rias mais importantes do Atl\u00e2ntico Norte (Filad\u00e9lfia, Nova York, Boston e Charleston&#8230;). Essas cidades, ainda com uma popula\u00e7\u00e3o relativamente pequena, foram atravessadas por atividades comerciais fren\u00e9ticas que as ligavam a regi\u00f5es mais distantes. Como escreveu Hobsbawm, no final do s\u00e9culo XVIII, &#8220;estar perto de um porto era estar perto do mundo&#8221; [8]. Nesse ambiente, n\u00e3o apenas os agricultores, mas tamb\u00e9m os artes\u00e3os de todos os tipos prosperaram de maneira relativamente livre.<br \/>\nNa segunda metade do s\u00e9culo XVIII, as condi\u00e7\u00f5es para a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa anticolonial poderiam ser consideradas maduras. O grau de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, especialmente no norte das chamadas treze col\u00f4nias, tinham atingido um n\u00edvel que exigia a liberta\u00e7\u00e3o da camisa de for\u00e7a colonial imposta pela monarquia brit\u00e2nica. Existia uma jovem burguesia local pronta para destruir qualquer obst\u00e1culo para expandir seus pr\u00f3prios neg\u00f3cios. Uma burguesia que j\u00e1 se mostrava insaci\u00e1vel, talvez porque sabia que estava sentada em um enorme potencial econ\u00f4mico.<br \/>\nUma combina\u00e7\u00e3o desse desenvolvimento interno com fatos externos geraria condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis \u200b\u200bpara detonar uma das revolu\u00e7\u00f5es burguesas mais emblem\u00e1ticas da hist\u00f3ria, que abriu as comportas para o crescimento de um capitalismo nacional, como em poucas partes do mundo.<br \/>\nNotas:<br \/>\n[1] A Espanha tamb\u00e9m recuperou o porto de Havana e Manila (Filipinas), que haviam sido ocupadas pela Gr\u00e3-Bretanha.<br \/>\n[2] Isso corresponde a 23% do atual territ\u00f3rio dos EUA. A Fran\u00e7a recuperou este territ\u00f3rio das m\u00e3os dos espanh\u00f3is em 1800, por meio do Tratado de San Ildefonso, selado no contexto das Guerras Napole\u00f4nicas.<br \/>\n[3] A doutrina do Destino Manifesto foi uma &#8220;id\u00e9ia forte&#8221; que expressava a cren\u00e7a de que os Estados Unidos da Am\u00e9rica estavam destinados a se expandir do litoral do Atl\u00e2ntico at\u00e9 o Pac\u00edfico.<br \/>\n<a name=\"_ftn4\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/apuntes-sobre-el-proceso-de-colonizacion-europea-en-los-actuales-estados-unidos\/#_ftnref4\">[4]<\/a>\u00a0PE\u00d1A, Milc\u00edades.\u00a0<em>Historia del pueblo argentino<\/em>. Buenos Aires: Emec\u00e9, 2012, p. 73.<br \/>\n<a name=\"_ftn5\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/apuntes-sobre-el-proceso-de-colonizacion-europea-en-los-actuales-estados-unidos\/#_ftnref5\">[5]<\/a>\u00a0Ib\u00eddem.<br \/>\n<a name=\"_ftn6\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/apuntes-sobre-el-proceso-de-colonizacion-europea-en-los-actuales-estados-unidos\/#_ftnref6\">[6]<\/a>\u00a0MORENO, Nahuel [1948].\u00a0<em>Cuatro tesis sobre la colonizaci\u00f3n espa\u00f1ola y portuguesa en Am\u00e9rica.\u00a0<\/em>Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/obras\/01_nm.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/obras\/01_nm.htm<\/a>\u00a0&gt;, consultado em 02\/07\/2020.<br \/>\n<a name=\"_ftn7\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/apuntes-sobre-el-proceso-de-colonizacion-europea-en-los-actuales-estados-unidos\/#_ftnref7\">[7]<\/a>\u00a0NOVACK, George.\u00a0<em>Cinco siglos de revoluci\u00f3n<\/em>. Dos eras de revoluciones sociales. M\u00e9xico: Ediciones Un\u00edos, 2000, p. 85.<br \/>\n<a name=\"_ftn8\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/apuntes-sobre-el-proceso-de-colonizacion-europea-en-los-actuales-estados-unidos\/#_ftnref8\">[8]<\/a>\u00a0HOBSBAWM, Eric [1977].\u00a0<em>A era das revolu\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0[1789-1848]. 32\u00aa. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013, p. 31.<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Nea Vieira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como foi poss\u00edvel que um territ\u00f3rio que, h\u00e1 menos de 250 anos, estava submetido ao jugo colonizador de uma pot\u00eancia estrangeira &#8211; a Coroa Brit\u00e2nica &#8211; n\u00e3o apenas se desenvolvesse ao ponto de ultrapassar sua antiga metr\u00f3pole, mas tamb\u00e9m se transformasse \u2013 h\u00e1 pouco menos de um s\u00e9culo &#8211; no imperialismo hegem\u00f4nico do planeta?<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":61079,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3519,8],"tags":[5614,114,5615],"class_list":["post-61078","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-eua","category-historia","tag-colonizacao-eua","tag-daniel-sugasti","tag-historia-eua"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/youre-hired-net.jpg","categories_names":["Estados Unidos","Hist\u00f3ria"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61078","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61078"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61078\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":78069,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61078\/revisions\/78069"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61079"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61078"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61078"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61078"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}