{"id":60918,"date":"2020-11-20T12:00:00","date_gmt":"2020-11-20T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=60918"},"modified":"2020-11-20T12:00:00","modified_gmt":"2020-11-20T15:00:00","slug":"o-machismo-nas-organizacoes-de-esquerda-e-no-movimento-operario-uma-perspectiva-de-classe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/11\/20\/o-machismo-nas-organizacoes-de-esquerda-e-no-movimento-operario-uma-perspectiva-de-classe\/","title":{"rendered":"O machismo nas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda e no movimento oper\u00e1rio. Uma perspectiva de classe"},"content":{"rendered":"<p><em>Desde <\/em><em>o ano passado h\u00e1 uma campanha de den\u00fancias de ass\u00e9dio e abuso sexual em<\/em><em> diferentes universidades <\/em><em>e organiza\u00e7\u00f5es, na qual membros<\/em><em> de <\/em><em>organiza\u00e7\u00f5es<\/em><em> pol\u00edticas de <\/em><em>esquerda estiveram envolvidos. O<\/em><em> m\u00e9todo que <\/em><em>foi usado tem<\/em><em> sido <\/em><em>o conhecido &#8220;<\/em><em>escrache<\/em><em>&#8220;.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\n<strong>Por: Comiss\u00e3o das Mulheres &#8211;<\/strong><strong> PST<\/strong><br \/>\nEscrevemos essas reflex\u00f5es sobre alguns pronunciamentos p\u00fablicos de coletivos feministas e de den\u00fancias, tamb\u00e9m p\u00fablicas, de equipes ou militantes e ex-militantes da JUCO &#8211; Juventude Comunista, contra militantes e quadros homens da mesma organiza\u00e7\u00e3o por casos de viol\u00eancia sexual.\u00a0 E, acolhendo o chamado de seu Comit\u00ea Central &#8220;\u00e0s organiza\u00e7\u00f5es sociais, de mulheres e feministas para que continuem unindo esfor\u00e7os para combater o patriarcado, o machismo e a viol\u00eancia de g\u00eanero&#8221;, expressamos nossas opini\u00f5es para contribuir para um debate que cada vez se faz mais urgente e importante dentro das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda e revolucion\u00e1rias porque p\u00f5e em quest\u00e3o a moral e os m\u00e9todos dos revolucion\u00e1rios, tanto dentro de nossas fileiras quanto diante dos movimentos dos explorados e oprimidos.<br \/>\nAs acusa\u00e7\u00f5es conhecidas pelas redes sociais contra pelo menos dois quadros da m\u00e1xima dire\u00e7\u00e3o da JUCO e outros dirigentes, s\u00e3o extremamente graves, pois reproduzem as pr\u00e1ticas machistas burguesas de usar posi\u00e7\u00f5es de poder para seduzir e violentar mulheres que est\u00e3o em posi\u00e7\u00f5es subordinadas. Essa \u00e9 uma das express\u00f5es mais comuns e naturalizadas dessa cultura burguesa machista e opressiva que \u00e9 reproduzida em inst\u00e2ncias pol\u00edticas, trabalhistas, estudantis, sindicais e populares.<br \/>\n<strong>Barb\u00e1rie<\/strong><strong> capitalista<\/strong><br \/>\nVivemos em uma sociedade decadente e podre. Hoje, em meio \u00e0 pandemia de coronav\u00edrus e isolamento social, os casos de viol\u00eancia de g\u00eanero de v\u00e1rios tipos se aprofundaram nas resid\u00eancias, e os feminic\u00eddios, j\u00e1 considerados anteriormente como uma pandemia, aumentaram. Na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, a m\u00e9dia di\u00e1ria de feminic\u00eddios \u00e9 de doze mulheres, ou seja, uma a cada duas horas. Um bilh\u00e3o de mulheres, ou uma em cada tr\u00eas do planeta, foi espancada, for\u00e7ada a ter rela\u00e7\u00f5es sexuais ou sujeita a algum tipo de abuso. S\u00f3 falando de viol\u00eancia, esses s\u00e3o os dados oficiais das Na\u00e7\u00f5es Unidas, a institui\u00e7\u00e3o de quem governa o planeta. Mas pode-se perguntar: quantos casos de viol\u00eancia contra mulheres permanecem no anonimato? Quantas humildes trabalhadoras assediadas por chefes s\u00e3o for\u00e7adas a ficar caladas para n\u00e3o perderem o emprego? Quantos casos de jovens que s\u00e3o for\u00e7adas a ser m\u00e3es, s\u00e3o deixadas de fora das estat\u00edsticas oficiais? Quantas morrem por abortos inseguros? O capitalismo decadente n\u00e3o apenas leva ao extremo a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores como um todo, mas usa a opress\u00e3o existente para aprofund\u00e1-la, empurrar e levar ao limite os setores oprimidos. Todas as opress\u00f5es, a das mulheres, a dos negros, a dos imigrantes e a de LGBTI t\u00eam sido historicamente e s\u00e3o hoje usadas para dividir os trabalhadores, para confrontar-se, subtrair sua for\u00e7a e unidade na luta. O melhor exemplo do que dizemos n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o o de Donald Trump, presidente da maior pot\u00eancia imperialista, com sua pol\u00edtica xenof\u00f3bica, machista e homof\u00f3bica.<br \/>\nEmbora o CC da Juco, em sua declara\u00e7\u00e3o de 2 de junho, reconhe\u00e7a a grave situa\u00e7\u00e3o interna e rejeite todos os atos de viol\u00eancia de g\u00eanero por militantes e ex-militantes e prometa um tratamento contundente para os agressores, bem como a suspens\u00e3o da responsabilidades e fun\u00e7\u00f5es de Secret\u00e1rio Geral da Juco de Johnny Mar\u00edn, uma declara\u00e7\u00e3o das mulheres militantes da regi\u00e3o Hernando Gonzales Acosta JUCO-Bogot\u00e1, denuncia que diante disso, em 5 de junho, Mar\u00edn interp\u00f5em uma a\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o contra as denunciantes por viola\u00e7\u00e3o de seus direitos fundamentais, ao seu bom nome, honra e privacidade. Concordamos com elas no recha\u00e7o que fazem desse m\u00e9todo e parece-nos errado que ele continue atuando nas redes sociais como secret\u00e1rio-geral de Juco, porque, embora em v\u00e1rios comunicados a JUCO afirme t\u00ea-lo retirado dessa fun\u00e7\u00e3o, nas redes sociais ele continua se identificando como tal e agindo como tal.<br \/>\nComo militantes de uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que luta contra a explora\u00e7\u00e3o capitalista e contra todo tipo de opress\u00e3o baseada em ra\u00e7a, sexo, origem ou classe, n\u00e3o podemos deixar de nos fazer algumas perguntas para ratificar nossa pr\u00e1tica e nossos princ\u00edpios.<br \/>\n<strong>Como uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e seus<\/strong><strong> militantes<\/strong><strong> agem?<\/strong><br \/>\nConcordamos com organiza\u00e7\u00f5es feministas e grupos militantes que se declararam em apoio \u00e0s mulheres que denunciaram os abusos, pois n\u00f3s, mulheres, n\u00e3o podemos permanecer caladas diante desses fatos, nem supostamente deix\u00e1-los passar pelo bem da organiza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSer de esquerda, militante e apoiar a luta contra o machismo n\u00e3o garante que voc\u00ea n\u00e3o possa cometer atos machistas. Um partido \u00e9 revolucion\u00e1rio n\u00e3o porque n\u00e3o registra casos de machismo em suas fileiras, porque isso \u00e9 inerente \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o da sociedade capitalista imperialista que nos penetra. Ser\u00e1 revolucion\u00e1rio como reage aos atos machistas, como combate o machismo em suas fileiras, como educa e prepara sua milit\u00e2ncia e a classe trabalhadora para essa batalha. E seus militantes homens ser\u00e3o revolucion\u00e1rios se reconhecerem, entenderem e cumprirem as san\u00e7\u00f5es que merecem seus comportamentos machistas e lutarem consistentemente para erradic\u00e1-los da organiza\u00e7\u00e3o e da classe. Se os mecanismos internos para enfrentar esses problemas n\u00e3o funcionam, como dizem as companheiras da regional de Bogot\u00e1, ou n\u00e3o existem, ent\u00e3o as mulheres v\u00edtimas de abuso ou qualquer comportamento machista s\u00e3o for\u00e7adas a usar a den\u00fancia p\u00fablica.<br \/>\nMas n\u00e3o acreditamos que o escrache seja um mecanismo ou ferramenta leg\u00edtima e revolucion\u00e1ria, nem que deva ser reivindicado como o m\u00e9todo privilegiado de combater o machismo em nossas organiza\u00e7\u00f5es. \u00c9 poss\u00edvel que mulheres violentadas que n\u00e3o perten\u00e7am a nenhuma organiza\u00e7\u00e3o ou que em seu ambiente social n\u00e3o exista mecanismo de reclama\u00e7\u00e3o, sejam for\u00e7adas a denunciar seu agressor por meio de redes sociais, isso tamb\u00e9m pode ser v\u00e1lido quando o agressor \u00e9 burgu\u00eas, empregador , gerente ou mesmo professor sobre quem as queixas foram feitas sem que ningu\u00e9m fizesse nada. Mas esse mecanismo n\u00e3o pode se tornar a forma privilegiada de luta dos movimentos feministas e de mulheres, menos ainda se ambos pertencerem a uma organiza\u00e7\u00e3o que se diz revolucion\u00e1ria.<br \/>\nAssumimos que a consigna de acreditar na palavra das mulheres significa levar a s\u00e9rio e investigar qualquer den\u00fancia, mas n\u00e3o implica imediatamente a culpabilidade do acusado. Infelizmente, e n\u00e3o afirmamos que neste caso da JUCO seja assim, esse tipo de acusa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se usa como arma pol\u00edtica para destruir moralmente um militante ou mesmo uma organiza\u00e7\u00e3o. O escrache n\u00e3o tem um objetivo pedag\u00f3gico ou formativo, nem um objetivo reparador, e sim cumpre ao mesmo tempo uma fun\u00e7\u00e3o de den\u00fancia e san\u00e7\u00e3o; pode at\u00e9 destruir a vida e a carreira pol\u00edtica do acusado, que podem ter consequ\u00eancias devastadoras se forem mal administradas.<br \/>\nEm primeiro lugar, pertencemos a uma classe social, a classe trabalhadora, na qual evidentemente se expressam as ideias e a cultura da classe dominante, o que tamb\u00e9m desempenha um papel nefasto porque nos divide. Nossa luta \u00e9 educar e conquistar nossos companheiros de classe e de luta para o princ\u00edpio de que, se queremos mudar esse capitalismo podre, n\u00e3o podemos fazer parte de suas pr\u00e1ticas opressivas e que, como militantes e lutadores, merecemos o maior respeito. A revolu\u00e7\u00e3o socialista n\u00e3o pode ser feita apenas por mulheres, \u00e9 uma quest\u00e3o de classe contra classe e n\u00e3o de sexo contra sexo.<br \/>\n<strong>N\u00f3s revolucion\u00e1rios vamos \u00e0 justi\u00e7a<\/strong><strong> burguesa?<\/strong><br \/>\nSup\u00f5e-se que, se militamos em uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, deve haver, em primeiro lugar, a confian\u00e7a das mulheres para denunciar e, em segundo, organismos como a Comiss\u00e3o Moral &#8211; ou a que ocupa seu lugar &#8211; diante da qual se apresenta a den\u00fancia e os termos estatut\u00e1rios para investigar e dar o veredito, da mesma forma que deve haver mecanismos de apela\u00e7\u00e3o por qualquer um dos envolvidos. Se forem camaradas atacadas por um membro de uma organiza\u00e7\u00e3o \u00e0 qual ela n\u00e3o perten\u00e7a ou um companheiro de trabalho, estudo ou de luta, devem solicitar imediatamente a forma\u00e7\u00e3o de uma Comiss\u00e3o Independente do mais amplo espectro pol\u00edtico, com autoridade moral. para que investigue, a partir de seu local de luta e que suas resolu\u00e7\u00f5es sejam apresentadas, debatidas e aceitas pelas organiza\u00e7\u00f5es locais, contribuindo e acumulando, a partir da natureza tr\u00e1gica desse processo, para uma nova pr\u00e1tica entre os lutadores.<br \/>\nAssim que devemos atuar nos setores sociais aos quais pertencemos, porque n\u00e3o podemos confiar nas institui\u00e7\u00f5es de um regime e de um Estado que combatemos e que se baseiam em falsa moral, e sabemos que n\u00e3o poupar\u00e1 esfor\u00e7os para destruir organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias. No que diz respeito \u00e0 viol\u00eancia machista, a justi\u00e7a burguesa caracteriza-se n\u00e3o pela prote\u00e7\u00e3o das mulheres, mas pela mais completa impunidade, uma vez que quase 80% dos casos de queixas de mulheres nunca prosseguem nem se tomam medidas para proteg\u00ea-las.<br \/>\nComo \u00e9 poss\u00edvel que o m\u00e1ximo dirigente da JUCO, para salvar sua pele, v\u00e1 \u00e0 justi\u00e7a burguesa, \u00e0 justi\u00e7a de nossos inimigos de classe para resolver um conflito interno em uma organiza\u00e7\u00e3o que se reconhece marxista, leninista e socialista? Est\u00e1 \u00e9 a quest\u00e3o que mais se distancia do ponto de vista dos princ\u00edpios do marxismo leninismo. \u00c9 como se, diante de um problema entre companheiros de trabalho em uma f\u00e1brica e militantes do mesmo partido, um ou ambos chamassem o patr\u00e3o para resolv\u00ea-lo, em vez de ir para os respectivos sindicatos e inst\u00e2ncias pol\u00edticas de sua organiza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEmbora consideremos que o correto \u00e9 ir \u00e0s inst\u00e2ncias do partido e, na sua falta, a uma comiss\u00e3o independente, conforme explicado acima; \u00e9 compreens\u00edvel que a v\u00edtima decida recorrer \u00e0 justi\u00e7a burguesa se assim o considerar, especialmente se forem casos graves, como estupro, viol\u00eancia f\u00edsica etc. O que \u00e9 inadmiss\u00edvel \u00e9 que quem vai \u00e0 justi\u00e7a burguesa seja o acusado, isso nos parece francamente surpreendente.<br \/>\nIsso em primeiro lugar \u00e9 um problema de classe e n\u00e3o apenas de g\u00eanero, \u00e9 um problema de forma\u00e7\u00e3o e princ\u00edpios. Por acaso o companheiro acredita no culto \u00e0 personalidade h\u00e1 tanto tempo praticado em muitos partidos comunistas? O camarada acredita nos privil\u00e9gios burocr\u00e1ticos dos dirigentes? Pelo contr\u00e1rio, o marxismo nos ensina que os dirigentes devem ser os mais vigiados e exigidos, que encobrir-se ou encobrir um dirigente e com isso manchar a imagem da organiza\u00e7\u00e3o faz parte da degenera\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo e da moral dos revolucion\u00e1rios, o que coloca acima dos interesses da classe e dos oprimidos, o valor indiscut\u00edvel dos &#8220;chefes&#8221;. E, em nossa opini\u00e3o, o caso \u00e9 agravado porque duas pr\u00e1ticas absolutamente conden\u00e1veis \u200b\u200bse combinam: burocratismo e machismo. Vivemos em uma sociedade decadente e apodrecida e as press\u00f5es do machismo &#8220;naturalizado&#8221; afetam nossos camaradas. Diante disso, a verdade deve ser aceita, h\u00e1 que olhar de frente e aceitar as san\u00e7\u00f5es correspondentes. Essa moral e esse m\u00e9todo s\u00e3o totalmente opostos aos da justi\u00e7a burguesa baseada em falsos padr\u00f5es morais e na conveni\u00eancia de seus interesses de classe.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pode construir uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria saud\u00e1vel sem combater no interior de nossas fileiras e das organiza\u00e7\u00f5es sindicais dos trabalhadores, da juventude e populares todas as ideologias e pr\u00e1ticas da burguesia. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel construir uma organiza\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel minimizando e encobrindo os erros de nossos pr\u00f3prios camaradas.<br \/>\n\u00c9 essencial debater os mecanismos para enfrentar e combater a pandemia do machismo em todas as organiza\u00e7\u00f5es da classe oper\u00e1ria e dos trabalhadores. Num partido revolucion\u00e1rio, todos os militantes, devem ter os mesmos direitos e nos considerarmos iguais. Se esse princ\u00edpio n\u00e3o existe, n\u00e3o seremos capazes de combater as opress\u00f5es no presente, e muito menos construir uma sociedade diferente. O partido revolucion\u00e1rio \u00e9 um pren\u00fancio da sociedade que queremos construir e, portanto, n\u00e3o pode defender ou permitir privil\u00e9gios de qualquer tipo. Nossa luta \u00e9 por uma sociedade na qual sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres, como disse a revolucion\u00e1ria Rosa Luxemburgo.<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Alex Leme<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde o ano passado h\u00e1 uma campanha de den\u00fancias de ass\u00e9dio e abuso sexual em diferentes universidades e organiza\u00e7\u00f5es, na qual membros de organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de esquerda estiveram envolvidos. 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