{"id":60872,"date":"2020-07-06T10:26:13","date_gmt":"2020-07-06T12:26:13","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=60872"},"modified":"2020-07-06T10:26:13","modified_gmt":"2020-07-06T12:26:13","slug":"a-independencia-dos-estados-unidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/07\/06\/a-independencia-dos-estados-unidos\/","title":{"rendered":"A independ\u00eancia dos Estados Unidos"},"content":{"rendered":"<p><em>H\u00e1 244 anos, em 4 de julho de 1776, os representantes das 13 col\u00f4nias da Gr\u00e3 Bretanha na Am\u00e9rica do Norte, reunidos na cidade de Filad\u00e9lfia, votaram sua independ\u00eancia e a forma\u00e7\u00e3o de uma nova rep\u00fablica com um presidente e um parlamento pr\u00f3prios que seriam eleitos pelo sistema de voto popular. A nova rep\u00fablica adotou o nome de Estados Unidos da Am\u00e9rica.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Alejandro Iturbe<br \/>\nA declara\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia foi um ponto de inflex\u00e3o em um processo que durava mais de 10 anos. Para entender isso, \u00e9 necess\u00e1rio considerar as caracter\u00edsticas pr\u00f3prias da coloniza\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica nestes territ\u00f3rios.<br \/>\n<strong>A coloniza\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica<\/strong><br \/>\nA partir dos in\u00edcios do s\u00e9culo XVI, as principais pot\u00eancias da \u00e9poca iniciaram uma pol\u00edtica de constru\u00e7\u00e3o de imp\u00e9rios coloniais em territ\u00f3rios fora da Europa. Neste caminho, a coroa brit\u00e2nica estabeleceu sua primeira col\u00f4nia na Am\u00e9rica do Norte (at\u00e9 ent\u00e3o habitada por povos origin\u00e1rios em um est\u00e1gio de desenvolvimento comunista primitivo) em 1607 (Jamestown, Virginia). Essa coloniza\u00e7\u00e3o depois foi se expandindo rapidamente pela regi\u00e3o da costa atl\u00e2ntica.<br \/>\nDiferente de outras possess\u00f5es coloniais, destinadas \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de metais preciosos e minerais (isto \u00e9, uma economia centrada no saque de recursos e por isso, transit\u00f3ria), as col\u00f4nias da Am\u00e9rica do Norte se desenvolveram centralmente ao redor da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola destinada a ser exportada para a metr\u00f3pole, de car\u00e1ter muito mais est\u00e1vel e permanente.<br \/>\nSobre esta base, os dois setores centrais de colonos que se estabeleciam nos novos territ\u00f3rios (os ingleses protestantes puritanos e os irlandeses cat\u00f3licos) o faziam com a perspectiva de transform\u00e1-los em sua \u201cp\u00e1tria\u201d e ali poder prosperar com liberdade de acordo com suas ideias e convic\u00e7\u00f5es. Ambos os setores eram bons agricultores e produtores de artesanato.<br \/>\nAs col\u00f4nias prosperavam e se expandiam. As do Norte (regi\u00e3o conhecida como Nova Inglaterra), sobre a base agr\u00edcola dos <em>farmers<\/em>\u00a0(fazendeiros), tamb\u00e9m fabricavam material naval e processavam peles. As do Sul, se especializaram no cultivo de planta\u00e7\u00e3o (tabaco, algod\u00e3o e arroz). Nesse contexto, se desenvolviam centros urbanos, comerciais, administrativos e portu\u00e1rios pequenos por\u00e9m em permanente expans\u00e3o, como Filad\u00e9lfia, Nova York, Boston e Charleston.<br \/>\nE tamb\u00e9m uma burguesia arraigada e com crescentes interesses pr\u00f3prios. Esta burguesia estava atravessada por uma divis\u00e3o estrutural: a do Norte se desenvolvia baseada no trabalho assalariado, enquanto que a do Sul se desenvolvia com o trabalho dos escravos negros trazidos da \u00c1frica.<br \/>\n<strong>Aumentam as contradi\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nAs contradi\u00e7\u00f5es de ambos os setores com a coroa brit\u00e2nica foram crescendo cada vez mais. Especialmente a partir de 1763, quando ocorreu um forte aumento dos impostos. Entre eles, o destinado ao autofinanciamento das tropas brit\u00e2nicas assentadas nas col\u00f4nias, o dos selos postais e o dos produtos importados monopolicamente pela coroa, como o ch\u00e1.<br \/>\nInicia-se assim uma rebeli\u00e3o civil na qual a cidade de Boston (Massachusetts) foi a vanguarda. Um exemplo disto foi a chamada Revolta do Ch\u00e1 (1774) na qual os patriotas (disfar\u00e7ados de \u00edndios pele vermelha) atiraram ao mar um carregamento de ch\u00e1 importado. Para al\u00e9m de seu car\u00e1ter essencialmente simb\u00f3lico, este fato \u00e9 considerado um marco nesse enfrentamento [1]. Foi uma express\u00e3o de uma campanha de boicote generalizado aos produtos brit\u00e2nicos, que incluiu a forma\u00e7\u00e3o de \u201ccomit\u00eas de patriotas\u201d para promov\u00ea-la e garanti-la (de fato, a estrutura b\u00e1sica de um partido pela independ\u00eancia).<br \/>\n<strong>Come\u00e7a a guerra<\/strong><br \/>\nNesse contexto, em 1775 come\u00e7a a ter enfrentamentos entre as tropas brit\u00e2nicas e as mil\u00edcias patriotas. Londres declara Massachusetts como \u201cestado hostil\u201d e envia tropas para refor\u00e7ar a guarni\u00e7\u00e3o de Boston.<br \/>\nA \u201cguerra revolucion\u00e1ria\u201d (como \u00e9 conhecida na hist\u00f3ria estadunidense) j\u00e1 estava aberta. As mil\u00edcias independentistas crescem em n\u00famero e s\u00e3o refor\u00e7adas por tropas de outras col\u00f4nias. Tamb\u00e9m recebem apoio em armamentos das pot\u00eancias coloniais que se enfrentam com a Gr\u00e3 Bretanha (como Fran\u00e7a, Espanha e Holanda).<br \/>\nGeorge Washington (natural da col\u00f4nia de Virginia e coronel reformado do ex\u00e9rcito brit\u00e2nico) \u00e9 nomeado general comandante do ex\u00e9rcito rebelde de 16.000 homens. Depois de v\u00e1rias batalhas, derrotam os brit\u00e2nicos e passam a controlar Boston. Posteriormente, a guerra se transfere e se estende para outras col\u00f4nias.<br \/>\n<strong>A declara\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia e o triunfo definitivo<\/strong><br \/>\nDe modo paralelo, um congresso de representantes das col\u00f4nias, que funcionava na Filad\u00e9lfia (chamado inicialmente contra o imposto aos selos e por outras reivindica\u00e7\u00f5es), havia se transformado ( desde 1774) em \u201ccongresso continental\u201d. Em 4 de julho de 1776, declara a independ\u00eancia e o nascimento de um novo pa\u00eds.<br \/>\nA guerra contra a coroa brit\u00e2nica continua e segue incorporando territ\u00f3rios at\u00e9 1781, quando alcan\u00e7a seu triunfo definitivo. A Gr\u00e3 Bretanha aceita formalmente sua derrota em 1782, e em 1784 reconhece o novo pa\u00eds.<br \/>\n<strong>Uma grande revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nA independ\u00eancia dos Estados Unidos deve ser caracterizada como uma das grandes revolu\u00e7\u00f5es burguesas da \u00e9poca, junto com a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (1789). Nela, combinaram-se dois processos. O primeiro \u00e9 a luta da burguesia em ascenso para\u00a0 ter seu pr\u00f3prio estado e suas pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomas (destruindo nesse processo as institui\u00e7\u00f5es da monarquia). Neste aspecto, antecipou em mais de uma d\u00e9cada o processo da Fran\u00e7a e se transformou na primeira rep\u00fablica moderna.<br \/>\nO segundo foi a luta anticolonial contra os imp\u00e9rios que as pot\u00eancias dominantes (Gr\u00e3 Bretanha, Fran\u00e7a, Holanda, Portugal e Espanha) haviam constru\u00eddo nos s\u00e9culos anteriores. Neste sentido antecipou em 25 anos o processo do Haiti de 1801 (ainda que este \u00faltimo tivesse um elemento claramente distinto: foi a \u00fanica revolu\u00e7\u00e3o anticolonial realizada por escravos e n\u00e3o pela burguesia nacional).<br \/>\nEste car\u00e1ter revolucion\u00e1rio burgu\u00eas se expressou tanto no texto da Declara\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia como na Constitui\u00e7\u00e3o votada em 1787, com ampl\u00edssimas garantias democr\u00e1ticas.<br \/>\nNesse marco, essa revolu\u00e7\u00e3o deixou um grav\u00edssimo problema democr\u00e1tico pendente: o tema da escravid\u00e3o, que foi conscientemente evitado na declara\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia e na constitui\u00e7\u00e3o para evitar a divis\u00e3o entre os dois setores burgueses que conflu\u00edam (o pr\u00f3prio George Washington era um fazendeiro escravista).<br \/>\nEsta diferen\u00e7a explodiria na Guerra da Secess\u00e3o (1861) quando v\u00e1rios estados do Sul se opuseram \u00e0 pol\u00edtica de aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o que o presidente Abraham Lincoln promovia e se separaram da Uni\u00e3o para formar os Estados Confederados. Ap\u00f3s uma longa e cruenta guerra, que terminou com o triunfo dos unionistas, a escravid\u00e3o foi abolida legalmente. Por\u00e9m o tema da opress\u00e3o, a discrimina\u00e7\u00e3o e a repress\u00e3o sobre o povo negro continua sendo at\u00e9 hoje um tra\u00e7o constitutivo do capitalismo estadunidense.<br \/>\n<strong>Uma expans\u00e3o permanente<\/strong><br \/>\nA din\u00e2mica burguesia estadunidense teve, desde sua pr\u00f3pria conforma\u00e7\u00e3o como burguesia independente, uma clara pol\u00edtica expansiva. Na pr\u00f3pria guerra pela independ\u00eancia, esta se expressou (ao oeste dos montes Apalaches) como uma \u201cguerra contra os \u00edndios\u201d, j\u00e1 que os povos origin\u00e1rios haviam se aliado aos brit\u00e2nicos por temor (como realmente ocorreu depois) de que a nova na\u00e7\u00e3o avan\u00e7asse para expuls\u00e1-los de seus territ\u00f3rios.<br \/>\nEm 1803 foi incorporada Louisiana (originalmente uma col\u00f4nia francesa). Em 1819, a Fl\u00f3rida foi comprada definitivamente dos espanh\u00f3is. Junto com isto, os Estados Unidos cresciam e incorporavam novos territ\u00f3rios para o oeste (sobre a grande pradaria central da Am\u00e9rica do Norte) expulsando violentamente os \u00edndios americanos (processo que foi chamado eufemisticamente de \u201cconquista do Oeste\u201d).<br \/>\nUma das express\u00f5es mais brutais desta expans\u00e3o (como antecipa\u00e7\u00e3o do monstro que seriam no futuro) foi o roubo de todo o Norte do M\u00e9xico (cerca de 50% do territ\u00f3rio que pertencia a este pa\u00eds). Este roubo foi iniciado pela artificial cria\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica do Texas e sua posterior incorpora\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos (1845) e continuado com a guerra entre ambos os pa\u00edses (1846-1848). Como resultado, o M\u00e9xico perdeu (al\u00e9m do Texas), o territ\u00f3rio que corresponde aos atuais estados da Calif\u00f3rnia, Novo M\u00e9xico, Arizona, Colorado e Utah.<br \/>\nEm 1867, os Estados Unidos compraram do imp\u00e9rio russo o territ\u00f3rio do Alaska (separado do territ\u00f3rio central pelo Canad\u00e1). Em 1898, invadiram e dominaram o arquip\u00e9lago do Hava\u00ed (no long\u00ednquo Pac\u00edfico oriental). Ambos os territ\u00f3rios foram incorporados depois como estados membros da Uni\u00e3o.<br \/>\nConsolidado seu dom\u00ednio da costa do Atl\u00e2ntico ao Pac\u00edfico, e desde o Canad\u00e1 no norte ate o rio Bravo no sul, a burguesia estadunidense come\u00e7ou sua expans\u00e3o para a Am\u00e9rica Latina. Come\u00e7ou pelo que denominou seu \u201cquintal\u201d: Am\u00e9rica Central e o Caribe. Em finais do s\u00e9culo XIX, entrou em guerra com a Espanha para garantir a \u201cindepend\u00eancia\u201d de Cuba. Pela mesma guerra, transformou Porto Rico em \u201cestado associado\u201d. Dividiu o Panam\u00e1 da Col\u00f4mbia para garantir a constru\u00e7\u00e3o e o dom\u00ednio do primeiro canal interoce\u00e2nico. Transformou outros pa\u00edses centro-americanos em \u201crep\u00fablicas \u00a0bananeiras\u201d dominadas pela empresa <em>United Fruit<\/em>.<br \/>\nDesde a\u00ed, continuou seu avan\u00e7o para o sul americano e, a partir da Segunda Guerra Mundial, para sua transforma\u00e7\u00e3o na potencia imperialista econ\u00f4mica e militarmente hegem\u00f4nica \u00e0 qual se subordinam as outras pot\u00eancias e burguesias nacionais das semicol\u00f4nias(e das col\u00f4nias que ainda subsistem).<br \/>\nSustentou esse dom\u00ednio com uma pol\u00edtica agressiva de golpes de estado, apoio a sangrentas ditaduras, reiteradas invas\u00f5es e guerras localizadas. Em seu pa\u00eds, apesar do impressionante desenvolvimento econ\u00f4mico, e das imensas riquezas que possui e saqueia do mundo, construiu uma sociedade feroz e desigual (a mais injusta dos pa\u00edses desenvolvidos), onde muitos trabalhadores brancos e, especialmente, das minorias negra e latina s\u00e3o superexplorados, discriminados e reprimidos.<br \/>\n\u00c9 certamente a burguesia imperialista mais odiada pelos trabalhadores e massas do mundo. N\u00e3o \u00e9 casual: \u00e9 o inimigo principal que devemos derrotar para construir o mundo socialista que ansiamos.<br \/>\nPor\u00e9m este mais do que justificado \u00f3dio atual, n\u00e3o deve nos fazer esquecer que, em sua origem, foi uma burguesia revolucion\u00e1ria, que levou adiante uma das maiores revolu\u00e7\u00f5es burguesas da hist\u00f3ria.<br \/>\n[1] O nome de\u00a0<em>Tea Party<\/em>, adotado por uma corrente de extrema direita do partido republicano, se deve \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o desta revolta.<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 244 anos, em 4 de julho de 1776, os representantes das 13 col\u00f4nias da Gr\u00e3 Bretanha na Am\u00e9rica do Norte, reunidos na cidade de Filad\u00e9lfia, votaram sua independ\u00eancia e a forma\u00e7\u00e3o de uma nova rep\u00fablica com um presidente e um parlamento pr\u00f3prios que seriam eleitos pelo sistema de voto popular. 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