{"id":60781,"date":"2020-06-29T09:34:09","date_gmt":"2020-06-29T11:34:09","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=60781"},"modified":"2020-06-29T09:34:09","modified_gmt":"2020-06-29T11:34:09","slug":"hugo-blanco-rio-profundo-um-filme-necessario-para-os-trotskistas-latino-americanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/06\/29\/hugo-blanco-rio-profundo-um-filme-necessario-para-os-trotskistas-latino-americanos\/","title":{"rendered":"Hugo Blanco, R\u00edo Profundo: Um filme necess\u00e1rio para os trotskistas latino-americanos"},"content":{"rendered":"<p><em>A palavra cultura tem a mesma raiz etimol\u00f3gica da palavra coloniza\u00e7\u00e3o e da palavra cultivar. Qui\u00e7\u00e1 por essa raz\u00e3o, a cultura na Am\u00e9rica Latina, quando entendida em seu sentido art\u00edstico e est\u00e9tico, ganha um aspecto colonial ou uma perspectiva cultivadora das melhores mem\u00f3rias das lutas populares, aquelas lutas que resistiram e resistem ao car\u00e1ter autocr\u00e1tico de uma forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-social que bem soube combinar a opress\u00e3o racial com a explora\u00e7\u00e3o de classe. E \u00e9 nesse \u00faltimo sentido da palavra cultura que deve ser compreendido o document\u00e1rio peruano Hugo Blanco, R\u00edo Profundo, produzido e dirigido por Malena Mart\u00ednez Cabrera.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Gisele Sinfroni de Manaus\/AM &#8211; Brasil<br \/>\nProduzido em 2019 e lan\u00e7ado em 2020, o document\u00e1rio provocou dois tipos de rea\u00e7\u00f5es no Peru. Por um lado, a direita do pa\u00eds, herdeira secular dos algozes que praticaram todo tipo de viola\u00e7\u00e3o e abuso contra os ind\u00edgenas e campesinos, de pronto classificou o filme como uma apologia ao \u201cterrorismo\u201d. Por outro lado, ind\u00edgenas, filhos e netos de camponeses pobres encontraram em tal document\u00e1rio uma justa, necess\u00e1ria e honesta homenagem ao homem que ofereceu o melhor de sua vida para organizar a luta dos campesinato nos Andes peruanos.<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Hugo Blanco, Deep River \/ Hugo Blanco, R\u00edo Profundo. Trailer\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ewk0Dzjjy0o?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\nTodavia, infinitamente superior \u00e0 pobre perspectiva midi\u00e1tica, baseada num dualismo entre vil\u00f5es e mocinhos, a obra da cineasta Malena Mart\u00ednez Cabrera \u00e9 um testemunho fiel do encontro entre o programa trotskista e a peleja ind\u00edgena-campesina nos anos de 1960.<br \/>\nNa narrativa proposta pelo document\u00e1rio \u00e9 n\u00edtido o cruzamento da hist\u00f3ria individual de Hugo Blanco com a hist\u00f3ria da luta de classes no Peru e com as formas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que irromperam no subcontinente latino-americano ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Boliviana de 1952.<br \/>\nAngel Hugo Blanco Gald\u00f3s nasceu em 1934 na zona de Cuzco, regi\u00e3o \u00e1lgida e milenar do Peru, na qual acompanhou desde crian\u00e7a a transfigura\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o e do racismo em viol\u00eancia e humilha\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas que os grandes fazendeiros exerciam contra os camponeses ind\u00edgenas. Ainda como estudante secundarista, Blanco participou do movimento estudantil e apoiou a Greve Geral cusquenha. Entretanto, o salto qualitativo de sua milit\u00e2ncia aconteceu mais ao sul da Am\u00e9rica do Sul: na Argentina.<br \/>\nEm solo argentino, Hugo Blanco estudou agronomia, conheceu o movimento oper\u00e1rio, trabalhou em frigor\u00edficos e aderiu ao trotskismo. Sob as orienta\u00e7\u00f5es dos trotskistas argentinos, Don Hugo regressou em 1958 ao Peru, ingressando nas fileiras do Partido Obrero Revolucionario (POR), organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria que posteriormente se transformou em Frente de Izquierda Revolucionaria (FIT), tamb\u00e9m ligada \u00e0 Secretaria Latino-Americana do Trotskismo Ortodoxo (SLATO), dirigida por Nahuel Moreno.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Hugo-e-prt.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-60784\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Hugo-e-prt.jpg\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"479\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Hugo-e-prt.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Hugo-e-prt-300x206.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Hugo-e-prt-150x103.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Hugo-e-prt-218x150.jpg 218w\" sizes=\"auto, (max-width: 696px) 100vw, 696px\" \/><\/a><br \/>\n\u00c9 por essa raz\u00e3o que no decorrer do document\u00e1rio \u00e9 evidente ao p\u00fablico que o levante campon\u00eas liderado por Hugo Blanco em La Conveci\u00f3n (regi\u00e3o de Cuzco), entre 1959 e 1963, teve um m\u00e9todo peculiar que destoou das a\u00e7\u00f5es guerrilheristas que dominava a esquerda latino-americana na \u00e9poca.<br \/>\nNa produ\u00e7\u00e3o de Malena Mart\u00ednez Cabrera, a diferen\u00e7a entre os m\u00e9todos trotskistas e o foquismo guerrilheiro aparece como uma esp\u00e9cie de divisor de \u00e1guas. Um fato deveras veross\u00edmil. Afinal, enquanto o Sendero Luminisoso aterrorizava a popula\u00e7\u00e3o campesina e ind\u00edgena impondo-lhes uma guerrilha alheia \u00e0s lutas concretas dessas popula\u00e7\u00f5es, o trotskismo por meio da milit\u00e2ncia de Blanco aplicava nos Andes o m\u00e9todo proposto por Trotsky, no Programa de Transi\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, buscava mobilizar os trabalhadores a partir das suas organiza\u00e7\u00f5es sindicais, das assembleias populares, da autodefesa armada do movimento e daquilo que mais lhes tocava: a propriedade da camponesa terra. Da\u00ed ent\u00e3o a palavra de ordem Terra ou Morte, que n\u00e3o apenas animou o movimento sindical campon\u00eas peruano como culminou na \u00fanica Reforma Agr\u00e1ria feita a partir de uma insurrei\u00e7\u00e3o popular na Am\u00e9rica do Sul.<br \/>\n<div id=\"attachment_60785\" style=\"width: 706px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Um-poster-hist\u00f3rico-que-me-fez-chegar-agora.-\u00c9-de-um-ato-de-solidariedade-em-momentos-em-que-eu-estava-preso-e-com-um-pedido-de-pena-de-morte..jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-60785\" class=\"size-full wp-image-60785\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Um-poster-hist\u00f3rico-que-me-fez-chegar-agora.-\u00c9-de-um-ato-de-solidariedade-em-momentos-em-que-eu-estava-preso-e-com-um-pedido-de-pena-de-morte..jpg\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"908\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-60785\" class=\"wp-caption-text\">Um poster de um ato de solidariedade no momento em que Blanco estava preso e com um pedido de pena de morte. Participaram do Ato Jean Paulo Sarte, Simone de Beauvoir e Vargas LLosa<\/p><\/div><br \/>\nEssa dicotomia entre o guerrilheirismo e a autodefesa armada, a partir dos trabalhadores e suas organiza\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico elemento trotskista que aparece no document\u00e1rio. A luta contra a burocratiza\u00e7\u00e3o dos dirigentes, uma luta pr\u00f3pria do trotskismo genu\u00edno, \u00e9 apresentada quando Hugo Blanco in\u00fameras vezes afirma que o coletivo precisa controlar sua dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e que as decis\u00f5es coletivas s\u00e3o sempre mais adequadas do que as decis\u00f5es das camarilhas.<br \/>\nPara al\u00e9m do m\u00e9todo, a presen\u00e7a do partido revolucion\u00e1rio na trajet\u00f3ria do revolucion\u00e1rio peruano \u00e9 citada tamb\u00e9m quando a diretora ressalta as a\u00e7\u00f5es de solidariedade que os trotskistas em Lima e em todo o continente realizavam como uma retaguarda organizativa na qual Blanco p\u00f4de se apoiar durante a insurrei\u00e7\u00e3o andina e durante a repress\u00e3o que se abateu contra ele e contra todo o movimento, entre o final da d\u00e9cada de 1960 e toda d\u00e9cada de 1970.<br \/>\nPara aqueles que minimamente conhecem e reconhecem sua hist\u00f3rica, tudo isso d\u00e1 sentido \u00e0 mensagem que Blanco dirigiu \u00e0 Liga Internacional dos Trabalhadores em 1987, quando da morte de Nahuel Moreno \u201cReconhe\u00e7o nele o meu maior mestre do marxismo e sempre o reconheci assim, apesar dos incidentes da luta revolucion\u00e1ria terem separados h\u00e1 anos os nossos caminhos. A Am\u00e9rica Latina perdeu um incans\u00e1vel e inteligente combatente da Revolu\u00e7\u00e3o. Quando chegarmos ao triunfo, um dos nomes lembrados pelo futuro ser\u00e1 indubitavelmente de Nahuel Moreno.\u201d<br \/>\nEntretanto seria um equ\u00edvoco entender essa produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica como um elogio aos herdeiros pol\u00edticos de Trotsky, longe disso. Ao se tratar da vida pol\u00edtica de Hugo Blanco, o document\u00e1rio retrata tamb\u00e9m como esse lutador que, apesar de nunca ter capitulado \u00e0 burguesia, tampouco ter se afastado das lutas, se distanciou da perspectiva organizativa do leninismo durante a d\u00e9cada de 1990. Isso \u00e9 evidenciado quando Blanco afirma, de forma sincera, acreditar na necessidade da Revolu\u00e7\u00e3o, uma revolu\u00e7\u00e3o que devolva ao Homem sua humanidade, mas ter d\u00favida atualmente sobre a necessidade de um partido revolucion\u00e1rio.<br \/>\nTal afirma\u00e7\u00e3o, seguramente, \u00e9 discrepante se comparada \u00e0 pr\u00f3pria caracteriza\u00e7\u00e3o que Hugo Blanco fez quanto ainda estava preso em Ilha Penal El Front\u00f3n, em 1971, a respeito da derrota pol\u00edtica que sofreu o movimento em 1967: \u201cA grande defici\u00eancia do trabalho em La Convenci\u00f3n em Cusco foi a inexist\u00eancia de um partido bem organizado. (\u2026) N\u00e3o foi material humano que faltou; o processo de luta do campesinato de La Convenci\u00f3n, e do resto do departamento, produziu, como em qualquer outro lugar, sua pr\u00f3pria vanguarda. O que faltou foi organizar partidariamente esta vanguarda, em um n\u00facleo disciplinado, completamente consciente do papel que lhe correspondia no processo.\u201d<br \/>\nTodavia, ao espectador mais atento essa diferen\u00e7a pol\u00edtica n\u00e3o aparece de forma gratuita, ao contr\u00e1rio, essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 conectada \u00e0 desilus\u00e3o que Hugo Blanco deixa transparecer em rela\u00e7\u00e3o ao tratamento secund\u00e1rio, mecanicista e euroc\u00eantrico que as organiza\u00e7\u00f5es de esquerda em geral, incluindo infelizmente os partidos revolucion\u00e1rios, davam \u00e0 opress\u00e3o ind\u00edgena, justamente em um continente marcado por s\u00e9culos de colonialismo.<br \/>\nE \u00e9 aqui, precisamente, que o filme Hugo Blanco, R\u00edo Profundo, vai al\u00e9m das pretens\u00f5es da cineasta Malena Mart\u00ednez Cabrera, que tentou apenas retratar a hist\u00f3ria de Blanco e a luta campesina no Peru. Entretanto, sendo Hugo Blanco, sem d\u00favida alguma, o nome mais popular que o trotskismo teve em toda Am\u00e9rica Latina, o filme termina por oferecer profundas reflex\u00f5es a respeito de v\u00e1rias quest\u00f5es. Seria poss\u00edvel a dimens\u00e3o pol\u00edtica de Hugo Blanco sem a exist\u00eancia de um partido revolucion\u00e1rio, por min\u00fasculo que esse fosse? \u00c9 poss\u00edvel hoje, diante do alto n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o da burguesia mundial, derrotar o capitalismo sem um partido rigorosamente organizado? At\u00e9 que ponto uma vanguarda lutadora que se levanta em toda Am\u00e9rica Latina percebe suas dores raciais e demais opress\u00f5es realmente justapostas nos partidos revolucion\u00e1rios?<br \/>\nTodas essas indaga\u00e7\u00f5es, pr\u00f3prias do nosso tempo, tornam o document\u00e1rio sobre Hugo Blanco t\u00e3o necess\u00e1rio quanto a leitura e, sobretudo a compreens\u00e3o das obras de Marx, Lenin e Trotsky.<br \/>\nSERVI\u00c7O<br \/>\nH\u00e1 algumas exibi\u00e7\u00f5es online ao vivo para assistir do document\u00e1rio. Basta acompanhas a p\u00e1gina abaixo. Comunidades ind\u00edgenas e camponesas tem prioridade na inscri\u00e7\u00e3o.<br \/>\nhttps:\/\/www.facebook.com\/HugoBlancoDeepRiver\/<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A palavra cultura tem a mesma raiz etimol\u00f3gica da palavra coloniza\u00e7\u00e3o e da palavra cultivar. 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