{"id":60537,"date":"2020-06-15T09:35:12","date_gmt":"2020-06-15T11:35:12","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=60537"},"modified":"2020-06-15T09:35:12","modified_gmt":"2020-06-15T11:35:12","slug":"uma-nova-internacional-das-maos-de-sanders-e-varoufakis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/06\/15\/uma-nova-internacional-das-maos-de-sanders-e-varoufakis\/","title":{"rendered":"Uma &quot;nova&quot; Internacional das m\u00e3os de Sanders e Varoufakis?"},"content":{"rendered":"<p><em>A recess\u00e3o econ\u00f4mica mundial &#8211; exacerbada pela crise da sa\u00fade que desencadeou a pandemia de Covid-19 &#8211; nos permite prever uma intensifica\u00e7\u00e3o da luta de classes em uma dimens\u00e3o hist\u00f3rica. Projeta um cen\u00e1rio pol\u00edtico vol\u00e1til, que no momento tem sua express\u00e3o m\u00e1xima na onda de protestos nos EUA ap\u00f3s o assassinato de George Floyd. A crise no cora\u00e7\u00e3o do capitalismo provocou um impressionante processo de mobiliza\u00e7\u00e3o mundial. Parafraseando L\u00eanin, uma &#8220;cat\u00e1strofe nos amea\u00e7a&#8221;: a pol\u00edtica genocida dos governos capitalistas do mundo. Consequentemente, a necessidade de as for\u00e7as da revolu\u00e7\u00e3o socialista estarem preparadas em todos os sentidos, n\u00e3o apenas para enfrentar a amea\u00e7a, mas para venc\u00ea-la, \u00e9 mais imperiosa do que nunca.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Daniel Sugasti<br \/>\nOs protestos contra o racismo dentro e fora dos Estados Unidos extrapolam a quest\u00e3o racial e o confronto contra a pol\u00edtica &#8220;autorit\u00e1ria&#8221; do governo Trump ou a arraigada viol\u00eancia policial contra os pobres e n\u00e3o brancos. A rebeli\u00e3o expressa uma irrita\u00e7\u00e3o geral contra o agravamento das condi\u00e7\u00f5es de vida de amplos segmentos da classe trabalhadora &#8211; especialmente entre negros e outras minorias oprimidas &#8211; e setores m\u00e9dios arruinados pela crise.<br \/>\nPor outro lado, a massifica\u00e7\u00e3o dos protestos na principal pot\u00eancia mundial refor\u00e7a o ressurgimento de lutas no contexto da revolu\u00e7\u00e3o chilena, mas tamb\u00e9m no Equador, Hong Kong, Brasil, Londres, Lisboa, Madrid, etc. Essa nova realidade apoia a hip\u00f3tese de que a luta de classes n\u00e3o est\u00e1 para &#8220;quarentenas&#8221; prolongadas.<br \/>\nSe em algum momento houve uma &#8220;pausa&#8221; causada pela pandemia, a guerra social travada pelos governos burgueses tornou inevit\u00e1vel a rea\u00e7\u00e3o das massas trabalhadoras. Se a conjun\u00e7\u00e3o entre pandemia e recess\u00e3o econ\u00f4mica mostra que, em muitos casos, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, n\u00e3o se pode descartar que o que estamos testemunhando \u00e9 o prel\u00fadio de processos ainda mais convulsivos.<br \/>\nO imperialismo est\u00e1 ciente da situa\u00e7\u00e3o e de sua poss\u00edvel din\u00e2mica de maior polariza\u00e7\u00e3o social. Diante disso, ele tem um programa bastante n\u00edtido: que os mortos sejam dos trabalhadores e aproveitar a pandemia para descarregar o peso de sua crise nas doloridas costas de nossa classe.<br \/>\nSe for necess\u00e1rio empurrar a humanidade para o abismo da barb\u00e1rie para sair da crise &#8211; o que da perspectiva capitalista significa recuperar suas taxas de lucro &#8211; o punhado de bilion\u00e1rios que dominam o mundo n\u00e3o hesitar\u00e1 em faz\u00ea-lo. N\u00e3o h\u00e1 meias medidas: eles ou n\u00f3s.<br \/>\nNas fileiras do movimento oper\u00e1rio e social, ou no que \u00e9 conhecido como &#8220;esquerda&#8221; no sentido mais amplo, a disputa pol\u00edtico-ideol\u00f3gica sobre qual caminho a seguir \u00e9 feroz. A encruzilhada hist\u00f3rica entre reforma ou revolu\u00e7\u00e3o &#8211; que a revolucion\u00e1ria polonesa Rosa Luxemburgo apontou como um embate entre socialismo ou barb\u00e1rie &#8211; est\u00e1 colocada de forma decisiva. Isso nos leva a uma primeira defini\u00e7\u00e3o: o reformismo, com todas as suas variantes, n\u00e3o desempenhar\u00e1 um papel diferente daquele que cumpriu em crises anteriores do sistema capitalista. Mais uma vez, ser\u00e1 sua muleta. Estar\u00e1 do lado da contrarrevolu\u00e7\u00e3o. Estar\u00e1 com eles, n\u00e3o conosco.<br \/>\nEste \u00e9 o contexto da funda\u00e7\u00e3o &#8211; h\u00e1 pouco mais de um m\u00eas &#8211; da autoproclamada Internacional Progressista (IP), um movimento que surgiu de uma iniciativa do senador democrata Bernie Sanders e do movimento europeu DiEM25, (Movimento Democracia na Europa 2025, em ingl\u00eas Democracy in Europe Movement 2025) liderado por Yanis Varoufakis, conhecido ex-ministro de Finan\u00e7as do governo de Syriza em 2015.<br \/>\nEssa organiza\u00e7\u00e3o se apresenta como uma &#8220;frente comum para varrer o autoritarismo&#8221;. A iniciativa de Sanders e Varoufakis conseguiu atrair uma s\u00e9rie de intelectuais de esquerda e ativistas honestos pelas mais diversas causas sociais: Noam Chomsky; Carola Rackete, capit\u00e3 s\u00edmbolo do resgate de migrantes no Mediterr\u00e2neo; o ator mexicano Gael Garc\u00eda Bernal; a escritora canadense Naomi Klein, entre outras figuras. A gama de apoiadores tamb\u00e9m inclui o juiz espanhol Baltasar Garz\u00f3n e o Pr\u00eamio Nobel de Economia de 2001, Joseph Stiglitz.<br \/>\nMas a IP tamb\u00e9m reuniu ades\u00e3o de uma mistura de pol\u00edticos frente populistas, reformistas, socialdemocratas &#8211; muitos deles ex-presidentes latino-americanos -: Lula, Dilma, Mujica, Evo Morales, Rafael Correa, Fernando Lugo, o espanhol Jos\u00e9 Lu\u00eds Rodr\u00edguez Zapatero etc. Nesta lista tamb\u00e9m merecem destaque, o ex-vice-presidente boliviano \u00c1lvaro Garc\u00eda Linera; o ex-chanceler dos governos Lula, Celso Amorim; e o \u00faltimo candidato \u00e0 presid\u00eancia da rep\u00fablica, Fernando Haddad do PT brasileiro [1]. A primeira-ministra islandesa, Katr\u00edn Jakobsd\u00f3ttir, \u00e9 outra pe\u00e7a importante no novo agrupamento pol\u00edtico.<br \/>\nA IP, como previmos, se sustenta no aparato do Instituto Sanders e do DiEM25. Se a pandemia permitir, seus l\u00edderes anunciaram a inten\u00e7\u00e3o de realizar um primeiro congresso na capital islandesa, Reikjavik, organizado pelo partido de Jakobsd\u00f3ttir, o Movimento de Esquerda-Verde.<br \/>\n\u00c9 necess\u00e1ria uma organiza\u00e7\u00e3o internacional que dote um programa e centralize a luta (em todas as suas dimens\u00f5es) contra o capitalismo mundial? Obviamente sim. Essa concep\u00e7\u00e3o e objetivo s\u00e3o um patrim\u00f4nio, uma heran\u00e7a legada pelas quatro tentativas de formar uma Internacional que ocorreram nos \u00faltimos 155 anos. A discuss\u00e3o com a IP n\u00e3o \u00e9 essa. O debate fundamental \u00e9 com que programa, pol\u00edtica, m\u00e9todo e com quem construir a Internacional.<br \/>\nNesse sentido, se o &#8220;diga-me com quem andas &#8230;&#8221; j\u00e1 nos d\u00e1 uma pista do perfil ideol\u00f3gico-program\u00e1tico da &#8220;nova&#8221; Internacional Progressista, h\u00e1 que ater-se na an\u00e1lise de suas propostas e a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<br \/>\n<strong>Humanizar ou destruir o capitalismo?<\/strong><br \/>\nA ideia de uma \u201cInternacional Progressista\u201d vem de 2018. Ela foi esbo\u00e7ada em dois artigos publicados no <em>The Guardian<\/em>, primeiro por Sanders e, posteriormente, por Varoufakis.<br \/>\nPor mais de um ano, a coisa n\u00e3o passava de uma ideia solta. A oficializa\u00e7\u00e3o da iniciativa em meio \u00e0 pandemia e ao agravamento da crise econ\u00f4mica, especialmente nos EUA, n\u00e3o \u00e9 acidental. Isso se deve a uma tentativa de conter ou apresentar uma alternativa (falsa) para esterilizar o descontentamento generalizado e, se poss\u00edvel, conduzir as poss\u00edveis explos\u00f5es sociais para becos sem sa\u00edda, por dentro do sistema capitalista, de suas institui\u00e7\u00f5es mais tradicionais e de seus mecanismos eleitorais.<br \/>\nO caso dos protestos que abalam os EUA \u00e9 um bom exemplo disso. Sanders, cuja candidatura despertou a simpatia de muitos ativistas sociais, n\u00e3o chama uma intensifica\u00e7\u00e3o da luta para enfrentar o genoc\u00eddio do povo negro, que est\u00e1 sendo desproporcionalmente afetado pela pandemia e por seus efeitos econ\u00f4micos, como desemprego e pobreza. O senador n\u00e3o prop\u00f5e um plano de emerg\u00eancia econ\u00f4mico e de sa\u00fade que, entre outras medidas b\u00e1sicas, proponha a nacionaliza\u00e7\u00e3o da medicina privada e a cria\u00e7\u00e3o de um sistema \u00fanico de sa\u00fade; ou a proibi\u00e7\u00e3o de demiss\u00f5es por meio de fortes san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas ou a pr\u00f3pria estatiza\u00e7\u00e3o das grandes empresas.<br \/>\nSe algu\u00e9m entra no site da IP, n\u00e3o h\u00e1 campanha contra a guerra social desencadeada pela pandemia nem sobre o hist\u00f3rico movimento antirracista que eletrifica os EUA. A explica\u00e7\u00e3o para isso \u00e9 que, para Sanders e os outros l\u00edderes da IP &#8211; Varoufakis tem a mesma linha na Europa, onde protestos tamb\u00e9m est\u00e3o borbulhando &#8211; o terreno de suas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es vigentes, n\u00e3o a mobiliza\u00e7\u00e3o dos oprimidos. Portanto, n\u00e3o \u00e9 de surpreender que, apesar de sua ret\u00f3rica com tonalidade socialista, Sanders esteja agora apoiando e exortando seus seguidores a apoiar a candidatura de Joe Biden, o concorrente do aparato democrata.<br \/>\nEssa proposta e localiza\u00e7\u00e3o, como veremos, n\u00e3o apenas n\u00e3o s\u00e3o novas, mas tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam nenhuma possibilidade de satisfazer os anseios das massas trabalhadoras que se levantam ou se levantar\u00e3o contra governos e seus atos de guerra social &#8211; porque n\u00e3o questiona o capitalismo &#8211; nem ser\u00e1 capaz de combater consistentemente os projetos de extrema direita ou, em alguns casos, explicitamente neofascistas, desenvolvidos em alguns pa\u00edses.<br \/>\nO pr\u00f3prio Varoufakis se encarrega de deixar isso bem expl\u00edcito. Quando a IP foi lan\u00e7ada publicamente, o economista grego enfatizou que seu objetivo era mobilizar pessoas, coordenar a\u00e7\u00f5es entre setores &#8220;progressistas&#8221;, por\u00e9m n\u00e3o para liquidar o capitalismo (&#8220;o sistema&#8221;), mas &#8220;transformar&#8221; a ordem global em conjunto com as institui\u00e7\u00f5es que o comp\u00f5em. A proposta central da IP que tamb\u00e9m \u00e9 colocada em termos vagos, \u00e9 enfrentar o &#8220;autoritarismo&#8221;, apresentado como um nacionalismo ressurgido, incorporado em pol\u00edticos como Trump, Bolsonaro, Matteo Salvini, Viktor Orb\u00e1n, etc.<br \/>\nContudo tamb\u00e9m n\u00e3o chega a ser uma frente \u00fanica de combate contra essas correntes, uma vez que os m\u00e9todos que prop\u00f5e para enfrentar os ataques (reais ou potenciais) \u00e0s democracias liberais est\u00e3o contidos nos limites das institui\u00e7\u00f5es, sem jamais exigir luta aberta (que implicaria o confronto f\u00edsico, em certos casos) contra essas correntes de extremas direita.<br \/>\nA nova organiza\u00e7\u00e3o formula seus objetivos de maneira t\u00e3o geral que eles se diluem em si mesmos: \u201cpromover a uni\u00e3o, coordena\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o de ativistas, associa\u00e7\u00f5es, sindicatos, movimentos sociais e partidos em defesa da democracia, a solidariedade, a igualdade e a sustentabilidade. &#8220;[2]<br \/>\nA tarefa, de acordo com a IP, \u00e9 defender um Estado de bem-estar social no contexto de um mundo mais \u201cdemocr\u00e1tico, igualit\u00e1rio, ecol\u00f3gico, pac\u00edfico e no qual a economia colaborativa prevale\u00e7a\u201d [3]. Esse objetivo \u00e9 limitado, j\u00e1 que, mesmo nas d\u00e9cadas de auge, os chamados Estados de bem-estar social n\u00e3o foram al\u00e9m de serem estados burgueses que concordaram em expandir pol\u00edticas sociais compensat\u00f3rias e liberdades democr\u00e1ticas formais na Europa Ocidental durante a segunda metade do s\u00e9culo XX. A natureza ef\u00eamera desse fen\u00f4meno tornou-se mais vis\u00edvel ap\u00f3s a crise de 2008-2009, quando as principais conquistas materiais e garantias formais foram atacadas ou desmontadas uma a uma.<br \/>\nNo site da IP, pode-se ler a \u201cvis\u00e3o\u201d do mundo que eles prop\u00f5em: democr\u00e1tico; descolonizado; justo; igualit\u00e1rio; liberado; solid\u00e1rio; sustent\u00e1vel; ecol\u00f3gico; pac\u00edfico, \u201conde a viol\u00eancia da guerra seja substitu\u00edda com a diplomacia dos povos&#8221;; p\u00f3s-capitalista,\u201d que recompense todas as formas de trabalho\u201d enquanto se elimina o culto [do] trabalho&#8221;; pr\u00f3spero, &#8220;que invista em um futuro feliz de abund\u00e2ncia compartilhada&#8221;; pluralista; etc [4].<br \/>\nA descri\u00e7\u00e3o acima pode ser uma lista muito agrad\u00e1vel de express\u00f5es de desejos e valores (pelo menos retoricamente), mas esse mundo \u00e9 inacess\u00edvel nos moldes do programa e nas a\u00e7\u00f5es que eles prop\u00f5em.<br \/>\nEssa &#8220;ordem internacional progressiva&#8221; surgiria, sempre segundo eles, da &#8220;transforma\u00e7\u00e3o&#8221; das &#8220;institui\u00e7\u00f5es que impactam nossas vidas, nossas comunidades e o planeta&#8221;. Um dos primeiros passos na dire\u00e7\u00e3o dessa transforma\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es dominantes, uma primeira grande tarefa nesse sentido, \u00e9 que a IP seja &#8220;uma ag\u00eancia de not\u00edcias para as for\u00e7as progressistas do mundo&#8221; [5].<br \/>\nVoltemos um pouco. Como dissemos no in\u00edcio, as bases do que \u00e0s vezes \u00e9 chamado de &#8220;rede&#8221; de for\u00e7as progressistas foram delineadas em 2018. Sanders escreveu um artigo contra o surgimento de um novo &#8220;eixo autorit\u00e1rio&#8221;, composto por uma &#8220;rede de oligarcas multimilion\u00e1rios\u201d, \u00e0 qual uma coordena\u00e7\u00e3o de for\u00e7as &#8220;progressistas&#8221; deve se opor [6].<br \/>\nEssa ideia foi apoiada e aprofundada em um artigo de Varoufakis, publicado no mesmo jornal, tamb\u00e9m em 2018. Um texto que merece que paremos em alguns de seus pontos.<br \/>\nO ex-ministro do governo Syriza come\u00e7a declarando explicitamente que \u201cn\u00e3o devemos nos apressar para salvar a ordem liberal. N\u00f3s devemos refaz\u00ea-la &#8230; \u201d[7].<br \/>\nEm termos mais concretos, a premissa de Varoufakis \u00e9 a seguinte: &#8220;O Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, o FMI, o Banco Mundial e a OIT foram concebidos como ag\u00eancias de mudan\u00e7a, e podem ser novamente&#8221;. Ent\u00e3o, a grande tarefa \u00e9 reformar ou redirecionar essas organiza\u00e7\u00f5es para seus prop\u00f3sitos originais, uma vez que &#8220;elas se voltaram contra os princ\u00edpios em que se baseavam&#8221;. Por exemplo, na vis\u00e3o de Varoufakis, o FMI deve &#8220;reequilibrar&#8221; &#8220;desequil\u00edbrios comerciais&#8221;; o Banco Mundial deve &#8220;supervisionar um New Deal verde em colabora\u00e7\u00e3o com bancos de investimento p\u00fablico na Europa e na China&#8221;; a OIT deveria ter o poder de &#8220;sancionar&#8221; grandes empresas que impedem a sindicaliza\u00e7\u00e3o e violam os padr\u00f5es internacionais de trabalho, e n\u00e3o simplesmente publicar relat\u00f3rios [8].<br \/>\n\u00c0 luz do que Varoufakis escreveu em 2018, \u00e9 poss\u00edvel entender mais facilmente o n\u00facleo das concep\u00e7\u00f5es e propostas pol\u00edticas do que hoje \u00e9 chamado Internacional Progressista. Em resumo, ele afirma que o movimento &#8220;progressista&#8221; n\u00e3o deve aspirar a que as institui\u00e7\u00f5es internacionais &#8211; FMI, BM, OIT &#8230; &#8211; &#8220;desmoronem&#8221;; n\u00e3o, o objetivo deve ser &#8220;transform\u00e1-los&#8221; e &#8220;exigir&#8221; que esses organismos se redimam de seus pecados e, reconvertidos, selem um &#8220;Novo Acordo Verde Internacional&#8221; [9]. Consagrado esse novo &#8220;acordo&#8221; &#8211; uma variante semelhante \u00e0s propostas liberais sobre o estabelecimento de &#8220;um novo pacto social&#8221; &#8211; a justi\u00e7a clim\u00e1tica e os direitos dos trabalhadores estariam garantidos e protegidos.<br \/>\nA eloqu\u00eancia com a qual Varoufakis exp\u00f5e suas ideias torna poss\u00edvel imagin\u00e1-lo diante dos executivos do FMI ou do Banco Mundial tentando convenc\u00ea-los de que o mundo deve ser mais humano, carinhoso, democr\u00e1tico e ecologicamente sustent\u00e1vel &#8230; Isso n\u00e3o seria tentar desenhar na \u00e1gua? Convencer o escorpi\u00e3o a n\u00e3o usar seu ferr\u00e3o?<br \/>\nMas n\u00e3o podemos ser injustos. Varoufakis admite que uma transforma\u00e7\u00e3o positiva das institui\u00e7\u00f5es internacionais pressup\u00f5e uma mudan\u00e7a (total ou parcial) em sua composi\u00e7\u00e3o. Ele prop\u00f5e que sejam constitu\u00eddos n\u00e3o apenas por agentes nomeados pelos governos, mas por &#8220;cidad\u00e3os do mundo inteiro&#8221;. O ex-colega de Tsipras diz que sustentar que as institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o fora do escopo de uma &#8220;pol\u00edtica progressista&#8221; \u00e9 um ponto de vista fatalista. A partir da\u00ed, surge a tarefa principal: &#8220;os internacionalistas devem perceber o poder dessas institui\u00e7\u00f5es para transformar o mundo para melhor e reivindic\u00e1-las como suas&#8221; [10].<br \/>\nO reformismo sempre acusou os partidos revolucion\u00e1rios de n\u00e3o serem realistas ou &#8220;pragm\u00e1ticos&#8221;. Perguntamos: \u00e9 realista pensar que &#8220;o povo comum&#8221;, os &#8220;cidad\u00e3os&#8221;, poderiam assumir o controle do FMI, do Banco Mundial, da OIT, da ONU, entre outras organiza\u00e7\u00f5es imperialistas, democratizando-os e promovendo uma mudan\u00e7a de car\u00e1ter, de tal maneira que passem a proteger os direitos trabalhistas e defender o meio ambiente?<br \/>\nPor esse motivo, o debate essencial &#8211; como avan\u00e7amos &#8211; \u00e9 entre reformar ou destruir a ordem imperialista e suas institui\u00e7\u00f5es.<br \/>\nNesses termos, o programa delineado pela IP e o pensamento de seus principais dirigentes n\u00e3o deixa d\u00favidas sobre sua estrat\u00e9gia: pressionar por reformas do capitalismo imperialista e de suas institui\u00e7\u00f5es mais emblem\u00e1ticas. \u00c9 dif\u00edcil conceber uma utopia mais reacion\u00e1ria. Semear ilus\u00f5es desse tipo s\u00f3 pode levar a in\u00fameras derrotas.<br \/>\nA chamada IP \u00e9 uma nova faceta da covardia hist\u00f3rica e da prostra\u00e7\u00e3o do reformismo diante do poder da burguesia. Al\u00e9m disso, confirma um curso de degenera\u00e7\u00e3o cada vez mais evidente.<br \/>\nSe a origem do reformismo, no final do s\u00e9culo 19, expressava uma base da &#8220;aristocracia oper\u00e1ria&#8221; nos pa\u00edses centrais da Europa e falava do socialismo &#8220;em dias de festas&#8221; [11], o que podemos chamar neorreformismo (Unidas-Podemos, Syriza, Bloco de Esquerda, Frente Ampla no Chile, PSOL etc.) se apoia em setores m\u00e9dios da sociedade e abandonou a bandeira do socialismo mesmo no campo da ret\u00f3rica.<br \/>\nPor\u00e9m tanto o &#8220;velho&#8221; quanto o &#8220;novo&#8221; reformismo se ap\u00f3iam em um pilar comum: n\u00e3o pretendem derrubar o capitalismo, mas maquilar a face da fera. Fora do poder, fazem de tudo que est\u00e1 ao seu alcance para parar ou desviar as lutas da classe trabalhadora. Quando chegam ao poder, tornam-se gerentes do capitalismo, sem sequer promover reformas. Os exemplos de Syriza, Unidas-Podemos, Lula, Dilma, Evo, Zapatero, entre muitos outros, s\u00e3o uma prova esmagadora de que, na realidade, estamos enfrentando um reformismo sem reformas. Sanders, como dissemos, n\u00e3o chegou a governar, mas agora apoia o candidato oficial do Partido Democrata, que aplicar\u00e1 os mesmos planos imperialistas dentro e fora dos Estados Unidos.<br \/>\nPodemos dizer que a IP agrava os elementos mais reacion\u00e1rios dos neorreformistas: a) \u00e9 muito mais superestrutural, ou seja, n\u00e3o surge ou apoia qualquer processo de lutas progressivas (como foi o caso do Podemos com o movimento 15M, ou Syriza com a onda de insatisfa\u00e7\u00e3o do povo grego devido aos saques da Troika), embora, como nesses casos, sua inten\u00e7\u00e3o seja tamb\u00e9m parar as lutas atuais; b) Est\u00e1 formado por ex-presidentes que em sua \u00e9poca governavam para a burguesia e reprimiram o movimento de massas. Para citar um \u00fanico exemplo, deve-se lembrar que o pr\u00f3prio Lula se encarregou de enfatizar que os bancos &#8220;nunca na hist\u00f3ria do Brasil ganharam tanto dinheiro quanto quando [ele] era presidente&#8221; [12].<br \/>\n<strong>Por uma Internacional dos Trabalhadores, socialista e democraticamente centralizada<\/strong><br \/>\nSem destruir o capitalismo, que significa acabar com suas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas e, acima de tudo, com suas for\u00e7as armadas, \u00e9 imposs\u00edvel um mundo justo, igualit\u00e1rio, democr\u00e1tico, solid\u00e1rio e pr\u00f3spero, adotando as declara\u00e7\u00f5es da IP<br \/>\nO fato de o mundo ser o oposto dessa (difusa) declara\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00e3o da IP n\u00e3o se deve apenas a este ou \u00e0quele governo, ou a esse ou \u00e0queles funcion\u00e1rios que est\u00e3o no topo das organiza\u00e7\u00f5es multilaterais, mas a um modo de produ\u00e7\u00e3o baseado na explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho de bilh\u00f5es de pessoas para enriquecer um punhado de magnatas.<br \/>\nA estrat\u00e9gia da IP, apresentada como algo &#8220;novo&#8221;, consiste na &#8220;mais velha&#8221; e mais reacion\u00e1ria de todas as estrat\u00e9gias: &#8220;humanizar o capitalismo&#8221;. Isso requer retomar, \u00e0 luz da nova realidade mundial, a mesma discuss\u00e3o que atravessa a &#8220;esquerda&#8221; h\u00e1 mais de um s\u00e9culo: reforma ou revolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNesse contexto, sustentamos que essa localiza\u00e7\u00e3o program\u00e1tica neutraliza a IP como uma poss\u00edvel ferramenta de combate para milh\u00f5es de pessoas e milhares de ativistas sociais que, mesmo em meio \u00e0 pandemia, se mobilizam em todo o mundo e buscam alternativas contra males e a barb\u00e1rie que o capitalismo imp\u00f5e ao planeta.<br \/>\n\u00c9 necess\u00e1ria uma resposta internacional aos ataques do capitalismo, posto que \u00e9 um sistema mundial. Para n\u00f3s, a alternativa passa por reconstruir a Quarta Internacional sobre as bases de sua funda\u00e7\u00e3o em 1938. Naturalmente, essa tarefa requer uma atualiza\u00e7\u00e3o program\u00e1tica que incorpore as li\u00e7\u00f5es deixadas pelos grandes eventos da luta de classes nos \u00faltimos 82 anos. Mas o ponto de partida \u00e9 o mesmo: &#8220;a crise hist\u00f3rica da humanidade se reduz \u00e0 crise de sua dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria&#8221;. A solu\u00e7\u00e3o para essa crise \u00e9 reconstruir uma Internacional oper\u00e1ria, socialista, com um regime centralista democr\u00e1tico, e temperada nas lutas mais importante da classe oper\u00e1ria contra o capital.<br \/>\nNotas:<br \/>\n<a name=\"_ftn1\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/una-nueva-internacional-de-la-mano-de-sanders-y-varoufakis\/#_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0Na Am\u00e9rica Latina, a IP \u00e9 promovida pelo Grupo Puebla.<br \/>\n<a name=\"_ftn2\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/una-nueva-internacional-de-la-mano-de-sanders-y-varoufakis\/#_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0Consultar: &lt;<a href=\"https:\/\/www.jornada.com.mx\/2020\/05\/18\/politica\/008n3pol\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.jornada.com.mx\/2020\/05\/18\/politica\/008n3pol<\/a>&gt;.<br \/>\n<a name=\"_ftn3\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/una-nueva-internacional-de-la-mano-de-sanders-y-varoufakis\/#_ftnref3\">[3]<\/a>\u00a0Consultar: &lt;<a href=\"https:\/\/ladiaria.com.uy\/articulo\/2020\/5\/se-lanzo-la-internacional-progresista-frente-creado-para-enfrentar-el-avance-de-la-derecha-y-la-extrema-derecha-a-nivel-mundial\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/ladiaria.com.uy\/articulo\/2020\/5\/se-lanzo-la-internacional-progresista-frente-creado-para-enfrentar-el-avance-de-la-derecha-y-la-extrema-derecha-a-nivel-mundial\/<\/a>&gt;.<br \/>\n<a name=\"_ftn4\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/una-nueva-internacional-de-la-mano-de-sanders-y-varoufakis\/#_ftnref4\">[4]<\/a>\u00a0Consultar: &lt;<a href=\"https:\/\/progressive.international\/about\/es\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/progressive.international\/about\/es<\/a>&gt;.<br \/>\n<a name=\"_ftn5\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/una-nueva-internacional-de-la-mano-de-sanders-y-varoufakis\/#_ftnref5\">[5]<\/a>\u00a0Consultar: &lt;<a href=\"https:\/\/progressive.international\/wire\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/progressive.international\/wire<\/a>&gt;.<br \/>\n<a name=\"_ftn6\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/una-nueva-internacional-de-la-mano-de-sanders-y-varoufakis\/#_ftnref6\">[6]<\/a>\u00a0Consultar: &lt;<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/ng-interactive\/2018\/sep\/13\/bernie-sanders-international-progressive-front\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/ng-interactive\/2018\/sep\/13\/bernie-sanders-international-progressive-front<\/a>&gt;.<br \/>\n<a name=\"_ftn7\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/una-nueva-internacional-de-la-mano-de-sanders-y-varoufakis\/#_ftnref7\">[7] Consultar: &lt;<\/a><a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2018\/dec\/01\/liberal-world-order-new-international-yanis-varoufakis-david-adler\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2018\/dec\/01\/liberal-world-order-new-international-yanis-varoufakis-david-adler<\/a>&gt;.<br \/>\n<a name=\"_ftn8\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/una-nueva-internacional-de-la-mano-de-sanders-y-varoufakis\/#_ftnref8\">[8]<\/a>\u00a0Idem.<br \/>\n<a name=\"_ftn9\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/una-nueva-internacional-de-la-mano-de-sanders-y-varoufakis\/#_ftnref9\">[9]<\/a>\u00a0Idem.<br \/>\n<a name=\"_ftn10\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/una-nueva-internacional-de-la-mano-de-sanders-y-varoufakis\/#_ftnref10\">[10]<\/a>\u00a0Idem.<br \/>\n<a name=\"_ftn11\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/una-nueva-internacional-de-la-mano-de-sanders-y-varoufakis\/#_ftnref11\">[11]<\/a>\u00a0 Um &#8220;socialismo&#8221; que seria alcan\u00e7ado gradualmente, por meio de um ac\u00famulo de reformas e um aumento do peso parlamentar da antiga socialdemocracia.<br \/>\n<a name=\"_ftn12\"><\/a><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/una-nueva-internacional-de-la-mano-de-sanders-y-varoufakis\/#_ftnref12\">[12]<\/a>\u00a0Consultar: &lt;<a href=\"https:\/\/tvuol.uol.com.br\/video\/nunca-ganharam-dinheiro-como-no-meu-mandato-diz-lula-sobre-banqueiros-04020D183666C0C15326\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tvuol.uol.com.br\/video\/nunca-ganharam-dinheiro-como-no-meu-mandato-diz-lula-sobre-banqueiros-04020D183666C0C15326<\/a>&gt;.<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Nea Vieira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A recess\u00e3o econ\u00f4mica mundial &#8211; exacerbada pela crise da sa\u00fade que desencadeou a pandemia de Covid-19 &#8211; nos permite prever uma intensifica\u00e7\u00e3o da luta de classes em uma dimens\u00e3o hist\u00f3rica. Projeta um cen\u00e1rio pol\u00edtico vol\u00e1til, que no momento tem sua express\u00e3o m\u00e1xima na onda de protestos nos EUA ap\u00f3s o assassinato de George Floyd. 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